Coma Follow story

solipsismo Bruno Andreata

História curta.


Short Story Not for children under 13.
Short tale
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Não sou nada

Novamente me pego sozinho com minha amiga apatia, a quem sempre desejo estar mais sagaz do que no dia anterior. Maldita apatia insiste em não entender meus problemas, não concordar com nada do que digo e gesticulo eloquentemente. Maldita apatia que me pergunta porque repito os mesmos erros, justo eu, ó ser sciente (sim com o s, porque não com o s?) que não deveria dar um passo em falso, não deveria ter os cadarços desamarrados nem se sujar com molhos baratos. Porque gosto das pessoas, ela diz. Porque me envolvo, ela diz. Eu digo: porque sim. Porque é o que me resta, os farelos salgados demais no final do pacote, que mesmo nos arrependendo de comer, repetimos por todo o vai-e-vêm da caixa torácica a que chamamos de existência. Sem a tristeza somos só eu e você, apatia. 


Há muito não reencontro velhos conhecidos, a ambição, o objetivo e principalmente, a realização, que deu as caras vezes demenos para sequer saber a cor do seu suéter. Andamos num parque repetindo o mesmo brinquedo, eu e apatia. Qualquer coisa que me faça acordar da realidade é muitíssimo bem vinda, obrigado. Qualquer sensação. A esperança é doce e suculenta, mas dura pouco, como uma bala de chocolate ou uma injeção de heroína. Dela eu tenho experimentado mais vezes do que gostaria, porém sem nunca me arrepender, se é que essa frase pode ser escrita no mundo burocrático em que pisamos (ao escrever frase, quase escrevi farsa, ria apatia, ria).


Não se escolhe a droga que se vicia, pelo menos diziam que não no último memorando que recebi. E viciei em sentir, sentir qualquer coisa, dor, vento, sorrisos, (aqui hesito alguns segundos antes se escrever) alegria. Peço pra que me ajudem a esconder o corpo mutilado da apatia. Mas ninguém ouve, e logo ela se recupera, levanta após três dias com lençóis mais limpos e um sarcasmo recorrente. Vadia.


E assim vamos seguindo de mãos dadas, na contínua conversa onde explico porque fiz e refiz e voltarei a fazer o que fiz a minha amiga apatia. Os motivos de me envolver em caças ao tesouro infundadas, de me iludir com súcubus achando que um dia elas vão se tornar donas de casa e poderemos comprar um sítio no interior. Minha inocência chega a transbordar pelos ouvidos, suja a coitada, vazia.

Feb. 17, 2019, 2:41 a.m. 3 Report Embed 0
The End

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Neeca Ashcar Neeca Ashcar
Olá, tudo bem? 😊 Gente que história, que delícia, que escrita! Consigo sentir cada nuance do desespero do narrador, pedindo implorando entrando num estado do topógrafo, e meu Deus, que maravilha. Sua escrita flui a todo momento. Maravilhoso! A única coisa que eu tenho para falar sobre o texto é referente a sinopse, eu fui no susto ler, mas não costumo ler texto sem sinopse, o Inkspired Brasil tem um blog muito bom que talvez possa te interessar, chama tecendo histórias. E me ajudou muito com elas. De resto você está de parabéns seu conto é forte, real e maravilhoso! Antes de finalizar gostaria de te convidar para a comunidade contos e Micro-contos aqui no ink, as comunidades elas são uma ferramenta a mais de divulgação dentro do site e onde você pode interagir com outros autores. Se já faz parte convido-o a utilizar. 😊 Beijinhos 😘
March 8, 2019, 10 p.m.
Nathy Maki Nathy Maki
Fiquei muito impactada. Nossa senhora dos corações fracos, que escrita maravilhosa! As palavras fluem tão envolventes e tocam com tanta precisão nos sentimentos que você sente lá no fundo tudo o que está sendo contado. Parabéns pelo conto fantástico! <3
Feb. 28, 2019, 6:30 a.m.
Beatriz Feitosa Beatriz Feitosa
Muito bom o seu texto! Me fez refletir bastante e sua escrita é muito boa. Amei!
Feb. 23, 2019, 4:29 p.m.
~