What a Catch, Donnie! Follow story

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Meu nome de mentira é Donnie, e resido em algum lugar entre a imaginação e o delírio - ou, mais especificamente, no quarto de número 1446 da pensão de Miss Flack. Sou de 85, e se você já se sente satisfeito, saiba que está lendo o verso do meu Caderno de Conquistas.


Thriller/Mistery Not for children under 13.

#80s #90s #fall-out-boy #what-a-catch-donnie #00s
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Prólogo: O Velho Caderno de Conquistas do Tio Bill

Sempre, no primeiro domingo de cada ano, tínhamos uma reunião familiar. Minha mãe esperava pacientemente por esse dia, e sempre que chegava, tornava-se radiante como o sol. Se estivesse no lugar dela, inventaria desculpas todas as vezes para poder me livrar do trabalho exacerbado na cozinha e do péssimo gosto de Tia Ellen para música.

Todos os anos, no primeiro domingo, eu me via preso num círculo parental deformado, no qual se podiam ver adúlteros, fumantes, agiotas e assassinos com facilidade. O sangue dos Simkins, muito provavelmente, deve carregar algum tipo de gene amaldiçoado. No inverno de 98, três anos antes do acidente, meu primo Steven capturara um gato, depois o degolara, amarrara suas patas com uma corda e colocara o defunto peso a uma árvore seca, nos fundos do quintal de sua mãe, durante a reunião daquele ano.  O gato morto pingava sangue e ele encarava, atento à cada gota que descia. Eu estive lá, assisti à tudo com pacatez, afinal, nada que fizesse mudaria o decorrer dos fatos.

Depois do ato, fomos almoçar. Pensei muito sobre o que acontecera, então escrevi numa página do meu caderno velho e desgastado. Nunca vi Steven chorar, ao menos expressar qualquer coisa com o rosto. Sempre tinha o mesmo olhar, as mesmas feições — ao menos parecia envelhecer. Era sempre o mesmo, e a cada ano, aumentava o número de vítimas.

Na reunião de 99, Steven caçou três gatos. Dois de uma vez só, e um à parte. Naquele ano, também estive lá, mas não o vi matar o terceiro animal. Fora ele mesmo quem me segredou, uma noite, algum tempo depois, no mesmo dia em que me dissera que gostava daquilo.  Gostava mais do que o Tio Jose gostava de prostitutas, foi assim que me contou.

Escrevi de novo no meu caderno. Comprei um maço de papel A4 no outro dia, colei várias folhas uma a outra: primeiro, organizadamente. Depois, de maneira anárquica e caótica, apenas para que combinasse com o restante da decoração invisível do meu quarto. Empilhei as latas de tinta colorida do papai no quintal de casa, de tardezinha, quando o sol era fraco. Estendi o grande papel sobre a grama e chamei meu irmão maior.

— O que planeja fazer com isso? — Perguntara Danny, com as mãos na cintura.

— Ainda não decidi — dera de ombros. — Mas você só precisa me ajudar a encontrar um bom jeito de jogar essa tinta em cima desse papel, de um jeito que fique bonito e que não estrague todo o meu trabalho.

— Deveria ter chamado o pai.

De qualquer maneira, ele me ajudara naquele dia. Usamos pincéis velhos que achamos na garagem, e um copo de plástico que surrupiamos da cozinha. Pintamos aquela coisa toda com laranja, verde, azul e vermelho, deixando a grama e as nossas roupas coloridas também. Tiramos as blusas e jogamos no lixo, junto com o copo de plástico.

Deixara a grande folha secando no canto da garagem a noite toda, mas quando a chequei, naquela manhã veranil de 1999, ainda estava parcialmente líquida. Até hoje se pode ver a marca da minha mão entre uma mancha de tinta azul e uma mancha de tinta vermelha.

Demorei um ano até que encontrasse uma finalidade para tal obra. Apenas no milênio seguinte, no ano de 2000, é que fui me decidir. Depois de cortar uma parte da grande folha, cuja tinta eu já tinha a certeza de que secara, colei na mais vazia parede do meu quarto, sobre uma imensa placa de metal que meu pai havia grudado lá dois meses antes, a meu pedido. Arranquei algumas folhas do mesmo caderno velho e amassado no qual escrevera o primeiro assassinato de Steven do qual tive notícia e preguei na minha mais nova aquisição com um imã em formato de melancia que tirara da geladeira.

