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isoft yang ♡

Jungkook gosta de viagens sem destino, gosta de vagar por aí, , pois não sabe aonde irá, quem conhecerá e por quem se apaixonará, porém, tudo foge dos planos quando sua família resolve mudar-se de volta a Busan. Eis que conhece Kim Taehyung um cara que não passa gel no cabelo tampouco usa jaqueta de couro, é o intruso no seu esconderijo. [VKOOK | FLUFFY | ANOS 80]


Fanfiction Young Adult Romance For over 18 only.

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Capítulo 01 (Prólogo)


Quando Yoongi me olha sinto uma nostalgia. Mesmo que me lembre a vez que nos conhecemos pela primeira vez essa situação não parece tão boa assim. Talvez porque ela se torna uma memória triste ou estranha quando formos ficando mais velho. Sei que ele está triste, quem não estaria quando seu melhor amigo está indo embora? Não quero ir. Tanto porque aqui em Daegu tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis quanto porque aqui tenho as melhores memórias da minha infância, além do óbvio, aqui mamãe não enjoou tão rápido quanto os outros distritos.

Como de costume estamos no velho Parque de Diversões. Está fechado desde de 1978 após o dono ter sido denunciado por abuso de poder contra os empregados. O parque continua aqui mas não tem a mesma diversão de antes. Tenho certeza que deve ser incrível vê-lo brilhar a noite com seus holofotes riscando o céu. Uma verdadeira diversão para a família. 

Aqui é meu esconderijo, mais de Yoongi do que meu. Porque gostamos de fugir. Gostamos de seguir por aí, vagar por aí, sem destino, sem saber onde chegaremos, quem conheceremos. De fato, uma grande aventura. Lembro que quando mais novos chegamos a fronteira entre as Coréias. Naquela época não entendiamos muito bem o motivo daqueles homens enfardados estarem lá. O que mais me dói é lembrar que não poderemos fugir como antes.

— Você é uma ótima lembrança, Yoongi.

Digo enquanto jogo uma pedrinha na água. Ainda não sei fazê-la quicar como ele faz mas me divirto com as tentativas. Não vejo seu sorriso, mas sei que está feliz. Não completamente porém o suficiente para um "vou ficar bem, está tudo bem".

De todos os caras que já conheci mais louco que eu apenas Yoongi. Acho que sou a única pessoa capaz de entendê-lo, afinal somos loucos na mesma intensidade — só não tenho coragem o suficiente para pintar meu cabelo de vermelho, embora seja tentadora a ideia de ter algumas garotas gamadas "na sua chama". Ele é o cara mais louco do mundo, depois que eu me olho no espelho. Não usa jaqueta de couro, fala que jamais passará gel no cabelo. Um completo vagabundo. Mora com a mãe e dorme o dia todo. Somos vagabundos.

Estamos nos mudando para Busan e, quando digo estamos me refiro apenas a minha família. Quero poder levá-lo junto mas nem mesmo ele quer deixar Daegu.

Já faz tanto tempo que sai de lá que não lembro mais como são as ruas. 

É legal seguir sem rumo pois não sabemos onde vamos parar, não sabemos quem iremos conhecer, por quem iremos nos apaixonar, mas sabemos que um dia teremos que voltar para casa, ouvir alguém sábio dizer um "eu te avisei" e falar que mesmo sabendo que algum dia quebraria a cara resolvemos arriscar. Porque somos jovens e nossa juventude pode ser vista no olhar.

Gosto de viagens sem destino, gosto de pegar trens e sair por Seoul a fora sem destino nenhum. Alguns dizem que perco meu tempo vagando de trem a trem, de estação a estação, mas bem no fundo sei que eles têm inveja da minha ousadia por não me importar com o que dizem. Se eu fosse me preocupar com cada coisa que me falam eu definitivamente seria mais louco do que meus próprios boatos. No fundo sei que coloco um pouco de esperança e beleza nas belezas que faço mas certamente não sei o que diabos estou fazendo aqui. Eles têm razão em falarem que estou louco, mas dane-se.

De fato mudanças são estressantes e mamãe é uma rainha por aturá-las. Costumo chamá-la de entediada pois constantemente está fugindo com a mesma desculpa de ter cansado das coisas, não a culpo, realmente coisas monótonas são estressantes, mas ela é um caso a parte. Sendo cozinheira profissional entendo que costumes não podem estar em seu vocabulário pois sempre vive completamente trancafiada na cozinha criando pratos novos. 

Foi até irônico ela ter comentado sobre ter enjoado da cidade. Como pode enjoar de algo que nunca viu? De qualquer forma na manhã seguinte estaríamos nos mudando para Busan, novamente, para uma cidade diferente. Como mamãe não nota que está fazendo as mesmas coisas?

Desde que me lembro ela é assim.

A primeira vez que lembro de ter acontecido foi no natal de setenta e quatro quando eu tinha nove anos. Era natal, ainda morávamos em Goyang na fazenda de meus avós e faltava algumas horas para os vizinhos colorirem os céus com seus fogos de artifícios. Lembro que meu nervosismo era tão grande que passei maior parte no tempo na varanda esperando. 

Mamãe fugira para Osaka no Japão com a desculpa de ter cansado do natal sul-coreano, mas era tão incrível que não sei como ela pôde enjoar de algo tão bonito. Mesmo assim aquele fim de ano não foi ruim. Papai queimou o peru e tivemos que comer o resto do balde de coxas de frango que meu tio deixou no dia anterior, graças à Kyungsoo — meu irmão mais velho — o frango não saiu queimado.

Alguns dizem que papai é um pai ruim mas ninguém suportaria um Jungkook de nove anos enchendo o saco para assistir desenhos animados e não um jogo de hóquei da liga principal. 

De todo, meu momento mais marcante com meu pai foi quando fui pela primeira vez a um jogo de hóquei, a liga de oitenta. Estávamos eu, Kyungsoo, papai e titio Jisung assistindo ao jogo quando o último ponto foi marcado e, Jean, o melhor jogador da década passada veio até a torcida e assinou minha camisa. Pode parecer pesado para uma criança, mas eu não vi o exato momento quando isso aconteceu porque eu estava juntando as pipocas que caíram no chão com a cotovelada de uma mulher ao meu lado. Jean sofrera uma parada cardíaca momentos depois de ter autografado minha camisa.

