O Garoto Muda Follow story

saturnsenshi KaguyaFalandoAtravesdo Ouija

Essa Fanfic é uma prenda da Gincana do Biscoito do grupo/página Fanfics Naruto Shippers. Ela tem como tema "Representatividade" e se passa no UA, tendo como foco o couple KakaYama. Sinopse: "ELE NÃO DISSE NADA E SORRIU DE NOVO, AQUELE DESGRAÇADO! EU TÔ MUITO PUTO COM ELE. EU QUERO BEIJAR E SOCAR ESSE MALDITO. SOCAR A MINHA BOCA NA DELE. ATÉ ELE SE ARREPENDER DESSE SORRISINHO. Eu não deixaria barato. Eu o beijaria até minha boca ficar dormente, até não ter mais ar nos pulmões. Se duvidasse, até mesmo sua roupa eu arrancaria "


Fanfiction Anime/Manga Not for children under 13.

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O Garoto Muda


“Tem algo errado com você.”

Havia algo errado comigo? Com toda certeza sim! Mas ouvir aquilo ser dito tão friamente me deixava furioso. Vocês acham que não sinto isso? Isso machuca mais a mim do que qualquer outra pessoa. Eu simplesmente queria poder ser diferente.

“Seu pai não merece ter um filho que não consegue nem mesmo somar como uma criança de cinco anos.”

Eu sei que não, eu nunca disse que ele merecia ou que isso era justo com ele. Eu só queria poder ser alguém do qual ele se orgulha.

“Você é um desperdício de tempo. Você nunca vai aprender...”

Andava rapidamente em direção a estação de metrô. Tentava apagar da mente as palavras duras que havia ouvido, sem sucesso. Evitava a todo custo chorar e engolia a angústia que sentia antes que ela transbordasse. Em meio a meus passos apressados, minha atenção foi capturada por uma cena incomum: Um homem bem vestido e de cabelos prateados estava sentado em um dos degraus da escadaria do metrô. Ele estava adormecido com um livro repousado em suas pernas. Não contive a curiosidade e me aproximei a fim de certificar que estava tudo bem, e que aquilo não era uma cena de assassinato.



Vocês fariam o mesmo.

Encarava o homem a minha frente com genuína curiosidade. Ele parecia ter cerca de 20 anos, usava sob um casaco claro, uma blusa escura de gola alta que cobria seu rosto até a altura do nariz.

- Que cara estranho... - Murmurei pra mim mesmo e virei indo para plataforma antes que perdesse o último horário do metrô.

Meu pai me daria um sermão gigantesco se eu perdesse o jantar em família.

[...]

Já era quase hora do intervalo quando recebemos os resultados das avaliações do dia anterior.

Não estava surpreso, não é como se aquele resultado fosse algo inesperado.

- Como você foi? – Iruka, meu colega de classe, apareceu como que por magia em minha frente.

- Advinha...

- O que você vai fazer com essas notas?

- Nada. De qualquer modo os professores vão me passar e fingir que nada aconteceu.

- Que sorte!

É no mínimo irônico alguém pensar que isso é sorte.

- Sim...

Ele não entende. Vocês não tem noção da expressão confusa e perdida que ele sempre me fazia em situações assim.

- Você ta sabendo que teremos novos estagiários?

- De novo?

- Seu pai parece empenhado em trazer pessoas que ainda possuem alguma paixão por ensinar, e que não estejam mortos por dentro, como o resto dos professores daqui.

- O amargor deles fez até meu leite de morango azedar.

- Ouvi dizer que o ambiente na sala dos professores é tão frio que dá até pra usar uma banana como martelo.

- Ok! Você venceu, Iruka.

O senso de humor estranho e o modo como ele sempre era afável, mesmo nos piores momentos, eram como um presente para mim. Apesar de que ele provavelmente não saiba disso. Eu sei. Erro meu. Eu espero que vocês também tenham um Iruka em suas vidas, faz toda a diferença.

O sinal tocou e meu humor morreu tão rapidamente quanto havia melhorado.

- Você vai à sala do Danzo agora?

- Sim. - Meu ânimo deu seu ultimo suspiro naquele momento.

- Aqui jaz Yamato Senju.

- Seu apoio moral me comove.

- As ordens.

Despedi-me com um aceno triste e com a expressão de quem está indo para o fuzilamento. Me arrastava pelos corredores sentindo a ausência de minha alma que havia me abandonado alguns instantes atrás. Alguns alunos passavam por mim com risinhos baixos e uma animação que eu desconhecia.

Que vida escolar miserável. Aqueles filmes tipo High School Musical são uma propaganda enganosa. Quero meu dinheiro e esperanças de volta.

