Não Deixe a Porta Aberta Follow story

amanda-jandrey8085 Amanda Jandrey

Aryana Eisenglass escolheu trabalhar com os mortos por causa de suas experiências com os vivos. Buscando levar uma vida calma e sossegada, vê-se em meio ao caos quando a pacata cidade de Winchester mergulha em um momento de crueldade e insanidade ao mesmo tempo que antigos fantasmas voltam à sua vida.


Thriller/Mistery For over 18 only.

#terror #assassino
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Capítulo 1


Quatro coisas são imprescindíveis na vida de uma mulher. Sua independência, sua força, sua altivez e seu destemor. Toda vez que você ouve falar de uma mulher destemida, são estas quatro coisas que a tornaram uma mulher de quem você ouve falar. Algumas, ainda bem no início da vida, enfrentam o caos e a desordem numa profusão de medos que nem mesmo a dramaturgia de Shakespeare poderia explicar. Outras, no auge de todo o seu esplendor, são meras mortais que, mesmo no caos e no medo, desabrocham em flores coloridas. Talvez nenhuma delas representaria Aryana em sua completude.

Mas ousariam.

Ela estava imersa em pensamentos, batendo a caneta sobre a papelada. Umas poucas horas antes, estava sob cobertas grossas, tentando evitar o frio. Agora, com a xícara de café formando um círculo sobre a madeira barata, ela olhava um formulário que precisava ser preenchido. Bastava um pouco de empenho e ela o faria, mas o que a impedia era a brutalidade do crime. Tinha o cabelo loiro preso em um coque bem firme, a testa franzida em sinal de rigidez e as botas batendo no chão, ora sim, ora não.

— Eu sei que você tá ocupada, mas eu preciso dar alguma resposta pro cara lá de cima. — Ryan Pellegrino estava com olheiras, o cabelo desgrenhado e entupido de cafeína. — E se eu precisar dizer que você emagreceu, eu vou.

Ela ergueu o rosto, franzindo os lábios.

— Não precisa ser tão gentil, Ryan.

— E aí? O que foi que aconteceu?

Ela puxou um papel com anotações, estendendo para que ele pudesse ler.

— Contusões, algumas escoriações. Provavelmente, o que a matou foi a espinha quebrada. Como disse que você achou ela?

Ele largou o papel, apertando a testa.

— Ele tinha pendurado ela tipo o cristo na cruz, a diferença é que ela estava virada.

Aryana redigiu a anotação no formulário. O computador estava aberto nas imagens, mas ela não conseguiu olhá-las. Ergueu-se, caminhando na direção do corpo. Puxou o lençol para um corpo pálido e duro. Ryan cobriu a boca ao ver as costuras na boca e as órbitas vazias.

— Por Deus.

— Deus parece ter muito a ver com isso — disse Aryana, indicando algumas marcações. — Algumas marcas no corpo dela foram feitas com cruzes. A carne está queimada. — Ela virou a mulher, mostrando o torso escoriado e pequenas cruzes que iam do ombro até as nádegas. — Ela sofreu isso enquanto estava viva.

Ryan assentiu, dando uns passos para trás. Ela sabia que ele ainda era muito novo para lidar com a náusea, ia precisar de algum tempo.

— Eu vou falar isso pro… pro capitão.

— E diga a ele para ocultar isso da família, por enquanto. — Aryana atravessou o laboratório, deixando as anotações ao lado do computador. Estava escuro lá fora e ela podia imaginar o medo de uma garota prestes a ser assassinada. Apertou com força o papel, amassando-o, quando Connor entrou. — Você também?

Ele a olhou, colocando os óculos e grunhindo.

— Parece que a gente tem um assassino a solta.

— E o Carter precisa de todos nós por quê? É apenas um corpo, ele precisa é chamar mais gente pra trabalhar. — Ela cobriu a mulher outra vez. — E se considerarmos que Winchester é pequena, ele pode achar essa pessoa ainda esta noite.

Connor se virou para ela, num misto de irritação com resignação e deu de ombros, servindo-se de uma xícara de café.

