Dezesseis outubros depois Follow story

sweet-mary Mary

Se por trás dos portões estivesse à menina de treze anos que teve o privilégio de viver aquelas quatro incríveis semanas que mudaram sua vida para sempre, ela não se orgulharia de me ver. Não seria uma visita agradável. Eu não suportaria a ideia de uma acareação tão dura. Restar-me-ia apenas o desejo de dizer: desculpe-me!


Memoir & Life Stories Not for children under 13.

#escola #adolescência #infância #nostalgia #amor-platônico
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Parte 1

07 de março de 2016 (o dia em que visitei um dos lugares onde mais fui feliz na vida depois de catorze anos)

A música-ambiente massacrava meus ouvidos, mas eu continuava dentro da loja xeretando livros em liquidação ou quem sabe um dos muitos álbuns que bandas de rock da minha preferência lançaram. Eu poderia culpar a crise pelos preços altos dos produtos nas prateleiras e descer a lenha no governo, mas não quero falar sobre política e muito menos sem autoridade no assunto. Em 2013 num mesmo dia eu levei um CD do Linkin Park, da Katy Perry e da Beyoncé e ainda sobrou dinheiro para a passagem. Na real, eu queria aquele do U2 que tem I still haven't found what I'm looking for, porém meu orçamento estava estourado demais para me permitir um pequeno agrado que apesar de não atenuar as ranhuras do meu coração partido, me lembraria da adolescente doce, romântica e sonhadora que um dia fui. 

Havia alguém seguindo todos os meus passos. Não importava o corredor que estivesse visitando, lá se encontrava ele como uma sentinela, me espreitando da mesma forma que uma serpente estuda o pequeno e desavisado coelho que passeia sem preocupações, a fim de dar o bote. Demonstrar medo não contava pontos a meu favor. Para tal, cheguei a enfiar algumas quinquilharias num cesto e ir para a fila do caixa, todavia o sujeito estava lá também, com os olhos atentos a cada movimento de meu corpo. 

Irritada de vez com a demora do caixa, com aquelas músicas irritantes e sem nexo algum, abandonei o cesto no revisteiro e me mandei da loja, procurando um caminho alternativo para que o pervertido não me pegasse de emboscada porque estava claro que o negócio era comigo. Foi uma má ideia escolher uma sandália de salto plataforma porque de tênis eu poderia correr muito mais, no entanto aquele vestido não combinaria com nenhum dos meus allstars e com uma Curitiba beirando aos 34º, eu estava autorizada a vestir uma peça de roupa minimamente confortável. 

Aquele sujeito era um pervertido que ao ver o meu corpo, já se sentia “dono” dele e findado na premissa de ser superior a mim por possuir um pênis, não ostentaria o menor remorso de me violentar porque em suas mãos, se eu sobrevivesse ao ataque, seria nada além de mais uma mulher morta por sua condição, com uma ferida enorme na dignidade. Eu seria apenas mais um número a contar nas estatísticas.

Não! Ninguém nunca mais violaria meu corpo e me tocaria em partes onde eu não queria ser tocada! Nunca! Nunca mais!

E não adianta acusar o vestido, o tamanho do short ou do salto, culpabilizar a mulher é apenas reforçar uma cultura nociva que silencia as vítimas e privilegia os agressores porque eles se valem da oportunidade para continuarem matando sonhos, inocências e crenças. Meninas de jeans e allstar também podem ser estupradas. 

Há aquele estereótipo de que estuprador é o cara que te aborda no ponto do ônibus de manhã cedo ou de madrugada, te amordaça, te leva para o matagal, copula e depois te degola, estilo o Maníaco do Parque ou um motorista de Uber. Sim, pode ser. Pode, inclusive, ser aquele médico de classe média alta a quem você confia seus cuidados. Pode ser aquele namorado que pediu uma “prova de amor” e mesmo quando você diz "não", vem com o papo de que "sou homem e tenho desejos". Pode ser aquele cara que te ofereceu bebida na festa. Ele pode ter tantas faces distintas. E se não houve consentimento, a regra é bem clara. Proteger agressores é ser conivente com o crime.

Terei eu que conviver para sempre com uma cicatriz na dignidade. Meu agressor me amordaçou com palavras bem sutis para se esquivar da culpa, estando ele acima de qualquer suspeita, preciso aprender a viver como meu caminho nunca tivesse se cruzado com o de um monstro desprovido de qualquer humanidade. Naquela tarde em que outro pervertido me espreitou no shopping, ainda apavorada, não mensurava que embora minha vida estivesse recomeçando aos poucos após a destruição total da inocência, a sequela seria o medo.

