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u15415120171541512017 Lux Noctis

Prestes a encarar um desafio em sua vida, Aaron (CPT), decide findar seus laços antes de partir, pondo fim ao namoro com Jane, partindo para mais um de seus trabalhos como oficial das forças armadas americana. Um homem sem saber o que de fato é o amor e o que ele pode fazer com as pessoas. Encontrando muito mais do que jamais pensou, junto à um dos soldados de primeira classe; Peter. O jovem soldado, ainda um pouco arisco quanto a grade hierárquica do exército, sempre peitando os oficiais superiores, mesmo em meio ao caos, mas sempre mostrando-se ser um homem que sacrificaria a vida por um bem maior. Em meio ao caos, a dor e a guerra, Aaron e Peter encontram o que nem ao menos haviam ido buscar.


Drama For over 18 only.

#pegação-dos-soldados-nas-tendinhas #yaoi #guerra-iraque #chororô #original
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O primeiro contato



“(...)So, help me decide. Help me to make up,

make up my mind...

Wouldn't that save you

Wouldn't that save you(...)”


Julho de 2005 - Iraque


Era de tarde, por volta de 16h. Alguns homens estavam sentados em pedras, alguns haviam tido a brilhante ideia de sentar nas caixas dos equipamentos, formando uma espécie de roda, falando aleatoriedades, distraindo a mente de todo o caos que viviam a maior parte do tempo. Alguns outros tentavam uma partida de futebol, de uma maneira pouco convencional usando uma bola pequena feita de meias e elástico para prendê-las. Levantavam muito mais areia do que qualquer outra coisa. Mas ao menos conseguiam ainda se divertir. Paravam, sempre, que algum superior passava por eles, batendo continência, para então voltarem a ser um bando de homens “despreocupados”.

Aaron olhava de seu alojamento, os homens que ainda conseguiam manter aquela fagulha de esperança, algo que ele mesmo já havia abrido mão há tempos. Alguns dos homens chegaram a dizer que ele havia ficado mais seco com o término de seu namoro, pois sequer o viam escrever uma carta. Não que outrora ele as escrevesse em demasia. Uma ou outra, mas sempre endereçadas à Jane, Dakota do Sul.

Em meio àquele caos no Iraque, quem perderia tempo alimentando as esperanças de uma pobre mulher apaixonada? Provavelmente não o homem que não a amava. Aaron havia deixado tudo para servir ao país, para ser o homem que havia prometido ser no leito de morte de seu pai. Um herói americano, e enrolar moças boas não fazia parte do pacote. Aparentemente o que fazia era aturar o heroísmo de terceiros. Principalmente de certo soldado que se enfiava no meio dos assuntos errados. E dali ele conseguia ver; soldado Adams, Peter. Correndo na maior velocidade possível, e sendo magricela e com seus 1,79m chegava até bem rápido no lugar das confusões. O rapaz - moleque aos olhos do capitão - tentava apartar um ridículo impasse entre dois outros soldados que estava jogando bola. Todos os dois, somados altura e peso, dariam pelo menos 3 e meio de Peter.

Nas situações parecidas àquelas (porque sim, não era a primeira vez que o soldado se metia naquelas encrencas) os demais soldados intervinham, mas estavam todos tão cansados, ou no calor do momento, como os dois que basicamente ignoravam a presença magra de Peter e bradavam aos quatro cantos.

Aaron saiu à passos largos de sua tenda, pisando forte fazendo os cascalhos e areia quase emitirem sons com a potência de sua bota contra eles. Sua simples presença em meio à eles, fez os soldados que estavam sentados pôrem-se de pé na maior velocidade, batendo continência. Porém precisou de algo mais efetivo para dispersar os outros dois que pareciam ferver em raiva.

—  Dispensar soldados! —  a voz grave e altiva fez os demais seguirem os atos dos outros, numa postura exemplar. Batendo continência para então basicamente saírem dali o mais rápido possível. —  Você não, Adams. — a voz mais baixa, mas ainda demonstrando seu descontentamento com tudo aquilo.

