Me deixa te odiar Follow story

saaimee Ana Carolina

Tirar um dia para relaxar em um lugar paradisíaco depois de uma semana de trabalho intenso é o desejo de qualquer um e poder realizar isso com as pessoas que se ama é praticamente um sonho. Foi isso que disseram para ele. Contudo sonhos podem se tornar pesadelos com um pequeno passo errado. Kazuna entendia bem dessa parte e mesmo assim acabou sendo pego pela escuridão quando teve que dividir quarto com Tomohisa e seus sentimentos perturbados. 「Tomohisa × Kazuna 」 ✼ Postar esta estória em qualquer página sem a minha autorização é completamente proibido. Plágio é crime e eu tomarei providências.


Fanfiction Anime/Manga All public. © Os personagens desta estória pertencem B-Project. Todos os direitos sobre eles são reservados a © Love & Art/Mages.

#comedia #idolo #shounen-ai #bl #b-project #bpro #kitamasu #tomokazu
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Capítulo Único

A manhã tinha sido repleta de agitação e sono dentro das vans que levava os 14 ídolos pelas estradas pacificas daquele sábado. Quando combinaram tudo no meio da semana não tinham pensado que teriam de levantar tão cedo e por isso alguns mal conseguiam manter os olhos abertos para ver o espetáculo que o sol fazia ao redor deles.

Os garotos estavam partindo em direção a um dia de tranquilidade dentro de águas quentes distante da cidade grande. Tinham uma filmagem para realizar perto desse destino no dia seguinte então como estavam livres por hoje decidiram aproveitar as oportunidades que a região tinha para oferecer.

Tomohisa tinha se encarregado de fazer as reservas no hotel e garantir que tudo saísse como planejado. Quando isso foi decidido os outros membros ficaram divididos pela dúvida de que tudo seria fantástico ou exagerado. E, claro, não estavam errados em pensar assim. Logo que os automóveis pararam e eles deram o primeiro passo sonolento para fora viram estar diante de uma vista fantasticamente exagerada.

Estavam em um estacionamento com outros dois carros e dali podiam ver altas montanhas cobertas por árvores de folhas em seus mais variados tons de verde e abaixo um hotel que mais parecia uma mansão de estilo oriental os aguardando.

— Como esperado do Príncipe.

Enquanto Mikado apreciava a vista aos suspiros e Tatsuhiro tentava conter a agitação de Hikaru, Kazuna só observava com uma expressão pacifica que deixava claro que estava refletindo sobre algo.

Depois de passarem longos minutos analisando a pintura viva a frente e sentindo o ar fresco da manhã os encher de energia eles resolveram ir em frente com suas bolsas e mochilas.

Os passos lentos eram acompanhados das altas conversas cheias de planos enquanto seguiam pelo caminho de pedras cercado pelos galhos finos de cerejeiras e cercas firmes de bambu marrom. Um local natural como esse só podia encher suas mentes de paz e aliviar todo e qualquer peso de seus ombros.

Ao chegarem a entrada do hotel foram recebidos pelo enorme saguão à frente. Ali havia pequenas plantas em vasos nos cantos fazendo companhia aos poucos bancos de madeira entre pilares próximo a porta. O chão quadriculado em diferentes tonalidades de marrom e o teto de madeira dava a impressão que tinham entrado em outra era, contudo a iluminação moderna no alto os lembrava de ainda estarem no presente.

Guiados pelos pés curiosos até o centro do local eles conversavam sem conter o mínimo de sua agitação deixando Tomohisa satisfeito por sua escolha antes de seguir com Ryuuji até a recepção para confirmar os dados.

Os outros aguardaram ali mostrando diferentes reações positivas vendo as decorações com relógios nas paredes, as divisórias coloridas próximo as passagens e as árvores finas pelas frestas nas janelas e porta por onde entraram. Estavam eufóricos de alegria misturando suas conversas aos sons dos cantos dos pássaros do lado de fora.

— Tudo pronto. – Com um sorriso amigável o líder voltou ao encontro do grupo tendo o menor ao lado carregando várias chaves nas mãos. — Os quartos serão divididos em duplas. Como estamos todos juntos achei que seria melhor se ficássemos assim.

— E é mais divertido. – Ryuuji acrescentou com um olhar de quem estava planejando algo.

Toda a explicação pegou alguns de surpresa. Eles já esperavam que em uma situação assim teriam que dividir os quartos, mas esperavam que fosse em trio ou quartetos. Estar em duplas, para esses, talvez fosse muito mais difícil de lidar do que em ficar em um quarto sozinho.

— Aqui, aqui! – Empolgado desde o momento que levantou da cama, Hikaru gritou sendo o primeiro a se pronunciar. — Chave pra mim e Tatsu!

— Isso ajuda a ocupar menos espaço no hotel, certo? – Ryuuji nem tinha entregado a chave ao rapaz quando Mikado começou a falar no canto.

— De certa forma, sim. – Tomo respondeu ajudando a entregar o item para aqueles que já estavam se decidindo.

— Nesse caso, no nosso quarto pode caber três pessoas já que Momo e eu-

— Nem pense. – Rápido e inexpressivo Momotarou cortou sua fala já pegando a chave deles com o menor e calando o amigo.

Entre conversas e discussões as duplas iam terminando de se formar já imaginando o que fariam nesse tempo juntos. Era somente um dia ali, mas seria mais do que suficiente para fazer novas lembranças.

— Certo. – Sutilmente Tomohisa se aproximou do loiro que parecia perdido em pensamentos. — Kazu e eu.

— O que? – A afirmação o pegou desprevenido fazendo se virar automaticamente para encontrar o rosto gentil o olhando ao lado. — E o Ryuuji?

— Ele decidiu ficar com o Yuuta.

