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teochae non exist

Min Yoongi é o herdeiro e o maior orgulho de Sra. Min, a grande megera rica da cidade, mas diferente do que ela esperava, Min Yoongi preferiu se suicidar do que continuar vivendo no luxo. A manhã borbulhou com a notícia; o único filho da família Min havia se enforcado na própria janela. E não só isso, seu espírito ficou para assombrar a mansão. Em uma atitude desesperada, Sra. Min recorre à uma famosa casamenteira dos mortos e a esperança era de que Yoongi aceitasse ir para luz com uma nova companheira. Contudo, quem apareceu para o casamento foi Kim Namjoon, o diabo.



Fanfiction Bands/Singers For over 18 only.

#terror #namjoon #bts #yoongi
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Seu sangue, meu suor, nossas lágrimas

Ele sempre esteve aqui

No terceiro dia daquele mês que deveria ser comum, a chuva torrencial descia quase negra em cima do caixão dourado e se camuflava no solo de grama desgastada, enchendo-o de lama mole e afundando os pés equilibrados em saltos das mulheres que estavam por ali. O céu, tão escuro quanto os becos da cidade onde pessoas morriam mutiladas com frequência, parecia querer despencar junto aos trovões fortes que reverberavam próximos dali.

Os presentes estavam molhados. A última notícia, que correu rápido na semana passada, foi a de uma mulher que teve o corpo queimado ao ponto da pele grudar no asfalto e explodir em bolhas, — exatamente como a de um porco de natal no forno —  por causa de um raio, enquanto andava com um guarda-chuva. Mas agora, o maior foco era Min Yoongi e nada além disso permanecia nas bocas dos cidadãos da cidade.

Era um velório, mas a mãe do jovem garoto, que começava a apodrecer dentro daquela caixa banhada a ouro, decidiu fugir das normas padrão de um e pediu para que os convidados não viessem de preto.

Yoongi gostava de cores, a mãe dizia aos prantos no telefone para a irmã, que sabia que não era por causa do menino e sim porque ela queria esbanjar o último chapéu exagerado que havia comprado. Ele ia gostar de me ver usando rosa nesse dia.

O resultado foi um grupo de cem pessoas — provavelmente o morto não conhecia sequer trinta — com vestidos e ternos em cores tão vibrantes que poderiam facilmente serem confundidos com animadores de festa. As mulheres usavam plumas e maquiagens em tons de azul, amarelo e até mesmo verde, enquanto os homens trajavam camisetas sociais que possuíam brilho.

Era, definitivamente, o velório do ano. E a Sra. Min adorava se sentir o centro exagerado de todas as atenções, mesmo que isso envolvesse a morte do próprio filho.

— Min Yoongi era um garoto que todos nós amávamos. Ele era bondoso, tinha uma alma gentil e um coração que Deus permitirá atravessar os céus. E, mesmo que tenha partido, as lembranças que temos com ele jamais serão apagadas. Que Maria o coloque no caminho dos portões eternos e que ele possa descansar em paz. Amém.

A mãe, desolada, começou a chorar copiosamente em frente ao caixão e debruçou-se exagerada no ouro brilhante, empurrando sem motivos a coroa de flores enorme que o adornava, somente para raspar as unhas grandes, pintadas de um rosa estranho, na madeira e mostrar o quanto estava sofrendo com a morte do menino. Seu menininho, Min Yoongi. Seu menininho que não deveria ter partido.

— Sinto muito pela perda, Sra. Min — o padre se curvou em respeito quando passou por ela para ir embora. — Ele era um bom menino, creio eu.

— O melhor menino, padre — fungou. — O melhor.

O padre assentiu constrangido e seguiu para frente, para longe da mulher e daquele clima mórbido que cercava o cemitério. Quer dizer, um cemitério por si só já era extremamente mórbido, pessoas apodreciam debaixo da terra e eram devoradas por insetos, mas o ar que ele sentiu ali foi diferente.

Foi pavoroso.