— Por que você escolheu trabalhar com os mortos, Arya?

Ela ponderou se deveria lhe dizer a verdade, mas achou que uma mentira paliativa ia ser melhor.

— Eu não trabalho bem com os vivos.

— Eu também não. É por isso que não sou eu lá em cima tomando as decisões. E se o Carter decidir que vai esperar acontecer de novo, eu espero que ele tenha em mente que vai perder pontos nesta cidade.

Ela olhou por cima do ombro, ainda pensando sobre a pergunta de Connor.

— Por que você ainda continua aqui?

— Porque eu ainda não sei lidar com vivos. — Pigarreando, ele pegou a prancheta. — Vamos ver quem é essa moça e tentar descobrir mais alguma coisa.



Ao entrar em casa, eram quase dez horas da noite. Ela podia sentir cheiro de carne assada, como na infância no Brasil. Deixou o casaco pendurado na entrada, caminhando pela casa na direção da cozinha. Estava um pouco enjoada, mas ia passar. A garota de 19 anos encontrada morta em um matagal de Winchester era Linda Carter. Linda tinha um futuro brilhante como nadadora, mas aquilo tinha sido arrancado dela e Aryana estava irritada. Ao cruzar a porta da cozinha, encontrou Drusila, a tia, sentada à bancada, rindo de algumas fotos.

— Oh, Arya, meu amor! Você saiu tão cedo esta manhã!

Ela se sentou ao lado dela, beijando os cabelos pretos com cheiro de almíscar.

— Tivemos um crime essa noite, precisei trabalhar. Fiquem dentro de casa a partir de agora. — Ela se espichou para espiar as imagens e engoliu a saliva com dificuldade ao reconhecer as pessoas nas imagens. — Por que está olhando isso, tia Dru?

A mulher se virou para ela.

— Kayla mandou. Achou que eu fosse querer guardar já que conseguiram vender a casa de Marta. Chegaram esta manhã, junto com…

Arya arqueou a sobrancelha à pausa. Estreitou os olhos e escorou o rosto nas mãos.

— Junto com o que, tia?

— Eu sei que eu deveria ter te contado antes, mas você não gosta de tocar nesse assunto.

Apesar da ânsia na boca do estômago, Aryana fez um pouco de esforço para parecer de bom humor. Havia um assunto proibido naquela casa, cuja função era deixar Arya mal. Drusila jamais traria aquilo à tona se não fosse algo importante.

— Ele veio?

— Fazem dez anos, meu bem. — Drusila apertou suas mãos. — Eleazar precisa de ajuda e, bem… Alex continua sendo muito bom nos negócios. — Por um instante, Arya pôde perceber o pânico nos olhos de Dru. — Não queremos magoá-la, meu amor.

— Eu sei, tia. E como você disse, fazem dez anos. — Ela se inclinou e beijou Drusila com calidez. — Está tudo bem. Vou tomar um banho, não quero aparecer aqui fedendo a defunto.

Ela se levantou, dando a volta na bancada. Drusila a seguiu pelo corredor em direção às escadas. Arya se virou para ela com um sorriso e esperou. Ainda nervosa, apertando as mãos, Drusila murmurou:

— Não deixe que isso te afete.

— Não vai, tia. Eu já passei dessa fase. — Tirou o blusão de lã e o sacudiu nas mãos. — Eu só preciso me acostumar. Vou tomar um banho e volto logo.

Apesar de saber que Drusila estaria em alerta pelos próximos dias, Arya foi sincera ao afirmar que ela não era mais a mesma pessoa. Muitas coisas tinham mudado, ela mesma não tinha os mesmos medos, mas sabia que aquilo causaria algum efeito sobre si. Fechou a porta do quarto e despiu-se no caminho até o banheiro, deixando as roupas espalhadas pelo chão. Enfiou-se debaixo da água, fechando os olhos e trazendo algumas memórias à tona.


