O Dragão e o Artista Follow story

malephar Luana Lodi

Existe uma lenda na histórica Liebedich, Alemanha, sobre uma gárgula que protegeu a cidade dos nazistas. Tal conto é passado de geração em geração, mas ninguém de fato a viu. Nostradamus Klaus é descendente dos fundadores e apaixonado por todo tipo de arte. Por muito tempo, carregou nas costas o preconceito paternal e problemas familiares. Em sua infância, abandonou aquilo que mais amava para se tornar um homem que traria orgulho à cidade e ao nome de seu bisavô, mas um fantasma do que realmente sonhava em ser. Até o dia que conheceu Kayamus, a quem deu o apelido de Dragão, e percebeu que ele era a lenda. Sob o olhar inexpressivo de Kaya, Nostradamus reaprende a ser uma criança sonhadora e, aos poucos, ele vai lutar contra as coisas que lhe assombram.


Drama Not for children under 13.

#fantasy #friendship
0
781 VIEWS
In progress - New chapter Every 15 days
reading time
AA Share

Cores desbotadas sobre o mármore

Quando o Nazismo estourou na Alemanha a partir de 1933 e os judeus não conseguiram fugir, uma família começou a abrigá-los em suas fazendas no interior do país. Assim que se transformavam em pacatos trabalhadores rurais, novas identidades eram dadas ao fugitivos para que se protegessem e permanecessem vivos. O dono da fazenda, Joseph Klaus, era um homem de poucas palavras, mas de grande coração e feição triste. Estava sempre presente durante os cultos religiosos, providenciava médicos ou advogados quando eram necessários e lutou abertamente contra o Führer, sendo um ferrenho opositor ao massacre. Chegou até mesmo lutar pessoalmente na guerra e era costumeiro voltar com carroças cheias de crianças e mulheres. Joseph também era um homem da arte e da leitura, defendeu o direito à cultura dos judeus e suas histórias, abrigando no subterrâneo de sua mansão, incontáveis e raros livros. Onde havia cor e vida, havia um pouco de si. Aos poucos, as pessoas foram se sentindo acolhidas e protegidas, não demorando muito para que a fazenda se tornasse uma vila e, anos depois, uma pequena cidade. Tudo sob a supervisão dele.

Assim como tudo o que vem do interior, os boatos de que Klaus era na verdade um feiticeiro começaram a se espalhar. Tudo que ele colocava a mão transformava-se em um grande negócio de sucesso e famílias judias começaram a crescer e prosperar. Isso trouxe certo medo e respeito à sua reputação. Todavia, os boatos chegaram até o ouvido da Igreja Católica e ele foi excomungado e foi um aval para que os soldados alemães invadissem a terra. A lenda reza que toda a cidade foi protegida apenas por estátuas de mármore negro, as famigeradas gárgulas, que contavam com a rigidez de seu material e habilidades sobre humanas, como voar e força anormal. E é fato que tais estátuas são encontradas quebradas e vandalizadas por toda a cidade de Liebedich. O misticismo permeia a cidade e a mansão de Klaus, tornando-se um antro de estudiosos paranormais e curiosos.

Nostradamus vön Württemberg Klaus é bisneto de Joseph e, apesar do nome gigantesco, é uma criança rechonchuda e baixinha. Possui olhos verdes e esmeraldinos, cabelos louros e pele alva. De riso e sonhos fáceis, encanta a quem o encontra brincando nos jardins do casarão. Seu jeito atrapalhado e empolgado de falar, muito lembra aos antigos o gentil Joseph e tal fato trouxe muita popularidade ao pequenino. Nostradamus, ou Tadamus como gostava de se chamar, amava sentar-se no balanço em frente à casa e ouvir os inúmeros contos acerca de seu bisavô. Acreditava que um dia seria um homem tão fantástico quanto, não tardando muito para demonstrar o amor genuíno à arte e seu talento impecável em desenhar, cantar e interpretar.

