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penduluns Penduluns

Você é delicioso, Jimin. Da cabeça aos pés, seu cheiro me agrada. Gostaria de experimentá-lo, sou atraído pela maldade que se esconde em seu peito, permita-me puxá-la com meus dentes até que você a enxergue. Vamos, apenas abra-se para mim e mostrarei que todos nós somos monstros. [ VMIN ]



Fanfiction Bands/Singers For over 21 (adults) only.

#vampiros #melancolia #halloween #terror #horror #jimin #taehyung #bts #monstros #ghouls
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Somos Monstros

“Eu não desejo lhe machucar em um mundo

O qual outra pessoa está imaginando

Lembre-se de quem eu sou

Meu completo e vívido, eu.”

— Unravel, Tokyo Ghoul

Taehyung [24 de Novembro de 2012, 2:00] Galpão abandonado no sul de York Shin

Agarrou a máscara branca que cobria-lhe o rosto, apertando a cerâmica escorregadia com as unhas. Tombou a cabeça para trás e gritou, o som gutural rasgando-lhe a garganta e fazendo o sangue espirrar para cima, caindo em gotas pesadas nos olhos. Piscou, sentindo a dormência nas córneas e sorriu, descendo a mão para o próprio pescoço. Apertou e arranhou, os dedos movimentando-se freneticamente pela pele ardente em busca de arrancar a própria traquéia e acabar de uma vez com o sofrimento camuflando-se em todos os nervos, mas sentiu aquele cheiro e abriu os olhos de súbito, aspirando o ar como se sua vida dependesse daquilo. As narinas contraíram e o gosto desceu pela língua que acumulava sangue, despertando-lhe uma selvageria conhecida.

Desceu lentamente a cabeça, tombando-a de um lado para o outro conforme a vista focava na figura parada trêmula a frente. Uma arma. Talvez um revólver. E estava apontado para o seu rosto a poucos metros de distância.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou zombeteiro e deu dois passos para frente, praticamente moendo os lábios com os dentes. O homem não se moveu. — Ah, Jimin? É mesmo você?

— Entregue-se, Taehyung. Eu vou atirar.

A risada escandalosa ecoou pelo galpão, terminando em tosses repetitivas. Taehyung curvou-se levemente, com as mãos na barriga e observou Jimin por trás da máscara. O sangue nos olhos incomodava, mas conseguia reconhecê-lo.

— Vai atirar em mim, Jimin-ah? — disse em falsa manha, avançando um pouco mais. Sentia o estômago contraindo. — Vai desfigurar a porra do meu rosto, Jiminie?

Jimin tremeu e Taehyung gargalhou mais uma vez, a voz fina e insana explodindo em arranhões na garganta. Agarrou o revólver e puxou Jimin pela mão firme nele, encostando-a na própria testa, o metal arranhando a cerâmica.

— Atire — ordenou com a voz estridente e divertida. — Atire e exploda a porra dos meus miolos!

— Entregue-se!

— Você não vai atirar? — sussurrou com a voz agora grave. Estalou a língua no céu da boca e largou o braço de Jimin, puxando a arma da mão dele e apontando-a para a própria têmpora. Sorriu quando ele arregalou os olhos e então puxou o gatilho, ouvindo apenas o som do pente vazio.

Riu e jogou a arma para longe, avançando furioso no pescoço de Jimin e enroscando os dedos nele em um aperto forte. As mãos de Jimin agarraram a sua, conseguia sentir a pulsação em seu polegar e a sensação era gostosa, poderia gozar sentindo-a bombear em desespero.

Jimin engasgou e revirou os olhos, a saliva escorria abundante pelo queixo e o cheiro dela era bom, Taehyung sentiu vontade de lambê-la. Afrouxou um pouco os dedos, divertindo-se com o corpo contorcendo-se a sua frente.

— Me subestimou. Você errou em fazer isso — Taehyung disse com a voz rouca, descendo tantos tons que no fim da frase ela era irreconhecível, como os detalhes de um monstro. — Abra a boca, docinho.

Taehyung voltou a apertar o pescoço de Jimin e ele abriu a boca em busca de ar. Taehyung abriu a sua lentamente, permitindo que uma cobra deslizasse para fora, passando pelo bocal da máscara em um chacoalhar enjoado. As escamas fizeram cócegas em sua garganta e língua, e o som de vômito fez companhia. Negra como a falsa bondade, encarou os olhos suplicantes de Jimin e entrou na boca dele apressada, alcançando goela abaixo, engasgando-o e sufocando-o ainda mais. Jimin sacudia-se e Taehyung derramava lágrimas, tossindo compulsivamente e sentindo o líquido amargo querer subir.

Jimin escorregou de seus dedos e caiu mole no chão em um baque. A cobra voltou para dentro de Taehyung e ele fechou a boca, passando a língua em volta dos lábios inchados e ensanguentados. Respirou fundo e encarou Jimin respirando com dificuldade.

— Você é fraco, Jimin. Mas parece tão gostoso. Eu poderia te devorar até que sobrassem apenas os seus ossos, não poderia? O que você acha? É uma boa ideia? Me parece muito boa, não concorda? — Taehyung ajoelhou até que estivesse face a face com Jimin, sorrindo maldoso enquanto o assistia tossir sangue. — As escamas machucam um pouco, mas você se acostuma.

Taehyung fez uma careta quando Jimin agarrou seu pulso e sussurrou seu nome devagar, deixando que os sentimentos vazassem. Taehyung afastou-se por instinto e grunhiu, caindo sentado ao lado dele. Com raiva, lançou o braço para frente, puxando os cabelos de Jimin. Queria vê-lo chorando e implorando pela própria vida.

— Taehyung…

— Cale a boca! — gritou e puxou os fios com mais força, sentindo o peito queimar ao escutá-lo berrando. — Cale a boca! Cale a boca! Cale a boca! Mandei calar essa boca! Mandei calar essa-

— Você não é assim.

Taehyung [6 de Maio de 2009, 23:00] Delegacia central de York Shin

Taehyung subiu o lance de escadas pulando até chegar no segundo andar, segurando a caixa de doces com força no peito. Cumprimentou com um sorriso os funcionários que estavam acumulados na entrada e alcançou o escritório, abrindo desengonçado a porta em um baque e chamando a atenção de todos os presentes. Era uma reunião não muito formal, mas discutiam um assunto sério. No entanto, Taehyung acreditava que o clima deveria desmanchar um pouco.

— Trouxe rosquinhas! — Entrou apressado e jogou a caixa rosa em cima da mesa central, observando-a deslizar até parar perto de um dos detetives. — Vocês estão muito estressados, vamos aliviar um pouco esses nervos. Certo, Jimin?

Virou animado para o parceiro, que estava na outra extremidade da mesa. Jimin sorriu e acenou positivamente, fazendo um joia no ar. Taehyung fez outro e voltou a atenção para o superior do esquadrão.

— Taehyung, agora definitivamente não é o momento certo para brincadeiras. Se estamos todos nervosos, é porque há motivos. Senta essa bunda na cadeira e escute o que tenho a dizer.

Taehyung suspirou e obedeceu, fazendo barulhos irritantes com o pé de ferro no chão liso. Quando ajeitou-se na mesa e colocou os cotovelos em cima, empurrou os óculos no nariz e sorriu em um sinal positivo para que o superior pudesse finalmente falar.

O homem pegou a caixa de rosquinhas e puxou uma, levando ao nariz antes de mordê-la. Estava enrolando, Taehyung sabia. E quando ele enrolava, significava que algo ruim estava prestes a sair de sua boca. Ou pelo menos, algo bem ruim para os subordinados. Mas Taehyung estava preparado, era a profissão de sua vida. Iria até o fim por ela.

— Recebemos ligações anônimas enquanto você esteve fora. Temos uma suposta localização do assassino próximo ao interior da cidade, onde concentra-se o maior número de criminosos.

