Criaturas Celestes Follow story

valentim-huet1548797034 Valentim Huet

Quando um grupo de amigos viaja para a pacata cidade de Marco Ville em uma relaxante e maravilhosa viagem de campo, prevista para durar o verão inteiro, nada os impede. São jovens, sem nada a perder e uma longa viagem para aproveitar e percorrer. Mas em uma reviravolta gigantesca em suas vidas, uma das garotas é encontrada morta e eles se veêm presos em um inferno impensável. Cercados por medos, pistas e mistérios sobre uma trama horrenda orquestrada por um assassino impiedoso e cruel, com um segredo mortal e que está disposto a ir muito longe para mantê-lo. E agora devem lutar para que no meio de todo esse mar de conspirações, com ondas de mistérios e uma forte correnteza de reviravoltas criadas pelo próprio diabo, em um delicioso banquete de sangue que está prestes a cobrí-los por inteiro. Estão a mercê de todo o mal que por eles mesmo foi criado, prestes a serem afundados por escuridão ou seus próprios segredos, antes que ambos terminem os matando.


Horror Teen horror All public.
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Capítulo Um: O Quarto Proibido.

1

A menos que você seja um alienígena, um homem da caverna ou aquela pessoa que te observa na janela da sua casa enquanto você dorme, deve saber que todos os livros tem um começo. Um primeiro capítulo e um lugar para começar a fascinante história que o autor quebrou a cabeça levando anos para planejar e chegar à versão que você lê agora.

Jamais pensei que um dia escreveria o trágico conto de Allana Woolen, Lance Valentine, Luna Dolohov, Anne Onlyn e Jackson Vicenza da forma que conto nos dias atuais. Você está prestes à presenciar uma morte brutal, uma série de assassinatos e uma garota que confundia sua melhor amiga com seu irmão gêmeo. Eu devo dizer que se você está lendo isso, significa que eu estou morta. Esta obra póstuma conta toda a verdade sobre todo o que sei, significa que fui traída ou que traí os meus ávidos seguidores. E acredite, se está lendo isso, não me arrependo.

Luna Dolohov estava sentada no banco da frente na BMW preta e maravilhosa de seu melhor amigo, Jackson Vicenza. Um garoto de quase dois metros aparentemente saído de um comercial de perfumes francês. Ele tinha o maxilar perfeitamente definido em harmonia à sua pele pálida e os olhos excumungalmente castanhos — aliás, pesquisem essa palavra porque tenho a leve impressão de que ela não existe —, assim como seus cabelos escorridos e louros. Nada diferente de sua amiga, uma garota extremamente bonita, de olhos claros e cabelos vermelho sangue que iam até seu queixo.

Conforme foram parando o carro, Allana Woolen ofegava porque não aguentava mais esta viagem completamente desgastante para essa cidade infernal que ela se arrependia cada vez mais de ter aceitado ir. Não estava entendendo o motivo da parada.

— Não estou entendendo o motivo da parada — disse Allana, sem entender o motivo da parada.

Mas então, entendeu. Viu ela. Anne Onlyn, o diabo em forma de gente. Sentada em um pequeno ponto de ônibus com um par de óculos negros e redondos que quase cobriam suas sobrancelhas. Ajeitando seu chapéu cinza, pegando sua mala e andando em direção ao carro como uma suprema acabando de sair do coven.

— Aha — disse Anne, sorrindo.

Allana revirou os olhos.

— Vai ser um verão e tanto, fellow amigos — e deu uma rodadinha, erguendo as pontas do seu vestido, fazendo-as rodopiarem.

Lance Valentine sorriu e disse:

— Vamos, Madison Montgomery — e abaixou para que ela pudesse vê-lo. Mostrando seu sorriso sarcástico e os dentes perfeitos, pele pálida e cabelos negros. Como um Volturi recém-saído da Itália. — estamos atrasados.

Ela deu um gritinho pois não sabia que seu melhor amigo entre seus melhores amigos também estava vindo viajar. Luna aumentou o volume do rádio conforme Devil's Playground, da banda The Rigs, começava a ser tocada.

— Come... — gritou Valerie Mitchell, acordando das trevas e cantando sua música favorita. — ...if you're curious to see!

Se as pessoas olhassem por fora, jamais imaginariam que ela era a própria rainha da escuridão conforme abrissem suas playlists no Spotify. Ela tinha cabelos curtos e naturalmente castanhos, olhos castanhos e uma tatuagem de trilha com pequenas estrelinhas do lado direito das suas costas. Sorriu para Allana cantar com ela, desde que era uma das suas músicas favoritas também, mas não tinha ânimo pra isso. Então continuou sozinha.

— Eu te ajudo! — respondeu Lance, conforme pegava as malas da amiga e ia colocando no banco de trás junto com as outras. Todos se espremeram um pouquinho e Anne entrou, deixando o carro com um doce aroma de flores.

— Você mora tão pertinho da cidade, Anne, por que não chamou um Uber? — perguntou Jackson, tentando não parecer rude.

— Cala a boca e dirige — disse Luna, revirando os olhos e olhando com aquela expressão vazia e nervosa de sempre para os milhões de pinheiros que agora estavam do lado de fora.

— Isso é feminismo — disse Anne, sorrindo.

Lance gargalhou e Allana dormiu.

Receio em dizer que esse pedaço do capítulo termina aqui, e precisaria de uma pausa dramática. Mas no caso não a tenho. Então fica por isso mesmo.


2

[12:01]

Conforme Luna e Jackson desciam do carro conseguiam sentir o cheiro das suas infâncias percorrendo seus pulmões e saindo de seus narizes em forma de nostalgia.

— Melhor do que eu esperava — disse Allana, olhando para as imensas lojas e pessoas com roupas caras que saiam delas, ou as imensas pessoas caras e as lojas que elas entravam. Depende de como você vê as coisas. — É uma cidadezinha bem bonita.

Valerie concordava.

— E bem cara também — disse Valerie, prendendo seu cabelo de forma que sua franja loura ficava dividida entre sua testa de forma mais explicita. — ouvi dizer que um fim de semana na mansão DeLaware fica em torno de 10.000 Lorins. Ouvi dizer que vão gravar uma temporada de American Horror Story lá.