Ornei com o pisca-pisca que tirei da caixa de enfeites de natal, mas a decoração luminosa fora retirada da minha obra alguns meses depois, para servir bravamente no dia 25 de dezembro de 2000, quando tive que presenciar um Papai Noel falso e bêbado que não trazia presente nenhum aos seus dois filhos adolescentes.

Em setembro, Danny trouxera a primeira namorada para que papai e mamãe conhecessem. Ela tinha um belo rosto, um belo corpo, mas não parecia algo especial. De fato, era raro encontrar pessoas que fossem “algo especial” — a maioria era comum demais, ou vazia demais. Miss Flack diz que não posso julgar pessoas pela primeira impressão que tenho delas, que preciso conhecer cada indivíduo para, só então, caracterizá-lo. A verdade é que nunca tive a paciência de fazê-lo, e que nunca terei. Nem em vida, nem após a morte.

Todas as noites, ia para o quarto e escrevia alguma coisa. Às vezes, escrevia para pessoas, e às vezes, escrevia pessoas. Em geral, enviava bilhetes a Steven, com quem nunca perdera contato totalmente: escrevia e botava dentro de seu armário do colégio. As respostas vinham do mesmo modo. Gostava de jogar com ele, porque não era comum. Era um incomum peculiar e suspeito, de fato, mas era o que mais me trazia a inspiração e a necessidade de escrever à tona.

No primeiro dia de 2001, vi uma mensagem que Steven havia me deixado ainda no ano anterior: um papelzinho inocente jogado no fundo da minha mochila. “Uma mulher”, era só o que dizia, em forma de garranchos desordenados. Eu tinha dezesseis anos, e ele, dezessete — quase dezoito. Era mesmo um homem feito, alto e forte, assim como seu pai, meu Tio Bill. Eu era uma criança ainda, com meu corpo magricela e minha mente pequenina.

Demorei para compreender o que Steven tinha me contado mediante aquelas palavras. Uma mulher. Não, ele não havia arranjado uma namorada. Pelo contrário: havia se desfeito da que tinha, da maneira mais cruel e calculista possível. Quando ele foi preso, me tranquei em meu quarto. O grande mural colorido já estava cheio de papéis, anotações e fotos, mas naquela noite, o entupi ainda mais. Desenhei, fui poeta, dramaturgo e até cantor no dia 15 de janeiro de 2001. Também chorei por ele. Sendo bom ou sendo mal, fora meu primeiro amigo de verdade.

A reunião daquele ano, no dia 7, tinha sido um fracasso, de qualquer maneira. Steven se ausentara, e eu tive que ficar olhando para a cara do restante da família, inerte, com a bunda sentada no sofá da casa da Tia Sophie. Ele não tinha ido: como consequência, fiquei o dia todo em ócio profundo e, pela tarde, não escrevi mais nada.

À noite, antes que eu fosse embora para a minha própria casa, Tio Bill me chamou para um canto. Pensei que tivesse algum recado do filho, algum bilhete, uma notícia sequer. Naquela época, Steven era a única pessoa capaz de me ouvir por mais de três minutos sem dormir, mesmo que não me entendesse totalmente e que não mostrasse afeição alguma — logo, era o único ser com quem eu procurava me preocupar, nem que fosse um pouquinho.

Tio Bill não trouxera nenhuma notícia de Steven, mas me dera um caderninho velho e amassado, cujas páginas rabiscadas já tinham ficado amareladas. À princípio, balancei a cabeça numa negativa categórica, disse que já tinha meu próprio caderno velho e malcuidado. Tio Bill riu e insistiu para que eu ficasse com ele.

— Leve, é meu caderno de conquistas. Quero que fique com você, acho que fará bom uso disso. Se quiser, pode até fazer o seu próprio.

E foi assim que tive a ideia de escrever este livro.

Nov. 18, 2018, 9:54 p.m. 2 Report Embed 0
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Yasmin Zer Yasmin Zer
Não sei o que mais me prendeu apenas lendo o prólogo... A gramática, a história, como ela é contada ou tudo!
Nov. 24, 2018, 10:10 a.m.

  • abbey :p abbey :p
    fico extremamente feliz com o seu comentário! muito obrigada <3 Dec. 21, 2018, 3:23 p.m.
~

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