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penduluns Penduluns

Embebedou-se, afogou-se, deitou-se Eu já não aguento mais você Remexeu-se, curvou-se, apavorou-se Eu já não amo mais você Correu, mergulhou, caiu Eu já não quero mais você Levantou, chorou, falou Você conhece Krampus?


Fanfiction Bands/Singers For over 18 only.

#bts #horror #krampus #natal #terror #sugamon #namjoon #yoongi
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Sinta

Apertou a própria boca com a palma da mão cheia de suor e encolheu-se mais contra o fundo do armário, passando o braço pelo ombro de Namjoon e puxando-o para perto, gemendo sofrido com o peso dele esmagando seu peito. Não conseguia respirar direito, o chiado escapava de seus pulmões e reproduzia-se por todo aquele lugar apertado, fazendo-o tremer inteiro com medo de ser encontrado. Os joelhos batiam um no outro, a calça jeans espalhava o farfalhar do roçar e Yoongi praguejou não ter nenhum controle corporal.

Namjoon apertou-o com mais força.

— Vai nos achar, Yoongi — ele sussurrou quase chorando e Yoongi usou a outra mão para tapar a boca dele, sentindo as lufadas de ar e a saliva escorrendo abundante.

Yoongi arregalou os olhos e manteve-se atento, escutando apenas seu próprio coração batendo forte e o vento violento do lado de fora martelando as janelas de madeira. Namjoon tremeu em seus braços e tentou puxar sua mão, respirando com mais dificuldade. Yoongi apenas apertou-a mais contra a boca dele e bateu as costas no armário, parando de respirar quando escutou a porta rangendo e abrindo lentamente.

Tremeu dessa vez e encolheu mais as pernas, sustentando-se em Namjoon para não desmaiar. Sua vista apagava gradativamente, o suor escorria gelado pelo pescoço e a garganta começava a inchar. Yoongi respirava fazendo ainda mais barulho, como se estivesse tendo uma parada cardíaca, mal conseguia manter-se sentado e o corpo balançava levemente para frente e para trás. Estava quente por dentro e gelado por fora, seus dedos roxos perdendo as forças.

Cascos pesados atingiram o chão. Yoongi conseguia escutar nitidamente os sons deles batendo na madeira, arrastando-se entre os vãos e o carpete. Seu corpo amoleceu e sua cabeça caiu no ombro de Namjoon, que apertou seu braço e voltou a chorar silenciosamente conforme os barulhos tornavam-se mais próximos. Quando já parecia estar em frente ao armário, Namjoon e Yoongi tremeram em um misto de frio e pavor.

Yoongi escutou uma bufada e um bater de cascos, seguido de correntes chicoteando os móveis. Pela fresta do armário, conseguia ver apenas uma sombra desfocada movimentando-se rapidamente, as lágrimas em seus olhos não ajudavam em nada, ele teria que ir até a porta para enxergar melhor. Retirou a mão da boca e passou os dedos pelo suor, soltando lentamente o rosto de Namjoon e apoiando-se de quatro, olhando para ele como se pedisse uma confirmação, uma certeza de que estava fazendo a coisa certa.

Namjoon mordeu os lábios e também colocou-se de joelhos, engatinhando até estar com o ombro batendo no seu. Os dois olharam-se por alguns segundos, tentando uma comunicação muda antes de virarem os rostos para a porta do armário e espiarem por entre as frestas silenciosamente, os braços tremendo freneticamente.

— Nada? — Yoongi sussurrou e apertou os olhos, conferindo se a sala estava mesmo vazia. Estava destruída e revirada, mas estava vazia.

— O que está acontecendo?!

Namjoon virou-se para Yoongi e Yoongi virou-se para Namjoon, ambos com expressões confusas. Yoongi não precisava perguntar para Namjoon se ele também tinha escutado os cascos, seus olhos procurando pelo cômodo já eram uma resposta. Estavam alucinando juntos? Tudo não havia passado de miragens?