— Essa não é a casa da Melissa Sabath? — perguntou Allana, descendo com sua mala que acabara de tirar do banco de trás. Olhou para o fim da rua e viu uma imensidão sem fim de pinheiros, com uma pequenina chaminé no meio da floresta, soltando uma fumaça que Allana se deliciou só de pensar. — Aquela garota desaparecida.

— Tantas teorias da conspiração sobre isso — disse Valerie.

— Bom, aquela é a minha casa — disse Jackson, apontando para a mesma casa que Allana olhara segundos atrás. — Onde vamos ficar durante esses dois meses. Temos um quarto pra cada um.

A rua era grande, pararam o mais próximo que podiam da casa de Jackson, em um estacionamento à luz do sol um quarteirão atrás. Podiam ver o caminho de pedras que adentrava a floresta, com uma pequena escadinha que descia adoravelmente. Luna poderia jurar que viu um coelho passando velozmente e desajeitando as pequenas flores que circulavam o caminhozinho que passariam em questão de minutos.

E realmente era um lugar adorável, ao menos até saberem a história que o rodeava.


3

[12:05]

Todas as mansões e castelos da cidade de Marco Ville não eram tão bonitas e admiráveis como a mansão que surgia à frente do seleto grupo que parecia mais uma porção de pequenas formigas ao mini-castelo ali presente. Allana gostava da sensação de lugar demoníaco que aquela mansão tinha, amava.

— Essa é nossa casa — disse Jackson, e depois se virou para o outro lado, onde uma quase inexistente colininha derrapava em um majestoso mini-lago em forma de um par de asas, de água cristalina com uma pequenina cachoeira formada por pedras que desaguava nele.

Luna estava maravilhada.

Jamais pensou que uma cidade no fim do mundo do país de Lorry poderia ser bonita dessa maneira. Tantas coisas, tanto valor cultural. A mansão Vicenza, por exemplo, um mini-castelo de sete quartos, três banheiros, duas cozinhas e uma sala de estar do tamanho de duas casas minhas formavam um dos lugares mais antigos do país. A família Vicenza era rica desse jeito porque haviam literalmente sido a primeira família a construir uma casa ali, para falar a verdade, eles literalmente são os fundadores de Marco Ville. Foram começando por uma casa, depois aumentaram um pouquinho aquele terreno, formaram outros que nem mesmo foram construídos e cobraram por todos que quiseram morar neles. E assim, a gigante fortuna fora formada, e estão podres de ricos até o dia de hoje.

Valerie olhou para a gigante mansão, uma casa exorbitantemente grande com uma escadinha que dava em uma mini-varanda com uma mini-vista para um mini-lago em uma mini-cidade no interior do estado de Lorry, chamada Marco Ville, ótima cidade.

— Vou mostrar a casa para vocês — disse Jackson, pegando seu chaveiro como um fantoche de circo, e colocando na fechadura de sua gigante porta de madeira, com pequenos desenhos em formatos diversos que deixaram Anne fascinada.

— Amo essas coisas de gente rica — comentou, sorrindo para Allana, que retribuiu com um fraquinho.

E quando entraram, sentiram que estavam em um novo mundo. Vendo uma imensa escada sendo formada Às suas frentes, com uma gigante janela que era perfeitamente sincronizada com a altura dos pinheiros que cresciam às suas frentes, estando mais faltas que todos eles. A escada crescia para os dois lado, e circulavam a parede redonda até o andar de cima. À frente da escada, uma gigante sala de estar que começava por um tapete bege que seguia até ela, formada por um tapete e um dois sofás branco que Luna só podia pensar no trabalho que daria pra limpar.

Na parede, uma televisão. Da maior que Lance já vira na vida. Parada e desligada enquanto um gato preto de olhos incrivelmente verdes assistia sua tela preta.

— Ali fica a cozinha — adicionou Jackson, apontando para um porta parecida com a da entrada, porém fechada. — E o porão é ali do outro lado, mas não acho que vão precisar dele.

— Não andem pela casa de madrugada — disse uma mulher morena, de cabelos negros e olhar severo sobre cada um deles. — É uma regra que não deve ser quebrada.

Jackson sorriu, e a Sra. Vicenza desceu alegremente, tomando seu filho em um gentil abraço que ela esperava havia um tempo para dar, porque ele havia passando um tempo no Acampamento da escola, junto com Luna e todos os outros. Menos Lance, por causa da sua suposta dor de dente.

— Meu nome é Konnstantina Vicenza — e foi de Valerie até Luna. Ponta-a-ponta, apertando suas mãos de forma alegre. — Vamos para o andar de cima, vou lhes mostrar seus quartos.


4

[12:12]

Foram poucos minutos depois, quando subiram todos e escolheram seus devidos quartos. Sra. Vicenza disse que poderiam ficar com qualquer um, eles foram todos correndo e escolhendo onde iam dormir. Anne acabou ficando com o maior quarto de hóspedes da casa, com um banheiro próprio, inclusive.

O corredor era gigantesco, com portas de carvalho que valiam mais que a casa toda Lance. Allana ficou com um bem espaçoso, mas sem banheiro. Assim como todos os banheiros, para falar a verdade, só o quarto de Anne, Jackson e Konnstantina tinha banheiro. Ela colocou suas malas em cima da sua cama gigantesca, a maior e última que dormiria em toda sua vida.

O quarto era bem arejado, com um guarda-roupas vazio e uma televisão grande. Havia um tapete parecido com o da sala, e uma janela gigante com uma vista perfeita para o caminho de pedras que haviam usado para vir, e parte da cidade de Marco Ville.

— Casa... — disse Luna, respirando fundo e reparando algum muito peculiar no teto de seu quarto. Um objeto retangular, que ela pôde jurar que viu piscando. Era aquilo uma...

Mas parou com as teorias da conspiração e começou a aproveitar o restante de verão que ainda restava. Saiu no corredor e viu Allana descendo as escadas, seus cabelos negros presos em uma trança jogada na frente dos seus ombros pequenos e seguindo até sua cintura fina. Luna olhou para o lado e viu uma porta que não havia sido tocada, porque não fazia barulho

Ela abriu-a, entrando em um quarto extremamente parecido com o seu, porém vezes maior. Era como uma enfermaria, existia uma máquina de eletrocardiograma fazendo pequenos beeps suaves. Mas o que assustou Luna foi ela, aquela garota.