— Está dizendo que alguém ligou para a central com dicas e não quis se identificar? Sabe, isso é um pouco suspeito. Lembra-se da voz do anônimo? Pode ser útil.

Taehyung diminuiu a voz quando recebeu um olhar cortado do chefe. Ele não gostava de interromper, mas também não gostava de processar as pistas em silêncio. Era como se não estivesse absorvendo nada, apenas escutando.

— Como eu estava dizendo, senhor Kim, esse caso já escorrega pelas nossas mãos há meses, qualquer informação é valiosa. Nós iremos até lá, em duplas e disfarçados. Se virem alguém estranho ou que se encaixe no padrão, mandem imediatamente uma mensagem para todos nós. Não hajam sozinhos.

— Isso me parece uma cena de despedida de anime — Jimin sussurrou. Estava com uma expressão preocupada. — Está se despedindo de nós, chefe?

— Não. — O superior levantou-se e recolheu os papéis que estavam acima da mesa. Taehyung franziu o cenho. As coisas estavam estranhas. Paradas demais, como se em câmera lenta. Ninguém ousava falar nada, mas todos estavam cabisbaixos e pensativos. — Mas sinto que algo não vai correr bem essa noite.

[...]

O assassino era perigoso. Ninguém conseguia pegá-lo, ninguém conseguia sequer pistas e nenhuma vítima sobrevivia para contar a história. O medo dos detetives daquele pequeno esquadrão era compreensível, não sabiam com quem estavam lidando e temiam o desconhecido com todas as forças, temiam não saber agir quando o momento finalmente chegasse.

Há meses, os assassinatos começaram. Eles não seguiam um padrão, as vítimas eram dos dois sexos e de idades diferentes, como se o autor das mortes fosse um oportunista e o que aparecesse na sua frente fosse o escolhido, sem mais. A única coisa que determinava um crime como sendo dele, era a presença de uma mordida. Apenas uma, em um lugar aleatório do corpo. A mordida era sempre profunda, algumas vezes pedaços faltavam e nunca foram encontrados dentes ou lascas deles nas feridas, o que deixava tudo ainda mais estranho. Uma mordida daquela magnitude não poderia ser feita por um ser humano com dentes normais, eles não eram tão resistentes assim.

Com essas características que não se encaixavam em nada plausível, o pequeno grupo de investigadores de York Shin nunca deixou de correr atrás do próprio rabo em todos esses meses. Sem pistas, sem suspeitos, sem vítimas sobreviventes. Eles apenas não tinham nada além de corpos que acumulavam nas gavetas do necrotério e famílias raivosas que exigiam uma explicação.

— Estou um pouco assustado, Tae. É a primeira vez que chegamos perto de alguma coisa a respeito dele, e se não conseguirmos capturá-lo? — Jimin sussurrou enquanto prendia a arma no coldre. Taehyung sorriu.

— Vai ficar tudo bem, Jimin. Vamos pegá-lo. Estou otimista essa noite, sinto que algo vai mudar. — Deu um soquinho no ombro de Jimin e fechou o sobretudo.

— Mudar? Para o melhor ou para o pior?

— Hum... Já estamos tecnicamente no poço ruim, não estamos? — Taehyung olhou para cima, pensativo e Jimin sorriu, concordando com a cabeça.

— Tem razão. Vamos sair dele com novidades e um suspeito em mãos. Obrigado, Tae, você sempre consegue me acalmar.

Taehyung [00:30] Área leste de York Shin

Taehyung estava no banco da frente, observando as ruas silenciosas. Mesmo sendo um lado da cidade onde a criminalidade era alta, não havia ninguém por ali, como se todos temessem o Fantasma de York Shin. Fantasma, era exatamente isso. Ele aparecia para quem queria e desaparecia como um dissolver, deixando que os rumores corressem soltos. Bom, uma parte deles estava certo, sua presença era assustadora.

Jimin dirigia com cautela, os olhos perdidos transparecendo todo o nervosismo. Eram inicialmente seis carros com dois investigadores em cada e partiram juntos, mas separaram-se quando o Sul tocou-lhes o nariz. Jimin não parava de bater os dedos no volante desde aquele ponto, tirando um pouco a concentração de Taehyung. Jimin não estava preparado, provavelmente daria meia-volta se visse algo suspeito e aguardaria o superior, mas Taehyung não poderia se dar ao luxo. Pessoas morreriam se o Fantasma conseguisse fugir, Taehyung não pretendia deixá-lo escapar, mas Jimin não sabia disso. Se soubesse, bom, Taehyung teria ficado na delegacia.

— Pare de batucar o volante, Jimin. Assim ficamos distraídos — sussurrou um pouco nervoso e voltou a olhar para a rua.

— Não consigo ficar em silêncio, Tae. Está muito deserto por aqui.  

— Não é problema meu. Eu sei que você tem dificuldade com os nervos, mas não deixe que isso afete a missão, entendeu? — Taehyung virou-se de súbito para Jimin e o encarou com firmeza. Mesmo que fossem amigos, algumas vezes Taehyung precisava agir com dureza e isso era para o próprio bem de Jimin. — O medo não te controla, você controla o medo. Se deixá-lo pensar mais rápido, está morto. Consegue entender isso?

— Sim, eu consigo. Não vou estragar a missão, Taehyung. Conte comigo — Jimin afirmou sem tremular a voz e Taehyung sorriu, voltando à posição inicial.

— Ótimo.

Jimin dirigiu mais um pouco, agora sem os dedos formulando músicas. Conseguiam apenas escutar o ronco do motor e algumas festas que aconteciam ao longe, mas até mesmo isso parecia morto demais, como se comemorassem escondidos. O pensamento foi apenas mais um empurrãozinho para que Taehyung quisesse ir até o final com o plano.

Jimin estacionou na guia e suspirou, cansado. Já passava das duas da manhã, estavam acordados há mais de vinte e quatro horas e, com o sono martelando a cabeça, Taehyung estava quase concluindo que a informação era falsa. Mais uma pista mentirosa vinda de alguém que gostava de brincar com o desespero das pessoas. Qual era a diferença entre o mentiroso e o assassino, afinal?

— Vamos voltar? Já rodamos a nossa rota inteira, não tem ninguém aqui. — Jimin suspirou e relaxou as costas no banco. Taehyung continuava olhando para a rua, para as sombras que formavam-se mais adiante. Ele não queria aceitar que aquele maníaco continuaria solto. — Taehyung?

— Espera, Jimin. — Continuou focando os olhos nas sombras, parecendo notar uma movimentação dentro delas. Inclinou-se no painel do carro e cerrou os olhos, concentrando-se nas pequenas bolas que pareciam cintilar em sua direção.

— O que você está fazendo?

— Jimin? — Posicionou a mão na arma e respirou fundo, notando agora que as bolas formavam um padrão, como uma corrente em volta de um pescoço. Taehyung subiu os olhos até a suposta cabeça e viu uma fileira de dentes. O desgraçado sorria para eles.

— Sim? Tae, o que está acontecendo?

— Chame ajuda, AGORA!

Taehyung abriu a porta do carro e saiu em disparada na direção dos brilhos, deixando um Jimin aos berros para trás. Sentia o coração acelerado e pressão da ansiedade esmagando seus pulmões, mas não podia parar. Estava perto, estava tão perto.

Alcançou o poste piscante e parou no meio da rua, olhando para todos os lados, com a arma na altura do peito, o sangue bombeando os ouvidos. Mantinha uma expressão furiosa, os dentes cerrados e as pernas prontas para mais uma corrida.

Gemeu, nervoso e gritou para chamar atenção. Ao fundo, Jimin gritava seu nome, mas não ousava se aproximar. Taehyung virou e acenou, mandando-o buscar os parceiros. Enquanto fazia isso, não percebeu os cabelos negros voando por cima de sua cabeça, tendo tempo apenas para escutar um leve riso antes de ser empurrado com força e voar pela rua, arrastando os ombros no asfalto gelado.