Sorrindo respondeu enquanto apontava na direção onde o mais jovem estava. Kazuna não conseguiu dizer nada e nem mudar a expressão surpresa do rosto quando olhou no local informado.

— Yuuta, não vai causar problemas. – Ao lado dos dois mais jovens Goushi ordenou em um tom sério cruzando os braços.

— Eh?! Por que eu faria isso?

— Ah, Ryuuji, não deixa ele comer muito doce. – Coçando os olhos cansados atrás do óculos escuro Kento pediu fazendo o parceiro escancarar a boca indignado.

— Eh?!!

— E cuidado com o que ele te pede pra comer também. – Completando com uma expressão enojada pelas lembranças do que tinha sofrido Goushi avisou sendo acompanhado pela aceno positivo de Kento que parecia compartilhar de sua dor.

— Por que vocês são tão malvados comigo?!

Kazuna assistiu a agitação de longe sentindo o incomodo crescer ao ter certeza que sua situação não mudaria. Não era isso que ele queria e só de pensar que talvez Tomohisa tivesse planejado tudo o deixava ainda mais irritado.

Ao se virar novamente para o maior o sorriso radiante a frente o fez querer bufar soltando toda sua frustração, mas ao invés disso fez seu melhor para retribuir o gesto.

— Nesse caso... Espero nos darmos bem.

— Fico feliz em ouvir isso. – Balançando a chave satisfeito, se virou para observar o restante do grupo. — Agora que está tudo resolvido, podem ir e se divirtam. – Com a voz alta e empolgada, falou como se conversasse com crianças em uma excursão. — O café da manhã será servido em uma hora e não se esqueçam do almoço ao meio-dia.

Em coro todos deram seus gritos de acordo antes de se dispersarem animados em busca do quarto e do que o dia tinha para eles. Todos exceto Kazuna que já começava a sentir a exaustão das possibilidades tomar conta de sua mente.

• • •

Os quartos escolhidos ficavam praticamente no mesmo corredor fazendo com que eles permanecessem juntos mesmo em cômodos diferentes.

Rolando a porta Tomohisa abriu espaço deixando seu encanto pelo ambiente decorado transparecer no rosto.

O cômodo era pequeno, porém confortável. Tinha o chão coberto por tapete de tatame dando a sensação agradável ao piso enquanto os móveis de madeira escura junto as cores brancas e vermelhas nos panos e paredes trazia elegância ao quarto.

Kazuna observou em silêncio as duas poltronas junto a mesa de centro no meio do local e as camas lado a lado mais ao fundo perfeitamente arrumadas com uma grande janela sobre elas e um criado-mudo as separando. Nas paredes a decoração com leques e quadros simples chamou sua atenção tanto quanto os livros colocados sobre a mesa. O quarto tinha sido planejado nos mínimos detalhes como se buscasse alcançar a perfeição. Era realmente um quarto feito para Tomohisa, não para ele.

O pensamento lhe trouxe um sorriso amargo. Tomo sempre teve tudo aquilo que precisava para se tornar o ídolo perfeito. O carisma para fazer qualquer coisa, o sorriso sempre caloroso, o charme que encantava qualquer um que o olhasse e as habilidades necessárias. Ele não precisava tentar convencer ninguém de quem era e isso só tirava Kazuna do sério. Ficar ao lado dele era o mesmo que lembrar de todas as suas falhas e defeitos que não conseguia mudar. Ele não o suportava.

— Você sabe que exagerou. – Tentando engolir sua frustração o loiro falou interrompendo o que quer que Tomo estivesse dizendo.

— Como? – Entre as camas questionou olhando simpático para ele ainda na entrada. — Nós conseguimos um dia livre então está tudo bem relaxar.

— Podíamos ter feito isso em casa. – Arrastando a porta rebateu em um tom frio que não pôde conter.

— Mas em casa não é desse jeito. – Colocando a bolsa sobre a cama respondeu fitando carinhosamente o yukata lindamente dobrado sobre o móvel. — E, também, todos estão se divertindo.

Kazuna não pôde dar qualquer resposta contrária ao comentário. Ele realmente não queria estar ali, mas ter visto o sorriso dos membros do MooNs o tempo todo durante a viajem até a chegada no hotel certamente o deixou aliviado.

— Eu só não entendo por que tenho que ficar com você. – Suspirando mudou o assunto indo em direção a cama na esquerda.

— Somos os lideres, por que não?

— Nesse caso, Kaneshiro e Fudou deveriam estar aqui também. – Sua voz irritada fez o rapaz dar um riso curto.

— Só temos duas camas, Kazu. A não ser que você queira dividir uma comigo. – O olhar sugestivo chamou a atenção dele, contudo a fala o incomodou tanto que a única reação que teve foi de estreitar os olhos segurando a vontade de sair do quarto e dormir em uma das vans.

— Eu prefiro não te responder.

— Estou brincando. – Com o mesmo ar gracioso que sempre usa afastou o comentário como se não fosse nada demais antes de seguir com seus planos. — Não se preocupe tanto. Vamos relaxar hoje, tá bem?

Dizendo isso com um último sorriso ele se dirigiu em direção a única porta que havia no cômodo, além da entrada, que levava ao pequeno banheiro.

O loiro não tinha como discutir já que tinha aceitado estar ali com todos. Respirando fundo deixou a bolsa de pano ao lado da troca de roupa no colchão sem conseguir pensar em nada direito.

O quarto tinha um clima agradável e a vista da janela ao seu lado era linda. Apesar de todo o incomodo não conseguiu evitar o alivio no peito ao ver os pássaros e as folhas balançando dali. Tomo tinha exagerado, mas, como sempre, seu bom gosto era perfeito para agradar os outros. Ele tinha que admitir.

