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O Limiar

Tornei-me insano, com longos intervalos de uma horrível sanidade.

- Edgar Allan Poe

Estou olhando fixamente para a casa a minha frente. Sinto gotículas de água descendo por minha pele, desvio meu olhar por um instante e... É noite e estou no jardim daquela casa sem abandonada. Não lembro de ter ido parar ali. Agora em casa tento traçar o que fiz na noite anterior, mas todas as imagens fogem da minha mente. Não sei o que está acontecendo. Mas eu preciso me lembrar. As minhas lembranças estão perdidas.

Entro no banheiro frio e branco, acendo a luz pálida. As minhas últimas peças de roupas caem no chão. O espelho a minha frente reflete marcas roxas e vermelhas que eu não lembro de pertencerem ao meu corpo. Corro até o chuveiro e começo a esfregar a minha pele. Mais água. Mais espuma. Mas as manchas não saem, elas são reais e a dor confirma isso. Um grito ecoa pela minha garganta seca e sangue escorre pela minha boca. Por um breve instante o ar fica quente, meu corpo pesa e a minha respiração fica descompassada e ofegante. Olho novamente para a figura na minha frente, não me reconheço com as marcas no corpo, mas a minha face não mente. Sou eu.

Não sei quanto tempo passou. Decido levantar da cama, eu preciso descobrir o que aconteceu comigo, preciso lembrar. Vou até à porta de casa, ao abrir sinto o vento frio da noite. A casa da frente permanece intacta, fechada, sem ninguém. Caminho até o outro lado. Estou no jardim da casa abandonada novamente. Meu coração acelera. Sinto mãos agarrarem o meu pescoço. Viro-me assustado, mas não vejo nada, não tem ninguém. Talvez nunca teve ninguém.

Acordo assustado. Eu estava sonhando. Havia um quarto escuro e fétido. Corpos se amontoavam no chão sujo de sangue seco, enquanto em uma parede, pessoas amordaçadas e presas tentavam gritava e se debatiam. Imagens da noite em que apareci em frente aquela casa se misturam com as do pesadelo. Sinto-me encurralado em minha mente. Sem conseguir lembrar e nem esquecer de nada. É como se eu não fosse dono da minha própria mente, e talvez eu não seja. Desde a noite do acontecimento, pesadelos como esse são constantes e algo na minha cabeça, eu julgo que são vozes, elas gritam e me pedem para ir até à casa. Porém eu não sei o que fazer e até ponto posso aguentar. Tenho permanecido em um estado de completa vigilância sobre a casa. Mas ela continua como sempre. Sem ninguém. Apenas eu, naquela noite, sozinho e perdido.

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Ofego. Passo a mão direita em minha testa e o suor escorre entre elas, estou suando frio. Levanto da cama, mas ainda não amanheceu. O relógio de cabeceira sinaliza o horário. Ainda está de madrugada. Volto a deitar, mas sei que não vou conseguir dormir. As vozes são incessantes em minha cabeça. "Você tem que ir até lá". Mas, eu não quero ir para lá, respondo, mesmo sabendo que não tem ninguém comigo, a não ser as vozes. "Você precisa terminar". A única coisa que quero é terminar com essas vozes, mas elas nunca acabam, estão aqui comigo agora, sempre estiveram, mas agora elas me ordenam. Eu grito, gemo de dor, contorço-me deitado na superfície almofadada da minha cama. Punhados de fios de cabelos saem junto da minha mão quando as coloco sobre a minha cabeça no intuito de fazer as vozes pararem. Mas não adianta e por último, um último suspiro antes delas falarem "Bons sonhos" e então tudo vira escuridão e apago.

