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lux-noctis Lux Noctis

Ele só não queria ser um estepe, aquele que serve apenas para ocupar o lugar de alguém que se foi. Ele só não queria ser a segunda opção para sempre. Queria ser pelo menos uma vez a pessoa certa, para aquele que tanto amava. [ShikaNaru] • levemente baseada na música: Use Me - Goo Goo Dolls • continuação indireta de This Year’s Love


Fanfiction Anime/Manga All public.

#naruto #shikanaru #shikamaru
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Baby it's alright, you can use me anytime


“I may put you on a pedestal, but I'm not your fall from grace
Maybe I enjoy the punishment, maybe I enjoy the chase
You say you love me in the darkness, but in the day I am denied
Baby, it's alright, you can use me anytime...
It doesn't really matter if I only fill the space
Of someone you've not forgotten
Of someone who's gone away”

 

 

—  Então ele foi.

Naruto findou o seu monólogo enquanto Shikamaru acendia outro cigarro, ficando à janela do amigo, evitando que a fumaça invadisse aquele cômodo como se fosse do seu direito. Soprou a fumaça, notando-a bailar de encontro ao vento do fim de tarde, seguindo rumo ao sol que já se punha por trás dos prédios ao redor.

—  Já era esperado, não?

Shikamaru sabia bem o envolvimento que Naruto tinha com Sasuke, embora nem todos soubessem disso. O Uchiha era sempre tão discreto, era um milagre que Naruto e sua boca grande mantivesse tudo em segredo. Mas Shikamaru sabia, não por ter visto, mas sempre soube. Ele sabia identificar o desejo de Naruto por Sasuke, o desespero em chamar sua atenção e em querê-lo sempre por perto. Shikamaru era observador demais para deixar que isso lhe escapasse. Notava também que por mais emburrado e indiferente que o Uchiha pudesse ser, também havia uma parcela de desejo que ficava sem esconder.

—  Shikamaru… —  a voz parecia cortá-lo, fazendo com que Shikamaru fechasse os olhos antes de por fim virar-se para Naruto. —  Ele realmente se foi.

Merda! O que ele queria? Ele sabia desde o início de tudo aquilo sobre a inconstância de Sasuke, sobre seu desejo e sede por ser mais, por ter mais poder. Para que pudesse vingar sua família, adivinha só, matando o restante dela.

Shikamaru coçou a nuca enquanto assistia Naruto fechar os olhos, mirando o chão, vendo logo depois uma lágrima solitária deslizar pelo rosto, até encontrar no chão sua residência final. O loiro estava quebrado, tal como Shikamaru ficava ao vê-lo assim. Impotente ante à dor alheia, não sabendo como confortá-lo, se é que isso era possível quando o coração que parecia romper, rasgar e doer.

Sentou-se ao lado dele, o cigarro há muito apagado no beiral da janela, jazendo ali pela metade. As pernas cruzadas à frente, como se meditasse, apoiando as mãos, uma em cada coxa, respirando fundo enquanto escolhia bem as palavras para dizer à ele.

—  Se você continuar assim, as pessoas vão desconfiar. —  Não era exatamente assim que ele pensava em começar, mas um choque de realidade por vezes era necessário, e se Naruto e Sasuke se empenharam por tanto tempo para deixar aquilo em segredo, não poria ele tudo a perder agora, não é? Não quando teria que arcar com tudo sozinho.

—  Eu dou meu jeito, sempre fiz tudo sozinho mesmo, não mudou muita coisa no fim das contas, não é? —  o timbre trazia o amargo que parecia queimar em sua garganta.

—  Engano seu.

Pôs-se de pé era irritante como em momentos como aquele uma adrenalina parecia corroer-lhe por dentro, atiçando-o a não se manter parado; era irritante, no mínimo.

De fato Naruto estava errado, ele há muito não estava sozinho. Shikamaru era um dos que nunca sequer ligou para o fato de que uma das bestas de cauda estava selada ao menino. Shikamaru via-o como um “qualquer”, alguém que merecia sua atenção, tanto quanto qualquer outra criança, não o repelia, pelo contrário. sempre tentava trazê-lo para mais perto, porque ele era só. Shikamaru era um dos rostos que Naruto lembrava-se também, desde mais novo. O sorriso preguiçoso que aceitava brincar, mas preferia ficar deitado apreciando as nuvens enquanto Naruto corria gastando as energias, para então cair exausto ao seu lado. Foram incontáveis as vezes que Shikamaru levava lanche para dois na escola. Naruto fora um idiota ao alegar que estava sozinho. Ali mesmo, ele não estava. Era sempre cego quanto à isso, parecia que no mundo nada além de Sasuke importava, e ele notou isso quando Shikamaru se pôs de pé, voltando a fumar. Reclamava da insensibilidade do outro, e oras vejam só, agia de igual maneira.

—  Engano meu. Você sempre esteve comigo, eu que não quero colocar mais esse peso sobre seus ombros também.

Quantos anos tinham? 60 cada? Pareciam dois velhos falando sobre uma vida inteira de erros que haviam levado. Sobre o árduo peso que levavam nas costas.

Eram amigos há tanto tempo, que Shikamaru não considerava mais o peso, não era mais algo “complicado”, muito embora tornasse cada vez mais complicado.