O barulho de tiro ecoou, alguns berros vindos das casas fizeram companhia. Taehyung grunhiu pela dor da pele esfolada e girou o corpo, ficando de joelhos. Rodava a cabeça, procurando quem havia passado tão rápido por si sem despertar concentração.

— Maldito, apareça! Eu vou matar você! — Taehyung berrou e pôs-se de pé com dificuldade, sentindo o sangue escorregar por baixo da camisa social. Escutou mais uma risada vinda ao longe, na sua frente e não hesitou em correr desesperadamente, com a arma balançando na lateral.

Taehyung sentia o estômago gelar enquanto pensava na força da pancada que recebeu. Parecia que havia sido empurrado por um carro pequeno em alta velocidade e não por mãos humanas. Com isso, perguntou-se pela primeira vez com o que estava lidando.

Alcançou uma rua sem saída e olhou nervoso para a parede a frente. Não tinha como avançar e não tinha como retornar, Taehyung com certeza o teria visto. Então, para onde ele tinha ido? Bateu o pé com força no chão e virou para trás, pensando se não teria seguido o som na direção errada. Ele teria ido para outro lugar? Ou teria saltado pela sua cabeça como havia feito anteriormente?

Mordeu os lábios e negou mentalmente, obrigando-se a pensar que o Fantasma era um humano comum. Não existiam monstros. As pessoas eram os monstros. Era só isso.

Escutou a risada mais uma vez, mas ela estava ecoada. Virou a cabeça rapidamente para o lado esquerdo, notando ali um beco tão minúsculo que seria necessário espremer-se para passar. Abriu a boca em surpresa quando notou, mais uma vez, a fileira de dentes perfeitamente brancos. Grandes. Fortes.

“Fortes, tão fortes que vão arrancar a carne de seu rosto se você não der o fora o mais rápido possível.”

Deu um passo para trás, guiado pelo medo e tremeu com os pensamentos. Taehyung não queria morrer. Com isso, quase deu meia-volta e correu para longe, para Jimin e para seus parceiros, mas escutou aquele maldito gargalhar mais uma vez e encarou o horror que escondia-se entre as sombras.

— Seu maníaco! — gritou para ele e tentou avançar, mas congelou outra vez quando notou que estava armado. Arregalou os olhos e agiu rápido, mirando no beco e disparando sem pensar duas vezes. — Meu Deus!

A forma monstruosa desviou e grudou na parede, sorrindo. O sorriso torto de ponta cabeça e o rosto um pouco posto na luz. Taehyung enxergou os olhos estalados e negros, a pele em volta deles repuxada para cima e para baixo, deixando-os sobressaltados e, um pouco nas bochechas, Taehyung viu sangue vivo. Recuou, espantado. Era tão feio, tão medonho, sua cabeça não processava a imagem, o suor escorria pela testa. Era como nos seus pesadelos de criança. Seus pesadelos recorrentes sempre o faziam chorar, tremer e agarrar-se aos pais como se eles pudessem salvá-lo. Ali, parado na frente daquela coisa, Taehyung percebeu que ninguém poderia salvá-lo. Ele estava sozinho.

— Você não consegue me parar? — Pela primeira vez, Taehyung sentiu os joelhos tremerem. A voz era tão profunda e gutural, parecia com aquilo que costumavam chamar de sons do inferno. Espancava seu cérebro, trazia todas as lembranças de um jeito cru. — Não consegue me enfrentar? Está com medo?

— Não tenho medo de você — sussurrou hipnotizado, os olhos sem piscar. Seu interior pegava fogo, o coração batendo desesperadamente. Corra. Fuja. Proteja-se! — Eu não tenho medo de você!

— É mesmo? — Ele moveu-se um pouco mais para frente, deixando mais um pedaço de seu rosto pálido na luz fraca. As mãos finas agarraram a borda da parede. Taehyung deu um passo para trás, sentindo vontade de gritar, de desaparecer e também de ficar. Ficar e enfrentar. Ficar e vencer. Ou ficar e morrer? — Não é o que parece. Você tem medo, como todo mundo. E vai me deixar escapar. E eu vou continuar matando, porque, no fim, o medo é maior que a humanidade de vocês. Não são tão diferentes de mim.

Mais uma gargalhada ecoou e Taehyung abriu a boca, deixando um gemido irritado escapar. Ele não tinha medo, Jimin tinha. Jimin era covarde, tão covarde que o permitiu sair sozinho, desprotegido. Tão covarde que continuava parado no maldito carro, esperando os superiores enquanto ele estava ali, prestes a morrer. Morrer? Morrer? Morreria mesmo ali? Deu mais um passo para trás, olhando na direção do carro, sentindo a boca salivar. Poderia correr. Poderia fugir. Daria tempo.

— Eu posso… — sussurrou para si mesmo e fechou a mão em punho, mordendo o lábio. Estendeu a outra, sentindo a brisa fresca na ponta dos dedos. — Eu consigo...

— Se é tão humano assim, Taehyung — disse e parou, descendo da parede, mantendo-se de lado nela, espremido. O sorriso iluminando o rosto ensanguentado. Taehyung virou para ele e soluçou. — Por que está pensando em espancar Jimin por ter te abandonado e não em me pegar?

Taehyung arregalou os olhos. Lembrou-se dos próprios conselhos, da voz de sua mãe dizendo-lhe que ele deveria ser forte quando ficasse sozinho no mundo. Taehyung estava finalmente sozinho, de frente para seus pesadelos. Estava apavorado, seu instinto de sobrevivência gritando e arranhando o peito, deixando-o ofegante. Sim, Taehyung tinha medo de morrer.

— Não morra como um covarde — resmugou para si mesmo e viu o Fantasma alargar o sorriso, ansioso. — Não morra como um covarde!

Mas tinha mais medo ainda de ver sua humanidade desfazendo-se até que sobrasse apenas o monstro nu de seu interior.

Taehyung gritou e correu na direção do beco. O Fantasma gritou em diversão e sumiu pelas sombras, com Taehyung em seu encalço. Taehyung não tinha medo dele, tinha medo de si mesmo e, reforçando isso na mente, enfiou-se entre as duas paredes, andando rápido e prendendo a respiração até alcançar a saída e deparar-se com bifurcações e vielas escuras.

— Apareça! — gritou e levantou a arma, apontando para vários pontos, sem saber onde exatamente mirar.

— Hum, Taehyung-ah! — Escutou um gemido. — Você tem um cheiro tão bom! Me deixe te provar!

Taehyung olhou rapidamente para uma da vielas que possuíam um poste pequeno e não teve tempo de prever uma defesa, o rosto diabólico saltava na sua frente com um sorriso sádico e sedento por sangue.

Jimin [3:40] Vielas mal iluminadas no leste de York Shin

Jimin estava com a arma em mãos, correndo e ofegando na direção dos últimos gritos de Taehyung. Jimin estava com medo, temia pela própria vida e pela vida do parceiro, mas não teve coragem de ir ajudá-lo. O medo, ao invés de movê-lo, congelou-o. E talvez tivesse sido a sentença final de Taehyung.

Jimin quis chorar. Suas ações poderiam ter matado Taehyung. Ou, no caso, a falta delas. Ele era tão covarde, seu superior sempre teve razão. Não servia para nada, não servia para o cargo. Ele devia salvar vidas, não perdê-las. Mas provavelmente tinha perdido uma e, como bônus, o próprio sossego. Jimin nunca mais conseguiria dormir outra vez.

— Jimin? — Escutou um dos parceiros chamando e virou para trás, as poucas lágrimas molhando o rosto. — Conseguiu encontrá-lo?

Ele chegou junto de mais três investigadores e o superior. Estavam reunidos na frente da rua sem saída, procurando entre as sombras. Taehyung não estava ali, Jimin conseguia sentir. Não dava para esconder um corpo ali. Ele estava morto, tinha certeza. O Fantasma havia arrastado seus restos para algum terreno baldio, para que algum coiote devorasse-o. Taehyung estava morto, a culpa era totalmente sua.

