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Contato imediato

Luhan voltou depois de seis meses. Quando abriu a porta, encontrou Minseok iluminado pela televisão e o encarou nos olhos, que começou a chorar. Luhan permaneceu no batente e com a mão na maçaneta até que Minseok se levantou da poltrona e o puxou para dentro de casa, se encolhendo no abraço dos corpos e depois colocando a cabeça de Luhan mais próximo de seu peito. Tinha vontade de soltá-lo do abraço apenas para trancar a porta e as janelas, para que ele nunca mais desaparecesse.

Aos poucos, Luhan também começou a chorar. Devolveu o abraço com força e ele próprio trancou a porta e as janelas, enquanto Minseok o observava com as mãos unidas no peito, seguindo-o pelos cômodos para ter certeza de que ele não era uma ilusão.

Quando a última janela foi fechada, Luhan voltou e se ajoelhou diante de Minseok, que o analisou. Nos olhos, ele era o mesmo. Tinha um medo incrustado no fundo da retina; pedia por segurança e abrigo. Por fora Luhan era outra coisa. Estava nu e totalmente sem pelos, desde o topo da cabeça aos dedos dos pés, que estavam sujos. Os tornozelos estavam arranhados por espinhos e uma cicatriz ainda viva, percorrendo toda a espinha dorsal, sangrava.

— O que fizeram com você?! — sussurrou Minseok, preocupado, impotente.

— Ainda me ama? — indagou Luhan, encostando o rosto entre as pernas de Minseok.

— Amo, ainda amo; como se fosse a primeira vez.

Luhan deu-se por satisfeito, baixou a guarda. Ergueu-se do chão e seguiu Minseok até o banheiro. Lá, despiu-o como que dizendo que só tomaria banho com ele, e entraram sob a ducha juntos. Minseok viu no rosto dele a dor da água lavando a cicatriz diminuir de intensidade e esfregou todo o corpo de Luhan. Até os menores pelos tinham sumido, e a cicatriz parecia ter uma perfeição cirúrgica revoltante.

Depois de limpo, antes que se secasse, Luhan começou a beijar Minseok, que não resistiu nem tomou o controle. Parecia uma ilusão e ele não tinha poder sobre os sonhos. Luhan encostou seu corpo no dele e aos poucos o que tinha de mágoa foi embora com a fricção dos sexos. Fazia tanto mais frio agora que estavam molhados que a junção dos corpos se tornava duplamente prazerosa.

Luhan era espantosamente o mesmo nos beijos no pescoço e no ritmo constante dos quadris. Minseok gemeu como nunca antes e sentiu a pele de Luhan nos dígitos como deveria ter feito na última vez e não pôde. Abraçou-se no corpo e rezou para que ele não fosse embora. A água quente que lavou-os novamente tinha um quê de deífico.

Depois de se secarem, apesar de Minseok perceber a fadiga em que Luhan se encontrava, não fez nada. Não sabia o que fazer ou dizer. Apesar do sexo, pareciam dois estranhos. Minseok não queria falar nada porque tinha medo de que a culpa fosse sua; a culpa do que quer que tenha acontecido com Luhan. Afinal, foi ele quem ignorou os sinais de esquizofrenia e deixou Luhan sozinho em casa naquela noite.

Assim, permanecendo como se tudo estivesse normal, deu roupas para ele vestir e foram para a cozinha; Ele fez os brócolis apimentados que Luhan gostava e um chá para si mesmo. Observou-o novamente; parecia mais jovem, a pele estava hidratada e com uma cor uniforme; as pupilas refletiam o verde dos legumes no prato e estavam dilatadas; o leite das unhas estavam arroxeados; também os lábios, e sob os olhos.

— Está com frio? Vamos deitar — sugeriu Minseok, se levantando e aumentando a intensidade do aquecedor em cinco graus. Luhan foi logo atrás, se adiantando pela sala e desligando a televisão que, Minseok não sabia desde quando, voltava a ficar com interferência, e verificando se a porta ainda estava trancada.

Deitaram na cama, um de frente para o outro, até que resolveram dormir abraçados. Minseok deitou a cabeça no braço esquerdo de Luhan e o seu braço na cintura dele, sentindo a respiração contra os seus cílios e o peito se mexer contra o seu rosto.

Não tinha coragem de fazer qualquer pergunta, mas algumas rondavam a sua mente desde o dia fatídico, seis meses atrás, quando Minseok voltou para casa pela manhã, após brigarem na noite anterior, e ficou sem notícias de Luhan, que não entrou mais em contato nem com os próprios pais.

Alguns meses antes do desaparecimento, dele ter ido embora, Minseok não sabia bem, Luhan começou a desenvolver um medo inexplicável de arrombamentos — fato que fez com que passassem a ter duas trancas em cada porta e janela. Também começou a dormir com uma fonte de luz baixa e ter pesadelos constantes com o fim do mundo.