Naruto olhava as costas de Shikamaru, trajando ainda o colete, vindo recente de uma missão, e ao contrário de ir para casa descansar após o relatório à Hokage, estava ali, provando ser o fiel amigo que Naruto sequer merecia ter, mas precisava e muito!

—  Shika… —  ele tentou, céus, como tentou. Buscou passar um tom diferente que não o de dor, mas sua voz o entregava, o peso que parecia sufocar-lhe o peito, esmagar o coração e fazer doer. Estava tudo ali, empregado em sua voz enquanto o sorriso vazio ocupava-lhe os lábios de forma triste.

Shikamaru via o reflexo no vidro, via a tristeza tragar o outro, assim como ele tragou o cigarro. A fumaça invadindo suas vias respiratórias, queimando a garganta enquanto fazia breve morada aos pulmões, intoxicando tudo com a nicotina. Nublando a mente enquanto permitia-se prender a respiração o máximo, sem que tossisse.

Aquela não era a primeira vez, mas ele queria tanto que fosse a última. Queria que Naruto não mais caísse nos encantos de Sasuke, queria que o amigo fosse forte para se impor e dizer “não”. Queria que ele não mais se jogasse de cabeça à qualquer sinal de que o outro havia mudado, quando todos sabiam bem, ser impossível acontecer. Não quando havia sede de vingança, não quando o coração era inquieto e não se permitia apegar à ninguém, nem mesmo à Naruto.

—  Você acha que ele foi por não me amar?

A pergunta viera de surpresa, tamanha que fez Shikamaru se engasgar ao tragar novamente o cigarro. Comprimindo os olhos para que a fumaça expelida de forma qualquer não chegasse à retina. E agora aquela, como responderia aquilo?

Não tinha como responder algo de cunho tão pessoal, sem que sua resposta afetasse de uma vez por todas qualquer outra atitude de Naruto, e aquilo não cabia à ele, não mesmo! Por mais que quisesse por juízo na mente do amigo, quem dentre eles poderia fazer isso? Shikamaru era visto como um rapaz de intelecto superior, mas juízo de fato por vezes lhe faltava. Não poderia impor algo à Naruto, quando em determinadas ocasiões lhe faltava também.

—  Shikamaru, me fala.

Que merda!

Sua mente estava nublada, não pela fumaça do cigarro que estava aceso entre seus lábios. Estava nublada com as respostas que queria dar, e as que não poderia falar, em nenhuma circunstância.

—  Você sabe que ele sempre vai escolher a vingança, Naruto. É mais forte que ele, é mais forte que qualquer outra coisa que ele possa sentir. —  Superficial, era a melhor resposta que poderia dar, sem que perdesse a compostura e berrasse para que Naruto largasse aquele maldito vício de vez. Para onde iria com tudo aquilo? Não era o certo, sofrer daquela maneira por alguém que sequer o via. E ele queria muito estar apenas dizendo isso sobre Naruto, e não sobre si.

—  Não precisa ser tão duro com as palavras.

— Não? Eu não fui duro, Naruto, estou sendo franco. Tem diferença. Vocês idealizaram um Sasuke que não existe, apenas na mente de vocês. Você, a Sakura, por muito tempo a Ino, viram nele algo que não existe. Ele não é o tipo de pessoa que vai ficar ao lado de vocês quando tudo parece ruir. Ele não é o cara que vai abrir mão da vingança que quer travar contra o membro restante da família. Eu não senti na pele o que ele passou e nem desejo. Mas isso já beira o absurdo, à loucura! —  estava ali de coração aberto, e a mente jogando as palavras para os lábios sem o filtro que normalmente tinha. Talvez fosse o cigarro talvez fosse ver a feição destruída de Naruto contra o vidro daquela janela. Talvez fosse o pôr-do-sol que trazia consigo a penumbra da noite. Tantas explicações cabiam ali. Mas a verdadeira era: ele não aguentava mais.

Shikamaru estava sufocado por todos os anos que precisou ficar ao lado de Naruto, amparar-lhe quando o mundo do amigo parecia ruir, para então apenas não desmoronar porque ele o ajudava a segurar.

Acendeu mais um cigarro, beirava ao vício, era claro. Mas não fumava naquela intensidade sempre, na verdade havia começado há pouco, mas já parecia tão familiar com a fumaça, talvez fosse culpa de Asuma. Estava sempre fumando, a fumaça não mais o incomodava, trazia na verdade uma estranha paz, uma clareza à sua mente, mesmo que a deixasse turva quando tragava rápido demais. Ainda era preferível aquele veneno, do que o que estava sentado no chão daquele cômodo, abraçado às pernas, porque mais uma vez um idiota o havia deixado.

Havia o sofrimento por tabela, uma vez ele escutou isso de Ino. Alegando que sofria por tabela sempre que Sakura também sofria. De primeira ele sequer chegou a entender aquilo. Infelizmente agora conseguia entender, e odiava cada vez que acontecia. O ridículo era que tanto Ino quanto ele sofriam por tabela, sempre que Sasuke fazia alguma merda.

Sua mente bombardeava-o com as cenas vergonhosas quando ele e Ino tentaram algo mais que serem amigos, afinal, sofriam por pessoas que sofriam pelo mesmo cara. Em meio à tragada sentiu no lábios o toque dos da loira, como uma recordação amarga, não por ser de fato ruim, mas por não cativar seu interesse. Por não ser capaz de lhe fazer sentir a necessidade de beijá-la como se sua sanidade dependesse disso. Ino riu ao final daquele beijo, alegando o mesmo que ele. Sobrava carinho, mas era de se esperar, eram amigos afinal.