• • •

Depois do café eles procuraram dar início ao seus objetivos como turistas do dia. Alguns decidiram explorar a área enquanto outros gostariam mais de passar o dia todo no banho quente ao ar livre.

Os rapazes estavam tão animados que ficava claro que somente o brilho dessa manhã tinha sido o suficiente para recuperar a energia que a semana toda de trabalho tirou deles.

Kazuna estava no mesmo salão que todos se questionando o que deveria tentar fazer já que não queria ficar trancado no quarto correndo o risco de ver o sorriso de Tomohisa o dia todo.

— Leader.

A voz calma que conhecia bem o tirou de seus pensamentos. Sua reação foi rápida ao se virar encontrando o jovem de cabelos vermelhos o encarando e sem querer seu sorriso saiu naturalmente antes de dizer qualquer coisa.

— Já decidiu?

— Não...

— Eu tinha lido algo sobre esse lugar antes. – Adentrando a conversa sem ser chamado Mikado começou a falar com confiança. — Além dos banhos, as passagens para as montanhas são abertas a exploração e dizem ser um bom lugar para caminhadas, porém... – seu tom animado de sempre diminuiu deixando sua face mais sombria atraindo olhares. — Dizem que é mal assombrada.

— Eh... – Não querendo estragar a representação de terror que o amigo se esforçava a fazer, Kazuna suspirou fingindo estar surpreso.

— Eu li que o espírito de uma mulher vaga pelas árvores de folhas alaranjadas. – Sua estória começou a chamar a atenção dos outros que estavam próximos o deixando mais confiante para continuar. — Sempre que avista alguém passando ela grita por socorro, porém quando a pessoa chega perto... – se calou percebendo o grupo ao lado o encarar antecipando pelo final. — Ela te mata! – A finalização alta veio acompanhada de sons surpresos de alguns trazendo um sorriso a ele. — Ou não acontece nada. Não tinha um final quando eu li.

— Mika...

— Eu quero ver!

A voz animada e cheia de energia veio do grupo ao lado fazendo os três se virarem curiosos. Kento, Goushi e Yuduki estavam em pé um do lado do outro enquanto Haruhi no meio deles pulava animado com a estória.

— O que?! – O moreno bradou sem querer ainda abalado com o que ouviu.

— O espírito. Vai ser divertido! – A felicidade do garoto tirou qualquer resposta que Kaneshiro pudesse dar. Ele só conseguiu ficar parado olhando para os pulos alegres com os lábios entreabertos.

— Eu concordo. – Vendo o parceiro de banda se colocar em um buraco sem saída, Kento comentou fechando ainda mais as paredes. — E por sorte a gente não tinha decidido o que fazer ainda, certo?

— Aizome... Isso é meio...

— A gente não ia ficar no banho, Haru? – Com uma expressão confusa e uma voz tão suave quanto uma pluma Yuduki questionou fazendo o loiro parar por um instante.

— Sim! – Aproveitando a chance Goushi gritou concordando como se tivesse encontrado a corda que iria puxa-lo para fora dali. — É verdade! Na montanha você vai se machucar também.

— E cansa...

— Sim, sim! – Rindo nervosamente o menor continuou se agarrando as deixas que Yuduki entregava fazendo Kento se esforçar para segurar o riso.

— Eh... – Em dúvida entre o irmão amado e a diversão da montanha ele ponderou tentando analisar melhor as opções. — Mas o ar lá é fresco e deve ser relaxante comer embaixo de uma das árvores.

— Ah... – ao imaginar o calor gentil do sol sobre sua pele depois de comer alguns bolinhos de arroz Yuduki foi pego pelo desejo de seguir o plano do irmão. Goushi notou o perigo da corda estar arrebentando bem na sua frente e em desespero começou a pensar em algum plano. — É verdade...

— Calma. Yuduki...

— Por favor, Goushi-kun! – Haruhi se aproximou com os olhos mais brilhantes que podia mostrar fazendo o rapaz dar um passo para trás.

— Eh?

— Kaneshino-san... – ao seu lado Yuduki se aproximou mostrando um olhar gentil seguido de um leve sorriso carinhoso.

A corda estava presa por um fio e qualquer coisa que dissesse seria o suficiente para arrebenta-la. O moreno sabia que estava com medo — não tinha parado de tremer desde que ouviu a estória —, mas ter que lidar com aqueles dois nesse momento parecia pior do que qualquer espírito.

— Então Goushi? – Se aproximando do trio Kento começou a falar. Sua voz sarcástica o fez saber exatamente o que estava por vir. — Ou será que você está com medo?

— Eh? – A pergunta fez os gêmeos o olharem tão curiosos quanto surpreso. Kento tinha trazido a tesoura e agora Goushi caia sem parar no buraco do desespero. — Você tem medo?

— Não! – Gritando novamente se afastou dos olhares sentindo o suor surgir em sua testa. — Claro que não... – Tentando se recompor, tossiu os olhando seriamente. — Se querem ir... então vão se arrumar logo.

A ordem foi o suficiente para faze-los sorrir novamente entre agradecimentos e gritos animados. Acenando com a cabeça Goushi os viu se afastar dali enquanto tentava desesperadamente controlar seus batimentos aterrorizados pelo que podia acontecer sendo observado pelo sorriso vitorioso de Kento.

— Acho que – os três afastados dali observaram toda a cena com diferentes expressões — as montanhas vão ficar agitadas. – Kazuna comentou preocupado.

— Parece...

— Leader deveria vir com a gente. – Calmo como sempre Momotarou sugeriu chamado os olhares. — Para a cidade.

— Ah, seria ótimo!

Assim como Kaneshiro teve problemas em dizer não para o olhar manipulador dos gêmeos, Kazu também não conseguiu recusar a carinho que os dois lhe ofereciam.

