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morghanah Morghanah .

"Johann não queria afastar-se dela (...) Mas inevitavelmente ele precisava se ausentar por um período do qual, talvez, não houvesse retorno ao lar, sendo este o motivo de ela estar tão entregue e desolada assim".


Drama Not for children under 13. © Todos os Direitos Reservados

#drama #oneshot #tragedia #original #angst
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Adeus


Do lado de fora do suntuoso aposento no qual um casal repousava, abraçados um ao outro, sobre a cama larga coberta por lençóis claros, abaixo de um belo dossel de carvalho negro, a temida alvorada se aproximava trazendo consigo ainda mais lágrimas aos olhos da jovem que neste momento, e a horas atrás, pranteava silenciosa e sofregamente em meio os braços de seu amado esposo.

O homem de vinte e cinco anos, dono de cabelos e olhos negros como a noite, pele pálida, belos traços europeus e estatura média, amparava-a e acariciava os cabelos daquela a qual jurou proteger, amar, cuidar, respeitar e assim o faz desde a primeira vez que pôs os olhos nela. Isso a muitos anos atrás quando ainda eram jovens demais para saberem e entenderem o que significava tudo aquilo que sentiam, e sentem até hoje.

Ele estava preocupado, pois, embora não fizesse alarde acerca do assunto, possuía plena ciência do delicado estado mental e emocional de Ivanka, sua esposa.

Dona de um olhar intenso, palavras de efeito e desdém sem igual, assim como nervos frágeis que sucumbem eventualmente aos seus demônios internos, tornando-a imprevisível, arredia e, para muito, completamente insana.

E era esta mesma jovem que na manhã de seu aniversário de vinte e dois anos de idade, se via desejando ser capaz de parar o tempo e assim jamais testemunhar a partida de sua metade. Seu marido. Seu mundo.

A expressão translúcida e salgada da dor que sentia há dias, mas no momento lhe era insuportável e dificílima de segurar ou mensurar, escorria de seus olhos e morria sobre o peito desnudo daquele que, após a união carnal protagonizada por eles horas atrás – ato em que lhe mostrara todo o amor, carinho e saudades dela, ainda que não a tivesse deixado –, suportava firmemente e sem pestanejar todo o peso ao qual sabia que ela precisava e deveria liberar de dentro de si, antes que se afogasse em sofrimento, mágoa, dor e loucura.

Johann não queria afastar-se dela, não em um momento tão delicado quanto este, pois sentia a cada dia mais o esvaecer de sua razão, fruto de algo que jamais soube o motivo, ainda que o testemunhasse a cada minuto que se passava. Mas inevitavelmente ele precisava se ausentar por um período do qual, talvez, não houvesse retorno ao lar, sendo este o motivo de ela estar tão entregue e desolada assim.

Ele nunca foi alguém bom com palavras, mas seu silêncio compreensivo mostrava o quão preocupado estava, pois Ivanka, mesmo em meio a seus braços e unida a si da maneira que tanto gostava, despia suas emoções e implorava que não a deixasse sozinha. Seus belos olhos verdes vidrados aos dele durante o coito de despedida, como se quisesse estreitar ainda mais a ligação entre as almas que jamais tiveram dúvida acerca de sua metade e a quem pertenciam, incentivavam-no a guardar em sua mente a lembrança do cheiro dela. A textura de seus cabelos cor de fogo em meio a seus dedos compridos, o toque macio da pele alheia em contato com a sua, sendo uma pena que não pôde ouvir o som gostoso de sua risada descontraída, ou a potência do olhar faceiro da mulher que nunca deixou de ser a menina sapeca que conheceu quando criança.

Em sua mente, Johann gostaria que ela brigasse consigo, fosse grosseira, lhe batesse, discutisse e que no final houvesse a tão adorada reconciliação, como ocorreu em tantas outras vezes em que precisou passar meses longe e ela queria castrá-lo por isso.

Mas não desta vez.

Nesta havia apenas seu silêncio pesado e as lágrimas fúnebres de alguém que dava adeus a seu grande e único amor.

Os galos criados no poleiro da típica residência alemã construída nos moldes arquitetônicos do século XVIII, cantaram avisando que a hora de partir, infelizmente, chegou.

O pranto, agora audível, cortava ainda mais o coração dele, enquanto se soltava dos braços pedintes e carentes dela ao se pôr de pé para lavar-se, vestir suas roupas e ir embora.