Quando a mulher o apresentou, pareceu estranho que eu pudesse encará-lo sem parar. Eu tinha um mantra, onde o mundo era só meu. Eu precisava pensar em um lugar feliz para sobreviver. A mulher de vestido florido pigarreou, exigindo atenção. Ele se levantou, usando preto, parecendo perdido, mas ainda assim severo. Era alto o bastante, tinha um pouco de barba por fazer no rosto e olhos apertados, como se estivesse de mau humor. Escondia o cabelo escuro sob uma touca e tinha músculos que me faziam querer encolher.

— Este, pessoal, é Alexander Schmidt.


Aryana emergiu ao ouvir a batida soar à porta. Cobriu-se de água, mais para esconder as marcas pelo corpo do que o próprio. Soltou um pode entrar abafado e viu Dru enfiar a cabeça pela fresta.

— O que você acha de um belo e maravilhoso churrasco para o jantar?

— Com a legítima maionese que só tio Eleazar sabe fazer?

Drusila soltou uma risadinha baixa.

— Eu vou convencê-lo, pode ter certeza.

— Mal posso esperar — Ela sorriu, mas parou assim que a porta se fechou.

O estômago estava embrulhado com a ideia de Alexander estar naquela casa, no mesmo cômodo que ela e olhando para ela. Desde o fim, ela nunca tinha procurado contato e nada partiu dele também. Ao deixar o Brasil, tudo o que Arya mais desejava era também deixar o passado para trás. Embora tivesse pensado que tinha conseguido, ao olhar as mãos sob a água, ela sabia que não.



Fazia uma eternidade que não tinha notícias de Kayla. Enquanto descia as escadas, Arya checou as mensagens e encontrou algumas exclamações da irmã. Sentia falta de Kayla como não sentia de ninguém, e do marido dela, Jordan. Parou no hall, olhando a sala, florida, enfeitada com bibelôs e revirou os olhos, sabendo que ele estava na casa. Alexander tinha sido seu primeiro amor, a primeira paixão desenfreada que ela tivera ao longo da vida. Ao passo que ele lhe salvara, também a destruíra. parou à porta da cozinha, pensando se poderia encarar aquilo.

Puxou o ar com força, inflando o peito e adquirindo coragem. Não era como voltar no passado. Aquilo não podia machucá-la.

Meteu um sorriso no rosto e entrou, sentindo cheiro de batatas cozidas, madeira crepitando e as azaléias de Drusila. parou à bancada, pegando um pedaço de batata enquanto Drusila colocava à sua frente um copo de champanhe. Arya odiava champanhe, mas sorriu e bebeu.

— Convenceu ele?

— A contragosto, mas Eleazar não me deixaria tendo desejos. — Drusila girou pela cozinha e jogou um tomate na boca. — Ele sabe que sou temperamental.

Aryana sentiu-se contente pela tia. Olhá-la sorrindo assim era inimaginável dez anos antes, quando os problemas alimentares a rodeavam. Ela gostaria de não culpar a avó, ou mesmo sua própria mãe, mas ambas tinham parcela de culpa em todos os traumas. Bebericou a bebida, apertando com força a taça.

— Eleazar está lá fora?

— Ah, sim. Ele e Alex estão… — Dru calou-se à menção do nome. — Por que não me ajuda com a salada?

Arya apertou os lábios e buscou novamente o ar.

— O medo de um nome só aumenta o medo da própria coisa. Se a Hermione conseguiu, eu consigo. — Ela piscou, empurrando a porta para o pátio e parando-se no alto da escada. — Acho que você está fazendo alguma coisa errada. — disse, pondo uma das mãos na cintura e sorrindo na direção do tio.

Eleazar se virou para ela num ímpeto, soltando uma gargalhada. Aryana não correu os olhos pelos dois, concentrou-se no tio. Mas ela sabia que era observada. Foi observada descendo os degraus, depois andando pela grama e, por fim, ao ser abraçada por Eleazar.

— Achei que ia estar presa no laboratório.

— Eles acharam que eu devia dar uma volta. — E, depois de muito reunir coragem, ergueu os olhos para ele. — Olá, Alex.

Ele abriu um sorriso curto.

— Oi, Arya.

Dec. 9, 2018, 2:50 a.m. 0 Report Embed 0
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