Seus Olhos de Vidro Follow story

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[KaiSoo] Seus olhos eram leitosos, brilhantes como duas pérolas do fundo do mar. Alvos como a neve branca recém caída. Mesmo sem pupilas, eram os mais profundos e sinceros. Homúnculos não eram dignos do reino dos céus, não eram dignos perante a sociedade, não eram dignos de receberem amor, mas seu coração talvez fosse mais puro do que os corações daqueles que se viam como "filhos de Deus", mesmo que fossem comprados como gado e tratados como escravos. Por mais delicado que Jongin parecesse, sua pele era como aço, e não seria rasgada tão facilmente por aqueles que o consideravam indigno. Seria possível amar e viver em paz em uma terra reinada por monstros? [Postada originalmente no spiritfanfiction]


Fanfiction Bands/Singers For over 18 only.

#d-o #homúnculos #distopia #kyungsoo #exo #kai #jongin #kaisoo
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Sociedade

"When you want more than you have Quando você quer mais do que possui
You think you
need Você pensa que precisa
And when you think more than you want
E quando você pensa mais do que quer
Your thoughts begin to bleed
Seus pensamentos começam a sangrar
Society, you're a crazy breed
Sociedade, você é uma raça louca"


Society - Eddie Vedder


***


“Isso mesmo! Você pode parcelar em doze vezes no cartão! Não perca essa oportunidade e peça já que entregaremos antes do natal e ainda receberá 20% de desconto se efetuar a compra ainda hoje em nossa loja online!”

Estava sentado em seu sofá macio de penas, praticamente afundado sobre o assunto macio e distraído demais com um joguinho em seu celular. Vez ou outra olhava para a televisão, torcendo para não ver aquele comercial novamente, já que sua esposa tivera a brilhante ideia de querer um exemplar, ainda mais com essa grande promoção que ocorria. Sentiu o cheiro de pizza de pepperoni invadir sua sala, o comercial agora havia mudado para o de uma pizzaria qualquer, despertando sua fome. Talvez pudesse pedir algo para comer...

“Querido.” Ouviu sua mulher chamar segundos depois do comercial de pizza terminar. Ela assistia um programa de auditórios agora com uma mulher vestida com um conjuntinho azul pastel enquanto a mesma e os convidados riam daquele ser de olhos leitosos que parecia ser alvo de algum tipo de piada. “Por que não compramos logo um?!”

Definitivamente não gostava daquela ideia. Seus pais nunca tiveram um, por que deveriam ter também? Era apenas algo fútil, de nada acrescentaria em suas vidas, seria jogar dinheiro fora e além do mais, algo dentro de si ficava extremamente incomodado com aquilo, não parecia realmente... certo.

“Já disse, Hanna, não vamos comprar um! Não precisamos de um... empregado ou seja lá o que quer que ele faça! Moramos em uma smart house, ela praticamente se arruma sozinha.” Disse, ignorando olhar para a mulher de cabelos curtos que apenas bufou e cruzou os braços.

“Daniel e Dongho compraram um! Ela está servindo muito bem de babá para a bebê que eles acabaram de ter! Marie e Jay tem um há anos e disseram ser de muita ajuda, eles também tem uma smart house!” Insistiu ela, tentando usar as pessoas do círculo de amizade que possuíam como argumento.

“Bom pra eles.” Murmurou, tentando não reparar em como aquele par de olhos brancos na televisão pareciam extremamente cansados de aguentar tanta humilhação, como ser usado para explicar os pontos ideais para tratamento com acupuntura provavelmente contra a sua vontade.

“Você é impossível, Kyungsoo!” Grunhiu ela, levantando-se do sofá e se dirigindo a escadaria ao lado que levava ao segundo andar para provavelmente ver televisão sozinha no quarto. Não iria atrás dela, não mais... Estava cansado.

O joguinho o qual estava tentando se concentrar abriu uma pop-up de um dos anunciantes, e fora forçado a ler em uma tela brilhando em amarelo a propaganda que mais lhe incomodava.

“Compre já seu homúnculo! Nossos alquimistas são certificados e garantimos que seu produto tenha qualidade. Homúnculos femininos e masculinos, ótimos serviçais, babás, motoristas... Economize tempo e dinheiro.

Parecem humanos, mas são apenas alquimia! Incrível, não?”