Seu jeito delicado e sensível, junto aos seus expressivos olhos e facilidade para chorar, acabou despertando a ira de seu pai, Andrew. O homem não aceitava o jeito da criança, pois considerava uma terrível fraqueza e mancha à honra da família. Ele tentava a todo custo reprimir o jeito afeminado, como acreditava ser, de Nostradamus. Muitas vezes o menino não entendia o motivo que o levava a ser surrado pelo pai e, como fuga, não demorou muito para criar um mundo fantasioso onde Andrew não estava. Com nove anos, a criança abandonou de vez as artes e se transformou em um ser amargo, tristonho e falso.

A mãe, Margareth, percebeu a mudança no filho, pois ele agora não brincava ou escutava as histórias que tanto amava. Ela tomou a drástica escolha de protegê-lo de todos os males, mesmo que para isso tivesse que apanhar no lugar dele. Enquanto Andrew viajava a trabalho pelo mundo afora, ela procurava salvar a alma da criança. Sua primeira atitude foi pagar professores de canto, dança e desenho para ele e programar as aulas nos dias em que o marido não estava. Também, sempre contava as aventuras do bisavô, porque sabia que Nostradamus o admirava. Tinham um combinado: para os dias que Andrew estivesse em casa, Tadamus deveria se esforçar em ser o mais másculo possível, focar nos estudos matemáticos e administrativos, além de aprender outras línguas, cavalgar e manusear armas. Se o menino se comportasse certinho, seria sempre recompensado com um kit novo de pintura ou até mesmo com sapatilhas de balé. Ela o colocava na cama às sete horas da noite em ponto, mas na verdade, passava mais de duas horas costurando e ensinando o filho a dar ponto e criar as próprias roupas. Aos poucos, a mãe se tornou uma heroína para Nostradamus e ele passou a admirá-la mais que Joseph. Margareth era uma mulher poderosa e, na cabeça infantil, a representação real de como ser um Klaus. Porém, a violência doméstica era algo naturalizada a ele e foi algo que há muito ficou só por entre as paredes da mansão.

Como consequência de um pai homofóbico e desequilibrado, Nostradamus se tornou antissocial. Desde que se entende por gente, sempre lhe foi dito por Andrew que as pessoas não gostariam dele como pessoa, mas sim pelo dinheiro que a família possuía. Era uma criança que conhecia apenas a presença da avó, da mãe e de sua governanta Magda. Não era adepto a brincadeira, estava sempre ocupado estudando ou praticando alguma coisa. Até o dia que Margareth cansou e brigou com o marido, tocando em seu orgulho ao argumentar que os tabloides alemães logo descobririam que o garoto era mantido, praticamente, em cárcere privado e que a reputação de Andrew seria manchada como patriarca da família Klaus. Foi permitido, então, que Magda trouxesse o filho para casa e a amizade de ambos estava liberada.

O garoto chamava-se Henry e era descendente de Caleb Furtwängler, o mordomo e jardineiro particular de Joseph. Possuía olhos castanhos e cabelos bagunçados, além de um corpo franzino. Mas Henry também era uma cobra e por ser mais livre que Nostradamus, sempre estava atento às fofocas da cidade e da mansão. Seu passatempo era tagarelar com Tadamus e também, apreciar a arte do pequenino Klaus. Ambos desenvolveram amor ao balé e passavam horas a fio praticando até a exaustão, pois nenhum dos dois aceitavam menos que a perfeição. Merecidamente, Henry se tornou o melhor e único amigo de Nostradamus.

O jovem Klaus ganhou em seu décimo aniversário, um livro de contos regionais de sua avó paterna e ele ignorou as histórias até o dia em que Henry caiu doente e não tinha mais ninguém para conversar ou interagir, recolhendo-se em seu quarto e lendo, ávido, tudo o que era relacionado à cultura de sua cidade. Leu sobre as criaturas da floresta que guiavam os judeus até a fazenda, sobre as ninfas que cantarolavam nas cachoeiras e matavam os soldados nazistas antes de chegarem em Liebedich. Sua história preferida era sobre Oriunus, o dragão de Komodo de Joseph. Tão focado e entretido ficou, que ao ler sobre a morte do animal, sentiu como se fosse o falecimento de um ente querido. De repente, desejou ter um animal de estimação que fosse tão companheiro quando Oriunus e vivesse grandes aventuras ao seu lado.