— Acho que-

Yoongi não terminou a frase. Um ranger pesado acima do armário o interrompeu e ele engoliu a saliva com força, olhando em desespero para Namjoon. Namjoon olhava para cima, mas tateava as mãos de Yoongi e, quando as encontrou, apertou com tanta força que as unhas pinicaram a pele. Yoongi conseguia ver as lágrimas dele brilhando no rosto e sentiu uma dor tão forte no peito que soluçou intenso, mordendo os lábios e balançando a cabeça negativamente, fechando os olhos até ficar tonto. Queria que fosse apenas uma miragem, apenas uma alucinação, mas, toda vez que abria os olhos, encontrava a face de Namjoon virada para cima e molhada de lágrimas.

O armário rangeu de novo e Yoongi olhou para cima, vendo o teto um pouco amassado. Retribuiu o apertão de Namjoon e molhou os lábios, tentando dizer que amava-o. Amava-o muito e não queria morrer sem dizer nada, mas não conseguia. De sua garganta não saía nenhum som, apenas a pesada respiração.

O barulho estendeu-se um pouco mais para frente, para perto das portas e os cascos atingiram o chão. Yoongi e Namjoon seguiram com os olhos a sombra enorme que deslizava e, pelas frestas, enxergaram as pernas pretas de bode esticadas, os joelhos tortos com os ossos para fora. Ao lado deles, uma corrente pesada cheia de respingos vermelhos e o que parecia ser pele grudando nos vãos.

Namjoon caiu sentado e balançou a cabeça, cobrindo a boca com o braço, olhando desesperadamente para Yoongi. Yoongi não conseguia tirar os olhos das pernas peludas, da corrente balançando de um lado para o outro, dos joelhos escorrendo um líquido pútrido. Yoongi não conseguia parar de pensar que estavam perto de morrer, que nada e nem ninguém poderia tirá-los daquela situação.

— Namjoon — disse com firmeza e olhou para ele, puxando ambas as mãos para dentro das suas, olhando intensamente nos olhos dele. Namjoon olhou apavorado para a porta do armário e tentou soltar as mãos. — Namjoon, olhe para mim!

— Silêncio! — sussurrou e tentou esquivar, mas Yoongi puxou seus braços e travou seus ombros, colocando-se de joelhos e encostando o nariz no dele. As correntes acertaram o armário e Namjoon deu um pulo. Yoongi segurou o rosto dele com força, afundando os dedos nas bochechas.

— Não vamos sair daqui, ele sabe onde estamos escondidos. — As correntes bateram outra vez na madeira, Yoongi não permitiu que Namjoon olhasse. Ele soluçava e suava, os olhos agitados procurando alguma coisa para fixar. — Você é um cara controlado, lembra disso? Sempre foi.

— Eu lembro, mas-

— Sem mas, concentre-se em mim. Nos meus olhos. — Yoongi lambeu os lábios e tremeu quando o armário sacudiu. Namjoon assentiu hesitante e Yoongi respirou fundo. — Eu te-

As portas do armário abriram e Yoongi foi puxado para fora, deixando um grito preso na garganta quando todas as velas apagaram e o vento uivou escandaloso.

Embebedou-se, afogou-se, deitou-se

Eu já não aguento mais você

[...]

— Tive um sonho estranho hoje — comentou enquanto bebia um pouco do café. Clair de Lune tocava ao fundo, em sintonia com as notícias sobre o Natal na televisão de tubo. A casa cheirava a biscoito e creme. — Mas não me lembro muito bem.

— Mais um pesadelo? Anda tendo muitos ultimamente, Yoongi. — Namjoon sorriu e serviu-se de um pouco de chá de camomila. Pegou um biscoito e levou ao nariz, cheirando. — Alguma coisa te incomoda?

— Não, eu acho que não. — Coçou a cabeça e suspirou, recostando na cadeira. Olhou para Namjoon e sorriu de volta, sentindo vontade de tocar em seu rosto bonito. — Está tudo bem, vamos esquecer isso.

— Tem certeza? Sabe que podemos conversar sobre, eu sempre posso escutar o que tem a dizer. Por favor, não se feche tanto. — Namjoon fez uma careta e bebeu o chá quente, assoprando em seguida.

