Vampiro de gelo Follow story

u15522635931552263593 Franciélen Fortes

Maligno e vazio, o despertar de Raphael Grifftis trouxe grandes problemas para a antiga Londres de 1920. Acompanhe a perda de sua humanidade e o porque dele ser mais frio do que o gelo.


Drama For over 18 only. © Original (c) Francielen Fortes

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Despertar - Prólogo

Londres, 1920.

- Ele não está pronto. – a loira circulou o escritório, os braços apoiados nos cotovelos, os olhos azuis se tornavam escuros a cada palavra do homem que estava sentado na grande mesa de carvalho. – Não vou aguentar.

Inexpressivo as lamúrias de sua esposa, Alexander Grifftis permaneceu na mesma pose, imponente em sua cadeira de couro marrom e vestimenta de corte perfeito e requintado. Os olhos azuis do homem vagaram pelo escritório, o olhar se perdeu na imensa janela que oferecia uma ampla visão do centro de Londres. As nuvens densas e escuras sinalizavam o final do outono, logo o inverno voltaria a reinar, intenso e mortal.

- Kate... – a voz soou grave e impassível, fazendo-a se arrepiar dos pés à cabeça, como se um bloco de gelo deslizasse por toda a extensão de sua coluna. – Ele não é um garoto normal, ele não é como você, meu bem. – ele apoiou as mãos sobre o tampo da mesa e permaneceu com os dedos cruzados. Quem olhasse pela janela poderia confundir Grifftis com uma estátua de mármore, a pele branca como giz ganhava vida na baixa luz que provinha da parte externa, os olhos ascendiam conforme o brilho dos postes começavam a iluminar o jardim de sua mansão.

- Quando você ficou comigo, quando engravidou, sabia que muitas coisas iriam acontecer, e uma delas é a morte de nosso filho. Um mestiço. – ele baixou a cabeça, o olhar se perdendo no belo anel de safira azul que lhe enfeitava uma das mãos, anel que fidelizava seu casamento com Kate Grifftis. Para Alexander, ela era a mulher que todo o homem deveria conhecer, não por sua beleza, mas por seu coração. Mesmo sabendo da imensa cruz que a família Grifftis carregava através dos séculos, ela não teve medo de se expor e se jogar no mundo sujo e cruel dos vampiros. De presa, ela se tornou esposa de um dos vampiros mais destemidos e respeitados do Reino Unido.

Desde os primórdios da raça humana, os vampiros já eram presentes em fabulas e contos, mas o que poucos sabiam, era que tais histórias possuíam sua verdade. Vampiros e outras criaturas eram reais, compartilhavam o mundo com humanos, mas a informação era para poucos. Presidentes, aristocratas e caçadores, apenas grandes influenciadores eram inseridos diretamente ao mundo das trevas. E aos humanos comuns que descobriam seus segredos, a única solução era a morte ou cair nas mãos dos vampiros imaculados.

Alexander Grifftis fazia parte da mais alta hierarquia entre vampiros, sendo considerado um sangue puro, vampiros milenários que deram origem a outros vampiros puros, nobres, mestiços e decaídos. E mesmo com todo o seu poder e imponência construída durante os séculos ele fraquejou, perdeu grande parte do seu respeito e admiração por ter sucumbido aos gracejos de uma humana. Raça considerada frágil e impura, manchando toda a supremacia de uma classe em extinção.

Não só Alexander, como outros vampiros imaculados haviam sucumbido a raça humana. Difícil de compreender, ainda mais vindo de criaturas tão orgulhosas quanto os vampiros, mas para quem estava vivo a milhares de anos, talvez o que restasse era buscar algum conforto para o vazio de ser imune ao tempo.

- Raphael! – Kate levou as mãos a boca para abafar a voz ao escutar o grito agudo e estridente do filho. Alexander saiu de seus devaneios e se colocou de pé, circulou a mesa e apertou firme ombro de sua esposa, deixando-a para trás. Um toque gelado que a desarmou, fazendo-a cair de joelhos no chão. As lágrimas manchavam o leve de sua maquiagem, ela agarrou com força o tapete que decorava o escritório, urrou, bateu as mãos de forma inútil, nada que fizesse poderia retirar toda a dor que carregava e agora era também de seu filho. – Raphael...- ela chorou o nome dele, as mão agarradas ao ventre, incrédula de que aquele frágil ser que fora dela por longos meses seria uma criatura odiada, desalmada perante ao mundo macabro dos vampiros e dos humanos.