— Não, não o encontrei — respondeu, por fim. — Não acho que ele tenha ido por outra-

Um grunhido retumbou e o grupo se encolheu. Em seguida, um gemido forte, intenso e dolorido atravessou a pequena passagem até então não vista e fez com que eles tremessem, olhando na direção dela. Jimin arregalou os olhos e o cérebro processou aquela voz. Suspirou afobado e tentou correr, mas não se moveu. Ficou parado, pensando no que deveria fazer.

— É o Taehyung! — disse em um sussurro. — É a voz dele, vem daquele beco!

— Vá até lá, Jimin! Vá na frente, ele é o seu parceiro! — o superior ordenou e o empurrou. — Mexa-se! Até quando você vai ser esse garoto apavorado?

Jimin mordeu o lábio inferior e olhou para baixo, para a arma que segurava com força. Ele não conseguia. E se chegasse lá e topasse com o Fantasma? O que ele faria? Atiraria? Tiraria uma vida, mesmo que ela tirasse outras? Não conseguia, não conseguia ferir seres humanos.

“O medo não te controla, Jimin.”

Grunhiu e balançou a cabeça negativamente, dando passos duros e trêmulos, sentindo o corpo implorando para que voltasse e sumisse dali. Outro gemido ecoou e Jimin deixou uma lágrima escapar, avançando mais rápido e guiado pelas palavras de Taehyung. Ele controlava o próprio medo, ele não seria derrotado daquele jeito.

Correu em direção ao beco e olhou para trás, vendo os companheiros formando uma fila atrás de si. Voltou a olhar para a escuridão e sentiu o coração bater lentamente. Agora, ele conseguia escutar um choro grave e desesperado, um pedido distorcido de ajuda.

— O que está esperando, Jimin? Entre de uma vez!

O choro aumentou e com ele vieram soluços. Jimin observou a escuridão e as formas que ela produzia, mas também enxergou o Jimin do passado, sendo convocado para servir a cidade como policial. Era só um garoto magro que queria vencer as próprias inseguranças. Não venceu nenhuma, no entanto. Sempre foi controlado por elas. E nunca deixaria de ser.

— Jimin!

Uma gota de suor desceu pela têmpora. Era um inútil.

— Jimin, vamos logo!

Uma lágrima acompanhou. Ele não salvaria ninguém.

— Jimin!

— Eu não consigo! — gritou com força. — Eu não consigo.

Saiu da linha de frente e colocou-se atrás de seu superior, o último da fila. Ele lhe encarou tão intensamente, com tanta fúria, que Jimin encolheu-se e gaguejou desculpas esfarrapadas.

A fila andou e logo ele estava espremendo-se entre as paredes úmidas, sentindo um cheiro ruim e ácido. As costas da camisa ensopavam e suas pernas tremiam, culpa do cérebro mandando sinais de perigo sem parar. Ele não sabia o que encontraria do outro lado.

Os companheiros saíram primeiro e ele pôde escutar que gritavam o nome de Taehyung. Empurrou seu chefe e saiu desesperado, pela primeira vez correndo ao objetivo e abaixando-se no meio da confusão que estavam gerando, empurrando os corpos aglomerados, salivando em necessidade de verificar se Taehyung estava vivo.

— Tae… — Jimin deixou a frase morrer gradativamente enquanto sentia os olhos arregalando. Taehyung estava deitado de barriga para cima, coberto de sangue, o rosto pálido e a boca escancarada em um expressão de medo. Seus olhos estavam estáticos, as pupilas não se moviam. Jimin olhou para baixo, notando o pescoço coberto de manchas roxas e desceu para o ombro, para o braço e… Chegou no antebraço. Mordido, estraçalhado, praticamente drenado. — Hyung?

Taehyung berrou e o poste de luz explodiu.

Jimin [9 de Maio de 2009, 16:00] Hospital emergencial central de York Shin

Olhava para a parede branca querendo encontrar um motivo. Como tinha coragem de estar ali, mesmo depois de ter abandonado Taehyung quando ele mais precisava? Como tinha coragem de encarar seu superior e dizer que tudo ficaria bem? Sentia tanto nojo de si mesmo.

— Onde estão os pais dele? — um dos colegas perguntou, curioso. Jimin suspirou e esfregou o rosto com as mãos.

— Mortos. Taehyung nunca me contou como aconteceu, e eu nunca perguntei. Mas estão mortos.

— Nossa. Ele não tem parentes?

— Eu não sei, Baek. Eu não sei nada sobre o Taehyung. Ele é um verdadeiro fantas… um mistério. Não me faça perguntas difíceis.

O médico saiu da sala com a prancheta em mãos e caminhou até o pequeno grupo. Todos eles levantaram juntos e sussurraram entre si um suposto diagnóstico. Ele havia perdido o braço? Tiveram que amputá-lo até o ombro? E o pescoço? Ele poderia falar? Como estaria sua traquéia?

— Como ele está? — Jimin foi o primeiro a perguntar. O médico levantou os olhos da prancheta e encarou cada um ali presente. Jimin sentia o estômago dando piruetas. Por que raios ele não falava de uma vez?!

— Ele foi enforcado por tempo suficiente, mais um pouco e estaria morto. Aparentemente o causador daquilo decidiu dar uma segunda chance. O braço — o médico sussurrou e suspirou. — Bom, o braço não teve tanta sorte assim. Não conseguimos restaurar completamente, o buraco vai ficar.

— Por Deus, o que é esse cara? — Baek questionou irritado e bateu a mão na própria testa. — É um tipo de vilão de quadrinhos ou algo assim? Taehyung era preparado, como ele não conseguiu se proteger? Sinceramente, nós não temos chance nenhuma!

— Baek! — o superior repreendeu. — Não é o momento para isso. Conversamos sobre o caso na delegacia, você entendeu? Não cite-o perto de Taehyung.

— Evitem ao máximo citar o ocorrido. Ele não conversou com ninguém até agora, só nos respondeu perguntas básicas sobre suas condições. Ele está acordado, mas não entrem todos de uma vez. Vou pedir para que uma enfermeira monitore-os. Com licença.

O médico acenou rapidamente e passou por eles, sumindo pelos corredores. Jimin olhou para trás, para seus companheiros e viu que estavam hesitantes. Todos eles possuíam rostos preocupados, cada um com seus próprios pensamentos. No caso de Jimin, ele pensava no que diria para Taehyung. Seu peso era mil vezes maior.

Jimin pediu para ser o último. Estava ensaiando um discurso e um pedido de desculpas, mas todos eles pareciam rasos demais. A cada vez que um retornava da sala, o coração de Jimin acelerava. Estava chegando sua vez. Sua vez de chorar amargamente em arrependimento.

— Jimin? — seu superior resmungou quando fechou a porta. Jimin olhou apreensivo para ele. — Taehyung não quis conversar com nenhum de nós, manteve-se calado o tempo todo. Tente não forçá-lo, tudo bem?

— Tudo bem — sussurrou e levantou-se hesitante. — Chefe?

— Sim?

— Acha que ele me odeia? — Jimin mordeu o lábio e seu superior permaneceu com a mesma expressão dura.

— Ele teria motivos.

Jimin o viu dar as costas e abriu a boca para chamá-lo, mas desistiu e decidiu encarar a porta branca. Respirou fundo três vezes e apertou a maçaneta gelada, empurrando-a levemente em seguida para colocar somente a cabeça dentro da sala.

Taehyung estava deitado na maca, com cobertas até a cintura. Ele olhava para a janela enorme e movia devagar os dedos nos tecidos, parecendo nervoso. Seu pescoço estava enfaixado, assim como boa parte de seu antebraço esquerdo. Jimin não conseguia ver, mas podia sentir uma aura escura em volta dele e sentiu culpa mais uma vez.

