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Mia Marett


“Quer me contar onde estava?” “Eu não sei” “Você não se lembra?” “Estava sempre escuro... Eles não me deixavam ver” “Quem são eles?” “Eu não sei. Eles não me deixavam ver” “O que deixavam você fazer?” “Eles... queriam que eu contasse” “Contasse o que?” “Os segundos. Tinha um relógio e eu... Podia escutar o barulho dos ponteiros”.


Thriller/Mistery All public.

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Prólogo

James achava que nunca se sentira assim antes. Não porque talvez nunca tenha passado por isso, mas sim porque se houvesse em sua memória qualquer relance de um momento parecido, ele há muito já se fora. Sua pouca idade e interesses limitados não o permitiam guardar muita coisa. 

 “Papai”, ele queria perguntar, “alguém já morreu antes?”, mas haviam dito, mais cedo naquele mesmo dia, que não deveria falar demais, que não deveria rir, correr, ou brincar. Haviam explicado que aquele era um momento delicado para a família e que não seria correto tagarelar. Diante daquilo, James entendia que morrer era algo bastante sério, o que fazia com que fosse ainda mais urgente se lembrar do sentimento; não parecia nada certo esquecer a morte de alguém.

 Ele estava sentado em uma cadeira alta demais, os pés balançando na beirada, moles, um deles começando a ficar dormente. Vovó estava parada do outro lado da sala, uma xícara nas mãos, o rosto sério, olhando para os próprios sapatos. Ela não estava falando nada, com ninguém; James entendia que ela estava seguindo bem as regras, melhor do que a maioria das outras pessoas. 

 “O Vovô faleceu”, Mamãe havia dito, na noite anterior, com os olhos úmidos. James e ela estavam sentados naquela mesinha de madeira escura, perto da janela, a qual chamavam de Mesa das Notícias, porque era onde Mamãe colocava a correspondência e chamava para conversar sobre assuntos importantes. James ligara para Damien depois disso, pois não tinha certeza do que “falecer” significava, mas sabia usar o telefone. Depois chorara um pouquinho, porque achara adequado, porque sabia ser isso o que as pessoas faziam quando alguém morria. Achava que tinha visto na TV. 

 Papai não parecia triste, apenas um pouco mais irritadiço do que o normal. Não parava de repetir que deveriam processar a prefeitura, afinal a morte tão imprevisível de um senhor de setenta anos só poderia ser por causa dos pesticidas. 

 “Essa droga que somos obrigados a respirar!”, resmungava. “Não me olhe assim, Heloísa”, acrescentava, mal humorado, “seu pai trabalhou nas plantações por anos mexendo com esse veneno, você mais do que ninguém sabe disso”.

 Era uma teoria plausível, mas James não achava que aquela era uma boa hora para aquele tipo de comentário.

 Talvez ele devesse ter chorado mais, como Mamãe e Tia Jodi estavam fazendo desde ontem, mas chorar dava dor de cabeça, e ele acreditava que Vovô não se zangaria. 

 James pensava que nunca se sentira assim. E, bom, ele realmente não tinha visto alguém morrer antes, então entendia que tudo bem. 



 Considerado por muitos como um local de difícil acesso, a cidade de Santa Antonieta parecia o encontro de todas as estradas de terra do estado. Foi fundada sob um céu nublado, numa quarta feira, em 1837, há pouco mais de cento e quarenta e sete anos. Seus primeiros habitantes, famílias esperançosas, buscando uma vida nova, prontas para investir todo o seu dinheiro num pedaço de terra, espalharam o boato de que seria uma cidade vigorosa.

 E talvez o fosse de fato. O perímetro de Santa Antonieta era montanhoso, com subidas tão íngremes, que de nada valiam as descidas, mas o clima era ameno, a terra era saudável e as casas se ergueram charmosas e coloridas e toda a sua população vivia naquela área, pois sua escassa parte plana tinha sido guardada para o plantio. Não se podia ser preguiçoso para viver lá; os empregos disponíveis eram de trabalho braçal duro e sem muitas regalias.