Ele não notou que sorria ao recordar do fatídico dia, não pelo beijo sem paixão, mas sim por pensar como seria de fato beijar alguém por quem nutrisse algum sentimento mais forte que a empatia vinda com a amizade.

—  Acho que você tem razão. —  As palavras do loiro estavam um pouco mais firmes no timbre de voz, enquanto se colocava de pé, rumando na direção de Shikamaru, tocando-lhe o ombro para que lhe dessa também espaço frente à janela. Tomou o cigarro dos lábios alheios, levando-o aos próprios, tragando a fumaça, tão logo fazendo careta em desaprovação à queimação que vinha com tudo aquilo. —  Caramba, isso é muito ruim!

O tossido veio alto, enquanto ele inclinava-se sobre a janela, buscando novo ar aos seus pulmões. Devolveu à Shikamaru o cigarro, recordando-se de nunca, jamais ousar experimentar aquilo de novo. Era horrível, intragável!

Senti-lo ali, tão perto, tão distante enquanto o vento do fim da tarde invadia o cômodo, fazendo gelar enquanto Naruto ao seu lado parecia emanar calor, chamas vivas.

Quando passou a deixá-lo naquele pedestal intocável? Desde quando o amigo deixara implícito seu interesse pelo Uchiha? Ou fora antes de tudo aquilo? Quando nem mesmo sabia o que sentia, e o porquê de sentir cada coisa?! Naquele momento de vento frio e de fumaça sendo jogada contra seu rosto, ele não tinha a resposta para nenhuma de suas perguntas.

—  Deveria fumar menos. —  Naruto ditou, virando-se para encará-lo, mesmo que Shikamaru ainda optasse por encarar a janela aberta.  

—  Não é sempre que fumo assim. Só quando algo realmente está… fora do meu controle.

—  Eu sei que você deve estar cansado, e que queria estar em casa, onde tudo seria menos complicado —  sua tentativa de quebrar o gelo do assunto anterior, trouxe aos próprios lábios um sorriso. Shikamaru precisava admitir que Naruto tinha o dom de mergulhar à todos na sensação que ele quisesse proporcionar. E ali, era alívio.

Não havia lugar que ele quisesse estar, além dali. Há muito ele o havia colocado no pedestal, mas via ali que ele não era a causa de sua queda da graça. Nunca fora, provavelmente jamais seria. Talvez Shikamaru gostasse no fundo da sensação da punição que era desejar, sem ser desejado de volta. Talvez a graça de muitos que falavam de sadomasoquismo. Talvez a punição fosse o prazer de quem não poderia saciar-se tendo de fato aquilo que almejava.

—  Não vejo problema em estar aqui com você. Ao menos assim eu sei que você não está fazendo nada que possa se arrepender depois.

Naruto deveria ter notado isso antes, no zelo que Shikamaru tinha para consigo. No carinho das palavras, mesmo que por vezes o amigo parecesse amargo quando o assunto era aquele que havia partido por escolha própria.

Pegou-se notando-o, de fato. A forma como os lábios se comprimiam ao cigarro, como o indicador e o médio resvalavam aos lábios sempre que levava ou tirava o cigarro dali. Como o polegar chegava a quase tocar o canto dos lábios, e como lambia os lábios após assoprar a fumaça para longe, piscando os olhos de forma um pouco mais demorada. Não notou quando apoiou-se à janela, e quando cruzou os braços frente ao corpo, ficando quase de frente à Shikamaru, olhando os cílios e a cor achocolatada dos olhos.

—  Perdeu algo? Ou essa é a sua nova maneira de me expulsar? Me encarar ao ponto de me fazer sentir desconfortável e sair?

—  Não! —  A negativa viera rápido demais, assim como o próprio Naruto se sobressaltando e segurando o braço de Shikamaru com ambas as mãos. A verdade era que não queria ficar sozinho naquele momento. Não confiava em si para isso. —  Estava apenas… observando como você mudou.

—  Isso não foi de ontem pra hoje, Naruto.

Não, não foi. Mas Naruto não tinha olhos pra muitas coisas quando Sasuke estava por perto, rondando sua mente como um sanguessuga tirando-lhe os nutrientes. Estava perdido demais, pensando em alguém que sequer lhe doava tempo. O que mais perdera em meio àquilo?

—  Você está com alguém? Digo, não quero ser indelicado, mas...

—  Não quer? —  o olhar era inquisidor. A voz era firme e a sobrancelha erguida dava à ele todo o ar superior que Naruto sabia fazer parte de sua função como um dos cabeças das missões ninja.

—  É que estive tão recluso, mergulhando no meu mundinho onde eu não notava nada, que agora me peguei pensando. Não vejo você falar de nenhuma menina. Eu já notei há tempos o interesse da irmã do Gaara em você, ela me assusta um pouco, mas parece legal. —  Ele tentava de todas as formas focar em algo que não fosse sua vida pessoal à ruínas.

—  Não faz meu tipo.

—  Quem faz?

— É complicado —  estalou a língua contra o céu da boca, finalizando aquele cigarro, não mais acendendo outro. Olhou para cima, notando o céu estrelado ainda tímido em seu azul não muito escuro.

