O Relinchar da Besta Follow story

sabrinavilanova Ellie Blue

"E a besta passou entre as ruelas daquele povoado, assustando tudo que pudesse respirar. Suas chamas eram nada mais que o atestado de que aquela foi uma bela moça um dia e que, agora, já não passava de um fantasma, pagando pelos seus pecados."


Fantasy All public.

#mistério #lady #mulherforte #mulasemcabeça #pirlimpimpim
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Parte Um - "Que Deus o tenha!"

Hallo, seres humanos? 

Essa história foi feita para o desafio #pirlimpimpim do Inkspired e utiliza da lenda da Mula Sem Cabeça como foco central e será dividida em três partes. 

Desde já, agradeço a leitura de todos. 

Espero que gostem. 


777


Em meados de 1990, uma besta estranha passou por entre as ruas desertas de um dos povoados do pequeno estado de Sergipe, aterrorizando quem estava pelo caminho. Deviam existir umas sessenta casas naquela localidade, todas com as portas fechadas pelo medo de quem residia ali. Talvez os moradores não soubessem lidar com os bichos e criaturas da noite, talvez fosse melhor se esconder, mas Jaqueline Dias não era um daqueles medrosos que acreditavam em qualquer baboseira que lhes fosse dita.

Naquele mesmo dia, a garota se sentou ante a porta e esperou tal figura passar em seu galope triunfante. Nada aconteceu. Com um sorriso prepotente, a menina Dias foi ao centro da cidade gritar a Deus e ao mundo que a criatura a qual eles tanto temiam era nada mais que um produto da loucura existente em suas cabeças ignorantes. Quase ninguém se dignou a acreditar, preferiram trancar-se em seus casebres de taipa e viver uma vida assombrada por coisas inexistentes.

Entretanto, aquela situação não perdurou por muito tempo, já que, em uma noite de festejos, toda a população se reuniu na principal ― e única ― avenida daquela vilela.

Jaqueline não estava lá.

Na verdade, a jovem não era lá uma pessoa festeira. Gostava mais dos três ou quatro livros que escondia debaixo do colchão, o padre havia a ensinado a ler. Sentada em sua cama, enquanto via seu pai ressonar no sofá através do espaço vazio onde deveria existir uma porta, Jaqueline contava o tempo até que ele acordasse e saísse mais uma vez a procura de bebida. Não tinham mais dinheiro, logo não teria mais o que comer e nem como comprar alguma comida, ele não podia gastar mais do que já havia sido gasto naquele mês.

Num sobressalto, o homem acordou, na cara tinha expressão confusa, um pouco aterrorizada. Imediatamente levantou-se, o que assustou a garota. Ela ouviu o pai caminhar até o quarto ao lado, mexendo em algo sem fazer muito barulho, o som característico do carregar da espingarda de dois canos, inutilizada há anos, foi escutado. O que estava acontecendo?

Painho? ― falou, apreensiva ao achar mais uma vez a figura do pai. ― Quê que teve?

― Cale a boca ― ele respondeu aos sussurros. ― Vá pra debaixo da cama, adiante.

― Mas, painho…

Adiante, Jaqueline.

Com a ordem do homem, a garota jogou-se do lugar onde estava, encaixando-se no pequeno espaço entre a cama e o chão. A porta foi aberta com certa força e a bota, colocada há pouco, passou a fazer um barulho alto ao tocar o piso barrento. Passos pesados e temerosos. Jaqueline não sabia o que acontecia ali ou por que seu pai estava tão desesperado, estava com medo, tinha que admitir.

Ouviu um baixo relinchar, seguido de um soluçado inquietante. Debaixo da cama, podia ver a sombra de seu pai sendo transmitida na madeira da porta, lá fora, o senhor contemplava alguma coisa estranha, dois tiros, uma pausa, mais dois tiros. Aquela situação estava deixando-a ansiosa; inquieta, saiu devagarinho do lugar em que estava, rastejando até a parede mais próxima à porta, olhou com cuidado para o lado de fora e o que que viu fez com que seu corpo travasse num instante. Não podia ser.

Um homem de cabelos escuros naquela hora caiu e o som do cavalgado fora escutando por mais ninguém além da garota assustada.

Painho?


777


A senhorita Lady Margarett Thomas era, certamente, uma mulher de posses. Era conhecida por aquelas bandas como a Diaba de Porcelana por sempre estar em sua postura altiva e misteriosa. Seu nome era um dos maiores símbolos de seu poder, pelo menos, para os ignorantes que viviam ali. Fora nomeada por um parente metido a inglês que mal sabia contar quantos dedos existiam nas mãos e foi por essa mesma esperteza por parte de sua família que a moça conseguiu arrancar tudo que aqueles nojentos tinham. E, por isso, recebeu seu maior título. Ainda sorria quando o escutava sussurrado pelos cantos, até mesmo pela boca dos empregados que a haviam criado.

