That's the way it is Follow story

ksutaguo Louise Alves

(CROSSOVER NARUTO X RED DEAD REDEMPTION) (NEJI X TENTEN) 1925, o Velho Oeste americano dava seus últimos suspiros, assim como Tenten imaginava seu fim se aproximando. Crescida numa gangue de foras da lei mexicana como mercenária vivia uma vida solitária. A gangue era sua família, seu refúgio... Atravessar a fronteira dos EUA culminou na ruína da gangue e cada um dos seus integrantes foram caçados e executados em praça pública mostrando a todos os americanos e estrangeiros que a era de crimes havia chegado ao fim. Mas Tenten persistiu, dissipando o luto que não tinha tempo de senti-lo, fugiu e matou quem estava em seu caminho. Exceto quando um caçador de recompensas com a cabeça tão quebrada quanto a sua e um par de olhos perigosamente bonitos cruzou o seu bendito caminho.


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#universo-alternativo #nejiten #crossover #naruto #red-dead-redemption
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O caçador e a Pistoleira


"Ouviu isso? Parece um tiro..."

"Estamos no oeste, pensava que ia ouvir o canto dos pássaros por acaso?"

"Pensava que você tinha educação."

"Larguei a educação no túmulo da nossa mãe, agora vamos embora daqui."

"E se precisam de ajuda?"

A pistoleira estava perdendo a paciência com aquela menina.

"Pois que achem ajuda longe de nós. Somos procuradas. Nós duas. Entenda de uma vez por todas que você só pode confiar a mim."

"Mas..."

"Sem 'mas'!" A mulher tinha voz autoritária que transformava a voz da menina num mero miado de gato molhado. "Suba no cavalo."

 

Mas Harley não teve tempo de subir, tivera a cabeça explodida com o tiro da escopeta de um agente dos Pinkerton.


E a mesma cena voltava a atormentar as noites que Tenten descansava.


Todas as noites lembrava de como sua família inteira havia morrido, cada noite seu cérebro decidia qual ente querido voltaria para atormentá-la. Ontem foi a vez do seu padrinho, antes dele foi o pobre Afonso, aquele tonto que ficou para trás para a gangue de seu pai pudesse atravessar o rio San Luis e invadir os Estados Unidos.


Como se já não fosse o bastante ter a gangue dos Del Lobos atrás do grupo em território mexicano, tinham a Agência de Detetives Pinkerton em solo americano caçando cada um dos integrantes da turma de pistoleiros que Tenten nasceu e foi criada. Cada um dos dezoito fora da lei e suas famílias foram caçados e executados, incluindo seus pais. Os líderes do bando desajuizado, assim a sua mãe os nomeava. O pai transformou a filha mais velha numa exímia pistoleira enquanto a mãe ensinou a sobreviver: tinha uma excelente mira e uma joelhada poderosa, possuía um vasto conhecimento de ervas, tônicos, frutas venenosas. Aprendeu a caçar, a ler e escrever tanto em inglês quanto em espanhol. E ela era tão boa em ser uma fora da lei que há muito seu verdadeiro nome foi esquecido e o famigerado apelido foi adotado como sua nova identidade: Ten/Ten. Dez balas, dez mortos.


Lembrava nostálgica quando a pequena Harley ainda agarrada na saia de sua mãe, olhava receosa para o monstro que sua irmã foi valente o bastante para enfrentá-lo. Seu pai ficou incrédulo que uma menina conseguiu matar um urso negro daquele tamanho com apenas um tiro de rifle na cabeça.


Mas adiantava alguma coisa ter toda aquela força, todo aquele conhecimento, se deixar levar automaticamente pelos instintos de sobrevivência se nada mais sobrou? Se tudo que ela conhecia como família — consanguínea ou não — fora desintegrado?


Por que diabos Tenten ainda resistia?


Victor, seu fiel Morgan acobreado levantou as orelhas ao perceber que sua amazona acordou. Um bicho muito mais leal que cachorro era aquele cavalo... Ele parecia farejar os pesadelos dela e muitas vezes acordava Tenten no meio de um deles, ou quando sentia algum cheiro ameaçador.