Kyungsoo focou sua visão na foto de dois homúnculos, um masculino e outro feminino, pareciam ser adultos e os olhos perolados, sem pupilas, não expressavam emoção alguma. De certa forma, realmente não pareciam sentir qualquer coisa, e aquilo era um tanto assustador e errado. Fechou o aplicativo e pegou as chaves do carro, não valia mais a pena ficar em casa esperando sua esposa descer e continuar a brigar. Pegou apenas seu sobretudo e saiu, de pijama mesmo, sem se importar com quem pudesse julgá-lo. Agradeceu aos céus mentalmente que sua Hanna não iria, assim não ia insistir que pusesse uma ‘roupa decente’. Entrou em seu carro e o cinto se prendeu sozinho, a voz do comando automático o cumprimentou e perguntou seu destino.

“Starbucks mais próxima.” Respondeu, ajeitando-se ao volante.

“A Starbucks mais próxima fica a 4km, deseja ir até essa?” Perguntou a voz feminina mais uma vez, e Kyungsoo concordou. O carro praticamente se guiou sozinho, mas até que gostava de dirigir o veículo por si só, vez ou outra.

Ao parar em um sinal, porém, ficou observando um casal passear de braços dados de baixo de um guarda-chuva. Chovia fino, mas era suficiente para incomodar. Porém, o que realmente incomodava Kyungsoo naquela cena, era ver um homúnculo masculino andando atrás do casal, vestido todo de branco e segurando um guarda-chuva sobre eles para que não se molhassem, enquanto ele mesmo pegava toda a chuva. Desviou o olhar, sentindo certa raiva daquela situação, não demorou para pisar no acelerador no momento que o sinal se tornara verde novamente.

A grande placa verde e branca da cafeteria brilhava em meio a certa escuridão, e Kyungsoo logo se adiantou para dentro do local. Não havia muitas pessoas ali, apenas um homem sentado próximo da entrada, outro perto do banheiro, nos fundos da loja, a atendente que mexia no celular, outra que checava algo na registrada, e uma homúnculo... Se destacando dos demais por usar um uniforme da Starbucks totalmente branco, incluindo seu boné, e ela varria calmamente o chão já limpo.

Passou correndo por ela, tentando evitar olhá-la nos olhos, e foi rapidamente em direção ao caixa. Fez rapidamente seu pedido e enquanto esperava por ele, vasculhou um local para sentar, viu que próximo a si havia uma mesa, porém esta estava com alguns guardanapos e um corpo vazio, já usado. Uma das atendentes pareceu ter reparado para onde olhava, e Kyungsoo pôde notar ela sair vagarosamente de trás do balcão e puxar a homúnculo pelo braço com certa brutalidade.

“105, Não tá vendo que o cliente quer sentar?” Disse a atendente de forma ríspida e grossa. “Vai logo arrumar!” Ao largar o braço da homúnculo, esta caminhou apressadamente até a mesa que havia olhado. Naquele momento a outra atendente lhe entregara seu pedido, mas não conseguiu não olhar para expressão assustada da moça de olhos leitosos.

Caminhou até a mesa, inclinando um pouco a cabeça para baixo para ler o nome que ela possuía no crachá. Em letras finas, escritas a mão por uma caneta permanente preta, podia-se ler: 105-DiA.

Sentou-se à mesa que ela havia limpado, mas antes que a homúnculo pudesse se afastar, Kyungsoo a segurou pelo pulso, e ela dera um pulinho com o susto.

“Não precisava ter se incomodado pra limpar isso tão depressa, eu poderia ter sentado em outro lugar. De qualquer forma, obrigado, DiA.” Falou, fazendo questão de usar seu nome final, e não seu número. Pessoas nunca chamavam homúnculos de outra forma, apenas pelo seu número de registro. Kyungsoo sabia que havia outras DiAs por aí, com números diferentes, mas sentia-se mais confortável ao chamá-lo por algo que parecia um nome de verdade.

Para sua surpresa, a expressão de medo sumira do rosto delicado da homúnculo e um sorriso tímido havia surgido em seus lábios. As bochechas, que antes eram pálidas, haviam tomado tons rosados e por um momento Kyungsoo esqueceu-se de que ela não era uma humana. DiA agradeceu com uma reverência e voltou a seus afazeres.

Sentiu-se estranho, porém... Homúnculos tinham esse poder de deixá-lo assim.


