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Comilão

Chanyeol se remexeu na cama sentindo-se desconfortável. Mesmo com todos aqueles travesseiros, sua coluna continuava doendo, o impedindo de ter um sono mais agradável. Revirou-se mais um pouco até decidir sossegar finalmente com os olhos cravados nas costas de Minseok. Estava com desejo. Um desejo avassalador, que lhe tomou de maneira tão arrebatadora que estava sendo extremamente difícil de controlar.

            Choramingando, ele afastou os travesseiros e passou os braços longos pela cintura do esposo encostando a barriga avantajada nas costas dele. Uma das pernas de Chanyeol se infiltrou por entre as de Minseok, colando ainda mais os corpos.

            — Amor. – Ele passou o nariz pelo pescoço do marido sentindo a pele dele se arrepiar com seu toque delicado. – Eu ‘to com desejo.

            — Por favor me diz que é sexo. – Minseok virou o corpo puxando Chanyeol até que a barriga do grávido encoste em seu abdômen. Com carinho, ele desce seus dedos pela pele do esposo até o cós da bermuda, rapidamente Chanyeol agarra os dedos de Minseok e o encara com seu rosto de cachorrinho que caiu da mudança.

            — Eu preciso de chocolate, e abacate. – O rosto do baixinho se mostra indignado, e praguejando aos quatro ventos, ele se levanta vestindo a calça de moletom.

— Mais alguma coisa? – Ele resmunga pegando as chaves do carro no criado-mudo.

— MM’s e pastilhas de mamão. – Minseok fica paralisado ao pé da cama processando os últimos pedidos e com um suspiro diz que vai voltar logo. No momento em que ouve o carro sair da garagem, Chanyeol pula da cama e veste um roupão. A casa está escura, mas o desejo sobrepõe o medo o fazendo seguir em frente até a porta da sala. Como um gatuno ele caminha pela grama do vizinho à procura de seu objeto de desejo. Quando o encontra, tenta controlar um gritinho de euforia, o esconde entre as vestes e corre de volta para casa.

 

 

Na área de serviço da casa, escondido atrás da máquina de lavar, Chanyeol degusta seu manjar, ele raspa os dentes e lambe sentindo o gosto maravilhoso em sua língua agora um pouco machucada, mas isso não é realmente importante no momento. Tão entretido estava, que não percebeu a aproximação de Minseok que fitava a cena atônito.

— Chanyeol! O que você está fazendo com esse tijolo na boca?

— Hyung! Eu... – Possesso ele tira o objeto das mãos do esposo gritando com ele por estar fazendo algo absurdo como isso. Chanyeol que grita histérico pedindo de volta o tijolo sentindo a frustração do desejo não saciado lhe consumir.

— Você quer que nosso filho nasça com cara de tijolo? Eu não posso permitir isso! – Diz depois de conseguir o objeto de volta.

— Isso pode quebrar seus dentes Chanyeol! Onde já se viu comer tijolo?!

— É o meu desejo! Você não pode me negar!  - Chanyeol estava com os olhos cheios de lágrimas agachado no chão e com o tijolo bem protegido em seus braços.

— Deixa de loucura e me dá isso! – Chanyeol se esquivou rapidamente e correu pela casa esbarrando nos móveis, já que as luzes estavam apagadas. Trancou-se no banheiro com a respiração falhando e quando se sentiu mais calmo colocou o tijolo na boca novamente. Escutou passos no corredor do lado de fora do banheiro social. Provavelmente era Minseok andando de um lado para o outro tentando controlar os nervos. Por um momento se sentiu culpado. Não queria deixar seu Umin nervoso, mas ele sabia dês de o primeiro momento que ele lhe negaria seu desejo assim que falasse sobre ele.

— Yeolle-Hyung! – Chanyeol saiu do próprio transe no momento em que ouviu a vozinha infantil do outro lado da porta. – O Minnie disse que você ‘ta comendo tijolo. Porque você ‘ta comendo tijolo?

Engoliu em seco e fechou os olhos sem saber o que fazer. Golpe baixo Minseok, golpe baixo. Acordou Kyungsoo só para amolecer o coração doce do marido.