Era como uma aberração saída de um filme de terror, uma pessoa coberta de um lençol fino. Aparentemente da mesma idade que ela, metade do rosto coberto por faixas calmamente sujas por líquido que talvez fosse sangue. Com apenas um olho livre, mas visívilmente cego — pela cor de azul exorbitantemente claro.

Ela ia dizer algo, mas pulou quando uma mão fria tocou seus ombros nús, arrancando-a para fora do quarto como um cachorro que havia entrado no lugar errado. Era Sra. Vicenza, o rosto vermelho e queimando como um leão bravo.

— Não entre — disse ela, cuspindo as palavras na sua cara. — no quarto da Rowena.

— Eu, hum. — Ela estava extremanente nervosa. — Eu, hum, hum, só estava procurando, é, o banheiro. Eu sinto muito, eu...

Jackson surgiu pelas escadas no fim do corredor, como um salvador da pátria para Luna, que estava prestes a entrar em colapso.

— Mãe! — disse Jackson, com voz grave severa. — Solte ela. Não avisamos sobre a Rowena.

Luna respirou fundo e soltou a mão de Konnstantina do seu ombro, olhando assustada para Jackson, depois para a mãe dele, e depois para o garoto novamente. Não sabia o que fazer, então saiu andando, tropeçando e correndo para a escada que agora parecia os portões de saída para o inferno que acabara de se formar na vida de todos eles que aceitaram fazer essa viagem.


5

[12:20]

A primeira coisa que Allana Woolen fez quando chegou ao Mary Boulevard foi a gigantesca balaustrada de pedra, com milhões de desenhos enigmáticos talhados à ela. Seus sulcos preenchidos por algum tipo de líquido, agora seco, formando uma imagem ainda maior dos desenhos pelo reflexo tremendo que o sol fazia. Portanto, desenhado todo o asfalto em volta do prédio circular mais famoso da cidade.

— Isso é lindo! — disse ela, andando com Lance e Valerie para dentro das gigantes portas de vidro, que pareciam a verdadeira entrada do céu. — Como alguém pensa nessas coisas?

E deu uma última olhada no exterior, um prédio circular de dois andares, paredes de vidro e um cheiro delicioso de pão assado.

— E histórico — disse Lance. — dizem que foi um dos primeiros prédios feitos depois da mansão Vicenza. Ao menos foi a primeira padaria da cidade.

Aquele lugar era lindo e Allana pensou que jamais teria dinheiro para pagar algo tão caro. As casas chegam facilmente à um milhão. Dinheiro que ela não conseguiria juntar em toda sua vida com o futuro salário de cantora. Era o seu sonho, mas pensava em não dar muita tréla desde que a indústria da música era cruel com cantores novos, e três vezes mais com cantores indie.

Seus cabelos negros continuavam presos em uma bela trança jogada por cima de seus ombros. Um vestido branco e básico, sem qualquer tipo de destaque. Olhou para o interior e ficou ainda mais maravilhada, diversas mesinhas redondas espalhadas, e pessoas. Muitas pessoas. De bebês à fãs da Lady Gaga. Quatro pilares no meio do salão, uma mesinhas e um caixa. Era tudo tão lindo, Allana conseguia se imaginar escrevendo por horas sentada em alguma dessas mesinhas. Mas por que alguém ouviria suas músicas? Eram tão monótonas e profundas. As pessoas dos dias de hoje não gostavam disso, e ela infelizmente tinha ciência disso.

— E aquela garota desaparecida? — E viu uma garota engasgar com um pedaço de quindim enquanto outra olhava para o lado. Podia jurar que ela tinha ouvido a conversa.

Os olhos de Allana ficavam ainda mais azuis conforme os três iam para uma das mesinhas redondas, localizada ao norte do salão, centralizada perfeitamente em um canto com janela. No vidro, uma cruz foi grudada para que a sombra ficasse exatamente no centro da mesa. Ela havia amado o que esse arquiteto havia feito, era espetacular e nunca havia visto algo igual. Sentia agora o pequeno bafo frio que aquecia o seu corpo de forma sutil. Olhou pela janela e viu as pessoas vivendo suas vidas normalmente, crianças correndo pela calçada, uma mulher apressada para o trabalho e uma senhora passeando com um cachorro — embora Allana tivesse certeza absoluta que era o cachorro que estava passeando com ela.

— Melissa? — disse Lance, com aquele sorriso misterioso forçado que ele sempre fazia quando uma assunto desse tipo era posto em pauta. — É o assunto da cidade no momento.

— O que aconteceu com ela? — perguntou Valerie, genuinamente curiosa. — Estou confusa.

Lance não acreditava.

— Você não sabe o que aconteceu com a Melissa Sabath? — disse o garoto, incrédulo, jogando sua franja negra para fora de seus olhos. — É o assunto do momento no país de Lorry, o Twitter inteiro pirou sobre isso.

Explicado. Valerie não tinha Twitter e nem a maioria dessas redes sociais atuais. Era algo perigoso para uma pessoa como ela, se entende o que eu quero dizer. Caso não, leia os volumes seguintes.

— Ela era... — e engasgou, vendo uma mulher segurando uma bandeja com dois pedaços de bolo e um suco de laranja. Lance podia jurar que ela estava andando lentamente para ouvir a conversa. — Hum, ela morava aqui perto. Acharam os pais assassinados e ela não foi vista desde então.

Valerie ajeitou sua franja e sorriu para a garçonete que vinha saltitante para a mesa dos três, Usando o iconico uniforme rosa que todas as funcionárias do Mary Boulevard eram obrigadas a usar.

— Sejam bem vindos ao Mary Boulevard! — cantarolou a mulher, que parecia ter em torno de uns quarenta anos e o cabelo idêntico ao de Luna. — Onde todas as garçonetes são obrigadas a usar rosa todos os dias, não só nas quartas.

Algo raro aconteceu e Allana sorriu. Lance a encarou por alguns segundos e notou em como ela era bonita. Se não fosse por essa gigantesca barreira de timidez que separava ela de todas as pessoas do mundo.