—  Você sempre fala isso, Shika.

—  É que dessa vez é mesmo complicado. —  Havia algo na voz dele, que fez com que Naruto não insistisse. Um pesar, um incômodo. Um descontentamento real.

Algo não correspondido, talvez? Quem seria idiota o bastante para que não quisesse Shikamaru ao seu lado? Ino?

—  Acho que no final somos dois ferrados azarados —  riu sem um pingo de graça, inclinando a cabeça à frente, sentindo a testa chocar-se contra o ombro de Shikamaru, e o colete que vestia. Ali tinha cheiro de nicotina, mas também tinha cheiro de menta. Era curiosa a combinação, mas agradável, curiosamente agradável.

Agradável também era sentir a mão de Shikamaru em sua nuca, acariciando-o de forma despretensiosa. Shikamaru repreenderia seus atos, mas estava alheio demais à tudo aquilo desde o momento que Naruto deixou a cabeça descansar em seu ombro. Todo o restante fora automático, o corpo rendendo-se aos desejos que há muito alimentava em silêncio.

Uma parte de si berrava para que saísse dali, enquanto a dignidade estava intacta, a outra metade recusava-se veementemente. A dualidade que sempre o fazia parecer preguiçoso para qualquer decisão, enquanto na verdade ardia em desespero por dentro. Não eram escolhas simples; sair e não olhar para trás, ou permanecer e ser usado como curativo à uma ferida que talvez jamais se curasse.

—  Obrigado —  as mãos de Naruto envolveram-no pela cintura, pondo abaixo qualquer chance que tinha de sair dali e não olhar para trás. —  Saber que posso contar com você é reconfortante.

Quando Naruto havia se permitido tanto? Quando tocar alguém daquela forma tornou-se casual para si? Quando abraços vindos daquela maneira eram de seu cotidiano? Porque definitivamente não eram do de Shikamaru, e os músculos retesados delatavam isso.  A inquietação por sentir o corpo alheio tão próximo ao seu, a forma como Naruto ainda mantinha a testa colada em seu ombro, embora agora virasse parcialmente, fazendo com que a droga da respiração dele fosse de encontro ao pescoço de Shikamaru. Era torturante! Era o castigo por desejá-lo por tanto tempo? Que lastimável aquele fim. Teria formas menos dolorosas de ser enterrado naquilo que Ino havia chamado certa vez de “friendzone”.

Estava ali apenas para preencher o espaço vazio que Sasuke havia deixado ao sair de forma tão abrupta. Era o estepe, o que vinha para quebrar o galho. Era tão difícil assim aprender? A ficar longe? Será que aprenderia ainda?

Não demorou para que sentisse seu colete úmido, olhando então para baixo, à altura do tórax, notando que Naruto o abraçava ainda mais forte, enquanto deixava que as lágrimas silenciosas lhe banhassem o rosto. Puxou-o então para mais perto de si, apertando o abraço ao redor dele, como se tal gesto singelo pudesse lhe passar conforto e segurança.

Em resposta, provavelmente nunca aprenderia a dizer-lhe não. Era o ciclo vicioso, Naruto atrás de Sasuke, Sasuke atrás de vingança, e Shikamaru indo atrás daquele que não poderia ter. Via o mesmo acontecer à Ino, ela outrora havia corrido também atrás de Sasuke, então notando que não era por ele que estava apaixonada, e sim por Sakura, que fazia seu coração bater mais rápido. Competia, porque era a chance de mantê-la ocupada, e afastada de Sasuke. Ao menos Ino parecia ter mais sorte… já ele, estava ali abraçando alguém que derramava-se a chorar.

Estava apenas ocupando um lugar que não o pertencia, de forma temporária. Lastimável o que o ‘destino’ havia lhe reservado.

Ficou ali, quase imóvel, se não fosse por suas mãos que vez ou outra afagavam os fios loiros. Ficou até que o choro parecesse cessar, embora soubesse que era apenas uma pausa, quando não mais estivesse ali, Naruto se entregaria à fraqueza novamente, e choraria para fora suas mágoas.

Sentiu os braços ao redor de seu pescoço, sentiu a respiração cálida de encontro ao seu pescoço, e infelizmente não conseguia conter os espasmos que o acometiam, sentindo-se arrepiar, mesmo que o momento não fosse para tal. Era só um abraço de amigos, ele sabia que Naruto não o via de outra forma, não da forma que ele o via.

—  Shika… —  o chamado parecia o canto das sereias das histórias que ouvia quando mais novo. Era derradeira a descida que ele mergulharia se olhasse para baixo e visse Naruto basicamente escorado em seu peito, envolvendo seu pescoço com os braços. Mas céus!, ele olhou. —  Você é um amigo e tanto.

Um puta balde de água.

Mas ainda assim ele estava tão… não! Não deveria, não poderia olhá-lo de outra forma, quando ali ele estava vulnerável e apenas agradecido. Com aqueles olhos azuis que mais pareciam as tais águas de onde as sereias cantavam para lhe enfeitiçar, e fazer afogar.

Um mergulho só, seria tão ruim assim? Seria um ato tão baixo? Sim.