Eles ainda passaram algum tempo naquela área de descanso enquanto Mika dizia coisas desnecessárias e Momo ouvia pacientemente. Kazuna estava feliz por estar com ambos e ter um plano pra agora, porém sua animação ainda não estava ali.

Seus olhos correram pelo local curiosos encontrando Tomo junto a Miroku sentados em poltronas foleando algumas revistas enquanto esperavam os outros que provavelmente estavam nas lojas. Os dois transmitiam beleza absurda e todas as pessoas que passavam por ali sabiam disso já que não conseguiam evitar olhares para eles. Tomohisa realmente brilhava onde quer que fosse.

Seu pequeno sorriso desapareceu dando espaço para o incomodo. Kazuna não aguentava vê-lo sem sentir algum ressentimento, entretanto não conseguia parar de olhar. Era como se ele, assim como as outras pessoas, se perdesse em seus encantos.

— Leader? – A voz de Mikado o surpreendeu também o salvando do transe. — Podemos ir?

— Sim... – sem ter coragem de olhar de novo na direção do outro, sorriu. — Vamos.

• • •

O céu sem nuvens pintava toda a cidade com clareza deixando os raios de sol gentis cobrirem as ruas estreitas e aquecer os moradores que lentamente saiam de suas casas para desfrutar desse dia pacifico.

Era uma cidade pequena que deveria ter a quantidade de habitantes suficiente para que todos se conhecessem ali tendo aquelas áreas de comércio familiar onde as pessoas levantavam cedo abrindo as portas com o rosto ainda amassado de sono e uma caneca de café sobre o balcão de atendimento. E apesar de toda a simplicidade do interior, as lojas possuíam vários produtos simbólicos, enfeites coloridos e cheiros atraentes.

A temperatura estava um pouco mais quente em comparação com a hora que chegaram o que os fez se sentirem bem mais à vontade enquanto descobriam a área.

Seus passos calmos os levava para cima e para baixo nas ruas quase vazias enquanto conversavam sobre coisas que não tiveram tempo durante a semana e especulavam suas expectativas para a próxima. Era quase como se evitassem falar sobre o hoje, mas isso também não foi intencional eles só estavam empolgados com os resultados de seus esforços que não conseguiam evitar a alegria ao pensar no que tinham para trabalhar.

Kazuna nunca foi do tipo que mostra seus sentimentos com facilidade, contudo naquele momento seu sorriso transparecia seu alivio e contentamento. Momotarou não disse nada, mas percebeu isso.

— Eles tem crepes aqui. – Apesar da expressão ligeiramente surpresa, a voz de Mikado soou contente ao comentar para os outros em frente à loja.

— Se você comer isso vai acabar sem almoçar. – Com o mesmo olhar calmo, Momotarou apontou chamando a atenção e os fazendo lembrar estar quase na hora de voltar.

— Então você não quer?

— Eu não disse isso. – Sem olhar para o rosto do rapaz respondeu. Ele sabia que isso o faria sorrir como se tivesse vencido uma batalha por isso quis evitar o constrangimento.

— Ótimo. – A voz estava mais alta e sem dúvidas mais contente antes de se virar para o loiro que observava os produtos expostos na banca ao lado. — Leader também?

— Sim, obrigado.

Sem esperar, Mikado correu até o destino deixando os outros dois para trás. Não tinha muito o que se fazer ali além de aproveitar a atmosfera e gastar com lembrancinhas.

Assim como Kazuna não deixava seus sentimentos sobressaírem o controle, Momotarou não era de falar muito, mas sempre observava o suficiente para saber quando alguém precisava de ajuda, espaço ou só a companhia silenciosa. E nesse momento a companhia era o suficiente.

— Desculpa a demora! – Voltando carregando os três doces com cuidado Mikado gritou chamando o olhar atento deles.

A aparência da guloseima era impossível de não encarar. O crepe amarelado com recheio de creme branco encaixava com as cores dos morangos e amoras jogadas por cima. Era macio ao toque e tinha o cheiro perfeito para abrir o apetite.

Com curiosidade e fome eles atacaram sendo envolvidos pelo sabor doce enchendo suas bocas com suavidade. Alguns suspiros seguidos de comentários felizes vieram para abrir espaço para as próximas dentadas ainda mais confiantes.

Em meio a conversas descontraídas sem conclusão ou objetivo Mikado percebeu de canto de olho algo que o fez rapidamente se aproximar do amigo.

— Momo...

A voz baixa soou como se não quisesse o assustar atraindo seu olhar inocente para ele. O rapaz estava próximo e aproveitou o momento em que conseguiu sua atenção para estender a mão em direção ao seu rosto.

O ruivo não se mexeu apenas sentiu o toque suave de seus dedos passarem pelo canto de seus lábios e em seguida parar em sua frente mostrando o resto de crepe que estava ali. Sem mostrar qualquer supressa ele assistiu a mão se movimentar novamente sendo levada para os lábios do rapaz que se abriram lambendo as pontas com um olhar sugestivo.

Momotarou ficou parado por alguns instante analisando a situação e logo, sem mostrar qualquer reação, se virou voltando a comer seu crepe.

— Eh?! Que reação foi essa?!

— Uma que diz: Mika, para.

Kazuna estava um pouco mais distantes deles, mas assistiu a toda a gritaria com um sorriso no rosto. Isso não era algo incomum entre os dois, porém sempre que acontecia o lembrava do quanto o MooNs se dava bem e como era grato por ter eles ao seu lado.

Se virando ele viu um caminho por onde não tinham passado enquanto ouvia Mikado atrás. Era uma estrada de pedra simples que parecia o convidar para uma caminhada. Por instantes a encarou e antes que percebesse seus pés seguiram na direção ao desconhecido sem se importar.

