O Violinista no Jardim Follow story

anavitriasantos Ana Vitória Santos

"É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante." Nietzsche. Per acreditava que a vida era um sonho. Pequenas imagens e situações que no final nada irá importar. Mas uma mudança radical provará que vida é muito mais, e isso nem sempre será bom. Ele se muda para a Noruega em busca de uma banda, e lá encontra uma menina irritante e cristã chamada Lúthien. A garota, mesmo sem querer, muda sua vida e seus planos. A verdade é que a garotinha inocente esconde muito mais o que aparenta. Entre a sonhos e pesadelos, entre sorrisos e lágrimas, entre a vida e a morte, o Violinista sempre estará no jardim.


Romance Contemporary All public.

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Prólogo

 

1979

Sonhos de outra existência, de outra mundo. 

Ele apenas… fechou os olhos e bum!, acordou ali, como se tivesse se teletransportado. Em uma grande floresta verde e calma. 

Estava tudo tão nublado e frio. 

Eu não sei onde estava com a cabeça quando fiz aquilo com o moleque. Bom, a culpa não foi totalmente minha, houve confusões de datas. Confusões estas que não posso controlar. Por isso que situações como aquela ocorrem tantas vezes. 

Foi tudo tão rápido quanto um piscar de olhos - literalmente -, o lugar cai num breu. E apesar da escuridão repentina o garoto permanecia lá, parado e com os olhos tão arregalados que parecia que iriam saltar a qualquer momento. 

Ofegante, ele levantou-se e olhou ao redor de si. Duvido muito que ele podia enxergar qualquer coisa ali. Estava escuro demais para olhos humanos. 

Olhos humanos? Acho que ele não era tão humano naquele momento. Provavelmente estava neutro. 

Ele começou a andar com certa dificuldade, pois tropeçava em troncos podres e escorregava em pedras deslizantes. Coitado. Eu podia sentir seu medo e podia cheirar a sua angústia. Era agonizante. 

Mas, para a minha surpresa, o garoto continuou andando e determinado. E para a minha raiva, as vozes começaram a gritar. Malditas almas sem paz! 

Eu deveria me unir ao Destino para resolver questões de pessoas que morrem e não descansam. Elas ficam presas ali enchendo a minha paciência. Naquela hora, eu já podia imaginar que o garoto estava com mais medo do que antes, mas eu estava totalmente enganado. 

Ele correu. Mas não correu apavorado. Ele correu… animado. Que diabos? 

Logo a chuva que já estava prevista para cair naquele minuto (com alguns segundos de atraso) molhou o chão, acalmando as almas. Mas algumas delas ainda gritavam em horror. 

O garoto corria para o próximo nível. Foi ali que comecei a ficar apressado. E se ele ficasse por ali? 

Ouch.

Eu simplesmente odeio perder o controle dessas situações. 

Eu o segui e vi que ele se aproximava da outra floresta. Um lugar que já foi fértil há séculos, mas hoje é cheio de árvores de troncos retos e sem folhas. O chão é cinza e o céu é sempre escuro. A única coisa bonita ali é a Lua. 

Sim, a Lua daquele lugar fora a única coisa viva e brilhante que sobrou. 

Ainda correndo, o garoto tropeçou e deu de cara com chão. Eu senti a sua dor e ouvi seus xingamentos nos pensamentos. Que criança mais boca suja! 

Ele olhou ao redor e finalmente percebeu que tropeçara numa sepultura. Logo soube que estava num cemitério - que eu já deveria ter limpado há muito tempo. 

E então ele ficou… excitado? Animado? uh, sempre esqueço o nome desse sentimento. Que droga. 

Ele permaneceu ali por tempo demais, apenas olhando o que chamou de A Lua Congelante. O que devo concordar, pois o satélite natural parece mesmo ser feito de gelo e hipnotizava o garoto, como se ele realmente estivesse sendo congelado por ela.

Já impaciente com sua observação, a melodia crescente do violino preencheu todo o espaço. Acho que ele gostou, pois esboçou um sorriso involuntário. 

Levantou-se e continuou a sua corrida, desta vez para o último nível. Já vi que crianças adoram correr, mas este garoto era diferente. Ele parecia tão feliz por estar ali que corria apenas para alcançar algo, e não por sua animação. 

No fim do último nível, tudo ficava mais confuso até para mim. Imagens distorcidas, luzes vermelhas e roxas por toda parte e ilusões bem verdadeiras. 

Então, ele chegou ao túnel. O túnel do último nível. Tudo ficava mais e mais confuso e penoso. Eu podia ouvir a confusão na cabeça do menino. Vozes e pensamentos desconexos. 

Ele recuou um pouco, mas uma coragem que não sei explicar de onde veio o atingiu, dando-lhe determinação para entrar no túnel. 

Até hoje eu me surpreendo, pois não consegui entender o que aquele garoto sentia ou pensava. Ele podia ser muito bem um suicida, mas havia algo a mais. Como uma visão totalmente particular da morte. Uma visão que pretendo entender. Mas naquela hora eu estava confuso e temeroso. 

Uma luz azul preencheu todo o túnel. O menino não conseguia ver nada além daquele breu azul. 

Em condições mundanas, a intensidade daquela luz poderia cegá-lo, mas não ali. 

Ele andava e andava. Se ele chegasse ao fim do túnel, seria, literalmente, o seu “fim”. E por algum motivo, que eu não sabia no dia, ele queria aquele fim. Criança tola! 

A pressa já me fazia querer roer as unhas, se eu as tivesse.

Quando ele chegou a luz branca, eu já tinha perdido todas as esperanças. Estava perdido. 

A luz branca lhe abraçava e o dissolvia. Ele se sentia bem e confortável, seu corpo totalmente dormente. 

Mas algo ocorreu. Sorri na hora, pois a confusão que eu havia feito fora resolvida. 

Ao invés de passar totalmente pela luz branca, o garoto voltou para o segundo nível. O que não é algo bom, mas pelo menos ele não passou do túnel. 

O engraçado foi vê-lo decepcionado e desesperado ali, de volta àquele cemitério. E para completar, tudo tornou-se confuso novamente. 

Os seus ouvidos começaram a sangrar e as vozes das almas gritavam agudamente, agonizando. A melodia de violino tornou-se desconexa e desafinada. Naquele momento, ele já via coisas. Coisas aterrorizantes, que prefiro não contar. 

Per, as almas chamavam. 

Per

Per

Ele gritava, mas ria ao mesmo tempo. 

Ele fez o mais sensato naquele momento, naquela realidade: enlouqueceu. 

Se sentia obcecado e apaixonado pela Lua Congelante. Eu sempre soube que ela poderia desorientar um ser fraco. 

Não foi muito saudável o que fiz, mas não pude conter a minha risada, que parecia obcecá-lo mais. 

E naquele Mundo, ele morreu. Mas sua alma voltou para o lugar que pertencia. 

Feb. 26, 2019, 5:02 p.m. 0 Report Embed 0
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