***


Dois dias se passaram, estavam na primeira semana de dezembro e Kyungsoo estava feliz por ter quase um mês inteiro de férias do trabalho. Havia ganhado uma promoção e teria dezembro inteiro para aproveitar como bem entendesse. Espreguiçou-se na cama ao ouvir o despertador de passarinhos tocar por todo o quarto, a cortina da janela abriu-se sozinha, revelando os tímidos raios de sol de inverno. Notou que estava nevando, para a sua alegria e o desespero de sua esposa.

Falando em Hanna, esticou a mão para o lado, apalpando a cama em busca do corpo feminino, mas nada encontrou. Mais uma vez ela havia saído cedo... Há mais de dois meses isso acontecia e apenas cansou-se de perguntar onde ia, já que sempre dizia que ia fazer compras com as amigas e nada mais.

Esfregou o rosto e resolveu descer logo as escadas, talvez preparar um café forte sem açúcar, alguns ovos mexidos... Não era tão bom cozinhando, mas era melhor do que deixar que a cozinha fizesse automaticamente, pois sempre ficava tudo muito artificial e mal temperado.

Desceu as escadas enrolado em seu robe verde pastel, os pés enfiados em pantufas de mesma cor, estava ainda tão sonolento... Mas a ideia de um café quentinho e calmaria pela manhã era tudo o que Kyungsoo queria. E ter uma caixa gigantesca no meio da sala de estar com um bilhete de sua esposa com certeza não fazia parte de ‘tudo o que queria’.

Correu até a caixa, pegando o enorme bilhete lendo-o rapidamente. Ficando incrédulo a cada palavra lida.

“Kyungsoo, só queria avisar que o dinheiro não é só seu para você mandar nele como se fosse o dono! Comprei um homúnculo, pois tenho o mesmo direito de comprar coisas para nossa casa como você tem! Espero que quando chegar em casa ele já esteja pronto. Não adianta tentar devolver, eles não aceitam devoluções, se você jogá-lo fora vai jogar uma grande quantia em dinheiro no lixo. Te vejo mais tarde.

Com amor, Hanna.”

Kyungsoo olhava o bilhete boquiaberto, sentindo a raiva consumir sua mente. Amassou bruscamente o papel rosa claro e o jogou contra a parede. O que diabos ela estava fazendo? Aquilo era uma ideia imbecil, uma compra ainda mais imbecil! Agarrou o celular do bolso do robe e digitou uma mensagem para Hanna.

“Você quer é ter um escravo, não é mesmo?!” E enviou. Sem querer saber da resposta que receberia cedo ou tarde. Sentou-se então no sofá, ficando de frente para a enorme caixa azul. Bufou fortemente, enfiando o rosto entre as mãos e bagunçando com força os cabelos logo depois. Aquilo era o cúmulo, o cúmulo mesmo.

Lembrou-se de DiA, a homúnculo da Starbucks que limpara sua mesa. Era isso mesmo que sua mulher queria ter em casa? Kyungsoo voltou a olhar o celular, notando que ainda não havia recebido mensagens de resposta.

Chamou pela inteligência artificial de seu aparelho, que rapidamente o atendeu. “Reviews do site QuaseHumanos . com” Pediu, com esperanças de ver ou ouvir relatos de outras pessoas e tentar achar algo que pudesse tranquiliza-lo. Porém, tais respostas não foram de tanto agrado.

“Estou adorando meu homúnculo! Ele mal ocupa espaço, dorme em um colchão na garagem que não usamos mais e usa o banheiro dos fundos. Também não precisa de nenhuma comida especial, geralmente ele se satisfaz com as nossas sobras! Mas ele é muito higiênico, não faz barulho algum e está sendo de grande ajuda para tomar conta de nosso filho recém nascido!”

“Adoro minha WiA-0023! Chamamos ela carinhosamente de Wii-23! Ela é a melhor empregada que alguém pode ter, agora mesmo ela está pintando um de nossos cômodos!”

Era perda de tempo. Não adiantava continuar lendo os comentários. Eram todos falando como era maravilhoso ter um “quase-humano” trabalhando de graça para si. Porém, Kyungsoo reparou que uma pessoa havia dado apenas uma estrela e deixado uma review. Curioso, resolveu ler do que se tratava.