Cada peça foi posta sob o olhar dela, que se ergueu da cama e o ajudou a colocá-las. O rapaz queria dizer-lhe: "Estou indo, mas retornarei em breve, por isso não chores mais, minha amada esposa", mas nada foi proferido porque a deixaria pior, então se manteve calado e a observou lhe ajudar.

Outra coisa que gostaria de dizer era que ambos tentariam novamente ter filhos quando ele retornasse. Algo que não ocorreu até o momento. Embora Ivanka tenha engravidado certa vez, ela perdeu seu bebê ainda no início da gestação, sendo a partir daí o começo da derrocada de sua sanidade mental.

Mirar o horizonte lá fora pintado de púrpura, laranja e vermelho, onde antes havia o império negro e estrelado, deixou a despedida ainda mais amagra devido à beleza a qual foram presenteados nesta bela manhã de final de primavera pela mãe natureza, ainda que uma neblina cinza, tristonha e fosca, assim como os olhos da soturna e jovem aniversariante estavam no momento, ofuscasse parte do show protagonizado pela inevitável chegada do rei sol.

Mais uma vez, ela lhe implorou que não se fosse quando este pegou suas botinas de couro e as calçou, assim como fez uso da sensualidade de suas curvas para convencê-lo a não lhe deixar, mas ele resistiu bravamente e se retirou do aposento sem nada dizer.

Johann desceu as escadas encontrando seus empregados já a postos, prontos para lhe servirem o desjejum matinal antes de montar em seu cavalo e ir embora.

A moradia de classe alta estava cinzenta e pesarosa, todos ali notaram o esgotamento de seu senhor e a dor pungente de sua senhora, que ainda não desceu para comer. Ainda que Ivanka apreciasse ficar na cama por mais tempo – algo que muitas vezes o obrigava a fazê-lo por não querer que ele estivesse distante de si –, ela estava ao lado dele, nem que fosse para brigar.

Mas ela sempre estava lá.

Johann direcionou um olhar curto e anguloso em direção a governanta da casa, que entende seu pedido mudo e rumou em direção a seu quarto a fim de amparar sua esposa.

Ao subir as escadas e entrar no aposento, após se anunciar e ouvir apenas o choro dela como resposta, Maria abriu a porta e deu de cara com Ivanka, ainda desnuda, sentada no chão e abraçada aos próprios joelhos.

Minha senhora – a mulher exclamou espantada ao vê-la tão mal, buscando o cobertor sobre a cama para cobrir suas vergonhas a mostra.

Ele... – disse ao elevar os olhos e o rosto vendo sua serva negar.

Estás a comer e espera sua presença ao seu lado – sorriu fraco em sua direção.

Ivanka a olhou como quem pedia apoio para se erguer e com a ajuda de Maria, vestiu uma de suas camisolas brancas, limpou de seu belo rosto os vestígios de seu pesar, penteou suas longas madeixas avermelhadas deixando-as cair soltas em suas costas, em seguida acompanhou a mais velha em direção a sala de jantar, local este no qual seu esposo a esperava.

O dono dos olhos preocupados quase foi capazes de sorrir ao vê-la sem chorar a sua frente e usando aquela roupa. Uma que ele mesmo foi quem lhe deu tal veste quando foram em viajem a Salzburgo numa ocasião especial.

Fazendo jus ao cavalheirismo que sempre foi sua marca registrada, Johann se ergueu e lhe estendeu a mão, chamando-a para perto de si, e ela foi. Tímida, porém resoluta, recebendo um leve selar sobre o dorso de sua mão esquerda.

Bom dia – foi o que proferiu após horas de silêncio. Seu timbre grave, porém suave de voz, especialmente para com ela, lhe aqueceu o coração.

Ivanka sempre amou o som da voz dele.

Bom dia – a voz outrora oscilante e fraca, estava firme como sempre, acalmando-o um pouco.

Ele a ajudou a sentar-se e a observou olhar os alimentos sem a mínima vontade de ingeri-los.

Não sentes fome? – a interrogação veio após degustar de um gole de café preto, forte e sem açúcar. Ela meneou como resposta.

Eles voltaram a se olhar.

Pouco depois, a jovem e bela Josephine, acompanhada de Maria, sua mãe, trouxe consigo guarnições para que seu patrão levasse e consumisse em sua viagem até seu destino. Educadamente, Johann agradeceu a gentileza e se deu conta do inevitável.