Nunca mais a vi, mas sei que papai a guarda bem em alguma caixa por aí. Sei que não precisarei mais usá-la, ou vesti-la para fingir a vovó que sou o Jean, seu namorado, e jogar um pouco com os primos, mas eu gosto da ideia de tê-la guardado. É uma excelente lembrança, admita, mesmo que estranha. Depois do jogo voltamos para casa, fui dormi estranhando mamãe estar em casa. Aniversários são loucos.

— Então, vamos nos separar. Quero dizer uma coisa — faz uma pausa e aproveito para olhá-lo —, quando se sentir sozinho ou sentir saudade olhe para o céu. Verá que o compartilhamos e não será tão doloroso assim. — Repito seu movimento de inclinar a cabeça entretanto diferente de si, não fecho os olhos. Preciso guardar uma provável última lembrança juntos.

— Falando desse jeito até parece que não nos veremos nunca mais. Sabe que pode pegar um trem e ir me visitar qualquer dia! — tento reconfortá-la abaixando a cabeça e massageando o pescoço. — A única coisa que um dia poderá nos separar é se um de nós resolver usar a sanidade. Tenho que voltar para casa, pegaremos a estrada amanhã bem cedo! Qualquer dia posso telefonar, caro Yoongi. Me espere!

Depois que me viro e saio correndo não sei se posso dizer que ele está sorrindo. Acho que nossa despedida tenha sido vazia demais mas também não é como se fossemos pegar pedras mágicas no lago fazer colares e prometer amizade eterna. Mesmo que eu ache que devesse ter sido diferente não sei se há uma outra conversa que poderíamos ter tido. De qualquer forma espero que Yoongi não surte.

Voltar correndo cansa qualquer um além de gastar mais meus all star velhos. Quando abro a porta vejo mamãe caminhando de um lado para o outro trazendo caixas diferentes e de tamanhos variados, depois colocando-as no enorme caminhão estacionado em frente a casa. Papai está conversando ao telefone enquanto lê jornais da semana passada. Algo me diz que ambos estão tentando o máximo para essa mudança dar certo, principalmente em relação a suas profissões: ele é advogado.

— Ei, Jungkook, venha me ajudar! — Kyungsoo me chama. Está cortando legumes.

Desde que mamãe passou a ter crises frequentes meu irmão mais velho se dedicou a aprender a cozinhar, a cuidar da casa e a principalmente manter o controle. Sei que sempre tenta ser um bom exemplo para mim e não posso estar mais grato que tê-lo ao meu lado. Temos uma boa relação embora em algumas das vezes sempre o culpem por eu estar dando escapadas com Yoongi. Se ao menos soubessem que ele ficava até tarde da noite velando meu sono enquanto esperava mamãe chegar jamais diriam isso.

— Já conversou com Seunghwan? — é eu quem pergunta e minha nuca arrepia por estar pensando que estou sendo inconveniente por estar me intrometendo em seus assuntos. Somos próximos mas não costumamos falar tão abertamente de nossos relacionamentos.

Kyungsoo respira fundo antes de me responder.

— Ela está bem. Desde quando mamãe teve essa ideia absurda de querer se mudar comentei sobre tudo. Felizmente me entendeu perfeitamente. Prometemos telefonar um para o outro. Seunghwan é realmente uma garota de ouro! — vejo suas bochechas tomarem tons rosados. Ele é definitivamente e completamente apaixonado por Son Seunghwan.

Imagino que está sendo muito difícil ter que lidar com essa situação para ambos os lados. E pensar que terminei com Umji uma semana atrás me leva a me questionar se estaríamos como eles nessa situação. Provavelmente não. Umji é frágil.

— Ela realmente é. Como você está lidando com isso tudo? Porque eu acho que vou acabar explodindo. Estou me sentindo muito mal por estar deixando pessoas importantes para trás.

— Assim como todas as outras vezes teremos que nos adaptar, Jungkook.

[...]

Quando Kyungsoo entra no carro papai ainda está verificando se está tudo bem com o motor da caminhonete para uma longa viagem. Nicole é nossa lata velha e por alguma razão creio que esteja no testamento para divisão de bens. Colocamos o cinto, olho pela última vez para a casa antes de papai voltar para a caminhonete e dar partida. Será uma longa viagem. Simplesmente coloco o walkman para tocar.

Me pergunto se Yoongi está bem, se não vai cair no vício e voltar a fumar. Não quero que isso aconteça. De fato não sou obrigado a ir para Busan mas sou menor de idade, pararia num interno e ter minha liberdade roubada é a última coisa que quero. Mamãe está sorrindo enquanto folheva um catálogo de sobremesas, me pergunto se ela não enjoa de seu jjangjjangmyeon. Pessoas são complicadas de entender.

Sinto o olhar de Kyungsoo sobre mim. Quero dizer que tudo está bem e se não estiver vai ficar, porque como todas as outras vezes iremos nos acostumar. Um dia acordaremos e veremos que tudo voltou para seu lugar. Milady — a cadela de papai — pula para meu colo e dorme. Desde ontem não consigo pregar os olhos, estou frenético.

Agora percebo novamente o motivo por eu não gostar de saber para onde estou indo. Já faz tanto tempo que sai de Busan mas ainda assim sinto que as pessoas não mudaram muito, acho que quase nada e, isso me entristece. É triste ver as pessoas se perdendo.

[...]

— Nossa nova casa, garotão! — papai fala, olhando-nos pelo espelho do carro e depois passando a mão em meu cabelo bagunçando-o. Já tentei fazer isso com ele, mas ele é careca. Não sei como ele não se incomoda com todas essas mudanças. Olho a casa ao lado. É grande e se colocasse fantasmas, bruxas, vampiros, teias de aranhas falsas seria o local perfeito para um caçador de lendas. — Levem suas malas para dentro, o resto eu e sua mãe levamos.

Apenas concordamos e pulo da caminhonete após Milady arrastar as patas na porta chamando-me para fora. Quando foi que ela saiu? Somos próximos quando tenho que colocar comida. Arrasto os pés pelo gramado e, devo admitir, não devem cortá-lo há um bom tempo. A paisagem é legal, as casas são um afastadas uma das outras e, eu vi, vi a linha de trem que alguns metros ao longe. É inevitável não pensar em Yoongi. Se viesse algum dia seria nosso esconderijo. 