“Estava tudo ótimo com minha vida, tudo era perfeito... Até meu marido insistir em comprar um desses lixos que nem gente de verdade são! No início ela ajudava em tudo, não tinha do que reclamar, ela levava até meus dois filhos para a escola. Até que um dia cheguei em casa e peguei meu marido na cama com ela! Que nojo que senti, quase vomitei! Obviamente a criaturinha estava se fingindo de inocente enquanto chorava e dizia que fora forçada, quanta mentira... Aquelas lágrimas eram quase reais até que lembrei que ela não passa de um homúnculo! Essa coisa destruiu meu casamento! Se querem um casamento feliz, não comprem essas porcarias que vão contra a natureza humana! Irei processar essa empresa em breve!”

Kyungsoo sentiu algo revirar em seu estômago. Pensou novamente em DiA, aquele sorriso acanhado e aquela forma tão doce... Homúnculos eram criaturas pacíficas, e se não era exagerar demais, passivas ao extremo. Fazem o que lhe são ordenado sem questionar, sem dizer o que pensam sobre. Eles parecem programados para obedecer, querendo ou não.

“O que acontece com homúnculos devolvidos?” Perguntou Kyungsoo para inteligência artificial de seu celular, que abriu rapidamente diversas páginas sobre o assunto. Clicou na primeira que surgiu e começara a ler. Era um texto enorme, separado por tópicos, passou os olhos por cima da maioria das informações até ler o que estava escrito no final.

“Em geral, homúnculos devolvidos são exterminados, pois ao serem encomendados, o comprador preenche um formulário sobre quais tipos de funções querem que o homúnculo exerça. Após tais requerimentos serem transferidos para os alquimistas, eles fazem o possível para que a criatura atinja tais expectativas. Sendo assim, é impossível revender um homúnculo, já que todos são personalizados. Por isso muitas empresas não aceitam mais devoluções.”

Em outras palavras, homúnculos rejeitados eram simplesmente mortos. Aquilo martelou em sua mente enquanto tentava raciocinar tamanha informação. Desgrudou os olhos do celular e olhou para a enorme caixa a sua frente, reparando depois de muito tempo, sobre sua superfície brilhante pelo verniz, a primeira informação que receberia:

“Abra no banheiro”.

Leu novamente o parágrafo sobre homúnculos rejeitados. Pensou, pela milésima vez, na homúnculo da cafeteria, e dessa vez ela sem o brilho dos olhos perolados, estirada em uma maca, tão fria quanto o metal abaixo de si. Seu coração apertou.

Tomou a decisão então de levantar do sofá e terminar logo com aquilo tudo.


***


Aquela situação era o cúmulo para Kyungsoo, ter de levar a caixa para o banheiro de hóspedes (pedido de sua esposa por puro nojo, já que a mesma não queria sujar o banheiro que ambos usavam), e tendo de fazê-lo sozinho, o que piorava tudo, ao menos não precisaria subir as escadas com todo aquele peso.

Não demorou muito para que se encontrasse de pé dentro do ambiente branco e rosa claro, com uma caixa azul pastel lacrada a sua frente. Era uma embalagem discreta, sem nenhum rótulo gigantesco grudado sobre ela. Kyungsoo cortou seu lacre e respirou fundo ao abri-la. Demorou um tempo para olhar seu interior, temendo desistir de tudo e deixar sua esposa se virar sozinha, afinal de contas, ele não tinha nada a ver com aquilo. Mas tentou esfriar a cabeça, seu dinheiro não voltaria e muito menos poderiam fazer devoluções, era simplesmente uma via de mão única. Sentiu um certo alívio ao perceber que havia flocos de proteção tampando toda a visão do homúnculo, e sobre eles estava depositado um manual de instruções, o qual pegou e tentou ler rapidamente as instruções.

Basicamente, deveria retirar o corpo de dentro da caixa, rasgar o plástico de proteção e depositá-lo, de preferência, em uma banheira ou qualquer lugar que pudesse mergulhá-lo por completo. Kyungsoo já estava ficando cansado daquilo, abriu o registro com raiva e sentou-se no chão para terminar de ler o maldito manual. As instruções seguintes diziam para colocar as luvas de proteção que vinham dentro da caixa, pegar o corpo que estava totalmente envolto por uma gosma bege e depositá-lo cuidadosamente dentro da água, devendo também dissolver os cinco frascos coloridos, pela ordem de Azul, Rosa, Vermelho, Roxo e Cinza em seguida. A partir dali era só esperar por três horas.

