Artemísia Follow story

cheanderella m. jung

Quando a primeira bruxa foi condenada ao fogo, o céu gotejou tristes lágrimas naquele fim de tarde. A medicina natural era vista como propagação da maldade e todos os que compactuavam com aquilo eram perseguidos até que tivessem o mesmo destino daquela mulher. As curandeiras passaram a se esconder ainda mais, movidas pela necessidade de ajudar a plebe, reuniram-se em sociedade e juraram estar sempre unidas e protegendo umas as outras, cuidando dos doentes às escondidas, longe dos olhos da Corte. Sete delas, bruxas assumidas, estariam unidas a laços de sangue sob um banho de luar. Nem que precisassem derramar gotas de despedida. A segregação obrigou duas crianças diferentes a se afastarem, e somente quando crescidas, elas perceberam que mais do que nunca, precisavam resgatar a paz daquele reino.


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#gfriend #twice #blackpink #red-velvet #loona
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Fugitiva.


Não vai nascer.
Porque eu não quero.
E basta eu não querer.

Carne Doce

• • •

As grandes janelas de mármore acolhiam a luz da lua, a meia-noite batia na porta. O céu do reino via-se pontilhado de longínquas estrelas saudosas, carregando a fé daqueles em vida, torciam para que elas olhassem por si. Estrelas vivas da noite, rutilando em sua imensidão.

A porta do quarto se viu aberta e permitiu que passasse o corpo recoberto pelo manto escuro tingido em um tom sóbrio de carmem. Os pés descalços, nus e frios, pisoteavam o chão liso e buscavam o silêncio, a barra longa do vestido turquesa sem detalhes se arrastava com graça. Os cabelos compridos estavam soltos, seu rosto plenamente oculto. A silhueta manchava a parede banhada a ouro e prata, repleta de quadros antigos, obras registrando linhagens passadas, monarcas antigos, eternizando existências. A chama das luminárias era ainda acesa, o vento frio da noite tentado a apagá-las.

Desceu as escadas sozinha, a respiração contida, o peito cujo coração batia forte trêmulo pelo receio do amanhã, a palidez das mãos destacadas, as unhas sem cor. Não reluziam joias nem pedras, não vestia do ouro, da prata, estava despida de corpo e alma, e amedrontada.

Saiu daquela ala no mais sincero pavor. O castelo todo dormia, mesmo seus servos e guardas, nenhum parecia estar atento à madrugada que se seguiria. Ela desceu as escadas com todo o cuidado do mundo e encontrou a saída sem sequer entender como havia conseguido achar o caminho mesmo rumo à escuridão total.

O lado de fora estava congelando de frio. Os guardas, em seus postos, dormiam. Incompetentes, ela julgou. Agradeceu por isto, mas ainda lhe dava asco ver que eles estavam sempre dormindo, mesmo nos dias anteriores, quando ela também fugia daquilo que chamavam de castelo. Chamava de prisão.

A luz da lua não banhou o interior da floresta quando ela se embrenhou. Longe da vista de soldados armados, a princesa grávida correu. Sim, germinava algo em seu ventre, algo que poderia dizer que é o caos do dia seguinte, um mau agouro. Não o queria, não o teria. Porque não queria.

Entrou na mata densa e procurou por ajuda, sozinha e sem qualquer possibilidade de ver se voltaria viva. As árvores tortuosas enfeitavam a noite e seus galhos pareciam mãos monstruosas procurando lhe prender, ela sentia o medo percorrer sua espinha e a vontade de chorar era absurda. Quanto mais corria, mais o peito arfava, o vestido a todo tempo se prendia nos troncos ocos e seus pés nus tocando o chão era como se previsse que uma hora cairia. Estava tão desnorteada que talvez estivesse tomando um rumo completamente diferente do esperado.

Ela buscava por uma ajuda que não poderia solicitar à ninguém. Um jeito de fugir que se descoberto, seria associado ao pior dos atos. Ela bem sabia deste detalhe, por isso se meteu na floresta, ninguém podia ver a garota indo em busca de um jeito de cortar as raízes da semente que ela não queria, de forma alguma, que crescesse.

Caiu após bater contra um tronco oco e sua barriga se chocou contra uma pedra, causando-lhe uma dor tremenda. Gritou e chorou, despejando lágrimas quentes pelo rosto e seu corpo tremendo pelo impacto. Gemeu em constante pedido de socorro, em meio à floresta deserta, estava longe do destino. Ao menos serviria para adiantar o serviço.

Levantou-se com dificuldade, o manto caindo e expondo seu rosto. Voltou a se cobrir e andou, mancava, a mão sobre a barriga, os olhos inchados, seu vestido ficara todos sujo, ainda tinha que se desprender dos galhos, tornou a correr. Precisava chegar no local certo.

Um casebre pequeno jazia próximo a um laguinho na parte leste da floresta. A lua iluminava o céu perfeitamente, as estrelas brilhavam em sua companhia, o cheiro de erva-doce pairava pelo ar, as luzes daquela casa estavam acesas. A princesa, esperançosa, foi até lá, pedindo socorro.

“Ajudai-me vos, por obséquio!” pediu, diante da casa, batera na porta três vezes. “Preciso de vossa ajuda!” bateu novamente.

Ela esperou, mas o silêncio da casa era imperador. Via as janelas com as luzes acesas do alto mas não via quem ali morava, continuou batendo.

“Abra, por favor!” pediu de novo, desesperada.

A porta fora aberta num segundo. Do lado de dentro, um rosto encarava o capuz da princesa cobrindo seu corpo. Os cabelos eram longos e negros, o vestido marrom costurado e opaco vestia seu corpo, o rosto vazio. Os lábios se mantiveram fechados enquanto observava a moça.

“Quem é você?”