Comentando sobre as histórias com o febril Furtwängler, acabou descobrindo que o corpo do dragão foi enviado a Berlim para ser mumificado e guardado junto ao túmulo de Joseph. Decidiu se aprofundar na história e começou a estudar mais sobre o animal e a paixão por esculturas de Joseph. Ligando os pontos, ficou particularmente eufórico ao saber que uma das gárgulas que diziam ter protegido a cidade era responsável pelo mausoléu dos Klaus e estava bem próximo de si. No dia seguinte, muniu-se de lanterna, um caderno para desenhar e canetas, blusas de frio e uma cesta de piquenique pequena.

A lenda dizia que Joseph gostava muito de Oriunus pelo dragão ser presente de seu suposto amante, um judeu chamado Yeshua, e que o animal foi a única coisa que permaneceu ao lado do fazendeiro, já que seu parceiro foi capturado e morto nos campos de concentração. Oriunus era agressivo com qualquer um que se aproximasse de Joseph e que devorava, implacavelmente, quaisquer outros animais que se apegassem ao seu dono. Após ser alvejado por soldados nazistas, o pobre Oriunus conseguiu voltar para casa, porém os ferimentos eram gravíssimos e ele não resistiu. Joseph enlouqueceu de dor e mandou o corpo do dragão a Berlim, onde supostamente vivia um alquimista e pediu-lhe que criasse uma poderosa gárgula com o que restou de Oriunus. Munido de feitiçaria desconhecida, a gárgula Kayamus voltou à mansão.

Nostradamus parou perante o imponente mausoléu e engoliu em seco, tenso. Os boatos diziam que Kayamus era um ser ciente e com os próprios desejos, permanecendo fielmente ao lado de Joseph até sua morte. Por um momento, temeu encontrar uma estátua viva, mas a curiosidade e sede por aventura falaram mais alto e ele adentrou no lugar. Exteriormente, o mausoléu só causava medo por estar mau cuidado; no entanto, o interior parecia cena de filme. As paredes eram de mármore negro e estavam pichadas com palavrões, enfeitadas por trepadeiras e roseiras abandonadas. Cada um dos dez túmulos possuíam uma estátua diferentes, mas mantinham um certo padrão, sinalizando que foram feitas pelo mesmo escultor. Candelabros com restos de velas e ratinhos que perambulavam pelo chão e o barulho do vento batendo na pesada porta de madeira causavam-lhe um certo desconforto.

Ele se sentia observado e podia jurar que todas as gárgulas do recinto moviam seus olhos ao acompanharem a criança passar.

Sentou-se ao lado do túmulo de Joseph e ligou a lanterna, folheando desinteressadamente as páginas em branco. Desejava ao menos ter trazido um rádio, pois o silêncio era um tanto quanto opressor e bizarro. Decidiu comer para ver se a ansiedade passava e conseguiu relaxar, agasalhando as pernas e suspirando. Independente se Kayamus estava ali ou não, o mausoléu parecia um ótimo refúgio e talvez Henry também gostaria de treinar balé ali. Teve, então, a ideia de desenhar o arredor, assim treinando seus cenários. Perdeu a noção do tempo e a noite chegou.

Nostradamus só parou de desenhar quando ouviu passos pesados atrás de si e congelou no lugar, arrepiado de medo. Obrigado pelo pai, aprendeu artes marciais para se defender e tinha quase certeza que aquele não era o problema, porque o que quer que esteja atrás de si, não era humano. Sentiu-se envolto numa aura gélida e pôde ver a própria respiração materializar-se em uma densa fumaça perante seus lábios. Começou a estremecer e pegou a lanterna para poder enxergar o que o perseguia. Mas não havia nada ali e o garoto suspirou de alívio, voltando a se sentar e a desenhar.

— Fazem algumas décadas que não vejo alguém desenhando. — comentou uma voz masculina baixa, rouca e carregada de sotaque. — És apenas mais um curioso ou és um Klaus?

O grito nasceu e morreu na garganta da criança que, apavorada, apenas desmaiou de medo, sem chegar a ver o locutor.

