Resgatem o TITANIC! Follow story

laylasan LaylaSan

[ItaSasu] [Universo Alternativo] ~ [Prólogo + 46 Capítulos + Epílogo/Prólogo + 46 Capítulos + Epílogo] [Fanfic baseada no livro de Clive Cussler: RESGATEM O TITANIC!] Quando um dos cientistas mais renomados dos Estados Unidos, Uchiha Itachi, a serviço do próprio presidente descobre, em meio a estudos detalhados, sobre a existência de um raro e desconhecido material sem denominação específica, e sua capacidade incrível de resistir a mísseis aéreos e submarinos a partir da criação de barreiras adjacentes à atmosfera, o governo se vê numa corrida do ouro atrás deste incrível e recém-descoberto minério. Entretanto, com sua existência sendo de conhecimento de apenas um bocado de pessoas do século passado, os cientistas se vêem sem saída sobre como localizar uma quantidade significativa de tal material, até que em meio a pesquisas dentro de sua própria família, Itachi e seu tio e Chefe de Operações Navais da Marinha, o Almirante de Guerra Uchiha Madara, descobrem um diário antigo, datado de aproximadamente 1912 e escrito por um de seus antepassados, Uchiha Izuna. Com as informações deixadas pelo homem eles se deparam com a mais inusitada e incrível revelação. A única forma de encontrar tal minério seria no coração de um antigo navio, afundado em 15 de abril do ano de 1912 e que levou consigo ao menos 1.500 vidas.


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00 – Prólogo

Abril

1912

 

O homem despertou de supetão, após algumas poucas horas de um sono falho e cheio de interrupções, não por conta da presença de outros homens na cabine estreita, mas sim por sua própria consciência, que o impedia de descansar adequadamente. Em verdade, o pequeno espaço onde residia temporariamente estava confortavelmente silencioso, mas o silêncio, naquele momento, poderia deixa-lo louco.

 

Então ele abriu os olhos e deu de cara com a parede esbranquiçada. Por um costume adquirido recentemente, sua mão tateou até a pequena sacola de pano velha e desgastada a qual abraçava fielmente, como se o fizesse com um velho amigo que retornara de uma viagem importante ou aquele parente que retornara da guerra. Seu terno amarrotado a cobria e ele próprio se encolhia ao redor da embalagem, visando protegê-la.

 

Apenas quando sentia o toque rústico do tecido sobre seus dedos ele se sentia mais calmo, ao menos o suficiente para que não sentisse o coração retumbando em seu peito, ou mesmo o tremular de seus dedos. Seu estado de alerta nunca o deixava, no entanto, e isso refletia em sua expressão. A quem o olhasse, num primeiro momento poderia sentir repúdio de sua feição desgrenhada.

 

A barba há muito não era feita, os olhos fundos eram marcados por olheiras bem profundas, dando uma primeira impressão de que ele poderia ter participado de alguma briga em um bar barato dias antes. O cabelo desgrenhado acusava a falta de higiene e de cuidados, há dias negligenciada por motivos maiores.

 

Em outro momento ele mesmo sentiria repúdio de si próprio, mas não naquele. Seu principal foco era acariciar o tecido sujo e rudimentar, até que seus dedos parassem de tremer e uma rápida sensação de segurança o tomasse. Esta se esvaía no instante seguinte, quando sua mente traiçoeira o colocava em alerta uma segunda vez.

 

Há incontáveis semanas ele se encontrava na mesma situação, o que justificava sua reação hostil a tudo que se aproximasse de surpresa. Se forçasse a audição e se concentrasse naquela atividade, conseguiria ouvir o maquinário responsável por fazê-lo se mover, sendo esta a única certeza que tinha de não estar em terra firme.


Se assim fosse, jamais estaria em tal situação vergonhosa. Seus músculos ardiam pela posição mantida há dias e o estômago se contorcia dolorido pela falta de alimento. Ele não tomava mais do que algumas poucas quantidades de água e vez ou outra se munia de algum pedaço de pão velho que um estranho em sua cabine lhe trazia, talvez compadecido com sua situação.

 

O ambiente ao redor era de tranquilidade e esperança. Muitos ali emigravam para o novo continente, outros apenas retornavam depois de férias para sua rotina pontuada no país em ascensão. Ele, no entanto, parecia estar noutra realidade, vivendo algo incapaz de compartilhar com quem quer que fosse, longe daqueles em quem poderia ter alguma confiança. Seu objetivo maior era chegar em casa e então tudo estaria terminado.