Era hora de partir.

Silente e de cabeça baixa, Ivanka o acompanhou até a porta onde o viu pegar seu casaco, antes de se dirigir a parte externa da casa vendo o cavalo negro dele e os mais claros de dois de seus servos, o esposo e filho mais velho de Maria, já a postos a ajeitar as guarnições recebidas e subirem em suas montarias.

As vestes de classe alta e num tom de verde escuro acomodavam-se de modo impecável sobre o corpo masculino ao qual ela não queria se separar. Ivanka o abraçou quando este a olhou com pesar e por ele foi longamente beijada.

Um roçar terno de lábios antes da partida final.

Ao se separarem, Johann não teve coragem de encará-la novamente, embora ainda sentisse o afago terno, pedinte e amoroso em sua bochecha esquerda, iniciado por ela durante o beijo, ou fraquejaria e se renderia às súplicas veladas e desesperadas em seus olhos e toque sútil. No entanto, o dever o chamava e ele precisava, ele tinha que ir. Então, numa atitude por ela inesperada, segurou seus pulsos dando fim ao contato enquanto ao se afastar sem voltar a olhá-la, deixando para trás sua amada e querida esposa de coração partido e entregue ao choro copioso.

Imersa em seu mar de tristeza, após vê-lo partir, Ivanka entrou em casa e se trancou em seu quarto, onde chorou sozinha por longos minutos até ser consumida pela insanidade que habitava seu coração e mente.

A mesma insanidade a qual seu esposo tanto temia.

Tomada pela loucura e no intuito deturpado de curar sua dor e desespero tão intensos, assim como a seu coração dilacerado a latejar sôfrego em seu peito, impedindo-a de respirar direito, pois nem chorar mais ela se via sendo capaz de fazer; Ivanka se dirigiu ao andar de baixo de sua residência em busca das servas e de alívio para o que lhe afligia.

Usando uma faca de cozinha, a ruiva encontrou e matou primeiramente Josephine. A pobre coitada sentiu a fúria de sua patroa de modo deveras intenso, assim como a mesma sempre foi em todos os aspectos de sua vida.

Ensandecida, ela fez uso de sua força física e da faca para retirar o coração da jovem e o comer, numa tentativa vã e doentia de curar o seu próprio que tanto doía, mas o que obteve em troca foi ainda mais daquilo de que tentava se curar com tamanho afinco.

Consumida por si mesma em meio ao vermelho a lhe manchar as vestes brancas e o rosto, segurando o coração de sua vítima em mãos, Ivanka se pôs de pé ao ouvir o grito doloroso de uma mãe que encontrou sua filha mais velha morta tão cruelmente por aquela a quem cuidou por anos e por fim aprendeu a mara quase como uma filha.

Estática, Maria não acreditava naquilo via e sequer tivera a chance de escapar de sua astuta algoz que a matou com uma facada no pescoço, vendo-a sangrar até a morte, enquanto chorava e ria ao mesmo tempo, entregue a quimera voraz de sua loucura. E mais uma vez crendo que ao comer um coração saudável seria capaz de curar o próprio, a ruiva se pôs a fazê-lo novamente, mas de nada adiantou ingerir alguns pedaços do mesmo.

A dor não se foi.




Johann sentiu seu coração apertar e algo implorar para que regressasse, pois sua esposa corria perigo. E tal aviso foi tão intenso em seu cerne, a ponto de fazê-lo ouvir a voz chorosa dela a lhe chamar..

"Johann, me ajuda... Me salva... Volta para mim, meu amor"

Foram exatamente estas palavras que ele escutou em sua mente e coração.

Confiante em seu sexto sentido e na ligação entre si e sua esposa, ele mudou o rumo da cavalgada e exigiu o máximo de seu animal durante o percurso de volta para casa, rogando aos deuses que ainda houvesse tempo de salvá-la de si mesma.




Já completamente entregue a seu desatino mental, Ivanka ia deixando a marca carmesim de sua loucura nos corpos sem vida de todos aqueles que vieram em busca da origem dos gritos. Muitos tentaram segurar a jovem ensandecida, pedindo-lhe que recobrasse sua calma e volte a si. A ruiva já teve algumas crises em seu passado nas quais ficou bem agressiva, embora jamais tenha matado alguém antes, mas desta vez sua lucidez não foi acalçada por nenhum deles, pois o único capaz de acalmá-la não estava presente. Dessa maneira, os remanescentes fugiram dela fazendo-a sentir-se cada vez mais abandonada e sozinha.