— Eu quero um donnut de chocolate com granulado, e uma coca cola zero. — respondeu a garota, claramente incomodada com os olhares de Lance.

— O mesmo — disseram os dois em uníssono. Para falar a verdade, a única razão de terem ido até ali, era porque poderiam conversar sobre os assuntos de Melissa sem o risco de ter alguém ouvindo. Bom, ao menos alguém que você vai encontrar durantes todos os dias da viagem. Como a mãe de Jackson, conhecida como o mais novo pesadelo de Luna Dolohov.

Antes de sair, a garçonete deu uma olhada nada generosa para todos eles e disse:

— Tenham cuidado com as pessoas daqui — Valerie ia rir, mas desistiu ao ver a expressão seria fincada no rosto da garçonete. — Em dias como os nossos, nunca sabemos em quem confiar.

E olhou para Valerie, e depois para Allana, ignorando completamente a existência de Lance.

Assim que ela virou as costas, Lance e Valerie começaram a rir.

— O que foi isso? — disse o garoto, engasgando em um sorriso maldoso que se formava em seu rosto.

E Valerie deu uma gargalhada ainda mais alta, com Lance abafando-a para não ser ouvida pela garçonete.

E continuaram rindo por alguns minutos. Mas Allana olhou para os dois, depois para a garçonete isolada no balcão enquanto anotava algum pedido. Depois pensou em Melissa Sabath. E com o passar do tempo, esqueceram da conversa, mas Allana ficou pensativa.


6

[12:20]  

Querido leitor, se você estivesse assistindo um filme de terror, e a história macabra fosse a saga de Luna Dolohov e seus amigos. Tenho certeza absoluta que você teria pego sua mala assim que viu Rowena enfaixada no quarto, ou quando a garçonete disse aquelas coisas para os três, apenas algumas linhas atrás. Seria o racional a se fazer, claro, se você soubesse que está em um filme de terror. Eu, por exemplo, vivo pensando que estou em um musical da Broadway e me pego cantando enquanto como meu lanche, até que alguém chama a polícia e eu corro.

Nesse momento, uma personagem chave dessa história estava sentada no cais do Lago Arcanjo, sentindo a madeira quente tocando suas costas e pensando no quão bom seria morar em um lugar daqueles. Apenas de bikini, olhava para o céu com seus gigantes óculos negros protegendo seus olhos castanhos dos raios solares. Na varanda, sentava-se Konnstantina, observando o corpo esculpido de Anne e pensando nos seus dias de juventude, em como havia sido bonita desse jeito. E agora virou isso: a possível vilã velha de uma fanfic interativa.

Anne sentou-se, sentindo os pés descalços tocando as águas gélidas e profundas do Lago Arcanjo, o sol reluzindo sob sua pele bronzeada. Ela podia sentir os raios penetrando sua pele, e lhe dando cada vez mais energia. Respirou fundo e fechou os olhos e olhou para si própria, respirando juventude.

— Senhora? — disse uma voz ultrapassada surgindo à frente de Anne, uma senhora de oitenta e dois anos, cabelos vermelho sangue e a expressão de quem não aguentava servir essa família ingrata por um emprego miserável e mal pago. — Me pergunto se precisa de algo?

— Que aleatório — disse Anne, sorrindo maliciosamente para a mãe de Jackson, que parecia um fantasma com a alma presa eternamente naquela mansão gigantesca. — Se você quiser sentar pra conversar...

Ela sorriu, ambas ignorando o fato de que não se conheciam.

— Ah, eu não devo... — e deu uma olhada para trás, cruzando os dedos sutilmente enquanto Konnstantina cruzava os braços e voltava para o interior de sua casa, sem qualquer expressão no rosto.

Anne segurou suas mãos e deu uma puxadinha de leve para que ela se sentasse. A empregada cedeu, sentindo a madeira fria transmitir calor para o seu uniforme negro conforme se sentava em carvalho ardente.

— Meu nome é Anne — se apresentou, os olhos azuis brilhando de malícia. — E o seu?

— Strelka! — respondeu, dando um sorrisinho para a garota, conforme colocava seus pés ainda vestidos na água fria.

Anne concordou com a cabeça.

— Você trabalha aqui faz tempo? — perguntou Anne, sinceramente interessada. — Porque não lembro de ter visto a senhora quando chegamos um tempinho atrás.

Ela sorriu mais uma vez, olhando agora para as águas calmas do pequenino Lago Arcanjo.

— Mais tempo do que posso contar — mas agora ela não sorria, apenas encarava a imensidão deserta das águas.

Ela olhou para o sol, e depois para a aparentemente doce empregada sentada ao seu lado.

— É um dia tão lindo, por que a senhora está trabalhando como serviçal e não aposentada?

Nessa exato momento, Anne Onlyn se sentia como a Isabelle de ''A invenção de Hugo Cabret''. Louca por livros e agora prestes a vivenciar um mistério real que percorria na mansão Vicenza. Mais especificamente, no quarto misterioso no fim do corredor do segundo andar. Rowena Vicenza. A garota queimada, presa à um leito sem qualquer possibilidade de locomoção, fala atrasada e passado desconhecido. Luna havia contado tudo para ela, ambas completamente abaladas e sedentas para resolver esse caso. Para falar a verdade, Anne estava gostando disso. Gostando muito disso. O que mais poderia pedir para as férias de fim de ano do que um mistério na mansão que você vai passar seus dias? Elas então se dividiram, Anne tentava descobrir algo sobre Rowena. Da fonte, como Strelka ou até mesmo Konnstantina. Enquanto Luna tentava tirar à sorte com Lance.

Anne havia ficado com ela, especificamente porque sempre havia sido uma bela mentirosa. Oh, meu Deus, e como. Lembro-me de uma vez em que estava com Anne em uma fila quilométrica, e ela conseguiu fazer as pessoas acreditarem que havia um meteoro vindo dizimar a terra. Isso usando apenas um aplicativo de celular, enquanto Allana e Lance corriam desesperados na rua. A teoria de Anne sempre funcionava. Uma mentira só é bem contada quando se tem diversas formas para confirmá-la. Por exemplo, se ela tivesse apenas gritado e usado um aplicativo no seu celular para simular um alarme, pensariam que era apenas uma louca querendo furar fila. Mas quando viram as pessoas gritando na rua, acreditaram imediatamente.