Ele então observou atento, e forçou um sorriso doloroso nos lábios. Era um ‘amigo’, nada mais. Não seria nada além que isso, e deveria aprender o lugar ao qual pertencia. Viu Naruto erguer mais a cabeça, a fim de olhá-lo diretamente nos olhos, como se deixasse explícita toda a sua intensidade no olhar, e não pela raposa de nove caudas, não mesmo. Mas sim a pura intensidade de Uzumaki Naruto. Viu-o esticar-se um pouco mais sobre si, fazendo com que o ar subitamente se esquecesse pra onde deveria ir, travando nas vias aéreas, sem saber se era pra inalar ou expelir. Não calculou bem, mas queria saber o que Naruto faria, então virou o rosto na direção dele, pouco menos de 30º, buscando ver melhor, sendo surpreendido por lábios que obviamente miravam em sua bochecha, não no canto de seus lábios.

Fora um tempo curto, não passou de um selar desastrado, que tão logo rompeu em risada por parte de Naruto, afastando-se um pouco, apoiando ambas as mãos no tórax de Shikamaru, os olhos fechados, o rosto ainda molhada das recentes lágrimas. Infeliz!

—  Foi mal, não era a intenção quase beijar você.

— Não se preocupe, não cogitei isso também. —  Mentira. — Preciso ir, Naruto. Sabe como minha mãe vai falar pelos cotovelos porque eu me atrasei. Mas vê se não faz nenhuma burrada. —  As palavras distanciaram-se aos poucos, conforme Shikamaru alcançava a porta, saindo dali. Ouvindo ainda o amigo responder brincando, que “não sairia por aí beijando outros amigos”.

 

 

 

 

Shikamaru normalmente reclamaria com a Hokage sobre as missões em “excesso” que ela estava lhe dando, mas não naquele momento. Ele parecia abraçar cada uma das novas missões, como se fosse aquelas uma âncora a mantê-lo firme durante uma tempestade. Tsunade chegou a cogitar perguntá-lo o porquê, mas seria indiscreto demais de sua parte, e ao pouco que conhecia de Shikamaru, sabia que ele não simplesmente sentaria e lhe contaria. Não era o feitio do rapaz.

Naruto também o procurava, os desencontros eram propositais. Se Shikamaru soubesse que Naruto estava à sua procura, sumia como a fumaça dos cigarros que cada vez mais se permitia tragar. Poucos eram os que de fato viam o Nara fora de missões. Ino e Choji uma vez na semana. Ele estava estranho demais, até para os amigos que sabiam de cada estranheza sua.

A primeira vez que Naruto encontrou com Shikamaru após aquela sua estranha demonstração de fraqueza, fora saindo do escritório de Tsunade, havia por fim recebido uma missão que valesse a pena seu entusiasmo, e agora havia regressado dela com as informações à Hokage.  

—  Shikamaru, até que enfim! Pensei que tivesse fugindo. —  Naruto jogou as palavras enquanto deixava que um sorriso iluminasse seu rosto. O loiro tinha o dom de falar coisas com teor mais sério, embora sorrisse para quebrar o gelo.

Atrás de Shikamaru, vinha Ino, sorridente com Choji, falando os avanços médicos que estava fazendo, parando ao lado de Shikamaru, envolvendo os ombros do colega de equipe com seu braço, e acenando para Naruto.

—  Shika, não esquece o compromisso de hoje, ein! —  risonha, informou e tão logo saiu, basicamente arrastando Choji consigo. —  Pode vir também, Naruto!

—  Ir pra onde? —  a pergunta fora direcionada à Shikamaru, o único que havia ficado ali, naquele corredor.

—  A Ino vai fazer uma festa.

—  Comemorar algo em especial?

—  Absolutamente nada. Ela só quer aproveitar que as flores estão bonitas e algum outro motivo que não me lembro de ter escutado, porque estava jogando shogi —  coçou a cabeça, um pouco desconfortável por estar à sós com Naruto. Tinha tanto que seu peito parecia querer que ele falasse, embora a mente por sorte tomasse de fato as rédeas da situação. Calar-se era melhor. —  Será no fim da tarde, nos fundos da floricultura Yamanaka, creio que você ainda saiba onde fica, não?! — findou, caminhando em direção à porta, passando tão próximo à Naruto, sentindo o cheiro que dele parecia emanar com mais força. Assim como o calor que parecia arder naquela pele.

—  Nos vemos lá, então, Shika. —  Naruto olhou para ele, notando uma outra coisa ali; tristeza.

 

 

 

 

Shikamaru respirou fundo, vendo seu reflexo no espelho. Estava exatamente como sempre. Exceto pelos cabelos que caíam soltos pelos ombros, tal como uma cascata. Passou a destra por entre os fios, como se os penteasse, mas apenas os afastava da testa. Pegou o elástico de cabelo sobre a pia, dando três voltas aos fios, impondo ordem à eles, prendendo-os para que não mais caíssem na cara. As vestes tão normais, que visto por todos, não parecia em nada que as coisas haviam mudado. Talvez seu porte, havia ficado mais alto, os cabelos estavam mais compridos e o rosto tomava as feições mais maduras. Não era mais um moleque que preguiçosamente deixava de correr com os amigos, para apenas deitar na grama e ver as nuvens. Era humilde o bastante para não se achar um galã, mas não era cego ao ponto de não ver que tinha de certo modo uma beleza. Ino já havia apontado isso.

