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valotdeadly Nayara Cristine

Junmyeon gostava de chegar do trabalho e ler um bom livro sentado em sua poltrona favorita, bem próximo a sua janela. Gostava de olhar para a rua e absorver as palavras, mas sua atenção acabou se perdendo junto com sua concentração. O novo morador do prédio em frente ao seu escrevia coisas nas janelas que o professor de literatura não entendia, mas gostava de ver como o vizinho ficava frustrado em frente ao computador, bagunçando seus cabelos loiros e indo até a janela para escrever e rabiscar para depois observar cada palavra com a caneta próxima ao rosto; até que voltava ao computador e, sorrindo, digitava sem parar. Junmyeon apenas queria saber o que o outro tanto escrevia nas grandes janelas, e não havia nada de errado em tentar decodificar isso, certo?


Fanfiction Bands/Singers For over 18 only.

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Primeiro capítulo — Entenda-me

Junmeyon não se achava um cara estranho, apesar de ter várias manias. Gostava de beber café sem nenhuma adição de açúcar, pulava os degraus de números ímpares, sempre se sentava perto de janelas para observar o movimento e as pessoas. Via a vida passar pelas janelas, imaginando o que cada pessoa estava fazendo, em sua mente criava histórias diversas para cada rosto, dando-lhes sonhos distantes e vidas tranquilas.

Quando jovem o professor sonhava em ser escritor e talvez por isso cria tanto em sua mente inquieta. Ainda vive perto da literatura, dava aulas sobre. O que ainda é muito distante de criar, mas que aquece o coração daquele que dá movimento a vida rápida e apressada demais das pessoas que não conseguem parar e analisar a beleza de pequenos momentos. E estava tudo bem para Junmyeon, afinal observar a vida e ser grato a ela ainda era um dom e o professor se sentia feliz com ele.

Gostava da tranquilidade que tinha conseguido, tanto quanto gostava de seu prédio por ter grandes janelas onde ele podia observar a vida e dar um brilho a mais a ela em sua mente brincalhona.

A noite quando chegava exausto do trabalho gostava de tomar um banho demorado e cozinhar algo leve para comer enquanto bebia uma taça de vinho. Não gostava de sentar na sua mesa para comer pois se sentia sozinho, então sentava na sua poltrona, perto da janela. Deixava sempre um livro em uma mesinha bem próxima e após comer pegava-o e continuava a leitura, parando vez ou outra para absorver as palavras. Nesses momentos em que se concentrava na sua vida e nos sonhos dos personagens, parava e observa o vai e vem rápido dos carros na rua, o céu distante — gostaria que esse fosse estrelado, mas como vivia em uma grande cidade era difícil ver muitas estrelas graças a poluição visual. Gostava de ver as vidas seguindo seus rumos, geralmente observava casais comendo juntos pelas janelas do prédio a sua frente, bem como crianças brincando com os pais cansados após a rotina exaustiva de trabalho. A única janela que estava sempre escura era a em frente a sua, o apartamento estava vazio desde que os vizinhos que tinham um poodle se mudaram.

Junmyeon sentia-se sozinho com as palavras distantes e seu vinho, mas estava tudo bem se ele continuasse a criar sonhos para os outros, pelo menos ele entendia que sim, estava tudo bem em viver sonhando as vidas alheias quando a sua própria estava mais trancada e parada que os originais que escondia na gaveta da escrivaninha de seu escritório.

A noite era sempre boêmia, cheia de encantos e verdades perdidas. Mas Junmyeon dava sempre sentido as vidas que se perdiam com o cotidiano do dia a dia e isto o fazia feliz, na pequena poltrona com seu vinho e sua mente vagando podia sentir o gosto doce dos sonhos, tão bons quanto o vinho que descia suave pela garganta e queimava vez ou outra. Talvez, os sonhos que tinha para os outros queimassem a sua alma tanto quanto o vinho queimava a garganta, mas estava tudo bem, era apenas um efeito colateral daquilo que fazia-o viver.

Sonhar as vidas que não lhe pertenciam, era como criar sonhos para os personagens que a muito tempo havia deixado naquela pasta escondida dentro de seu notebook ou aquelas que trancava na escrivaninha, com medo de um dia tentar dar vida aqueles que o acompanharam durante toda a adolescência e início da vida adulta.

Junmyeon não podia mais viver do sonho de tornar real aquilo que escrevia loucamente em papéis ou quando teclava frenético no seu notebook em algum café. Já havia passado da época em que dava desculpas para não dar vida aqueles que escondia do mundo. Cansou de mentir sobre seus bloqueios que eram reais, mas que o professor sabia que advinham do medo de não ser bom o suficiente naquilo que amava e dedicava uma parcela considerável de sua vida quando jovem.

As noites sempre passavam dessa forma, com um professor pensando sobre a vida e suas variações enquanto imagina se não poderia fazer nada de diferente para viver como nos livros, para sonhar uma vida apenas sua. Junmeyon nunca foi egoísta, e talvez por isso esquecia de si mesmo enquanto criava cenários e sonhos para as pessoas ao seu redor. O vinho fazia efeito de forma lenta, mas o professor ainda trabalhava no dia seguinte, então deixava o livro na mesinha, com um marca-páginas dentro do livro bem onde havia parado na leitura.

Junmyeon seguia até a cozinha, lavava e secava as louças que havia sujado para logo depois as guardar sempre nos mesmos lugares. Depois disso, colocava seu pijama azul de listras finas e brancas — possuía um monte desses — e adormecia em sua cama fofa, com os cobertores arrumados na ordem que achava correta: primeiro um lençol leve, depois um edredom para logo em seguida uma manta nos pés.

Haviam os dias em que sua rotina era quebrada e que ele não podia ler e perder tanto tempo pensando na vida e nas variações dela. Nesses dias precisava corrigir milhares de provas e exercícios dos seus alunos; acabava sorrindo com a forma que eles se expressavam — eram sempre tão criativos. Mas como sempre, se pegava sonhando com o futuro deles e de certa forma não estava quebrando tanto assim a sua rotina. No final das contas, era gratificante ver o resultado de seu trabalho. Nestes dias, sentava-se a sua mesa grande com vários papéis espalhados esperando pela sua correção e nota. Junmyeon não desgostava dessa mudança de rotina apesar de não gostar que sua rotina fosse quebrada, sentia-se bem em ver a análise dos seus alunos quantos aos livros, ou quanto ao período literário referente ao que estudavam, podia ver sonhos do mesmo modo e isto era bom.

Não bebia seu vinho nestes dias, mas ainda cozinhava algo leve. Comia ainda sentado na poltrona próxima a janela.

Foi em um dia de fechamento de notas que percebeu algo estranho no prédio da frente. Era um dia de rotina quebrada de todos os modos e o professor acabou pensando enquanto comia. Um novo morador havia se mudado para o apartamento de frente ao seu e estranhamente havia colocado a escrivaninha com o notebook bem na frente das grandes janelas, não no escritório como normalmente as pessoas fazem.

Junmyeon achou o novo vizinho estranho, mas estava tudo bem, afinal ele mesmo não era o mais comum dos homens. Voltou para as pilhas de provas após lavar, secar e guardar as louças em seus devidos lugares e sorriu a ter ainda mais um pouco de trabalho para fazer.