Banhada pelo sangue de suas vítimas, a jovem rodopiou em seu próprio eixo no meio da sala principal em meio as corpos das duas primeiras vítimas fatais. Seus braços estavam abertos e suspenso no ar na altura de seus ombros, numa de suas mãos a faca usada e suja de sangue ainda era segurada, seu rosto estava voltado para cima e os olhos se encontravam fechados enquanto cantarolava um trecho de uma obra de Bach.

Seu favorito.

Completamente desesperançosa, ao notar que estava sozinha de verdade agora, que seus empregados estavam mortos e seu amado jamais voltaria para si, não importando como ou o quanto clamasse por ele, seja verbalmente ou em pensamento, Ivanka soltou o objeto, riu de modo amargurado ao olhar uma das tantas lembranças dele em sua casa e saiu.




Johann chegou aos limites de sua residência, parou seu animal defronte a porta de entrada, que por sinal estava aberta, e saltou. Apreensivo, ele irrompeu através da mesma e encontrou os corpos dilacerados de dois de seus empregados. Ele sentiu seu estômago querer pôr todo o seu conteúdo para fora assim como as batidas de seu coração falharam ao imaginar que algo parecido pudesse ter ocorrido a sua amada. Mediante a tal pensamento tenebroso, ele vasculhou os cômodos do andar de baixo se deparando com mais sangue e pessoas mortas, então subiu os degraus da escada, de dois em dois, em direção ao segundo pavimento enquanto gritava o nome dela em meio ao próprio desespero.

Mas não houve resposta alguma vinda de lugar algum, muito menos vestígios dela por onde passou.

Ivanka não estava em casa.




Descalça em meio ao mato alto na cor verde claro por conta da proximidade do verão, a solitária e desolada aniversariante caminhava a passos lentos, com as mãos abertas sentindo a vegetação resvalar por entre seus dedos e vestes, assim como a brisa morna a balançar seus cabelos e deslisar por sua face, numa carícia saudosa e triste, assim como o chão sob seus pés descalços, enquanto almejava seu fim com demasiado afinco, e, a cada novo passo dado, este se aproximava mais e mais de si.




Engolindo em seco e sem saber a onde mais deveria procurar, Johann escutou o som de seus servos se aproximando do local e olhou a vista através da janela de seu aposento, então algo dentro de si proferiu.

O penhasco.

Não! – negou, ao correr os olhos pela paisagem sem realmente ver algo a sua frente. — Ela não faria isso – recusava-se a acreditar em tal hipótese, mas os corpos sem vida no chão de sua sala falavam por si só, sendo o som do desespero de seu servo o estopim que o fez retornar a sua realidade e sair de casa, às pressas, em direção ao local indicado por sua intuição infalível.




A vista a sua frente era belíssima. Ao longe haviam montanhas esverdeadas, talvez floridas, quem sabe, e metros abaixo de si pedras cinzentas como a neblina no final da madrugada, se encontravam imóveis e deveras convidativas.

Ivanka já não era mais capaz de chorar, resignara-se por completo acerca de seu destino solitário sem Johann ao seu lado, pois não o veria ou o teria mais ao seu lado. Não mais.

Nunca mais.

Ela sorriu com enorme tristeza ao se lembrar que não veria mais aqueles olhos escuros que jamais se cansou de observar; não escutaria mais a sua voz melodiosa e baixa, muito menos a sua risada frouxa apenas consigo quando sozinhos no quarto a conversar sobre coisas banais e divertidas; sequer o timbre másculo quando imerso em prazer nos momentos mais intensos juntos; assim como as mãos dele a lhe apalpar e apertar em vários locais de sua anatomia e lábios a provar de sua tez tão pálida quanto a dele.

E como isso doía demais.

Sendo tais imagens que provocaram novas lágrimas em seus olhos enquanto o vento parecia prantear em seus ouvidos e a convidar a junte-se a ele, concomitantemente.

E desta vez para sempre.




Johann correu o máximo que suas pernas lhe permitiram fazer rumo àquele local quando a imagem dela surgiu nítida em sua mente o fazendo parar.