 

Seu destino, no entanto, estava longe de suas pretensões. Ele ainda amaciava a sacola com os dedos calejados quando sentiu seu corpo sacolejar bruscamente. Sua primeira reação fora abraçar com força a embalagem em seus dedos, para, em seguida, sentar-se na cama.

 

A cabine contava com quatro delas, em formato beliche. Ele se encontrava numa de baixo, e resmungou de dor quando mudou de posição. Há pelo menos dez horas não se movimentava, como se então pudesse ser assim, de alguma forma, reconhecido. Por conta disso, seus músculos estavam doloridos, e seus nervos repuxaram com força, devolvendo a dor em seguida.

 

Cada minuto transcorrido o fazia se sentir infinitamente mais cansado. Os estranhos a seu redor se remexeram em seus colchões, porém, não fizeram mais do que isso, e ele não dedicou atenção maior ao exterior. A parede oposta à entrada da cabine tinha um mictório preso a ela, junto de uma pequena cúpula de porcelana branca. Acima, um simples e retangular espelho.

 

Ele passou a mão pelo rosto, um tanto espantado com sua própria situação, porém, não mais preocupado. Seu semblante o fazia passar por um homem de pelo menos quarenta anos, quando ele ainda estava na casa dos vinte e nove. Alguns anos antes e estaria na plenitude da juventude, agora não passava de um moribundo espantado, velho e desgrenhado.

 

Suas articulações ardiam e ele sentia pelo menos três vezes mais velho do que indicava sua data de nascimento, mas, novamente, não se ateve a isso. Ele tomou a sacola em mãos e saiu do quarto sem olhar para trás, encontrando alguns outros homens pelo caminho, que se postavam nas soleiras das portas murmurando coisas que ele não deu atenção.

 

Passou pelo corredor extenso e subiu as escadas, atravessando o convés G até alcançar o D, três níveis acima. Ao atingir a recepção da primeira classe, encontrou-se com um dos funcionários, o qual não se importou em esconder tamanho descontentamento por ver qualquer homem sem categoria trajando um terno visivelmente maior para o tamanho do que o vestia; amarrotado, e com tamanha deselegância na face, bem como caminhando pelo espaço dedicado aos da alta sociedade.

 

Em outro momento ele riria de si mesmo ou faria alguma espécie de piada bem-humorada sobre sua situação tentando manter o otimismo sobre os dias que vinham e poderiam trazer ventos de mudança onde ele talvez pudesse se tornar o cavalheiro que lhe encarava com repúdio no exato momento. Ele não podia permanecer ali e sabia bem disso, as placas indicativas nas portas dos conveses eram claras quanto a essas regras, e os funcionários e outras damas e cavalheiros eram bem indiscretos quanto a seu descontentamento diante de pessoas mais humildes.


Ele era uma pessoa que costumava passar longe daquelas que se incomodavam claramente com sua presença, mas aquela noite estava além de suas atitudes normais. E sem que a repulsa daquele estranho pudesse lhe trazer algum sentimento desnecessário, ele subiu mais alguns lances de escada até atingir o convés A, de onde conseguiria acesso para o dos botes, no exterior. Os aristocratas que passavam por si não lhe dignavam o olhar, ocupados demais com sua riqueza particular.

 

- O senhor não deveria sair vestido de tal maneira, está um frio congelante esta noite.

 

Há dias ele não recebia tamanha atenção tão diretamente. Antes que pudesse se colocar para fora do convés, virou-se e se encontrou com um tripulante.

 

- Não deve ser nada insuportável.

 

A voz rouca saiu falha num primeiro momento, mas ele se fez ouvir. O rapaz a sua frente era um tanto mais baixo que si, ainda na flor da idade, provavelmente com seus vinte e quatro, vinte e cinco anos, um tanto menos do que ele. Diante de tal juventude ele se sentia ainda mais velho e cansado, sendo que sua constatação bem pontuada o colocava novamente na rota de sua cansativa jornada.


Ele deu as costas ao rapaz, mas ao colocar-se para fora se sentiu abraçado por milhares de espinhos de gelo que se grudaram em seu rosto e fincaram sobre as partes expostas de sua pele, bem como no terno amarfanhado e na sacola suja. Ele sentiu muita dificuldade para respirar num primeiro momento por conta de tamanho frio, mas logo após duas ou três passadas em direção ao gradil o fizeram ignorar em potencial as agulhas geladas que se alojaram sobre sua pele.