Após corrigir e fechar as notas, guardou as avaliações nas pastas referentes a cada turma, assim como os exercícios. Cada pasta com sua ordem alfabética sendo seguida de forma rigorosa. Arrumou a mesa, colocou as pastas junto ao seu material de trabalho, na escrivaninha que raramente usava. Apagou as luzes seguindo da cozinha até o banheiro, mas quando foi apagar a da sua sala de estar se surpreendeu ao olhar pela janela e ver que seu novo vizinho ainda estava acordado. Observou que as janelas estavam todas escritas e rabiscadas, Junmyeon chegou a ver um triangulo desenhado ao lado de alguns rabiscos maiores. Achou tudo aquilo curioso, ainda mais pelo seu vizinho estar parado com a caneta próxima ao rosto observando com cuidado cada pequena letra que havia escrito. Junmyeon teve medo dele achar que estava o observando, apagou a luz bruscamente e foi trocar de roupas — colocando seu pijama típico. Arrumou a cama como deveria fazer e foi dormir ainda pensando na janela cheia de escritos do novo vizinho.

Tentou se forçar a dormir, mas sua mente não parava nem por um minuto pensando nas mais diversas histórias para uma janela cheia de escritos. Chegou a pensar em recados em época de guerra, ou em alguém tentando avisar que havia sido sequestrado e estava preso ali; contudo o triangulo não fazia sentindo em nenhuma das suas histórias. Caiu no sono quando já era tarde demais para o corpo se manter acordado e sonhou com as descobertas que faria no dia seguinte junto com seu vinho e sua janela.

Não que Junmyeon fosse um bisbilhoteiro, ele apenas estava curioso com a janela e o que estava escrito nela, bem como nas várias histórias que poderia criar sozinho enquanto deixava a noite cair em seus olhos.

Acabou acordando com muito sono. Mas era quinta-feira e estava tudo bem, afinal nesses dias ele tomava café na cafeteria perto de sua casa para depois seguir para o trabalho. Arrumou a cama, guardando os cobertores, edredons e lençóis em seus devidos lugares. Tomou um banho morno, arrumou o cabelo em um topete alto, colocou seu terno escuro e uma gravata azul, gostava de cores assim.

Pegou seu material de trabalho e verificou a casa antes de sair, pegando as chaves do carro que ficavam no porta-chaves perto da porta. Fechou a porta e verificou se estava realmente trancada antes de sair para a garagem onde guardava seu carro. Entrou no carro, arrumou os espelhos, colocou uma música lenta para tocar e seguiu rumo a cafeteria.

A cafeteria que frequentava tinha apenas três degraus. Junmeyon pulava o primeiro e o terceiro para enfim entrar. Olhou para a fila e ao contar o número de pessoas percebeu que era par; estavam em quatro na sua frente. Esperou parado em frente a porta até que o primeiro da fila foi atendido, assim Junmeyon pode esperar — finalmente — na fila sem preocupações. Não demorou para que fosse atendido, como ainda estava sonolento, pediu por um café expresso com bolinhos — mais precisamente dois bolinhos.

A mesa que sempre se sentava estava ocupada e Junmyeon resolveu esperar que ela desocupasse. Um cara loiro passou por si e sentou em uma mesa vazia o observando. Junmeyon sentiu-se envergonhado e abaixou a cabeça, não gostava de demonstrar suas “manias” as pessoas, mas estava bem com elas, fazia terapia e já havia melhorado muito. A sua mesa foi desocupada e o professor pode enfim se sentar e tomar o café que já havia esfriado um pouco pela demora, mas estava tudo bem, já que continuava forte.

Terminou de comer, e levou o que havia sujado até o balcão, agradecendo a atendente que sorriu para si — já eram conhecidos no fim das contas.

Chegou um pouco tarde na escola, mas ainda no horário. Estava tão acostumado com imprevistos do dia a dia que sempre saía adiantado para seus compromissos. Deu sua aula animadamente, devolvendo as avaliações e elogiando todos os seus alunos pelo esforço.

Δ×Δ

— Professor Junmyeon.... — Ouviu de longe a voz mansa e cheia de segundas intensões da sua colega de profissão. — Almoça comigo, por favorzinho.

— O que aconteceu com seu namorado Oh Sehun? — Acabou falando direto enquanto a moça o olhava incrédula. — Ele te deu bolo, né mesmo?

— Idiota — A mulher murmurou enquanto arrumava a mecha de cabelo para atrás da orelha. — Sim, me deu um bolo, agora faça o favor de se redimir por ele. — Viu a cara descontente do homem ao seu lado e acabou usando seu melhor sorriso para enfim dizer: — por favor, oppa.

— Por que fui te ter como amiga? — Falou sorrindo, gostava quando a moça era fofa consigo, gostava da sensação de proteger alguém.

— Porque você senta na mesa em frente à minha e eu sou uma ótima companhia para conversar — Deixou que a professora de matemática guiasse o caminho até o restaurante que sempre iam.

Sehun sabia que o Junmyeon desgostava que quebrassem sua rotina, estava acostumada a lidar com ele e gostava muito do amigo, respeitando assim seus trejeitos. Era quinta-feira, então tinha certeza que ele não se sentiria desconfortável em comer fora, era o dia de comer ramém.

Seguiu a frente dele enquanto sabia que o professor estava evitando pisar nos rejuntes das calçadas, a mulher sabia muito bem que Junmyeon não gostava que ninguém visse seus trejeitos — ele considerava defeitos —, então apenas seguia a frente enquanto ele contava os degraus evitando os números ímpares.

Sentou-se na mesa perto da janela, como sempre faziam, e pediu o de sempre, assim como o professor que sorriu quando viu que a — sua — mesa estava vaga.

— Sehun, você me conhece tão bem — Acabou falando feliz enquanto olhava o reflexo da moça nas janelas.

— Então você já pode me contar o que houve, já que você não dormiu bem a noite passada — A mulher deu uma piscadela confidente, sabia que o outro não havia pregado os olhos.

Ele estava sendo gentil e só fazia isso quando estava sonolento. As olheiras ajudaram na conclusão da professora de matemática, mas não falaria isso para o outro.

— Isso é assustador, sabia? — Colocou as mãos na frente ao lado esquerdo do peito fingindo se assustar enquanto a mulher sorria.

— Desembucha logo, não temos o dia todo — Agradeceu o garçom que trouxe a comida e a experimentou fazendo uma careta feliz.

Junmyeon provou a comida e estava feliz por não terem mudado o cozinheiro. Acabou se perdendo enquanto comia e olhava as vidas passando pela janela. Por fim disse à Sehun que havia perdido o sono quando viu um homem de cabelos loiros passando perto do vidro, este homem o lembrava do seu novo vizinho de janela: — Não consegui pregar os olhos por que não consigo uma história convincente o bastante para o meu novo vizinho.

— Não sabia que você tinha um novo vizinho — Sehun havia terminado de comer e estava observando Junmyeon suspirar devagar, sabia que ele se mantinha perdido em seus próprios pensamentos, porém queria de algum modo ajudá-lo.

— Ele mudou faz pouco tempo — Junmyeon não conseguia terminar de comer, sentia-se inquieto para fazer qualquer coisa. — Eu não o conheço, entende? — Acabou colocando os hashis ao lado da tigela de ramém, desistindo de comer. — Ele só, me deixa curioso.

— O que ele fez te tão extraordinário para te deixar sem sono? — A moça estava curiosa também, afinal Junmyeon conseguia em sua mente criar as mais diversas histórias para qualquer um, e todas elas eram criativas e divertidas, sempre que ele estava de bom humor compartilhava com a amiga seus personagens baseados na realidade de um mundo perdido em suas próprias voltas.

— Ele escreve na janela, coisas que eu não consigo ver por que é longe — Maneou a cabeça enquanto desarrumava os fios de cabelo. — E os triângulos, Sehun, o pior são os triângulos! — Olhou nos olhos de Sehun que sorria para si, em um ato mudo dizendo para que continuasse a falar. — Eu não consigo entender isso, e não entender as coisas me deixa louco, você sabe disso.