O corcel chacoalhou a própria crina e assim como ela assistiu o sol nascer. Seguia para Saint Denis, a grande cidade industrial, pois ou pegava um barco e iria para longe dos EUA ou seria morta antes de comprar sua passagem.


Havia apenas um problema: o caminho mais fácil para chegar a Saint Denis era pelo sul, passando por Rhodes em Scarlett Meadows, mas seria o mesmo que entrar na toca do leão: o sul da cidade era a parte mais policiada do lugar por ser a porta de entrada da cidade de ricaços. Era certo que haviam agentes ali esperando por ela e quaisquer fora da lei que brotassem. Ela teria de chegar pelo norte, atravessando o pântano de Bluewater Mash — o mesmo pântano que abrigava uma tribo canibal tocava o terror nas fazendinhas próximas. Mas Tenten não temia um ataque de uns débeis mentais, o problema real era que viu com seus próprios olhos homens da Pinkerton rondando todo o estado de New Hanover, especialmente em Valentine, a cidadela pecuarista mais a oeste do estado, que tem uma estação de trem que a levaria até Saint Denis bem mais rápido que ir a cavalo. Ela estava sendo obrigada a ir a mais norte ainda, praticamente chegando a Annesburg, a cidadezinha mineradora e totalmente contramão, e descer para a cidade portuária. Era um trabalho desgraçado.


Tenten já estava tão ao norte que a paisagem do velho oeste dava lugar a florestas e montanhas geladas. Acostumou-se com os bisões e veados que corriam ao vê-la, agora disputava território com ursos e lobos... Quando não vinha um alce macho...


Estava quase se rendendo ao prazer dos primeiros raios de sol esquentar-lhe a face quando um som estrondoso de tiro de escopeta ecoou quase como se tivesse acontecido do seu lado. Mas ao observar de onde veio o disparo assistiu uma revoada de pássaros de um lugar muito acima do lago onde montou acampamento. Desfez rapidamente da fogueira e enrolou a lona e o saco de dormir na sela de Victor, o mesmo já galopava em direção ao disparo, nas costas da pistoleira o rifle estava bem carregado.


Ao aproximar-se da fonte do barulho o silêncio fez-se presente. Mau sinal. Tenten apanhou o rifle das costas assim que desceu do dorso do cavalo e esgueirou entre os arbustos até ver um acampamento abandonado.

Bem, não exatamente abandonado, mas certamente o dono daqueles pertences não estava por ali, então ou estava morto ou caçando. Mas quem caçaria com uma escopeta? Além do barulho ensurdecedor o tiro danifica a pele da caça, quem quer que fez isso só podia ser algum novato.


— Largue a arma, parceiro.

Tenten manteve a calma mesmo sentindo canos duplos encostados nas costas. Levantou devagar com a arma para o alto.

— Não quero confusão. — O sotaque mexicano e o timbre feminino surpreenderam o homem.

— Uma mulher? De calças? — A voz descrente dele aumentou o tom.

— Não é pratico correr de vestido, parceiro. — Tenten disse e em resposta o homem riu pelo nariz.


Ele a virou e Tenten teve a certeza que ela passou mais tempo que gostaria admirando aqueles olhos exóticos. Ele era alto, de pele amarelada, o cabelo parecia ser grande e todo puxado para baixo do chapéu sujo com barba castanha e cheia demais, mas dotado do par de olhos mais impressionantes do mundo. Um azul tão fraco e claro que beirava ao prata, lembrava uma dupla de diamantes brilhantes. Além da cor incomum ele tinha os cantos dos olhos puxados como um asiático, ele era estranho.


Mas um estranho legal de se admirar.


— O gato comeu a sua língua, senhorita?

— Não, mas tô segurando o riso de um caçador que caça com uma escopeta.

— Eu num caço com isso.

— Então por que ouvi o som do tiro?


O homem dos olhos bonitos destravou a arma longa e pôs sob o maxilar feminino. Ele a estudava como um predador, procurando motivos para explodir-lhe a cabeça.


— Cê pergunta demais.


