(2013) Cinza Follow story

solemn606 SolemnHypnotic 606

Templo de Salomão. Só o nome fazia o coração de Malik apertar. -- Escrita em 2013 mas com algumas alterações porque eu sou neurótica.


Fanfiction Games Not for children under 13.

#angst #death-fic #assassin's-creed #Malik-Al-Sayf #Kadar-Al-Sayf #Altaïr-Ibn-La'Ahad
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Único

Aquele lugar era abafado e lamacento. Ouvia-se goteiras ao longe e passos ecoando no nível abaixo deles. O fogo das tochas que iluminavam o corredor dançava conforme passavam.

Com ele, eram três pessoas devidamente armadas com espadas. Dois soldados e um recém-graduado. Todos usavam capuzes que cobriam seus rostos. Pesavam nas costas do rapaz, e como. Olhou por cima do ombro para seu irmão caçula, de capuz acinzentado, sem saber se o pânico na atmosfera era do mais jovem ou de si mesmo. Era a primeira vez dele em uma missão? Não conseguia lembrar...

— Malik!

Acordou de seu devaneio em um susto. Estava em Jerusalém. As estantes se erguiam atrás de si, sujas de areia e abarrotadas de livros. Baixou os olhos para a mesa, o mapa que passava horas e horas por dia estudando ainda era o mesmo, assim como os pergaminhos rabiscados com uma grafia que até mesmo ele não conseguia entender às vezes.

Suas atenções foram direcionadas para a entrada do bureau. Um homem de capuz branco se escorava no umbral da porta. Ele acenou com a cabeça, abrindo um sorriso que não foi retribuído ao entrar.

— Boa tarde, Altaïr — Malik falou a contragosto.

— Alguma coisa pro dia? — O rapaz perguntou, sentando-se em uma cadeira perto da mesa.

— Nada — Malik voltou a organizar seus bonecos de estratégia sobre o mapa. — A cidade anda pacífica esses dias. Tire a tarde para descansar um pouco.

O assassino observou seu amigo por um longo momento. Aproximou-se dele e pôs a mão em sua testa.

— Estás doente? — perguntou em um tom de voz preocupado.

— Não! — Largou a peça em mão e bateu na de Altaïr. — Estou em ótima condição física!

— Você me mandou tirar o dia de folga. Isso não é típico de você, Malik.

Estou bem — insistiu. — Agradeço sua falsa preocupação, novato. Mas estou em plena forma. — Altaïr cruzou os braços, observando o amigo voltar-se para sua estante, provavelmente em busca de um livro. — A cidade apenas não precisa ser salva. Estamos em tempos de paz, meu caro. E espero que continue dessa forma por um tempo, assim não preciso aturar as imbecilidades que você faz.

— É, você está saudável — O assassino sorriu com o canto dos lábios.

— Arrume algo para fazer, seu desocupado! — Malik retrucou, observando-o por cima do ombro.

Ele ouviu o suspiro que Altaïr deu antes de deixar o bureau. Voltou suas atenções à estante, retirando um livro já amarelado pelo tempo e com a capa desgastada. Não conseguiu firmá-lo e acabou por deixá-lo cair. Resmungou uma maldição para si e dobrou os joelhos para apanhar o objeto, jogando-o de qualquer jeito sobre a mesa.

Era frustrante como o simples derrubar de um objeto o recordava daquela noite.

— O senhor Altaïr é incrível, não é, irmão?

Kadar estava no auge de seus vinte anos e já vestia o manto cinza. Mais alguns anos — ou até mesmo meses — de treinamento e estaria fazendo missões junto da elite de assassinos.

Malik apenas não aprovava quem o rapaz escolhera para se espelhar.

— Ele é bom — limitou-se a dizer.

— Ah, vamos! Ele é um ótimo assassino.

O mais velho franziu o cenho. Não soube dizer exatamente, porém aquela conversa estava começando a incomodá-lo. Kadar apenas riu. Debruçou-se sobre a cerca baixa de madeira e encarou o centro do pátio do castelo, onde Altaïr treinava combate contra outros três assassinos novatos.

— Eu queria ser como ele — falou com orgulho.