— O que te faz pensar que eu deveria estar aposentada? — e o sorriso dela sumiu. — O que está insinuando?

O rosto de Anne corou, e não era de vergonha. Ela queria revirar os olhos, mas o máximo que pôde dizer foi:

— Porque se eu tocar na sua pele, ela vira areia. — Queria ter dito, mas apenas respondeu: — Me desculpe, não quis insinuar nada. Só estava puxando assunto.

Strelka deu uma fungada e voltou os olhos para as águas do Lago Arcanjo, e depois olhou para Anne. Ela queria contar. Queria sair contando a verdade para todo mundo. Pobre garota. Nova demais para tanto sofrimento.

— Bom, eu amo o meu trabalho — cuspiu as palavras que nem mesmo ela acreditava. — Hum, eu tenho bons patrões.

— Gostar do que faz é essencial — respondeu Anne, com um sorrisinho malicioso. Medindo Strelka de cima à baixo.

— É um ótimo lugar para se morar, eu jamais trocaria isso tudo por algo. Estações bem definidas, clima agradável e esses pinheiros...

Ela deu um sorrisinho, olhando para as árvores que a rodeavam.

— Eu amo esses pinheiros com toda a minha vida. Lembro quando meu pai plantou aquela árvore ali...

E apontou para o lado oposto do pequenino Lago Arcanjo. Uma árvore peculiarmente menor que as menores, mas linda como todas as outras.

— Você morava aqui?

— Se eu morava aqui?

Strelka deu um sorrisinho conforme seus olhos brilhavam em nostalgia. Um passado morto que jamais voltaria.

— Histórias de um tempo morto.

Uma pulga foi plantada atrás da orelha da garota.

— O que você acha do Jackson?

— Oh, ele é um garoto exemplar. Divino. Têm se mostrado muito presente e dado o suporte necessário para sua família desde o acidente.

— Acidente?

— O acidente, ora bolas.

— Você está falando daquela garota no quarto de cima?

— Rowena, sim — e deu uma respirada enquanto olhava fixamente para os olhos de Anne. — ela é irmã de Lorenzo, foi uma lástima.

Se sentia intrigada, sedenta por informações. Como um fã louco de um livro no Wattpad que relê o mesmo capítulo prestando atenção na reação dos personagens para procurar pistas sobre a identidade do assassino.

— O que aconteceu com ela? — e recebeu uma olhada severa de Strelka. — É, hum, se me permite perguntar.

Falar o certo. Não demais. Era o seu lema atual. Um passo em falso e o plano todo entraria em risco. Eles tiveram trabalho demais plenajando tudo para acabar de uma forma tão superficial e tola. E se fosse por sua culpa, ela sabia que a sentença seria a forca.

— Foi, hum, um acidente terrível! — respondeu, demonstrando uma confiança maior do que realmente sentia. — A família Vicenza saiu para jantar e Rowena perferiu ficar em casa porque não estava se sentindo muito bem...

Anne não queria olhar em seus olhos, se sentia envergonhada demais por perguntar esse tipo de coisa.

— E então ninguém sabe o que realmente aconteceu — disse, sincera, com a voz melancolica e os olhos pesadíssimos sobre a luz solar. — Eu fui até a Casa das Tralhas, é um quartinho separado da casa que fica ali em baixo. Onde eles guardam tudo que não tem onde guardar. Uma sala-precisa, sabe?

— E então... — disse Anne.

— A casa começou a pegar fogo assim que saí — prosseguiu, vendo Anne engolir em seco sutilmente. — Oh, meu Deus, foi tão horrível.

Ela estava chorando e Anne não tinha ideia de como reagir. Enquanto as palavras seguintes eram ditas, Strelka soluçava e colocava a mão acima da boca. Ela se sentia vazia, querendo correr e ao mesmo tempo ficar parada.

— A polícia suspeita de duas hipóteses: Crime ou tentativa de suicídio.

Anne tentou ao máximo, mas ao ver Strelka nessa situação, começou a chorar também e pensou no sofrimento que Rowena deveria ter passado. Ela não costumava sentir pena das pessoas, mas isso era demais. Não tinha como.

Ela então se levantou, deixando suas botas enxarcadas molharem a madeira quente.

— Eu tenho algumas coisas para fazer — respondeu, ainda soluçando muito. Tirou um lenço de seu bolso e o colocou sobre o seu rosto, ainda muito abalada.

Ela assentiu para Anne, que retribuiu com um olhar triste. O lenço de Strelka cobria sua boca, mas ela não estava chorando. Estava rindo.


7

[12:20]  

Valerie jamais pensou que quebraria sua dieta, muito menos com um donnut em uma cidade rica no interior do País de Lorry, em uma viagem de campo com seus amigos. Pra ser sincero, formulando a frase desse jeito fica bem mais previsível.

— Eu arrumei um emprego com meu pai, na faculdade — disse Lance sorridente, os olhos reluzindo no sol ardente. — Estou bem animado.

— Que legal, Lan — respondeu Allana.

Valerie queria enfiar a cara no donnut e sair correndo quando esse assunto vinha à tona.

— Nem me fale sobre emprego... — disse, quebrando o clima. — O meu está um caos!

Lance perguntou o motivo.

Allana ficou pensativa.

— Sério, vocês não tem noção.

Valerie olhou para a rua e pensou por alguns segundos, até que Lance quebrou o silêncio dizendo:

— Mas o que aconteceu?

Allana tentava evitar o máximo de contato social possível. Aquele não era seu dia, não era o seu ano. E, cansada, olhou os olhos pesados em direção ao gigante donnut de chocolate que se formava à sua frente, não por fome, mas por vontade de se sentir igual aos outros pelo menos uma vez.

Valerie respirou fundo, não sabia por que havia tocado nesse assunto de trabalho novamente. Se queria contar tudo, por que não dizia logo? Por que não falava sobre como [caro leitor, sinto em dizer que derrubei uma xicará de café em cima dessa parte, sinto muito. Ass: Editor] havia estragado todos os seus planos e posto tudo à perder.