Peter chegou a abrir a boca duas ou três vezes para questionar, mas ganhou apenas o indicador da destra em riste, num sinal claro para que esperasse. Ele só não sabia o quê esperar.

O capitão esperou até que todos os homens tivessem seguido seus rumos, os braços cruzados às costas, quase gangorrando o corpo para frente e para trás, respirando fundo e piscando mais demoradamente que o necessário. Umedeceu os lábios antes de lançar seu típico olhar glacial ao soldado. (Olhar esse apelidado pelo própria Peter, no primeiro dia ali.)

—  Se eles decidissem brigar de forma bem menos amistosa, você estaria encrencado.

—  Eu não sou babá, não tenho obrigação de separá-los! —  Peter exaltou-se, sequer compreendendo o que Aaron tentava lhe dizer.

—  Soldado, calado. Quis dizer exatamente isso, não é sua obrigação, e mais que isso, se eles tivessem brigado teria ainda mais um magricela na ala hospitalar, e nossos recursos devem ser poupados, e não usados porque um soldado maluco achou que conseguiria parar os dois brutamontes da infantaria. —  virou-se nos calcanhares, almejando seguir os passos de volta a seu próprio alojamento, meneando a cabeça, sinal para que o soldado o acompanhasse no percurso.

Havia sido assim desde quando a leva de soldados havia chegado. Aaron estava ali há mais tempo que muitos outros, mas ninguém o havia visto tão irritado como quando Peter chegou e basicamente berrou com ele no primeiro dia. Tudo, claro, um grandessíssimo mal entendido, pois Peter não sabia quem ali era o capitão designado à recepcioná-los, tampouco Aaron estava realmente vestido como tal, sequer portava sua identificação. Fora tratado como um hostil… um hostil de 1,90m, mas era mero detalhe. Mas desde o primeiro instante o capitão soube que aquele seria o tipo de soldado que lhe daria trabalho. E estava, infelizmente, certo.

—  Senhor, permissão para falar francamente?

—  Concedida. —  não que de fato fizesse diferença, Peter falaria de qualquer jeito.

Fora um erro. Aparentemente Peter expressava-se sempre de forma quase extravagante, e naquele momento desnecessária, tomando a frente do capitão, colocando a canhota à cintura e apontando o indicador quase tocando o tórax de Aaron, que apenas olhou de forma desdenhosa para o dedo que quase tocava em sua veste.

—  Esses homens respeitam o senhor, então deveria simplesmente proibir essas coisas que saem do controle facilmente, para que eles não tentem se matar caso alguém chute as meias forte demais e arrebente os elásticos.

—  Amanhã eles conseguem mais, talvez hoje mesmo. —  Aaron não se sentiu minimamente impedido de prosseguir sua caminhada, quase passando por cima de Peter, que teve tempo apenas de chegar para o lado alguns passos, e seguir quase correndo atrás do capitão.

—  A questão é essa, eles-

—  Não terminei, Adams. Quis dizer que eles precisam distrair a mente no tempo que lhes for possível. Estamos em outro país, numa guerra que vai nos custar, que já nos custou algo. Esses homens deixaram esposas e filhos pra trás, eles precisam de algo para distrair a mente, que não mortes, dor e bombas. Se jogar futebol com meias e elásticos os ajuda… ótimo, deveria tentar também. Eles gastam energias de forma saudável, o que diminui bastante as chances de realmente tentarem matar uns aos outros. —  por fim, próximo ao alojamento, o capitão parou, girando para ficar de frente para Peter, cruzando os braços frente ao peito. Respirou fundo, estreitando o olhar. — Não cobre tanto deles, mas não ache que aqueles dois seriam capazes de realmente machucar um ao outro. Eles morreriam um pelo outro, já se arriscaram, sou testemunha disso.

Peter mantinha sua famosa cara de total desinteresse. O que era puramente fachada, ele sempre ouvia atento às palavras do capitão, bem mais que qualquer outro ali.