Pego Milady no colo, um belo poodle — prefiro dizer que ela foi um unicórnio em alguma vida passada. Jogo a mochila nos ombros e acaricio os pelos seus pelos macios. Acho seu nome bonito.

As árvores ao lado estão secas, mas ainda é primavera, o gramado amarelado precisa ser regado e, é preciso tirar as folhas secas da calçada. Quando vou abrir o portão Kyungsoo o faz por mim. O barulho estridente já o suficiente para que ela reclame. Vai enjoar disso também? Papai abre a porta e não vejo nada, Milady pula do meu colo e corre para dentro. Vejos pelos pelo ar. Animada desse jeito com certeza há um porão. As janelas são abertas e vejo a escadas ao lado praticamente em frente a porta, ao lado a outro cômodo e pelo balcão presumo ser a cozinha. 

Já prevejo mamãe enjoada de uma cidade que nunca verá. Ela é de Hongdae, Busan seria o último lugar para onde ela viria.

Apenas ignoro os comentário de mamãe sobre a casa e principalmente sua ideia de podermos arrumar a casa enquanto os móveis não chegam. O porão será dedicado a Milady e as ferramentas de papai — ele adora a Nicole, sua caminhonete enferrujada. Mesmo sendo advogado ele gosta de andar na lata-velha, na verdade ele gosta de guardar lembranças. O sótão será meu quarto, é espaçoso e tem vista para a linha de trem. Kyungsoo prefere ficar com um dos quartos de hóspedes. 

Jogo a mochila no chão. Infelizmente não há um telefone por perto. Quero telefonar para Yoongi e dizer sobre nosso futuro esconderijo, dizer que está tudo bem e que prometo um dia voltar. Só em pensar que os móveis chegarão em três horas me assusta. Por que diabos não trouxe HQ's na mochila?

O que me resta é ouvir música no walkman, olhar os trens que passam lá fora e principalmente tentar me adaptar, como todas as outras vezes.

[...]

Já estamos há uma semana aqui e foi fácil, está sendo estranhamente fácil.

Tem o carteiro que sempre cumprimenta Milady, o leiteiro que sempre nos dá uma garrafa a mais por sermos novos na vizinhança e um cara que entrega jornais. Se eu o conhecesse poderia apresentá-lo para papai. Ele realmente gosta de entregadores de jornais. Nesse meio tempo me adaptei parcialmente. Ainda estou lidando com o fato do sótão ser no último andar o que torna minhas rotas de fugas quase impossíveis. 

No domingo, na mesma semana que chegamos fomos convidados para um churrasco na casa dos Lee. Conheci um tal de Taemin, ele é professor de dança mas agora está em Londres aprendendo música. Quando o conheci senti inveja, mas ao mesmo tempo me senti bem comigo mesmo. Porque ele fez o que queria, depois foi realizar o sonhos dos pais. Será que realmente orgulho os meus?

Quando mamãe me disse que eu voltaria a estudar não vou mentir, tremi. Porque faz tanto tempo desde que pisei num colégio. Lugares onde somos educados para sermos politicamente corretos me dão coceira. Geralmente as pessoas que nos colocam nesses lugares prezam por nossa juventude mas querem nos tornar adultos desde pequenos. Só queremos ser quem quisermos, ficar até tarde na rua, curtir com os amigos, enlouquecer de amor, amar o mundo e ser amado de volta. Dane-se os termos corretos, não há certo ou errado em sermos apenas nós.

Mas esse pensamento já deixou de ser argumento para senhora Jeon que apenas joga minha mochila para mim enquanto papai gira as chaves de Nicole nos dedos. Ele provavelmente almoçará em casa pois faz muito tempo desde que mamãe preparou alguma coisa para comermos em família. Vamos para o carro e seguimos para o colégio. Kyungsoo pontual como sempre já está lá.

No dia anterior não tive oportunidade de conversar com Yoongi, então apenas arrumei meu quarto, tomei banho e fui dormir. Milady é carente e odeia escuro então veio dormir comigo. Ela é pior que Yoongi; ele vai te empurrando lentamente para fora da cama, já Milady te chuta, late e te xinga para ir embora como se o quarto fosse dela. Minhas costas doem só em pensar naquele chão duro — como se fizesse muita diferença entre dormir em um colchão improvisado. 

Tanto é que quando chego no colégio e saio do carro sinto todas minha vértebras estralarem. Sou crocante. Me despeço de papai antes que alguém o telefone para cuidar de algum caso e como de costume ele bagunça meu cabelo.

— Sem pular muros desta vez! — papai fala e Kyungsoo ri ajeitando meu cabelo. 

Lamento. 

Penso em tentar convencê-lo mas ele dar partida na caminhonete e vai embora. Ficamos parados vendo-o sumir na esquina. Giro os calcanhares e olho o colégio. O muro é alto demais. Mesmo se quisesse fugir precisaria de um cúmplice e ele não está aqui. Sem pular muros apenas desta vez. Certamente terei outras oportunidades e se não houver, eu crio. Afinal Kyungsoo jamais aceitaria em ser meu colega de trabalho. 

Enfio as mãos nos bolsos do casaco do uniforme e me arrasto pela entrada.

Como meu irmão é veterano há em números romanos um "III" em sua gola, diferente do meu que há um "II". Só espero que ele não descubra sobre sua festa surpresa de aniversário no sábado. Infelizmente hoje é segunda.

Sei que todos aqueles adolescentes manipulados estão nos olhando e provavelmente nos julgando. Quero gritar e dizer-lhes para ser o que quiserem, mas isso têm que descobrir sozinhos, então, simplesmente os ignoro. Eles são especiais, só não sabem disso. 

Vamos a direção e com a ajuda de uma mulher encontramos nossas salas. As turmas do segundo ano ficam no segundo andar, sendo assim acho que as demais também sejam conforme os números. Felizmente sem apresentações e discursos de "espero que tomem conta de mim". Espero que tomem conta da própria vida.