 Durante muitos anos, Santa Antonieta foi um destino famoso, principalmente no outono. Tornou-se conhecida pela grande quantidade de árvores frutíferas, que davam os maiores frutos de que já havia se ouvido falar, e deles eram feitos as melhores geleias, doces e licores. Foram abertas inúmeras hospedarias para abrigar a grande quantidade de turistas que chegavam, e esse também se tornou um ramo lucrativo. A produção era farta e quase sempre cobria a demanda, mas a necessidade de novos trabalhadores fez com que as contratações fossem frequentes, e a cidade cresceu ainda mais com a chegada de pessoas em busca de oportunidades.

 Foi um período e tanto: noventa e oito anos de progresso; a onda de boa sorte parecia eterna. Até que as mariposas chegaram. 

 Não se sabe de onde vieram, ou como surgiram. Um dia, de repente, estavam lá. Suas larvas se alimentavam das frutas impiedosamente, e todo o dinheiro da cidade precisou ser, subitamente, revertido para a compra de pesticidas. Santa Antonieta não tinha estrutura para lidar com o problema, e tanto tempo focada apenas em produção não deixou espaço para outros tipos de investimento, de modo que não apenas às plantações foram lançados os pesticidas, mas também a população era obrigada a lidar com o ar fétido e pouco respirável. Tentaram de tudo, mas nada deu jeito. Aparentemente, os insetos estavam lá para ficar, e a luta seria constante, alguns diriam até eterna.

 Só ficou mesmo quem não tinha escolha. Os turistas apareciam, mas não se atreviam a voltar, e a noticia correu mais rápido do que maratonistas. A produção era escassa, as hospedarias fecharam, o desemprego tomou conta, tantas famílias se mudaram, tantos outonos chegaram e passaram, e a cidade continuava vazia, sem perspectivas de melhoria. Ninguém sabe como Santa Antonieta foi capaz de alcançar tantos aniversários. 

 Até mesmo aqueles que não tinham o costume de exagerar pensavam dessa forma. Afinal, com as árvores condenadas, seria de se esperar que a cidade caísse em ruínas; porém houve uma chance de se reerguer, quando, em meados de 1935, a chegada de uma pequena indústria de salgadinhos de milho trouxe novas esperanças. Os pesticidas foram esquecidos e, no primeiro ano, tudo parecia transcorrer com perfeição: empregos para todos e movimentação em um lugar no qual antes qualquer barulho era motivo de susto. 

 Mas, como parecia ser a condenação de Santa Antonieta, as mariposas se provaram um grande martírio novamente. Com a diminuição do uso de pesticidas, os bichinhos procriaram feito loucos, e se embrenhavam por qualquer fissura para dentro das construções. A estrutura das casas começou a ruir e de manhã era possível ver as donas de casa varrendo os insetos mortos na entrada de suas residências; quem tinha ainda um pouco de dinheiro guardado conseguiu se precaver, mas o problema espantou mais uma parte da população. A fábrica de salgadinhos também não se salvou: levou um tempo para descobrirem a invasão, até que os pedacinhos de inseto no meio dos flocos de milho se tornaram impossíveis de ignorar. 

 As reclamações não tardaram a chegar, e logo a indústria também se foi. Entretanto, não era do feitio do povo daquela cidade interiorana se lamentar, e eles logo voltaram para a velha rotina dos pesticidas. 

 E assim a promissora Santa Antonieta se movia devagar, mal saindo da fase sonhadora na qual foi fundada. Sua irrelevância era tamanha, que a rodovia mais próxima foi projetada para dar a volta em seu perímetro, o que fazia com que a entrada e saída de visitantes fosse praticamente nula, e aqueles que soubessem o caminho perdiam-se com tanta frequência que acabavam enraivecidos e quase nunca retornavam. 



 O ano de 1977 foi de grandes mudanças. A morte de Vovô foi apenas a primeira delas, e acarretou as demais com uma mão nas costas. James jamais poderia imaginar que tanta coisa aconteceria em tão pouco tempo e não tinha certeza se estava contente, mas preferia não dizer nada. Entendia que se precisassem saber, alguém lhe perguntaria.