— Não, Kadar — Resmungou Malik. Esperou que seu irmão não tivesse escutado, mas a indagação seguiu.

— Ora, por quê?

Fez-se silêncio, apenas quebrado pelo tilintar das lâminas encontrando-se durante a batalha amistosa. O rapaz mais jovem decidiu parar a conversa por ali. Seu irmão realmente parecia irritado e não queria que brigassem, visto a maneira como desviou o olhar para a muralha que os cercava.

Na verdade, nem mesmo Malik entendia sua antipatia por aquele companheiro. Era apenas o mais puro desgostar, sem motivo. Achava-o arrogante, cheio de si e prepotente. As poucas vezes que precisara interagir com ele foram detestáveis e, por alguma razão, o rapaz imaginava que Altaïr trazia consigo um mau agouro próprio, como se a qualquer instante o Credo se corrompesse por sua culpa. Realmente não fazia a mínima ideia por quê criara tal imagem, era uma daquelas intuições estranhas que apenas surgiam. O problema era a contradição de seus valores: se Altaïr nascera e crescera em Masyaf, assim como Malik e Kadar, qual era o motivo para tamanha desconfiança? E por que a possibilidade de Kadar inspirar-se nele incomodava tanto?

Talvez tivesse medo de seu irmão fracassar em seu caminho. Kadar sempre fora tão emotivo, afinal.

— Vá falar com seu irmão, Malik — Uma das moças assassinas o aconselhou no ano seguinte. — Ele subiu na torre nordeste e não parece que vai descer.

O rapaz correu como uma bala em direção ao local mencionado. Escalou as paredes e ouviu lamentos infantis vindos do canto escuro da sala.

— Kadar?

— Vá embora.

Deixou uma risada escapar. Subiu e apoiou-se no parapeito da janela.

— O que aconteceu? — perguntou com uma voz terna.

— Eu... — O rapaz chorava copiosamente, o punho cerrado contra seu olho esquerdo, como se aquilo impedisse as lágrimas de rolarem. — Eu falhei. — respondeu em tom de confissão ao baixar o rosto. — Eu não passei no teste, não consegui cumprir a prova... Não consegui o manto branco.

“Uma criança adulta” Malik pensou ao abrir um terno sorriso. Agachou-se diante dele e mexeu em seus cabelos.

— Desculpe, irmão — Kadar murmurou sem fitá-lo.

— Desculpar pelo quê? Acontece. Tente de novo, oras.

— Mas... E se eu falhar de novo?

— Aí você deve tentar mais uma vez — O mais velho falou calmamente. — Eu estava em missão, infelizmente perdi seu teste. Mas tenho certeza que o único motivo para isso foi o nervosismo. Estou certo?

Seu irmão consentiu e o coração de Malik encheu-se de amor. Parecia que aquele jovem havia rejuvenescido instantaneamente e ali estava seu “eu” de oito anos de idade.

Uma criança chorona e assustada. Pois era isso que ele era no fundo. Inseguro.

— Você será um grande assassino, Kadar. Não duvide disso. — afirmou, curvando-se um pouco para poder olhar seu rosto. — Será Al Mualim como nosso pai, está em seu sangue. Agora que tal limpar essas lágrimas e vir comigo falar com seu antecessor, hum?

Ele manteve-se em silêncio. Seu rosto contraiu-se em uma expressão de dor e Malik não entendeu o motivo de imediato. Apenas o abraçou em consolo, batendo em suas costas, ouvindo os soluços de seu irmão.

Talvez sentisse-se pressionado?

Sim. Era a pressão de ter um pai mestre e um irmão assassino. Mais tarde, Kadar confessaria a seu irmão que tinha medo de ser a decepção da família. Talvez fosse por isso que adotara Altaïr como seu modelo: era então o melhor assassino do Credo, talvez espelhar-se nele desse algum resultado e, mesmo que não acontecesse, mantinha-o focado. Era uma admiração tola e Malik aprendeu a lidar com ela com o tempo.