Eu pretendia me distrair um pouco naquela tarde após o cinema, queria ver os lançamentos de livros e discos, ver pessoas, ouvir suas conversas, me contagiar com o sopro quente de vida que fervilhava naquele templo do consumo, buscar um contato amigável com a inspiração que me deixou de lado. Falar de coração partido estava acabando comigo. Eu já não aguentava mais gritar para ninguém ouvir, pedir perdão a Deus até pelos pecadinhos que cometi na infância, para que aquela dor que me fazia sangrar de insônia cessasse.

Eu queria me sentir inteira de novo, partir pelo mundo todinho se possível fosse em busca de me recobrar a sensação de ser uma pessoa e não um buraco, alguém que “não foi o bastante”, que sempre sentiria a sombra de uma sucessão de entraves que me jogaram na alcova do Mal Maior.

Atravessei as ruas mentalizando para não virar um dos pés que estavam suados, o que seria um desastre: voltar mancando para casa. Quando me aproximei do prédio onde vivi o melhor semestre estudantil da minha vida, não acreditei que o pervertido tivesse fôlego e disposição para tanto e me apoiei no muro para ajeitar uma das sandálias. Caminhei alguns passos mais adiante. O portão estava fechado e apesar de as cores estarem mais pálidas do que nas minhas lembranças, o indicativo mais forte de que havia vida ali, vidas desabrochando, era o barulho de crianças correndo, rindo e conversando.

Desde o último dia de aula do oitavo ano, aquela sexta-feira chuvosa de novembro em que meus então amigos e eu enchemos nossas embalagens velhas de desodorante e fizemos guerra de esguichos no intervalo, nunca mais cheguei tão perto daquele portão. Quase catorze anos, para ser mais exata.

Olhei para o portão. Talvez eu quisesse vê-la por um acaso mágico. Depois de tantos anos. Talvez eu quisesse me sentir como naquelas quatro semanas de outubro. Uma amostra daquela ternura adocicada. Talvez eu quisesse ter treze anos de novo e uma vida inteira para sonhar alto, não apenas me deitar nas nuvens, mas reunir toda a coragem do mundo para realizar.

Mas, o que eu era naquele instante senão um retalho que tinha um coração batendo dentro do peito? Retalho de uma vida que se descarrilou num dado instante e nunca mais regressou aos trilhos? Será que fazia sentido sonhar com o que quer que fosse? Será que eu era digna disso?

Se por trás dos portões estivesse à menina de treze anos que teve o privilégio de viver aquelas quatro incríveis semanas que mudaram sua vida para sempre, ela não se orgulharia de me ver. Não seria uma visita agradável. Eu não suportaria a ideia de uma acareação tão dura. Restar-me-ia apenas o desejo de dizer: desculpe-me!

Senti vontade de escrever, mas não tive coragem para explorar a ideia ou o que é mais prudente, eu não estava preparada para fazer um mergulho tão fundo e pedir desculpas por tudo à criança que um dia fui. Desculpas por ter sido covarde, imprudente, por ter deixado que o medo falasse mais alto que a sede de viver, por ter inventado uma versão de mim que decepava a essência, deixando à mostra uma hipócrita que tentava ser uma imitação barata das outras, imitação essa que doeu muito mais do que as descobertas que viriam à tona um ano depois desses breves minutos em que passei em frente ao colégio onde ocorreu, de fato, a transição da infância para a adolescência, onde vivi o meu primeiro amor.

Movida pela autopiedade de quem ainda não aceitava a realidade, terminei por redigir um texto para um coração insensível que não merecia sequer o vapor da minha lágrima, quanto mais os caracteres gastos para o intento. E não pensei nem por um momento que rever aquele colégio reacendia lembranças que não eram apenas lapsos de um sonho que acabou, eram os rastros perfumados do meu verdadeiro eu...

Você corre do seu destino esperando que seu fôlego não te traia, que sua imitação convença, que seus pés te levem para tão longe que seja impossível de encontrar o seu paradeiro, mas seu destino corre atrás de você e não só te encontra como te mostra que você nunca vai encontrar a verdadeira felicidade enquanto não ter coragem de ser quem realmente é.

Se eu fechar os olhos nesse exato instante, saberá você que outubro é um dos meses que mais gosto no ano. A primavera pode ser impetuosa, imprevisível, mas nunca menos do que bela e inspiradora. Dentro de mim ainda é inverno e chove, então a lembrança de que um dia a singeleza das flores me tocou sobremaneira é o suficiente para que um sorriso tímido brote dos lábios e reconforte os sonhos adormecidos.

A história ainda não terminou, apenas terá um destino diferente do idealizado.

Oct. 27, 2018, 8:12 p.m. 0 Report Embed 1
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