Ivanka estava de costas para o penhasco, parada a um passo da queda livre. Seus olhos estavam vermelho pelo choro, havia um sorriso triste em seus lábios, sua roupa toda estava suja de sangue assim como suas mãos e rosto.

Vamos ficar juntos outra vez, meu amor – foi o que ela disse.

Os braços aos poucos foram se abrindo enquanto voltava seus olhos e rosto para cima, encarando o céu quase anil acima de sua cabeça.


Seu esposo abanou a cabeça em negativo e voltou a correr enquanto chamava seu nome e a implorava que não fizesse isso, mas já era tarde demais porque ao chegar ao local e olhar para baixo foi exatamente a imagem do corpo dela sobre as pedras o que ele viu.

O homem gritou de raiva, dor, tristeza e pesar por ter sido incapaz de cuidar e proteger aquela a quem prometera fazer isso, enquanto de joelhos no chão e mãos espalmadas sobre o mesmo, se sentindo culpado como nunca antes, ponderava acerca de tudo de ruim que houve na vida dela e se culpava terminantemente por seu trágico final.

O arrependimento se tornou insuportável quando uma brisa forte balançou seus cabelos e vestes, trazendo consigo a lembrança do presente que comprara para ela e deveria ter-lhe dado antes de sair, mas sequer o fez.

Se o tivesse dado, será que ela ainda estaria aqui comigo?”

Essa foi a pergunta a qual se fez várias e várias vezes, ainda prostrado no chão a lamentar e chorar.

Desolado e arrasado, Johann retornou a sua moradia cinzenta e sem vida, onde encontrou apenas as marcas de sangue pelo chão, já que os corpos dos falecidos foram retirados do local por seus entes queridos, além dos vestígios do que um dia foi uma vida feliz e ensolarada lá dentro. Ele foi até o cômodo que usava para pintar, no qual pegou vários de seus matérias de pintura, uma de suas muitas telas em branco e regressou ao local onde sua amada encontrara seu fim. Posicionou-se a uma certa distância para que pudesse vê-la, engolindo seco todas as vezes nas quais seus olhos sadicamente o nortearam até o corpo dela.

Aos poucos o branco da tela foi dando lugar aos traços negros feitos a carvão, depois às cores das tintas que formavam o registo fidedigno da cena a sua frente, assim como também mostravam a si próprio olhando para sua amada.

Ao final da pintura e do dia, uma antiga amiga sua apareceu para lhe confortar e dar-lhe os pêsames, assim como descobrir como deveria ser o velório e enterro da jovem. Provavelmente foram seus criados que contaram a funesta novidade e a mesma imediatamente foi a seu socorro.

Ekaterina tocou o braço do pintor, que pareceu não tê-la notado até o momento, este se virou em sua direção, mas quando ela iria dizer-lhe algo, ele a cortou.

Leve isto com você e cuidado: a tinta ainda está fresca – disse ao entregar-lhe a tela recém acabada e assinada.

Johann, você... – ele negou.

Apenas vá e guarde-o num lugar seguro. Este é meu último presente para ela – concluiu, voltando o rosto e olhos em direção ao corpo de sua esposa e pela primeira vez Ekaterina o viu.

Entendendo o que ele quis dizer com suas palavras, embora deveras relutante, mas ciente de que nada do que dissesse o faria mudar de ideia, a mulher de porte elegante e frio se foi levando consigo o quadro, ouvindo pouco depois o estampido alto do disparo de uma arma de fogo, seguido pelo revoar de pássaros ao longe, assim como o silêncio soprar macambuzio do vento a passar por si levando consigo a mensagem mórbida protagonizada naquele local.




Os amantes separados em vida se foram, mas agora,
quem sabe, poderão encontrar-se e serem felizes novamente
em meio aos domínios da Morte.





Notas da autora: Espero que tenham gostado e perdão pelos erros que possam ter sido encontrados pelo caminho, beijos.

Sept. 1, 2018, 9:15 p.m. 0 Report Embed 0
The End

Meet the author

Morghanah . Escritora faz algum tempo que migrou de outras plataformas para mostrar meu trabalho. Sou uma pessoa dedicada a historias mais densas com personagens tirados de uma mente conturbada por diversos conflitos internos e levemente insana, um detalhe importante que me fez iniciar a minha longa jornada na arte da escrita e, caso aprecie isso, seja bem vindo ao meu mundo.

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