Tadamus acordou com burburinhos ao seu redor, alguém chamando seu nome com preocupação e medo. Teria o pequenino adoecido ao brincar na neve? Teria Henry passado a gripe? O que aconteceu para que ele fosse encontrado inconsciente próximo ao mausoléu? Nostradamus não conseguia responder as perguntas e no final, deixou-se ser carregado pelo jardineiro até sua casa.

— Hen, Hen... Eu acho que tem mesmo uma gárgula viva lá embaixo. — comentou com urgência ao melhor amigo, ignorando o xarope que Magda tentava lhe enfiar goela abaixo. — Juro pela minha mãe que ela falou comigo!

— Isso deve ser culpa do medo. — retrucou Henry, tossindo. — Você sempre foi medroso.

— Por que você não acredita em mim? Nós podemos voltar pra lá quando você melhorar.

— Ah, qual é... Eu não quero ir pra onde os mortos estão...

— Se eu falo que a estátua 'tá viva, você não acredita em mim... Mas eu tenho que acreditar que você vê espírito?

— Eu vejo sim, Nost! — Henry inflou as bochechas e encarou o amigo, magoado. — Mãe, diz pra ele que eu sou aquilo lá.

— Os dois deveriam parar de brigar, isso sim. — Magda conseguiu dar remédio a Nostradamus e sentou na beirada da cama de casal, afagando as duas crianças. — Nostradamus, o Henry é médium e ele vê sim espíritos. Talvez você seja um também e o que viu lá embaixo é algum parente. Sentiu medo?

— Um pouco.— confessou com o orgulho ferido. — Eu olhei pra trás e não tinha nada, só uma voz perguntando se eu era um curioso ou um Klaus. M-mas, tia... O clima tava diferente e mais frio, e... E... Havia algo na voz... Ele parecia tão sozinho, sabe? Acho que se eu tivesse ficado lá, poderia ter visto melhor e fazer um pouco de companhia...

— Meu pequeno, quando ver ou ouvir um espírito, só reze pela alma dele, sim? Se ele for bom, ficará ao seu lado e se não for, Deus o levará e te protegerá. Promete?

Nostradamus assentiu com a cabeça e se aninhou melhor debaixo das cobertas, envolvendo o melhor amigo num abraço quente e afetuoso. Não tinha a menor ideia do que era um médium e tinha medo quando Henry falava as coisas que os espíritos diziam para ele, porém, tinha certeza absoluta que o que estava no mausoléu não era espírito e sim... Um ser vivo e sozinho. Pensar na solidão de Kayamus tirou totalmente o sono da criança.

Ele esperou todos na mansão dormirem e Henry parar de se mexer para poder sair da cama. Fuçou no guarda roupa até achar um par de luvas azuis com desenhos infantis, um gorro marrom que ganhou da avó e ainda passou na cozinha para poder pegar algumas frutas. Andou com cautela pela casa e enfrentou a forte nevasca e o vento furioso. Seus pés marcavam o chão e seus olhos quase não se mantinham abertos, fora o frio descomunal que sentia. Todavia, manteve-se firme em seu objetivo e conseguiu chegar até o mausoléu de alguma forma. Abriu a porta, ofegante e corado, e adentrou no local. Por causa da expectativa de poder conhecer Kayamus sem medo, o lugar não parecia tão macabro.

— Acredito que três horas da manhã não seja horário de criança estar perambulando por aí. — Nostradamus virou para trás, seguindo o som da voz de outrora. — Encontra-se perdido, pequenino?

— Meu nome é Nostradamus... Nostradamus Klaus! — bradou, ansioso e atrapalhado. — E-eu moro na mansão logo ali e... E... Se você for um espírito ruim, o Papai do Céu vai te levar embora!

— Oh, espírito ruim, você diz? O que seria um espírito ruim?

A voz vinha do túmulo de Joseph e o menino foi até lá, encarando o mármore com lágrimas nos olhos. Tremia, mas não sabia se era de medo ou frio e agarrava com força as coisas que trouxe para aquecer Kayamus. Vasculhou toda a área enquanto se acostumava com a penumbra e prendeu a respiração ao ver um homem sentado em cima do túmulo. Seu rosto se iluminou quando passou a identificar as características de gárgula.

— Oriunus...? — murmurou. — Você é o Oriunus da história!