Não sei o que falaram durante as duas aulas pois apenas percebo que o tempo está passando quando o sinal toca e todos parecem mais focados em unirem-se a seu grupo. Yoongi diz que esses tipos de pessoas não sabem passar um dia sozinhas então apoiam-se em outras, não é amizade, ou amor de irmão, apenas uma companhia para sobreviver aos torturantes dias no colégio. Já para mim ele costumava dizer que nós éramos nosso bando, um bando de lobos, uma alcateia, pois tínhamos trabalho em equipe, companheirismo. 

Mas de qualquer forma isso ainda não está tão claro assim.

Sei que a garotinha a meu lado está me olhando, ela não é muito discreta.

— Meu nome é Yuqi.

Pode ser que eu já tenha visto algumas garotas de franjinhas encantadoras mas aquela parece diferente. Parece ser aquele tipo de pessoa que marca presença sendo dificilmente ignorada. Ou talvez eu esteja errado. Ela precisa de uma companhia para sobreviver os dias escolares. Também preciso.

— Jungkook — falo mesmo que ninguém tenha perguntado. Acho que estamos tendo uma conversa por telepatia e verbal.

— Você não é de falar muito — a garota apoia o queixo na mão. Mais intimidadora ainda.

— Não gosto de falar coisas idiotas — imito seu gesto. Ela parece louquinha.

— Algumas pessoas deveriam ser como você.

— Ou talvez elas devessem ser elas mesmas.

Yuqi levanta-se e ajeita a saia de seu uniforme.

— Vamos? — pergunta e, é nítido que não sei sobre o que está falando, de qualquer forma ela ri, depois puxa-me pelo braço. — Cerimônia de primeiro dia de aula, todos devem estar no ginásio em quinze minutos — por algum motivo estamos correndo pelos corredores. — Idiotas manipulados vão.

— Você é uma idiota manipulada? — ainda estamos correndo.

— Definitivamente não.

Preciso avisar a Yoongi que seu lugar como meu cúmplice está em risco. Yuqi definitivamente também não precisa de companhia para sobreviver e definitivamente sabe que é incrível. Dane-se a vez de não pular muros, mais vezes virão pela frente.

[..]

Yuqi ainda tem a mão me puxando para onde quer ir. 

Em uma outra situação e com outra pessoa eu correria em sentido contrário para o mais longe possível. No entanto, meu sensor protetivo não detectou que essa garota é perigosa e, se fosse devo lhe dar o prêmio de atriz, pois sua capacidade em mudar de personalidade é incrível. Não sei porque estou me deixando levar por ela mas de qualquer forma se estiver me levando a algum lugar para me matar tenho certeza de que não estaria chamando tanta atenção pelos corredores.

Estamos em frente ao muro e me pergunto como chegamos aqui em pouco tempo — correndo, talvez? Os alunos continuam seguindo para o ginásio e felizmente não nos notam. Espero que Kyungsoo não aparece e me pegue no pulo do gato. Analiso a parede. É alta, alta o suficiente para que ninguém pule e, por alguns segundos me questiono se resolveram me matricular aqui pela altura deles. Talvez Yuqi tenha vindo para cá pelo mesmo motivo. Seja lá o que for nada nos parará.

Ela arrasta uma mesa quebrada que estava amontoada a várias outras. O fundo da escola é uma espécie de lixão e provavelmente alguém vem aqui. De qualquer forma jamais meu esconderijo será aqui, afinal, quem se esconderá no lugar de onde quer fugir? Em partes a ideia é legal, serve para confugir os inimigos.

— Vou passar, depois te puxo.

Sua ideia é maluca mas eu não me importo, somos loucos. Então, apenas balanço a cabeça assentindo. Ela dá uma risadinha antes de subir e em um piscar de olhos a vejo em cima do muro com a mãos estendida para mim. Verifico se não há ninguém por perto que possa estragar nossos planos. Infelizmente há.

É o vigia, está de costas para nós.

Silenciosamente subo na mesa e agarro sua mão. Na minha cabeça somos os melhores espiões do mundo com um trabalho em equipe impecável. Quando sua mão toca a minha sinto uma corrente elétrica passar por meu corpo. Sinto confiança.

— Ei, vocês!

Ao ouvir a voz do vigia aperto sua mão e coloco impulso para subir equilibrando-me sobre a mesa. A adrenalina corre minhas veias, minha espinha congela só em pensar que podemos ser capturados. Entretanto, somos os melhores espiões do mundo e isso é inadmissível. Quando já me dou conta estou em cima do muro rindo com Yuqi vendo o vigia se aproximar. No exato momento que chega perto, pulamos.

Nossos pés fazem um barulho engraçado quando chegamos ao chão.

— Isso foi muito louco! — meu rosto dói de tanto sorrir mas é difícil parar.

— Eu sei! Mas agora precisamos correr!

Não tenho tempo de contradizê-la pois sua mão agarra meu pulso e retorna a me puxar. Mesmo que minha vez de não pular muros não seja esta, penso por alguns segundos o que está sendo dito no ginásio. Sei que temos alguns minutos de diferença até que alguém nos alcance e com esta correria conseguiremos mais alguns.

Não sei para onde estamos indo, nem quero saber. Algo me diz que posso confiar, então seguro sua mão deixando-a me levar. Estou ansioso apenas em imaginar aonde chegaremos, quem conheceremos e principalmente o que faremos. Olhando Yuqi correndo imagino que seja apaixonada pela vida, faz tudo tão intensamente sem se preocupar com o que acontecerá. Pela primeira vez a ideia de fugir não me parece tão má. Acho que sou errado com mamãe por julgá-la sendo que faço a mesma coisa.

Sei que as pessoas estão nos julgando, contudo isso não nos importa. Yuqi pode muito bem largar minha mão e continuar correndo sozinha, mas não o faz. Sempre quando nossas mãos escorregam um pouco faz questão de apertá-las unindo-as novamente. Provavelmente agora estejam ligando para nossos pais e falando sobre nossa fuga, isso não importa, há coisas importantes que não são tão importantes assim, não agora.

Agora estamos parados, cansados, tentando recuperar o fôlego. Leva alguns segundos para que reparemos na loucura que fizemos e começamos a rir. Não ouço barulhos de carros, mesmo estando rodeado de vários e não há ninguém além de nós aqui. Estamos em uma espécie de ferro-velho.

