Marcas da Alma Follow story

vanychan734 Vany-chan 734

Keith estava habituado à sua marca da alma, à latência da rejeição e àquele sentimento angustiado no peito. Para ele, não ser amado de volta era o ritmo natural das coisas. À exceção de seu pai, aquilo era apenas um detalhe comum do dia-a-dia, mas esse fato não lhe importava conquanto estivesse ao lado de sua alma gêmea para vê-la brilhar. Mesmo que ela não brilhasse por ele... Pelo menos, era isso que pensava até se declarar.


Fanfiction Cartoons Not for children under 13.

#plotsdotumblr #soulmate #romance #MinhaFicÉCanon #s8nuncaexistiu #canon-divergence #GalraKeith #sheith #voltron
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Marcas da Alma: Parte 1

NOTAS INICIAIS:

Ideia veio do plot soulmate do tumblr que foi compartilhado no facebook. O post original é: Quando as pessoas se apaixonam ficam com marcas na pele, que se correspondidas ficam negras. No caso da pessoa amada morrer, a marca se torna uma cicatriz. 
ADAPTAÇÃO PARA MEU PLOT: Quando as pessoas se apaixonam, desenvolvem marcas pelo corpo (sem local definido) que simbolizam esse amor. Se correspondidos, a marca se torna vermelha intensa e pulsa no ritmo do coração disparado do indivíduo quando está próximo ou pensando na pessoa amada, é algo meio incômodo, mas eles se acostumam. No caso da pessoa amada morrer, a marca se torna negra. [Eu acho que as cores combinam mais assim]. Além disso, as marcas causam dor quando aparecem pela primeira vez no corpo dos indivíduos E ardem (semelhante a uma queimação) quando a pessoa amada rejeita o dono da marca, independente do motivo [é literalmente sofrer de amor rsrsrs]. 
A explicação para essas marcas será como no universo ABO, é algo comum à espécie humana. Mas não irei focar muito nisso, é só pra entenderem o universo da fic ;) Alguns dados da história cânon de Sheith foram alterados e outros mantidos, espero que gostem <3 
~PAU NO C* DA S8. Sapor** nunca existiu. 
~A narração do Keith será dividida por “ ‘ ” como continuação do diálogo. Mas vai ter narrador em terceira pessoa também, se atentem aos verbos hahaha. Espero que entendam, é a primeira vez que vou tentar esse tipo de narrativa “dual”. 

Arte da capa por johannathemad. 

Fic dedicada a todos Sheithers que, assim como eu, estão sofrendo pela injustiça ao melhor casal que a ficção já teve.

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Krolia e Keith andavam sobre o organismo vivo em silêncio com o pequeno lobo cósmico ao lado. Apesar da recente descoberta sobre seu passado – ou melhor, sobre o passado de sua mãe – Keith não se sentia confortável o suficiente para manter uma conversa desinibida com ela, pelo menos não por enquanto. E de qualquer modo, ambos não possuíam um laço estreito para tal, ainda mais quando procuravam por abrigo enquanto o ser do espaço se locomovia pelo abismo quântico.

Não demorou para que achassem caverna razoável, montassem acampamento e cozinhassem as criaturas que atacaram o lobo cósmico mais cedo. Comeram em silêncio, ainda sentindo a tensão entre eles se estender.

- Keith... – Krolia chamou desconcertada, embora mantivesse a postura altiva típica de sua espécie.

- Sim?

As íris roxas, semelhantes às de Keith, fugiram de seu contato visual.

- Não é nada...

O jovem paladino suspirou, sabendo que aquilo era uma mentira, mas que talvez fosse o melhor no momento. Ele era um lobo solitário, preferia não se expor, principalmente a alguém que acabara de conhecer... mesmo que este alguém fosse a mãe que no fundo sempre havia procurado.

Keith decidiu que não queria pensar naquilo tão cedo, uma vez que eles teriam muito tempo para conversar depois. Adormeceram sem muito diálogo e no dia seguinte começaram uma nova exploração sobre o organismo, recolhendo alimentos e recursos para o alojamento.