A Organização, por sua vez, não parecia aprovar a possibilidade do rapaz tornar-se um assassino plenamente. O manto branco, por muitos anos, manteve-se como apenas um distante sonho e isto preocupou o mais velho, que ficou com medo da reação de Kadar caso não conseguisse cumprir sua meta. Ficou surpreendido ao notar que isto não o afetava em nada, mas sim o impulsionava a continuar praticando suas habilidades. Al Mualim, então, decidiu dar uma chance a ele. Até aquele momento, em Jerusalém, anos depois, conseguia lembrar-se com perfeição da alegria de Kadar ao receber do próprio mestre o pedido para acompanhar Malik e Altaïr em uma missão. Não parou de tagarelar por semanas até o dia da viagem.

Templo de Salomão.

Só o nome fazia o coração de Malik apertar. 

Ele ainda vestia o cinza e tudo aconteceu muito depressa. Estavam cercados por cinco templários e o irmão mais velho tinha a absoluta certeza de que as coisas não ficariam bem. O então líder da missão, homem em quem fora confiada sua vida e de seu caçula, Altaïr, focara apenas em alcançar o alvo, Robert De Sable, deixando seus companheiros para trás, à própria sorte.

Quando Malik deu por si, Kadar estava no chão.

Gritou. Mais alto do que deveria.

Não conseguia lembrar-se direito do que havia acontecido, de fato. Apenas de ter se esforçado muito para amparar Kadar — “Ele está vivo!” sua mente berrava apesar da incerteza — enquanto fugia. Não lembrava se havia matado os templários ou defendido os golpes até encontrar uma brecha para fugir, apenas lembrava da adrenalina ao correr com o irmão nos ombros.

— Kadar? — chamou entre os arfares de dor. — Kadar, me responda.

Silêncio.

Os joelhos encontraram o chão de pedra.

Malik não soube por quanto tempo ficou parado.

Seu braço não movia. E seu irmão também não.

— Olha o que eu achei!

Assustou-se mais uma vez com a intromissão de Altaïr, fazendo-o voltar ao presente. Deixou cair algumas coisas que estavam na mesa e, frustrado, baixou-se para pegá-las.

— Droga, novato. Pare com isso!

— Eu sei, desculpe. Mas olha.

— O quê?

Quando ergueu seu corpo, seu coração parou por um instante.

— Achei no meio das suas coisas lá no depósito do bureau — O assassino trajava um manto cinza, não mais seu tradicional branco. Parecia alegre com sua descoberta, olhando as mangas escuras como uma criança que ganha um brinquedo novo.— Você me chama tanto de novato que acho que seria melhor eu começar a usar as roupas de um, não concorda? Fiquei foi admirado que uma roupa sua fosse caber em mim. Sempre me achei maior que você e...

Malik ouviu o discurso em silêncio. Sentiu um nó na garganta, uma mistura de raiva e luto, mas não deixou transparecer em seu rosto.

— Tire esse manto — falou com rispidez.

Altaïr assustou-se com a reação de seu amigo.

— Tire-o — o mestre do bureau repetiu.

— Mas...

— São as roupas do Kadar.

Altaïr sentiu o sangue gelar. Observou seu amigo por um longo momento, aflito. Ficou desnorteado e logo o obedeceu, lançando a peça de roupa ao chão e indo embora.

— Perdão — Foi tudo o que conseguiu dizer.

Malik não respondeu. Sequer reagiu. Aguardou estar sozinho e só então deixou-se levar pela saudade. Que as lágrimas afastassem aquelas lembranças e as trancassem mais uma vez no fundo de seu coração.

Nov. 21, 2018, 12:54 p.m. 2 Report Embed 3
The End

Meet the author

SolemnHypnotic 606 Eterna graduanda de Jornalismo, apaixonada por videogames, desenhista nas horas vagas, mãe de três gatos, suporte chato de Smite que te reporta no primeiro VVA. #YouShallObey // Não escrevo mais com tanta frequência quanto gostaria, porém queria muito retomar com o hábito. Vai que um novo lugar me anima?