A Sra. Min observou devastada o caixão começar a ser levado para dentro da cova. A sensação de unhas enormes e dentes afiados rasgando suas tripas e enrolando-as como se fossem linguiças começou a tomar conta de sua cabeça. Sentia que estava morrendo lentamente. E aí quis vomitar.

Conteve-se, não poderia correr o risco de comentarem sobre isso no salão de beleza na próxima semana, não queria ser conhecida como a mulher do gorfo, por mais que estivesse sendo difícil controlar o redemoinho que se formava no estômago.

Com uma última fungada, a última remessa de terra foi jogada para dentro da cova, cobrindo-a completamente.

[...]

Chegou no casarão exausta. O dia havia sido muito longo, era difícil até respirar e parecia que seus pulmões rachariam ao meio e o sangue a faria sufocar até a morte.

Até a morte.

Seu filho sufocou até a morte. Só de lembrar da cena horrível que foi obrigada a presenciar. O cérebro ameaçava desligar. Desmaiar não era uma boa opção, ela imaginou os empregados encontrando seu corpo caído no meio do hall central e as notícias correndo logo em seguida na cidade. As pessoas já comentavam que ela não sabia administrar uma casa e tanto dinheiro sozinha, seria mil vezes pior se soubessem que ela não conseguiu lidar com a morte do primogênito de maneira sensata.

— Senhora? — uma das empregadas a chamou com a voz bem baixa. — Você me pediu para arrumar o quarto do Yoongi, mas tem algumas coisas que talvez a senhora não queira jogar fora. Gostaria de dar uma olhada?

Ela suspirou cansada e assentiu. Seguiu a mulher de estatura baixa pelos corredores extensos da mansão escura e com um cheiro estranho de mofo. Por mais que as janelas estivessem todas cobertas pelas cortinas, não deveria estar cheirando tão mal, seus empregados eram competentes na limpeza de cada parte do seu lar.

Era estranho, mas depois ela resolveria com a faxineira.

Parou na frente da porta do quarto do filho e sentiu o coração retorcendo em um movimento que poderia ser descrito como assombroso. Era como se ela estivesse definhando, mas seu corpo não fosse capaz reconhecer isso e ficasse entre parar de funcionar e continuar lutando pela vida. Era massacrante, podia sentir as batidas inchando o órgão, o sangue lá dentro movimentando-se. Essas pequenas explosões que poderiam rachar o músculo e esguichar.

Respirou fundo e girou a maçaneta adentrando o cômodo frio e vazio. Estava tão quieto e diferente, ela não podia mais escutar as melodias melancólicas do piano e a voz baixa do filho cantarolando junto. Ali, no centro, em cima do tapete com uma mancha de saliva espessa que escorreu da boca dele quando foi colocado ao chão, ela percebeu que ele realmente havia partido para sempre.

Segurou um soluço alto e piscou algumas vezes para espantar as lágrimas. Olhou para a janela, para onde as gotas gordas de chuva iam parar com a ventania forte do lado de fora e, quando um trovão forte iluminou o ambiente, ela pensou ter visto uma corda balançando de um lado para o outro.

Franziu o cenho e caminhou até lá com as mãos apertadas uma na outra na altura do peito, com medo de chegar perto. Outro trovão se estendeu e ela viu outra vez, mas a corda não estava mais balançando, ela estava estática, como se sustentasse um…

— Peso — completou os próprios pensamentos. — Um peso.

Mordeu os lábios e, determinada, foi até a janela, abrindo-a bruscamente e olhando para baixo, procurando aquilo que havia visto, procurando um corpo enforcado, um corpo com o pescoço inchado e fino no meio, como se fosse o de uma galinha destroncada, um corpo com o rosto distorcido em uma careta de dor; lábios escancarados, olhos arregalados e lágrimas escorrendo deles junto com um pouco de sangue.

No entanto, não viu nada, estava muito escuro.

Mas então um trovão reverberou novamente e foi quando ela viu seu menino tão pequeno pendurado pela corda espessa balançando de um lado para o outro, a cabeça pendendo para frente, as mãos fechadas em punhos e as unhas arranhando o tecido da calça. Ela viu os cabelos negros voando com o vento fraco daquela manhã e ela também viu sua própria expressão de horror quando o encontrou.