Com o passar do tempo, a tensão inicial se dissolveu e Keith se sentiu impelido a confessar alguns detalhes de sua infância e vida na Patrulha. Como sempre havia sonhado em ter Krolia por perto, decidiu que não deveria desperdiçar aquela oportunidade de contato por ressentimentos passados e, no fundo, sabia que para ela tê-lo deixado também havia sido uma decisão sofrida e que lhe causava mágoas.

Eles mereciam uma nova chance.

Assim, as conversas fluíram livremente, sem qualquer roteiro ou restrição. Krolia contava-o tudo com excesso de detalhes, como se estivesse se reportando a algum agente superior, e Keith adorava seus relatos porque conseguia se imaginar ao lado dela em todas as missões. Suas próprias vivências, por sua vez, eram recheadas de reclamações acerca dos treinos entediantes na escola primária e até mesmo depois na Patrulha. As emoções em sua vida começaram de verdade quando conheceu Shiro, mas principalmente quando o salvou dos soldados do quartel que tentavam estudá-lo quando a nave alienígena pousou na Terra, o que no final o tornou um paladino do Voltron.

- Quem é Shiro?

- Ele é como um irmão pra mim – respondeu envergonhado, sentindo o rubor cobrir sua face. A marca em seu braço esquerdo pulsou forte com a lembrança do antigo companheiro, o fazendo tocá-lo por cima da jaqueta despretensiosamente – Foi ele quem me recrutou para a Patrulha Intergaláctica. Hoje, é o paladino do leão negro do Voltron.

- Compreendo. Vocês são próximos?

Keith assentiu evasivo. Sim, eram próximos, mas não tanto quanto gostaria de fato... No entanto, jamais exprimiria aquele desejo em voz alta, muito menos para sua mãe.

- Sim. Ele me ajudou muito...

E foi assim que a cada novo dia, eles compartilharam experiências e confissões. Keith já se sentia mais aberto com Krolia e de um modo positivo. Não era como se fosse sua obrigação manter algum tipo de laço fraterno com ela, mas mantinha porque era seu desejo. Por esse motivo não se sentiu julgado, meses depois, quando voltou de sua caçada e teve o braço agarrado num aperto forte por ela. Ele sentiu toda a análise minuciosa que Krolia fez em si e, assim que se viu liberto, as bochechas ganharam uma tonalidade vermelha intensa.

- Seu pai tinha uma marca como essa – pontuou – É uma marca de nascença? Não me recordo dela de quando você era um filhote.

Filhote. O dialeto galra era interessante, seu tradutor universal de tecnologia alteana o havia ensinado alguns termos durante o tempo na Espada de Marmora, mas aquele em especifico nunca tinha ouvido. Keith se sentiu constrangido com ele, mas decidiu focar-se na fala da mais velha enquanto se afastava e cobria a marca.

Seu pai havia morrido quando era apenas um garoto, por causa disso não se recordava de alguma marca nele e nem de alguma explicação acerca delas. Keith só veio a descobrir seu verdadeiro significado quando a sua própria marca apareceu e procurou por informações no quartel do Garrison.

- Não... não é uma marca de nascença – respondeu evasivo, depositando o animal abatido ao lado do lobo, que passou a cheirar a carne.

Keith vestiu a parte superior de sua armadura da Espada em silêncio. Desde que havia ganhado sua marca fizera questão de se manter coberto o tempo todo, mas naquele momento tinha deixado a armadura para trás... e de certa forma estava arrependido agora.

- Então, como é possível?

- São diferentes. A minha e a dele – falou sincero, acariciando o lobo que se esfregava contra si – Qualquer humano que possua uma marca como essa, é diferente em algum instância. A minha contorna meu braço e vai até o peito – tocou a região, displicente – É algo típico da espécie humana.