— Taehyung? — Entrou cauteloso e sentou-se na cadeira ao lado da maca. Taehyung virou a cabeça para si rapidamente, os olhos movimentando-se astutos por cada canto de seu rosto, parecendo decifrar alguma coisa. Jimin apertou as mãos em punhos e deixou o ar vazar devagar. — Como você está?

— Eu me lembro de você, me lembro da sua voz — respondeu monótono. — Jimin… Certo?

— Certo — Jimin sussurrou com o cenho franzido, perguntando-se se o trauma deveria mesmo ter tido proporções tão extensas. Deveria ter apagado o incidente, não os detalhes de toda sua vida, eles não tinham nada a ver com o ataque. Mas, apesar dos pensamentos confusos,  Jimin sorriu por perceber que pelo menos ainda estava vivo na mente de Taehyung. — Não se lembra dos outros rapazes?

— Não os reconheci pelas vozes, não me interessei por seus rostos. Mas você… de você eu me lembro. Era meu parceiro. — Taehyung sorriu, mas não era o sorriso de sempre. Era triste, melancólico. As laterais dos lábios tremiam como se sustentá-lo fosse muito pesado e ele estivesse se segurando para não fazer outra coisa. Jimin tremeu e deixou a expressão assustada retornar.

— Sim, eu era. — Jimin tentou pegar nas mãos dele, mas Taehyung as puxou. Sua expressão permanecia a mesma, o sorriso não desmontava. Em poucos segundos, o desespero bateu forte no peito de Jimin e ele apressou-se em dizer o que estava entalado na garganta. — Taehyung, eu-

— Você me deixou para morrer.

Jimin arregalou os olhos e abriu a boca em espanto. Puxou as próprias mãos de volta para o colo e gaguejou, não conseguindo chegar em frase alguma. Taehyung continuava lhe encarando com tanta intensidade, havia tanto rancor naqueles olhos que Jimin não o reconheceu. Quis levantar e ir embora, retornar quando as coisas estivessem mais calmas, mas quando Taehyung inclinou levemente a cabeça e apontou com o queixo para a porta, sentiu que deveria ficar e ser forte, pela primeira vez em sua vida. Estava sendo desafiado, não cederia de novo.

— Tae, eu… eu…

Jimin apertou os lábios e olhou para baixo, para o joelho que não parava de balançar e para o pé que batia incessante no chão liso. Fechou os olhos e grunhiu, condenando-se por ser tão imprestável. Sacudiu a cabeça e gemeu, deixando claro que não conseguiria. Jimin não queria dizer em voz alta, tornaria as coisas ainda mais reais e difíceis de carregar. Se dissesse, estaria confirmando o que todos já sabiam e não teria como voltar atrás, como fingir que ainda era só um novato burro.

O silêncio fez-se presente na sala por alguns longos segundos até Taehyung decidir quebrá-lo com uma risada seca.

— Você não consegue completar a frase? Deixa que eu te ajudo. Você foi um covarde que me observou correndo para a morte e não fez nada, porque queria proteger o próprio rabo. E,  agora, está com um maldito peso na consciência enquanto eu estou com a garganta pegando fogo e com metade do braço largado no meio daquela rua.

Jimin gemeu e afastou-se com o baque das palavras. Taehyung nunca havia sido tão duro antes. Jimin nunca havia escutado isso dele e de nenhuma outra pessoa, sempre era poupado da verdade. Mas ali, tentando se redimir, teve de aceitar o tapa no rosto calado, processando dolorosamente. Deveria estar pedindo desculpas, mas não conseguia. Não era suficiente para redimir o estrago que havia causado, não era suficiente para afastar o remorso que sentia. O peso era grande demais, não dissolveria somente com aquilo.

Mais uma vez, Jimin não conseguiu dizer nada.

— Não importa mais — Taehyung resmugou e voltou a olhar para a janela. — Minha garganta dói tanto. Sinto sede.

Taehyung [16 de Maio de 2009, 20:00] Hospital emergencial central de York Shin

Olhou-se no espelho e soltou uma lufada de ar. O suor escorria em abundância pelo rosto vermelho e alcançava a camisola do hospital. Seus olhos estalados observavam com pavor as veias das têmporas sobressaltadas e agitadas. A boca que estava cheia de água continuava seca, a sensação percorrendo toda a garganta mesmo que estivesse engolindo aos poucos. Era como se o seu estômago estivesse cheio de gasolina e a água fosse o fósforo. Sentia vontade de gritar até ficar sem ar e perder a consciência, sentia vontade de rasgar o próprio pescoço até que ele ficasse dormente e todas as sensações estranhas que apossaram-se de seu corpo logo depois que chegou ao hospital fossem embora.

Vomitou a água que bebeu e observou-a escorrer vermelha pelo ralo da pia. Estava trêmulo, as mãos segurando a cerâmica estavam molhadas de suor e quase não suportavam sustentá-lo. Seus olhos acompanhavam hipnotizados todo o sangue indo embora, a língua contornava os lábios inchados em desespero e seus dedos arranhavam a pia em uma tentativa de escorregar para dentro dela e raspar o que parecia tão saboroso, mas Taehyung controlava-os, puxando-se para trás quando os impulsos pareciam intensos demais.

— O que diabos é isso? — perguntou para si mesmo com a voz rouca e olhou novamente no espelho, vendo seus olhos cheios de veias vermelhas. — O que está acontecendo comigo, por Deus?

Choramingou e passou as mãos molhadas pelo rosto, querendo livrar-se de todo aquele calor insuportável. Quando desceu os braços, notou a cicatriz da mordida e olhou para ela por tempo suficiente para criar alguma sugestão maluca, arregalando os olhos e balançando a cabeça com muita força. Não, o Fantasma era só um humano assassino. Fantasma? Que Fantasma? Olhou novamente para o espelho e franziu o cenho em confusão. No que estava pensando mesmo? Era como se um branco estivesse tomando conta de sua mente aos poucos, não lembrava-se mais de coisas importantes, do que fazia antes de estar no hospital ou sequer como havia parado lá. Tinha lapsos, mas esses lapsos sumiam tão rápido que pareciam pedaços assustadores de um pesadelo. Um pesadelo, nada mais que isso.

Grunhiu com a dor lancinante que atingiu seu estômago e ajoelhou no chão sujo, apertando a barriga com força. Gemeu para dentro e deitou de lado, batendo as pernas no piso enquanto as pontadas aumentavam. A saliva e o sangue escuro pulavam de sua boca e as lágrimas rolavam soltas dos olhos esbugalhados, a agonia comprimindo seus nervos. Mordeu o lábio e sufocou um grito, virando-se de barriga para baixo e acertando a testa no chão várias vezes até os ouvidos zumbirem e os braços perderem as forças, fazendo-o cair com o rosto na poça.

— Cheira tão bem e tão mal. Eu quero beber — sussurrou para si mesmo e fechou os olhos aspirando o cheiro de ferrugem. Afastou o rosto e choramingou mais uma vez. — Não posso, mas quero tanto.

Abafou mais um grito quando outra pontada atingiu o mesmo lugar e se pôs de joelhos, abrindo a boca para vomitar. O vômito não veio, mas Taehuyng conseguiu escutar um farfalhar vindo do fundo de sua garganta. Revirou os olhos e apertou as unhas no azulejo, contraindo o estômago e sentindo que a cabeça explodiria de tanto esforço. O som nauseante veio, o corpo grosso subiu pela língua e pareceu rasgar seus músculos, deslizando lentamente para fora, para a direção do piso. Taehyung deixou as lágrimas escorrerem e contraiu novamente o estômago, vendo a forma negra escorregar pela sua boca e espatifar na sua frente. Tossiu com força e empurrou-se para longe, sentado e tremendo. Era uma cobra negra e ela olhava para ele intensamente, sacudindo o rabo no ar. Taehyung arregalou os olhos e pensou em gritar mais uma vez, mas a cobra rastejou em sua direção e pulou na sua boca aberta, voltando rapidamente para dentro sem lhe dar tempo de pensar.

