A Fome Follow story

aghaf Anna Romaike

Poesia sobre anorexia, bulimia e automutilação.


Poetry Not for children under 13.

#poesia #suicidio #bulimia #automutilação #anorexia
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Unico

A fome me corrói

A fome me destrói

A fome me remói

Metas, pimentas, frutas.

Corridas, medidas, feridas.

Cinquenta e quarenta

Cada quilo que se ausenta

Soma cem curtidas.



A fome me emagrece

A fome me enlouquece

A fome me enobrece

A garganta contorce

O estomago estanca

A boca deseja pelo vomito

Mas, os dentes gastos.

Os olhos lacrimejando

Os pulmões incendiando

A garganta queimando

Tudo nega

Tudo cega

Tudo espanca

Tudo se desmancha



A fome me nauseia

A fome me amargura

A fome me desmaia

A fome me tortura

O corpo não mexe

Não aquece

Não luta

A mente surta

Quero correr, quero mover.

Quero secar, quero voar.

Para além do limbo

Morada das estrelas.



A fome me ensina

A fome me domina

A fome me mutila

Por que gosto? Por que aceito? Por que deleito?

As vozes continuam perguntando o por que.

Falo desculpas, falácias, mentiras.

A verdade foi jogada no oceano

E eu não sei nadar

A verdade foi levada pelo vento

E eu não sei voar

A verdade foi levada pelas posses

E eu só tenho a mim

Vejo reflexos, vislumbres, negrumes.

Eles escorrem pelos dedos

Longe demais para serem olhados

Perto demais para serem esquecidos

A verdade é inatingível.



E eu estou transbordando

Gordura, gordura tanta gordura.

Nas pernas, braços, barriga, pescoço.

Estou deslizando

Os cortes em minhas veias

São como armas 

O sangue em minhas pernas

Inicia a roleta russa

E quando partir eu serei fibra

Serei brisa

Serei cinza

Serei eu

 

Oct. 8, 2018, 1:03 a.m. 14 Report Embed 13
The End

Meet the author

Anna Romaike Otaku, fujoshi, cartomante, bruxa, numeróloga, astróloga, umbandista, poeta. Amo livros, florence and the machine, virginia woolf, simone de beauvoir, hannah kent e muitas outras escritoras.

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Maria  Alice Maria Alice
Oi, sou eu de novo (como não tem um recurso pra responder ao seu comentário, fiz outro)! =) Obrigada pelas palavras, tanto aqui quanto em Cólera Oculta, sério mesmo. Estou interessada nesse livro que você me indicou. Minhas férias da faculdade só começaram agora, então vou ter umas três semanas de liberdade, embora sejam 4 porque vai emendar com o carnaval, quero ver se tiro o atraso nas metas de leitura. Quanto àquele assunto, eu tenho muito medo de ir ao médico agora, pois foi um médico que fez isso comigo, um médico que não honrou o Juramento de Hipócrates, que deve desconhecer a palavra ética. Como a história é longa e não é o foco dessa poesia, não vou contar, porém quem sabe da história me diz que eu não fui a única com quem ele fez isso e que não devo me sentir culpada porque não foi culpa minha. Quanto ao transtorno alimentar, eu desenvolvi compulsão alimentar entre os 15 e os 17 anos, aí aos 17 a anorexia se desenvolveu, de 55 kg eu despenquei para 40 kg, aí como minha família se assustou porque uma modelo morreu pesando 40 kg, eu tentei parar e cheguei a 42 kg, aí mendigando amizade de umas meninas que não eram minhas amigas, acabei adoecendo de novo e cheguei a 34 kg. Fiquei pele e osso. Tipo, a calça 36 não entrava porque quando eu vestia, a peça caía. Nada ficava bonito em mim. Aí minha família interveio e eu aceitei me tratar. Era pra eu ter sido internada direto porque com 30 e poucos quilos minha vida corria risco, só que a psiquiatra (não se assuste, tá?) percebeu que eu não oferecia riscos à sociedade, só era uma menina tímida, insegura, com depressão e fobia social (consequência do bullying na escola) e me pediu para fazer um diário de alimentação até a consulta seguinte. Ela queria que eu detalhasse cada refeição que fiz, o que comi, a que horas, como me senti, numa folha de papel mesmo e eu fiz isso. Nesse entremeio fiz eletrocardiograma, passei na nutricionista, comecei a frequentar a psicóloga e como eu reagi bem, a psiquiatra optou por não me internar. Nos primeiros meses eu evoluí muito porque sempre fui uma paciente obediente, porém aconteceram algumas coisas que acabaram me fazendo ser internada em 2010. Eu ia para o hospital de manhã e voltava pra casa de tarde. O problema é que não consideraram o meu problema tão sério e eu não recebi o tratamento adequado, então fiz o desmame dos remédios sozinha e depois disso nunca mais tive ajuda. Até a época do abuso eu continuei pesando na faixa dos 43/44 kg, depois disso desenvolvi outra compulsão alimentar e voltei pra 55 kg, comia pra não chorar porque depois de tudo eu só sabia chorar, ficar no quarto, cheguei a pensar em me matar, a parar de escrever... e aí quando escrevi essas cartas a mim mesma fiquei pensando a respeito do tratamento, naquela época eu não lia tanto sobre psicologia quanto agora, não conhecia o feminismo (ou tinha outra visão sobre ele) e não recebi apoio. Pelo contrário, foram mais pedradas do que apoio.
Feb. 4, 2019, 2:39 p.m.