Depois que Luhan sumiu, Minseok deixava a porta aberta até a hora em que fosse deitar. Às vezes caía no sono na poltrona da sala e acordava com o barulho dos pássaros ciciando lá fora. Por um tempo planejou mudar de cidade, esquecer o problema, mas a culpa era muito grande para seguir em frente. Ele continuou ali, na casa que fora de seus pais, recebendo as mensagens raivosas e infinitas da mãe de Luhan.

Não conseguia dormir, porque não parava de pensar. Todo o tempo que ficou sozinho pareceu como um castigo que lhe foi imposto, o karma pesado de algo ruim que poderia ter feito na infância. Queria ele ao menos saber o que Luhan acreditava ter acontecido, e aí encontraria uma resposta entre a alucinação e o fundo verdadeiro.

Abrindo a boca para enfim questionar qualquer coisa que o fizesse compreender, primeiro, o que tinha acontecido a ele, Luhan o interrompeu.

— Antes que pergunte, não sei bem como cheguei lá ou ainda como voltei aqui hoje. O que percebi é que eles não sentem o prazer de alguma vingança nem orgulho do poder... Olhe isso.

Luhan se afastou alguns centímetros para que Minseok pudesse ver. A princípio, nada aconteceu, mas aos poucos uma ondulação sutil se fez visível na luz indireta sobre todo o corpo de Luhan. Sob toda a pele, uma segunda pele se eriçava e moldava a superior em escamas poligonais.

Diante daquilo, a preocupação que Minseok tinha quanto a saúde mental de Luhan começava a se mesclar com medo de que o impossível fosse real. De repente ele não queria mais tentar compreender coisa alguma. Tinha medo do que via, medo de que toda a realidade fosse fajuta. Tinha medo de chegar a qualquer conclusão.

Como se espera quando algo ruim acontece, Minseok só quis que o tempo voltasse ou deixasse de existir. Defensivamente, ele simplesmente duvidou do que viu e negou as possibilidades do que pudesse ser.

— Vamos só dormir — sugeriu, voltando a se enfiar no abraço de Luhan, que voltara a ter a pele lisa como sempre fora.

 

Não saberia dizer o momento em que acabou dormindo. No estado em que estava, parecia impossível pregar os olhos. Mas dormiu, e quando acordou, queria não ter jamais nascido. O corpo sobre o seu, frio e enrijecido, fedia como se estivesse ali há dias. Por alguns segundos, ficou imóvel, aterrorizado. Quando se deu conta de que era, de fato, Luhan, e que estava morto, começou a chorar com grandes soluços. A força que teve que fazer para tirar os braços que circundavam seus ombros só piorou a realidade.

 

Encostado na parede ao lado da cama, em pranto, encarou o corpo. Nunca tinha visto um cadáver antes, mas não parecia ter sido uma morte tranquila. A torção das pernas nos lençóis, a boca e os olhos abertos como se gritasse… Minseok quis saber por que não acordou se Luhan parecia ter sofrido tanto.

Seu coração pesava muito, mas inesperadamente ele teve tranquilidade em fazer o que devia. Talvez porque havia sonhado demais com a volta de Luhan e aprendeu a se controlar quando acordava desesperado com a solidão, e por isso pode ter tratado aquele sentimento análogo ao do despertar de um sonho.

 

Os policiais quiseram saber o porquê de Minseok não ter acionado a polícia na noite anterior, quando Luhan supostamente havia voltado, e ele não soube responder. O fato do corpo estar mais deteriorado do que deveria, segundo a história de Minseok, não podia deixá-lo em outra posição além do suspeito principal. Anestesiado e incrédulo, ele não conseguiu fazer nada além de observar dentro da viatura o corpo embalado ser retirado enquanto uma outra equipe chegava para isolar a casa.

 

Na sala do interrogatório, antes de os investigadores entrarem, ouviu a voz estridente da mãe de Luhan gritar por justiça. Minseok não reagiu a isso. Não reagia a nada, além da lâmpada que começou a falhar gradativamente em determinado momento, até queimar em um estouro. Então ele olhou para cima, para a fumaça que saía do tubo de vidro, e a comparou com a que entrava por baixo da porta, que se abriu lentamente, conduzindo uma luz intensa que o fez franzir os músculos do rosto.

 

Quando os detetives chegaram, o suspeito já não estava mais lá. Fecharam as entradas, fizeram patrulha nas redondezas, investigaram todos os visitantes do dia, mas Minseok não foi encontrado. Uma interferência os impediu de ver com exatidão o que aconteceu no período de espera. A única certeza que tinham é que a lâmpada fulgurou antes de queimar totalmente, dispersando uma fumaça que seria capaz de intoxicá-lo e que perdurou até a entrada dos detetives, além de que, com certeza, absolutamente, ele não havia sido abduzido — porque, afinal, tal coisa não existe.


 

Nov. 23, 2018, 3:05 p.m. 0 Report Embed Follow story
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The End

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