Ora bolas, era tão simples. Tão simples se algo ruim acontecesse com ela, não? Todos os problemas resolvidos. Agora e para sempre. Talvez um corte, veneno. Cianeto. Cianeto.

— Bom, parece que a firma foi vendida para uma sócia desconhecida — disse, com um tom sombrio em sua voz. Algo sutilmente diferenciado. — ninguém sabe direito quem é. Boatos dizem que é uma milionária ruiva, ou algo do tipo.

— Forças, guerreira — disse Lance, sério. Mas Allana não conseguiu conter o risinho irônico.

Allana faz um showzinho tossindo fraca e forçadamente, pensando na hora certa de abrir a boca.

— E o que, hum, você sabe sobre ela?

— Só que ela é louca do tipo que mata se não cumprir as ordens.

Lance gargalhou e quase cuspiu o donnut na cara de Valerie.

— O que é isso, menina? — disse, debochando. — Um campo de concentração?

— Você nunca nos disse com o que trabalha — respondeu Allana, sentindo pequenas pontadinhas quentes queimando seu rosto.

Valerie então enfia um pedaço de donnut maior que caberia na sua boca, sorrindo para os dois com os dentes sujos de chocolate. Dá uma chamadinha para a mesma garçonete bizarra de antes e faz uma expressão negativa para eles.

— Precisamos arrumar a festa de Jackson, lembram?

— Tinha esquecido disso — retrucou Lance.

Valerie sorriu novamente, agora com os dentes mais limpos.

— Ouvi dizer que vai ser de matar.

E pensou em Anne morta, tendo certeza que de fato seria.


8

[20:30]  

Mesmo no meio de toda aquela música, baderna e gritaria, Luna Dolohov jamais pensou que não tiraria a visão daquela garota enfaixada da cabeça. Era surreal, o que será que aconteceu com ela? Era um mistério gigantesco que Luna havia passado o dia todo pensando, do momento que a família de Jackson começou a planejar a decoração (estilo fraternidade americana) por toda sua casa.

Ela olhou à sua volta, viu um jogo de luzes ligado e algumas pessoas dançando à frente da televisão ligada com uma música antiguíssima da Selena Gomez. Por mais que a maioria das pessoas cujo a festa estava sendo celebrada ser majoritariamente jovem, não tinha esse clima. Haviam muitos crianças correndo e brincando, era mais uma festa de famílaiia do que outra coisa.

E a imagem da garota enfaixada na cama voltou à mente de Luna, o rosto cicatrizado e ensanguentado. Um incêndio poderia fazer algo desse tipo? Precisava falar com Anne, talvez ela tivesse descoberto algo. Ou talvez tenha esquecido a história.

— Olá, minha querida! — disse Konnstantina, chegando por trás dela e fingindo que nada havia acontecido. — Eu preciso falar com você.

Luna estava tremendo, o que ela tinha pra falar depois daquele show acontecido no andar de cima?

— Olha —começou a garota, ajeitando seu vestido preto e evitando contato visual com a mãe de Jackson. — eu sei que estou errada, e a senhora tem todos os motivos do mundo para estar nervosa comi...

Mas a mulher começou a gargalhar, vendo seu cabelo ruivo através do reflexo de um dos quadro de seu falecido marido, pairando atrás de Luna, que se encontrava ao lado das escadas. Afinal, prioridades.

— Com raiva de você? — e fez uma expressãozinha forçada que as duas passaram dias ensaiando. — Se estiver falando daquele acontecimento bobinho com Rowena, não se preocupe. Passou.

Não havia passado, Luna sabia disso. E havia sido muito mais que um acontecimento bobinho, o rosto daquela garota estava martelando a cabeça dela fazia horas. Não poderia deixar isso de lado, precisava fazer alguma coisa e tirar essa história à limpo.

— Olha, eu fiz este coquetel especial para você — e mostrou, sendo segurado por um par de mãos sofrido pela idade — sabe, eu acho que meus modos foram péssimos. Eu sinto muito mesmo.

Ela acreditava. Luna havia mesmo tocado em uma ferida aberta na família Vicenza.

A música foi trocada para outra ainda mais agitada, Luna deu uma risadinha ao ver uma garota que tinha certeza estar possuída na pista de dança.

— Ah — a garota desabou, olhou para o copo gigante, com uma fatia de abacaxi presa à um canudinho em formato tropical. — eu é que sinto muito.

E Konnstantinna deu um abraço apertadíssimo na amiga de Jackson. Luna deu uma risadinha extrovertida enquanto umas gotas do coquetel de abacaxi caiam em seu vestido usado pela primeira vez. A garota fingiu não ligar.

E antes mesmo de provar do delicioso coquetel de abacaxi, a mãe de Jackson foi embora. O celular da garota vibrou, abrindo a mensagem quase instantaneamente:

Descobri algo sobre Melissa.

Preciso falar com você ASAP.


9

[21:00]

Allana Woolen estava ficando louca. Não queria estar ali, não queria ter contato social, não queria pessoas dizendo como ela estava bonita naquela noite. Apenas querida deitar e compor até seus dedos caírem. Mas não era assim tão simples, primeiro que jamais conseguiria compor qualquer canção com esse barulho dos infernos de músicas populares que Allana odiava. Seundo que jamais faria essa desfeita de passar a festa toda — que só estava acontecendo porque eles estavam lá — deitada em seu quarto, enquanto são homenageados pela família de Jackson.

Ela jamais iria entender essas manias estranhas de gente rica. Na casa dela, festas só aconteciam em ocasiões muito peculiares, como aniversário ou feriados mais celebrados — como natal e ano novo. E ainda assim não era lá essas coisas, nem música eles colocavam. Para ser bem sincero, era mais uma reunião familiar do que uma festa mesmo. Ela poderia escrever um livro só com as coisas estranhas que aconteciam naquela casa, começando pelo óbvio: jamais faria uma festa tão cara porque uns amigos vieram dormir em casa. Tinha também uma coisa esquisitissima que Konnstantina obrigava Strelka à fazer, que era passar um pano com álcool em cima de todas as embalagens de maquiagem. Qual a lógica disso? E também os remédios de Rowena — atual teoria da conspiração de Luna — que eram levados em uma bandeja, e sempre por Konnstantina, nunca outra pessoa. Creio que Allana tenha sido a única pessoa a perceber isso.