Vasculhou a caixa para achar as tais luvas e frascos, o que foi até rápido por estarem perto de onde encontrara o manual. Eram longas luvas de borracha, que iam acima dos cotovelos, vestiu-as com dificuldade, e fora o tempo suficiente para perceber que a banheira já estava cheia. Pôs-se de pé e respirou fundo novamente, resolveu rasgar toda a caixa e não deu a mínima importância ao ver os flocos de isopor espalhando-se, e finalmente, dentro de um plástico transparente, viu o que parecia ser um corpo, envolto da tal gosma. Teve vontade de vomitar, mas segurou-se.

Conseguiu rasgar o plástico de proteção com certa facilidade, e preparou-se para sentir algum aroma estranho daquela gosma, mas aparentemente era inodoro, o que não exatamente melhorava a situação. Tentou achar a melhor posição para levantar o corpo, e provavelmente aquela seria uma das piores partes do processo. Era escorregadio, pesado, acabou sujando parte do banheiro ao praticamente arrastá-lo e jogá-lo dentro da água, consequentemente molhando o chão. Sem retirar as luvas, mas com elas ainda grudentas, jogou na ordem pedida os líquidos naquela banheira e, rapidamente, saiu daquele recinto, jogando tudo no chão e fechando a porta com força.

Correu para a cozinha, precisando beber água, sem notar de primeira um lembrete deixado por sua esposa em cima da bancada, este com um aviso de que ela havia saído e chegaria tarde em casa, mas que estava ansiosa para saber se a nova compra estava valendo o dinheiro investido. Kyungsoo, que tomava água direto da garrafa, quis apenas rasgar o tal bilhete, mas tentou ignorar, pelo menos por três horas, tudo aquilo.

Sentou-se no sofá e cobriu-se com um lençol, pensando que tirar um cochilo não seria uma má ideia para tentar esquecer aquela situação, mesmo que por pouco tempo. Então, até que rapidamente, caiu em seu tão desejado sono.


***


Estava em uma casa de campo, no meio da neve e sentia-se feliz, verdadeiramente feliz. Cercado de árvores, de pequenos animais, afastado da loucura da cidade grande e tomando uma boa xícara de chá verde sem açúcar. Era tão confortável que poderia ficar ali para sempre. Mas alguém o chamava... Alguém dentro de casa. Ah, não, quem poderia ser? Não queria sair de seu conforto, porém a voz continuava até que…

Um grito, seguido de mais outro.

Kyungsoo sentou-se rapidamente no sofá, o coração batendo forme com tamanho susto. Olhou, com os olhos agora gigantescos e boca entreaberta em busca de ar, a figura que estava parada sua frente. Um homem alto, nu, parecendo que acabara de sair do banho, os cabelos negros grudados no rosto e a franja quase lhe cobrindo os olhos... Olhos estes que reluziam em sua direção com uma cor branca perolada, apesar das escleras serem brancas, podia-se perceber com clareza a diferença entre elas e aquelas duas grandes e (surpreendentemente expressivas) íris, desprovidas de quaisquer pupilas. Era como olhar um par de pérolas.

Se Kyungsoo parecia assustado, entretanto, ele parecia mais ainda mais, completamente envergonhado, tentando cobrir partes de seu corpo e praticamente se encolhendo enquanto pedia desculpas. Havia se esquecido do homúnculo dentro da banheira e agora ele estava diante de si, tremendo de frio e demonstrando estar tão assustado quanto uma criança perdida. Levantou-se rapidamente do sofá e caminhou até o homúnculo, percebendo que ele era consideravelmente mais alto que si. Tossiu em seco, tentando chamar atenção do mesmo, sem perceber que ele já estava completamente focado em seu rosto.

“Sinto muito... Como... Como se chama?” Perguntou a ele, tentando evitar olhá-lo nos olhos leitosos.

“Desculpe, senhor... Mas meu nome está em um cartão de identificação, junto a meu conjunto de roupas dentro da caixa.” Kyungsoo realmente não esperava que ele tivesse uma voz tão grave.