Taehyung deixou a cabeça pender para frente e sentiu o gosto do próprio sangue. Não conseguia sentir medo ou pavor, sentia apenas muita dor e muita sede, a cabeça confusa pensando em mordidas, cheiro humano, talvez em estraçalhar corpos ou será que em drenar tudo com a própria língua? Sangue, beber, sede, rastejar, implorar, matar e matar. Matar, devorar até não sobrar mais vida, esmagar o pescoço e escutar a traquéia explodindo em seus dedos. Era errado? Não, talvez não fosse, talvez fosse o certo. Errado, errado demais. Morreria de fome? Mas, se morresse, qual seria o problema?

— Que desperdício de vida — resmungou em resposta aos pensamentos. — Mas que belo desperdício de vida, Taehyung.

Levantou trêmulo e apoiou-se mais uma vez na pia, analisando o próprio rosto. Passou as unhas no sangue fresco e levou-as até os lábios, fazendo uma careta, mas sentindo a queimação ir embora gradativamente. Inclinou a cabeça e fechou os olhos, farejando humanos. Tão bom, tão tentador. Delicioso, perigoso, tão perigoso, mas sua garganta implorava. Precisava beber. Precisava experimentar.

— Nunca vai saber se não tentar — disse com uma voz diferente. Olhou-se confuso, não tinha dito aquilo. — Sim, você disse. Sim, você vai beber. Nós vamos beber.

— Sim — respondeu e caminhou até a janela do banheiro. Pulou três vezes até alcançar as grades e apoiou-se com os dois pés na parede, fazendo força nos ferros até que envergassem e criassem uma passagem. Olhou para baixo, para as várias pessoas que caminhavam despreocupadas pelas ruas. Seu estômago roncou e sua cabeça latejou, mas Taehyung sorriu. — Sim, nós vamos beber.

E então ele pulou e, naquela noite, Taehyung simplesmente desapareceu.

Jimin [17 de Novembro de 2012, 2:00] Avenida de bares no centro de York Shin

Jimin cambaleava um pouco pela rua movimentada. Tinha as mãos nos bolsos do casaco grosso cinza, o pescoço coberto por um cachecol de veludo amarelo e os cabelos escondidos por uma touca preta simples. Seu nariz estava um pouco vermelho por conta do frio e da boca escapava fumaça com cheiro de uísque. Seus membros tremiam levemente, as pernas aceleravam no intuito de aquecer a pequena caminhada e a mente voava em tantas indagações que ele perdia a noção de espaço e esbarrava em várias pessoas sem perceber.

Tinha ido comemorar algumas promoções com os colegas de trabalho. Jimin agora era investigador de Segunda Classe, finalmente havia subido uma posição em todos esses anos. Não considerava-se muito bom, mas se foi reconhecido pelo seu superior, significava que viam algo em si que ele mesmo não enxergava. Era bom, ser elogiado era bom, mas não fazia sua consciência pesar menos. Enquanto estava enchendo a cara e devorando petiscos, Taehyung continuava desaparecido. Sorriu com o anúncio da promoção e com a medalha na farda, mas durou tão pouco que lhe perguntaram se estava muito nervoso com a boa notícia. Jimin disse que sim, estava nervoso e ansioso com a notícia. Era mentira, mas ninguém precisava saber, as pessoas daquela delegacia esqueceram-se tão rápido do ex colega de trabalho, Jimin não queria reviver aqueles momentos tensos outra vez e ser o responsável por estragar a festa. Então, como um bom amigo, aceitou sair para beber, mas o peso não descia de seus ombros.

Saiu mais cedo que o previsto, disse que estava com dores no estômago. Não era uma mentira, não era acostumado a beber muito e, naquela noite, passou um pouco dos próprios limites. Não estava bêbado a ponto de cair, mas estava bêbado a ponto de reviver o passado tantas vezes que era como se o cérebro fosse um disco de vitrola arranhado. Pensar era necessário, lembrar-se de seu erro também e foi por isso que Jimin decidiu ir embora. Se ficasse lá, acabaria afogando-se no álcool para esquecer e ele não queria esquecer que já faziam três anos do sumiço de Taehyung e que, mesmo com os esforços dele para pegar o Fantasma naquela noite, os assassinatos nunca pararam e sua morte havia sido em vão.

Esbarrou em mais uma pessoa e pediu desculpas quando foi xingado, encostando-se na parede da calçada para recuperar os movimentos das pernas. Elas estavam moles e o faziam andar em zigue-zague, estava ficando irritante. Era por isso que não bebia, ficava frustrado com a falta de controle do próprio corpo.

Caminhou mais um pouco até se ver longe da multidão e arrastou a mão pela parede grossa, usando-a como apoio por tanto tempo que a sentiu formigando e percebeu que estava fora de si, apenas indo para frente sem nenhum tipo de foco, os pensamentos surgindo um atrás do outro sem parar e bloqueando sua visão. Parou, confuso e olhou ao redor. Estava quase retornando quando avistou o próprio carro um pouco mais a frente e sorriu aliviado, procurando as chaves nos bolsos do casaco.

— Finalmente! — disse em animação e apressou o passo, a cabeça para baixo e os olhos focados nos sapatos sociais. — Eu sou um burro por ter parado o carro tão longe do-

Quando passou por um beco escuro, Jimin escutou um barulho estranho e parou. Virou a cabeça devagar em direção ao pequeno canal e engoliu em seco, lembrando-se daquela noite e das vielas, lembrando-se do estado em que encontrou Taehyung. Tremeu e o coração disparou, a saliva desceu quadrada. Suas pálpebras tremiam e Jimin respirou fundo duas vezes, colocando na cabeça que era apenas uma alucinação sobre o passado. Estava bêbado, com sono e triste. Sua mente estava lhe pregando uma peça, somente isso. Uma peça muito sem graça.

— Estou ficando louco — resmungou para si mesmo enquanto olhava profundamente para o escuro sem piscar. — Com certeza estou.

Pegou lentamente o celular do bolso da calça jeans e ligou a lanterna na direção de seus sapatos. Enquanto pensava que estava perdendo o juízo, foi levantando lentamente o aparelho e a luz foi subindo bem devagar, revelando uma poça de sangue, um corpo e… e… e…

— Taehyung? — sussurrou estático e observou a cabeça que estava enfiada em alguma parte daquele morto levantar. Seu corpo estava quente, seus dedos tremiam e a respiração tornava-se pesada.

Jimin deixou o celular cair quando viu o rosto dele e andou para trás, tropeçando nos próprios pés e caindo deitado no chão, com os cotovelos no asfalto. Chorava silenciosamente, apenas o ar escapando rápido da boca em barulhos ofegantes e a cabeça balançando em negação. Não, ele não. Taehyung deveria estar morto, não devorando pessoas. Jimin queria que ele estivesse morto, não vivendo como um animal.

Jimin gritou de raiva, de tristeza, de culpa. Soluçou repetidas vezes quando escutou mais barulhos vindos do beco, barulhos que pareciam sangue pingando e perdeu os sentidos, batendo os dedos no chão, cravando as unhas nas pedrinhas. Sussurrou palavras que não faziam sentido, desculpou-se para o nada e culpou-se para Taehyung, culpou-se por abandoná-lo e transformá-lo naquela aberração.

— Minha culpa, minha culpa, minha culpa, minha… — Levantou-se cambaleante sem pensar direito, os ouvidos zumbindo e a visão explodindo em bolas coloridas que dissolviam-se nas paredes. — Minha culpa, minha culpa, minha culpa…

Correu até o beco e chutou o próprio celular que iluminava o chão, fazendo-o cair com a lanterna para cima. Aquela coisa que lembrava Taehyung olhou para Jimin e lambeu os lábios cheios de sangue, passando o braço em seguida pelo local. Jimin gritou alto furioso, mas ele não se mexeu.