— Eu sou? — retrucou a estátua, movendo-se lentamente. Seu corpo todo pareceu estalar e isso deixou Nostradamus um pouco desconfortável. — Não acredito que Oriunus seja vivo mais, pequenino. Primeiro tu apareces aqui e desmaia ao ver-me, em seguida volta e trata-me como um espírito ruim... E agora, coloca em mim nome de falecido? Não é por ser Klaus que hei de aceitar tudo o que vem de ti.

— N-não, não é isso... Eu não quis ofender você...— a criança abaixou os olhos, envergonhada. — Você tem cara de dragão e a lenda diz que a única estátua que se mexe é Oriunus, o protetor do meu bisavô... Você é um protetor, não é?

— Sim, sou. Não creio que consegues me enxergar com perfeição, Nostradamus. Posso providenciar luz, se quiseres.

— Por favor! — o menino não conseguiu disfarçar a empolgação. — Me deixa ver! Eu quero te ver!

Kayamus se sentiu um pouco incomodado com a inocência de Tadamus. Viveu tempo demais para ver horríveis crimes cometidos no mausoléu e imaginar que a criança poderia sofrer algo, fê-lo estremecer de pânico e nojo. A maldição de ser um guardião da família Klaus de repente pesou nas costas da gárgula, enquanto acendia uma vela com uma faísca saída da palma de sua mão. Ao topar com o olhar esmeraldino e úmido, os sentimentos ruins foram transformados em carinho paternal e ele fez muda promessa de proteção. Nostradamus era mesmo um dos seus e a estátua podia ver os mesmos trejeitos afáveis de seu criador.

Já o menino via apenas um homem fantástico com semblante tristonho. Kayamus tinha o corpo perfeitamente esculpido, apesar do desgaste do tempo. Os cabelos negros caíam sobre os olhos prateados e inexpressivos, os lábios carnudos protegiam presas ferozes e a nudez dele era tapada por uma túnica simples. Nostradamus imaginou que Kayamus media quase três metros, porém, as asas dracônicas deveriam ser bem maiores que isso e eram quase desproporcionais ao corpo magricelo e surrado. Percebeu também que os movimentos da gárgula eram limitados, pois haviam rachaduras ali e acolá e que as manchas das chuvas no rosto indiferente dele, formavam rastros parecidos com lágrimas. Os pés e os punhos eram furados como os de Jesus e o rosto era longo e cuidadosamente adornados com o que pareciam ser escamas. Como se tudo isso não fosse estranho, Kayamus ainda tinha um rabo cumprido e pontudo.

— O que traz um Klaus às criptas? Almeja saber mais de sua história?

— Não, minha mama já garante que eu saiba bastante sobre nós. — o menino estendeu as coisas que trazia nas mãos, eufórico. — Achei que estivesse com frio ou com fome.

— Oh, entendo... Eu, hum, agradeço.

A gárgula sentou-se no chão e analisou os itens um a um, com cuidado. Imaginou que contar ao pequenino que não comia ou se vestia partiria o coraçãozinho dele e vestiu as luvas, incomodado por ter rasgado o tecido. A touca ficou desengonçada e apertada, porém, foi o presente que mais gostou. Sua cabeça estava trincada e lascada, o vento ecoava no vão e Kayamus considerava o barulho irritante. Por ser esculpido com a feição séria, ele não demonstrou nenhum tipo de sentimento e seu olhar era vazio.

Nostradamus borbulhava de felicidade e satisfação, pois ao menos visualmente, a gárgula já aparentava estar mais aquecida e pronta para o rigoroso inverno. Ofereceu as maçãs e bananas, mas foi gentilmente recusado e só aquietou o facho quando lhe foi explicado que o outro se alimentava de animais. “Nada mais digno para um dragão de Komodo”, refletiu o menino.

— Ei, Kayamus... Como... Como era meu bisavô? Sei o que ele representou, m-mas...