—  O que o senhor deixou? —  não queria ser intrusão, mas não havia escolhas. Estava ali há tempos, e sabia tanto do capitão quanto sabia do senhorio do seu antigo apartamento; nome e sobrenome. Bem, sabia um pouco mais por causa da pesagem, 98kg.

—  E isso passou a ser da sua conta…? —  gesticulou, como se buscasse no vento a resposta para aquela pergunta, crispando os lábios logo em seguida, virando-se de costas e entrando no seu alojamento.

Peter soltou o ar pelos lábios, mostrando sua total frustração para o… nada. Chegou a chutar algumas pedrinhas próximas ao seu pé direito, olhando para cima e o sol que já havia se posto. Logo esfriaria e deixaria na pele a sensação de puro frio, mas não tão gélido quanto às atitudes do capitão para consigo.

—  Boa noite pra você também, capitão. Bons sonhos. —  o tom de voz era baixo, mas ainda próximo à tenda do capitão, que por acaso estava ouvindo tudo, desde o ar soprado pelos lábios, até as pedras chutadas. —  Obrigado. — imitou sem muito sucesso o tom grave do capitão.

—  Soldado, o que ainda está fazendo aqui?

Nada de mais. Apenas Peter quase caindo pelo susto, virando-se num pulo, mais pálido que se tivesse visto um fantasma, travando o ar nos pulmões.

—  Que droga, você está louco de assustar alguém dessa maneira? E se eu fosse paciente cardíaco?

—  Não estaria nas forças armadas… no Iraque. —  apenas parte do corpo do capitão estava às vistas do soldado, e foi com um aceno de mão, que indicou para que ele saísse dali. —  Amanhã teremos um dia bem cheio e começará logo cedo, retire-se e descanse o quanto puder.

Dessa vez Aaron permaneceu olhando, até que Peter virasse à direita mais à frente, seguindo para seu alojamento. Naquela noite o rapaz custou a dormir, costumeiramente escrevendo a carta para sua família, sempre dizendo que estava bem, que havia se adaptado muito bem à hierarquia de comando daquele lugar e que o sol nem castigava  sua pele como seu pai vivia dizendo. E assim como de praxe, escreveu uma segunda carta, a qual não endereçava à ninguém. Estava ali há pouco menos de seis meses, e escrevia uma carta a cada mês. Ligava, claro, para a família. Mas adorava mesmo escrever.

Na manhã seguinte, mal tiveram tempo, saindo logo cedo. Peter, como sempre animado, mais parecia uma criança na excursão do colégio, que um homem em meio à uma guerra. Os demais soldados o chamavam de sol do meio dia. Cintilante, forte e quase desanimador. Protegiam as pessoas, ajudavam os feridos e mais que isso, portavam armas para defender algo, para conquistar também. Naquele dia houve uma baixa no pelotão. E aquilo desanimava a todos, como se perdessem alguém da família. O Capitão não havia dito uma palavra sequer, Peter notava que a cada perda ele se fechava um pouco mais, e tomou como missão pessoal e intransferível, fazê-lo sorrir, ao menos uma vez, e que fosse um riso verdadeiro. Não o forçado que ele mesmo dava aos superiores.

No dia seguinte, nada também. O ânimo dos homens seguia por uma ladeira, uma descida íngreme e pavorosa. Nem o “sol do meio dia” conseguia elevar os ânimos dos soldados, sequer o futebol com meias e elásticos, que Peter havia feito questão de proporcionar uma “bola” nova, feita de suas próprias meias.

No dia subsequente àquele, nenhuma palavra do capitão fora direcionada à ele. E na semana seguinte apenas uma troca rápida de uma saudação estranha, que Peter não entendeu se era de fato um aceno para ele, ou para alguém do helicóptero logo atrás. Peter começava a desanimar de sua missão pessoal, CPT Aaron raramente sorria. Ainda mais para ele, que parecia trazer mais encrencas a cada dia.

Enquanto o soldado bolava maneiras de fazer os ânimos melhorarem em meio ao caos, os dias tornavam-se semanas… Peter de um lado, sempre o mais animado de todos, Aaron dando o máximo de si em campo, e o mínimo possível quando fora da batalha. Fechando-se ainda mais, evitando o momento das refeições com o pelotão.