  • Anna Romaike Anna Romaike
    É impressionante que quando se trata de ferrar alguém todo mundo se junta de uma maneira que chega a ser aterrorizante. Moça você é incrível mesmo, nunca deixe ninguém te dizer o contrário viu? Desce o cacete na pessoa que fizer isso. Comecei a escrever as cartas hoje e é uma sensação esquisita, tipo falar tudo que o seu eu de tal época precisava ouvir. Tem dois livros da amanda lovelace que são socos no estômago, embora o das bruxas eu considere melhor, o livro A princesa salva a si mesma neste livro também é divino e acho que você vai amar ele. Feb. 5, 2019, 1:33 p.m.
Maria  Alice Maria Alice
Parabéns pela obra-prima! Só quem já passou (ou passa) por todo esse sofrimento pode entender. Quem vê de longe e julga sem entender, sem sensibilidade, nunca vai saber que não é frescura, é a realidade, é a realidade de muitas meninas e mulheres que desde muito cedo são condicionadas a se odiarem, a perseguirem um protótipo de beleza e perfeição que é inalcançável. Mesmo sabendo disso, aquele pensamento intrusivo é mais forte do que a vontade de parar, porque não se diz ao coração para parar. É olhar para o espelho e ver aquela imagem que você sente que não te representa, subir na balança e sentir que perdeu peso, mas não o bastante, provar uma roupa e mesmo que a peça já esteja larga, não se sentir magra. Eu nunca induzi o vômito nem inibidores de apetite, laxantes ou diuréticos, mas já castiguei meu corpo de todas as formas. Muitas vezes eu me cortei porque queria gritar, porque queria poder arrancar a dor, porque as mesmas pessoas julgam com insensibilidade são as que jogam as outras no precipício. No meu último aniversário eu escrevi cartas pra mim mesma falando sobre cada ano da minha vida e descobri que foi aos 15 que comecei a ter problemas sérios com o meu corpo, por causa de uns meninos idiotas da minha sala que me elegeram a mais feia, faziam piadas comigo e como naquela época eu não sabia que o que as pessoas na escola faziam era bullying, sofria, não entendia que o motivo de eu não querer ir para a escola eram as pessoas, as pessoas que não me agrediam fisicamente, mas com palavras, opiniões maldosas que não pedi. Por muitos anos eu tentei entender quando e como tinha começado minha obsessão pelo corpo perfeito porque quando eu tinha 14 anos estava tão engajada em "mudar o mundo", questionando tudo e de repente estava obcecada por medidas, por peso, por um padrão de beleza que quase me levou para a sepultura. Posso dizer que a magreza extrema não possui glamour nenhum. Tenho recaídas, pois não recebi o tratamento adequado e a compreensão das pessoas em relação ao assunto foi terrível. Quanto aos cortes, por esses dias eu estava muito nervosa por causa de várias coisinhas que quando somadas acabam comigo e sentia aquele desejo de me machucar de alguma forma, expurgar a dor, então adotei aquela tática da borboleta, desenhei uma borboleta no lugar onde pretendia me cortar, coloquei nela o nome da pessoa que eu gosto e deu certo, mas é uma luta diária e muitas vezes eu me sinto sozinha, profundamente sozinha, visto que são poucas as pessoas que entendem isso. Me desculpa por ter escrito um comentário muito grande, mas não me contive, até porque quando li eu fiquei com a música Just Breath da Anna Nalick na cabeça. Obrigada por ter escrito esse poema. Não sei se você vai ler meu comentário, se sim, espero que continue escrevendo mais poesias com verdade e alma porque você tem MUITO talento.
Feb. 4, 2019, 12:44 p.m.