Porém ele não contava com um coice poderoso que o fiel corcel de Tenten transferiu para si, praticamente fazendo o homem voar para perto da fogueira.


E uma flecha quase acertou o pescoço do cavalo, parando numa árvore mais atrás de Victor.


Tenten avistou o cano de um rifle no canto do olho e pegou a própria arma disparando antes do adversário. O homem de olhos bonitos puxou a pistoleira para trás de uma árvore enquanto viam um bando de malucos correndo em sua direção, tendo o chapéu tirado da cabeça por um tiro de raspão. O rapaz tinha uma boa mira também, tal como ela tinha reflexos rápidos e movimentos econômicos; ambos acertaram os cinco homens horripilantemente sujos. Todavia Tenten não tinha percebido um ataque pelas costas que foi prontamente cessado antes de começar: ele deu uma coronhada no cara que partia pra cima dela com um facão.


A pancadaria durou bem menos que eles esperavam e Tenten admirou a calma e paciência do homem, assemelhava a si mesma.


— Tá vendo mais desses caras? — Tenten disse enquanto ele saía da cobertura da árvore.

— Não, pode sair. Eram seis cabras dessa vez.

— “Dessa vez”?

Os olhos bonitos focaram nela.

— Cê num é daqui, né?

— Eu lá tenho cara de americana?

— Tsc... Nah... — Ele abaixou perto de um dos corpos e revistou-o — Mas cê atira igual macho, então num deve ter tido uma infância boa.

— Ia dizer o mesmo pra ti. — Tenten assobiou para Victor que se aproximou trotando — Mas que raios foi essa bagunça?

— Night Folks. Uns retardados liderados por outro retardado, mas sempre tem coisa boa nos bolsos. — Ele virou-se para ela — Deixo a senhorita pilhar esse pedaço de merda aí. — Ele enrolou a língua para falar igual um britânico.

— Então cê é um caçador de recompensa? — Ela disse revirando bolsos do cadáver com calma, mas com as mãos próximas das pistolas.

— Às vezes.

— Sabia que esses bichos tavam aqui?

— Olha só, e num é que a moça pensa que nem macho também? Tô impressionado de cê chegar nessa conclusão sozinha.


Ela ia dizer alguma coisa, mas prestou atenção no cabelo um tanto emaranhado arrebentando a fita de couro que o prendia. Uma massa castanha mais escura que a barba desembolava-se numa cascata indo até a cintura. Ouviu-o reclamar da porcaria do couro mas na verdade ela só ouviu sua voz, pois voltou a encara-lo sem perceber.


Tenten lembrou de Ricardo, seu antigo e único amorzinho da adolescência, tinha cabelos grandes também. Claro, Ricardo tinha cabelos pretos como carvão e cacheados muito bonitos; os dois adolescentes viviam caçando coelhos para fazer amuletos e ensopados. E roubavam whisky do pai de Tenten... Ah que memórias boas...


— O que cê quer?

— Hum?

— Cê é uma caçadora, isso num tenho dúvida, ainda mais vendo cê enfrentando aqueles bichos homens... — Os olhos diamantinos fixaram nela — Tá no meio no nada e tá com cara que num come há dias. Tá fugindo de algum lugar?


Tenten encarou o homem de volta antes de voltar-se a Victor.


— E tu num tá? Miséria, tu ta fedendo...

— Num é de mim que nós...

— Desculpa por me meter no seu caminho. Adeus.


Tenten montou e esporou de leve, Victor começou a trotar. Quanto menos gente souber da sua condição melhor, não podia confiar esse segredo a ninguém então o melhor a se fazer era simplesmente ir embora.


— Se manter a direção ai mesmo ninguém vai te achar, porque vai virar comida desses desgraçados.

— Tem uma ideia melhor?


Ele respirou fundo, como se estivesse entediado. Assobiou alto e em poucos segundos um Shire preto trotava entre as árvores, nasalizou e recebeu um afago do moreno antes de montá-lo. Apontou para uma trilha mixuruca que desaparecia morro abaixo.


— Annesburg. O caminho vai dar num riacho fácil de atravessar a cavalo, mas se a gente num topar com urso, vai ser tranquilo.