Assim que notaram o distanciamento Mikado até tentou chamar pelo líder, mas foi impedido por Momotarou que sabia que o rapaz talvez precisasse mais desse tempo sozinho do que qualquer coisa.

Inconscientemente seguiu sendo guiado pela curiosidade. Seus passos suaves mal faziam som no chão enquanto seus olhos observavam as árvores fazendo sombra sobre sua cabeça permitindo a entrada da luz por algumas pequenas frestas entre as folhas mostrando vestígios do céu azul dali.

Estava encantado pelo frescor do ar e pelo silêncio que somente os pássaros se atreviam a quebrar. Ele até esqueceu do restante do doce em suas mãos se permitindo ser levado pela beleza da natureza.

Quando se deu conta do que tinha feito já tinha avançado muito no caminho e mal conseguia ver a cidade atrás dele. Podia voltar se quisesse, as pedras o levaria para lá assim como o trouxeram ali, mas não quis.

Parado no meio da estrada ele suspirou preenchendo seus pulmões com o ar gélido o fazendo sentir como se tivesse expandido o tórax o suficiente para voltar a respirar. Estava sozinho em um lugar lindo. Em um lugar que brilhava muito mais do que ele. Seu coração apertou.

Os pássaros continuavam a cantar ignorando seu olhar distante que via muito mais do que realmente existia em sua frente. Sua cabeça caiu mirando seus olhos para o chão vendo as formigas ali e outros insetos seguindo seu rumo sem parar, sem se abalar. Ele os invejou por instantes.

Estava se esforçando tanto, lutando todos os dias para alcançar seu objetivo e ainda assim, cada dia era como se fosse o último. Não por vive-lo por completo, mas por nunca encontrar a resposta que queria. Era como se fosse parar a qualquer momento.

O som de zumbido alto o fez levantar o rosto. Havia duas abelhas ao seu redor o cercando na tentativa de roubar-lhe o doce da mão. Sem dar importância balançou uma das mãos as espantando e encontrando, nesse momento, o final para onde aquele caminho o levaria.

Em direção reta e longa as pedras acabavam em frente a uma ponte larga de madeira sobre um rio calmo. Na outra ponta, a estrada continuava levando de volta para o hotel de onde tinha saído. Ele observou os raios do sol refletindo sobre a água cristalina e a cor avermelhada da madeira na ponte completar a paisagem.

Notou ali o quão pequena era a região ao mesmo tempo que se questionou o porquê de estar ali. Por que seus pês o guiariam de volta para onde quis fugir?

Seu punho se fechou com força enquanto seus olhos encararam com receio o topo alto do hotel. Ele podia correr o quanto quisesse, mas no final ainda precisaria voltar para lá. Para encarar o rosto sorridente que odiava.

Seu peito que antes parecia ter espaço suficiente agora estava espremido por causa das imagens do olhar gentil que o obrigou a entrar no quarto, do sorriso charmoso que respondia a suas perguntas irritadas, de Tomo por completo.

Doía pensar nele tanto quanto pensar em si mesmo. Seus lábios se curvaram com rancor deixando as dúvidas o dominarem.

De repente gritos ecoaram na montanha o assustando. Parecia ser duas vozes distantes dali. Esquecendo completamente da situação em que estava ele aguardou conseguindo ouvir fragmentos de risos e mais gritos, porém dessa vez conhecido. Logo se lembrou do grupo anterior que provavelmente estava correndo e brincando uns com os outros por ali.

Eles estavam se divertindo.

— O que que eu estou fazendo? – O som o fez rir se lembrando do objetivo daquele dia. Ele também tinha que relaxar um pouco.

Com um sorriso solitário suspirou dando o primeiro passo em direção a ponte enquanto finalmente terminava seu crepe.

• • •

O resto do dia foi o mais calmo possível com conversas entre os membros, caminhadas pelas trilhas, calmaria pelas áreas de descanso e até mesmo longas pausas observando o jardim do hotel enquanto apreciavam a companhia um do outro.

Kazuna conseguiu aproveitar sua tarde muito mais do que esperava sem ter o desgosto de cruzar o caminho do rival. Estava conseguindo relaxar como tinha sido planejado desde o início ao lado de todos.

Já tinha passado do meio da tarde quando ele resolveu aproveitar o banho e maior atração do hotel. Dentro do quarto ele trocou sua roupa pelo yukata azul com tranquilidade sem ser perturbado por ninguém ou por qualquer pensamento questionando onde estava o outro o dia todo.

Passando pelos corredores seguiu até chegar em um dos poucos banheiros privados que existia por ali. Fechando a porta sem sentir necessidade de tranca-la seguiu para o provador tirando a roupa enquanto sentia o ar quente do local acolher seu corpo antes de ir para a sala ao lado onde se sentou em um dos bancos pegando os materiais ao redor para lavar o corpo.

Estava sozinho, mas não se sentia mal por isso. Ensaboou o corpo com calma ouvindo o som de conversas abafadas passando pelo corredor do lado de fora. Lavou os cabelos com cuidado massageando o couro enquanto observava o vapor formar gotículas nas paredes de madeira e por fim pegou o balde cheio de água jogando por cima da cabeça retirando toda a espuma de uma vez.

Por alguns instantes ficou parado olhando para o líquido correndo no chão em direção ao ralo sentindo sua respiração levemente descontrolada pelo calor. Parecia que estar ali ainda não era quente o suficiente.

Colocando o balde de madeira de lado se levantou indo até a banheira redonda próxima a pequena janela no topo. Não dava para ver o lado de fora, mas isso ajudava a evitar que se sentisse preso ali.

Seu corpo adentrou movimentando a água sem derramar se sentando no meio dando por fim um longo suspiro pesado.