Peter só notava o tempo de fato, quando percebia que estava de novo escrevendo uma carta, àquela para endereçar à ninguém. Naquela noite em especial havia se machucado, o braço esquerdo contava com um corte médio, um pouco fundo. Um fragmento de bomba o havia acertado quando o inimigo tentava acertá-los em cheio. Alguns dos homens com quem dividia aquela barraca sequer estavam ali, preferiam passar o tempo conversando do lado de fora, o que era bom para que ele tivesse paz para escrever. Sendo quebrada apenas por um pigarro. Ele deveria ter escutado a aproximação, mas estava tão absorto em escrever aquela carta, sua feição mostrava sua total surpresa pelo capitão em pessoa estar em seu alojamento.

—  Capitão! —  pôs-se de pé num salto, batendo continência de modo metódico.

—  Descansar, soldado. —  Aaron não esperou por um convite, apenas apontou para uma das camas mais próximas à Peter, indicando que se sentaria, que o rapaz poderia fazer o mesmo. —  Soube que, não ouviu a ordem do tenente. — seus olhos azuis quase gélidos estavam fixos à atadura no braço esquerdo de Peter.

—  Isso não foi nada, senhor.

—  Por sorte. Se o fragmento acertasse seu peito, não poderíamos chamar isso de nada, não é mesmo? —  falava devagar, como quem explica algo a alguma criança.

Peter achava engraçado que um homem daquele porte, um capitão, optava por agir de forma tão contida às vezes. Ele parecia, naqueles sermões, às vezes parecer explicar coisas à um bando de babacas. O que o fazia se sentir um babaca agora.

—  Obrigado por se preocupar, senhor.

—  É a minha obrigação.

Aaron levantou-se, seguindo para fora do alojamento dos soldados. Tão rápido quanto entrou e já havia saído, deixando em Peter uma estranha sensação de reconforto. Mais que isso, uma sensação também de já saudade. O soldado sabia o quão idiota era isso, apegar-se à alguém em tempos de guerra, à um superior que nunca sequer havia notado-o, não da forma certa ao menos. Sempre o notava como o magricela que se metia em confusões com homens com o dobro de seu peso, e tamanho. Mas ele havia ido até ali, havia demonstrado preocupação e a pequena fagulha já fora suficiente para acender uma esperança em Peter.


Dois dias após tudo aquilo, claro, Peter estava animadíssimo, tão destoante de tudo, parecia de fato o sol do meio dia, iluminando tudo naquele caos de fumaça e poeira. Estavam tentando invadir uma das casas, com a suspeita de quem a facção havia prendido uma mulher e suas duas filhas ali. O Capitão estava encostado à parede, e ao seu lado o soldado Adams.

—  Então o senhor gosta de música? —  perguntou enquanto os olhos mostravam-se atentos ao primeiro grupo de resgate que estava analisando a melhor forma de invadir a casa.

—  O quê? —  Aaron olhou-o de soslaio, fazendo uma careta de quem provavelmente havia perdido o início do assunto.

—  O senhor mesmo disse que os homens jogam para se distrair, fazer perguntas e conhecer pessoas é o que me distrai, senhor. O que me impede de entrar em brigas desnecessárias.

—  Pensei que o que te impedisse fosse sua política de não-agressão. —  arqueou a sobrancelha, agora olhando de fato para o soldado. — Alguém não gosta de música? —  respondeu a pergunta com outra, mas deixando claro que sim, gostava.

—  Parece o tipo de homem que escuta AC/DC, senhor. —  comentou baixo, caminhando de forma sorrateira, um passo por vez, apenas quando o capitão se movia também.

—  Não. Existem os clássicos da banda, mas não é a minha preferida.

Bem, Peter descartou então rock’n’roll da jogada. Não que Aaron não escutasse, mas aparentemente não fazia o top list dos seus gêneros musicais. Ao menos agora Peter sabia um pouco mais sobre ele, mais que o nome e sobrenome e o peso e altura.