— Não estou me fechando. Mas é Natal, eu não quero falar sobre coisas ruins hoje. Podemos discutir outro dia, pode ser? — Yoongi estendeu a mão até a bochecha de Namjoon e fez um carinho singelo, sorrindo para ele. Namjoon deitou o rosto em sua mão e fechou os olhos.

— Certo, pode ser. Eu tenho umas compras para fazer hoje, para a nossa ceia. Você fica e termina de decorar a casa? — Yoongi olhou ao redor, notando que tinha ainda pouca decoração. Apenas algumas luzinhas douradas e velas aromáticas vermelhas. — O mercado vai estar lotado, provavelmente vou demorar.

— Sem problemas, chefe. Eu termino a decoração.

Yoongi sorriu e Namjoon riu, tomando mais um pouco do chá antes de levantar-se e puxar a caneca junto. Ajeitou os óculos no rosto e suspirou pensativo, olhando para a janela cheia de neve. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas pareceu hesitar e balançou de leve a cabeça, voltando a sorrir. Yoongi quis perguntar o que era, mas decidiu ficar calado. Namjoon costumava refletir com frequência, nem sempre gostava de compartilhar as ideias com ele.

Tamborilou os dedos na mesa e levantou os ombros, perguntando em silêncio o que mais ele queria. Namjoon apertou os lábios e deixou a caneca na mesa, pegando mais um biscoito.

— Já vou saindo. Você fica bem sozinho? — Yoongi estranhou a pergunta e franziu o cenho, cruzando as pernas, desconfortável.  

— Foi só um pesadelo, Namjoon. Vou ficar bem. Você pode ir.

— Certo.

Acenou com a cabeça e curvou um pouco o corpo, apertando os cabelos de Yoongi e roçando os lábios em seu nariz, rindo quando ele fez uma careta. Yoongi fechou os olhos com o carinho e inclinou o rosto, deixando Namjoon beijá-lo. A música parou de tocar e Namjoon afastou-se, lançando-lhe um olhar que beirava o melancólico. Novamente, Yoongi não quis perguntar nada.

— Eu te amo.

Yoongi não respondeu. A música parou de tocar e Namjoon saiu, deixando a porta bater.

Remexeu-se, curvou-se, apavorou-se

Eu já não amo mais você

[...]

Yoongi suspirou e terminou de colocar a coroa decorada acima da porta. Agora a casa inteira brilhava em dourado e vermelho, não tinha um pedaço sequer sem cor. Podia soar brega, mas Yoongi considerava-se estiloso. Ele confiava em si mesmo e Namjoon também.

— Você não entendeu errado, Taehyung. — Trocou o celular de orelha e apoiou o corpo na porta, revirando os olhos quando escutou-o bufando do outro lado da linha, balançando a garrafa de cerveja na mão livre.

— Está terminando comigo no Natal? É sério, Yoongi? — Taehyung grunhiu e Yoongi afastou um pouco o celular da orelha por conta do barulho alto.

— Por que parece tão difícil de entender?

— Porque estávamos bem até você começar a ter pesadelos com o seu irmão. Ele te perturba com a nossa relação e você deixa. E agora está terminando comigo. Mas tudo bem, não posso te obrigar a ficar. — Yoongi mordeu o lábio e girou a aliança dourada no dedo, mantendo-se focado no brilho dela. Ainda brilhava como no dia em que a escolheu e ainda era bonita. Só não sabia mais o que ela significava depois de tudo que fizera.

— Namjoon não tem culpa, eu decidi terminar.

— Feliz Natal, Yoongi.

Taehyung desligou e Yoongi ficou um tempo com o celular na orelha, olhando para a foto de seu casamento com Namjoon na mesa de entrada. Seu coração doeu, não sabia o motivo de mentir e dizer que eram irmãos, não sabia nem mesmo o motivo de ter começado com aquilo. Só sabia que, quando começou a mentir, não conseguiu mais parar e uma desculpa levava a outra e, naquele momento, tudo estava desabando. Não passavam de teias delicadas, no final.

Namjoon era bom e fazia-o feliz, mas isso não o impediu de beijar a boca de Taehyung e levá-lo para um motel logo depois de telefonar para casa e dizer que voltaria após alguns goles. Namjoon não se opôs, ele riu e pediu para que tomasse cuidado na direção. Yoongi disse que o amava.