- Durante meu período na Terra, só mantive contato com o seu pai. Não sei muito sobre a anatomia de terráqueos, mas tenho certeza que ele tinha uma marca semelhante em sua coxa.

Keith suspirou. Era um assunto particular, extremamente particular. Mas Krolia era sua mãe e se seu pai tinha aquela marca era porque a tinha amado também, então ela merecia saber o quê as marcas significavam.

- Nós ganhamos nossas marcas quando amamos alguém verdadeiramente.

- Como assim “verdadeiramente”? – perguntou interessada, se sentando ao seu lado.

- Quero dizer no sentido romântico – respondeu num fio de voz, desviando seu olhar do dela – Quando os humanos amam alguém, essas marcas aparecem.

Krolia e Keith ficaram em silêncio por minutos. Ele não se sentia à vontade para contar mais e ela, por sua vez, parecia refletir sobre o antigo caso amoroso, então encerraram o assunto. Ele acendeu a fogueira e colocou a criatura capturada para assar enquanto ela se manteve do lado de fora da caverna observando as estrelas.

O antigo paladino se sentiu acuado de interferir no momento de reflexão dela, imaginava que o assunto fosse delicado, ainda mais depois de ver seu passado. Krolia havia ficado um tanto quanto chocada ao saber que seu pai havia morrido, e agora o tema voltava à tona.

- Seu pai me falava os nomes que os humanos davam às constelações – ela disse de repente, sem se virar para o filho.

Keith arregalou os olhos surpreso.

- Foi ele quem me fez gostar de astronomia. Ele nunca me disse o seu paradeiro, mas sempre me incentivou a descobrir o universo – confessou, indo se sentar ao lado dela enquanto olhava o céu noturno do abismo quântico tão diferente do seu céu conhecido e mapeado da Via Láctea.

Krolia sorriu melancólica.

- Eu jamais achei que o veria novamente, Keith – fitou-o – Sinto muito não ter sido presente.

- Eu sei. Está tudo bem – confirmou, ainda que uma parte sua doesse ao relembrar o tempo órfão – Essa luta contra o Império Galra é muito maior do que nós dois – falou decidido, olhando para as estrelas – Pelo menos agora podemos aproveitar esse momento juntos – sorriu, a fitando de esguelha.

Krolia assentiu.

- Posso perguntar algo? – questionou terna e quando o mais novo assentiu, continuou – Quando ganhou sua marca?

Keith suspirou, embora assentisse conformado. Ele não podia se abrir com Shiro, seu único amigo no passado – e atual paixão platônica – e nem se sentia confortável de falar com os outros paladinos, mas ter a galra ali como uma confidente parecia um pouco acolhedor.

- Eu já era órfão – começou a contar, tocando a região marcada em seu braço esquerdo. Krolia continuava a fitá-lo com interesse, e Keith seguiu com a explicação – Estava na escola quando Shiro apareceu pela primeira vez, ele foi enviado para encontrar crianças aptas ao processo de admissão da Patrulha. Eu não estava interessado no seu discurso moralista, mas quando a minha sala inteira falhou na simulação de voo, ele me notou, pediu que eu tentasse o simulador e eu aceitei.

‘Queria acabar logo com aquilo, sabia que não entraria na Patrulha de qualquer forma, mas eu tive uma pontuação alta capaz de atrair a atenção do Shiro. Quando ele conversou com a diretora, ela sequer considerou me indicar e ainda fez pouco caso de mim – o tom de voz era seco e firme – quem diria que no fim eu seria um paladino do Voltron, não é mesmo? O garoto órfão, com problemas de disciplina e solitário...

- Keith... – Krolia o interrompeu, esfregando-se contra ele, num gesto carinhoso dos galras.

- Está tudo bem – garantiu – Hm... Shiro até tentou refutar a diretora, mas eu estava tão irritado que simplesmente quis sair dali, não tinha como fugir obviamente, então roubei o carro dele – sorriu convencido, dando de ombros – Shiro me seguiu depois, fomos até uma delegacia e mesmo após eu ter roubado seu veículo, ele ainda interviu a meu favor e fui liberado.

