Macint-off Follow story

tiatatu Tatu Albuquerque

Kouba cresceu em meio à Revolução Macintosh, iniciada nos anos 80, onde a popularização das tecnologias de uso pessoal tornou inteiro virtual e digitalizado, tornando desnecessário e extinto todo e qualquer outro tipo de armazenamento de informações. Lutando contra o destino de ter nascido sem condições de muito acesso às tecnologias básicas para ter acesso desde educação à comida para ela e seu grupo de "filhos", ela ainda precisa lidar com o "Efeito Macint-off", quando toda a rede desaparece misteriosamente, deixando off-line e órfãos de todo o tipo de informação e história todo o povo, que se torna uma presa fácil para aqueles que querem reorganizar a sociedade à seu modo e que tem as anotações caseiras de Kouba como um obstáculo a ser destruído.


Science Fiction For over 18 only.

#tecnologia #sci-fi #cyberpunk #literaturafeminina
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Capítulo I

Cidade Auto-Desh - 2004.

5 anos antes do Efeito Macint-off.


O grande letreiro luminoso em que seus olhos se mantinham fixos lhe chamava a atenção por ser o menos automatizado de todos ao redor. Ajeitou os fios de cabelo castanho que caíam por sua testa para que eles não atrapalhassem seus olhos avermelhados pelo cansaço de verem os lançamentos.


Aquela era uma das poucas lojas em 2004 em que ainda se precisava entrar para comprar algo, enquanto todas as outras já tinham a automação na própria vitrine e por isso Kouba se mantinha com os olhos vidrados nela, com seu sorriso infantil de quem muito deseja obter uma daquelas bugigangas tão necessárias naqueles dias. 


Sentir que algo tão vital lhe era inacessível era um pouco incômodo. Mesmo que só tivesse 10 anos, conseguia compreender perfeitamente o mundo ao seu redor e já entendia que ele lhe era negado.


Desde a revolução Macintosh, como era chamado o boom tecnológico da sociedade após a invenção do computador de mesmo nome que havia tornado mais acessível à população participar das novidades do mundo da informação, tudo no mundo havia se tornado automatizado aos poucos.


20 anos após a largada da revolução, era quase impossível encontrar livros físicos ou qualquer outro tipo de meio de comunicação não digital, assim como eram raros os empregos, já que boa parte da mão de obra era automatizada. Mesmo assim, aqueles que não partilhavam da tecnologia dificilmente conseguiam partilhar da sobrevivência ou dos meio de consegui-la.


Todas as informações do mundo haviam sido digitalizadas e até mesmo o bê-a-bá das crianças era ensinado por meio de computadores de mão ou, como era mais comum e moderno, óculos de realidade virtual como os que Kouba admirava, como a boa amante da tecnologia que era apesar de não ter muita intimidade prática com ela.


Triste, segurou melhor os óculos que tinha pendurado em seu pescoço e que precisariam de atualização de Software em breve e ele não teria dinheiro para isso, assim como não tinha para comprar um novo, o que sairia até mais barato. 


O modelo 90.4, um tanto quanto pesado, apesar do costume de usá-lo, prateado, danificado e surrado e grudado com fita adesiva para que não se despedaçasse inteiro mais uma vez já era obsoleto, sendo mais velho que a própria Kouba, mas foi o que conseguiu vasculhando o lixo, com muita sorte, para que pudesse ter uma forma de ao menos aprender o que era lecionado pelos canais virtuais, contando com os itens gratuitos de formação básica, disponibilizados de forma obrigatória por conta das leis de alfabetização e os livros mais avançados que o último dono do aparelho havia deixado disponíveis na biblioteca off-line. 


Era tudo o que tinha, apesar de não valer tanto assim e ser um tanto quanto custoso mantê-lo, mas era esse ou nada e, no mundo high-tech em que vivia, não ter nada tecnológico seria pior que não ter comida e, no momento, ela não tinha nenhum dos dois. Engoliu sua vontade reprimida, sem tempo para ter desejos consumistas irrealizáveis.


Deixou a fachada da loja de tecnologia, mantendo o cuidado que uma menina de sua idade devia ter ao andar sozinha pelas ruas de Auto-Desh, cidade tão violenta quanto evoluída no quesito da digitalização da humanidade, e até mesmo o “nada” que tinha poderia lhe ser tirado, o que era mais preocupante que a morte, já que não valia muito mesmo… Deixou de pensar nisso ao lembrar das outras 5 crianças que dependiam dela para continuarem seguras e a salvo e que, assim como ela, precisavam comer algo.