— O Hyung está com desejo, foi o bebê que pediu sabe. Se eu não comer ele vai nascer com cara de tijolo. – Explicou.

— Minnie! O bebê não pode nascer com cara de tijolo! – Kyung gritou.

— Isso é balela do seu irmão Soo-yah. Diga para ele sair do banheiro.

— Hyung, o Minnie quer que você saia do banheiro!

Chanyeol gemeu de desgosto. Olhou para o tijolo em suas mãos pensando até onde iria por aquele desejo. Sem nem pensar, o colocou de novo na boca gemendo de prazer com o sabor do barro na língua.

 

 

— Por quanto tempo vai continuar com essa cara Hyung? Você está sendo bobo. – Chanyeol estava começando a ficar irritado com a birra de Minseok. Ora, seu dente tinha só lascado a pontinha, não tinha sido nada demais. E agora ele tinha inventado esse negócio de ficar ignorando o marido sem motivo plausível, pelo menos na cabeça de Chanyeol.

Estavam no carro voltando do dentista, já que depois de um tempo o grávido havia sentido dores na gengiva pela manhã – e já sabemos o motivo – sem falar nos dentes da frente meio lascados. Quando médico soube o motivo, riu muito da história que o Minseok contou, esbravejando, do desejo maluco do esposo de comer tijolo. O exame foi rápido e o concerto dos dentes agendado.

Kyungsoo estava no banco de trás, na cadeirinha, dormindo com sua chupetinha e seu ursinho nos braços. Chanyeol não conseguia ficar um segundo sem olhar pelo retrovisor para ter certeza de que o irmãozinho estava bem aconchegado. Os pais dos dois haviam falecido a dois anos, quando Chanyeol ainda estava terminando a faculdade e conhecendo Minseok. Foi desesperador ter que cuidar do irmão pequeno sozinho, sem um emprego fixo e qualquer ajuda da família. Ser homossexual, parece que contava para os familiares de Chanyeol, na hora de mandar ajuda.

Então veio Minseok, com sua grosseria e sorriso safado, assustando o jovem e inocente Chanyeol que fugia do chefe confeiteiro como o diabo foge da cruz. Inicio de relacionamento conturbado, não é verdade? Demorou muito tempo até que ele conseguisse a confiança do rapaz. No dia da formatura do Chanyeol, Minseok apareceu com um buque e uma caixa de cupcakes para o pequeno Kyungsoo que já tinha quatro anos e estava aficionado em doces.

Chanyeol ainda estava receoso, mas aceitou uma dança com o rapaz, e – se não fosse pelo seu pequenino irmão a algumas mesas de distância imerso em glacê – ele teria aceitado o convite de passar a noite no apartamento dele.

 

— Minseok-Hyung, por favooooooor. Deixa de birra!

— Agora eu sou o birrento? Você mente para mim, se machuca por causa de um desejo idiota, acorda o Soo com seus gritos e eu sou o culpado agora? – Esbravejou – Porra, Chanyeol! Você quer me enlouquecer. – Murmurou ainda com os olhos na estrada.

Chanyeol emudeceu e decidiu ficar na sua até chegar em casa. Acariciou a barriga sentindo os chutes impacientes do seu bebê. Quando percebeu, estava soluçando sem conseguir se controlar. Por mais que quisesse parar, as lágrimas não paravam de cair.

— Chany. – Minseok esticou a mão acariciando o joelho do marido – Olha, eu não queria gritar.

— Eu só te dou problema – soluçou – nem sei porque me pediu em casamento. Sua mãe me odeia e sua irmã fica dizendo que eu ‘to gordo. Você só casou comigo porque eu engravidei.

— De onde você tirou isso amor? – Minseok estava começando a ficar nervoso novamente. Ver Chanyeol chorando lhe deixava desesperado, ainda mais quando era por sua causa. – Minha mãe te adora e a Minsok é uma idiota.

— Então porque ela disse que eu ‘to gordo? Eu ouvi ela falando com aquela vizinha toda barangona que eu tinha engordado demais e que você não ia mais me querer.