Como ele reagiria ao saber quem era, o que seu pai era e que sua mãe não era nada, Kate era frágil ao tempo, as doenças, mundana que decidiu junto de seu esposo apenas viver o que era natural e comum dentro de sua espécie. Ela sabia que ficaria velha, decrepita, doente, enquanto eles seguiriam belos e fortes. Quem cuidaria de Raphael, quem amaria Alexander? Milhares de pensamentos lhe atacava, embalada pelos gritos de seu filho.

-Eu o matei, matei!! – a voz embargada de Raphael ecoava pelos corredores da mansão, Alexander caminhava elegante e num ritmo assustadoramente lento. Enquanto os pés o levava para o circo de horrores, ele tentou se lembrar de quando seus olhos caíram sobre a terra, quando despertou, mas nem mesmo sua memória era capaz disso. Apenas vivia os dias esperando...nem ele sabia o que esperar.

O corredor da mansão levou Grifftis até o alto da escada principal, era possível observar toda a extensão da sala de estar, inclusive, o chão de mármore branco tingido de vermelho. Os rastros de sangue levaram ao corpo de um menino de cabelos castanhos, os olhos injetados de pavor, pálido e mortificado por ter encontrado o reflexo do demônio.

Raphael estava ajoelhado, as mãos seguravam o pescoço do menino, como se tentasse reconstruir o que tinha feito com suas presas. Ele tremia, os olhos azuis perdiam sua coloração e dava espaço ao olhar escarlate, exatamente como de uma besta. O ar pesava em seus pulmões, fazendo-o respirar de forma rápida, sufocando a cada porção de ar. – Eu o matei, matei...

O mantra que saia de sua boca era sempre o mesmo, a língua se feria ao ir de encontro com os dentes longos e afiados, aos quais desconhecia até aquele momento. Dentro do corpo de Raphael o estômago parecia se contorcer, ácidos o destruíam de dentro pra fora e a sede parecia crescer em sua garganta. – Eu o matei, matei...

Luzes brancas lampejavam na mente do garoto, trazendo William Balther vivo e sorridente. Will estava sentado no piano, não sabia tocar o instrumento, mas ficava imitando e fazendo caretas como se fosse o próprio Raphael.

Os dois garotos sempre foram amigos, o jovem Grifftis não conseguia se lembrar como e onde havia conhecido William, mas segundo sua mãe, a amizade dos dois veio desde o maternal. Ambos faziam aulas de piano e violino, mas só Raphael se destacava arrancando gracejos de ambas as famílias, Will sempre era entorpecido por ciúmes, mas nada que sentisse poderia estragar a amizade entre eles. Já Raphael também invejava o menino, pois Balther era livre, convivia com outras crianças e ia para a escola. Ele não entendia muito bem o porquê de não ser como os outros garotos, como Will, apenas compreendia que a família era muito especial, não que nem a família real, mas era algo parecido.

Nas memórias, Raphael correu na direção do amigo, queria dar-lhe um cascudo por ficar o imitando, coisas de crianças, mas uma pulsação forte no meio do peito o parou alguns centímetros de William. O moreno estava de cabeça baixa, pescoço contraído e os dedos dedilhando as teclas do piano, a jugular saliente sobre a pele. Raphael sentiu os ouvidos doerem, como se estivesse preso dentro do próprio corpo, o som do coração e da corrente sanguínea ganhando mais e mais amplitude. Outro flash e de repente tudo ficou branco e frio, ele não entendia, pensou que estava louco, que era um castigo divino por ter sido desobediente com a mãe ou por ter feito algum desagrado ao pai. Ele era apenas uma criança no auge do seus 9 anos, não sabia o que estava acontecendo e o que estava por vir, mas a morte estava dentro dele.

Quando acordou do transe a boca estava mergulhada na carne e no sangue, as mãos apertavam o corpo sem vida William, a ânsia de vomito veio em uma golfada, deixando a jovem criança desesperada. Ele largou o corpo no chão, as mãos apertando inutilmente o buraco feito na garganta, como se tentasse colocar todo o sangue a carne para dentro.

- Raphael!