A professora queria abraçar o amigo naquele momento e dizer que tudo ficaria bem, era difícil ver Junmyeon perdendo a compostura e demonstrando seus anseios com tanta facilidade, mas ao mesmo tempo ela não queria invadir o espaço alheio então apenas respirou fundo e deu a única ideia que veio em sua mente: — Você poderia descobrir o que ele faz.

— Sehun, tu tá’ me falando para espiar o meu vizinho? — Mesmo que não quisesse admitir, havia gostado da ideia, um sorriso brotava em sua face lentamente.

— Estou dizendo que você pode apenas entender — enfatizou a palavra entender subindo levemente o tom de voz enquanto silabava. — o seu vizinho.

Os professores sabiam muito bem que aquilo não era uma boa ideia, mas ao sair do restaurante ambos mantinham um sorriso arteiro no rosto, andando rápido até a escola para que não perdessem o horário das aulas vespertinas.

Δ×Δ

Junmyeon chegou no seu apartamento um pouco mais animado. A conversa com Sehun na hora do almoço o havia deixado mais tranquilo. Se lembrava bem de como havia se tornado amigo da nova professora de matemática a três anos atrás. Sehun havia acabado de se formar e de conseguir um emprego e não estava acostumada com as turmas, e ainda a haviam colocado para ser responsável justo do segundo ano — sempre a turma que não está animada com a entrada no ensino médio e nem muito menos preocupada com o vestibular. Mas a mulher era forte e não se deixou abater pela turma que não queria nada com nada, levou a sério cada um de seus alunos e os tentou motivar, ela era uma boa pessoa e sentava bem à frente de Junmyeon — o que facilitou o processo de amizade dos dois.

O que mais gostava dela era que nunca havia tentado o mudar ou ficava perguntando o porquê das coisas, simplesmente o entendia e o deixava fluir sem pressionar de nenhum modo. Foi assim que se tornaram amigos, Junmyeon gostava do fato de respeitarem seus trejeitos e não ficarem perguntando o tempo todo sobre eles como se o professor fosse um alienígena, e admirava ainda mais o fato de Sehun respeitar seus modos.

Era difícil ser assim, claro que era. Sua mente não parava nem por um minuto e a cada pequena coisa era uma situação imensa e cheia de complicações, mas ele havia aprendido a lidar com tudo, cuidava da sua saúde e tentava viver como qualquer outro. As pessoas precisavam ser mais como Sehun, e respeitar o espaço alheio, acabou concluindo quando acendia todas as luzes da casa. Odiava ficar no escuro sozinho.

Guardou o seu material na escrivaninha do escritório, tomou um banho lento enquanto pensava se era certo tentar descobrir a real história por trás do vizinho já que não conseguia montar nenhuma em sua mente. Acabou cozinhando algo leve, pegou uma taça de vinho e se sentou na poltrona perto da janela — como sempre fazia — comendo lentamente enquanto observava os movimentos da cidade que não dormia.

As luzes da casa do seu vizinho estavam acesas e mais uma vez era possível ver que as janelas estavam rabiscadas enquanto o homem loiro digitava sem parar no notebook. Junmyeon não fazia ideia do que ele fazia, ou o que estava escrito na janela, era possível apenas identificar o triangulo e alguns pontos abaixo — estavam escritos maiores do que o resto que preenchia as janelas.

Quem era aquele homem e o porquê ele havia se mudado? Por que ele escreva na janela? E porque não usava o escritório como qualquer pessoa?

Eram infinitas questões que a mente de Junmyeon tentava desvendar sozinha enquanto o outro continuava a digitar e digitar, até ir para perto da janela e ficar observando o que havia escrito mudando algumas coisas e rescrevendo. Junmyeon o viu mexendo nos fios de cabelo, balançando a cabeça negativamente para o notebook, claramente descontente. O professor sorriu enquanto tentava tirar a curiosidade da mente e se focar no livro que precisava terminar de ler para enfim saber se Will entenderia que Evanlyn era a princesa Cassandra — isso já irritava o professor.

Os dias passaram dessa forma, com um Junmyeon curioso tentando não bisbilhotar a vida alheia enquanto Sehun sorria dizendo que o amigo finalmente estava vivendo uma aventura e não as criando na mente. Porém o professor tentava a todo modo não invadir a privacidade alheia, mesmo que queira saber o que o outro fazia e o porquê fazia na janela.

Δ×Δ

Kim Jongdae era programador. Mais precisamente, desenvolvedor de jogos e estava liderando um grande projeto de um jogo de enigmas e por isso precisou se mudar para Seul, havia feito toda a sua graduação e pós no exterior, sendo contratado por uma empresa coreana para desenvolver o projeto que havia apresentado nas férias quando veio visitar o irmão mais novo.

Para o programador havia sido uma tortura sem fim procurar um bom apartamento para um homem solteiro e que tivesse grandes janelas. Jongdae tinha uma mania desde a faculdade, quando tinha dificuldades em lidar com os códigos, os escrevia nas janelas para observá-los e encontrar os erros antes de mudar tudo no algoritmo e estragar seu progresso. Alguns amigos já haviam dito para ele usar um quadro branco ou qualquer coisa do gênero, mas o programador gostava de ver seus códigos se misturando junto as luzes e o vai vem da cidade.

Finalmente havia achado o apartamento perfeito, graças a seu irmão, Jongin, odiava dever um favor para ele, mas estava grato por ter encontrado algo com janelas imensas e mesmo que a vista fosse o prédio da frente. O apartamento tinha janelas com espaço o suficiente para escrever os códigos e ainda colocar os desafios ao lado. Estava feliz por uma coisa tão tola, mas o loiro era assim, um bobo alegre.

Assim que se mudou notou que a maior parte dos seus vizinhos eram casais recém-casados e solteiros, as luzes do prédio a frente sempre apagavam rápido, não eram de uma maioria de vida noturna. O único apartamento que mantinha todas — e isso já era estanho para o programador — luzes acesas por mais tempo era o que ficava bem na frente do seu.

Jongdae logo decorou a rotina do vizinho, percebeu que ele vivia sozinho, não porque o programador fosse um bisbilhoteiro, mas a rotina do outro não mudava nunca mesmo que fosse um pouco diferente. Chegava perto da sete da noite que era quando ele acendia todas as luzes da casa, sumia das janelas por um tempo e voltava com roupas largas para cozinhar sozinho e então sentar perto da janela enquanto comia e deixava-se perder na cidade.

Jongdae achava boêmios os hábitos do seu vizinho, mas queria entendê-lo. Saber o porquê todas as luzes eram acesas mesmo quando não havia ninguém no cômodo e porquê o vizinho sempre lia perto da janela, parando de tempos em tempos para observar a cidade.

Chegou a sorrir quando pensou que o vizinho era mais complicado que os enigmas que colocava em seus jogos e a programação que usava para dar vida a eles quando o viu na cafeteria por três semanas seguidas na quinta feira. Sempre nas quintas-feiras. Mas o mais estranho era que Jongdae pode ver o vizinho entrar sem pisar no primeiro e no terceiro degrau para então esperar perto da porta até que uma pessoa saiu da fila e o outro entrou fazendo o pedido para logo depois se sentar na mesa perto da janela.

Jongdae sentia-se tentado a desvendar o enigma que o vizinho era para si, mas sentia que se não deveria sair por aí decodificando pessoas.

Δ×Δ

— Você não dormiu a noite passada de novo, Jongdae? — E ali estava o irmão mais novo do programador todo preocupado enquanto eles bebiam um pouco de café.

— Dormi pouco, ’ com um projeto em andamento — Acabou verbalizando de forma lenta. — Você sabe que eu preciso ser bom, fui contratado por isso.