 Pouco tempo após o funeral, ele não sabia ao certo quanto, pois as crianças não contam o tempo como os adultos, Mamãe decidiu que seria mais saudável que Vovó fosse morar com eles. Ela acreditava que não seria nada bom para a matriarca da família viver sozinha e triste numa casa enorme. James não entendia o que isso queria dizer, e achava um pouco injusto que fosse Mamãe a decidir, até porque a casa de seus avós nem era assim tão grande. 

 Ele bem que gostaria de ter opinado, mas tia Jodi também foi à favor da mudança, e antes que qualquer um se desse conta, Vovó estava morando no quarto de hóspedes, sua antiga casa vendida, o carro e os móveis também. Mamãe dizia que iria guardar o dinheiro para usar quando necessário. James queria perguntar se a próxima necessidade viria com um funeral, mas Papai lhe lançou um olhar feio, o que encerrou o assunto. 

 Mamãe e tia Jodi ficaram em êxtase. Passavam o dia todo puxando o saco de Vovó, dando-lhe chá, oferecendo cortinas novas para o quarto ou fronhas que combinassem com o lençol. James imaginava soldados montando guarda, uma escolta particular para o presidente, ou algo assim, e não achava difícil visualizar sua mãe e sua tia usando farda. Ele correu e contou isso para Vovó e viu como ela achou engraçado, e riu quando ela riu também, mas durou só um pouquinho. 

 Apesar de todos os esforços da família, Vovó raramente interagia. Gostava de tomar chá, fazer as palavras cruzadas e sentar perto da janela da frente para olhar o movimento (não que houvesse muito), mas não era uma mulher falante. Tinha os olhos um pouco fundos, pois não conseguia dormir direito, e um sorriso de lábios fechados, pois também não conseguia sorrir direito. A morte de Vovô a deixou melancólica para sempre. 

 James se lembrava de raros episódios naquele ano nos quais Vovó demonstrou algum sentimento. O primeiro deles foi seu aniversário de 9 anos, quando ele ganhou uma bicicleta que tinha uma lanterna de verdade embutida, e ficou tão feliz que passou o dia quicando pela casa, alvoroçado, sem sequer se lembrar de que não sabia andar de bicicleta ainda. Vovó soltou uma gargalhada audível quando viu a cara de surpresa do neto com o presente. A segunda vez foi quando tia Jodi anunciou em um jantar familiar que estava grávida do quarto filho. 

 “Deus do céu, Jodi. Você e seu marido parecem coelhos”, Vovó resmungara, entre incrédula e divertida. Ninguém soube o que responder. 



 As filhas de Sarah Bennet tinham apenas dois anos de diferença uma da outra. Quando a primeira nasceu, Sarah tinha pouco mais de trinta anos e ainda se achava bastante imatura para ter filhos. Ela e Edgar moravam em uma cidade grande e barulhenta na época, e sentiram a imediata necessidade de se mudarem para um lugar mais tranquilo para criar a pequena Heloísa. 

 Nem tão jovens assim, porém ligeiramente inexperientes, acabaram optando por Santa Antonieta sem pensar duas vezes, investiram todo o dinheiro que tinham em uma casa grande com garagem, muito embora não houvesse carro algum para botar ali, e Edgar quase não conseguiu arranjar emprego, não fosse por um senhor que perdeu a perna e acabou se aposentando por invalidez, deixando sua vaga em aberto nas plantações.

 Quando enfim estavam se adaptando, Sarah se viu grávida novamente; irritou-se mais do que comemorou, e assim que pegou Jodi nos braços, olhou bem para a cara do marido e prometeu ser total e completamente infértil pelo resto da vida. A promessa se cumpriu, claro; Sarah era uma mulher de gênio forte. 

 As meninas cresceram sem grandes acontecimentos; não havia o que acontecer num lugar como aquele. Os pais tentaram alimentar nelas o desejo de estudar, mas Heloísa se tornou uma moça de horizontes limitados, queria encontrar um bom partido para se casar, construir família e ser dona de casa, enquanto Jodi era romântica e insensata, tinha o sonho de encontrar um príncipe que a levasse para longe, e consequentemente se apaixonava no mínimo uma vez ao dia. As irmãs se davam muito bem, andavam sempre juntas, e todos os grandes acontecimentos de suas vidas se deram ao mesmo tempo. Ambas eram incomparavelmente loiras, como todo membro da família Bennet havia sido desde o principio, e mantinham-se bonitas o suficiente para que chovessem rapazes em seu quintal (o que para elas era a única coisa com a qual precisavam se preocupar), o que perdoava facilmente toda falta de inteligência e escassez de vocabulário.