Um novo trovão estourou e ela gritou.

[...]

noite era fria e o chapéu de plumas de ganso pingava suor e o restante da chuva que, incessantemente, ainda atormentava o lado de fora da mansão gótica. As górgonas de marfim pareciam chorar e ao mesmo tempo amedrontar quem ousasse atravessar seus jardins floridos. Ou somente mortos e podres. Entretanto, o que aquela casamenteira notou assim que pôs os pés no hall de entrada, foi o ar fúnebre e negro circulando as paredes. Ele mofava o veludo vermelho dos acolchoados e o nariz extremamente grande da Sra. Min.

— Eu o vi, enforcado, balançando nas janelas. — uma pausa — Minhas amigas me indicaram seus serviços infalíveis e então eu deposito todas as minhas esperanças nesse casamento. — um bolo de dinheiro foi apresentado à mesa e ficou recostado ao canto. — Esse é o único jeito de Yoongi se sentir menos solitário e poder finalmente abandonar esse mundo infeliz. — A hipocrisia descia como fumaça dos lábios da Sra. Min. Mas isso não era da conta de ninguém, principalmente quando o dinheiro dela estava envolvido. — Eu não consigo entender o porquê. Ele foi um menino tão agraciado. Eu o amei com todo o coração.

O que significava absolutamente nada.

Sra. Min tinha uma reputação valiosa perante a sociedade. Ela era a megera sanguinária mais rica da cidade. Seus saltos caros e vernizados atravessavam as diversas lojas de grife e de lá apenas aceitava sair com pelo menos três dúzias de sacolas. Seu último chofer foi estripado por derrubar uma das compras e o corpo foi carinhosamente abandonado na cama de sua filha mais nova, de 10 anos. O bilhete, claro, com o selo da família e as graciosas desculpas da mulher causadora de tudo. —Eu estava nervosa naquele dia, mas de qualquer forma, ele era só um chofer inútil—. Yoongi tinha todos os motivos para se estrangular, principalmente se fosse o alvo do amor dessa mulher doentia.

— Eu também não consigo encontrar motivos. Ele parecia ter uma vida digna. — Sra. Min concordou e assoou seu nariz gigantesco no lenço de seda bordado com um desenho bonito. A casamenteira podia sentir o catarro escorrer para fora das extremidades e grudar nos anéis de ouro. Sra. Min tentou disfarçar limpando as mãos na toalha da mesa, mas tudo o que ela conseguiu fazer foi mover os pratos de lugar. A sopa quente balançou na porcelana e sujou tudo ao seu redor. A casamenteira levou o vinho até a boca e em vez de rir do embaraço, apenas aproveitou o sabor sofisticado daquela bebida.

As empregadas correram e limparam tudo em um minuto. Nesse meio tempo,  Sra. Min se tornou vermelha feito um morango maduro e, se atrapalhando com os próprios peitos, acabou por achar uma posição confortável para começar a falar de negócios.

— Aceita? — ela estendeu um dos seus cigarros importados e a casamenteira aceitou com um aceno delicado de cabeça.  

— Claro. — a piteira preta era longa e tinha uma ponta branca de onde a fumaça saía e inundava o ambiente, criando uma névoa densa e bastante sexual, se não fosse fruto da boca de uma senhora tão asquerosa. As marcas do batom vermelho circulando o bico do cigarro deixavam até mesmo as empregadas enjoadas.

No entanto, o cigarro era incrível. Era inglês e custava no mínimo um salário inteiro, seria um desperdício simplesmente abandonar a experiência por puro capricho, ou, nesse caso, bom senso. A casamenteira bateu com o dedo indicador e as cinzas caíram até o cinzeiro de cristal. Sra. Min tinha os olhos comprimidos, começando a se tornar cada vez mais vermelha. Nervosismo? Era difícil dizer. De qualquer maneira, todos sabiam o motivo daquela visita e o propósito de toda aquela cortesia exagerada. — Eu não sei bem como funcionam esses…?—

— Rituais? — A paciência era mascarada por uma vontade insana de rir até ver aquela mesa tremer, mas os bons modos prevaleceram. E o bolso cheio recompensaria a dor de cabeça.