Arrumou a blusa, puxando-a para baixo, sem que houvesse necessidade, fazendo com que continuasse tapando o cós da calça. Estava sem muito ânimo, não queria festejar, não tinha o porquê. É claro que ele sabia o motivo que havia levado Ino a organizar tal coisa; Sakura. Ela queria ver a amiga feliz, queria distraí-la de tudo aquilo, da partida dele. E Shikamaru e Choji não tinham muito para onde correr, quando a Yamanaka resolvia que eles ajudariam e ponto!

Saiu de casa atrasado, já havia ajudado em tudo o que ela pedira, antes. Então não viu motivo de chegar cedo e ter de passar mais tempo ali, quando sua vontade era de estar em outro lugar. E ao chegar, já deparou-se com Sai conversando com Ino e Sakura, algo sobre uma nova tinta de excelente qualidade. Não lhe faria diferença, não pintava, não tinha o interesse em aprender.

O saquê era a companhia daquele fim de tarde e início de noite. Os reunidos ali eram; Ino, Sakura, Sai, Neji, Tenten, Choji. Os demais estavam em missão, e claro, esperavam ainda por Naruto. Não tardou para que ele chegasse, havia algo de diferente nele, chegando até mesmo a levar uma garrafa de bebida para a festa, entregando-a à Ino, como agradecimento pelo convite. Alegou ser uma das garrafas que Jiraiya ‘ganhou’ de Tsunade num jogo que apostaram. Era bem provável, levando em conta a má sorte da Hokage.

Naruto notou ao canto, Shikamaru com o cigarro aceso e uma garrafinha de saquê ao lado, escorado à parede, com um dos pés apoiado nela, enquanto olhava para cima, como se o céu fosse melhor a ser observado do que o grupo de amigos a sua frente.

—  Se importa? —  perguntou parando ao lado dele, vendo todo o cuidado que ele tinha ao virar o rosto pro outro lado para soprar a fumaça do cigarro. —  Você parece… distante.

Shikamaru estava, queria se distanciar para o bem de sua sanidade. Para não se ver em meio à tudo aquilo, cada vez mais envolvido com alguém que ele não poderia ter. Estava pensando apenas nele mesmo, sendo egoísta ao se afastar daquela maneira, quando Naruto havia deixado tão claro naquele choro que precisava de um amigo ao seu lado, de novo.

—  Apenas cansado.

— Você aceitou todas as missões que a vovó Tsunade te deu, ela chegou até mesmo a estranhar, sabe. Falou que devia ter alguma coisa incomodando você.

—  Estava em mais que missão para a Vila, Naruto. —  Fora tudo o que ele disse, não entraria em detalhes quanto àquilo. Quanto a aceitar as missões não só para se distanciar da vila e do seu desejo pelo proibido, mas também por aceitar as missões em busca de mais informações com quem estivesse fora dali, longe dos limites de Konohagakure, indo atrás de informações sobre o paradeiro dele.

—  Estava atrás dele? —  a voz parecia quebrada, como se o peso dos sentimentos partisse aquele fio de voz.

A música distraia os demais, Ino puxava Sakura pelos antebraços para que a rosada dançasse com ela no meio da pista improvisada, enquanto Choji cuidava do churrasco, servindo sempre muito mais para si, do que para o restante. Sai despejava litros de palavras sobre Tenten e Neji, enquanto o Hyuuga apenas olhava-o entediado, como se nada no mundo fosse capaz de capturar sua atenção. Shikamaru então olhou de soslaio para Naruto, sabendo que ali, nenhum outro os ouviria.

—  Sim.

A afirmação trouxe um olhar compassivo por parte de Naruto, enquanto virava-se para encarar Shikamaru, tocando o tórax alheio com as pontas de sua destra. Mantendo todo o lado esquerdo escorado à parede.

—  Por que?

—  Por você.

Ah maldito amor que o fazia correr atrás de alguém que sequer amava, para fazer aquele loiro feliz.

—  Shikamaru. —  O tom de voz, adjunto ao toque suave no rosto, forçando o amigo a olhar para si. A forma como piscou demoradamente e tão logo precisou umedecer os lábios. Quando Shikamaru cedeu e permitiu-se olhar de volta, Naruto viu aquela tristeza de novo. Algo que ele reconhecia ao se ver no espelho. —  Por que?

—  Porque eu não gosto de ver você assim, Naruto. Vê-lo triste como naquela noite, aquilo foi… —  “demais pra mim”. Completou em pensamento, enquanto abaixava o rosto, buscando afastar-se do toque daquela mão. —  Então pensei que se eu trouxesse alguma notícia, qualquer uma, que você ficaria menos abatido.

Naruto viu ali algo que não encontrava em qualquer lugar. Era mais que companheirismo, era uma coisa que por mais que fossem amigos há anos, não seriam todos os amigos que estariam dispostos àquilo. Quanto tempo passou cego e alheio à todo o resto? Quando que Shikamaru havia virado aquele abrigo em meio à tempestade? Sentia-se grato por tê-lo ao seu lado, e agora bem menos merecedor de algo assim.

—  Mesmo com tudo aquilo que você me disse naquela noite, ainda assim você foi atrás de informações dele pra mim? —  não afastou a mão do rosto alheio, mesmo que soubesse que era esse o intento de Shikamaru ao abaixar o rosto de tal forma. —  Shikamaru, não precisava fazer isso.