- Como você sabe abrir fechaduras? Você tem oito anos!¹ – Shiro falou estupefato.

‘Dei de ombros, sem querer dividir meus conhecimentos irregulares. No fim, Shiro sorriu e me estendeu um cartão com o endereço do Garrison, dizendo que eu deveria estar lá às 8h00 da manhã seguinte. No começo, fiquei desconfiado, mas ele me olhava como se confiasse em mim e depois do que havia feito na delegacia, pensei que seria uma boa forma de retribuir sua ajuda... – Keith abraçou a si próprio, ligeiramente incomodado por estar dividindo aquilo.

- Não precisa me contar como se sente, se não quiser. Somos mais parecidos do que pensa – Krolia disse serena, atraindo seu olhar violeta.

Keith assentiu agradecido pelas palavras da mãe.

Mãe.

Era um tanto surpreendente ter consciência de que ela realmente estava ali, viva ao seu lado, fazendo parte da mesma resistência que ele, contra um império que escravizava mundos.

Sendo a heroína que ele sempre desejou conhecer.

Keith sorriu a olhando e então a abraçou de súbito, a fazendo ronronar satisfeita.

- Obrigado.

Ele sentiu ser apertado de volta e após um uivo do lobo cósmico, se separaram risonhos. O animal havia enterrado a cabeça nos joelhos dele, como se desejasse ser abraçado também, Keith riu contido e acariciou o pelo iluminado com carinho.

- Você também quer atenção, garoto? – lobo abanou a calda feliz.

- Vamos, Keith. Acho que nosso jantar já assou – Krolia se levantou e caminhou de volta para a caverna, e o mais novo a seguiu junto do animal.

Eles comeram num silêncio confortável, lobo degustava uma das pernas assadas aos pés da alienígena e Keith observava a cena tendo a sensação de conforto se espalhar por si. Estavam do outro lado do universo, longe da Terra, longe de seus amigos paladinos, do Castelo, de seu antigo leão vermelho e de Shiro... mas ainda assim tinha a sensação de casa que tanto procurou na infância. Krolia lhe passava isso com o olhar e pequenos gestos, por isso se sentiu confortável para seguir dividindo suas dores amorosas com ela.

- Acho que não terminei de contar minha história – falou displicente, a observando parar um pedaço de carne no ar. Os olhos violetas focaram em si, interessados, então continuou – Shiro me ofereceu uma carona para casa... quero dizer, ele me levou até o barraco onde eu morava no deserto, mas não entrou e depois se despediu com um sorriso cúmplice, como se não estivesse bravo pelo que eu havia feito.

‘Ele foi a primeira pessoa a confiar plenamente em mim, a me dar um voto de confiança e a se importar com meu estado. Não fez perguntas sobre minha família naquele dia, mas depois dentro da Patrulha sim... ele agiu como um verdadeiro irmão para mim desde então.

- Mas você não o considera um irmão.

A voz decidida de Krolia atraiu sua atenção, o fazendo concordar com um meneio de cabeça.

- Eu em senti querido, por alguém que nem sequer tinha obrigações para isso. Shiro me fez sentir especial novamente, como se eu fosse importante para alguém, então quando ele foi embora naquela tarde, após me entregar o cartão, eu me senti desamparado de novo...

Krolia não o interrompeu, apenas continuou a estudá-lo com o olhar. Sua postura, fala e traços eram bastante expressivos e ela captava tudo atenta.

- Quando Shiro me deu às costas e foi embora, senti uma queimação no meu braço esquerdo se espalhar até meu peito. Lembro de ter caído no chão, respirar com pesar e ficar assustado. Eu não sabia que o que tinha acontecido, cheguei a pensar que tinha a ver com o cartão dele, mas a dor não cessava, então eu corri para o interior da minha casa e arranquei minhas roupas.