— Eu não preciso de companhia.

— De certo que não, mas vai ter, madame. — Tenten respirou fundo tentando manter tanto a calma quanto os punhos perto da sela de Victor. Aquele sorrisinho cínico já estava irritando bastante.
— Pois então vá na frente.


Ele sorriu debochado antes de por uma folha de menta na boca e esporar o cavalo negro.


Mas é claro que no curto trecho que galoparam um urso gigantesco apareceu, deixando os cavalos loucos. Victor não era covarde mas também não era burro de chegar perto de um monstro cheio de cicatrizes na cara e com dentes enormes. E para piorar aquela aberração da natureza corria muito rápido. Tenten e o homem descarregaram dois pentes pra matar o desgraçado.


Pelo menos a pele desse filho da mãe daria uma boa grana... Talvez uns cinquenta paus, isso se o armadilheiro não notar alguns dos furos na pele do bicho... Se é que Annesburg tem algum comerciante desse tipo.


Mas Deus não estava satisfeito com um urso cinzento monumental, não, não! Ele achou uma ótima ideia soprar uma tempestade bem na fuça dos dois caçadores. Como se a presença um do outro já não fosse incômoda o suficiente — Para Tenten socar a cara do rapaz que espiou E COMENTOU não só da pose de cócoras que a moça teve de fazer para limpar-se do sangue antes da chuva cair, mas de como as calças de couro realçam seu traseiro voluptuoso — agora estavam ambos ensopados. A pistoleira pediu a deus que a pele do urso não mofasse...


Victor e o outro cavalo ficaram num estábulo recém construído enquanto seus donos correram para o armeiro debaixo do abrigo improvisado do couro gigantesco. A loja era a única coisa aberta da cidadela fora o estábulo e quão foi a surpresa dela ao adentrar ao estabelecimento que este era recheado de peles de diversos animais por todas as paredes.


E o armeiro estava acompanhado embaixo do caixa.


— Seu velho tarado! — O acompanhante de Tenten bradou e o armeiro quase caiu do banco que sentava.

— Seu fi' duma puta! Ainda vai me matar de susto seu maldi... — O velho barrigudo levatou-se expondo parte da pança cabeluda e outra parte do corpo desagradável de ver. Ao mesmo tempo que Tenten cobriu os olhos enojada o armeiro correu para se cobrir — Neji seu desgraçado podia ter me avisado que tinha uma dama entre nós.

— Neji? Neji? — Duas moças peitudas com o colo praticamente exposto saíram debaixo da bancada extasiadas.


Elas falavam ao mesmo tempo coisas como “oh que estado horrível que cê tá” ou “Quer uma massagem? Ainda uso o óleo que cê gosta” e se achegavam no homem como dois gatos pidões. Era ridículo demais.


— Mas que porra de nome cê tem hein — Tenten disse torcendo o cabelo e saindo de perto da “lambeção” das gatinhas e arrastando a pele consigo, ele pouco importou com o comentário, apenas enlaçou as cinturas das criaturas manhosas e dedicou toda a sua atenção a elas saindo da loja.


Ela então se aproximou do velho tristonho.


— Sabe onde tem quarto e banho?

— De certo que sim — Ele passou os olhos castanhos nojentos pela morena — Aqui mesmo, docinho. — Tenten puxou a gola do homem e pôs uma pistola grande em sua cabeça.

— Cê acha que eu tô de brincadeira, seu preto? Eu adoro estoura os miolos de filho da puta que nem tu, então num me tenta não.

— M-Mas é a verdade! S-Senhorita! — Ele apontou trêmulo para um panfleto de serviços escrito “Inn” em letras grandes.


A mexicana respirou fundo antes de soltar o homem que quase se borrou nas calças.


— Um banho. — Disse calmamente deixando um vinte e cinco centavos sobre a bancada.

— Bem... Hã... A senhorita...

— Fale logo homem, que eu num tenho tempo pra baboseira.

— Hã, bem, tudo bem, num é nada — Ele tirou duas chavezinhas dum molho e entregou a ela — Pronto, sô! Sai da loja e entra na próxima porta. Bem acho que vai achar Neji ocupado na sala dos sofás. — Tenten nasalou antes de virar para a porta.