A voz do pai fez o menino erguer a face, as mãos se afastando de William e pressionando as laterais da própria cabeça em culpa, manchando os cabelos platinados de vermelho. – Eu o matei, matei...

Alexander desceu degrau por degrau, apenas o som do calçado ecoando e se misturando com o desespero Raphael. – O seu despertar chegou.

Grifftis se aproximou do garoto que estava morto e passou a mão por cima dos olhos e os fechou. O estrago que o filho fez fora grande, não apenas havia sugado o sangue, mas devorado um belo pedaço da carne. Raphael acompanhava a movimentação do pai com horror, como se tudo aquilo feito por Alexander fosse normal e predestinado. Do alto da escada, Kate estava apoiada no corrimão, as lágrimas fluíam dos olhos e a ânsia também preenchia o estômago.

- Meu filho, eu sinto pela sua perda. – o olhar gélido e sem expressão de Alexander pousou sobre Raphael, fazendo-o tremer. – Você é especial, agraciado com poder e com a vida eterna, porém tais dadivas possuem o seu preço. – o loiro se agachou na frente do filho e o fitou de cima a baixo, frágil e pequeno, a boca e o corpo ensanguentados, a palidez começava a camuflar o corado da pele. Por alguns segundos Grifftis não acreditou que aquela criatura pudesse ter vindo dele, um ser tão poderoso ter gerado alguém tão fraco.

A mão de Alexander parou na frente do rosto de Raphael, a palma da mão parecia ganhar vida, como se diamantes vertessem de sua pele. – Além de imortal, possuímos dons, somos criaturas fortes, geradas no berço da terra e está ligação nos agracia com poderes. – a mão de Alex estava congelada, como se uma grossa luva de gelo envolvesse os longos dedos. – O gelo, nossa família Grifftis é agraciada com ele. – os olhos azuis de Alexandre brilhavam ao ver o próprio poder se concentrar nas mãos. – Somos distintos, o cabelo platinado, os olhos azuis, o frio a cada toque, somos filhos do inverno, da morte.

Raphael Grifftis estava pasmo, de repente nada fazia sentido, o corpo perdia as forças conforme o frio aumentava na sala de estar, estava batendo o queixo. A mão de Alexander envolveu o pescoço do menino e o apertou com força e o ergueu do chão.

-Pa-pai...- a voz saiu comprimida, as mãos seguravam de forma inútil a luva de gelo na mão de seu pai, apenas queimando a pele dos dedos. Nada que fizesse poderia desfazer aquele aperto. Lágrimas escaparam de seus olhos e congelaram nas bochechas, os pés que se balançavam em socorro perderam os movimentos, Raphael era muito jovem, mas sabia que aquilo era morrer.

-Meu filho, para ter tudo isso você precisa ser forte, conhecer a própria morte. – Alexander semi cerrou os olhos e apertou os dedos com força até o estralo do gelo se misturar com o pescoço de Raphael. Kate desceu as escadas aos tropeços, mas desistiu e ficou inerte diante de tanto horror.

– Seja bem vindo. – Grifftis balançou a mão para lado e deixou o corpo do menino cair como um boneco de trapo no chão. Os olhos azuis fitaram o corpo falecido de seu filho uma última vez antes de girar nos calcanhares e puxar Kate pelos ombros para que se mantivesse erguida.

Com a bochecha colada no piso de mármore, Raphael deixava escapar um inaudível gemido, os olhos observavam em desfoque os pais subirem as escadas e o rosto de William tão próximo que conseguia ver as manchas do sangue deslizarem lentamente pelo buraco que fizeram com as presas. Ele não entendia, de repente o seu sonho de ir para a escola como as outras crianças ou brincar de pirata com Will havia acabado. Toda a pureza que reinava dentro dele não existia mais.

Alexandre Grifftis havia o matado, o pai havia se transformado no próprio demônio em segundos, e sua mãe, na mente dele, ela não havia feito nada para salvá-lo. Aquele frio que o desligava aos poucos do mundo se tornava tão forte que transformava o tudo em nada. Os pais que eram tudo, em nada. Will, nada.

O gelo, ele estaria para sempre ali impedindo que o coração de Raphael Grifftis pudesse bater de novo.

March 11, 2019, 1:02 a.m. 0 Report Embed 120
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