A cada dia, Peter se sentia confiante a fazer uma nova pergunta. Uma por dia, não queria levantar suspeitas, mas também não queria parecer intruso demais na vida pessoal do capitão. Ia aos poucos, pois tinha uma paciência invejável. Foi no décimo dia que ele finalmente perguntou o porquê de Aaron nunca ligar ou escrever para ninguém.  A resposta o deixou feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz por ele não ter uma esposa, noiva ou namorada o esperando em casa. Triste porque ele não tinha ninguém.

Mas não era só Peter quem fazia perguntas, embora as de Aaron fossem apenas “e você?”, ele ao menos demonstrava interesse em conhecer o soldado. Ele participava agora das refeições com o pelotão, e mais que isso, ele não demonstrava tanta frieza como antes.

Alguns homens diziam, pelas costas, que o sol do meio dia estava amolecendo o cubo de gelo que era o capitão. E estava.


Foram longas noites e missões, para que eles se conhecessem melhor, Peter agora sabia que o capitão detestava maçã, mas sua fruta preferida era pêssego. Sabia que sua cor favorita era verde, e que gostava de café sem açúcar. Sabia que não tinha um amor o esperando em casa, e que sua música preferida era Hallellujah, e o filme era Forrest Gump. Sabia também que o capitão preferia nascer ao pôr-do-sol, porque era a indicação de que um novo dia lhe era prometido. E que ele adorava o natal, mesmo que o passasse sozinho. Peter naquele meio tempo sabia mais coisas sobre o capitão que todo o pelotão.

Duas noites depois, estava prestes a fazer a décima segunda pergunta, quando fora surpreendido por Aaron, que apenas sinalizou para que o acompanhasse, e em silêncio. Ele o fez, não tinha o porquê de não confiar cegamente no seu capitão, era o homem que os liderava naquela guerra, afinal de contas! Surpreendeu-se, claro, quando notou que estavam prestes a entrar no alojamento do capitão, mas ainda assim o seguiu.

—  Pela sua cara vejo que não esperava por nada disso. —  Aaron começou pegando um rádio à pilha, procurando a estação certa que o presentearia com alguma música que quisesse mesmo ouvir. Algo saía pelo buraquinhos do alto falante, mas Peter ainda não havia identificado a música talvez nem a conhecesse. —  Mas, hoje eu faço a pergunta, soldado.

—  Como quiser, senhor —  não conseguiu não sorrir. Não um sorriso qualquer, mas daqueles que chegavam a mostrar quase todos os dentes, que faziam os olhos parecerem menores e davam marquinhas às bochechas. Um sorriso iluminado pela felicidade em ver o interesse de Aaron em sua vida.

—  Isso lhe pertence? —  pegou a “bola” usada pelos soldados, de meias e elásticos.

—  Sim —  mordeu o lábio inferior, com uma pitada de ansiedade. —  Achei que eles fossem precisar de algo para animar.

Peter notou o alojamento enquanto Aaron virou-se de costas para ele. Nada que indicasse algum apego emocional a qualquer coisa que fosse. Tudo impecável, assim como eles eram treinados para ser. Se tudo ficasse em seu devido lugar, numa retirada nada de importante ficaria para trás. A “cama”, perfeitamente arrumada, com uma camisa limpa sobre ela, provavelmente a que o capitão usaria no dia seguinte.

Olhava ainda sorridente quando Aaron tornou a virar-se para si, com as mãos para trás, como se escondesse algo.

—  Acho que então tenho algo pra você. —  E lhe estendeu pares de meias, limpas, provavelmente novas.

Levou alguns segundos para que Peter as tomasse nas mãos, precisou também que Aaron quase as sacudisse na frente do rosto do soldado. O capitão o estava presenteando com meias? Por quê?

—  Ãhn… obrigado, senhor. —  As palavras romperam por seus lábios sem qualquer convicção. —  Mas… essa era a pergunta? — desapontado, sim estava. Esperava algo mais pessoal do que o que lhe fora questionado. Esperava uma pitada a mais de interesse. Algo que torcia em seu âmago, mas que, a certa altura já havia riscado das possibilidades. Era um desejo descabido, um sonho… algo que não teria.