—  Eu sei que não, eu fiz porque eu quis. Porque achei que você merecesse ao menos saber onde ele está. Não que eu queira te incentivar a ir atrás dele, não mesmo! Mas, se algum dia você resolver partir atrás dele, eu saberei ao menos te indicar a direção.

Era isso, ele seria o parâmetro, a bússula que fiz para onde seguir. Porque ele não o impediria, mas ao menos gostaria de saber para qual direção o amigo… resolveria partir.

Naruto pegou a garrafinha de saquê ao lado de Shikamaru, tomando um bom gole dela, enquanto o Nara apagava o cigarro, não acendendo nenhum outro, mas tomando a garrafinha das mãos de Naruto, tomando um gole também. A festa parecia tranquila, tirando aquela conversa um tanto quanto desconfortável daqueles dois. Ao menos agora Naruto sabia o que fazia o amigo se afastar. Sabia o que o tinha deixado tão inclinado a aceitar as missões, sem reclamar de nenhuma delas. Ele estava se doando, por ele. Só restava saber o porquê daquela tristeza. Porque ele não conseguia recordar a última vez que vira Shikamaru daquela maneira, realmente triste e não só entediado ou indiferente. E sempre que se pegava pensando demais, ou quando ino vinha na direção deles para que Shikamaru tirasse Choji um pouco do comando do churrasco, Naruto bebia. A falta de resposta o deixava incomodado, e beber fazia aquietar a mente por um tempo, logo retornando, e logo bebendo. Um ciclo vicioso sobre o qual nem notava estar preso.

—  O que foi, Naruto? —  Sakura perguntou parando ao seu lado, pegando as garrafinhas vazias de saquê, para que eles não as quebrassem no calor do momento.

—  Estava só pensando na sorte que a gente tem, sabe. Você tem a Ino, ela parece uma amiga e tanto.

—  Ah, é. Ela tem se empenhado muito, até mesmo fez essa festa aqui. —  Sakura sorriu à ele, começando a entender onde aquilo iria parar. — Está pensando no Shikamaru? —  virou-se, olhando na direção da churrasqueira, onde Choji já dizia ser capaz de tomar conta de novo, tomando o lugar de Shikamaru. —  A senhora Tsunade e eu chegamos à uma conclusão sobre todas as missões que ele aceitou ultimamente. Todas acabavam levando ele para longe da Vila, deixando-o perto de informantes muito bons. Onde ele poderia, quem sabe, obter informações sobre certo alguém que se foi.

—  Exato. Não é qualquer amigo que faria isso, não é, Sakura?

— Não, não mesmo, Naruto. O Shikamaru se mostrou leal à você, em cada situação. Nas reuniões com a Hokage ele é sempre o primeiro a sair em sua defesa, até mesmo eu e o Kakashi-sensei ficamos boquiabertos com isso. Ele coloca um voto de confiança enorme em você.

Não houve mais tempo para falarem, não quando o foco do assunto caminhava em direção à eles, com um pequeno pratinho com churrasco, levando-o até Naruto. Alegando que o amigo não deveria beber tanto, de barriga vazia.

Naruto deveria ter ouvido Shikamaru. Deveria na verdade ter comido algo antes, ou ter cessado com a bebida antes que visse tudo girar e começasse a sorrir demais, sem motivo algum. Sentia as bochechas queimarem, e sabia bem que era o efeito do álcool lhe tomando de dentro pra fora. Percebeu que já havia passado dos limites quando estava dançando algo que ele sequer sabia o que era, e que não tinha como dançar de forma correta, não quando; ele não sabia dançar, e quando a embriaguez o atrapalhava sem dó. Sobrou para Shikamaru levá-lo para casa. Choji ficaria para ajudar Ino a terminar de guardar as coisas, Sakura ficaria por lá mesmo, Neji, bem, levaria Tenten até em casa, como o cavalheiro que era, como o esperado por alguém do clã Hyuuga, e companheiro de equipe.

E a Shikamaru sobrou subir escadas enquanto apertava o corpo de Naruto contra o seu, reclamando do excesso de bebedeira do amigo, mas ficando estranhamente feliz ao ouvi-lo rir enquanto tropeçava vez ou outra. Vê-lo feliz, mesmo sob efeito do álcool era algo que ele preferia, ao vê-lo remoendo as tristezas pelo canto, tal como ele fazia.

—  Eu não sei o que faria sem você.

—  Ia ter que dormir na floricultura dos Yamanaka. —  respondeu ajudando-o a tirar os sapatos, ouvindo logo após o corpo pesado ir de encontro à cama.

—  Não tô falando só de hoje, Shikamaru. Eu tô falando desde sempre, sabe. Quando as outras crianças se afastavam de mim, e você não inventava desculpas pra sair de perto, você sempre ficava. Eu não soube reconhecer antes, mas agora eu tô vendo com clareza.

—  Naruto, eu tô do lado de cá. — Tocou-o no ombro, mostrando de fato que estava do lado oposto ao qual o amigo falava, de olhos fechados e sorridente demais, assim como vermelho. —  Acho que você não tá vendo nada com clareza.

—  Acho que algumas coisas ainda estão fora de foco. Talvez seja a minha falta de noção  — piscou demorado, como se aos poucos o cochilo achasse suas pálpebras cansadas. — Shika, posso te pedir uma coisa?