 

Sentiu sua barriga doer, já que da última vez que havia conseguido algo decidiu deixar sua parte para os menores. Estava faminta e, já que, em suas andanças e buscas, não havia achado nada em condições de consumo humano, teria que sacar mais uma vez de sua irrisória “poupança”. 


Afundou a mão no bolso da pochete bem cuidada em comparação às rasgadas vestes de pano surrado remendadas de forma caseira que usava, já que era o “acessório” a única forma de carregar o pouco que tinha sem o risco perder pelas ruas. De lá tirou as poucas moedas que tinha, suspirando pesado por ver que, mais uma vez, a conversão delas para “Tech-coin” não daria para muita coisa.


Lamentou profundamente por isso, acessando o menu de conversão e mirando o “furo” que as moedas douradas e prateadas tinham no centro, ativando a validação criptográfica do chip ali colocado. 5 tech-coin ao todo, muito pouco, mas, indo à vitrine da padaria ao lado para fazer a compra. Conseguiu 3 pães ao menos e uma pequena lata aquecida de café descafeinado próximo do vencimento. 


Sorriu pensando que, se dividissem, todos conseguiriam comer quando chegasse ao covil. Preferiu carregar tudo nas mãos já que a sacola de papel pardo poderia lhe ser útil e também porque o scanner digitalizador de orgânicos estava com defeito, segurando tudo nos braços e correndo o mais rápido possível para que assim não fosse roubada e nem flagrada ao adentrar a abandonada passagem de um canal de águas pluviais que dava direto ao lugar que chamava de lá, escondida por entre folhas de árvores e sacolas velhas de papel. 


Tocou rápido com os pé esquerdo, batendo forte com ele três vezes na pesada e resistente tampa de cobre velho, alertando seu “irmão” para que ele a abrisse logo, olhando para os lados pra se certificar de que ninguém os via. Jokza, o garoto com quem dividia a tarefa de cuidar das crianças, por sorte a atendeu rápido dessa vez, por isso deu espaço para que ele empurrasse a tampa, entregando a ele o que havia trago para que pudesse acessar a escada, tomando cuidado com a ferrugem, e assim poder “selar” a segurança de todos com a tranca artesanal que haviam feito. 


O “covil” nada mais era que túneis desativados às margens de um canal subterrâneo do escoamento de água da chuva, onde, na caverna mãe, tinham todos os móveis, cadernos e roupas que conseguiam levar até lá com a ajuda do aplicativo digitalizador e rematerializador dos óculos de Kouba, já que, em seu lançamento, aquela era a grande inovação que o modelo 90.4 havia trago para ganhar espaço entre os outros, conquistando uma boa posição na corrida pelos maiores avanços tecnológicos revolucionários que surgiam a cada mês após o Macintosh. 


Apesar da aparência feia, do cheiro de mofo constantes e dos perigosos ferros em processo de oxidação, ali ainda era um dos lugares mais seguros para que um bando de crianças pudesse sobreviver e se esconder desde que ninguém mais velho soubesse da existência daquele lugar esquecido na revitalização da cidade e era por isso que tentava descer as escadas sem fazer nenhum barulho já que, por mais que a rua de acesso à entrada fosse quase deserta, sempre havia o risco de ter alguém para ouvir o ruído causado pelo “andar” nos degraus de vergalhão.


Respirou aliviada quando chegou ao lar. Estava exausta e lhe foi doloroso de primeira tocar o chão molhado, com água entrando pelos buracos de seu sapato velho, mas era gratificante ver o sorriso do grupinho que antes estava entretido com as anotações de estudo que ela fazia para repassar as informações à eles e agora seguia animado rumo a ela e Jokza. 


Ela ficava com os abraços agradecidos e ele com a obrigação de repartir os pães igualmente entre os 6. Além dos dois, tinham os gêmeos Leib e Liev de 8 anos, a pequena Clarbo e o menino Kota, ambos de 6, todos agora alimentados, não bem, mas ao menos estavam, repartindo os dois goles do café que era permitido a cada um para que assim não passassem sede. 


A noite seria menos sofrida dessa forma e acreditavam que assim estariam mais dispostos para mais um dia de caçadas por alimento e algo melhor para vestir ou se cobrirem durante a noite que ali era mais fria por conta da umidade que, por mais que as saídas de ar diminuísse o acúmulo, ainda era cruel. 