 Heloísa acabou encontrando o que queria em Inácio O’Connor, um homem sete anos mais velho do que ela, com um bom cargo no cartório da cidade e uma casa de esquina. Jodi se apaixonou, e dessa vez jurou ser coisa séria, por Bill Karl, um rapaz mulherengo, porém carismático, herdeiro de uma fortuna (que acabou liquidando em menos de dez anos em jogos de pôquer, mas isso não vem ao caso) e aprendiz no escritório de advocacia do pai. 

 Casaram-se juntas, na mesma igreja, no mesmo dia, e os vestidos de suas madrinhas combinavam. Sarah achou que morreria de desgosto, mas repreendeu-se por isso; queria que as filhas fossem felizes e se era esse o caminho, ela também deveria se alegrar.

 As irmãs tiveram o primeiro filho no mesmo ano, compraram carrinhos iguais e andavam lado a lado, orgulhosas, na rua. Era perfeito. 

 Até o dia em que deixou de ser. 



 A maior das mudanças aconteceu com tia Jodi, quando a mesma, então grávida de 5 meses, anunciou que ela e tio Bill estavam se divorciando. Vovó bufou com a notícia, e soltou algumas palavras como “traste”, ”aquele biltre cafajeste” e “você precisa arrumar um emprego, filha”. James não sabia o que “biltre” significava, mas parecia um insulto bem colocado.

 O motivo obscuro que rondava a separação de seus tios não chegou aos ouvidos de James; Mamãe lhe explicou apenas que agora seus primos teriam duas casas, e tia Jodi um novo marido.

 Mas logo ficou claro que não era bem isso: assim que assinou os papéis do divórcio, tio Bill evaporou, sem deixar endereço ou telefone, o que significou que a única casa que seus primos teriam era a que tia Jodi pudera comprar com o dinheiro que recebera da separação; o lado bom, é que a casa ficava á dois quarteirões da casa de James, e ele teria companhia para brincar sempre. E o novo marido que Mamãe esperava para tia Jodi acabou não chegando. Ela insistiu para que a irmã se casasse novamente, achava uma baboseira aquela história de mãe solteira, mas tia Jodi não parecia nada inclinada a sair por ai procurando um marido. 

 “Não, não, não”, dizia ela, “Heloisa, sou divorciada, mas não sou estúpida; posso dar conta dos meus filhos e da minha casa sozinha”. E não era por falta de pretendentes, pois eles apareciam aos montes. O fato era que tia Jodi não estava interessada em namoros; era bonita e espalhafatosa, a única mulher que James poderia chamar de curvilínea, e jurava que só se casaria de novo quando se apaixonasse. 

 James a achava corajosa. Sua mãe a achava burra. 

 “Você não sabe a fama que está conquistando”, Mamãe a alertava. “Veja aquele coitado do Harris”, e apontava para qualquer lugar. 

 “De que você está falando, Helô?”, suspirava tia Jodi. 

 “Thomas Harris”, dizia Mamãe, com aquele tom de impaciência. “O homem que mora na casa em frente a sua. Sua mulher o abandonou, e ele criou três filhos sozinho! Aquelas crianças são praticamente medievais!”.

 “Ora... Talvez eu e o Harris façamos um belo casal, então”, brincava tia Jodi e ria da cara da irmã. 

 Mamãe usava Thomas Harris sempre quando necessitava de exemplos negativos para o que dizia. Ele era seu tipo preferido de argumento para ganhar discussões. Até Papai abaixava a cabeça com a menção do homem.

 “Vá limpar aquele quintal, James! Ou você quer que nossa casa fique igual ao do Harris?”.

 “Vê se penteia esse cabelo, ouviu? Quer ser igual aos filhos do Harris?”.

 “Inácio, coloque o carro dentro da garagem, parece que vai chover. Não quero que a lataria enferruje como aquela caminhonete velha do Harris”.