Yoongi não conseguia mais dizer isso, era como se não fosse mais digno, como se não merecesse mais o olhar apaixonado de Namjoon. Mas os pesadelos recorrentes trouxeram tudo de volta. De uma noite para outra, ele queria abraçar Namjoon por trás mais uma vez enquanto pegava no sono e, de uma noite para outra, Taehyung já não importava mais.

As únicas coisas que importavam naquelas semanas eram Namjoon, o medo de perdê-lo e pernas de bode.

As estranhas pernas de bode.

Balançou a cabeça para afastar os pensamentos e guardou o celular no bolso do pijama, virando para a mesa de entrada para acender uma pequena vela. Depois, olhou satisfeito para o próprio trabalho e direcionou-se ao sofá, tomando um último gole antes de jogar-se, pronto para descansar um pouco e aguardar Namjoon chegar com as compras.

Correu, mergulhou, caiu

Eu já não te quero mais

[...]

Acordou esbaforido e sentou rápido no sofá, passando as mãos nos cabelos cheios de suor. O coração batia forte nos ouvidos, cada pancada fazia seu corpo tremer e sua respiração estava rarefeita, pesada, com um sabor ruim descendo a garganta.

As pernas de bode novamente.

Apoiou os cotovelos nas coxas e curvou o corpo, ofegando levemente. Sentia-se quente, sentia-se cansado. Não dormia direito fazia semanas, todos os dias acordava apavorado, com um nó no estômago e precisando de um banho bem frio para espairecer os pensamentos. Não conseguia dormir de novo, apenas deitava de barriga para cima e olhava o teto repleto de sombras, tentando entender o que os pesadelos significavam, o que eles queriam dizer. Não encontrava nenhuma resposta, mas achava que seu cérebro não queria que ele lidasse com o problema, queria que convivesse com ele. Talvez seu subconsciente estivesse despertando para as besteiras que vinha fazendo.

“A tempestade de neve já está começando, então aconselhamos que fiquem dentro de suas casas. Sair pode ser muito perigoso, não arrisquem.”

Olhou para a televisão e suspirou, constatando que já era quase hora do almoço. Namjoon ainda não havia voltado e Yoongi estava preocupado com a nevasca, se ele ficasse preso no mercado, provavelmente passariam o Natal separados. Yoongi não queria isso, queria uma chance de recompensar tudo e acabar de uma vez por todas com o peso que carregava nos ombros.

Desligou a televisão e levantou minimamente, apenas para olhar através da cortina. A neve caía com força, começava a embaçar as janelas. Jogou-se no sofá e observou o tempo passar, o tique-taque do grande relógio acima da lareira era o único som que acompanhava sua respiração pesada e calma. Estava controlado, mas estava começando a ficar nervoso com a demora.

Yoongi fechou os olhos e contou até três, respirando bem fundo, tentando receber um pouco de calmaria, mas o que recebeu foi uma bufada quente no pescoço e cascos de bode acertando o sofá.

Olhou para trás e gemeu de susto, procurando de onde tinha vindo. Não viu nada além da cozinha e escadaria vazias. Apenas o barulho do relógio e de sua respiração acelerada. Sentia os ombros quentes e as pernas moles, mas mesmo assim colocou-se de joelhos no estofado e segurou com força no apoio, varrendo todos os cantos com os olhos arregalados.

Nada, não tinha nada.

Levantou rápido quando a porta abriu. Namjoon entrou apressado, cheio de sacolas nas mãos. Ele bufou e jogou tudo no tapete de boas-vindas, puxando com força o gorro verde da cabeça. Colocou as mãos na cintura e olhou ao redor, até parar em Yoongi com uma expressão assustada. Yoongi engoliu em seco e desviou os olhos, tentando parecer o mais natural possível.

— Aconteceu alguma coisa? — Namjoon perguntou e aproximou-se, pegando nas mãos frias de Yoongi. Ele tinha um sorriso caloroso.