—  Esperava algo mais, soldado?

Se Peter ainda o encarasse, veria transbordar daqueles olhos a intensidade de quem sonda. Aaron era comedido em todas as suas ações, o que fizesse afetaria não apenas a si, mas à muitos. Era sempre o homem que liderava, então passos em falso não faziam parte de sua rotina, e não as queria. Queria a certeza, queria saber se o interesse de Peter era algo simplório, inocente… ou se havia algo a inflamar naquilo tudo. Porque de sua parte, havia sim.

—  Ah… uma pergunta. Esperava que você me fizesse uma pergunta um pouco mais pessoal do que essa referente à meia —  ergueu as meias em sua mão, balançando-as no ar por breves instantes, deixando sua decepção estampada no rosto, muito embora ele pudesse jurar que estava disfarçando muitíssimo bem.

Agora, bem pouco mas mais do que assim que Aaron ligou o rádio, Peter conseguiu notar um trecho da música que tocava baixa:

“Oh, simple thing, where have you gone?
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin”

As letras pareciam perfeitas à tudo o que Peter sentia ao momento. Sentia o peso do tempo sobre seus ombros, embora ainda fosse jovem para tal. Sentia-se cansado, precisando apenas de um lugar para recomeçar e alguém em quem confiar.

—  Eu gosto dessa música… —  Aaron começou, não fazendo a pergunta que o soldado havia pedido, mas sim informando algo mais sobre si. —  Me fala um lugar. O seu preferido.

Ah sim, ali estava a pergunta pessoa, ainda embalada com a música mais perfeita ao momento. Música que, claro, Peter recordaria como a primeira que ouviram juntos. Não que esperasse ouvir outras ao lado do capitão, mas sonhar ainda era de graça, mesmo em meio ao Iraque.

“And if you have a minute why don't we go
Talking about that somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
So why don't we go”

—  O farol de Key Biscayne. Uma aldeia da Flórida, tão na pontinha que quase é engolida pelo mar no mapa mundi. —  Peter parecia ansioso tratando de um assunto verdadeiramente tão íntimo. Não esperava nem em anos uma pergunta como aquela, também não seria honesto assim com qualquer outro. E a risada de Aaron fez valer a pena cada palavra proferida, cada momento de insistência para conhecer melhor o capitão. Ele não ria da resposta em si, longe disso, ria da forma afobada com a qual o soldado falava o finalzinho, coçando a nuca, o rosto… como se de repente fosse tomado por urticária.

—  Seu lugar favorito é um farol? —  sentou-se à cama, olhando para o soldado, como se fosse consentimento para que ele se sentasse também, e o fez. Logo depositando os pares de meias ao lado, virando-se para encarar o rosto do capitão, a barba por fazer, mas não de modo desleixado; imponente, ele diria.

—  Definitivamente. E bem diferente de tudo o que vemos aqui, huh?! Me lembre de quando tudo isso acabar, levar você lá.

A música ainda ecoava pelo radinho de pilha, o céu estrelado não poderia ser notado dentro daquela barraca, mas dava todo um clima agradável àquela noite. Assim como a nova música que tocava melodiosa fazendo ambos os homens sentados naquela cama, rirem um ao outro:

“Will you be my shoulder when I'm grey and older?
Promise me tomorrow starts with you”
Dec. 1, 2018, 8:37 p.m. 1 Report Embed 1
To be continued... New chapter Every Saturday.

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Lux Noctis Eu juro, um dia consigo postar todas as histórias aqui também.

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Post!
Alpha Lupus Alpha Lupus
Eu AMEI sua escrita! Esta perfect (✪▽✪) Pelo amor de Ódin continua! Quero esses dois num Lemon (づ ̄ ³ ̄)づ Só tem uma coisa que me encomoda, você não deixou a aparência dos personagens clara aqui. Fica meio difícil te-los de imaginar.
Jan. 2, 2019, 12:24 p.m.
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