— Isso, rituais. — engoliu saliva e tragou uma quantidade de nicotina. — Eles realmente funcionam? — mesmo que a dúvida abalasse seus olhos escuros, o sorriso era de esperança e até mesmo um deboche insolente.

— Alguma outra família lida com o mesmo problema? Suas amigas, enquanto tomam o chá da tarde, comentam sobre espíritos se pendurando nas janelas? — Sra. Min arregalou os olhos e se sentiu ofendida pelo sermão, mas ela tinha razão em tudo que dizia. Somente Yoongi, o espírito, havia reaparecido. Nenhum outro boato circulou, nenhum parecido. Nenhum que a casamenteira dos mortos não pudesse resolver. — Eles funcionam.

Sra. Min assentiu e fumou novamente.

— Onde está o portfólio?

A casamenteira hesitou. Sra. Min começou a bater as unhas grandes na mesa e o som oco ecoou por todo o salão, a chuva se tornou mais espessa e o trovão fez com que os céus tremessem. A noite estava perfeita para a invocação.

— É um caminho sem volta. Você terá que escolher bem e se não escolher, Yoongi ficará ainda mais furioso.

O tom meticuloso e grave fez as canelas cabeludas da Sra. Min arrepiarem inteiramente. O som da respiração ficou mais forte e a fumaça quase se tornou verde.

— E o que isso quer dizer?

A casamenteira estreitou os olhos e chegou mais perto.

— Espíritos furiosos são vingativos. E é bom torcer para que ele não tenha morrido com alguma mágoa contra a Senhora.

Os olhos se arregalaram e uma risada escandalosa serviu de acompanhante. — Mágoa? Meu filho me amava tanto quanto eu o amava, ele jamais tentaria se vingar.

A casamenteira concordou, mas sabia que a Sra. Min não estava apenas tentando convencê-la, também estava tentando acreditar em suas próprias palavras.

— Muito bem, Sra. Min. — A casamenteira puxou debaixo da mesa uma bolsa de couro escura. Ele era grande e parecia pesada. Sra. Min sentiu inveja e queria saber o que tinha lá dentro. Apertou os próprios seios contra a borda da mesa e tentou espiar dentro, mas sua curiosidade não foi muito longe, apenas até um grande livro de veludo verde ser retirado e logo a bolsa voltou para o seu lugar.

O veludo não era apenas verde, tinha detalhes dourados e isso somente ativou o mistério sobre ele. As páginas amareladas tinham volume e algumas fotos escapando pelas beiradas. — É esse?

— Sim. — a casamenteira puxou a fita de cetim vermelha e abriu na exata página 50, a foto que preencheu os olhos das duas mulheres foi a de uma bela jovem. Ela tinha cabelos negros e provavelmente maçãs rosadas, mas que agora eram apenas pálidas demais. Afinal, estava morta.

Envenenamento, também suicídio. Era a escolha perfeita para Yoongi.

— Como vamos fazer para juntar os espíritos?

— É como um casamento comum. Precisamos de uma igreja, uma testemunha e também alguém que faça a cerimônia.

A sorte de Sra. Min é o dinheiro de seu marido, porque por várias vezes ela tinha se demonstrado um tanto burra, ou como ela costuma corrigir; avoada. — Testemunhas?

— A Senhora. — sorriu. — E eu farei a cerimônia.

— Tudo bem. Temos uma pequena capela aos fundos da casa. Onde o enterro de Yoongi foi realizado.

A capela era magnífica, uma das construções mais caras e bem planejadas da região. Sra. Min gostava de se afirmar religiosa e o jeito que encontrou de mostrar ao mundo sua bondade, fora justamente essa bela homenagem, mesmo que escondida, ela ainda chamasse mais pelo diabo do que por Deus.