— Não, só fiquei preocupado com a nevasca. Você demorou para voltar e eu me desesperei por uns instantes. Está tudo bem.

— Está dizendo a verdade? — Namjoon sorriu de lado e virou um pouco a cabeça. Yoongi piscou hesitante e sentiu-se confuso por um tempo. — Yoongi?

— Nada. — Soltou das mãos de Namjoon e colocou-as no queixo, mordendo minimamente os lábios. — Estou dizendo a verdade.

— É claro que está. — Namjoon deu uma piscadela e virou-se, indo até as compras jogadas no chão. — Sei que é sempre honesto comigo.

— Namjoon. — Deu um passo para frente e Namjoon virou apenas a cabeça para olhá-lo. Yoongi notou algo naqueles olhos, pareciam cheios de expectativa, pareciam desejar a verdade. Mas Yoongi balançou a cabeça e sorriu. — Eu amo você.

Pareceu tão falso.

— Eu também amo você, Yoongi.

Pareceu ainda mais falso.

Yoongi calçou os chinelos e ajudou Namjoon com as compras, organizando tudo no mais completo silêncio, apenas montando discursos e pedidos de desculpas mentais. Ele teria que dizer uma hora ou outra, havia terminado com Taehyung justamente para contar toda a verdade e deixar Namjoon mais confortável com a situação. Era para pesar menos sua consciência, mas a cada segundo, a cada olhar de Namjoon, a cada sorriso doce, ela inflava mais e espremia seu cérebro, ameaçando vazar pelas orelhas.

— Você tem um jeito bem estranho de me contar as coisas, Yoon — Namjoon disse alto da cozinha, Yoongi conseguiu escutar sua gargalhada, mas ela parecia ácida. Andou devagar até os sons, com cautela e curioso, parando a cada pequeno passo. — Sangue na geladeira? É sério? A que nível você chegou?

Yoongi congelou quando alcançou o balcão e Namjoon virou somente para que ele visse o que tinha na geladeira. Colocou as mãos na boca e depois deslizou-as para os cabelos, puxando-os para trás em completo nervosismo, os dedos trêmulos enroscando nos fios, lambuzando-os de suor.

— “O Natal não é para nós dois, é para nós três” — Namjoon leu em voz alta, não parecia hesitante. Ele parou ao lado da porta da geladeira e apoiou-se nela, mantendo-a bem aberta. Yoongi tirou os olhos do sangue escorrido e encarou Namjoon, sentindo vontade de vomitar todas as coisas nojentas que disse para Taehyung por culpa do olhar tão raivoso que recebeu.

— Eu não escrevi isso! — disse em indignação e tentou passar pelo balcão, mas bateu o quadril na pedra e parou no lugar, curvando-se de dor, ainda com os olhos grudados nos de Namjoon. — Eu não escrevi nada!

— Eu suspeitei, Yoongi. Eu sempre suspeitei. Eu não vou listar para você as situações em que me peguei pensando se você estava com um amante, é tão clichê. — Namjoon largou a porta da geladeira e caminhou lentamente até Yoongi, passando as mãos em seus cabelos molhados. Yoongi gemia de dor e segurava o quadril, tendo dificuldades em encará-lo. — Eu sempre soube que você era honesto comigo. Seus olhos não mentem, seu rosto nervoso nunca mente.

Namjoon sorriu e colocou as mãos na cintura, ajoelhando-se na frente de Yoongi e segurando seu rosto para baixo, forçando-o a olhá-lo. Yoongi tinha lágrimas nos olhos e saliva escorrendo, tentava balançar a cabeça e dizer que sentia muito, que estava arrependido, mas Namjoon apertava suas bochechas com muita força, fazendo com que a boca virasse um bico.

— Namjoon, eu preciso falar — resmungou e curvou-se com a dor, caindo de joelhos, encarando o sorriso inquebrável de Namjoon. Arregalou os olhos quando as luzes da casa piscaram rápidas e passaram a oscilar, mantendo o escuro por quase tempo suficiente para Yoongi enxergar apenas o brilho da geladeira. — Por favor!