— Você se pressiona demais — Jongin disse enquanto adoçava mais o seu café americano. — Sempre foi assim.

— Jongin, não exagera — Jongdae estava frustrado, passava mais tempo tentando entender os trejeitos do vizinho do que propriamente programando.

Chegou a pensar que se pudesse criar um jogo com o nível de dificuldade acima do que deveria, usaria o vizinho bonito como inspiração. Jongdae odiava não entender as coisas, mas odiava ainda mais a forma que seu irmão mais novo se preocupava consigo.

— Não acho que seja apenas um joguinho. — Jongin riu quando o irmão fez uma careta ao ouvir a palavra joguinho. — Aconteceu algo na sua vida pessoal, né?

— Não — Jongdae tentou negar e o desgraçado de seu irmão afanou seus cabelos sorrindo em um ato mudo para que ele falasse a verdade. — ’, poxa Jongin, eu sou o hyung aqui, sabia? — Jongin sorriu, pois, nos lábios de seu hyung era formado um biquinho, como em uma criança mimada.

— Não parece, hyung — O corretor de imóveis forçou a palavra como uma provocação, fazendo com que o outro lhe desse um soquinho leve. — Fala logo o que houve — forçou a voz e por fim soltou: — hyung-nim.

— Eu só, não entendo — Acabou dizendo baixinho.

— Não entende o que? — Tomou mais um gole do café quente e fraco.

— Meu vizinho, ele não faz sentido nenhum! — Acabou vendo o irmão levantar uma sobrancelha, odiava quando Jongin fazia isso lhe julgando.

— Meu deus, Dae tu anda vigiando o seu vizinho bonito? — Jongin arregalou os olhos enquanto Jongdae fazia sua melhor careta de bravo.

— Não é isso... — Tomou rápido o café para não ter que mostrar um sorriso frustrado para o irmão mais novo.

— Da última vez, tu me disse que ele era bonito, agora diz que ele não faz sentindo — Jongin expos tudo que o outro já sabia, fazendo o irmão abaixar a cabeça com o rosto corado.  — Dae, as pessoas não foram feitas para fazer sentido, elas são apenas pessoas seguindo com suas vidas da melhor forma que podem.

— Mas, ele não se parece com ninguém que eu conheça — Balançou a cabeça negativamente —, eu odeio não entender algo e não entendo nada nele, exceto a rotina exagerada.

Hyung, se fosse para todos se parecem com aquilo que esperamos a vida não teria a menor graça — Sorriu pensando na sua noiva que era tinha uma personalidade tão diferente do que esperava. — As diferenças são o que fazem o mundo rodar, você deveria saber disso.

— Jongin, eu sei disso. — Acabou bagunçando seus cabelos loiros enquanto via o sorrisinho de vitória nos lábios carnudos do irmão mais novo. — Eu só ’ frustrado, só isso.

— Tem certeza que você não está interessado no vizinho bonito? — Jongin acabou levando um soco leve no braço esquerdo por essas palavras.

— Tenho. — Afirmou mesmo tendo certeza que não fazia ideia do que estava acontecendo em sua mente.

— Você não sabe mentir, Dae. — Se afastou antes que o terceiro soquinho lhe atingisse. — Chama ele pra sair.

— Como, Jongin? — Jongdae perguntou realmente bravo. — Oi, tudo bom? Olha eu sou o vizinho da frente que fica te observando desde que mudei e ando muito curioso quanto a umas coisas, vamos sair? — Disse com pausas metódicas entre as palavras, Jongin sorria pela ironia ao seu lado.

— Que tal um “oi, tudo bem, você tem açúcar?” — Jongin disse se afastando das mãos de Jongdae que dessa vez quase lhe acertaram as coxas com força.

— Quem diabos atravessa a rua para pedir açúcar? — Sorriu forçado quando não alcançou a perna do irmão mais novo, queria descontar sua frustação em alguma coisa, e bater em Jongin sempre funcionava, afinal ele era seu pequeno irmãozinho.

— Você?! — O mais novo estava segurando uma gargalhada quando acabou tendo uma ideia genial, sabia que o irmão precisava conhecer pessoas, talvez por isso estava tão focado em entender o vizinho. — Agora é sério, vem jantar comigo, a Sehun e o Junmyeon na sexta.

— Quem é Junmyeon? — Arqueou as sobrancelhas enquanto via o sorriso suspeito brotar nos lábios fartos da peste que chamava de irmão.

— O professor de literatura, e melhor amigo da Sehun — Era o plano perfeito, concluiu quando tomou o resto do café.

— Por que eu deveria sair com vocês? — Sabia que Jongin estava armando algo, mas estava quase cedendo. Estava a um pequeno passo de surtar com o estresse a pressão de liderar a equipe do jogo, mas não conseguia se concentrar direito.

— Pois você é meu hyung e precisa fazer amigos em Seul. — Disse sério enquanto o mais velho o olhava com os olhos arregalados. — E o Junmyeon é um amor, você vai ver.

— Não ’ afim — Reclamou, mesmo tentado a aceitar o disparate. — Preciso terminar meu jogo.

— Por favor, hyung, eu nunca te pedi nada.

No fim, Jongdae acabou cedendo, agora Jongin só precisava avisar a sua noiva e fazer com que ela convença o amigo a sair também, ou o tiro teria saído pela culatra.

Δ×Δ

— E aí como anda a operação desvendando o vizinho? — Sehun chegou falando com sua voz calma enquanto Junmyeon comia o almoço que havia levado para si, dando um pulo na própria cadeira.

— Como assim, Sehun, você é louca? — Acabou falando tudo muito rápido fazendo a moça sorrir ao se sentar na mesa de frente para o professor de literatura.

— Ué, não era isso que você ia fazer nessas semanas todas? — Acabou falando enquanto arrumava suas pastas, sua mesa era uma desorganização sem fim.

— Claro que não, eu não quebrei minha rotina, Sehun — Suspirou ao ver a bagunça que estava a mesa da amiga.

— Por que? — Desistiu de arrumar aquela zona e apenas jogou mais papéis em cima da mesa, depois tiraria um tempo só para isso.

— Pois seria errado espiar alguém — Falou baixo com medo de alguém escutar e entender mal o que havia falado. — E ainda por cima não consigo ler o que ele escreve, é longe demais.

— Você precisa de um binóculo — Sehun sorriu com a careta de desaprovação do amigo.

— E você de modos. Sério mesmo, como o Jongin consegue namorar você? — Falou rápido enquanto via um sorriso nascer nos lábios daquela que estava armando alguma coisa.

— Ele me namora por que eu sou inteligente, bonita, justa e muito fofa. — Fez um “v” com os dedos da mão direita enquanto via o amigo gargalhar. — Você deveria sair com a gente. O irmão do Jongin se mudou a pouco e não conhece a vizinhança.

— Você quer me empurrar pro’ irmão do seu noivo? Sério mesmo? — Sorriu ao ouvir a palavra vizinhança, se lembrava do vizinho e de seu mistério.

— Seria perfeito, somos até amigos, vê só o sucesso da missão. – Sorriu sem discordar do que o outro havia falado, enganar Junmyeon não estava em seus planos.

— Você comeu cocô no café da manhã? — Perguntou sério e fez a moça gargalhar, o professor de literatura estava perdendo as estribeiras, gostava de provocá-lo.

— Por favor, oppa. — Olhou para o amigo com aqueles olhos arregalados, enquanto deixava a voz um pouco mais doce.

— Desiste, vai usar isso com seu noivo. — Não cairia nesse truque novamente. Sabia muito bem que Sehun era fofa e adorável, não seria conquistado pelo seu sorriso bonito e seu olhar do gato de botas.