Estava muito mais quente que a do balde, mas ainda não era o suficiente. O calor o cercou, as gotas caindo no fundo encheram seus ouvidos e o reflexo distorcido de seu rosto cansado o encarava de volta na água.

Não era como se ele realmente quisesse ficar sozinho, mas também não conseguia ficar com os outros por medo de atrapalha-los. Estava sempre disposto a ajudar o MooNs quando quer que precisassem, mas não conseguia se sentir parte dali. Parte de algum lugar.

Seus olhos se fecharam não querendo pensar sobre isso, não querendo ver o reflexo deprimente e nesse momento o som das gotas foi interrompido por um ainda maior, o da porta se abrindo com um estalo. Sua cabeça se ergueu automaticamente tão surpreso quanto preocupado.

— Tá ocupado! – Com a voz tremula disse rápido antes de deixar que o indivíduo entrasse por completo.

— Kazu?

Essa voz era a última que queria realmente ouvir. Seu coração surpreso bateu rápido como se tentasse escapar de cordas grossas ao seu redor no desespero daquele som. Por um segundo ele parou sem dizer nada se questionando mais do que conseguia acompanhar e esquecendo que o rapaz já estava dentro do local.

— O que está fazendo?! – Ao vê-lo parado a sua frente com o yukata da mesma cor que o seu Kazuna gritou agitando a água na banheira com o corpo.

— O mesmo que você.

— Tá ocupado, você não ouviu? Não está vendo? – Enquanto falava no seu tom mais sério viu o rapaz rir se virando para a divisória o ignorando. — Tomohisa!

— Não precisa ter vergonha. – Seu tom descontraído o fez coçar as sobrancelhas ainda mais irritado.

— Não é isso! Tem outros lugares pra você ir.

— Eu sei. – Saindo ele apareceu vestindo a tolha branca ao redor da cintura. — Mas escolhi esse.

— Eu-

— E eu não vou sair.

O olhar gentil ainda estava ali, contudo o sorriso tinha desaparecido. O loiro não esperava pela resistência e sem perceber foi pego pela falta de palavras. Em silêncio assistiu o rapaz se aproximar da banheira com calma e elegância.

Seu corpo parcialmente desnudo carregava beleza e poder. Era firme e o fez ter dificuldades em desviar o olhar.

— Então eu saio. – Com a voz sem qualquer confiança falou alto ainda sentado sem ter forças para levantar completamente na frente dele.

— Ah, é? – Com um passo longo alcançou a borda onde se apoiou de frente para o rapaz o encarando fechando qualquer espaço de fuga. — Quero ver.

O tom tão desafiador quanto sedutor o prendeu. Sua primeira atitude foi encolher o corpo como se tentasse se esconder daquele olhar. Tomo percebeu e com um sorriso adentrou a banheira ainda com a tolha.

— Espera, você não pode... – o aviso foi ignorado assim que o corpo movimentou a água ainda mais próxima a borda sem a derrubar. — Tomohisa...

— Você sempre foge de mim. – Na água se aproximou mais fazendo Kazuna ir para trás batendo as costas na madeira. Os olhos azuis dele o encarava o forçando a desviar o rosto irritado. — Nem consegue me encarar, mas... hoje eu não vou deixar.

A voz estava baixa e mais insistente que o normal forçando o coração do loiro pular forte batendo contra seu tórax. Ele o odiava.

O som das gostas ecoaram no local caindo sobre uma possa de água. Kazuna levantou o rosto com lentidão encontrando o dele na sua frente. Estavam próximos, ambos vermelhos pelo calor do vapor.

— O que... você quer?

— Quer mesmo ouvir? – O olhar o capturou rapidamente. Estava sério como dificilmente via.

Ele não conseguiu responder, nem saberia como se tentasse. Os olhos dele estavam o engolindo o puxando para perto como um rio faz com aquele que o observa por muito tempo. Ele precisava fugir.

Tomohisa percebeu o corpo ainda estar encolhido e sem opção se afastou encostando na borda de frente para o rapaz.

— Não precisa me olhar assim. – Sorriu passando a mão molhada pelo cabelo. — Eu só não quero que me evite de novo. – O comentário fez o loiro tremer a sobrancelha confuso. Tinha pensado em fugir dele o dia todo, mas nem por isso deixou claro para ele sua intenção. — Você podia ter ficado comigo, mas preferiu seguir os dois pela cidade, certo?

O questionamento o fez engolir rispidamente trazendo um sorriso vencedor ao rosto do homem.

— Eu quis ir com eles.

— Pra me evitar.

— Não! – Sua voz soou alta o fazendo perceber seu próprio desespero. O que ele estava fazendo? Não tinha que dar explicações para ele e menos ainda provar algo. — Porque eu quis...

— Ok, ok, mas você acabou voltando sozinho, não foi?

A pergunta o fez olhar por baixo fitando em silêncio o rosto contente que parecia não ter se dado conta do que tinha acabado de dizer.

— Você está me perseguindo? – O comentário irritado trouxe um riso alto ao rapaz.

— Acredite, foi coincidência. – Balançando a cabeça falou fazendo Kazuna aliviar a tensão nos ombros. A voz dele tinha esse poder de acalmar a situação ao mesmo tempo que o frustrava. — Mas eu realmente queria ficar com você.

Ele definitivamente não queria ouvir esse complemento. Não queria ouvir isso nem naquele momento, nem nunca. Seus punhos automaticamente se fecharam embaixo da água enquanto Tomohisa distraído olhava para as paredes molhadas. Novamente o questionamento da manhã voltou para ele.

Com o olhar ainda para baixo Kazuna suspirou tomando tempo para falar.

— Você por acaso-

Passos altos no corredor interromperam sua fala chamando atenção dos dois. Ao se virarem puderam ver uma silhueta na porta o que fez o coração de Kazuna acelerar novamente. Aquele era um banheiro privado e não para dividir com mais alguém. O que ele faria se descobrissem sobre o que estava acontecendo? Ainda mais com Tomohisa!