Kouba tratou de recolher a lata para que pudesse higienizar depois, já que poderiam usar seu miúdo aquecedor automático em outras utilidades, assim como ainda usavam das pedras de “carvão” elétrico que ela havia conseguido na promoção gratuita lançada pela empresa sempre no mesmo horário uma única vez ao dia e ela tinha que ser rápida, já que, pelo relógio digital do óculos, já estava quase na hora. 


Sentou sobre o chão forrado por esteiras, com todos atentos por entenderem que seu ato de usar os óculos ali era sinal de que ela tentaria “comprar algo para eles”, ficando quietos para que ela não se desconcentrasse, como Jokza pedia com seu baixo chiado. 


Kouba acionou o sistema e acessou a loja e por sorte ainda tinha algo disponível. O Box composto por 5 itens era arriscado, poderia não servir, mas clicou nele sem pensar duas vezes, para não correr o risco de ficar de mãos abanando. 


Foi deslogada automaticamente da loja ao fazer isso, um sistema de segurança que evitava que o mesmo usuário pegasse mais de um Box ou item, possibilitando que a “generosidade”, que só era acessível aos que não tinham grande atividade monetária nos aparelhos, tivesse 100% de aproveitamento, beneficiando 100 usuários por dia, com o preço de passarem uma semana sem poder acessar o menu de promoções especiais. 


Era tudo ou nada e ela esperava ter conseguido algo que valesse a pena, já que só poderia tentar novamente na outra semana, esperando o lento carregar dos itens no e-market pessoal. As crianças ficavam atentas aos sinais feitos por ela e que eram explicados por Jokza, que já não se aguentava de curiosidade para ver o que seria materializado, mais aliviado com o sorriso que ela deu. 


Havia dado sorte! Parecia ser algum tipo de Box de camping, tendo um grande cobertor tamanho casal, um colchonete pequeno mas que já era bastante e uma barraca aquecida, que apesar de pequena, já era um abrigo a mais para revezarem. Ainda tinha um tubo de pílulas alimentícias e 20 techcoins, um verdadeiro golpe de sorte que lhes aliviaria muito. 


Um a um, os objetos foram materializados por meio do feixe de luz azul da que saía do ponto de restabelecimento de matéria acoplado no alto do óculos. Como sempre, também optou por materializar o dinheiro ganho, já que o sistema de segurança privada de seu 90.4 já estava desatualizado, lhe tornando suscetível à roubos, guardando as moedas no bolso da pochete. 


Sorriu vendo que todos comemoravam, com os gêmeos empolgados com a barraca e Kota tendo apenas os cabelos acinzentados e os olhos negros para fora do cobertor novo, deitando no colo de Jokza para se esquentar mais, ganhando um pouco de carinho. 


Ela sabia que ainda estavam todos com fome, por isso abriu o tubo que, pelo o que via, tinha 50 comprimidos de sabor pizza, algo que só comiam quando achavam as sobras em caixas vazia mal descartadas, dando para uma cápsula para cada um, guardando a sobra no banco em que ficava a “área de cozinha”, entre as duas panelas retorcidas que possuíam. 


Olhou para todos séria. Aquela seria a comida dos próximos dias se não achassem nada, por isso teria que ser bem criteriosa quanto à distribuição, por isso, em tom de bronca, alertou. 


— Se ficarem com fome, é só pedir. Vai ser um por dia em caso de não ter mais nada, ok? - obedientes, assentiram quase todos, já que Jokza tombou cansado ocupando pouquíssimo espaço nas esteiras. 


Riu admirando que ele havia feito de tudo para lhe deixar com mais conforto e, internamente, agradeceu por ele entender seu cansaço. 


Organizou os gêmeos e Clarbo na barraca, deitando no colchonete, dando colo ao sonolento Kota, sentindo suas tensas costas estalarem de forma incômoda e até dolorosa com isso. 


Abriu o cobertor, cobrindo aos três, sentindo-se embalada pelo sono que prometia ser mais tranquila e ela temia perder aquela calmaria ao acordar. 

Sept. 26, 2018, 11:21 p.m. 0 Report Embed 0
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Meet the author

Tatu Albuquerque Mãe de Konohamaru, madrinha de Hanabi, adepta da Fé do Sagrado KonoHana. Você tem 5 minutos pra ouvir a palavra da minha igreja? Kaiten no cu e gritaria, kore!

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