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Zen Jacob Zen Jacob
AAAAAAA Que história boa, cara!!! Assassin's Creed é uma daquelas franquias que me faz profundamente frustrado: uma história boa inserida num jogo cuja mecânica me irrita pra caralho, fazendo com que eu não consiga jogar durante 10 minutos sem passar ódio. Tentei ler as novelizações do Oliver Bowden pra poder suprir o meu desejo de consumir AC, mas o estilo dele realmente não me desce. A sua história conseguiu fazer o que um novelista pago pela Ubisoft não conseguiu: eu me importei. Nem sabia quem eram Malik e Kadar, fui atraído pela temática ser AC1, já que o cenário e o próprio Altair é um dos assassinos mais apletivos da série pra mim. Não me arrependi de ter lido até o final; por menor que seja, você conseguiu dar um começo, meio e fim muito bem estruturados pra história. A personalidade de todos foi transmitida com clareza, sem perder o ritmo na história, e você sente o sofrimento do Malik e como ele pensa que fracassou enquanto irmão mais velho. As suas descrições são ótimas e dá até pra se sentir sufocado com a poeira do Templo de Salomão ou ouvir o som do Altair tirando as vestes do Kadar. Você ter focado no sentimento de angústia do Malik foi uma surpresa pra mim; acho que ficamos tão acostumados com histórias de angst que envolvem algum tipo de romance que encontrar uma que só tem a secura do sentimento acaba nos deixando sem reação. O único problema que achei na história foi ela ter acabado, sinceramente. Eu pensei em falar que gostaria de ver outros trabalhos seus envolvendo Assassin's Creed, porque o seu tratamento para o texto ficou muito bom, de verdade, mas parando pra pensar melhor, pelo cuidado que você teve aqui, quaisquer cenários históricos caíriam bem nas suas mãos. Li que você está passando por um período mais difícil com relação a escrita, espero que fique melhor. É complicado mesmo ser escritor num país que não valoriza a profissão (e ainda por cima juntando os problemas da vida adulta, fica um porre), mas você tem muito potencial mesmo pra ser uma ótima escritora, ok? =) Bom, isso é só a minha singela opinião, que não vale muita coisa, mas pra mim você já entendeu os sentimentos dos personagens melhor do que o Bowden, que é pago pra fazer isso, então, né... Não desista, por favor!
Nov. 22, 2018, 6:01 p.m.

  • SolemnHypnotic 606 SolemnHypnotic 606
    AAAAAAA Obrigadaaaa! <3 Nossa, não tenho nem reação pra esse comentário, sério. Mas vamos lá. Eu acompanhei AC desde o primeiro jogo, logo quando lançou, e larguei (sem dó nem piedade) no Black Flag, então não posso dizer que tenho essa frustração porque na época ele foi bem revolucionário pela questão do mundo aberto e tal, e eu acabei criando amor pela série. Mas principalmente pelo Altaïr. Eu não posso falar muito quanto o livro porque eu só li algumas páginas do Renascença e meu primo me roubou uahauhau, mas se você não conheceu o Malik, você perdeu muita coisa. Malik é o meu personagem favorito do primeiro jogo, do lado do Altaïr. Ele é aquele personagem que você adora só pelas respostas desbocadas que ele dá pro protagonista. E essa cena do Templo de Salomão é tão rápida que chega a ser triste que quase ninguém se dá conta do que houve. Eu mesma, só fui me tocar quando eu revisitei o jogo anos depois. E foi assim que veio a ideia da história, sofrendo pelo meu menino Malik, que debochava de mim toda vez que eu entrava no bureau de Jerusalém pra pegar missão :( Aliás, que raiva que deu agora, não falarem dele no livro. How dare you, Ubisoft. É engraçado você comentar isso sobre histórias de época porque eu lembro que eu fiquei sofrendo pra escrever essa história por isso. UHAUAHUAH Eu virei madrugada lendo a Wikia porque eu não sei, até hoje, escrever ficção histórica. Sei lá, não me sinto confortável, e ler isso me animou demais! Pra falar a verdade, eu tinha até um projeto de original de Assassin's Creed... Mas enfim, estou divagando. Muito obrigada pelas palavras, elas vieram em ótima hora. E fico super feliz que tenha gostado! <3 November 23, 2018. 01:29AM
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