— Esse é meu esconderijo. Bem vindo!

Quando a olho está de braços abertos sorrindo. Atrás de si há o mar. Talvez tenha se passado dez minutos em nossa correria, provavelmente alguém virá atrás de nós. Não sei onde estamos, não lembro de já ter vindo aqui, pois certamente eu lembraria de um lugar bonito como este.

— O que acabamos de fazer é muito loucura! — falo pela segunda vez.

— Vai se acostumando, costumo enlouquecer bastante.

Ela começa a caminhar com as mãos atrás da cabeça. Sigo-a.

— Digo o mesmo — fico olhando seu jeito engraçado de caminhar — Por que seu esconderijo é aqui? — ao ouvir minha pergunta vira-se mas continua caminhando. Conhece o lugar de cor e de olhos fechados. — Não tinha um lugar mais perto? — e ri.

— Quanto mais longe de idiotas melhor.

— Apenas você vem aqui? — começo a chutar as pedrinhas em meu caminho.

— É um esconderijo, seria lógico apenas eu conhecer! — vira-se novamente.

— Então por que aquele cara está ali? — noto o cara. Tem o casaco de nosso uniforme em uma das mãos e caminha cabisbaixo. Seu cabelo é vermelho e me lembra muito Yoongi.

— Onde? — Yuqi olha para mim e seu olhar é assustador. Indico o lugar. — Precisamos ir embora! — quando ela tenta agarrar meu pulso desvio rindo.

— Por que? — sorrio.

— Aquele cara é problema.

— Relaxa, também somos! — ela sorri de volta.

— Pirralhos como vocês deveriam estar estudando. Ainda mais você Yuqi.

É estranho ouvir sua voz. Parece debochar de nós.

— O que está fazendo aqui? — a expressão de Yuqi não é uma das melhores.

— Sua mãe pediu para eu vigiá-la, então segui vocês até aqui. Onde aprenderam a correr tão rápido, hein? E, novato, essa garota é mais problemática do que eu.

— Pular muros e fugir é minha especialidade. Jamais seremos pegos — falo.

— Cai fora, Taehyung! Me deixa em paz! — Yuqi me puxa e o avermelhado parece respeitar sua decisão, mesmo que tenha recuado alguns passos rindo. — Imbecil do cabelo de fogo...

— Quem é ele? — pergunto mesmo que eu não tenha nada haver com o assunto.

— Six. Faz parte do trio "Os terrores do terceirão", ano passado foram do segundo, igualmente ao primeiro. Eu poderia te pedir para ficar longe dele, mas falar isso seria pedir para ficar longe de mim.

[...]

Quando volto para casa o carro de papai não está em frente a casa. Estranho. Por um minuto, não minto, gelei. Se papai não está em casa há poucas possibilidades que o levou a sair. Quem sabe não nos mudamos no próximo final de semana.

O arrependimento de ter fugido da aula com Yuqi não existe. 

Depois de aproveitarmos a vista do mar e termos jogado conversa fora voltamos para o colégio já sabendo que levaríamos uma advertência, suspensão, detenção, ou qualquer outra coisa, mas sabíamos que de qualquer forma pagaríamos. No final tivemos uma conversa com a diretora e estamos de detenção pelo resto da semana, ou seja, além de limpar as salas no fim das aulas teremos que ficar sentadinhos olhando para um cara enjoado por mais uma hora.

Felizmente Kyungsoo estava lá para nos defender, ter um irmão mais velho tem suas vantagens. Ainda espero que ele não descubra sua festa surpresa atrasada.

Sei que mamãe e papai já sabem do ocorrido e imagino que já tenham brigado. Eles sempre discutem culpando um ao outro pela minha "má educação" — ou culpando o próprio Kyungsoo. Odeio quando fazem isso e depois agem como se eu não soubesse. Toda minha "má criação" vem de uma mulher que some quando está enjoada, de um homem que se esforça para preparar um arroz e um irmão que faz o impossível por mim. Talvez eu deva me agradecer por não ser uma pessoa pior.

Ao girar a maçaneta aperto a alça da mochila. Não vejo ninguém e sigo para a cozinha onde encontro um post-it grudado a geladeira. Com toda a correria da mudança acabei esquecendo sobre o aniversário da morte da vovó. Apenas eu que acho estranho comemorar a morte das pessoas? Tia Yuri virá cuidar de nós.

— Pelo menos poderá livrar seus coros de umas belas porradas por uma semana.

— Não seja tão mal comigo, Kyungsoo, você sabe como funciona o espírito juvenil!

Quando a ficha cai percebo a burrada que falei.

Kyungsoo não sabe como funciona o espírito juvenil porque nunca o aproveitou. Focou apenas em cuidar de mim, de dar o que não me deram. Sou um completo imbecil.

De acordo com o recado nosso almoço está no forno, mesmo assim não comerei agora. Tomo banho, troco de roupa e contínuo no sótão, vulgo meu quarto.

Quero dar uma olhada nos trilhos lá fora e quem sabe passar um tempinho lá, mas também quero telefonar para Yoongi e perguntar se está bem, se não ousou tocar em cigarros. Mas dane-se, não há nada de importante, nada é importante para mim.

Mamãe e papai voltarão em uma semana, de qualquer forma não preciso economizar a comida na geladeira. Kyungsoo está aqui. Tenho que tomar bastante cuidado em não bagunçar a casa, a preguiça de arrumar é maior que a vontade de desorganizar. Temos a casa pelos próximos dias, podemos fazer o que quisermos — quando digo isso quero dizer que as vezes de não pular muros pode ser atrasadas —, isso me faz lembrar de quando éramos mais novos e Kyungsoo cuidava de mim, mesmo de costas sabia o que eu estava fazendo. 

Me assusto ao ouvir o telefone tocando. 

Penso em permanecer deitado. Quem está ligando ache que não há ninguém em casa, no entanto, penso que possa ser algo importante — não para mim — e volto ao primeiro andar.

— Aqui é a idiota não manipulada! — a voz de Yuqi pode ser ouvida até mesmo sem o telefone. — Quero que me mostre seu esconderijo.

— Não vivo me escondendo — vivo fugindo. Apoio as costas na parede e cruzo os braços. Ouço os pratos na cozinha. Kyungsoo deve estar lavando a louça.