‘Vi pelo reflexo do espelho que eu possuía uma marca. Fiquei assustado, mas ponderei que deveria passar alguma pomada que tinha guardado, mas elas não fizeram efeito. Eu senti a queimação durante muito tempo e a cada minuto ela ardia mais e mais. Acabei dormindo enquanto agonizava... aquela foi uma das minhas piores noites sozinho.

‘No dia seguinte, fui até a Patrulha. Queria encontrar o Shiro, estava com medo e pensei que ele pudesse saber o que estava acontecendo, mas ele estava ocupado e não o vi quando entrei. Ainda assim, Shiro tinha autorizado minha entrada para alguns testes e quando soube disse me senti encorajado a continuar ali. Esse pensamento me deu certa segurança e foi assim que notei que a marca pulsava conforme os batimentos do meu coração. É uma de suas característica, aliás, soube delas dias depois quando pesquisei na biblioteca do Garrison. Eles tinham um acervo muito rico com todas as explicações sobre as marcas lá.

- Você chegou a encontrar o outro paladino... esse Shiro?

- No começo não. Fui levado para uma série de simulações, mas a confiança de que o encontraria funcionou como um anestésico. Me saí bem na maioria dos testes, mas tive alguns problemas quando impliquei que iria vê-lo – sorriu saudoso.

‘Levei um esporro do capitão dos cadetes, mas fui admitido. Fizeram uma declaração que eu deveria levar para casa e mostrar ao meu pai, mas disse que era órfão e... fiquei por lá mesmo. Ainda continuei atrás do Shiro durante as primeiras horas, mas a cada momento a dor que eu havia sentido não estava mais lá e quando ele finalmente veio até mim, eu só conseguia me sentir calmo e grato.

‘Por causa do Shiro eu tinha um lugar e um futuro garantido...Ele foi tão atencioso – Keith suspirou saudoso – perguntou como haviam sido os testes, se eu queria continuar ali, o que meus pais pensariam disso... e foi assim que ele notou que eu não tinha família, mas disse que isso não seria mais um problema dali em diante. Eu senti a marca pulsar e esquentar, mas não era mais incômodo como no dia anterior, era realmente como se um calor confortável se espalhasse por mim.

‘Continuei participando de todas as simulações naquela semana e quando tive acesso à biblioteca, procurei por informações. Foi um pouco assustador saber que estava apaixonado por ele...então, com o ego ferido, eu me escondi. Shiro não sabe até hoje o que eu sinto e vai permanecer assim – o tom saudoso se tornou firme, conforme ele ditava a sentença final à galra.

Krolia assentiu, mas ainda se sentia curiosa sobre aquela característica dos humanos.

- Por que não disse a ele como se sentia?

Keith desviou o olhar, sentindo o rubor cobrir-lhe a face novamente.

- Shiro me tratava como um irmão, ele não nunca me olhou dessa forma. Eu sabia que era errado vê-lo assim, então guardei esse segredo dele e de todos. Ninguém sabe da minha marca, procurei me cobrir desde então... os banhos na Patrulha eram separados por cabines, então nunca houve oportunidade dos outros cadetes perceberem isso. E os exames médicos focavam em nossa saúde física e psicológica para aguentar missões no espaço, ou seja, não havia interesse em resolver nossa vida amorosa, assim como nenhuma pressão social que me obrigasse a contar a verdade.

Keith não disse mais, porém se lembrava que havia outro fator além daqueles. O principal aliás. Após meses dentro da patrulha, tirando notas boas e repreensões por mal comportamento, seu destaque o fez entrar num confronto com um dos colegas de turma. Ele havia insultado seus pais e Keith obviamente não deixaria aquilo sem resolução. Foram os dois para a diretoria, Shiro mais uma vez interviu a seu favor, levando um esporro do tenente da Patrulha. Eles conversaram depois disso, e Keith tinha gravado em sua memória a voz preocupada de Shiro dizendo:

- Keith, eu nunca vou desistir de você. E o mais importante: é que você não desista de si mesmo também.