— O que aquele pedaço de bosta de olho azul faz ou deixa de fazer num é problema meu e nem teu.


Mas após uma corridinha na chuva ela chega na pousada xexelenta, mas era o mais próximo de conforto que ela tivera em anos de fugitiva. Abrindo a porta “Bath” a banheira de latão borbulhava e emitia um convite gostoso e quentinho para Tenten. Um bom mergulho na água quente relaxante era o que merecia depois de tanta baboseira.


Mas quando a pele nua entrou em contato com o fundo fumegante da banheira a morena chegou gemer de prazer. As velas emitiam sua luz trêmula e suave pelo ambiente que estava cheirando bem — na medida do possível — e o som da tempestade lá fora batendo na janela deveria ser assustador, entretanto para ela era como uma canção de ninar. Tenten estava exausta e era meio dia. Fazem anos que ela não dormia direito, desde o desmembramento da gangue ela nunca mais teve paz e seu precioso sono aumentava a cada dia.


Riu de leve lembrando da cena ridícula daquelas moças babando pelo colega de viagem. Tenten nunca havia presenciado tamanha falta de escrúpulos, mas decidiu ver além da estupidez daquela cena: era um fato que aquele homem era formoso por baixo de toda aquela sujeira e um banho viria muito bem para ele, mas flagrou-se perguntando a si mesma se faria algo parecido se visse a verdadeira face de Neji totalmente limpa.


Dispensou a atendente de banho de luxo, marinando por mais alguns minutos na água até ela amornar e algumas velas se apagarem. Por mais arriscado que fosse a ideia de chegar de trem a Saint Denis era tentadora, porém não era necessário ser uma pessoa estudiosa para saber que o trem sequer sairia do lugar enquanto aquela chuva não parasse. Entretanto quanto mais tempo ela passava num lugar, mais facilmente aqueles bastardos do governo a pegariam.


Ela não tinha alternativa a não ser esperar aquela tempestade do inferno passar.


Vestiu a mesma roupa surrada, após uma boa escovada para tirar a poeira mais grossa, enxugou o máximo que conseguiu da pele grossa esticada no banheiro úmido com uma outra toalha que achou em cima do armário, suspirando frustrada o como detestava limpar peles de bicho grandes como aquela. Mas fazia pelo dinheiro, ela guardava para sua liberdade!


Quem sabe ela não seria uma famosa exportadora de mangas vivendo numa ilha tropical assim que deixar esse país de merda?


Após desembaraçar aquela pelagem em um par de horas enrolou-a e saiu carregando para fora. A chuva não deu trégua, o que piorava a situação do ambiente. Tinha praticamente um córrego de lama e óleo empapando os trilhos e a poluição invadia o mar.


Tenten sentou-se numa cadeira embaixo da fachada do prédio com a pele úmida cobrindo a pistoleira.


Quando ouviu alguém se aproximar e sentar na cadeira no outro lado da faixada ela não se virou para saber quem era, mas irritou-se em saber que seu momento a sós fora interrompido.


Todavia o estranho que invadiu seu solidão estava com um violão e Tenten teve os olhos marejados com a lembrança boa e gostosa. Ela não ouvia aquela música há tantos anos... Era mais melodia que canção, mais emoção que razão... Era o fogo do luto que queimava em seu coração e que há anos ela não se permitia sentir o calor.


E ele explodiu com a voz masculina acompanhando a avançada partitura do violão.

 

The day is done, the time has come
(O dia acabou, chegou a hora)

You battled hard, the war is won
(Você lutou duro, a guerra é vencida)

You did your worst, you tried your best
(Você fez o seu pior, você tentou o seu melhor)

Now it's time to rest
Now it’s time to rest
(Agora é hora de descansar)

 

Tenten mergulhou no tempo quando a gangue era grande e próspera, lembrava dos irmãos Martínez com seus violões e vozes potentes acompanhando a doce voz de Senhora Ramona, quem não dançava estava sentado ao redor da fogueira apreciando a vista dos casais embalados pela música melancólica. E no centro, seus pais estupidamente apaixonados expondo a todos os olhos seu amor mútuo e extremamente raro.