 

A noite era gélida como um dia de inverno intenso onde fazia pelo menos -2°, calma e escura, sem nuvens ou lua, ou mesmo estrelas. Parada como um velho relógio que parara de funcionar e então estatuara sem capacidade de continuar se movendo. Com um estender sobre o gradil ele conseguia ver o casco da proa cortando o oceano ao meio e avançando em meio à imensidão aquosa e gélida. Em poucas horas poderia estar vendo a estátua da liberdade e então alcançando sua própria alforria.

 

- O senhor deveria voltar para dentro, aqui está congelando.

 

Ele novamente se encontrou com o rapazote de antes. Em seu profundo momento de reflexão, e dando uma atenção maior ao servente, pode notar a preocupação tênue nos olhos cerúleos de alguém que ainda não conhecia os temores da vida e aproveitava dos ares calmos da existência. Diante disso, a constatação fora óbvia.

 

- Os motores pararam. Por quê?

- Ordens maiores, meu senhor. Sinto muito se isso o acordou. – Ele curvou-se numa vênia suave.

- Não é sua culpa. – Ele retirou um maço de cigarros velhos do bolso e o acendeu. – Ordem maior, não é mesmo?

 

O rapazote não teve tempo de responder. Observando os orbes de coloração oposta à sua, o outro reparou na curva acentuada do temor que se apossou das esferas azuladas quando um barulho ensurdecedor se fez ouvir. Ele se apoiou no gradil e então segurou o garoto com uma das mãos, usando de uma força que não se lembrava de possuir.

 

A sacola presa fortemente abaixo de sua axila sacolejou com força e ele sentiu o músculo esticar excessivamente com o puxão repentino do braço para agarrar o receptáculo. Podia perder aquele membro, mas não àquilo. O rapaz se levantou rapidamente e então o ajudou a se colocar ereto. O braço ardeu na altura do cotovelo, mas ele não ligou, seu olhar caiu para a grande escultura abstrata de gelo que surgiu diante de seus olhos conforme um barulho de rasgo se fez ouvir. O iceberg se chocou com o lado estibordo do navio, jogando pedaços de gelo no convés, próximos ao homem inerte e o garoto assustado.

 

- Nós vamos afundar.

 

Ele ouviu o garoto engolir seco. Aquele era seu temor então.

 

- O senhor deveria entrar, por favor. Nós vamos começar a cuidar para que os botes sejam preparados.

- A mim tanto faz, garoto. Foi por isso que paramos.

 

O movimento do navio pelo oceano era a única certeza que possuía de estar caminhando para algum lugar, mas diante da emergência ele sabia que sua pouca e certa paz tinham desaparecido. O rapazote a seu lado continuava o encarando de maneira curiosa, mas ele não se preocupou em lhe dar qualquer explicação ou mesmo exigir alguma resposta de sua presença.


Talvez fosse a calma, ele não tinha como saber. No entanto, aquela nova realidade exigia uma resposta efetiva maior. O braço direito já não se movia com tanta maestria por conta da dor na junção com o antebraço e ele precisava fazer alguma coisa com a sacola em suas mãos.

 

- Me diga garoto, qual seu nome?

- Alexander, senhor. Alexander Evans.

 

Ele o examinou. Naquele momento seu frio tinha sido substituído por uma adrenalina gigantesca que se apossara de seus nervos e talvez aquela presença intrusa pudesse ser de maior ajuda do que poderia ter pensado. Depois de tantos meses aquela seria uma decisão difícil, mas ele não tinha mais tempo ou vitalidade para ser cordial com aqueles que lhe tiraram tudo.

 

- Mr. Alexander. Preciso que me leve ao compartimento de carga.

 

Os olhos quase lhe saltaram da cavidade.

 

- O senhor pode morrer! Não faça isso.

- Viver é um caminho para a morte. O de algumas pessoas pode ser mais curto apenas.

 

O outro engoliu seco uma segunda vez e sua garganta ardeu. Ele deu um passo incerto para trás, mas quando a mão decente acomodou a alça da sacola sobre um dos ombros e então ele puxou a arma um tanto para fora do terno, causando assombro no outro, o garoto tremeu.

 

- Eu não estou pedindo. Dê mais um passo e será o último de toda sua existência.

- Há essa hora o convés de carga deve estar tomado pela água. Podemos não conseguir chegar até lá.

- Mas só vamos descobrir descendo pelos conveses. Preciso alcançar algum lugar que não vá entrar em contato com a água de nenhuma forma.

 

O garoto sentiu como se sua existência estivesse sendo abandonada de seu corpo e então julgou o outro como completamente louco. O estranho homem o encarou com impaciência e então ele se virou de costas e seguiu, caminhando incertamente em direção a um futuro sombrio, de onde poderia não existir algum tipo de escapatória.