— Agentes secretos precisam de bases ultra secretas, cara! Nunca te falaram isso, não? Onde você acha que as três espiãs demais treinam para suas missões antes do Jerry chamá-las?

— Isso é maluquice — sei que ela sabe disso.

— Se você não enlouquecer do seu jeito, vai enlouquecer do jeito deles.

O silêncio predomina. Não sei o que lhe responder. Escuto a buzina de um carro. Tia Yuri chega em seu fusca preto. Não sei a quem Yuqi se referiu, mas pelo seu tom de voz sente nojo.

— Se você descobrir onde moro te mostro meu esconderijo! — a desafio. Se descobriu o telefone da casa pode muito bem descobrir o endereço.

— Você ainda não tem um esconderijo! — depois pergunto como ela sabe. — No seu esconderijo não teria um telefone, não levamos o problema junto conosco quando estamos tentando fugir. É por isso que vou ajudá-lo a encontrar um esconderijo! — é como se eu pudesse imaginá-la sentada no sofá de sua sala enrolando o fio do telefone nos dedos enquanto sorri imaginando mil e uma coisas sem sentidos.

Tia Yuri entra e me cumprimenta depois segue para a cozinha indo fazer companhia a Kyungsoo. Eles sempre foram muito próximos.

— Se é meu esconderijo apenas eu devo saber a localização — revido os argumentos da garota. É incrível sua habilidade em não desistir facilmente das coisas.

— Te mostrei meu esconderijo, retribua o favor! — talvez agora ela esteja sacudindo o cabelo e depois passando os dedos em sua franja que quase toca seus cílios.

— Precisamos correr de novo? — pergunto e ouço tia Yuri me chamar.

— Se houver pessoas atrás de nós, talvez! — ela ri de novo. Ou talvez ela esteja pintando suas unhas em um começo de noite.

— Como se eu pudesse recusar! — ouço-a da uma última risada antes de desligar.

Após a chamada ser encerrada vou para a cozinha.

Tia Yuri é uma mulher jovem e seu novo corte de cabelo a deixou mais juvenil. De qualquer forma, garotas de cabelos curtos me encantam, mas também gosto quando elas têm seus fios caindo em cascatas, principalmente quando voam ao vento. Ela está no balcão cortando alguns legumes e Kyungsoo está no fogão mexendo na panela. Quero dizer que o almoço já está pronto, porém, olho o relógio na parede. São quase seis horas da tarde, não almocei. Ou seja, é  jantar e não o almoço.

— Vi seu almoço no forno. — Tia Yuri fala.

Sorrio amarelo. Sempre foi assim; toda vez que tia Yuri conta algo que eu fiz com aquela expressão de sorriso ladino fico envergonhado. Acho que passei a agir desse jeito desde quando me falaram que ela me dava banho.

— Perdi o horário.

— Perdeu o horário fazendo nada, essa é nova! — ela ri deixando a faca de lado e joga os legumes picado dentro da panela. Estão provavelmente fazendo alguma sopa. — Era sua amiga ao telefone?

— Colega de classe — corrijo. Não sei onde Yuqi se encaixa.

— Ela vai vir aqui? — Kyungsoo pergunta. Seus olhos brilham. Sei que está ansioso em poder fazer mais comida.

— Se descobrir — sorrio me inclinando sobre o balcão.

— Você e essas suas ideias! — Tia Yuri prova um pouco do caldo com uma colher de madeira.

— Se alguém me procurar diga que não estou.

Antes de subir para o quarto ouço suas risadas mas sigo meu caminho porque me sinto nu em sua presença e também porque não sei se realmente quero receber Yuqi. Provavelmente nem sabe onde moro, mas referindo-se a ela tudo é possível.

Quando chego no quarto Milady está sobre minha cama me olhando.  Já sei que aqui não poderei ficar e de todo mal a presença de Yuqi não é tão ruim. Talvez eu só não queira me apegar pois se depender de mamãe podemos ir embora no final de semana. Então, me dirijo para fora de casa e fico sentado nas escadinhas entre a porta e o gramado — agora cortado.

Tia Yuri está preparando o jantar e estou preparando alguma desculpa para Yuqi, não porquê não quero vê-la mas sim porque não quero decepcioná-la revelando que na verdade não tenho esconderijo algum. Sou um péssimo espião.

— Relaxa cara, não precisa se cobrar tanto! Ainda temos o meu esconderijo.. Que... Aquele cara acha que é dele! — bufa e sua franja voa.

Yuqi está na calçada sobre sua bicicleta com seu moletom de arco-íris. Nunca alguém ficou tão bonita em tantas cores. A principal coisa que se destaca é seu cabelo.

— E aí, coelhão? Não vai me convidar para entrar? — seus coturnos também são legais.

— E por que eu deveria? — falo e ela cruza os braços.

— Senão eu vou invadir sua casa!

— Com o quê? Com sua BMX motorizada? — apoio o peso de meu corpo nas mãos.

— Sua casa aguenta um carro? — ela debocha.

— Definitivamente não. Só não te convido para entrar porque minha tia está lá dentro, Kyungsoo enlouqueceria com sua presença e Milady é muito ciumenta.

— Milady é sua cadela, tenho certeza de que ela não importa com a minha presença, porque ela está acenando da janela! — olho para o segundo andar e vejo Milady nos olhando através da vidraça. — Igualmente a sua tia. Quanto ao seu irmão... posso ficar quieta se ele me fizer um belo prato de Kimchi. Você não tem desculpas para não me receber.

— Não tenho um esconderijo.

— Você me ouviu na ligação? Vamos procurar! — deixa a bike caída no gramado.

— Tudo que envolve você se resume a praticar exercícios.

— Você prefere correr da vida ou correr com ela? — senta-se ao meu lado.

— Dormir. Tartarugas não fazem nada e vivem séculos.

— Nosso modo de vida é diferente.

— Mas somos todos animais.

Ela ri e tira o capuz revelando a coloração azulada de seu cabelo, diferente de hoje pela manhã. Yuqi não parece incomodada com meu modo de tratá-la e vice-versa, isso é bom porque caso um dia eu vá embora não precisarei cortar laços para não dar esperança que algum dia voltarei.