A festa estava bem animada, e Allana chegou até a pensar que gostaria de estar ali se não fosse tão introvertida. Era legal de imaginar a alegria dessas pessoas ao dançarem a música de alguém, e então se imaginou ali — não na festa — mas ali, sendo esse alguém. Gravando a música enquanto outras pessoas em outras festas dançavam loucamente. Ou ouviam enquanto iam trabalhar, ir pra escola. Aquilo a deixava tão animada, tão eufórica, que compor acabou se tornando sua atividade favorita, mesmo que ganhe o total de zero coisas com isso. Ou seja, nada disso importava porque lhe trazia uma satisfação pessoal gigantesca.

E deu uma volta pelo lugar, e por mais que não gostasse tanto assim desse tipo de ambiente. Não podia negar que estava tudo impecável, como um cenário tirado de uma das festas de American Pie. Mas ainda de um modo muito familiar e difícil de explicar, haviam coisas típicas de uma festa adolescente — como música altíssima, jogo de luz e uma pista de luz, que na verdade era um tapete colorido que ia refletindo com as luzes jogadas.

E sim, era verdade que haviam pessoas de todos os tipos de idade — crianças até idosos de oitententa e cinco anos. Sim, oitenta e cinco, Sra. Martha — qualquer dúvida sobre a cidade, ela respondia. Dizem que ela dava aulas de história para dinossauros no período jurássico. A segunda pessoa que ela viu foi Cordélia Vanderbit, uma garotinha de dez anos que estava deixando sua mãe louca pelo tanto de exigências que fazia.

— Suco! — disse, sem nem olhar para a mãe.

Dois minutos se passam.

— Água! — e falou, com sua mãe novamente correndo para longe e atendendo seus pedidos.

Ela era tão nova e deixou Allana imaginando como uma garota adorável recém-nascida se torna uma versão Wattpadiana da Carmelita Spats.

Em mais uma olhada rápida pela escura noite clareada por luzes coloridas viu a verdadeira estrela que andava na terra. A milionária e super bem-sucedida Melania Cassidy. Casada com o magnata podre de rico Adam Cassidy. Juntos que arrecadavam uma das maiores fortunas do País de Lorry. Dinheiro todo pela administração da gigantesca Optus Cassidy, que é uma empresa famosíssima de joias que percorre todo o mundo. Sem contar em Chloe e Nathan Cassidy, as duas pessoas mais jovens e ricas do planeta terra, ao menos é isso que dizem os sites. Eles eram um casal excepcional, altos e esbeltos como pessoas desse porte nascem para ser. Uma espécie de pedigree especial que Allana jamais entenderia.

Ela definitivamente queria ter essa vida, seria tão mais fácil de compor e conseguir o reconhecimento necessário.

Tudo é mais fácil quando se tem apoio, coisa que ela não tinha. Sua mãe era sempre a primeira a desmotivá-la em questão dos seus trabalhos. Mas ela sabia que era melhor que isso e só ela poderia provar, mas era tão difícil. Falar é mais fácil do que fazer, do que estar na situação, do que ser a situação.

Por esse motivo estava ali. Depois de tudo que havia passado nos últimos meses, ela precisava desse tempo para si. Longe de terapia, longe de todos. Essa era a solução que ela estava procurando. Marco Ville era o lugar perfeito para ela simplesmente sentar e escrever, sabe? Fingir que nada tinha acontecido, era apenas ela e ela. Ela e a música.

— Eu não acredito — Allana Woolen quase engasgou com a própria respiração ao ouvir aquela voz vinda das suas costas. Como era possível? — Allana Woolen!

E suas suspeitas se tornaram realidade, era Langdon Blackmore. Um homem alto, moreno e de olhos extremamente escuros. Popularmente conhecido como O Terapeuta de Allana.

— Eu, hum, oi — disse, meio sem jeito e com pontinhos quentes percorrendo seu rosto por conta do contato social inesperado. — Não esperav aencontra... a encontrar você aqui, você aqui.

Ele deu um sorrisinho bobo pra a paciente.

— Eu sou... — e Jackson apareceu, a pele morena reluzindo pela luz das festas. Usando uma regata cavada que definia perfeitamente seus músculos abdominais.

— Yooooo — disse, abraçando ele, que retribuiu. Os dois eram muito parecidos, da fala ao jeito de andar. Como não havia notado antes?

Allana coçou a nuca enquanto olhava pro chão, estava meio sem jeito com aquela situação.

— Vocês... — mas falou baixo demais e foi ignorada. — Vocês, hum, vocês se conhecem?

E Blackmore finalmente notou a garota, assim como seu amigo Jackson.

— Ele é meu primo!

Allana estava abismada, como não sabia disso antes? Foi paciente dele por anos e jamais desconfiara. Jackson também nunca havia comentado algo sobre.

— Eu não tinha ideia — comentou Allana, sincera.

— Claro que não — e o garoto deu um sorrisinho maldoso para o primo mais velho, que olhou com reprovação.

— Bom, eu preciso ir — disse dando uma dançadinha e olhando para Allana. — estou agitado demais pra ficar parado.

— Até — disse Blackmore, dando um sorrisinho para Jackson que ia saindo.

Allana não sabia direito como proceder, se agiria como se aquilo fosse algo normal, ou se perguntaria por que nunca naviam contado sobre essa relação pra ela. Digo, ao menos eu contaria. E Allana também.

— A terapia está funcionando? — perguntou Blackmore, se voltando para a garota conforme Jackson cumprimentava a mini Carmelita Spats. Garotinha que estava ali desde o começo da festa, mas ele aparentemente não viu... Coisas totalmente aleatórias que apenas a mente — autodeclarada perturbada — de Allana Woolen percebia.

Allana olhou para baixo e evitou contato direto com os olhos do terapeuta. Não queria mentir, mas também não queria falar a verdade. Tudo que ela tinha vontade de fazer era se jogar no Lago Arcanjo com uma pedra gigante amarrada no pescoço. Que utilidade uma pessoa como ela teria no mundo? Allana sentia que apenas afastava as pessoas, era como uma tirinha do sol que ela via no Twitter. O sol sempre quis fazer amizade com os outros planetas, mas toda vez que se aproximava, entravam completamente em chamas. Era exatamente assim que ela se sentia, queimando todos ao seu redor. Sendo quem não deveria ser, chamando atenção demais de uma forma horrenda e desnecessária.