- Você nem me conhece – a fala soou um tanto quanto acusatória, mas era sincera.

Desde seu pai, ninguém demonstrava preocupação consigo e Shiro também não tinha motivos para se preocupar.

- Tem razão. Mas às vezes precisamos de ajuda – e em seguida ele lhe estendeu a mão.

Keith sentia um calor se espalhar por si quando se lembrava de tal detalhe, mas logo a lembrança era suprimida pelo restante das memórias daquele dia.

Ele tinha aceitado a mão de Shiro e prometido que se comportaria dali em diante e em seguida o mais velho disse que precisava se ausentar por um compromisso e, assim, voltaram às suas atividades. Contudo, Keith sentia-se culpado por tê-lo envolvido, mesmo que indiretamente, em sua confusão, por isso se dirigiu ao quarto dele ao final da tarde e entrou. A porta estava trancada, mas ele ainda sabia arrombar fechaduras e esperou pelo amigo lá. Interessou-se pelos documentos em cima da escrivaninha, suas fotos com a equipe que possuía e uma coleção de pedras sobre a prateleira a cima da cama.

Também havia ensaiado seu discurso de desculpas, mas quando estava repetindo-o pela quarta vez, ouviu risos do outro lado da porta. Ele reconhecia a voz de Shiro entre as risadas, mas também havia outra o acompanhando. Ficou envergonhado de ser flagrado dentro de seu quarto por alguém que provavelmente não veria a atitude com bons olhos, ainda mais depois do incidente anterior, e em seguida decidiu se esconder no guarda-roupas de Shiro, deixando apenas uma fresta aberta para observar a movimentação no quarto.

Esse foi seu erro.

Keith viu Shiro entrar sorridente acompanhado por um homem moreno que usava óculos, eles continuavam a rir em conjunto, mas o jovem colocou o óculos sobre a cama e depois se aproximou dele com um olhar carinhoso. O mais novo, ainda escondido, teve a visão completa de Shiro beijando o outro homem à sua frente² e quando se separaram, ouviu Shiro propor que eles deveriam ir ao banheiro.

O jovem paladino sentia o coração pesar com a lembrança, assim como uma pequena queimação já acostumada influir por seu braço em direção ao peito. Na época, no entanto, a dor que sentiu foi surreal. Keith se lembrava de morder os lábios com força para não gritar e ser descoberto, mas não conseguiu tirar os olhos de Shiro, vendo seu sorriso caloroso e malicioso ser direcionado ao outro homem, que depois soube se chamar Adam, o noivo de Shiro.

Os olhos de Keith estavam cheios de lágrimas, sua marca queimava e embora soubesse o motivo daquilo (a rejeição), a dor não diminuía e nem cessava. Assim que eles entraram no banheiro, Keith correu para fora em direção a sua própria cabine, onde sabia que podia desabar e expressar seu descontentamento no travesseiro. Trancou-se em seu quarto e evitou Shiro sempre que pôde nos dias seguintes; quando era questionado sobre tal comportamento evasivo, apenas falava que estava ocupado com os deveres da Patrulha e assim foi se acostumando com o sentimento de rejeição ao ponto de agora ser apenas uma sensação incômoda e irritante, porém não mais dolorosa.

- Já considerou que esse terráqueo pode correspondê-lo? Eu correspondia ao seu pai...

- Não é assim que as marcas se estabelecem – respondeu pesaroso – Cada um que se apaixona possui a própria marca, se correspondidas tendem a brilhar, mas não há a certeza de que seremos correspondidos de algum modo.

- E... se o parceiro morre? – Krolia questionou reflexiva.

- Elas escurecem. Come se a região morresse, assim como o amor – respondeu com seriedade.

Os olhos de Krolia se arregalaram.

- Elas machucam vocês, humanos?

- As marcas? – Keith questionou, e Krolia assentiu – Não. Bem, elas doem, ardem e queimam, mas não nos machucam exatamente... Na verdade, é como se fossem um reflexo dos nossos sentimentos, um sintoma físico deles.