Podia sentir o cheiro da terra e o ardor nos olhos por estar tão próxima do fogo. Podia ouvir o coro cantando.

 

See the fire in your eyes

See the fire in your eyes

See the fire in your eyes

See the fire in your eyes
(Vejo o fogo em seus olhos)

 

Ela juntou-se ao homem na última estrofe da canção pequena totalmente tomada pela emoção. Encolhia-se como uma menininha debaixo do couro, chorava como nunca havia chorado. O luto era tão grande que ela não controlava os soluços, eles vinham e vinham como se acompanhavam o som do violão e os melismas roucos bem harmoniosos com a melodia triste.


A música se estendeu e esticou mais que a duração original, apenas para que desse para a mulher se recompor. Tenten sabia quem era o dono da voz mas não entendeu porquê a voz de Neji saiu da boca de um homem tão bonito — e limpo.


Os cabelos lisos, úmidos e escuros escorriam até o assento do banco, sem aquela barba cheia de lama e sabe-se lá o que mais os olhos diamantinos tinham ainda mais destaque. Ele dedilhava uma outra melodia e fitava a lama. Ela ainda o encarava com os olhos vermelhos e coração disparado.


"...Puta que pariu"


— Essa música também mexe comigo. — Ele virou a dupla de diamantes em sua direção — Mas já chorei esse luto tantas vezes que hoje num sinto nada.

Tenten enxugou o rosto já respirando melhor.

— Musiquinha triste essa. — Tenten esfregou os olhos.

— Há quanto tempo...? — Ela deu de ombros.

— Anos... E o seu?

— Também... O fi'da puta morreu de tuberculose antes d'eu lembra o rosto dele...

— Minha família foi morta, isso basta.

— E ocê tá fugindo. — Ele espetou já esperando o caldo azedar, mas recebeu um riso nasalado de resposta.


Todavia, observava a mulher boa de tiro e com soco de macho se desmanchar. Não achou que fosse coisa de mulher, porque ele mesmo já tinha passado por isso e ninguém melhor do que ele sabia o quão doloroso era lidar com o luto, mesmo depois de anos.


— É a única coisa que sei fazer é me defender de merdas que passaram na minha vida — os olhos cor de chocolate encararam os perolados — Nem que isso me custe a cabeça cortada, eu vou viver e morrer pela liberdade que a minha família me ensinou.


Ele nada disse, mas voltou a dedilhar. Ambos observando a chuva cair e as espessas nuvens obstruírem o sol da tarde.


Tenten chorou silenciosamente até cochilar, enrolando-se na pele grossa e mergulhando nas lembranças de uma vida que apesar das dificuldades era uma vida boa de se viver.


Tinha um campo florido muito bonito com uma capelinha abandonada bem no meio. Era assustadora mas eles sabiam que o mundo teria que trabalhar duro para assusta-los. Tenten corria pelo meio das flores, rindo como criança sendo perseguida por alguém, mas não se sentia ameaçada. Ela estava muito feliz. Como num conto de fadas, seu vestido branco rodopiava a cada curva que ela fazia para escapar dos braços que tentavam pega-la.

E quando eles a alcançaram os dois rolaram no chão florido trocando um beijo gostoso no meio das flores de lavanda. Era um beijo doce e carinhoso como lembrava de Ricardo.

Mas aqueles olhos claros não eram dele.

 

Acordou enrolada na pele e numa cama que tinha certeza que não era sua, muito menos que tinha sequer pagado por ela. Quando levantou o tronco tentando assimilar a imagem turva do quarto escuro e do som da chuva batendo na janela de vidro, a mexicana ouviu a maçaneta do quarto abrir e um homem seminu e com uma toalha enrolada na cabeça brotar da porta.


Deus podia até ser piedoso, como alguns falam, mas de certo que Neji não era.


— Ora, dia princesa dorminhoca. — Ele tirou um relogio prateado do bolso da calça de vaqueiro — Minto, tarde.

— Cê num tem vergonha não? Sair desnudo desse jeito? — Neji riu enquanto fechava a porta atrás de si.