A outra arfava de nervosismo, as mãos tremulavam tanto que ela mal conseguia erguê-las. Com toda a sua necessidade ela foi levando as mãos ao capuz grande e o levou para trás, deixando o vento bater no que era oculto, os cabelos ondulados e loiros foram aparecendo e seu rosto vermelho veio à tona.

Era a princesa Kang Seulgi.

“Alteza?” a reação da mulher foi apática “O que faz aqui?”

“Preciso que me dê um de seus remédios.”

“Para...?”

Seulgi olhou para baixo e atraiu o olhar da curandeira ao mesmo, a fazendo notar a barriga cuja mancha de sangue se espalhou pelo vestido sujo. A mulher arregalou os olhos, mas entendeu. Não tardou em deixá-la entrar.

A mulher se chamava Hyejoo. Ao deixar Seulgi entrar, fez uma pergunta sobre a sua certeza. Seulgi estava convicta. Não queria deixar ninguém nascer. Sua súdita lhe compreendeu. E depois de lhe dar um analgésico feito com lavanda e jasmim, procurou buscar a receita do remédio que ela usava para ajudar mulheres que vinham com o mesmo intuito. O livro era grande e grosso, sua capa dura era assustadora, o brasão fundido ao couro e as páginas amareladas davam o sentimento de que era tão antigo como o reino que governava. Ou governaria.

Hyejoo passou a perguntar algumas coisas à princesa. Se tinha muitos dias que a semente estava lá, se alguém sabia, se sabia dos riscos. Seulgi respondeu à todas, e a curandeira se viu aliviada, os problemas seriam menores.

A receita para o seu remédio estava bem descrita na página 1.895:

Chá de Artemísia

— ramos de artemísia
— água

Era bastante simples, como era com os demais. Hyejoo pediu licença para a princesa e se direcionou para o lado de fora, onde buscaria as flores, a princesa aguardou sentada, sem sentir dores na barriga. Seu coração estava acelerado. A curandeira voltou com as flores e lhe sorriu, para confortá-la. O vestido arrastava pelo chão e ela se direcionou ao recipiente de barro pintado de preto, adicionando água e as plantas. Posteriormente, acendeu uma lareira e inseriu o recipiente. Ele iria esquentar a água. No aguardo, ajudou a princesa a se limpar da ferida na barriga e lhe deu mudas de roupa. Era até estranho para a súdita vê-la assim trajada. Seulgi agora vestia preto. Sentada sobre uma cama, via Hyejoo agachada diante de si fazendo uma prece em um idioma desconhecido, desenhava algo invisível em sua testa e peito, como se estivesse pedindo algo para uma divindade que Seulgi não compartilhava do mesmo conhecimento, tampouco fé. Mas se era um pedido pelo seu bem, fechou os olhos e também desejou o mesmo.

Quando o chá ficou pronto, a curandeira o trouxe para a menina, que apanhou a xícara quente e suspirou, temerosa. Iria abortar, e isso era um crime para com a Corte de seu reino. Seria morta por traição, porque estava destinada a um casamento, e traiu seu noivo com um plebeu. E esse nem sabia de nada, seria morto também. Mantivera segredo de todos, mas estava convicta de que deveria impedir este nascimento. Não queria ser mãe, e não precisava. Também não queria marido nenhum. Nem mesmo o plebeu enchia os seus olhos. Deitou-se com ele porque quis, e somente isso, nada mais.

Deu uma golada do chá quente e sentiu o remédio descer pela sua garganta, seu corpo estremeceu e suas pernas cambalearam, por sorte estava sentada, mas ficou fraca. O chá era pesado. Hyejoo assegurou que ficaria bem, e a deixou deitar-se na cama. Bebeu o chá todo e por sim aquietou-se, estava sonolenta e quase dormindo, mas estava feliz, porque sabia que sua decisão estava certa. Enquanto o corpo ia adormecendo, a noite entrou no seu auge e a chuva da madrugada começou a cair, as gotas deixavam as nuvens e se chocavam contra o chão bruscamente, as janelas foram fechadas e as luzes ficando mais apagadas, o sono lhe capturou.

Enquanto isso, Hyejoo, com uma pedra roxa sob a palma da mão, tocava a barriga pálida da princesa, sentindo o seu ventre, os olhos fechados eram janelas para a sua alma que pedia às suas divindades pela proteção, para que sua noite não se compusesse de dores, e de nada de ruim. Hyejoo estava feliz por ela. Mas não poderia ficar tranquila por tanto tempo.

Hyejoo sabia que os males estavam quase a alcançando, e que seu fim estava demarcado. Pediu que entidades protegessem Seulgi no lugar dela, agora que sua parte havia sido feita.

Quando a madrugada anunciou 3h da manhã, e a chuva se deu por finalizada, Hyejoo ajudou Seulgi com o término do aborto. A princesa sangrou por minutos e precisou de suporte, mas por conta das preces e do chá de lavanda, não sentiu dores. Só precisou de mais um chá para limpar seu corpo por dentro e então, a curandeira lhe deu o caminho para o outro reino, onde ela poderia se acolher, afinal se a Corte soubesse que estava lá, seria morta. Seulgi se preocupou com ela, mas a moça lhe assegurou que estava tudo bem.

Hyejoo presenteou a princesa com sua égua cinza, e pediu que levasse consigo algumas coisas. Numa bolsa de pano ficaram uns amuletos da curandeira, e se despediram às pressas. Seulgi puxou as rédeas e o animal passou a correr pela floresta, metendo-se por entre as árvores e indo para longe, já sabia o caminho para o outro reino.

Seulgi foi embora olhando para trás, e via a mão da curandeira acenando para ela na frente da casa.

Dec. 5, 2018, 4:15 p.m. 0 Report Embed 1
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