- Compreendo – Krolia falou pensativa – Nós, galras, temos um laço eterno com nossos parceiros através de mordidas. No entanto, se um dos parceiros se machuca ou morre, o outro fica debilitado ou vai a óbito também. Eu tentei marcar seu pai como meu humano, não funcionou obviamente, mas eu ainda sentia que deveria... talvez ele estivesse vivo agora.

Keith a olhou sério.

- Ou talvez você estivesse morta – Keith sussurrou amargo.

O pensamento de perder Krolia justo quando a havia encontrado fez um arrepio passar pela sua espinha. Ela olhou para si com pesar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Keith voltou a falar.

– Não me lembro da marca do meu pai, mas com certeza lembraria de alguma mancha negra no corpo dele – sorriu contido

Seu pai havia acreditado até o fim que eles estavam juntos, então ambos estavam de fato conectados de algum modo, independentemente de ser por uma mordida ou não. As marcas tinham essa característica subjetiva, estavam diretamente ligadas aos pensamentos do indivíduo, e tal informação Keith descobriu apenas com a prática, e não nos livros.

Quando os noticiários começaram a notificar a falha na missão Kerberos e a possível morte de Shiro, Keith sentiu o desespero tomar conta de si. Sua marca doía e queimava, mas ele se lembrava das informações que havia lido e quando se olhou no espelho viu que a sua marca estava roxa, e não enegrecida como supostamente deveria estar, respirou fundo. Aquilo era o simples reflexo da sua esperança em encontrar Shiro ser maior do que seu medo de tê-lo perdido, e conforme repetia para si mesmo “ele vai voltar” a pele marcada ia clareando até o róseo comum. Keith cogitou que esse detalhe poderia não significar muito, já que Shiro nunca o amou na mesma medida, mas Adam teria essa confirmação e se a marca dele estivesse clara, Shiro estaria bem!

No entanto, ao procurar por Adam na instalação, horas depois das notícias se espalharam, Keith o viu chorando no telhado da guarnição e ao se aproximar, o moreno o olhou com desprezo.

Você! Isso é tudo culpa sua!

- Não...

Lembrava-se de ter sussurrado tentando convencê-lo de que Shiro estava bem, mas o que ganhou foram apenas acusações do mais velho porque Adam não havia apoiado Shiro naquela loucura de missão, mas Keith sim... e quando percebeu, ambos já estavam se ofendendo e descontando as próprias frustrações um no outro.

- Ele morreu por sua causa! – Adam acusou, o afastando de si.

- Isso é mentira! – refutou, elevando a manga de sua jaqueta para mostrar sua marca – Shiro está vivo!

E assim os olhos castanhos de Adam se arregalaram, focando a marca de Keith com ressentimento.

- Não, não está... – respondeu, mostrando a própria marca negra nas costas de sua mão direita – Ele se foi.

Keith tinha sentido um calafrio atravessar sua espinha. Todo o rancor que havia nos olhos de Adam há minutos se dissolveu e a única coisa que restava a ele era a tristeza amarga de ter perdido seu amor. Adam não esperou por mais explicações de Keith, apenas lhe deu as costas e caminhou para o interior da instituição enquanto o mais novo permaneceu ali, sentindo a brisa bater contra seu rosto e gelar o rastro das lágrimas que escorriam pelas bochechas. Os olhos estavam fixos em seu antebraço, esperando pelo momento em que a sua marca iria escurecer.

Mas, felizmente, aquele momento nunca chegou.

Keith acreditou até o fim que Shiro estava vivo e que ele encontraria alguma forma de voltar para eles... para si. E com isso em mente, se esforçou para manter o legado de Shiro na guarnição, se tornou um dos melhores cadetes naquele ano simplesmente para ter algo de bom para contar ao amigo quando ele retornasse.

Keith o faria se orgulhar! Shiro fez tanto por ele que Keith jamais poderia desistir de si também. Era a promessa que tinha feito, afinal.