— Junmyeon, por favor, eu vou ficar com vergonha, eu não conheço o Jongdae, por favorzinho, hum? — Estava usando todos os artifícios que conhecia para convencer o amigo na base da fofura, estava quase falhando, mas acabou fechando os olhos rapidamente e os abrindo para que aumentasse o brilho, se fizesse isso várias vezes conseguiria derramar uma lágrima.

— Sehun, você me conhece, eu odeio quebrar minha rotina — Acabou abaixando a cabeça, a realidade era que ele não conseguia quebrar a sua rotina.

— Vai ser na sexta, dia que você esporadicamente come fora — Sehun afirmou, séria com os olhos já úmidos. — Por favor, Jun., eu não sei se vou conseguir lidar com o primeiro membro da família do meu noivo, eu vou surtar antes do casamento e eu só tenho você aqui em Seul.

A verdade era que Sehun era de Busan e conhecia poucas pessoas, ela como Junmyeon tinha uma dificuldade sem fim de se abrir a novas amizades e de invadir a vida alheia. O professor não fazia ideia de como ela havia conseguido namorar com Jongin, mas os dois eram fofos juntos, e geralmente convidavam Junmyeon para comer fora em algumas sextas-feiras, e ela estava certa, era o dia que ele gostava de comer em um lugar fora de casa.

Acabou concordando em ir com eles e o irmão de Jongin que havia voltado do exterior, mas combinou com Sehun que se de algum modo ficasse desconfortável sairia de fininho do restaurante e voltaria para o seu apartamento. A mulher concordou e quase pulou nos braços do amigo para lhe agradecer, mas se conteve em sorrir e comprar um café sem açúcar para ele.

Δ×Δ

Junmyeon não fazia ideia do porquê estava se arrumando tanto para sair naquela noite, ele apenas iria conhecer o cunhado de Sehun que estava nervosa e roendo as unhas na escola por ter que encontrar alguém da família do tão adorado Jongin. No fundo o professor queria ficar em casa observando se o vizinho iria mudar algo na janela, ou apenas sonhando com as vidas que este poderia ter, mesmo que nenhuma das suas histórias fossem convincentes o suficiente.

O mistério do vizinho das janelas já durava algum tempo e tudo que Junmyeon queria era saber de tudo, mas ao mesmo tempo se sentia culpado por sua mente precisar criar e saber do mundo ao redor.

Mesmo assim se arrumou com bastante antecedência, o restaurante que iam ficava no segundo andar e não havia elevador, e ele não queria demonstrar as suas manias para o cunhado da amiga.

Δ×Δ

Aquele fim de tarde estava estranho para Jongdae que não conseguia terminar o maldito algoritmo do seu jogo e que ainda por cima estava todo perdido com o vizinho bonito chegando e acendendo todas as luzes para apagar tudo bem cedo, diferente de todos os outros dias em que sentava na janela e observava a rua.

Quis ligar para o irmão e inventar uma desculpa qualquer para furar no jantar, mas não podia fazer isso quando havia se comprometido a conhecer a cunhada. O jantar nada mais era que mais uma das complicações da vida adulta que vez ou outra todos nós acabamos tendo que passar, uns boletos para pagar, uns jantares para frequentar e umas salas para fazer. Odiava tudo isso, mas era necessário, no fim, Jongdae estava mais perdido com a quebra de rotina do vizinho do que com seu código propriamente dito.

Estava ferrado — acabou pensando sozinho. Estava muito ferrado por acabar prestando mais atenção do que deveria no vizinho bonito. Por fim, acabou se arrumando rápido, estava quase atrasado e não queria ter de ouvir um sermão do seu irmão mais novo.

Saiu rápido torcendo para que não houvesse transito no caminho.

Δ×Δ

O professor de literatura chegou cedo — como havia previsto — no restaurante que frequentava sempre. Sorriu tímido quando a atendente do lugar o chamou pelo seu nome e lhe mostrou que a mesa que sempre ficava estava livre. Pensou consigo mesmo que havia valido a pena sair de casa já que não pegou transito e nem mesmo teve que esperar a sua mesa desocupar.

Sentou ainda sorrindo enquanto pedia um copo de água com limão para esperar a melhor amiga — que com toda a certeza chegaria atrasada.

Enquanto esperava o restante das pessoas para o jantar se pegou pensando no seu vizinho, estava tentado a pegar seus binóculos — os havia comprado uma vez em um impulso de tentar ver os pássaros em um acampamento quando jovem, era um de seus hobbies e gostava disso mesmo que não tivesse mais tempo para tal. No fim era uma das poucas coisas que havia feito por puro impulso e se arrependia disso, sentia-se culpado por se sentir um stalker da vida alheia — mesmo que fossem apenas pássaros —, então escondeu o objeto bem no fundo de uma das gavetas de sua escrivaninha, onde colocava coisas que não lhe serviam mais, mas que tinha receio de jogar fora.

Porém queria mesmo saber qual era a real história por trás daquelas janelas, era curioso demais, tentador demais, contudo se mantinha firme em nunca invadir a privacidade alheia. Odiava quando lhe invadiam o espaço pessoal e se isso era desconfortável para si deveria ser também para os outros.

Suspirou quando uma fina camada de chuva começou a cair e a manchar as janelas com gotas que seguiam sempre seu fluxo. Pensava consigo que como as gotas que encontravam seu caminho as pessoas também achariam os seus. Uma a uma, caindo vagarosas pelo vidro da janela, como pequenas demonstrações de grandes nuvens no céu.

Sehun chegou quando Junmyeon estava apostando mentalmente qual das pequenas gotas chegariam no final de seu destino primeiro. A mulher estava linda com seus cabelos soltos e com um vestido delicado caindo bem em seu corpo, diferente do que vestia na escola. Ao seu lado estava Jongin, com jeans e camisa larga, com os cabelos caídos nos olhos, contrastando com a formalidade velada que a moça havia pensado ser o jantar, e talvez por isso tenha se arrumado tão delicadamente. Junmeyon sorriu tentando decifrar o sorriso que Sehun lhe deu, ela estava nervosa e isso era claro pelas mãos que seguravam a alça da bolsa lateral que ela usava, a mulher estava receosa com o encontro, não conhecia nenhum membro da família do noivo ainda, e esse era um grande passo.

Junmyeon tentou sorrir calmo, demonstrando que estava ao lado da melhor amiga logo quando se levantou e puxou a cadeira para ela. Jongin estava distraidamente olhando pelas janelas — Junmeyon pensou ter trocado os papeis com ele por um instante.

— Será que o hyung vai conseguir chegar aqui? — Verbalizou quando Sehun se sentou na cadeira que o professor havia oferecido. — Ele é um lerdo, duvido que ache aqui de primeira.

— Não é tão difícil achar esse restaurante, Jongin — O professor disse calmo, vendo que ambos os noivos estavam preocupados com coisas diferentes. — Fiquem calmos, vai dar tudo certo.

— Eu ’ calma, não sei por que você tá’ falando isso. — Sehun pediu um copo de água enquanto fazia uma careta para o amigo.

Junmyeon riu quando sua canela foi atingida com um chute. Ela não queria demonstrar para o noivo que estava nervosa a ponto de pegar uma mecha de cabelo e ficar olhando para as suas pontas.

— Sehun, ele vai te adorar — Jongin disse pegando a mão da noiva fazendo-a parar de mexer no cabelo. — E mesmo se ele não gostar, o que importa é que eu te amo.

A moça sorriu mesmo que seus olhos estivessem cheios de lágrimas. O professor achou fofa a forma que o noivo acalmou a amiga, mantendo as mãos unidas. Por um momento desejou ter alguém para segurar suas mãos assim e lhe acalmar quando não aguentasse mais o nervosismo dentro de si. Sorriu fraco para os dois que sorriam olhando um no olho do outro. Uma cena digna de um bom filme — Junmyeon concluiu quando alguém um pouco escandaloso chegou tossindo ao lado de Jongin, estragando a cena.