 

Eles seguiram toda a extensão do convés dos botes, passando por passageiros, em sua maioria da primeira classe, abraçados em seus caros casacos de pele tentando entender o que poderia ter resultado na interrupção de seu descanso delicado. Passando por estes, o jovem Alexander ainda teve tempo de ver, antes de sumir para dentro do transatlântico, os oito músicos da orquestra.

 

Eles pararam diante do convés que fora se enchendo de tripulantes liberando botes e passageiros da primeira classe - em sua grande maioria -, e seguindo os comandos de seu líder, o violinista Wallace Hartley, eles se puseram a tocar. Melodias famosas da época, acalmando e atraindo a atenção do público o qual tinha maior contato com tal classe de música.

 

Alexander se colocou para dentro do navio ainda com a melodia retumbando sobre seus ouvidos. Eles seguiram pelo convés A, agora amarrotado de pessoas, tentando vencer a força que se impunha sobre eles daqueles que vinham das entranhas do navio para a escuridão gélida da noite. Alexander alcançou a grande escadaria da primeira classe, de onde uma cúpula de vidro ricamente detalhada se erguia acima dos degraus de madeira polida da grande escadaria, garantindo iluminação natural para o local.

 

Um relógio grudado á parede e cercado por dois anjos parou de funcionar no momento em que marcou 23h40min. Alexander e seu acompanhante alucinado ainda não sabiam, mas aquele fora o instante em que o iceberg se chocou como uma fera indomada sobre o casco de aço do navio.

 

Eles continuaram descendo os lances e mais lances de escadas até atingirem o convés G novamente. O homem olhou por cima dos ombros de Alexander, que parara subitamente ao ver a água subindo e envolvendo os degraus como um animal faminto. Ele olhou pelo canto dos olhos até encontrar a face marcada do lunático atrás de si.

 

- Continue.

 

Assim que suas pernas tocaram a água, eles as sentiram dormentes. As temperaturas beiravam os dois graus negativos dificultando a locomoção por entre os escombros. A louçaria de porcelana caríssima tinha se desprendido de suas prateleiras da mais pura e polida madeira e agora não eram mais do que um simples montante branco que logo seria tragado pela água gelada e indigna do valor que lhe fora atribuída quando bem acomodada sobre a estrutura de madeira.

 

Alexander sentiu dificuldade em respirar por conta do frio, mas cada vez que sentia a arma em sua coluna tinha a certeza de que deveria continuar. Não havia qualquer chance de se utilizar algum dos elevadores, o sistema da cabina deixara de funcionar, e por isso eles desceram um último lance de escadas e então chegaram até um dos conveses inferiores, de onde ficavam as cargas e os depósitos de carvão, bem como as caldeiras e salas de máquinas.

 

Conforme seguiam ouviam algo semelhante a um esticar esganiçado de alguma estrutura que estava prestes a se romper, bastasse um pouco mais de força. Alexander se sentiu tenso como uma corda de violino esticada ao máximo, estava há pelo menos cinquenta metros de sua salvação, qualquer tipo de hesitação resultaria numa morte rápida e dolorosa, sem qualquer chance de escapar, esmagado pelo aço e tudo que viria de cima.

 

O grande cofre surgiu diante deles assim que ganharam espaço por entre algumas cargas que tinham se desprendido de suas bases e flutuavam pela água gélida, bem como pelo carro preso a uma plataforma ao chão que logo também estaria coberto. Alexander sacou um malho de chaves de seu bolso e então com o emprego de certa força abriu a grande estrutura de ferro puro.

 

- Esse é o único lugar que eu acredito que não vá ter infiltração de água, senhor.

 

O espaço quadriculado ocupava coisas de valores, da qual não tinham mais importância, como um quadro, além de cartas para serem entregues no novo continente. O homem jogou a bolsa ali com dificuldade antes de voltar a atenção para Alexander novamente. A mão hábil se colocou no ombro tenso do rapaz, que se encolheu diante do barulho angustiante. Eles estavam afundando mais rápido do que ele gostaria de aceitar estando tão fundo dentro do navio.

 

- Deus salve sua existência, garoto. Lacre este cofre e corra em direção a sua liberdade.

Ele o encarou com tamanho espanto. - E o senhor?

- Meu destino não me pertence a mais tempo do que posso contar. Ele pertence a Alexandre, O Grande agora. Se eu tiver de me salvar será pela benção deste homem há muito morto. Vá acompanhado por aquele que guia seus passos. A Alexandrita está a salvo.

