Só a lua vai saber Follow story

sweet-mary Mary

"Já faz tanto tempo que você se foi que até parei de contar os dias. O sorriso que brota em meu rosto é tão cínico quanto os materiais que compunham minha armadura de "mulher forte e inquebrável". A propósito, passo tão despercebida no mundo que se não assinasse esses reclames para a lua, ninguém saberia que a autora deles sou eu. As folhas de papel colocadas dentro de uma garrafa de vidro viajariam oceanos afora, resistindo às tempestades, à braveza das marés, mas iriam mais longe do que jamais fui." Convencer a razão de apagar da memória aquilo que está para sempre gravado nas paredes da alma. A lua testemunha amores de todo tipo, os desamores, as folhas de papel amassadas em busca do poema perfeito, de um meio original para se dizer "eu te amo”. Mas pior do que não escrever o poema perfeito é nunca mais ter a oportunidade de dizer, nem que a voz falhe, que o rubor da timidez cubra a face. A lua sabe também o quanto dói não poder colocar no colo a figura de coração quebrantado que escreve para sobreviver, apenas para sobreviver.


Short Story Not for children under 13.

#arrependimento #escritora-mary #saudades-de-um-amor-que-se-foi
Short tale
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Só a lua vai saber

A cada lágrima que cai amarga entre meus lábios, me dou conta de que as guardei em demasia, a exemplo daquela menina que aperta os lábios quando é repreendida pela professora diante da classe toda e não quer chorar para que os colegas não zombem dela.

Vesti por cima da dor a armadura da mulher inquebrável que esconde seus mais profundos sentimentos porque olhei em volta e entendi que o mundo não pararia de girar porque alguém foi embora e levou consigo uma parte de mim, que por mais que gritasse para os céus, ouviria meu desespero raiando tanto quanto o sol, ninguém se importava. E ninguém nunca se importou. E em certo momento me questiono se foi justo ter fingido que nada seria capaz de me abalar.

Eu me julgava anestesiada demais para acreditar nos fatos.

Sinto vergonha porque tive oportunidades para dizer em voz alta o quanto te amava e não as aproveitei porque acreditava que estar junto a você já era a resposta, no entanto meu maior remorso se dá porque o orgulho sempre me regeu. Se eu ouvisse de outros lábios poderia duvidar da veracidade, a cadência da voz poderia me enganar, contudo a transparência que sempre foi seu norte me tranquilizaria. E agora digo que te amo, mas quem me ouve são as paredes, as folhas de papel, o vento e a lua. De que adianta, então?

Procuro por um pontinho vermelho no infinito azul, porém sei que estou sendo imatura, que já está mais do que na hora de me refazer, me perdoar, olhar para o que sobrou de mim e se possível redesenhar a esperança, nem que no início nem eu mesma me convença da ilusão, até que meu coração não sinta essa dor que me tortura por ter sido tão cruel comigo, não só pelas lágrimas que guardei, mas por não ter acreditado que sempre mereci ser amada.

Nada disso foi culpa sua.

Eu nunca quis parecer uma garotinha frágil, nasci resistindo e cresci consciente de que se não lutasse pelo meu lugar no mundo, ninguém o faria por mim. Se o amor não viesse, eu saberia viver muito bem porque teria sonhos maiores que dependeriam somente da minha força de vontade para se tornarem realidade.

Quando o sono não vem, pergunto a Deus como seria a vida se você ainda estivesse aqui, de olhos fechados brinco com o livro do destino, arranco todas essas páginas idiotas preenchidas por parágrafos sem sentido e verifico algum indício de que as reticências — na nossa história — seriam o último capítulo e meu manifesto, um epílogo daqueles bem pouco cativantes, mas justo por existir.

Os dias e os desencontros foram descolando o barbante dos dedos suados e eu deveras estava distraída demais para perceber que tons de sépia encobriam aqueles instantes que sem alardes anunciaram reticências. Você ainda era você e eu ainda era eu, todavia quando olhava em seus olhos não queria te encarar de volta, a visão me atordoava sobremaneira.