 James conseguia entender os motivos pelos quais a mãe sentia a necessidade de ser diferente daquela família. Ele estudava na mesma sala que Ellie Harris na escola, e só de olhar para a menina já se via que ela não era do tipo prendada. O cabelo todo embaraçado, as vestes amarrotadas e as perguntas mais inconvenientes do mundo. James nunca se sentava perto dela; Damien dizia que era perigoso por causa dos piolhos. 

 A única coisa que tia Jodi rapidamente tomou providências foi Russel, o cachorro. Infelizmente, a casa nova não teria espaço para ele. James foi o primeiro a se candidatar para cuidar dele, sempre quisera ter um cachorro, e Bernardo, o filho mais velho de tia Jodi, deixou claro o quanto gostara da ideia, pois poderia visita-lo sempre. Mamãe não ficou muito contente com o novo morador, mas deu seu consentimento, contanto que não tivesse problemas com o cheiro, ou a sujeira, que James prontamente prometeu manter sob controle.



Tão logo Bill e Jodi concretizaram seu divórcio, Heloísa viu abrir diante de si um gigante abismo separando-a da irmã. Era uma queda livre incalculável, depois de tantos anos fazendo tudo juntas, surgira uma coisa na qual Heloísa jamais pensaria em seguir Jodi. Pelo contrário, sentia-se constrangida por ela, envergonhava-se de seu destino, de sua imperturbável confiança em ser mãe solteira, criar quatro filhos sozinha. Tentara fazê-la ouvir a voz da razão, insistira para que se casasse novamente, mas foi em vão.

 Sarah, diferente da filha mais velha, estava orgulhosa de Jodi. Lamentava que Edgar já não estivesse lá para ver, mas sabia que ele também se orgulhava, muito embora com certeza já o fizesse antes. 

 As irmãs já não andavam juntas lado a lado na rua. Viam-se pouco, mal se falavam ao telefone; o constrangimento de Heloísa perante a irmã foi muito maior do que a saudade. Achava que o único conserto para a situação era o retorno de Bill para a família, mas o mesmo não se sentia tentado a voltar, tampouco Jodi o aceitaria. 

 Ao contrário do que todos esperavam, a caçula arranjou logo um emprego como garçonete e manteve sua família estável sem grandes problemas. Ela estava feliz com o próprio sucesso, seus três filhos viviam bem, ainda que sem luxo, e a gravidez seguia com tranquilidade.  

 

 

 O quarto filho de tia Jodi nasceu em uma manhã preguiçosa de domingo. James não se lembrava de ter visto outros nascimentos, mas sabia que já tinha acontecido antes, afinal ele tinha dois primos mais novos. Naquele dia, a família inteira se reunira na sala de espera da maternidade por horas; James estava sem relógio, então não tinha certeza, mas sabia que ficaram aguardando por muito tempo, pois em determinado momento se pegara contando as listras do papel de parede do lugar. 

 Seu pai tentara contatar tio Bill várias vezes, porém sem sucesso. Mamãe estava terrivelmente frustrada com isso, mas tia Jodi não parecia preocupada quando a informaram que o pai do bebê não havia comparecido. Ela estava cansada e sorridente, e chamou os outros filhos para que ajudassem na escolha do nome. A discussão durou pouco tempo; Gabriel, até alguns minutos antes o caçula, teimara que o nome do irmãozinho deveria rimar com o seu. 

 E assim batizaram o bebê de Daniel. Vovó foi a primeira a aprovar a escolha, e também a primeira a segurá-lo no colo, e sorria quase tanto quanto tia Jodi. 

 A choradeira veio, é claro, mais tarde quando alguém, James não se lembrava quem, mencionara o quanto Vovô estaria feliz se estivesse ali; piorou um pouco quando logo depois Daniel também começou a chorar, mas os motivos dele não eram assim tão nobres. Tia Jodi lhe ofereceu o peito: era fome.  


Jan. 4, 2019, 7:12 p.m. 1 Report Embed 0
To be continued... New chapter Every Monday.

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Hugo Martins Hugo Martins
Parabéns pelo prólogo! O texto tem ritmo e é bem narrado.
Jan. 6, 2019, 9:29 a.m.
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