— Você está bonita — falo embora tenha quase certeza de que ela já sabe disso.

— Eu sei, sou incrível! — e joga o cabelo para trás do ombro.

Desta vez quem não segura o riso é eu e por alguns segundos me pergunto se eu tivesse a conhecido antes. De qualquer forma tenho que aprender a aproveitar enquanto estiver ao seu lado. Quero fazê-la uma incrível lembrança. Como Yoongi...

— Fico feliz que saiba — olho para sua bike jogada no gramado.

— Descobri sozinha. Sou verdadeiramente incrível! — sorri.

— Quer entrar? Já que tem tanta certeza de quem ninguém se importará.

— Não desafie minhas habilidades, caro Jungkook.

Isso me lembra Min Yoongi.

— Nunca falei isso.

— É bom que nunca diga! — Yuqi levanta-se e limpa a grama de seu short. — Vamos procurar nosso outro esconderijo!

Me levanto e faço o mesmo. Ouço o latido de Milady, está me dizendo adeus e conhecendo tia Yuri do jeito que conheço, sabe o que estou fazendo. Imagino-a dizendo "tchau" embora só queira que eu volte logo. E Kyungsoo deve estar balançando a cabeça e rindo de minhas travessuras. De fato quero voltar logo para ter a oportunidade de jantar ao lado deles, no entanto, também quero fazê-lo ao lado de Yuqi.

— Tem alguma ideia de onde pode ser seu esconderijo? — ela pergunta caminhando na frente com as mãos atrás da cabeça, talvez seja mania sua. Me pergunto se sua bike vai continuar jogada no gramado mas a dona não parece incomodada em deixá-la lá.

— Um local escondido, talvez.

— Não, acho que é óbvio demais! — ela estra na brincadeira.

— Gostei dos trilhos lá em cima! — falo olhando para os próprios pés.

— Por que?

— Nunca sei para onde os trens estão indo, gosto disso, de não saber para onde estou indo, não sei quem vou conhecer. É emocionante.

— Você gosta de correr com a vida. Então, aceitar tudo o que ela lhe propõe sem pestanejar. Não tem medo de caminhar e caminhar, parar e perceber que não é ali onde quer estar? — é uma pergunta retórica, mas vejo necessidade em respondê-la.

— Estamos em constante metamorfose, querida Yuqi. Veja bem: uma borboleta sai do casulo sem sequer saber voar. Deixe a vida te levar, faça o que quiser, a vida é curta demais para se arrepender.

— Se seguir a vida demais ela pode te levar a um lugar que você não quer ir.

[...]

— Aqui é incrível. Não tanto quanto eu, mas é incrível!

Ao levantar minha cabeça para ver o que tanto admira perco as palavras porque de fato a paisagem é incrível. Levamos muito tempo caminhando pela trilha até chegar aqui e como visto o sol está se pondo atrás das enormes montanhas a frente. Se olhar de um lado verá a lua chegando juntamente com sua noite em tons escuros para acalmar os nervos da cidade, já do outro verá o sol indo embora, rosado, alaranjado, ao mesmo tempo avisando que é hora de descansar. De fato, é incrível. Desde o começo sabia que alguma hora chegaria aqui, só não sabia que o que veria seria tão magnífico.

Olho para Yuqi. 

É divina a imagem da luz do sol refletindo em seus olhos. Se eu estivesse como minha câmera de polaroid certamente já teria tirado várias fotos e faria questão de escrever atrás várias mensagens para a garota mais incrível que já conheci. Seu cabelo faz um excelente contraste. Se eu olhá-la de frente verei-a acompanhar a noite, provavelmente diria que ela esteja invejando a noite. Se olhá-la pelas costas verei-a destacando-se no céu alaranjado, rosado, meio lilás com o sol sumindo por trás de sua cabeça.

— Eu disse que isso não é tão incrível quanto eu.

Abaixo a cabeça envergonhado. Não gosto quando sou pego olhando as coisas.

— Aqui parece um bom lugar — ela continua —, mas o que vamos fazer? Ficar sentados embaixo de uma árvore e ficar pensando nas besteiras que cometemos? Ou que tal armamos uma barraca e fazer trancinha um no outro? Acampar talvez? Independente do que façamos ninguém saberá, aqui é nosso esconderijo, mas não indico ficar aqui quando der o horário do trem passar, treme tudo.

— Como sabe?

— Moro perto de uma estação de trem. Sou uma perita em Maria-fumaça, meu tio pilota trens pela noite. Quando eu era mais nova ele disse que conseguiu ir até as estrelas, naquela época achei um absurdo, mas agora, talvez seja possível, não é? Basta fechar os olhos e imaginar. Meu avô disse uma vez. Quando se sentir solitário feche os olhos e imagine o que mais quer no momento, vai te dar uma felicidade momentânea.

— Você gosta de felicidades momentâneas? — questiono sentando-me embaixo de um pinheiro.

— Não foi você quem disse que a vida é curta demais para se arrepender? Se a felicidade for momentânea aproveite ao máximo, igualmente a tristeza, podemos tirar ensinamento de ambas as coisas, talvez assim você comece a dar valor as coisas que realmente importa. Deixe a vida te levar, Jungkook e descubra o que acontecerá.

— Por que você está desse jeito? Lunática.

— No colégio eu sou uma idiota não manipulada, fora sou apenas a Yuqi.

— Então quem era a garota que fugiu comigo de manhã?

— Ainda não descobri. Quem sabe amanhã eu não seja outra Yuqi...

— Amanhã você vai ser Yuqi medrosa que foge quando tem uma responsabilidade.

Uma voz rouca nos interrompe e procuro o dono da voz entre as árvores porém ele está em cima do pinheiro sentado em um dos galhos grossos. É o mesmo cara de manhã, mas agora veste um moletom preto. Não consigo ver seu rosto, está escuro, mas posso ver que seus fios são em tons vermelhos.

— Vamos embora, coelhão! — Yuqi levanta-se e puxa meu braço. — Quando eu falei que aquele cara é problema não era brincadeira.

— Não sei se você percebeu mas pela manhã nós fugimos da escola, foi a maior loucura que já cometi na minha vida! — falo procurando seu olhar. Parece eufórica.