  • Anna Romaike Anna Romaike
    Moça você é uma guerreira. Nunca tinha pensado em escrever cartas pra mim mesma e essa é uma ideia espetacular. Também sofri bullying, mas foi aos 16 e as consequências (anorexia) só surgiram mesmo no ano seguinte embora a automutilação tem estado comigo desde os 11 e felizmente ainda não tive recaídas esse ano. Moça que música linda essa que você falou, to chocada com tamanha obra prima. Feb. 4, 2019, 1:56 p.m.
Saah AG Saah AG
Acho interessante o design do site do Inkspired dar visibilidade a jovens poetas como você. Achei essa poesia em "novas publicações em poesia"e resolvi dar uma chance. Não me arrependi. Eu nunca fui muito de curtir poesia, pois poucas conseguiam me atingir, mas essa, sem dúvida, conseguiu. Parabéns pelo trabalho.
Dec. 4, 2018, 8:20 a.m.

  • Anna Romaike Anna Romaike
    Ai moça muito obrigada pelo comentário, fico imensamente feliz que essa poesia tenha conseguido te atingir porque sinceramente quando publiquei estava com um pé atrás se as pessoas iriam gostar ou não. Jan. 22, 2019, 7:57 a.m.
Kathelyn Illustra Kathelyn Illustra
Nem sei o que dizer Tá muito lindo Admito que estou quase chorando Parabéns!
Nov. 26, 2018, 9:28 a.m.

  • Anna Romaike Anna Romaike
    Oooooooooooowwwnnnntttttttt, muito obrigada por comentar e ler essa poesia, fico feliz que tenha gostado. Nov. 26, 2018, 5:45 p.m.
Cintia Walter Cintia Walter
Poesia crua e real. Só quem já passou por isso sabe o quão corrosiva a situação é. Não tenho palavras para descrever o quanto gostei desse poema e o quanto estou admirada por acabar de ter lido algo tão incrível. Obrigada por ter escrito <3
Nov. 17, 2018, 12:48 p.m.

  • Anna Romaike Anna Romaike
    Mil agradecimentos a você por ter lido. Fico tão emocionada em saber que consegui impressionar, sensibilizar e em alguns tristes casos até representar tudo aquilo que a pessoa não conseguiu dizer em voz alta, sinceramente me dá vontade de chorar de alegria. Nov. 17, 2018, 5:45 p.m.
RC Raissa Christina
Gosto de poesias assim, cruas, que atingem a carne. Parabéns. Espero, contudo, que encontres poesias que te instigue saciedade. Até.
Nov. 12, 2018, noon

  • Anna Romaike Anna Romaike
    Muito obrigada, eu fico realmente feliz de ter conseguido atingir você dessa maneira. Nov. 17, 2018, 9:18 a.m.
Gabi r.m.s Gabi r.m.s
Não tenho palavras, sinceramente. Gostei muito da poesia, foi feita em um estilo que eu gosto bastante, com frases curtas que rimem e principalmente, impactantes. É triste pensar que passo por algo extremamente semelhante. Sou capaz de passar a manhã e a tarde toda sem comer nada. Quase desmaiei uma vez, sinto tontura com frequência, mas estou procurando por ajuda, agora. É uma poesia simples, direta e que eu gostei bastante. Fico feliz de ter lido algo do tipo e poder me identificar com alguém, hoje em dia ninguém fala muito sobre isso, pelo menos o meu convívio social nunca toca no assunto e foi bom sentir que eu não estou sozinha, afinal de contas. Obrigado, e meus parabéns, pela bela poesia <3
Oct. 8, 2018, 8:49 p.m.

  • Anna Romaike Anna Romaike
    Moça vou chorar aqui, muito obrigada pelo comentário maravilhoso. Dá uma felicidade enorme saber que consegui te fazer feliz com um texto, consegui gerar um apoio sabe? Até agora eu não tinha achado nenhuma poesia que abordasse de forma clara o que eu sentia e então resolvi que criaria uma, por isso quando você diz que gostou, que conseguiu se identificar com as frases e agora está buscando ajuda eu só sinto uma imensa satisfação. Nov. 17, 2018, 9:21 a.m.
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