— Você não é o Taehyung! — gritou mais uma vez e fechou os punhos. Estava chorando tanto que não enxergava através das lágrimas. — Mas se você for… Se tiver alguma chance de você estar preso aí dentro… — Relaxou a voz e deu um passo para frente. — Me desculpa, Tae. Por favor, me desculpa!

Jimin caiu de joelhos e colocou as mãos no rosto, sentindo as lágrimas lavando os dedos. Não estava com medo, não temia morrer. Naquele momento, Jimin não queria fugir e salvar a própria pele, preferia morrer a correr com a culpa enlaçando o pescoço. Ele queria trazer Taehyung de volta, queria pagar pelo que fez, mesmo que isso significasse deixar que ele o devorasse. Se fizesse a dor de Taehyung passar, ele aceitaria.

— Eu sinto tanto, eu não queria abandonar você, não queria deixar você ir sozinho. Mas eu não consegui, eu não. — Limpou os lábios cheios de saliva e olhou para Taehyung. Ele ainda o encarava fixamente. — Eu fui tão fraco!

Caiu no choro outra vez, olhando para o homem morto a sua frente. Havia estragado completamente a vida de Taehyung, agora ele não passava de um monstro que bebia sangue humano. Se tivesse sido corajoso, estaria tudo bem. Se tivesse sido…

— Hum. — Escutou Taehyung gemer e olhou para frente. Ele sorriu de olhos arregalados e depois riu, a voz fina preenchendo o beco. — Você é tão engraçado. Chora tanto que me deixa irritado.

Ele levantou-se e parou em frente a Jimin, olhando-o de cima para baixo com a cabeça inclinada. Jimin afastou-se um pouco, apoiando o corpo quase deitado em uma das mãos firmes no chão. Estava hipnotizado pelos olhos arregalados de Taehyung, pela fileira perfeitamente branca de dentes.

— Eu vou matar você, porque eu não me importo. — Ele limpou a boca ensanguentada mais uma vez e inclinou-se para baixo até estar com o rosto quase colado no de Jimin. — Hora de correr, docinho.

Jimin gritou quando teve os cabelos agarrados e foi puxado do chão, ficando suspenso pelos dedos fortes. Agarrou o pulso fino e tentou se soltar, mas não conseguia e apenas balançava as pernas no ar, gemendo sem parar por conta da dor no couro cabeludo. Taehyung riu manhoso e passou a língua pelo pescoço de Jimin, capturando o suor que acumulava.

— Você tem um gosto tão bom. Estou ansioso para experimentar — sussurrou com a voz grave e escancarou a boca, aproximando-a da clavícula de Jimin. — Me deixe degustar.

Jimin fechou os olhos com força, preparando-se para morrer, mas o aperto dissolveu-se de seus cabelos no mesmo instante em que gritos vindos fora do beco ecoaram. Jimin caiu no chão e Taehyung gemeu em irritação, sumindo pela escuridão quando pessoas se aproximaram para ver o que estava acontecendo. Jimin foi agarrado e escutou de um jeito abafado perguntarem quem era o cara do rosto vermelho, mas só conseguia prestar atenção de verdade nas pegadas que tornavam-se cada vez mais distantes.

Jimin [24 de Novembro de 2012, 2:00] Galpão abandonado no sul de York Shin

A mão de Taehyung voou em seu pescoço e Jimin sufocou mais uma vez, tentando livrar-se dela, arranhando a pele. Não conseguia, no entanto. O suor, o desespero e a falta de ar impediam que suas energias vazassem para fazê-lo escapar dali, lutar pela sua vida, por mais miserável que ela fosse.

Quando ofegou duas vezes, Taehyung largou e direcionou a mão para a máscara que cobria o rosto, puxando-a delicadamente para baixo e depositando-a na barriga de Jimin como se estivesse debochando dele. Jimin observou o sorriso cínico, os olhos escuros e o sangue no rosto, sentindo tanta vontade de desistir que por alguns poucos segundos, fechou os olhos e suspirou, desejando que tudo acabasse de uma vez.

— Eu sou o que sou, Jimin. Esse sou eu. Você gosta do que vê? — Taehyung perguntou enquanto coçava o próprio pescoço e passava a língua pelos lábios.

— Meus parceiros estão do lado de fora — Jimin sussurrou e abriu os olhos, as lágrimas escorriam. — Vão aparecer a qualquer minuto.

— Sabe, Jimin. — Taehyung sentou-se e limpou a garganta. Jimin não ousava tentar escapar, ele sentia dor e sentia medo, mas queria saber o que Taehyung tinha para dizer. De um jeito estranho, Jimin pensava que Taehyung merecia aquele diálogo, merecia a sua atenção. Era o mínimo que podia fazer para tornar sua culpa menor. — Eu tenho um olfato aguçado. O ar, este aqui e o de fora, só têm o seu cheiro. Eu só sinto e só vejo você. Então, ninguém vai aparecer. Pode gritar o quanto quiser, mas ninguém vai ouvir. E você vai morrer aqui, sozinho.

Jimin engoliu a saliva e franziu a sobrancelha em uma expressão preocupada. Onde estava com a cabeça quando decidiu perseguir Taehyung sozinho? Onde estava com a cabeça quando pensou que faria ele se entregar, que faria ele voltar a si? Foi burro e inconsequente, e agora estava ali, morreria ali e nunca mais encontrariam o seu corpo. Era isso que ele merecia? Seria esse o seu fim? As consequências dos seus erros? Jimin não conseguia responder, estava tão cansado de procurar respostas. Talvez devesse aceitar que era fraco e que jamais conseguiria escapar.

— Taehyung, acabe logo com isso — sussurrou e tentou agarrar o pulso dele, mas sua mão caiu forte no chão quando Taehyung afastou o braço. Olhou para aqueles olhos e suplicou com as lágrimas que desciam o rosto, mas recebeu apenas um sorriso.

— Você não respondeu minha pergunta. Gosta do que vê? — Taehyung aproximou o rosto do de Jimin e esfregou a face ensanguentada na bochecha dele, rindo de um jeito manhoso. — Gosta, Jimin?

— Não — suspirou e tentou se afastar, mas Taehyung pressionou suas bochechas e o manteve no lugar.

— Repita. — Taehyung apertou mais sua carne e passou a língua por seus lábios, sempre voltando a esfregar o próprio sangue em qualquer lugar. Jimin gemeu de dor e ofegou, tentou puxar o rosto, mas a pressão dos dedos apenas piorava. — Repita, Jimin.

Jimin olhou para Taehyung e abriu a boca para responder, mas fechou em seguida. Desviou os olhos, respirou fundo, sentindo dor no peito e dor na garganta, abriu e fechou as mãos até perceber que Taehyung não voltaria atrás e o faria cuspir sangue junto com as palavras se fosse preciso.

— Você não mudou nada, não é? — Taehyung riu e levantou o tronco, acariciando o rosto vermelho de Jimin com as pontas dos dedos. Seus olhos deslizavam tão rápido por todos os lados que Jimin ficou tonto tentando acompanhá-los. Seu coração acelerava e, a cada palavra de Taehyung, o fim parecia mais próximo. — Continua o mesmo fraco de sempre, não consegue nem mesmo lutar pela própria vida.

Taehyung subiu em cima de Jimin, com uma perna de cada lado de seu corpo e levou as mãos para o colarinho da camiseta social. Jimin esperneou e tentou empurrá-lo, mas estava fraco, estava com a garganta inchada e com o peito em chamas e qualquer movimento era insuportável. Não queria mais olhar para aqueles olhos, não queria mais olhar para aquele sorriso repleto de sangue, a certeza de que seria morto, a prepotência em afirmar que era fraco. Jimin não era fraco, Jimin era humano, Jimin ainda tinha sentimentos por Taehyung e matá-lo, mesmo que para se defender, ainda doía. Não queria matá-lo, mas não queria morrer. No fim, deixou seu lado sentimental falar mais alto e Taehyung sugar todas as suas energias, impedindo-o de tomar outra decisão. Não conseguiria mais uma brecha, um momento para lutar. Simplesmente morreria ali.