E foi assim que além de se tornar o melhor piloto, começou a vasculhar o sistema da Patrulha em busca de informações sobre a missão Kerberos. É claro que sua infiltração no sistema foi reconhecida pela segurança e como punição por “violar as regras de boa conduta” foi expulso. Não havia mais Shiro para protegê-lo das punições severas e, dessa forma, aproveitou a expulsão para agir por conta própria.

- Paciência gera foco, Keith – Shiro havia lhe dito essa frase tantas vezes que Keith a assumiu como um mantra pessoal e quando se sentia desanimado e sem esperança a repetia para si mesmo.

Naquele ano vivendo no deserto, na antiga cabana maltrapilha, Keith se prontificou a anotar todas as informações sobre a missão Kerberos que conseguia, o que resultou no seu mapeamento de energia desconhecida que levava ao Leão Azul e também a identificação da espaçonave que cruzava o céu. Quando Keith viu aquilo, sentiu sua marca pulsar pela esperança de ser Shiro retornando e então se deslocou até o local do impacto.

- Vamos dormir, Keith – Krolia disse cortando seus pensamentos – Amanhã quero reconstruir as armadilhas ao redor.

- Pode descansar primeiro... eu vou vigiar – disse evasivo, fitando o céu estrelado.

- Tudo bem, me acorde se algo acontecer.

Ele assentiu em silêncio e depois se sentou do lado de fora da cabana. Lobo o seguiu e apoiou a cabeça em seu colo, exigindo um pouco de carinho do antigo paladino. Keith afagou o animal distraído, relembrando dos antigos momentos compartilhados com Shiro e refletindo sobre como ele e os amigos estavam naquele instante.

Esperava que estivessem bem...

Eles tinham que estar.

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NOTAS FINAIS:

¹ Fala tirada dos prompts do tumblr, especificamente o número 35 compartilhado pela Juliana Walker. 
   ² Cena retirada de uma fanart que cortou meu coração, acho que foi a Mikaela quem compartilhou, a mesma imagem do cap. 
   Eu queria trabalhar um pouco da convivência da Krolia com o Keith aqui, assim como explorar aspectos das linhagens alienígenas; eu espero que tenham gostado.

Esse trabalho é uma threeshot e já está completo, logo mais atualizo <3 
Eu estou devastada pela nom-sense fic ruim s8 de Voltron, por favor, caprichem nos emojis. Beijos.

Dec. 15, 2018, 4:25 a.m. 2 Report Embed 5
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Isis Isis
Ai Keith e Krolia - e Kosmo ♡. Eu adorei esse universo da marca! E o Keith se apaixonou de cara aaaaa. então a marca do Adam ficou preta porque ele não acreditava que o Shiro estivesse vivo e "matou o amor"? Continuando...
Dec. 26, 2018, 7:37 a.m.

  • Vany-chan 734 Vany-chan 734
    Olaaar de novo! Aaaah, o Keith sempre amou o Shiro e eu posso provar! HAHAHAHA Acho que no universo da marca isso faz mais sentido, e foi bem legal explorar isso. Respondendo a pergunta: Eu considero o término de Shadam/AdaShi muito próximo ao lançamento de Kerberos, sendo um dia - ou no máximo dois dias - de diferença (como se o Adam tivesse esperança do Shiro desistir até o último minuto), então quando eles terminam, na minha cabeça, o Adam ainda tem a marca brilhando, mas a dor da rejeição vai tornando ela roxa aos poucos, assim como foi com o Keith, só que dias depois o "erro de piloto" acontece e ai Adam pensa que o Shiro morreu de vez. Eu considero, então, que foi o término do namoro e a notícia da morte ao mesmo tempo que tornaram a marca dele negra por completo; mas na cabeça do Adam ela ficou negra pela notícia da morte do Shiro, já que no meu universo elas tem uma característica subjetiva (e não onipresente). Dec. 27, 2018, 5:56 p.m.
~

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