— Excelente. — e o acordo foi finalizado com dois sorrisos satisfeitos e, por parte de uma delas, um deles também temeroso.

Sra. Min tinha o coração na garganta, mas a curiosidade e seu lado masoquista apitavam mais do que os trovões circulando o céu. Veria mais uma vez a morte com os próprios olhos.

E mais do que isso.

O jardim de rosas vermelhas indicou o caminho e nem mesmo o grande guarda-chuva impediu que algumas gotas entrassem nas roupas e nos cabelos banhados de laquê perfumado; o duro dos fios despencava suavemente, assim como a propaganda prometia, e sujava os rostos quase como um sebo brilhoso. Mas nada disso importava no momento. Todo o desconforto e calor sumiu quando aqueles primeiros santos de ouro brilharam na noite.

As portas da capela iam do chão até dois metros acima de suas cabeças. Era espessa e bem detalhada, como tudo naquela casa. Sra. Min tirou uma chave grande de seu sutiã e com ela abriu a fechadura maciça. A casamenteira teve que a ajudar na hora de empurrar as duas compressas de madeira e o ambiente da igreja foi rapidamente revelado pela luz da lua.

O altar era talhado com pinturas de anjos e de santos. Os quadros e as janelas coloridas só tornavam o ambiente ainda mais luxurioso. A cartomante quis rir, afinal sinceramente tudo sobre aquela família era extravagante. Enquanto pessoas passavam fome, Sra. Min esbanjava riqueza até no sabonete em que se banhava. Todavia, isso não importava agora. Seria mentira e até hipocrisia afirmar que era ruim de todo, porque essa mesma riqueza entraria em seus bolsos no final do ritual. A casamenteira cobrava caro e Sra. Min podia pagar quantas vezes quisesse.

A casamenteira tirou de sua bolsa duas velas vermelhas e as posicionou no altar. Com os dedos finos desenhou um símbolo que a Sra. Min não podia identificar e as velas se apagaram com o vento que entrou pela abertura da porta. Esse mesmo vento tornou o ambiente gelado e levantou a saia de seu vestido. O suor e o laquê pareceram congelar ao ponto de Sra. Min sentir o rosto preso. Um calafrio subiu por suas costas e parou no pescoço, onde um peso grande passou a fazer presença. Ela olhou rapidamente a casamenteira esperando alguma resposta para aquela sensação horripilante. A casamenteira não retribuiu o olhar, apenas juntou as duas mãos e passou a sussurrar palavras que novamente Sra. Min não soube interpretar, e então acendeu as velas novamente. Dessa vez elas ficaram acesas. E não só isso.

Elas iluminaram o rosto de Yoongi e de sua noiva.

Os olhos da Sra. Min passaram de arregalados para saltados e totalmente fora das órbitas de seu crânio. O pavor atingiu seu coração e sua garganta, mas não conseguiu gritar. Sua voz parecia nula perante a expressão calma da casamenteira e do olhar mortal e odioso de Yoongi em sua direção.

O pescoço marcado e a pele cinza. O cabelo molhado. Yoongi estava ali novamente. Seu filho. Seu único filho. Com os olhos mais mortos do que nunca. Sua alma atormentada. O estômago da Sra. Min embrulhou exatamente como em seu enterro. Ela sentiu vontade de correr. Vontade de sumir e rezar até que todos os seus pecados fossem perdoados. Mas isso era impossível, ela pagaria com as lembranças dessa noite, a relembrando sempre e todas as madrugadas.

Sua sina.

Ela não queria entender, mas sabia que seu filho tinha se matado por não aguentar mais viver em um mundo onde ela estava junto. Yoongi sofreu anos até finalmente morrer. E agora, de mãos dadas com sua noiva, sua expressão tinha uma certa satisfação, mesma que banhada em raiva.