— O problema dele não é esse... — ela murmura passando a mão atrás do pescoço.

— Não falem de mim como se eu não estivesse aqui! — o desconhecido cantarola e minha nuca se arrepia. Seu timbre de voz é meio rouco.

— Só vamos embora! — Yuqi me puxa pelo braço. Travo meus pés no mesmo lugar. — O que foi? — seu tom de voz é de preocupação mas sua expressão é de impaciência.

— Resolva seus assuntos agora, não gosto de pessoas que fogem — vejo sua mão largar meu pulso lentamente. Ela ri abaixando a cabeça.

— Quem é você para falar de fugir? Você fugiu comigo pela manhã, fugiu das suas responsabilidades! Não aponte meus erros pois sei muito bem o que faço! — fala baixo, nem parece que está prestes a chorar.

— Também sei o que estou fazendo, Yuqi. — Falo calmo tentando acalmá-la e apoio minha mão em seu ombro, mesmo assim ela não me olha.

— Relaxa cara, não precisa se cobrar tanto, amanhã vai estar tudo bem! Ela sempre fica emotiva quando anoitece, por isso que ninguém a procura quando escurece!

O desconhecido sai do galho e vem caminhando até nós passando pelos trilhos. Eles tremem e, é possível ouvir o barulho do trem contra os trilhos. O desconhecido — sei seu nome mas não me sinto muito confortável para falá-lo — permanece parado sobre os trilhos. Me assusto mas Yuqi não faz nada, está cabisbaixa com os punhos cerrados. O barulho do trem fica mais alto e ele vem aproximando-se.

— Yuqi você não faz nada sem alguém não lhe disser o que deve fazer!

— Yuqi — murmuro para si —, você não é uma idiota manipulada. Você está fora do colégio, pode ser quem você é de verdade!

As coisas a seguir acontecem rápido demais. 

O trem passa rápido e Yuqi puxa o desconhecido pelo moletom para fora dos trilhos apenas para ter a oportunidade de dar-lhe um soco certeiro no queixo e outro no olho. Fico parado. Não gosto de violência, nunca tenho uma reação de proteção, apenas fico parado e quando tudo termina minha respiração está anormal, minhas têmporas soam. Foram dois socos, felizmente o desconhecido não revidou, tenho a sensação de que ele sabe que merece apanhar.

Quando tudo termina Yuqi está parada com as mãos agarradas ao moletom do rapaz cabisbaixa. Ouço seus soluços altos e o movimento nada sútil de suas costas subindo e descendo entregam seu choro. Nunca um arco-íris pareceu tão sem vida como agora. A única coisa que faço é segurar sua mão e começar a puxá-la para o mais longe dali. Não sei se minha casa é segura, na verdade o único local seguro o bastante para Yuqi é entre os braços de alguém. No entanto de repente ela para de correr comigo. Ela está desmaiada.

— Yuqi!

Quem grita não é eu, é o desconhecido. Tem um filete de sangue correndo por sua boca e chega a ponta de seu queixo. Ele a toma em seus braços. Tento impedi-lo de levá-la embora, não o conheço, não sei se é confiável, mesmo que ela o conhece não sinto confiança em deixá-la a seus cuidados.

— Ei, coelhão, você já foi herói demais hoje, vai dormir! Amanhã quando acordar tudo vai estar tudo bem.

— Não vou deixá-lo levá-la! — me aproximo.

— Só a conhece há algumas horas. Volte para casa.

— Ela não está bem! — não sei porque altero meu tom.

— Ela está e vai ficar muito feliz em saber que você tentou ajudá-la. Já a ajudou demais hoje, espião! E antes de dormir pense em um outro esconderijo, esse lugar apenas é bonito, mas é péssimo. Ou sei lá, deixe a vida te levar a qualquer lugar.

— Quem é você para falar de esconderijo? — cruzo os braços ao vê-lo começar a caminhar no sentido contrário. Meu coração aperta em deixar Yuqi com ele.

— Tenho certeza que já pulei mais muros que você.

Por último vejo seu sorriso meio quadrado antes de girar os calcanhares e começar a caminhar de volta para casa.

[...]

Na manhã seguinte me arrumo cedo, nem tomo café direito e antes de começar a correr pelas calçadas da cidade até chegar ao colégio ouço tia Yuri reclamar por ter feito comida sem necessidade. Kyungsoo apenas pede para que me deixe em paz — talvez ele tenha entendido o espírito juvenil. Quero dizer que Milady dará um jeito nisso mas já estou longe o bastante para que eles possam me ouvir. Meus pensamentos apenas irão descansar quando eu ouvir se Yuqi está bem. 

A cada passo a mochila dá um solavanco para trás, infelizmente não posso deixá-la — embora não seja importante.

Como no dia anterior as pessoas estão me julgando, achando que sou um louco e novamente não me importo. Seria melhor se Yuqi estivesse comigo. Quando foi que nos tornamos tão próximos? Pela primeira vez estou ansioso para chegar no colégio. Vejo os portões da entrada e paro apoiando a mão na parede para respirar. Preciso recuperar o fôlego. Não estava mentindo quando disse que quando relacionado a aquela garota é necessário usar o físico.

— E aí, coelhão! — sinto tapinhas em minhas costas, na mochila. Ainda com o tórax subindo e descendo. Me viro. É o cara de ontem, é estranho vê-lo usando o uniforme do colégio. — Yuqi está bem, veio mais cedo hoje, está te esperando.

Ao terminar de ouvir suas palavras pego impulso para correr mas o desconhecido me para. Desde o começo suspeitei que ele não falaria apenas aquela frase.

— Obrigado por dar à Yuqi seu brilho de volta!

Ele sorri. 

Um sorriso tão bonito quanto o de mamãe quando papai a presenteou no aniversário de namoro, tão bonito quanto o de Yuqi quando fomos aos nossos esconderijos. Mais feliz que o de Milady quando colocamos sua ração e talvez mais romântico que o sorriso de coração de Kyungsoo. Gosto de saber que na noite passada fui aos trilhos, soube para onde irei, mas não sabia o que aconteceria nem quem conheceria.

É impossível não sorrir de volta.

Oct. 9, 2018, 9:26 p.m. 0 Report Embed 0
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yang ♡ 80年代的情人 ♡

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