Em silêncio encararam a entrada aguardando o que quer que estivesse para acontecer.

— Haruhi! – A voz alta e séria os assustou. — Para de correr! Você vai escorregar! – Era claramente Miroku parado ali aos berros enquanto se ouvia outros passos rápidos ainda seguir pelo corredor.

— Você não vai me parar!

— Hikaru! – Logo ao lado outras duas silhuetas passaram correndo com a voz mais preocupada. — Hikaru, sua toalha caiu!

— Ah! Tatsu, me dá a sua!

— Para, Hikaru!

A gritaria no corredor passou como um tufão ecoando pelos banheiros e substituindo qualquer raciocino que estivessem tendo até então. Tudo não passou de alguns minutos e toda a conversa foi esquecida enquanto assistiam ao show sem entender nada.

Kazuna olhava a porta já imaginando a bagunça que estavam fazendo no corredor e sem querer sua mão foi até a testa pensando nos problemas que iriam causar para todos ali. Seu suspiro estava quase saindo quando ouviu uma risada vindo da frente.

Seu olhar seguiu o som encontrando o rosto feliz como de uma criança de Tomohisa ainda olhando para a porta. Seus olhos congelaram e seu coração apertou. Sentiu as forças deixarem seu corpo e seus ombros caírem mais uma vez.

— Estão se divertindo tanto. – Comentou se virando para frente procurando pelo loiro.

Antes que Tomo pudesse continuar com qualquer afirmação para colocá-lo contra a parede o rapaz se levantou sem se importar em estar nu em sua frente.

— Kazu?

— Já terminei. – Sem dar espaço para falas caminhou até a divisória pegando a toalha para amarrar no corpo e o yukata no canto saindo dali batendo a porta.

Seu primeiro passo para fora do banheiro foi também o último. Sem qualquer ânimo ele se arrastou até a parede ao lado da porta apoiando o corpo ali. Seu coração estava doendo, batendo rápido demais para sua mente conseguir acompanhar. Queria acreditar que era o calor da água ou só sua frustração, queria acreditar em qualquer coisa para não pensar nele.

O que ele pensou quando viu aquele rosto? O que ele sentiu não deveria acontecer. Aquele não era o Tomohisa incrivelmente perfeito, o príncipe de todos, era só o Tomo.

Com dificuldade mordendo os dentes empurrou o corpo para frente se dirigindo para o trocador mais próximo, tentando não pensar mais nisso e sim no chão molhado daquele corredor.

• • •

Durante o jantar a mesa separada para os membros da B-Project estava completamente animada. Conversas altas contando sobre o que fizeram, discussões sobre a limpeza do corredor que gerou bronca nos quatro e os interesses sobre aproveitar a noite antes de irem para cama.

Tudo isso envolto por muita comida e sorrisos. Foi um dia de lembranças preciosas e muitos ainda não estavam prontos para deixar isso para trás.

Kazuna assistiu aos rostos enérgicos enquanto ouvia suas conversas com atenção. Era importante para ele que compartilhasse desse momento com aqueles que mais estavam ao seu lado. Ouviu, conversou, mas não teve nada para contar. Seu dia foi resumidamente só mais um dia, porém em outro ambiente. Afinal, ele não podia falar que passou o tempo todo fugindo de Tomohisa. Estava cansado demais e isso ficou claro para todos.

Logo após terminarem cada um seguiu seu rumo em busca de cama, ar fresco ou novos problemas. Kazuna queria isso também, mas ele sabia que não seria fácil encontrar essa paz até que o dia acabasse.

Com calma se guiou até o quarto abrindo a porta com receio e para sua felicidade o rapaz não estava em lugar nenhum por ali. Aliviado seguiu até a cama onde se sentou pesadamente.

As imagens daquele dia vieram todas de uma vez só. Os sorrisos falsos, as palavras verdadeiras, aquelas que usou como proteção, o rosto do Tomo, tudo.

Sua cabeça não parava de girar, porém seu corpo estava parado, estável sobre a cama e seu olhar triste pairando sobre o céu estrelado.

— Por que?

Ele não queria ouvir a resposta de seus desvios, de suas tentativas falhas de culpar o outro por tudo o que fazia. Não queria estar errado e nem certo. Contudo não conseguia parar de questionar.

De repente o som da porta se abrindo o fez se calar. Ele não se moveu na beirada, mas seu coração palpitou mais rápido no peito.

Ouviu dali a voz do rapaz dar boa noite para alguém antes de fechar a porta de uma vez. Não ouviu a chave trancando e nem comentários pretensiosos para seu lado.

Kazuna não se virou para olha-lo estava, por alguma razão, envergonhado. Ouviu seus passos pelo quarto sem ouvir mais nada ao redor. A atmosfera do cômodo parecia tranquila quase como se a presença dele não fizesse diferença ali.

— Você planejou isso? – Falou rápido quebrando o silêncio sem nenhum cuidado, sem olhar para trás. — Me deixar trancado com você o dia todo? Não me dar escolhas e me forçar a voltar para você de qualquer jeito? – Tomohisa não respondeu aumentando a sensação de estar sozinho ali. Agarrando aos lençóis forçou os punhos contra o colchão. — Por que tem que me forçar a ver isso tudo?

O silêncio permaneceu por mais tempo do que ele queria. Sua fúria tomou conta de seu coração desesperado e sem pensar se levantou o encarando de frente.

— Responde.

— Eu não planejei, mas não neguei as oportunidades. – A voz estável deu a ele o que queria com calma e honestidade tentando diminuir a tensão. — Eu te disse antes, eu não quero que fuja de mim.