“Ahn... Certo. Espere aqui.” Disse, e o homúnculo concordou timidamente, permanecendo no mesmo lugar quando adentrara o banheiro para procurar por tais coisas. Teve de espalhar ainda mais os flocos de isopor para encontrar um pacote lacrado a vácuo com roupas brancas e, dentro dele, logo acima, um grande cartão dourado com várias coisas que Kyungsoo não se importou de ler no momento, pois em grandes letras, no meio do tal cartão, estava escrito: KAI-94012. Aquele era o nome.

Voltou correndo com uma toalha e as roupas já retiradas do plástico, entregando-os para o homúnculo, mas Kyungsoo resolvera guardar o cartão para ler o resto depois, caso houvesse algo importante ali.

“Bem, no cartão dizia que seu nome é KAI-94012, mas como é muito grande vou te chamar apenas de Kai, tudo bem?” Perguntou, tentando manter a calma, afinal de contas não adiantaria surtar naquele momento.

“Sim, senhor, como desejar.” Sua resposta era firme e polida, como se a recitasse. Kyungsoo não fazia ideia se ele era ensinado a responder daquela maneira antes de ser enviado, ou se os alquimistas tinham a capacidade de deixá-los assim durante o processo de criação. Entretanto, seria melhor não saber.

Tentou não olhar enquanto Kai se vestia com um macacão branco, que mais parecia de presidiário, diferenciando apenas pela cor alva. O cabelo ainda estava muito molhado, entretanto, então tomou a liberdade de retirar a toalha das mãos do homúnculo e secar ele mesmo os fios escuros. Kai apenas esperou que terminasse.

“Então...” Começou Kyungsoo, desconcertado com tal situação. Não sabia exatamente o que fazer a partir dali. “Está com fome? O que você come? Argh, eu deveria ter lido no manual, mas nem sei onde deixei aquela porcaria, sinto muito!”

“Como comida humana, senhor.” Respondeu ele, a voz calma e ainda acanhada. “E só devo comer quando o senhor achar que é hora.” Kyungsoo olhou pela segunda vez nos olhos do homúnculo, e daquela vez resolveu encará-lo. Analisou bem as íris que reluziam em sua direção. Ele tinha feições surpreendentemente bonitas, mas o olhar parecia bem inocente e um tanto doloroso. Porém talvez fosse apenas impressão sua.

“Kai, quero que me responda: está sentindo fome? Sabe o que é estômago, certo? Está sentindo algo no estômago? Parece que quer comer?” Insistiu na pergunta, tentando manter um tom sério, porém calmo. O homúnculo pareceu refletir um pouco, olhou para a própria barriga e colocou vagarosamente a mão em cima.

“Sim, senhor...” Disse acanhadamente.

“Então coma. Vou te mostrar onde fica a cozinha. Sempre que tiver fome, coma algo, não precisa de horário.” De certa forma estava fazendo aquilo para irritar sua esposa, na esperança de que Kai comesse suas comidas favoritas, mas por outro lado sentia que deveria agir daquela maneira.

“Senhor, e se eu comer algo que não deveria?” Questionou ele, e Kyungsoo não esperava que ele tivesse pensado justamente no que havia imaginado.

“Vou te mostrar o que pode comer então. Ah, tem algo que você não pode comer de jeito nenhum?”

“Posso comer de tudo, senhor.” Respondeu calmamente.

“Ótimo, então preste atenção, okay? Depois de te mostrar o que pode comer, escolha o que quiser e quando terminar me avise que irei lhe mostrar onde é seu quarto.” Instruiu cuidadosamente e Kai pareceu compreender sem qualquer problema.

Mostrou toda a cozinha e quais comidas eram exclusivamente de sua esposa. Após isso, deixou que escolhesse o que comer e, apesar de comidas caras, ele apenas pegou duas fatias de pão-de-forma, queijo e salame, fez um pequeno sanduíche e sentou-se em frente a bancada. Kyungsoo teve de insistir para adicionar ao cream cheese, salmão defumado e alface, e insistir ainda mais para que aceitasse uma tigela de sopa de tomate.

Deixou então que ele comesse quieto, calmamente, e o observou do sofá da sala, olhando por cima do encosto vez ou outra. Kai sorria vez ou outra enquanto mastigava e tomava da sopa. Ali, daquela maneira, com a luz do sol vinda da janela em frente iluminando seu rosto, ele apenas parecia um rapaz normal...


Nov. 9, 2018, 4:35 a.m. 0 Report Embed 2
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