— Você é um monstro — Jimin sussurrou e gritou quando Taehyung puxou seus cabelos com tanta força que arrancou tufos. Tentou sair mais uma vez, mas Taehyung pulou sentado em seu colo e esmagou sua cintura no chão áspero. Grunhiu de dor e fechou os olhos, sentindo as veias saltadas no pescoço.

— Esse monstro que você vê é culpa sua. Você me transformou nisso — Taehyung inclinou-se e disse baixo no ouvido de Jimin, alargando o sorriso. — Você é como eu, só precisa exteriorizar isso, não acha?

— Do que você está falando?! — Jimin gritou e puxou as mãos de Taehyung de seu colarinho, acertando um tapa no rosto dele. Taehyung gargalhou e o segurou com mais força, Jimin arregalou os olhos e sentiu o desespero quente na boca do estômago, o calafrio percorrendo sua coluna. Ao observar aqueles olhos escuros, Jimin percebeu. — Você não faria isso!

— Somos monstros, Jimin. Todos nós.

Jimin gemeu e remexeu o corpo, mas não conseguiu tirar Taehyung do lugar. Bateu os pés no chão, acertou os cotovelos no rosto dele e balançou a cabeça em negação, tentando escapar. Pensou novamente no antigo Jimin, no Jimin inseguro chegando na delegacia, no Jimin feliz em ver o sorriso tão bonito e bondoso de Taehyung, no Jimin medroso em seus braços, no Jimin covarde na viatura e no Jimin desprezível dentro daquele hospital. Eram tantas versões, nenhuma delas capaz de salvar alguém ou a si mesmo e, mesmo depois de anos, elas continuavam aglomeradas dentro de seu corpo, continuavam dificultando as coisas. Jimin era humano, mas não pensava em ninguém, só em si mesmo. Mesmo ali, insistindo em salvar Taehyung, ele na verdade só queria aliviar a própria consciência. Suas versões giravam ao seu redor e, no fim, Taehyung estava certo. Ele era um monstro.

— Eu aceitei o meu — Taehyung continuou. — Vou fazer você enxergar o seu.

Taehyung segurou os braços de Jimin para cima e lambeu os lábios, direcionando o rosto para o pescoço dele. Jimin chorou e implorou, inclinou a cabeça para trás e a balançou, tentando desviar da boca que parecia sedenta, mas estava vulnerável e não conseguia alcançar a faca na calça. Taehyung mordeu seu pescoço com tanta força que Jimin viu estrelas, os olhos explodiram em lágrimas e as pernas balançaram freneticamente, os sapatos fazendo barulhos que ecoavam por todo galpão. Jimin gritou, gritou com todas as forças enquanto sentia a carne rompendo-se nos dentes e descolando de seu corpo, o sangue quente contornando a ferida e sendo sugado habilmente pela língua de Taehyung. Sua cabeça doeu por culpa do esforço e seus olhos começaram a fechar, as sombras pretas dançavam na sua vista e os sons de seu pescoço sendo machucado eram abafados, parecia que sua alma estivesse preparando-se para flutuar longe dali.

Mas então Taehyung baixou a guarda, suas mãos largaram seus pulsos para segurar em seu pescoço e mantê-lo parado. Taehyung estava fora de si, bebia o sangue desesperadamente e movia a cabeça de um lado para o outro, soltando resmungos e gemidos deleitosos. Pela primeira vez, Jimin foi capaz de enxergar uma escapatória. Pela primeira vez, Jimin foi capaz de considerar machucar Taehyung.

Desceu as mãos vagarosamente, tocando o bolso da jeans com as pontas dos dedos, movendo levemente o ombro até adentrá-lo e sentir o cabo frio da faca. Lambeu os lábios e piscou os olhos, afastando a maldita sensação de desmaio. Puxou devagar a arma e escondeu-a na lateral do corpo, gemendo de dor quando os dentes de Taehyung rasparam nas bordas da ferida e beliscaram um pouco. Seu coração estava tão acelerado, parecia que todo o seu corpo estava esvaziando lentamente, virando um saco murcho e inútil, e a dor apenas tornava tudo mil vezes pior.

Taehyung finalmente levantou a cabeça, seu rosto estava inteiro vermelho, o sangue escorria pelo pescoço e tornava-o brilhante na luz da lua. O rosto inclinado, o sorriso gigante, os olhos arregalados e os cabelos desgrenhados marcavam a vitória de uma caçada, a vitória de uma doce e deliciosa vingança. Jimin estava quase morrendo, afinal. Restava tão pouco em seu corpo, não tinha forças nem mesmo para encarar Taehyung.

— Eu poderia te matar, mas-

Taehyung gemeu e a boca parou escancarada, suas pupilas diminuindo devagar. De sua garganta escapava somente um resquício de grunhido surpreso, suas mãos perderam as forças no pescoço de Jimin e, lentamente, ele olhou para baixo, para onde tinha sentido a pontada intensa. E lá estava, uma faca cravada no abdômen até o cabo, enfiada em sua carne tão profundamente que tocava os órgãos. Taehyung balbuciou e tombou para o lado, deitando de barriga para baixo e segurando o cabo cinza, suas mãos manchando-se do vermelho negro de seu sangue.

— Não somos monstros, Taehyung. — Jimin conseguiu sentar-se e fez uma careta com a dor, olhando para Taehyung que respirava com dificuldade. Jimin afastou as mãos de Taehyung da faca e puxou-a para fora, fazendo-o gritar de dor. — Nós temos monstros dentro de nós. — Posicionou a lâmina na tempora dele e encarou-o intensamente. — Mas eu estou aprendendo a conviver com os meus. E quanto a você?

Taehyung sorriu e Jimin desferiu o último golpe, jogando a faca para longe e deitando ao lado do corpo, fechando os olhos para respirar. A mordida no pescoço queimava, a língua parecia inchada e a saliva não era o suficiente. Tudo doía, mas estava vivo. Estava vivo e fez o que Taehyung sempre pediu: Lutou pela própria vida.

Puxou o celular do bolso e discou para o superior, respirando com dificuldade enquanto esperava ele atender.

— Alô, Jimin?!

— Venham me buscar no galpão do Sul, está tudo terminado.

— De que raios você está falando?! Te procuramos a noite inteira! Onde você estava com a porra da cabe-

— Só venham me buscar. — Jimin engoliu saliva acumulada e a ferida ardeu ainda mais. Sentiu um calor percorrendo o corpo e olhou para cima, vendo o rosto de Taehyung quase dissolvendo-se com um sorriso na frente de seus olhos. Estava hipnotizado por ele. — Venham rápido. — Jimin sorriu e lambeu os lábios. — Nós estamos com muita sede.

“Não se esqueça de mim

Tal mudança me manteve paralisado

Eu sou um objeto imutável no paraíso

Lembre-se de quem eu sou

Me diga, me diga

Há alguém dentro de mim?”

— Unravel, Tokyo Ghoul

Oct. 26, 2018, 5:43 p.m. 2 Report Embed 3
The End

Meet the author

Penduluns Escritora ainda em treinamento, faço do terror meu verdadeiro lar. Sou uma amante da noite.

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Cintia Walter Cintia Walter
Estou fascinada pela sua escrita! Me arrepiei e senti na pele muitos dos sentimentos que você transcreveu durante a história. Os detalhes também são muito bem descritos e eu só tenho a agradecer por ter postado aqui uma história tão boa e admirável. Você é incrível. sério <3
Nov. 18, 2018, 5:16 p.m.

  • Penduluns Penduluns
    AAAA Muito obrigada! Fico muito feliz que você tenha gostado de Quebrável, foi uma one que realmente me deu MUITO trabalho e foi muito difícil passar em palavras o que estava na minha cabeça, mas eu gostei muito do resultado final. Obrigada pelo comentário! <3 Nov. 21, 2018, 11:15 a.m.
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