— Então essa é a famosa Sehun? — O ser inconveniente perguntou e ficou claro que ele era o famoso irmão de Jongin.

Sehun logo se levantou da mesa esticando os braços para cumprimentar o cunhado, fazendo com que todos levantassem e o cumprimentassem também, o homem parecia um pouco desconfortável, mas sorriu audível pegando na mão da cunhada que estava perdida pensando se deveria fazer uma reverência ou apenas dar um aperto de mãos, mas Junmyeon e até mesmo Jongin estavam com as mãos esticadas para Jongdae que estava completamente perdido naquela bagunça de cumprimentos e mãos.

Jongin logo se apressou e apresentou todos na mesa, pedindo para Jongdae se sentar, o que ele fez rápido, estava tão perdido quanto os outros na questão dos cumprimentos e aquela aura de nervosismo de todos ali permaneceu até que Junmeyon odiando o clima na mesa e sentindo um pouco pressionado com essa quebra de rotina se pronunciou pedindo o cardápio.

— Jongin me falou muito bem de você, Sehun — Jongdae sorriu tentando amenizar a tensão instaurada ali. — Mas a descrição dele não chega nem perto do quão bonita você é.

— Obrigada! — Sehun acabou dizendo sorrindo, mais solta. Sentiu que havia conseguindo a aprovação daquele que lhe tirou as noites de sono por um bom tempo.

Junmyeon ainda se mantinha calado, estava começando a suar frio. Sua mente não conseguia parar de pensar que conhecia Jongdae de algum lugar, mas não conseguia pensar com clareza da onde pois estava nervoso demais. Sentia suas mãos tremerem levemente, e o coração acelerando doendo em seu peito, o ar faltando aos poucos. Odiava quando isso acontecia do nada, mas sabia que aquela tensão dos cumprimentos havia lhe deixado nervoso, mas estava bem até a chegada de Jongdae.

Uma das coisas que odiava era quando as suas crises simplesmente apareciam, sem um motivo muito aparente, mas odiava mais ainda quando começava a perder o controle do corpo e a se desesperar por não saber o motivo real de entrar em pânico.

Sorriu fraco enquanto as pessoas na mesa conversavam, havia ouvido o seu nome, mas já não podia dizer com clareza o que Sehun queria consigo. Quis correr dali, quis fugir, gritar e chorar, suas pernas começam a tremer também e sabia que o suor começava a ser evidente, nem sabia mais como o ar estava chegando em seus pulmões pois já sentia que não conseguia mais respirar direito. Já não conseguia controlar tudo o que pensava ou o como seu corpo reagia, apenas sentia que era um nada, que nunca deveria ter saído de casa e que nunca poderia ter uma vida plena, afinal essas crises sempre haviam lhe perseguido.

Levantou da mesa quando viu que não dava mais, pegou seu remédio de emergência e bebeu rápido. Queria poder mandar em seu corpo e mente, mas não conseguia. Seguiu para o banheiro e se trancou em uma cabine com lágrimas escorrendo seu rosto.

Queria que tudo que falavam funcionasse, o famoso: “jogue uma água na cara, beba um pouco de água, mostre para o seu corpo quem manda, não seja fraco.”, mas não dava certo, as pernas bambeavam, as mãos tremiam e o desespero de não conseguir formular uma frase corretamente antes de sair da mesa o consumia.

Deixou que a voz de Jongin se perdesse em sua mente enquanto ouvia as batidas na porta do boxe que se encontrava, já não dominava mais seu corpo, nem sua mente, mais uma vez e sem nem ao menos saber porque havia perdido a disputa contra aquilo que mais odiava.

Deixou que apenas as lágrimas caíssem enquanto a sua mente girava em mais assuntos que o recomendado, o controle que sempre foi presente na sua vida simplesmente escoava como água por entre os dedos de sua mão.

Δ×Δ

Jongdae não entendeu nada quando viu o seu vizinho bonito sentado à mesa, achou aquela coincidência realmente incrível, sorriu fraco enquanto o observava pelo canto dos olhos.

Era certo para o programador que sua entrada no restaurante não havia sido perfeita e que a sua cunhada estava de fato nervosa, a dinâmica dos cumprimentos foi engraçada em sua mente, era um monte de gente perdida sem saber qual mão pegar ou o que fazer, mas ele havia achado engraçado.

Mesmo com um clima estranho na mesa ele não notou nada de errado com o vizinho ao seu lado, era estranho reconhecer um vizinho do prédio da frente, mas Jongdae passava boa parte do tempo observando este olhar pelas janelas com sorrisos ternos, mas o que de fato o assustou foi quando ele saiu da mesa com as pernas tremulas.

Sehun estava aflita, era perceptível até mesmo para alguém que não conseguia ler as pessoas — como Jongdae. Ele viu que ela havia chamado o amigo algumas vezes, e que este respondia simples com sim ou não. Mas para Jongdae não estava nada errado, talvez pelo programador ser um idiota — como Jongin insiste em dizer.

Mas quando Junmyeon — finalmente sabia o nome do vizinho — saiu rápido da mesa a mente do programador que estava acostumada com códigos e desafios deu um branco total. Não fazia ideia do que estava acontecendo, e mesmo que Sehun e Jongin tivessem levantado rápido — com um Jongin seguindo o outro até o banheiro, Jongdae não fazia ideia do que estava acontecendo ou o porquê do outro sair às pressas da mesa.

— O que aconteceu? — Perguntou com a voz falha, um pouco aflito pela situação.

— Acho que o Jun teve uma crise, desculpe, mas vamos marcar o jantar para outro dia? — Sehun sorriu fraca para o cunhado que estava perdido com tudo aquilo.

— Crise? Do que? Ele tá bem? — Jongdae acabou falando tudo tão rápido que Sehun mal conseguiu compreender as palavras.

— Eu espero que ele esteja bem, mas eu não faço ideia — Sehun suspirou. — Desculpa, mas acho melhor marcamos outro dia mesmo.

Jongdae não entendeu nada. Queria dizer para Sehun que conhecia aquele homem de sorrisos ternos, mas como diria que o conhecia pela janela? Queria poder entender o que estava acontecendo, mas Sehun estava sendo invasiva, e Jongdae percebeu como aquela moça respeitava o amigo.

— Ele tá bem? — Dessa vez foi Sehun a perguntar para um Jongin que vinha do banheiro em direção a mesa com a cabeça baixa.

— Ele disse que tá, mas você sabe como é — Jongin acariciou o ombro de Sehun tentando lhe dizer que tudo ia ficar bem.

— Eu não deveria ter forçado ele a vir. — A mulher disse com lágrimas nos olhos, assustando ainda mais Jongdae.

— Tudo bem a culpa não é sua — Jongin se sentou, não podia invadir o banheiro com o amigo dentro por mais que quisesse.

— Ninguém tem culpa de nada — Um Junmyeon ainda tremulo falou, fazendo Sehun sair da mesa e ficar ao seu lado.

— Você bem? — Era óbvio que não. Junmyeon ainda estava em crise, por mais que estivesse tentando controlar isso, era visível pela forma que suas mãos tremiam.

’, desculpa, mas vou para casa primeiro hoje — Junmeyon se forçou a sorrir mesmo quando por dentro se despedaça, o remédio havia começado a fazer efeito, ele estava mais letárgico, porém ainda assim não conseguia dominar a si mesmo.

— Espera, eu te levo — Jongdae disse convicto, sabia que ele era seu vizinho e sabia onde morava então estava tudo bem.