E então o tempo parou. Sra. Min travou no lugar com seus olhos marejados. Sua noiva desapareceu feito fumaça e a casamenteira parou de sorrir para mostrar uma expressão de terror. A igreja ficou escura. E com uma piscada Yoongi se viu sozinho. A parede se tornou molhada com sangue e uma gosma preta se espalhou por todo lugar, escorreu até seus pés e o cheiro que atravessou seu nariz foi o de enxofre. Os ramos de plantas venenosas saíram dos buracos de ratos e fecharam as janelas e as portas impossibilitando que nenhum humano ou fantasma saíssem de lá. O espírito de Yoongi tremeu em agonia. Como era possível sentir medo mesmo depois de morrer? O chão se tornou mole e tudo o que se podia enxergar era uma silhueta ao canto da igreja, sentada na última fileira de bancos. Os chifres de alce saíam da cabeça com um barulho grotesco de pele se rompendo, e o som de palmas começou a ecoar pelo ambiente. Tortuosamente lento e audível. Sua risada veio logo em seguida, de uma maneira diabólica e mostrando o sorriso tenebroso. Dessa vez, quem arregalou os olhos foi Yoongi. E fez isso justamente por saber que a presença não era divina.

E sim satânica.

— Min Yoongi. — sua voz aveludada preencheu os ouvidos de Yoongi quase como uma música melodiosa, mas aquela pedra ainda estava instalada em seu estômago e isso o fazia ter calafrios o tempo todo e eles aumentavam ao compasso que a presença dele se tornava mais forte.

Yoongi olhou ao redor e não viu mais ninguém. O calor da mão de sua noiva entre seus dedos também sumiu, restava apenas o frio na espinha que ele não sabia ser possível sentir depois de se jogar para fora de uma janela com uma corda no pescoço. O medo que ele sentiu quando não morreu na hora e ficou se contorcendo até perder completamente o ar era pequeno comparado ao medo que sentia do desconhecido.

Era para ter dado certo, não era? Ele deveria atravessar o outro lado. Onde estava, então?

Os chifres bateram em um dos bancos, chamando a sua atenção. Aquele homem estranho estava com o corpo quase inteiramente deitado, o tronco curvado de uma maneira bizarra. Yoongi jurou ter visto uma das costelas cutucando o músculo como se fosse rasgá-lo. O rosto era assustador, a boca escancarada, os lábios cinzas tão abertos que era possível enxergar sua garganta, os olhos estavam brancos e as pupilas tornaram-se apenas pontinhos pretos minúsculos.

Sufocou um grito.

Ao mesmo tempo que aquele frio percorria todos os seus ossos podres, o calor disputava com ele para decidir quem tomava mais posse de seu corpo. E ele não soube definir se estava com medo, se estava irritado por ainda não ter atravessado ou se estava curioso, esperando mais alguma coisa acontecer. Talvez ele estivesse sendo julgado e Deus fosse aparecer para levá-lo junto de sua noiva.

No entanto, aquele rosto distorcido e ainda estático na mesma expressão fez com que ele começasse a tremer involuntariamente. Sua mente era um amontoado de pensamentos e nenhum deles era claro o suficiente.

— Quem é você? — perguntou em um sussurro.

— Sou Kim Namjoon. — respondeu, mas aquilo apenas abriu mais indagações do que findou a curiosidade e o receio de Yoongi. — E você é Min Yoongi.

— Como sabe o meu nome? O que você está fazendo aqui?

— Ele sempre gostou de te ver dormir. Sempre gostou de te ver chorar a noite, pedindo pelo leite que sua mãe nunca pôde produzir. — o som e o conjunto acústico da igreja só contribuíam para aquela voz penetrar Yoongi por inteiro. — Ele também balançava seu berço e Yoongi só parava de chorar quando tocava em sua mão. Ele sempre esteve aqui.

Ele sempre esteve aqui.

— Não estou entendendo. De quem você está falando? — Yoongi sentiu o ar preso nos pulmões quando Namjoon se aproximou mais e abriu um sorriso torto. Tomou uma posição defensiva. — Não chegue muito perto.

— De quem estou falando? Estou falando do Diabo. — a cabeça tombou para o lado e os olhos negros assistiram os de Yoongi se tornarem opacos.