Não há noite no mundo que se prolongue, um tímido raio de sol desponta no mais longínquo ponto do horizonte e as cores explodem no céu, trazendo para cada um de nós a esperança de um novo dia. Às vezes espero tanto que me canso. Pelo amanhecer. Por um sinal. Porque acredito que se você queria de verdade o meu bem, se contentaria se soubesse, nem que fosse a cargo de um pombo-correio, que depois de tantos anos de tristeza fiz às pazes com a alegria. Se você for capaz de sentir que não estou bem, me deseje (em segredo) que as nuvens de chuva se dissipem e eu tenha coragem de destruir todas as muralhas que ergui em volta do meu coração para ninguém nele adentrar.

É fato. Eu "fechei" todas as portas e janelas do meu coração, apesar de me machucar com os espinhos para cuidar da jardinagem, por um lado prefiro assim, porque ainda sou capaz de me suportar. Porque gosto do silêncio. Porque de tudo de bom que a vida me deu e tomou de volta, gosto dele porque os ruídos me desconcentram, aludem a tudo que vem de fora e não faz o menor sentido, não quando o tempo aponta para uma direção e a alma ruma por outra.

Entre chorar pelos cantos para ser zombada como aquela menina que costumava cair em prantos na frente dos colegas de escola quando era aporrinhada, escolhi falar somente o necessário, não me tornar refém dos predadores que farejariam em mim a presa perfeita para joguinhos em que eu sairia mais ferida do que já estou agora. Porque eu te amo. Eu ainda te amo. Eu amo o sonho distante que acabou. Não amo uma ilusão, uma manipulação, a figura de alguém que prometeu me fazer feliz, que viria para ficar e no fim só queria brincar.

Eu amo quem despertou meus sonhos adormecidos, quem me mostrou que aquele amor que eu via todas as outras vivendo também era permitido a mim, quem enxergou a beleza que eu escondia por não me sentir adequada, quem não só abraçou como beijou minha alma antes de tocar meu corpo. As marcas que você deixou vão perdurar por toda a eternidade. Seus lábios cobrindo minha pele com devoção, minha poesia preferida em que meu verso predileto era aquele que nossos corpos contrariavam as leis da Física e eram um só desejo.

A cama vazia faz lembrar quando esses versos eram o nosso segredo, quando você tinha sede de mim como ninguém jamais teve, quando nem eu mesma imaginava que poderia sentir tão grandemente a vontade de ser possuída, sem pudores, sem impedimentos, sem qualquer pressa.

Nosso ninho de amor era nosso mundo, meu sorriso iluminava seu olhar, eu sabia porque você me abraçava forte, meu queixo se encaixava em seu ombro esquerdo e seus braços enlaçavam minha cintura, naqueles momentos em que ninguém podia me julgar, você comentava que gostava do meu riso frouxo, do meu cafuné, de como eu era boa ouvinte e fazia com que seus fardos não soassem insuperáveis. Você se fortalecia para lutar quando descansava suas mãos por entre as minhas e eu nunca disse que sentia o mesmo, que quando seus dedos tocavam os meus até se entrelaçarem, eu também me julgava capaz de alcançar as estrelas, contar uma por uma, me sentia maravilhosa.

Quando você me via com o olhar perdido, contemplando a maior cúmplice de todas as nossas aventuras amorosas e dos segredos que o vento levou embora, queria saber em que eu estava pensando. Você me olhava tão fundo que mergulhava em minhas jabuticabas, como se procurasse um atalho que me levasse a te contar o que eu tanto escondia. Não era só o corpo embaixo dos cobertores. Queria te amar sem perder o controle de mim mesma, ser sua e ainda ser minha.

A luz da noite se projeta onde você gostava de se deitar e me olhar tão fundo que me fazia rir de medo, era fundo mesmo, de me deixar arrepiada de desejo, porque eu me via cada vez mais sua, tão sua que não gostava de pensar no dia de amanhã para não chorar se acaso os planos do destino fossem outros, por isso insisto que queria ter o controle de meus sentimentos porque julgava ser capaz de evitar o sofrimento, mais forte que meus impulsos, que minha própria natureza impetuosa que nunca deixava de ter sede de você.

No céu da boca ainda sinto seu gosto, passo as pontas dos dedos nos lábios rememorando nosso primeiro beijo que foi aquela surpresa boa que a vida tinha guardado para mim, quando eu não sabia sequer o que fazer e você prometia tomar conta do meu coração, que ninguém me machucaria, confessando que havia muito tempo que esse desejo queimava dentro de você. E dentro de mim também, descobri.