— Você nunca aceita quando as coisas não saem do jeito que você quer, não é?

— Kazu... – Sem notar seus pés deram o primeiro passo para frente enquanto encarava o rosto amargurado do outro o julgando.

— Mas você não pode me controlar. Não pode mudar o que eu sinto! – Sua voz estava aumentando no mesmo ritmo que seu coração batia ecoando em seus ouvidos o desespero que tentou evitar o dia todo. — Não pode me mudar...

Antes que pudessem notar estavam parados um de frente para o outro com distância suficiente para sentirem as respirações tocarem uma a outra. Tinham tanto para falar, tanto para mostrar que não sabiam por onde começavam ou se mesmo deveriam começar.

— Você não pode simplesmente olhar para mim? – Gentilmente Tomo esticou os braços prendendo o outro contra a parede sem o abalar. — Apenas olhe para mim... E me veja.

Seus olhos se encontraram travados um no outro. Kazuna o viu o dominar, o tomar por completo com o coração ferido como se todo o seu esforço em afasta-lo não significasse nada e sem suportar desviou.

— Me deixa em paz...

— Kazuna você- – sua mão foi até o rosto tentando traze-lo para cima novamente, porém um tapa rápido o impediu.

— Não me toca!

O grito ecoou em suas mentes mais do que no quarto os forçando a se calarem de vez. Tomohisa não se moveu e menos ainda fez o loiro. Suas respirações estavam agitadas com sentimentos se atropelando e seus olhares perdidos no abismo que estavam criando entre eles.

— Por que você não me deixa? – Sem conseguir levantar a cabeça questionou sentindo as mãos da escuridão que criou invadirem sua mente e agarrarem seu coração na tentativa de silenciar tudo como sempre fez. — Por que não me deixa te odiar...?

Ele sabia que não podia encarar Tomo, não com aqueles pensamentos, não enquanto se sentisse uma falha. Toda vez que seus olhos se encontravam ele via seu reflexo escuro no meio do mar azul, sozinho. Não estava pronto para ver isso de novo agora.

— Isso vai te fazer se sentir melhor? – A voz era solitária, mas parecia séria o suficiente para aceitar qualquer proposta que quisesse fazer.

— Eu pareço melhor? – O sorriso veio acompanhado de uma risada amarga sufocada pela lágrimas na garganta. — Mas eu não sei o que fazer... Eu realmente estou tentando te odiar. Eu faço meu melhor pra isso! – Sua voz tremia mesmo com os olhos transparecendo claramente sua seriedade. — Mas eu...

Kazuna sempre foi bom em mostrar sorrisos rápidos e deixar o clima no ambiente tranquilo o suficiente por parecer tão sereno. Sabia fingir para não preocupar os outros, mas não sabia mentir para si mesmo. Ele sabia melhor do que qualquer um que seu coração não queria isso e por essa razão não conseguia terminar seus pensamentos.

— Eu não quero ficar sozinho mas-

Antes que pudesse terminar sua fala os braços de Tomohisa o pegaram de surpresa em um abraço que o prendeu por completo. Seus olhos se arregalaram, seu coração esfriou por um segundo e sua mente ficou em branco.

— Eu não vou te deixar. – A voz desesperada em seu ouvido o fez despertar. Seu coração voltou a vida com batidas rápidas disparando sua temperatura e derretendo o gelo que prendia sua dor. — Não importa o que aconteça.

Seus olhos se encheram de água transbordando sem parar. Ele não podia fazer nada para evitar aquele sentimento sufocado de sair e ficou grato por Tomohisa não o ver naquele momento. Sem querer seu corpo se agarrou ao dele desesperado pelo calor apertando as mãos nas costas dele e afundando o rosto em seu ombro.

Seu peito, seu corpo, sua mente, seu ser tinha finalmente encontrado o calor que tanto procurava durante o dia todo. Estava quente como queria, mas era doloroso se aproximar tanto assim dele.

— Algum dia você vai entender que você é você. – Sussurrando gentilmente Tomohisa interrompeu o silêncio. — Eu quero estar do seu lado para ver isso.

Curvando os lábios mordeu os dentes tentando prender sua tristeza de alguma forma dentro de si. Ele não queria ter que compartilhar isso com ele nem com ninguém, mas as palavras eram de um conforto tão grande que sua alma precisava que não conseguiu evitar de apertar ainda mais seus corpos um no outro.

— Você é realmente gentil... – com a voz abafada para disfarçar a dor falou pegando o maior de surpresa. Tomo pensou em se virar, mas pelo tom triste evitou se afastar sentindo as mãos o apertarem mais uma vez pedindo que não soltasse o abraço.

Kazuna queria acreditar que não merecia nada disso, que não precisava desse carinho, mas agora não conseguia se separar dele. E talvez esse fosse um dos motivos para se forçar tanto a ficar longe.


A noite daquele dia de folga estava só começando e já deixava claro que não seria longa o suficiente para eles. Sabiam que quando menos quisessem a manhã já teria chegado os forçando a fingir e se afastarem novamente. Entretanto, mesmo isso, não foi capaz de os parar.

Kazuna tinha consciência de que existia coisas que não podia evitar e outras que levaria muito tempo para conseguir mudar, mas nesse momento nada disso realmente importava. Por hora, ele só queria estar ali, envolto em amor, como se pudesse durar para sempre.

Nov. 28, 2018, 5:34 p.m. 0 Report Embed 0
The End

Meet the author

Ana Carolina Mãe de 32 personagens originais e outros 32 adotados com muito carinho, fanfiqueira nas horas vagas e amante das palavras em período integral. Apaixonada demais e, por isso, sou tantas coisas que me perco tentando me explicar. Daí eu escrevo. ICON: TsukiAkii @ DeviantArt

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