Os raios solares atingem a minha face, olho para o lado e vejo a janela aberta. A minha cabeça dói e meu rosto arde. Não lembro de quando apaguei e nem por quanto tempo fiquei assim. Abro a gaveta da comoda ao lado da minha cama e tiro um vidro de remédios para dor na cabeça e náuseas. Ingiro um. Agora dois. Três e por fim quatro comprimidos, mas a dor não cessa, tento engolir outro, mas o recipiente está vazio. Pego o meu cigarro, acendo e dou uma tragada, esperando algum tipo de alívio, mas nada vem. O cheio da fumaça começa a me deixar tonto, começo a tossir e o meu coração palpita. A combinação de medicamento e cigarro não foi uma boa ideia. Ouço ao longe gritos e choros abafados, mas não sei de onde eles vêm, tento ficar em pé, mas caio assim que entro em contato com o chão encapetado do meu quarto. Os gritos continuam e agora mais alto, eles não parecem vim da minha cabeça, alguém está precisando de ajudar. Tento ir me arrastando para fora do quarto, desço a escada, os urros só aumentam e parecem vim do porão. Tento me levantar vagarosamente e consigo firmar os meus pés no chão, ando até a porta do porão. Alguém geme de dor lá em baixo e mais gritos são ouvidos, são várias pessoas. Começo a ficar assustado. O que devo fazer? Mas os gritos não me deixam pensar. Decido descer. Abro a porta, alguém lá em baixo diz algo como "silêncio" e os barulhos cessam. Respirações pesadas e entrecortadas reverberam. Desço cautelosamente os vinte e cinco degraus da escada. Vinte e quatro. Vinte e cinco. Está tudo escuro. Ouço alguém ofegando. Estico o meu braço e encontro o interruptor, as luzes se acendem. Não tem ninguém.

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Tudo está escuro. Meus olhos estão fechados, começo a abri-los lentamente. A minha visão foca na estrutura de cor cinza na minha frente, a casa abandonada. Não me recordo em como vim parar aqui novamente. Olho para ambos os lados, mas não vejo nenhuma movimentação estranha. Sinto as minhas mãos molhadas, ergo-as até a altura dos olhos. Um líquido vermelho e viscoso mancha a superfície da minha mão, sinto o cheiro e parece sangue. Meu corpo treme, estou surpreso e confuso. Um grito rasga a minha garganta. Corro até a porta da casa abandonada, tento abri-la, forço a fechadura da porta, mas não abre. A maçaneta fica suja com o sangue. Tento limpar com a minha camisa, mas a mancha não quer sair. As vozes voltam, a minha cabeça dói. Preciso sair desse lugar, mas não consigo, pois, as vozes me paralisam. Sinto como se fosse perder o controle, a minha garganta parece estar se fechando. É como se algo ruim fosse acontecer. Mas nada acontece, nada está acontecendo, tento me convencer disso. Não posso ficar aqui, se alguém me olhar neste estado vão fazer perguntas que nem eu saberia responder. A minha mente se calma, desço os degraus que dão para a porta da frente da casa abandonada e rumo de volta para casa.

Entro na sala de estar, mas antes de subir noto que a mesa da sala de jantar está feita. Dois pratos, dois copos, uma cadeira quebrada ao lado da mesa e restos de comida espalhados por todo lugar. Fico em estado de vigilância, deve ter alguém na casa. Pego o primeiro objeto que encontro na minha frente e que poderá me servir como arma, um guarda-chuva. Ando em passos largos, mas silenciosos. Vou em todos os comodos do andar inferior. Nada. Não encontro ninguém. Só resta o andar superior. Lá em cima está escuro. Subo. Vou ao quarto de hóspedes, mas está tudo como antes, só sobrou o meu quarto. Aproximo-me vagarosamente, a luz passa por debaixo da porta. Tem alguém aqui. Sem pensar, pergunto "Quem está aí?". Silêncio. "Eu sei que tem alguém aqui. Quem é você?". Questiono novamente, fico atento na porta. "Eu sou você". Coloco o guarda-chuva em frente ao meu corpo para me proteger e viro bruscamente procurando de onde saiu aquela voz, não parece vim do quarto, volto a minha atenção para a porta atrás de mim e de novo a voz soou em meus ouvidos. "Eu sou você". E então eu percebo que a voz não está fora, ela vem de mim. Afinal, de contas quem sou eu?

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Ouço um som estridente ecoando do lado da minha cama. Estico os braços até a mesinha e jogo o relógio no chão. Droga! Não lembro de ter colocado um alarme. Abro os meus olhos. A luz está ligada. Fico assustado com o que vejo nas paredes do meu quarto. Quem fez isso? "Eu sou você". São os dizeres escritos em folhas colocadas em toda a extremidade do meu quarto. Levanto e corro para o andar inferior. Está um caos. A sala de jantar está irreconhecível, os meus objetos estão espalhados nos comodos. É como se alguém tivesse entrado aqui. Tento lembrar do que aconteceu na noite passada, mas nada vem em mente. Forço o meu cérebro a pensar, mas não consigo lembrar nem de fatos que aconteceram nessa semana. Olho para todos os lados, sinto como se estivesse sendo vigiado. Caminho rapidamente para a entrada da casa, abro a porta. A noite lá fora está quente e abafada. As poucas luzes de alguns dos portes que ainda funcionam estão fracas, impossibilitando assim a minha visão. Penso se devo sair ou ficar aqui dentro. A verdade é que eu não sei por quanto tempo estive dormindo. Decido voltar, fecho a porta e subo até o meu quarto, olho as folhas rabiscadas com uma caligrafia que não se parece com a minha. A porta do banheiro entreaberta é como um convite para eu entrar. No comodo branco vejo sangue e um frasco de remédio jogado sobre a pia. As perguntas crescem na minha cabeça. E me pergunto mais uma vez. "Quem fez isso?".