— Ou eu seco o cabelo ou o corpo, os dois num da. — Ele apontou para o turbante improvisado — E cê num se preocupa, já descarreguei mais cedo.


Ele achava graça da cara de nojo que Tenten fez. Pegou sua camisa recém escovada e vestiu-a ignorando o olhar da moça.


Bem no íntimo dela, achava bem agradável a visão do abdômen pouco musculoso e o caminho de pelos da barriga até o ventre ocultado pela calça escura, entretanto isso pouco importava. Ele continuava sendo um estranho.


— Essa chuva num acaba nunca... — Tenten lamentou procurando uma arma enquanto o homem esfregava os cabelos.

— É, ainda tá caindo o mundo d’água, mas pelo menos num tá caindo raio. — Neji enfiou as mãos numa bolsa e tirou duas barras de chocolate. Jogou uma para ela enquanto devorava a sua.

— Isso é caro, onde achou isso?

— Eu disse que aqueles bichos homem tinham coisa boa no bolso.

— Mas chocolate é coisa de rico...

— Cê num sabe o quanto eu invejo ocê por nunca ter topado com aqueles coisa.

— Só naquela hora. — Ela abriu o chocolate e começou a comer.

— Então... Difícil imaginar uma moça bonita que nem tu fazendo os crimes que falam que fez.


Tenten levantou os olhos nervosa.


— Que cê disse?

— CARMEN MUÑOS! O PRÉDIO ESTÁ CERCADO! SAIA COM AS MÃOS NA CABEÇA! — Um velho conhecido Pinkerton berrou do lado de fora e Tenten pulou da cama.

— VOCÊ! SEU MALDITO! — Ela virou para Neji que parecia tão alerta quanto ela.

— Eu o que?


Neji não teve tempo de reagir, Tenten lhe deu um soco bem na boca do estômago, o homem sentiu as entranhas revirarem e a visão turvar com a potência do soco.


Achou suas armas e correu para o corredor da casa enquanto ouvia aquele maldito fazer uma contagem regressiva.


“Pensa, garota, pensa!”


— Ali sua maluca! — Neji disse com uma das mãos na barriga e a outra apontava para o teto.


Um sótão? Naquela casinha miúda?


Com um pulo ela alcançou a alça da portinha e puxou, caindo uma escada na sua frente. A porta de trás do casebre foi forçada por um dos agentes, mas não cedeu.


— Carmen! Não seja tola! Se entregue ou não teremos piedade! — O agente disse fervendo o sangue da mexicana.


Assim que chegou no sótão Tenten puxou Neji para cima e berrou.


— ¡VA AL INFERNO, SU HIJO DE LA PUTA! (Vá pro inferno, seu filho da puta!)


Neji puxou a mexicana pelos cabelos e pulando as caixas do caminho até segura-la encostando as costas na parede mais próxima do sótão quando os agentes abriram fogo contra a casa.


Os tiros atravessaram todas as paredes, abrindo buracos e reduzindo a pó algumas pilastras de sustentação da casa velha. Tenten e Neji puxavam um ao outro num sapateado curvo, pela proximidade com o teto, de fugir das vigas que não iam sustentar o peso de dois adultos e dos buracos de tiros. A poeira e fuligem levantaram feito uma nuvem negra dificultando tanto a visão dos agentes quanto ao casal de sobreviventes.


Ambos mantiveram-se em silêncio quando os tiros acabaram, não por temer os Pinkerton mas por sentirem parte do chão ceder a cada passo que davam.


Mas como Deus parecia divertir-se com aquele tipo de desgraça ele fez Neji aspirar parte daquela poeira. O espirro saiu mais alto e forte que o normal e antes da casa desabar, o teto cedeu fazendo ambos caírem pelo mesmo buraco e o telhado da casa cair sobre eles.

Jan. 27, 2019, 9:29 p.m. 0 Report Embed 121
To be continued... New chapter Every Sunday.

Meet the author

Louise Alves Bióloga de segunda à sexta; Ficwriter, jogadora de videogames e procastinadora profissional aos fins de semana.

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