 

Alexander nunca entendeu tais palavras. Ele saiu correndo com toda a força de sua juventude sem nunca mais olhar para trás, tentando vencer a distância entre os cinquenta e três metros verticais do navio, de onde emergiu, alcançando a superfície gelada após ter de vencer a água congelante e todos os escombros que surgiram pelo caminho.

 

Para seu completo espanto, a orquestra continuava tocando. Seu Réquiem de despedida, contemplado pelos sinalizadores brancos que pareciam se curvar diante da coragem desmedida de tais rapazes, que apenas tocavam para amenizar a desgraça instaurada pelo acidente.

 

Alexander correu e conseguiu, num dos poucos botes destinados aos homens, um espaço antes que o mesmo fosse colocado ao mar, claramente com uma quantidade menor do que era capaz de suportar. Suas pernas tremiam com tanta intensidade que ele sequer tinha controle sobre elas, e também não teve a decência de corar ao sentir suas calças molhadas.

 

Ele tinha vencido um inferno do qual jamais se esqueceria. Mas depois de se ver longe do navio, o máximo que conseguiu foi o silêncio. Do topo dos maiores mastros pendiam as bandeiras da White Star Line, e por ínfimo momento ele sentiu por não ter tido a chance de conseguir alcançar uma delas.

 

De longe, os sinalizadores continuavam mandando sinais que morriam na imensidão negra do céu, que contemplava de cima a ruína daqueles homens, mulheres e crianças. Alexander foi incapaz de falar e assistiu em completo silêncio o grande navio mudar seu ângulo conforme a água adentrou os compartimentos onde as escotilhas permaneceram abertas.

 

Os gritos desesperados foram ouvidos das pessoas que caíram á água junto com outros botes que sequer tiveram chance de servirem a seu propósito, quebrando-se no meio do percurso. As mulheres assistiam horrorizadas seus maridos e parentes se perdendo diante da grande estrutura, e um coral dolorido se fez ouvir conforme a popa do navio se ergueu ao ar.

 

No instante seguinte um estrondo fez com que os braços fossem levados à frente dos rostos. As luzes do navio se apagaram para sempre, deixando a todos na escuridão e aumentando o desespero daqueles que ainda estavam presos nas estruturas que se destruíam aos poucos. A sucessão de acontecimentos que viera em seguida continuou causando espanto em todos, e os marcando até o fim de suas vidas.

 

O navio se partiu próximo a terceira chaminé, e a popa se ergueu aos céus quase em um ângulo de noventa graus, implorando por piedade e salvação, esta que nunca viera de imediato e muito menos a seu socorro próprio. De repente, a água tranquila se tornou um cemitério de pessoas agonizantes que gritavam por socorro enquanto seus corpos eram puxados pelo movimento da água ocasionado pela condenação do navio e suas vozes em grande maioria se perdiam para sempre.

 

Sem clemência, e incapaz de conseguir se sustentar acima da água, a popa deu adeus ao céu e afundou minutos depois, levando consigo toda a existência do navio que, em algum momento de dias anteriores, Alexander ouvira de algum passageiro boquiaberto que era inafundável.

 

“Nem mesmo Deus, meu caro tripulante, é capaz de afundar tamanha obra do homem”.

 

Alexander nunca soube se aquele mesmo homem que dissera tais palavras tinha conseguido sair vivo. Os gritos a seu redor o colocaram em uma loucura pelo resto da vida e ele passou seus dias sonhando com momentos em que as pessoas o tentavam puxar do bote, implorando por um socorro que nunca veio. Ele era um dos que sabia que não havia quantidade suficiente de botes e que muitos deles saíram com capacidade menor do que podiam comportar.

 

Portanto, muitas vidas se perderiam. Alexander acabou internado logo após chegar em terra, incapaz de falar novamente e liberado de qualquer inquérito por conta do acidente. O navio afundara às 2h20min, horas antes de chegar a seu destino final, levando consigo 1500 vidas, sem que estas pudessem fazer alguma coisa para salvarem sua própria existência.

 

Enquanto vivo, Alexander nunca se esquecera do homem que quase o condenou. Mas a sombra da loucura jamais o largou e ele deixou de falar permanentemente.

 

Além disso, os gritos dos mortos ressoaram bem fundo em sua mente por todos os anos que ainda lhe restaram de vida.

Nov. 15, 2018, 7:10 p.m. 2 Report Embed 3
Read next chapter 01 – Um novo minério

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Silmara Silva Silmara Silva
amei a historia parabens <3
Jan. 20, 2019, 1:10 p.m.

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