Tá’ tudo bem, fiquem e terminem o jantar. — Junmyeon sabia que não poderia dirigir, mas pegaria um táxi.

— Eu te levo — Jongdae se levantou, pegou o celular que havia deixado em cima da mesa logo quando chegou e seguiu na frente do outro que deixou que o cunhado de Sehun o levasse para casa pois não queria estragar ainda mais o jantar da amiga.

Naquele momento, seguindo para o carro daquele que mal conhecia, mas que trazia em sua mente a lembrança do seu vizinho acabou se sentindo a pior das pessoas, havia estragada o encontro da amiga, havia mostrado algo que odiava demonstrar, e ainda precisava de ajuda para voltar para casa, sabia disso, estava com medo de tudo voltar. Parou no meio do estacionamento e teve sua mão segurada de forma leve, o dedão de Jongdae fazia carícias leves em volta do seu enquanto era possível ouvir a voz dele dizendo que estava tudo bem.

Junmyeon odiava isso.

Odiava se sentir fraco, impotente, incapaz.

E por mais que as pessoas dissessem que ele não era nada disso, isso não o impedia de se sentir um lixo, de sentir que nem mesmo o controle de si possuía, a ponto de um estranho dizer-lhe que tudo ficaria bem.

Não soube quando as lágrimas voltaram a cair e tampouco entendeu quando a mão carinhosa que lhe tocava — Junmeyon odiava toques, queria se soltar, mas não conseguia — lhe puxou para dentro do carro.

Jongdae não fazia ideia de como ajudar o outro, então apenas o puxou para o carro convicto que deveria o levar para o hospital. E foi o que fez, cantando baixinho durante todo o percurso, vendo as lágrimas do seu vizinho acalmarem aos poucos.

Junmyeon não queria ir ao hospital, odiava todos eles, mas Jongdae estava firme em sua decisão e ele apenas deixou que a voz doce dele entrasse por seus ouvidos o acalmando levemente.

A crise não havia passado, e por um momento agradeceu desse cunhado de Sehun ser teimoso ao ponto de oferecer carona e seguir para o carro decidido. Mesmo que ele estivesse o levando para o hospital, não parava de falar, sempre com um tom calmo, e vez ou outra cantarolava algo, o que Junmeyon realmente achou fofo. Mas era óbvio que ele nunca havia visto ninguém ter uma crise de pânico, Junmyeon percebia que Jongdae estava assustado.

No hospital Junmyeon precisou explicar todo seu histórico, bem como falar que já havia tomado um remédio de emergência, mas mesmo assim a médica disse a Jongdae que ele havia feito o certo ao trazer Junmyeon ali. O loiro sorriu enquanto o outro — já mais calmo — revirava os olhos.

Jongdae soube então que além da evidente crise de pânico, Junmyeon possuía toc, o que fez todo sentindo pela forma que agia ao acender as luzes e sempre estar na mesma cadeira em frente a janela. Junmeyon estava com vergonha, mas Jongdae estava ali como seu responsável, e acabou contando para ele que odiava tudo isso, e que tudo o perseguia desde a infância.

Junmyeon recebeu o tratamento necessário, mesmo tendo tomado seu remédio de emergência, e ficou algum tempo em observação. Estava sonolento pelo medicamento, e acabou dormindo enquanto esperava ter alta, Jongdae estava sentado ao seu lado como em um clichê de dramas românticos onde o personagem principal está morrendo de câncer enquanto seu par romântico permanece ao seu lado, algo digno de Nicholas Sparks que sempre mantém esse roteiro — o professor de literatura se permitiu sorrir quando percebeu que sua mente estava de volta sobre seu comando.

Jongdae percebeu um sorriso tímido no vizinho bonito quando este já estava cochilando. Jongdae não fazia ideia do que se tratava aquele sorriso, mas torceu para que a crise do outro estivesse controlada. A médica havia dito para Jongdae que assim que Junmyeon acordasse ele estaria livre do hospital, Jongdae sorriu aliviado, mesmo que estivesse nervoso com toda a situação.

A chuva ainda caía fraca do lado de fora da pequena janela do hospital formando do lado de dentro um pouco de água condensada na janela, o programador acabou escrevendo com os dedos na janela pequena do quarto do hospital: “eu <- vida (surpresas);”, era irônico como Jongdae só conseguia pensar direito quando organizava isso em janelas e não foi diferente naquela janela de hospital onde brincou com a base da lógica de programação em um código que talvez nunca fizesse sentindo a ninguém, mas para o loiro, era a coisa mais certa que conseguia entender da noite.

Ele estava recebendo surpresas da vida sem parar e tudo que ele podia fazer era deixar que o programa chegasse ao fim dessa linha para entender o resto do algoritmo.

Δ×Δ

Junmyeon acordou sozinho naquele quarto branco com o perfume de álcool. Olhou para o lado e viu uma cadeira com um casaco jogado por cima, se não estava enganado era de Jongdae, o irmão de Jongin que insistiu tanto em lhe trazer para o hospital. Estava se sentindo melhor, porém extremamente envergonhado.

Odiava quando uma de suas crises acontecia em público e odiava mais ainda o fato de ter estragado a noite para a melhor amiga.

Pegou o seu próprio casaco que estava colocado em um pequeno criado mudo que também continha uma garrafa de água e o vestiu esperando alguma informação de algum enfermeiro. Sabia que seria liberado logo, já havia passado por isso mais vezes do que gostaria, e talvez por isso a sua mente insistiu em se lembrar que pediu para o outro não o levar em um hospital. Não gostava da aura desses lugares, sentia-se doente.

Quando levantou para vestir o seu casaco viu algo que chamou a sua atenção nas janelas, mesmo que estivesse saindo, percebeu que fora desenhado quando a chuva ainda caía na noite anterior.

Achou engraçado o fato de janelas o perseguirem e tirou uma fotografia daquilo que se assemelhava aos rabiscos que seu vizinho fazia, mas não possuía certeza disso. Junmyeon não enxergava muito bem e o que era escrito na janela do seu vizinho ficava virado ao lado contrário para ele que observava do lado de fora, no prédio da frente.

Quando estava guardando seu celular no bolso do casaco, viu que Jongdae entrava calmo no quarto, com dois cafés em mãos. Sorriu para ele quando este entregou um americano para si, dizendo que não sabia o que Junmeyon bebia e que havia pedido o seu favorito.

Junmyeon sorriu e bebeu o café que estava bom, com um gosto diferente do que o que estava acostumado.

— A médica disse que assim que você acordasse estaria livre daqui — Enfatizou a palavra livre, fazendo Junmyeon sorrir junto.

— Então quero ir embora — Ainda mantinha o sorriso no rosto que morreu aos poucos ao pronunciar a frase: — Me perdoe por tudo isso.

Jongdae não sabia como reagir, Junmyeon havia abaixado a cabeça, não o olhava nos olhos e pediu perdão por algo que não era sua culpa. Quis abraçar o professor e dizer que estava tudo bem, que não era culpa dele, quis fazer um cafuné naquele cabelo escuro e liso, quis encher o outro de um carinho velado que dizia que estava tudo bem, mas sabia que isso assustaria o outro. Havia passado a noite inteira na internet lendo artigos sobre transtornos obsessivos e compulsivos.

Jongdae queria entender Junmeyon.

Então tudo que fez foi sorrir e dizer calmo que estava tudo bem e que Junmeyon não deveria pedir desculpas por coisas que não eram sua culpa.

Junmyeon ainda com a cabeça baixa sorriu com a resposta do outro. Por algum motivo que não entendia ao certo se sentiu bem, como se aquelas palavras batessem em sua mente e lhe reconfortassem de uma forma prazerosa. Não era sua culpa.  Não era sua culpa e não deveria se desculpar.