Abaixou-se ao lado dele na cama, enquanto Naruto esticava o corpo sobre ela, virando-se de lado para encarar Shikamaru, apoiando a destra debaixo do travesseiro, enquanto a canhota seguia à esmo até achar o ombro de Shikamaru, ele achava que era, ao menos.

—  Hm. —  Monossílábico, esperando que Naruto prosseguisse com o que tinha a lhe pedir. Curioso até. Talvez o amigo pedisse por ajuda para trazer Sasuke de volta.

—  Não vai embora, tá? Não me deixe sozinho também.

Fechou os olhos no instante que Naruto também fechou os seus. Sentindo o peso do pedido. Impedindo que uma parte de si se alegrasse com o que aquilo poderia significar, sabendo que não. Não notou que Naruto o encarava, de olhos bem abertos, vendo o quanto o amigo estava de fato triste. Era incômodo vê-lo assim. Lhe doía.

—  Não vou à lugar nenhum, Naruto. —  Os olhos ainda estavam fechados, as mãos apoiadas nos joelhos, enquanto a cabeça inclinou-se para que não mais ficassem no foco dos olhos azuis do outro. Sentindo os olhos começarem a arder, em reclamação ao choro que segurava. —  Ficarei ao seu lado, seu sonho é ser Hokage, não é? Eu vou ficar para te ajudar nisso.

—  Promete? —  insistiu em tocá-lo, querendo que o amigo olhasse para si, então subiu a mão que estava no ombro alheio, ao rosto, permitindo que o polegar afagasse a pele, enquanto os demais dedos tocavam-lhe a nuca. Um pedido mudo para que o olhasse.

—  Eu não volto atrás na minha palavra, esse também é o meu jeito ninja de ser. —  a piscadela viera para disfarçar sua angústia, viera como bálsamo para Naruto e sua embriaguez. As palavras trouxeram um alívio que há muito ele não sentia.  Assim como segurança. Sempre se sentia seguro ao lado de Shikamaru. — Agora descansa, amanhã você vai acordar desejando não ter bebido tanto.

A mão não lhe permitiu sair, mas só notou isso quando tentou se colocar de pé, e se desequilibrou, caindo por cima de Naruto naquela cama de solteiro, precisando apoiar as mãos rapidamente na cama, assim como o joelho, para que seu corpo não fosse de encontro ao de Naruto.

Naruto assistiu de camarote o desespero alheio, os olhos que seguiram rápido demais por seu rosto, para achar uma alternativa para que não caísse sobre si.

—  Eu não vou te contaminar com nada se cair em cima de mim. —  rispiu tirando a mão da nuca alheia, mas encarando-o com sua total atenção (ao menos a parte que ainda tinha ciência disso).

—  Não é isso.

—  Também não significa que por ter me envolvido com o Sasuke, que qualquer outro cara seja meu tipo. —  Falou, sabendo que esse era o pensamento de muitos.

—  Também não é isso.

—  É o que então?

Respirou fundo e tão lentamente, que se estivesse fumando Naruto diria que ele estava apreciando o momento. Mas ali buscava apenas uma alternativa, a melhor resposta. E vislumbrou de novo aquela maldita tristeza, mas dessa vez não conteve a mão que tocou o tórax alheio, sentindo o quão forte o coração dele parecia bater. Em como ele o olhava, de verdade. Enxergando mais que uma das bestas com cauda. Shikamaru olhava para ele, e Naruto sentia-se verdadeiramente visto.

Não teria como por em palavras, já havia falhado inúmeras vezes antes. Agora era o momento de agir, então tomando toda a coragem, Shikamaru levou a destra ao rosto de Naruto, afagando-lhe com esmero e toda a ternura que cabia no ato. Deslizando o polegar até os lábios, contornando-os com a mesma suavidade, enquanto os olhos mantinham-se fechados, decorando e gravando em mente a sensação de tocá-lo. Talvez nunca mais pudesse ser tão ousado.

Naruto por sua vez mantinha os olhos bem abertos, sentindo o coração do outro quase saltar do peito, sabendo que ele nunca faria nada assim, de forma trivial. E então, como se o saquê lhe trouxesse clareza à mente, somou dois mais dois. E inclinou-se para que pudesse resvalar seus lábios aos dele, tal como na outra noite, mas dessa vez com o intento de tocá-lo ali. Manteve os olhos abertos, sentindo a mão de Shikamaru segurar em sua nuca, puxando-o para ainda mais perto, enquanto sentia o peso do corpo alheio sobre o seu.

E então, não sentiu mais nada. Fechou os olhos e apagou, dormindo entregue aos braços do álcool e cansaço. Não vendo quando Shikamaru saiu fechando a porta. Ou quando beijou-o na testa antes de se afastar, dizendo que estaria sempre por perto, mesmo que lhe custasse tanto. Mesmo que lhe doesse de verdade.

Porque a verdade era que Shikamaru não ligava se no fundo fosse usado para aplacar a falta que outro fazia. Ao menos poderia estar perto, e se fosse assim, Naruto poderia usá-lo sempre que preciso.

Jan. 1, 2019, 9:20 p.m. 0 Report Embed 3
To be continued...

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Lux Noctis A verdade é que não há absolutamente nada de especial aqui.

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