— Como você está se sentindo?

Allana sorriu:

— Como se eu estivesse pulando do Grand Canyon todas as vezes que eu acordo — pensou ela, dizendo apenas: — Está indo muito bem, me sinto melhor ultimamente.

A expressão que ele fez era indecifrável, ao mesmo tempo que parecia ter acreditado, parecia ter mentido. Ela ia falar alguma coisa, mas algo atingiu os dois, passando com força pelo vácuo que os separava. Era Anne, passando como o furacão Irma entre as pessoas que resmungavam desconfiadas. Saindo do andar de cima, e Allana não pôde ver seu rosto.

— O que foi isso? — perguntou Blackmore.

Allana fez uma expressão confusa para ele, olhou para a porta novamente e viu, pela abertura, Anne entrando na infinita floresta de pinheiros. Voltou a cabeça para o andar de cima e viu Valerie com o rosto vermelho, entrando em seu quarto e batendo a porta com força total. E nesse momento reparou que havia algo acontecendo. Algo muito, muito errado acontecendo.


10

[12:20 — Dia Seguinte]  

Eram sete horas da manhã quando Luna sentia que havia sido atropelada por caminhão enfurecido. Jogada sob o chão, com o coquetel de abacaxi jogado, molhando sutilmente o lado esquerdo do seu rosto. Ela estava tonta, alterada e com raios de sol escaldantes atingindo seus rosto vermelho. Sentia-se estranha, com dores por todo o corpo, meio quadrada e com uma vontade absurda de vomitar. Ouvindo aquele apito gigantesco no ouvido.

— O que é isso? — disse, olhando zonza para a casa de Jackson, vazia e uma bagunça total. Copos jogados no chão, restos de comida e um líquido estranho jogado perto da janela e se assemelhava demais com vômito.

Não tinha ideia do que havia acontecido depois que Anne fora embora da casa. Era como um borrão em sua mente, nada fazia sentido. Espera... era dia. Quando foi que a festa acabou e o que tinha no coquetel que ela bebeu? Seu cabelo estava uma zona, não via, mas sentia isso. Sua cabeça estava quente e ela sentia-se morta. Totalmente perdida.

E aquele som horrendo de apito veio novamente. Ela tentou procurar a direção correta, mas mal tinha noção de onde estava. Seus olhos fechavam-se conforme a claridade imensa do sol penetrava em suas pupilas. A cascata ruiva que jorrava de sua cabeça parecia uma tempestade, metade jogada em cima de seu olho esquerdo enquanto ela mal tinha noção para onde andava.

E ouviu o som novamente. E percebeu algo que deixou Luna Dolohov assustada. Não era um apito, eram gritos. Gritos de desespero e inconsoláveis vindo de longe. E sabia de onde vinham. Do Lago Arcanjo.

Ela colocou a mão para cobrir os olhos com uma sombrinha mixuruca que não adiantava de muita coisa. E primeiro pensou estar zonza demais para ver o que realmente estava acontecendo. Até que duas mãos fortes a prenderam por trás, não como uma forma de impedir, mas de afago.

— Você não pode ver isso. — Era Jackson, vestido da mesma maneira que da noite anterior e sem sinais visíveis de qualquer ateração.

Ela tentou se soltar, mas ainda estava meio cabisbaixa e sem reação pra qualquer coisa. Se jogou para frente, fazendo com que as mãos do garoto se soltasse involuntáriamente.

— O quê? — perguntou a garota, abismada. E pulou mais uma vez com o grito ensurdecedor que vinha de baixo. Tentou olhar, mas viu apenas um clarão branco por conta da imensa luz solar que agora impedia ver o que estava acontecendo.

Respirou fundo pela primeira vez e sentiu a gigante ostentação de sentimentos bons e bem-estar percorrendo seu corpo. Podia sentir as artérias dos pulmões se abrindo para a chegada do ar como um castelo esperando sua rainha tomar o trono. Sentia tudo aquilo se transformando em energia que aos poucos ia a fortalecendo para recobrara a consciência e ter noção do que realmente estava acontecendo.

— Me solta! — Ela não gritou, não esperneou e soltou a frase de um tom grave e severo suficiente para Jackson entender de primeira. Podia andar por si própria agora. Podia pensar. Podia correr e podia andar pela pequena descida conforme Jackson a seguia por trás.

Mas ainda assim, demorou alguns segundos para assimilar o que realmente estava acontecendo. Não estava entendendo por que o Lago havia mudado de cor, e por que havia tanto sangue no cais. Viu Um grupo de policiais percorrendo o lugar e cercando as asas formadas por lama, sangue e água. Allana, Valerie e Lance estavam ali. Gritando e chorando com Konnstantina Vicenza, jogada no chão e paralisada demais para reagir.

Allana gritava e não sabia para onde olhar.

E lá estava o Lago Arcanjo, um dos mais bonitos e conceituados da cidade. Principalmente por ter um formato esplêndido de um par de asas. Ela olhou pela última vez, o viu totalmente vermelho. Nenhum vestígio da água cristalina formada por uma bonita correnteza que nascia de uma cachoeirazinha de pedras no dia anterior. As asas majestosamente formadas assim como sempre estiveram. Mas havia algo peculiar.

Algo no meio dele. Onde as asas se formavam. Como um anjo com os olhos de vidro, exorbitantemente azuis focados eternamente para o céu Celeste que à frente se formava.

Era um anjo. E com o grito final, um grito de entendimento e noção do que realmente estava acontecendo. Um grito de quem havia entendido que aquilo não era um anjo. Era Anne Onlyn, morta. Imortalizada eternamente, olhando para o céu e pensando em nada. Cérebro desligado, vazio. Corpo não funcionando, frio. Pensando em nada, no assassino calculista que aos poucos planejava uma gigantesca conspiração que aos poucos se formava.

Jan. 30, 2019, 9:29 p.m. 1 Report Embed 2
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Adryelle Albuquerque Adryelle Albuquerque
Realmente muito bom
March 30, 2019, 7:22 a.m.
~

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