Seguiu para o carro do outro ao saber que Sehun já havia levado o seu carro para o apartamento. A viagem toda, Jongdae cantarolou músicas lentas que vinham de um CD que tocava no rádio do carro. Junmyeon gostava dessas músicas, por algum motivo, elas faziam que o cenário pós chuva da cidade ganhasse um pouco de cor. Sua mente conseguia imaginar várias histórias com as pessoas que passavam.

Jongdae o deixou em casa, na verdade, Junmyeon pediu que ele o deixasse na entrada do prédio. A questão era que o professor já havia se envergonhado demais perto daquele que havia conhecido a pouco, não queria que o outro soubesse que não usava o elevador do prédio e que subia pulando os degraus de números pares.

Jongdae o deixou na entrada e o viu seguir pelas escadas. De algum modo estranho queria entender o vizinho, entender suas ações; entender seus trejeitos.

Δ×Δ

Junmyeon estava farto daquele sábado chuvoso e vazio. Não conseguia parar de pensar em como o cunhado de Sehun o havia ajudado e como a voz deste era agradável. Mesmo que se sentisse bastante constrangido por demonstrar aquilo que mais odiava para um estranho estava confuso, sentia que de algum modo esquisito, o cuidado do outro era reconfortante. Bem como a voz melodiosa que usou para acalmar o professor.

Acabou deixando que seus pensamentos tomassem formas distintas, sem observar a janela, a rua, ou qualquer pessoa. Estava muito mais intrigado com as coisas que haviam acontecido durante o jantar do que com a vida que passava pela cidade chuvosa.

O que era anda mais estranho era o fato da janela do hospital estar borrada com escritos que ele não conhecia. Era engraçado a forma que janelas escritas o perseguiam. Olhou pela grande janela de seu apartamento e viu mais uma vez o triangulo e os rabiscos da janela em frente a sua. Estava curioso. Decidiu depois de pensar muito sobre essa pequena invasão de privacidade que poderia ver o que estava escrito contando que não observasse o vizinho. Era um dilema quase que moral que vivia no momento que entrou no seu escritório e abriu a caixa que guardava os equipamentos que usava para observar pássaros — quando era mais jovem tinha tal passatempo.

Pegou o binóculo e sentiu todo seu corpo formigar em ansiedade. Sorriu ao se lembrar de Sehun lhe falando que deveria fazer isso. Sorriu ainda mais quando limpou as lentes e se sentou na poltrona, com as pernas jogadas no braço dessa.

Colocou-se a observar as janelas e suspirou quando notou que tudo ficava virado do lado contrário para si. Sorriu quando alcançou seu bloco de anotações — usava para anotar pequenos trechos dos livros que lia — e começou a tentar decifrar o que estava escrito.

Era bastante divertido, mesmo que fosse confuso pois todas as letras e pontos estavam viradas do lado contrário para si, mas aceitou o desafio que sua própria mente lhe propôs, anotando tudo que via para depois tentar entender.

Naquele momento, Junmyeon se sentiu como um dos personagens das histórias que criava, um personagem humano, curioso e ousado.

Por algum motivo que não soube definir ao certo, gostou de se tornar o protagonista de sua própria vida, então apenas continuou daquela forma estranha, a observar a janela com um binóculo profissional até que viu alguns movimentos do morador que saía de um cômodo para outro.

Em um susto, com o coração saindo pela boca e as mãos suando frio, deu um salto da poltrona que estava no exato momento em que o cunhado de Sehun olhou para as janelas. Junmyeon não soube se ele o havia pego no flagra, mas quando sua mente conseguiu entender que o vizinho da janela rabiscada era Jongdae, começou a se ameaçar por ser tão curioso.

Percebeu então que estava espiando aquele que havia cuidado de si e sentiu-se como um dos vilões dos originais que escondia nas gavetas que possuíam trancas em sua escrivaninha.

Δ×Δ

Jongdae estava bastante aflito enquanto olhava as funções e os códigos que insistiam em não funcionar juntas no seu — maldito — programa. Era frustrante saber onde chegar, mas se perder ao longo do caminho em meio a variáveis e pedaços distantes de um fluxo que insistia em não seguir a sua lógica original. Se amaldiçoou por infinitas vezes quando olhou o algoritmo perfeito nas janelas, mas que quando foi implementado na linguagem que estava usando insistia em não funcionar, quis jogar o computador pela janela onde desenhava os códigos. Deveria ter feito o teste de mesa, pensou enquanto levantava da cadeira e se colocava a escrever as variáveis, vetores e matrizes, separando tudo nas janelas de função em função.

Odiava fazer esses testes de mesa, como odiava, mas sabia muito bem que aquilo apontaria o erro no algoritmo e qual das — desgraçadas — funções estavam com aquele erro. Sentiu como no primeiro ano da faculdade onde qualquer mudança de códigos e otimizações lhe tiravam o sono. Acabou sorrindo quando começou a dar valor as funções, rodando os for, while e entrando nos if que insistiam em fazer tudo que deveria ser simples complicar quando usados juntos.

Queria de verdade xingar a si mesmo quando percebeu um erro tão básico no meio de suas linhas tão confusas. Maldita seja a sua mania de organização que separou uma variável no escopo de apenas uma das funções. Droga ele usaria aquele inteiro mais vezes e lá estava ele, isolado no escopo de apenas uma das funções. Penou para entender que seu algoritmo exigia que usasse ponteiros, isso facilitaria permitindo que aquela variável existisse apenas naquele pequeno espaço de linhas de códigos, mas quando olhou para todo o programa percebeu que estava errando no básico. A sua lógica estava correta, e droga, isso era para ser o mais complicado de tudo. Porque diabos não havia usado ponteiro nas variáveis? Isso economizaria uma memória considerável, mas lá estava Jongdae, olhando para seu programa e se amaldiçoado por cometer erros tão básicos.

Errar escopo, esquecer de usar ponteiros — uma coisa tão básica —, por favor, Jongdae estava realmente louco quando implantou o algoritmo na linguagem.

Terminou o teste de mesa frustrado, havia achado os erros e não foi na lógica. Isso o assustou. Ele não era amador a ponto de ignorar conceitos básicos, porém estava fazendo e muito.

A cabeça de Jongdae não estava em seu programa, constatou quando olhou pela janela a viu Junmyeon com um binóculo a lhe espiar, a imagem do professor borrada em meio a seus erros deu-lhe a certeza que era nele que pensava enquanto digitava aqueles erros grotescos.

Sorriu e acenou.

Estava perdidamente bagunçado — assim como seus códigos — por aquele que pulou da cadeira quando percebeu que o programador o observava também. E se fosse para se perder em um sorriso, que fosse naquele que o professor deu quando ouviu a sua voz soando junto ao rádio velho de seu carro.

Δ×Δ

Nov. 5, 2018, 3:43 p.m. 1 Report Embed 7
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Mariana R. Mariana R.
Nem fui para o segundo capítulo ainda e me encontro apaixonada! Toda a construção dessa relação entre os dois e como um observava o outro me deixou aos suspiros, piorou tudo quando SeKai elaborou um esqueminha para fazer eles se conhecerem. Outra coisa que acho importante ressaltar é o trabalho com a condição do Junmyeon e como você deixou tudo isso bem real, mostrando os sentimentos dele em relação a isso e como é difícil lidar com as crises. Também achei incrível a descrição dos códigos, confesso que sou bem de humanas e me buguei toda, mas achei incrível como você detalhou! Agora vou correr para o próximo capítulo, tô apaixonadinha. ♡
Nov. 8, 2018, 12:47 p.m.
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