Afundo o rosto sobre o seu travesseiro, sou tão tola, seu cheiro não está mais impregnado nas roupas de cama. Agora são as lágrimas que marcam a fronha porque nesse abraço simbólico finjo que num sonho qualquer nós nos encontramos e eu mato a sede de você, a saudade, as dúvidas se dissipam e você sussurra o quanto meu sorriso é lindo e te faz sorrir também.

Tento ser feliz com o que tenho porque poderia ter muito menos, poderia não ter sequer um meio de externar que lágrimas escorrem também dos corações mais duros. Tento de verdade, me esforço para nunca perder a fé porque maior do que todas as minhas agonias é o Deus que me vigia e me acalenta quando as noites mais tortuosas me roubam o ar. No entanto, muitas vezes sinto-me tão desnecessária no encaixe da engrenagem, cumprindo a rotina para que algo esteja no devido lugar, que desejo não existir.

Tento pensar que a tristeza não é apenas inspiração para aqueles poemas que tiram o fôlego porque conseguem ler tudo o que a alma fala sem que verbalize porque a angústia se derrama em linhas e métricas ou buscam ser livres para se expressarem, também é responsável por moldar o caráter, ensinar o valor das pessoas, dos momentos e da própria alegria, refletir sobre o equilíbrio necessário para que a vida transcorra. Gosto do silêncio justamente porque ele é um amigo que me permite chegar a essas conclusões sem ser tendencioso.

Já faz tanto tempo que você se foi que até parei de contar os dias. O sorriso que brota em meu rosto é tão cínico quanto os materiais que compunham minha armadura de "mulher forte e inquebrável". A propósito, passo tão despercebida no mundo que se não assinasse esses reclames para a lua, ninguém saberia que a autora deles sou eu. As folhas de papel colocadas dentro de uma garrafa de vidro viajariam oceanos afora, resistindo às tempestades, à braveza das marés, mas iriam mais longe do que jamais fui.

Vai amanhecer de novo, eu sei, eu sei que amanhã será outro dia e que embora hoje esteja cansada demais para qualquer coisa, dei um grande passo para curar meu coração partido, me permitindo chorar enfim toda a dor que guardei.

Talvez hoje eu tenha me tornado uma mulher de verdade, a mulher que você nunca verá crescer. Um dia, quem sabe, não se forme um nó na garganta ao pensar no que ficou para trás, em tudo que poderia ter sido e não foi porque nosso sonho foi interrompido, na perspectiva de outro corpo ser meu cobertor, que outro colo acolha o que sobrou de mim, que outro beijo me toque a alma, que eu me derreta por outro olhar. Hoje ainda forma porque ainda te amo. Ainda te amo e o quanto, só a lua vai saber.


N/A: Dedicado a todos os leitores que por aqui passarem!

Fiquei um pouco preocupada na hora de classificar essas palavras porque como há algumas descrições que podem não ser adequadas a todos os públicos, ainda que os parágrafos sejam mais tristes do que calientes, até porque não descrevi uma cena de sexo, se falei sobre duas pessoas consumarem o amor, tentei ilustrá-lo da maneira mais sutil e poética possível.

Como o amor não tem gênero nem um só padrão de ser, um garoto pode ler imaginando seu amado ou também a sua amada, uma garota pode ler imaginando seu amado ou a sua amada, pode-se imaginar mil possibilidades, tudo é questão de olhar pra dentro. Aqui é válida toda forma de amor. ♥

Espero que a leitura lhes seja agradável, esse texto aparentemente simples me deu um trabalhão porque me cobro e a cada momento que vejo algo que não gosto, me meto de arrumar tudo e parece que não vai parar nunca... rsrsrs

Dec. 10, 2018, 3 a.m. 0 Report Embed 0
The End

Meet the author

Mary Sou curitibana, estudante de jornalismo, gosto de pop rock e odeio funk, nas horas vagas gosto de jogar The Sims, tenho um carinho enorme pelos anos 90, então ainda gosto de colecionar CDs dos meus artistas favoritos e assistir a vídeos antigos no Youtube. Meu maior laboratório depois da leitura e da prática propriamente dita da escrita são as pessoas, suas vivências, experiências e sentimentos.

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