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Desperto assutado. Levanto cambaleando da cama, apoio-me em algum móvel que eu não consigo identificar. A minha visão está embaçada e sinto os meus olhos arderem como se estivessem sendo perfurados. A dor na minha cabeça é excruciante. Olho com dificuldade para as paredes do meu quarto e vejo folhas com palavras que sou incapaz de entender. Não foi um sonho. Arrasto-me até o banheiro e se me lembro bem deixei pílulas aqui. Vou até a pia manchada de sangue e o vidro do remédio está vazio. Meu corpo tensiona e caio no chão gelado e molhado. "Eu sou você". A voz continua a repetir. "Eu sou você". Em posição fetal embalo o meu corpo para frente e para trás. "SILÊNCIO". Eu grito, mas elas permanecem aqui. "Você precisa ir. Nós precisamos ir". A voz fala.

Shhh! Eu conseguir fazer com que ela parasse. Se eu ficar quieto por um minuto, elas param também. A minha mente está em silêncio. Sinto o meu corpo relaxar pela primeira vez. Cantarolo a minha canção favorita. Agora está tudo bem. Eu estou bem. Fecho os meus olhos por alguns minutos, mas barulhos no andar inferior me trazem de volta apara a realidade. Os gritos que ouvi há alguns dias retornam. Desço e já sei aonde devo ir, ao porão. Abro a porta, os barulhos pararam e a luz está ligada. Desço lentamente, mas não vejo ninguém. "Não aqui". A voz retorna. Olho ao redor, mas a voz continua a falar. "Nós precisamos ir". Sinto-me sufocado, saio correndo dali. Coloco o meu pé direito no primeiro degrau da escada, mas algo me faz parar e olhar para a porta de entrada. Não consigo explicar, mas é como se eu estivesse fazendo algo que eu já estou habituado a fazer. Avanço para fora da casa, já no exterior vejo a madrugada declinando fria e escura para a manhã nascer. Ninguém me olha atravessando a rua até a casa da frente. Coloco instintivamente a mão no bolso direito da minha calça, retiro de lá uma um molho de chaves, escolho uma dourada e insiro na fechadura da porta da casa abandonada, ela abre revelando um interior vazio, a não ser por um tapete vermelho no hall de entrada, mas limpo. Entro, eu não entendo, mas sei que o interruptor da luminária fica a minha esquerda. A casa é grande e a acústica é boa. Passo por alguns comodos e paro em frente a uma porta. É a minha porta, esse pensamento invade a minha mente. Um pouco diferente das outras, essa é protegida por três grandes cadeados. Novamente retiro do bolso o molho de chaves e coloco uma chave prateada que destrava todos os cadeados. A porta pesada abre com dificuldade. "Shhh!". Alguém sussurra. Olho para trás, mas é claro que não tem ninguém aqui. Lá em baixo a escuridão consome o local e um odor fétido entra pelas minhas narinas. Apesar disso, desço os degraus e dessa vez bem rápido. Puxo uma corda acima da minha cabeça e as luzes se acendem. Sou atingido por um choque de realidade com o que vejo ao meu redor. Rostos assustados e corpos presos em correntes grossas de aço. O chão está sujo com sobras de comidas de sangue. Começo a sentir como se estivesse sendo sufocado, um calafrio percorre todo o meu corpo. O que está acontecendo? Quem fez isso? E antes do barulho ensurdecedor da porta fechando ecoar em meus ouvidos, consigo ouvir a voz na minha cabeça falar. "Eu sou você".

March 12, 2019, 9:13 p.m. 0 Report Embed 119
The End

Meet the author

Victoria C. Desvelando a minha existência como um ser em um mundo de constantes mudanças.

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