— Diabo? — a voz quase não saiu. — Não invocamos o diabo, nós invocamos...

— Deus? — uma risada irônica começou em sua garganta e terminou vibrando até sair de seus lábios apenas um som gorgolejante como se fosse sangue borbulhando de um ralo. — Parece que fizeram algo de errado. Porque não é com Deus que você está falando agora, Yoongi.

— Não é possível, eu vi a casamenteira pedindo por Deus! — o tom de voz subiu junto com um sabor amargo na língua. Era o sabor do desespero. — Você não está falando sério.

— A igreja pode ser um ambiente sagrado e a casa de Deus, mas quando seus fiéis só praticam o pecado e banham essas paredes com hipocrisia, a única bênção que atraem é a do Diabo. — os dedos tocavam tudo que era alcançável, como se aquele lugar o pertencesse. E não só a capela. Quando os olhos novamente subiram para Yoongi, ele soube que também o pertencia.  

— O que você quer comigo? — tentou se afastar quando ele chegou mais perto, mas suas costas bateram em uma parede e Yoongi se perguntou como chegou até ela, porque estava estático desde a cerimônia.

— Você sempre me pertenceu, Yoongi. Eu sempre estive aqui. Venha comigo, ou continue vagando por essa casa pela eternidade. — estendeu a mão pálida e coberta por um tecido escuro. O gesto não causou medo ou foi brusco. Tinha tanto refinamento e educação que Yoongi se viu perdido por alguns segundos. — A escolha é sua.

Yoongi encarou a mão estendida e mordeu os lábios, olhando para trás. Ele não estava mais colado na parede, ele podia ver novamente a mãe perdida entre sua noiva e a casamenteira. O sentimento de raiva pela mulher cresceu em seu peito e, sem que pudesse perceber, estava de punhos cerrados e chorando, mas não pelo medo de ir embora e sim pelas lembranças que insistiam em atormentar sua mente mesmo depois de morto.

Mas talvez elas ainda estivessem ali porque ele continuava ali.

— Se eu for — sussurrou mais para si mesmo do que para o outro. — Não vou mais me lembrar.

Foi quando recebeu um aceno positivo de cabeça que Yoongi segurou as mãos de Namjoon e tudo dentro dele se acalmou. O diabo sorriu e confortou todas as suas inseguranças, até que a escuridão começou a subir por seus pés e uma antiga dor acompanhada por uma mortífera tortura tomou conta novamente dele. Essa era a sensação de morrer depois da morte. Essa era a sensação de se deixar sucumbir pelas trevas. Min Yoongi sufocou com a mesma exatidão da noite em que se pendurou da janela e apagou, junto com Namjoon e o resto de sua existência.

Sra. Min soluça, o som tem um completo sentido para quem presenciou tudo, mas para ela foi completamente espontâneo, por isso ajeita o vestido e passa as mãos suadas pela roupa. A casamenteira ainda tem o coração disparado e o amargor na boca, sabe exatamente o que aconteceu e que falhou miseravelmente em seu trabalho. Contudo, Sra. Min parece alheia demais com o mundo e os acontecimentos daquela noite. Era totalmente plausível e possível que ela tivesse se esquecido de grande parte, por essa razão a casamenteira apenas retirou de seu rosto a expressão assustada e tentou disfarçar os demônios que ficarão para sempre em sua cabeça.

Com o sorriso, Sra. Min se acalmou. Todo aquele sufoco valeu a pena, mesmo que suas memórias estejam embasadas no completo nada e que sua esperança permaneça infundada, ela se sentiu aliviada pela primeira vez por ser uma completa ignorante. A casamenteira respirou fundo antes de prosseguir mentindo. Ela ganharia seu dinheiro e aquela família nunca mais seria atormentada por espírito nenhum.

— Yoongi está em paz, ele finalmente deixou esse mundo.

Para ir diretamente ao inferno.

Nov. 27, 2018, 7:17 p.m. 0 Report Embed 3
The End

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non exist Busan boy and Daegu boy

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