— Joseph era pequeno como você. — a gárgula sentou no túmulo e chamou a criança para perto. — Tinha um coração tão grande que, quando caçava, era incapaz de matar um animal. Ele comprava carne de fora, apenas para não ter que usar os da fazenda... Era poeta e escultor. Mas não suportava os inimigos... O que Joseph tinha de benevolente e amoroso, tinha de carrasco implacável e impiedoso. Ele torturou um homem por mais de três meses, com um médico ao seu lado para garantir que a vítima não morresse. Tudo o que você imaginar de ruim que se pode ser feito num ser humano, Klaus se assegurou que o homem sofresse.

— Por que? O que esse homem fez?

— Matou a pessoa que seu bisavô mais amou. Você, pequenino, não ficaria bravo se alguém machucasse sua mamãe?

— Meu pai machuca a mama. — a naturalidade de Nostradamus assustou a gárgula, que se recolheu em silêncio. — Quando ele está aqui, a obriga fazer coisas que ela não quer ou bate muito, até ela desmaiar ou a vovó entrar no meio. Uma vez ele me bateu, porém, a mama não deixou que ele ficasse muito tempo comigo e... Ah, ele descontou nela. Nesse dia, ele quebrou meu braço... Mas veja! Eu consigo mexer meu braço todinho sem problema algum.

— Permita-me saber vossa idade?

— Eu sou um homem de dez anos. — bradou orgulhosamente.

Kayamus suspirou e fechou os olhos, analisando a situação. Pelos anos que já viveu, tinha certeza absoluta que o menino não era homem, não no sentido que o patriarca gostaria. Era trágico saber que um Klaus se desvirtuou de tal maneira a ponto de desonrar a memória de Joseph, o qual não aceitava qualquer tipo de violência contra familiares. Refletiu que, talvez, estivesse tempo demais no subsolo e que os costumes tivessem desaparecido com o tempo, mas era fato que a criança precisaria de ajuda para amadurecer em seu tempo certo, aceitando quem ele era e respeitando todo tipo de pessoa. Seria um pecado e um erro inadmissível para Kayamus não educar Nostradamus da forma correta e precisou de muita cautela para poder se expressar sem assustar o pequenino.

— Conhecemo-nos hoje e numa hora tardia. — sussurrou. — Podes vir amanhã de manhã, se assim desejar. — Kayamus se sentiu apavorado, pois sequer imaginava como falar sem parecer um pedófilo de pedra. — O que gosta de fazer, Nostradamus?

— Desenhar e pintar, balé e cantar.

— Não te sentes apavorados ao ver-me e dirigir-me a palavra? —o menino balançou a cabeça negativamente. — Tu és curioso demasiado, Nostradamus Klaus. Sou péssimo nos assuntos que te agradam, mas... Posso aprender. Tens algum amigo?

— O Henry, só que ele 'tá bem doente. 

— Tudo bem, creio eu. Estimo melhoras ao Henry. Quando ele estiver melhor, traga-o aqui. Por enquanto, podes praticar o que quiseres e não irei julgá-lo. Vem, levarei-te à vossa casa. — envolveu o corpo do menino nos braços e se levantou.

— Sério? Sério mesmo? Posso mesmo vir pra cá com o Hen e treinar?

— Sim. Todavia, não te acostumes, Nostradamus. — fechou as asas para protegê-los das rajadas de vento. — Não aceitarei nada menos que a perfeição. Só parará quando caíres no chão inconsciente, fiz-me claro?

— Sim, senhor! — o menino ergueu o rostou para encará-los nos olhos, incomodado com alguma coisa que passou desapercebida ao guardião. — Kayamus... A gente precisa dar um jeito nesse teu vocabulário. Você 'tá bem ultrapassado.

— Oh, agora ouvi abobrinhas. Irei anotar em meu diário que não gostou de meu vocabulário requintado, pequenino.

A risada de Nostradamus ecoou pelo jardim enquanto voltavam à mansão, sob o olhar vigilantes das outras estátuas e a proteção de Kayamus. 

— Eu gostaria muito de ser seu amigo, Kaya. Prometo pela minha mama que jamais irei te abandonar. — estendeu o dedo mindinho. — Isso é uma promessa.

Jan. 21, 2019, 11:12 p.m. 0 Report Embed 2
To be continued... New chapter Every 15 days.

Meet the author

Comment something

Post!
No comments yet. Be the first to say something!
~