Escutou a porta abrindo em um baque e fechando em seguida. Tentou livrar-se de Namjoon para dizer que estavam em perigo, mas os dedos ficaram mais fortes e Yoongi só conseguiu gemer de dor e segurar nos ombros dele, afundando as unhas no casaco grosso, sentindo o coração entrar em desespero e desejar fugir de seu peito.

As correntes arrastaram pelo piso e os cascos bateram duros. As bufadas eram altas e próximas, a última apagou todas as luzes e deixou os dois no mais completo breu, naquela posição vulnerável, prontos para uma caçada rápida, prontos para o que quer que estivesse ali dentro.

— Você conhece Krampus, Yoongi? — Namjoon perguntou de repente. Yoongi não conseguia ver seu rosto, mas a voz era doce, era tão doce que Yoongi quase esqueceu-se da situação em que se encontravam.

Balançou a cabeça em negação.

— Krampus é o espírito natalino para crianças más.

As pegadas intensificaram e Yoongi sentiu o chão tremer. Arregalou os olhos e respirou rápido, cuspindo saliva para todos os lados. As mãos suadas agarravam o casaco e tentavam puxar Namjoon para cima. Precisava salvá-lo, precisava se salvar.

— Você foi uma péssima criança esse ano. E você vai embora com ele.

Namjoon largou suas bochechas e Yoongi sentiu as correntes baterem fracas em seus pés dobrados. Arregalou os olhos e foi puxado pelas pernas, unhas grandes arranhavam seus tornozelos, apertavam sua panturrilha com força total. Yoongi gritou e ficou tonto por estar de ponta cabeça, balançando de um lado para o outro como se fosse um porco depois do abate.

As luzes voltaram fracas e Yoongi pôde ver os joelhos tortos com ossos expostos, as pernas de bode sacudindo como em uma dança de circo, os cacos compassados no piso deixando rastros de sangue. Yoongi gritou mais uma vez e abriu os braços, tentando sair, mas estava suspenso tão alto que conseguia ver o topo da geladeira, uma queda traria problemas maiores. Não conseguiria fugir se quebrasse algum osso.

Olhou para trás, tentando enxergar quem segurava suas pernas, mas o pescoço não conseguiu e Yoongi desistiu, vendo apenas as pernas peludas dançantes e Namjoon lá embaixo, dançando junto, puxando os pêlos como se segurasse as mãos de alguém. Percebeu depois que uma música natalina tocava chiada ao fundo, com uma voz distorcida.

— Namjoon, por favor! — gritou em desespero e sentiu o corpo balançar de um lado para o outro. — Namjoon! Eu te amo, por favor!

Namjoon olhou para cima, mirando em seus olhos. Não estava mais sorrindo.

— Tarde demais.

Yoongi arregalou os olhos e seu corpo subiu, sacudiu no ar como um boneco e depois desceu com força, Yoongi só teve tempo de soltar um grito pequeno antes de espatifar completamente contra a beirada do balcão.

A música continuou.

Namjoon dançou outra vez.

Os cascos bateram no chão.

Levantou, chorou, falou

Você conhece Krampus?

[...]

Embebedou-se, afogou-se, deitou-se

Eu já não aguento mais você

Remexeu-se, curvou-se, apavorou-se

Eu já não amo mais você

Correu, mergulhou, caiu

Eu já não quero mais você

Levantou, chorou, falou

Você conhece Krampus?

— Yoongi! Yoongi, acorda! — Yoongi gritou alto e levantou apavorado, batendo os braços para todos os lados, segurando-se em Namjoon assim que viu seu rosto, afundando-se em seu peito para que pudesse controlar o pavor. — O que aconteceu?!

Yoongi afastou-se minimamente, notando que Namjoon estava coberto de neve. Viu as compras na porta e viu garrafas de cerveja jogadas no tapete. Olhou ao redor e notou a mulher do tempo falando sobre a nevasca, pedindo para que ficassem em casa. Observou o relógio e viu.

Ainda era horário de almoço.

Sentou-se com dificuldade e colocou as mãos na cabeça, gemendo de dor, tão confuso que não conseguia sequer falar ou perguntar para Namjoon o que diabos estava acontecendo ali. Tinha sido o pesadelo mais real, ainda conseguia escutar a música ao fundo, os cascos no chão, o corpo balançando, as unhas raspando em suas panturrilhas.