O confeiteiro rangeu os dentes irritado, ia conversar seriamente com a mãe e a irmã sobre isso. Todos sabiam o quanto Chanyeol era sensível e a gravidez dele complicada. Seu esposo tinha muitos traumas emocionais e medos que acarretaram em uma quase depressão quando descobriu estar gravido. Só de pensar que ele quase fugiu com a cria na barriga e o irmão a tira colo, Minseok sentia um medo irracional de perde-lo por qualquer besteira. Brigar com ele, mesmo que com razão, tinha sido uma atitude precipitada demais.

— Chany, me escute bem ok? – Parou o carro no acostamento e tirou o cinto. Minseok segurou o rosto molhado de lágrimas do esposo e o fitou com seriedade. – Eu amo você e amo sua barriguinha de grávido, você não está gordo e eu não casei com você por causa da gravidez. Eu já tinha programado o pedido antes de descobrir! Você, o Soo e nosso bebê, são a melhor coisa que me aconteceu. Por favor baby, não chore mais um.

Chanyeol soluçou mais um pouco balançando a cabeça dizendo que entendia, mas não era suficiente para Minseok.

No carro, com o transito correndo do lado de fora, os dois criaram sua própria bolha enquanto relembravam o gosto um do outro. Minseok beijou Chanyeol com devoção fazendo com que ele se lembrasse do quanto era amado e acarinhado pelo esposo. Fez ele cessar o choro e deixar para trás os pensamentos ruins que rondavam sua mente.

— Eu te amo Kim Chanyeol, você entende isso?

— Eu entendo amor, eu te amo também. – Ele sorriu finalmente fazendo com que o coração de Minseok se acalmasse.

— Hyung’s, porque a gente está parada aqui? – A vozinha sonolenta de Kyungsoo chamou a atenção dos dois. Chanyeol sorriu e enxugou as lágrimas rapidamente.

— Nada demais amor, já estamos chegando em casa.

— O que acham de passarmos na sorveteria da vovó? – Minseok disse enquanto dava partida no carro novamente.

— Obaaaa, eu quero o de menta Minnie-Hyung. – Minseok sorriu pelo retrovisor para o pequeno observando enquanto ele colocava a chupeta de volta na boca.

— Pode escolher o que quiser bebê, e você amor, já sabe qual sabor quer? – Chanyeol estava encolhido no banco do passageiro xingando o esposo mentalmente. Será que ele era meio surdo ou sorria de mal de Alzheimer para ter esquecido tudo o que ele havia falado sobre a sogra a alguns minutos?

— Eu vou conversar com aminha mãe enquanto você toma seu sorvete favorito com o Kyung ok? – Disse enquanto segurava os dedos de Chanyeol com os seus depositando um beijo carinhoso.

— OK – Resmungou.

— Eu não quero mais te ver tristinho assim amor, você me desculpa por ter gritado?

— Desculpo.

— ...

— ‘Tá bom, desculpa por ter mentido pra você e por ter me machucado. – Resmungou ainda um pouco irritado.

— Ótimo, agora um desculpou o outro. – Minseok suspirou – Eu realmente sinto muito pelas palavras da minha mãe e da minha irmã baby, eu realmente pensei que estava tudo bem entre vocês. – Disse mordiscando o lábio com nervosismo. – Eu devia ter percebido.

— A culpa não é sua amor, eu... talvez devesse maneirar nos doces.

— Nem pensar, você é o único em quem eu confio na hora de decidir as receitas, eu não sou nada sem seu paladar aguçado. No dia em que Kim Chanyeol deixar de comer doces eu mudo de ramo e abro um restaurante de tofu.

Chanyeol riu um pouco mais aliviado por saber que o esposo ainda o amava mesmo com um balão no lugar da barriga.

— Será que a sua mãe tem sorvete de açaí e Hambúrguer? – o desejo veio como um raio nublando a mente de Chanyeol rapidamente assim que avistou a placa do estabelecimento familiar.

— ... acho que deve ter sim.

— Sério? Ela tem sorvete de Hambúrguer?!

Minseok gemeu de frustração tentando se conformar. Parece que até o fim da gravidez teria que conviver com o paladar estranho do marido. Se não pode vencê-los, junte-se a eles.

Nov. 22, 2018, 6:11 p.m. 0 Report Embed 1
The End

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Yume -ni Eu estou atualmente focada na minha produção acadêmica e TCC.

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