Naquele momento, postava-se sobre uma das cadeiras acolchoadas daquele jardim, tomando goles do café passado minutos antes. Daquele lugar, pôde ver perfeitamente quando um garoto danado passou pela cancela de madeira da sua propriedade numa ligeireza que não saberia explicar. Logo, o moleque estava em sua frente mostrando-lhe um bilhete amassado, enquanto respirava pesadamente pelo cansaço. Ela sorriu com o desespero do menino, como um serzinho como aquele poderia estar tão preocupado por, o que julgava ser, uma bobagem?

― Quê que foi, menino? ― perguntou, pegando o papel estava em suas mãos. ― Quem que te mandou aqui?

O menino ainda ofegava quando a mulher lhe indicou uma das cadeiras em torno da mesa. Sentou-se e passou a observar a mulher com os olhos vidrados no bilhete, escrito em garranchos que ficaram confusos em sua cabeça. Quando, finalmente, entendeu, ficou boquiaberta, não era possível!

― Quem que mandou isso, hein, menino?

― Foi painho. Ele disse que era preu trazer isso daí. Ele falou assim, ó: “Entregue isso pra dona do Raimundo Dantas, é urgente!” Aí, eu trusse.

― Como que é o nome do teu pai? ― perguntou, voltando a ler o bilhete. ― Chegue, menino! Diga o nome do teu pai.

― É Corme, dona moça.

― Cosme? Seu pai é o Cosme? ― Ele assentiu. ― Oxe! Então, por que ele não veio aqui?

― É que Maria de febre e mainha foi pra casa de voinha. É painho que cudjando” dela.

― Certo, certo. Vá lá em sua casa e diga pro teu pai que eu vou dá um jeito de ir lá na segunda ― falou ao anotar algo no mesmo papel que lhe havia sido entregue. ― Tome aqui, se nada der errado, eu chego lá e resolvo tudo num só dia.

O garoto assentiu com a cabeça e pegou o papel na mão da moça de careta séria. Aquela mulher era muito estranha, com certeza, fazia juz ao que falavam por aí.

Brigado, senhora. ― Ela sorriu.

― Ainda não cheguei a tanto, garoto. ― Seus olhos miúdos arregalaram-se quando os dedos foram ao cabelo crespo do menino, fazendo uma espécie de cafuné ali. ― Tem bolo aí, se você quiser ― ofereceu.

― Bolo de quê, dinda?

― Ah, isso você vai ter que pergunta pra Maria, vai lá.

E ele foi, vagando entre os cômodos até achar a cozinha daquele casarão. Enquanto isso, a senhorita Lady Margarett Thomas aproveitou o breve ar deslumbrado do garoto para ir até aquela biblioteca. Nunca tinha ouvido falar daquele bicho, não da forma como foi descrita. Mordeu os lábios em nervosismo, aqueles dias seriam longos, não desperdiçaria um segundo sequer para descobrir o que estava acontecendo. 

Sept. 18, 2018, 12:11 a.m. 3 Report Embed 3
To be continued...

Meet the author

Ellie Blue Apaixonada por café, itinerante como um circo entre as histórias que já leu (e ainda vai ler). Apesar de muito nova parece ter vivido muito tempo. Tantos anos que não sabe se é velha ou jovem. Mas a verdade é que é de muitas eras e não sabe viver sem emoção.

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Yasu Wada Yasu Wada
A sua história ficou bem legal Sabrina! E esse sotaque ficou muito bom kkk
Sept. 21, 2018, 5:49 p.m.
Crytter Crytter
Adorei! Principalmente o primeiro conto! Achei bem interessante você colocar duas histórias sobre as coisas que a mula faz!
Sept. 19, 2018, 10:51 a.m.
Kaline Bogard Kaline Bogard
Olá! Ótima escolha de lenda. A Mula sem cabeça não é um dos contos preferidos dos autores e eu sempre senti vontade de ler algo a mais. Também gostei da ambientação, tem um ar bem de cidade do interior com suas crendices, fato que fica mais claro na segunda parte do texto, quando o forte sotaque do garoto domina o dialogo. Sabia que ia dar ruim pra Jaqueline. A ciencia é o deus do novo mundo, mas a gente não deve, em hipótese alguma, duvidar dos misterios que existem nas sombras! Parabens por participar do desafio
Sept. 19, 2018, 7:42 a.m.
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