As pernas peludas dançando.

— Você bebeu de novo? — Namjoon perguntou e levantou uma garrafa. Tinha uma sobrancelha levantada e Yoongi não conseguiu responder, apenas ficou olhando para o vidro cintilante. — Eu saio por uns minutos e você se afoga no álcool. Sinceramente, Yoongi, eu não sei mais como aguento isso.

Namjoon levantou e jogou a garrafa no chão, indo até as sacolas para guardar as compras. Yoongi se viu em um deja-vu e levantou com pressa, correndo até Namjoon e abraçando seu corpo, apertando os braços com tanta força que ele respirou pesado e depois riu, soltando-se e virando-se para encará-lo.

— Já passou tanto tempo, Yoongi. Você não pode mais se culpar pelo que aconteceu toda vez que o Natal chegar — Namjoon sussurrou carinhoso e puxou seu queixo, olhando no fundo de seus olhos. — Taehyung morrer não foi culpa sua.

— Eu falei com ele hoje cedo. Era tão real. A voz dele era tão real. Eu ainda sinto a dor de quase perder você e a dor de receber a notícia do acidente. — Yoongi abaixou a cabeça e puxou as mãos de Namjoon para dentro das suas, apertando com força. — Terminei com ele naquele dia.

— Não foi suicídio, Yoongi. Taehyung saiu com o carro na nevasca e sofreu um acidente. Você ter terminado o caso não influenciou em nada. E você não me perdeu, eu ainda estou aqui. Não estou? — Namjoon levantou a cabeça de Yoongi mais uma vez e inclinou-se, beijando sua testa, levando as mãos até as costas dele para fazer um carinho singelo. Yoongi ainda não conseguia entender como Namjoon podia ser tão compreensível e falar sobre Taehyung como se ele fosse um amigo próximo e não um amante que quase arruinou seu casamento. Parecia tão errado. — Yoongi?

— Sim?

— Eu sempre vou estar aqui.

Namjoon lhe deu outro beijo mais próximo da cabeça e afagou mais uma vez suas costas, afastando-se para arrumar as compras e começar a preparar a ceia para a noite. Yoongi suspirou cansado e esfregou as mãos uma na outra, seguindo-o até a cozinha, abraçando-o por trás enquanto beijava seus ombros.

— Pode repetir aquela nossa frase natalina, amor? — Yoongi pediu em um sussurro e apoiou o queixo nas costas de Namjoon. Ele riu divertido.

Eu sempre vou aguentar você, eu sempre vou amar você, eu sempre vou querer você. Você conhece o Papai-Noel?

Dec. 23, 2018, 3:07 p.m. 1 Report Embed 2
The End

Meet the author

Penduluns Escritora ainda em treinamento, faço do terror meu verdadeiro lar. Sou uma amante da noite.

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Post!
dear, dear,
AI MEU DEUS, JULLS, NEM SEI O QUE COMENTAR PORRA! ficou tão intenso. é como tudo o que você escreve na verdade. você tem esse estilo grotesco e agressivo, a diferença é que não se fica por aí como grande parte dos autores desse gênero. você joga na nossa cara o sangue, mas algo está acontecendo no background. parece que é para nos confundir. e eu adoro como sempre há um plot twist ou revelação no final que a gente não espera, mesmo sabendo que algo está para acontecer. nem sei como te agradecer por esse presente :( eu te admiro muito como autora e receber um presente seu assim é ♡ obrigada, obrigada e obrigada. eu amei a sua escrita, os seus detalhes (CLAIR DE LUNE É DAS MINHAS MÚSICAS PREFERIDAS E VOCÊ NEM SABIA DISSO E BOTOU, É DESTINO), o plot, a dinâmica do nam e do yoon e ainda mais como você conseguiu enfiar o nosso bebê no meio aaaaa ficou incrível, profundo e eu vou guardar no meu coração pra todo o sempre. feliz natal, meu anjo ♡
Dec. 23, 2018, 11:36 a.m.
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