Estava há pelo menos quinze minutos parado feito uma estátua renascentista diante da porta da sala daquele “do qual não falamos”. Respirei fundo reunindo toda a coragem que vacilava por cada célula de meu corpo a fim de bater na porta, mas fui detido ao ouvir meu nome sendo mencionado em uma conversa desagradável.

- “Eu te disse. Ele é um desperdício de tempo e dinheiro. Tenho pena do pai dele. Ele devia ter adotado outra criança menos inútil. Quem sai do lixo nunca deixa de ser lixo. ”

- “Que maldade, Danzo!” – Uma mulher de voz estridente falava. – “Você sabe que ele é filho de uma prostituta ou um viciado, e que as drogas derretem os neurônios de qualquer um.”

Eu sei bem quem foram meus pais. Na verdade, sei bem quem foi minha mãe. Não tenho nenhuma obrigação de esclarecer nada para vocês, mas não deixaria que pensassem mal sobre ela. Ela era só uma estudante esforçada que deu a vida pelo filho.

- “Isso não muda nada. Acho um absurdo um sobrenome de peso como o dos Senju ser dado a um qualquer deste modo.”

Velho invejoso.

- O que você esta fazendo? - Um cara disse abanando as mãos diante de meus olhos. - Você vai entrar? - Antes mesmo que tivesse a chance de responder algo, ele escancarou a porta a minha frente. - Aqui é a sala do professor de matemática?

- “Quem é você? Não te ensinaram a bater?”

- Sou seu novo estagiário, algumas classes serão passadas para mim esse período.

- “Que seja. Só espero que não me arrume problemas.”

A mulher que antes conversava com Danzou foi a primeira a perceber minha presença, estático junto a porta. Ela cochichou algo ao velho estúpido e partiu para fora da sala, lançando-me um olhar de pena ao passar por mim.

Sentia-me esgotado. Eu não queria estar ali, e pela primeira vez, não iria mais me sujeitar àquela tortura e humilhação. Dei meia volta e segui meu caminho, rumo a um lugar quieto e menos movimentado nesse horário. Mais do que qualquer outra coisa, eu sentia necessidade do silêncio, do isolamento.

Após matar as últimas aulas do dia me escondendo em lugares estratégicos pela escola, decidi ir até o clube de literatura, onde encontrei uma nova surpresa: O cara de mais cedo estava dormindo, num sono profundo, com a cabeça escondida num livro grosso. Relutei em me aproximar, temendo fazer algum barulho, uma vez que não poderia ser descoberto ali. Mas para minha própria surpresa, ele nem ao menos se moveu, nem mesmo quando a porta da sala rangeu alto ao ser fechada. Aquilo certamente era uma cena estranha, mas como já ouvi dizer que “universitários são como zumbis”, acabei não dando tanta importância a situação do estagiário.

[...]

O despertar na manhã seguinte foi automático, ansioso e exaustivo. O caminhar até a escola foi depressivo, silencioso demais. As horas se passaram como se tudo se resumisse ao penúltimo horário do dia, onde teria de encarar o rosto do possuído pelo próprio satanás.

Não que eu pense que satanás iria querer se associar aquele homem. Até ele tem padrões a seguir.


Quando finalmente o sinal me despertou indicando a hora de minha sentença, meu coração batia contra o peito insistentemente e minhas mãos suavam gélidas. Um som automático de alívio escapou de meus lábios quando vi adentrar a sala, o estagiário dorminhoco do outro dia (sozinho), e dizer uma frase extensa demais que meu cérebro resumia em “Danzo não virá hoje”.

Foi como se um elefante saltasse de minhas costas. O ar parecia mais leve e eu me sentia menos trêmulo, como um flutuante que se deixou levar no mar do cansaço. Meus ombros enfim relaxaram e eu tive sono, de fato. O decorrer da aula foi mais produtivo do que esperava, apesar da sonolência, meu interesse em matemática havia sido despertado pela simplicidade com que o cara chamado “Kakashi” explicava a geometria. Não queria dizer (erroneamente) que estava entendendo tudo que o outro dizia, mas sim que conseguia alcançar algumas palavras ao vento, isso já era um grande avanço. Ao chegar o término da aula, um “Adeus” foi dito, e eu acreditei em seu significado, mal sabendo que minha vida estava a um passo de receber um grande pontapé.

[...]

Mais uma vez fazia o mesmo caminho para casa, passando pelos mesmos prédios, as mesmas ruas largas, a mesma praça pouco movimentada, e o mesmo caminho para o metrô. Mas uma presença tornava o ambiente estranho, uma não, três. Três homens muito mal encarados que rondavam a base da escadaria de modo muito suspeito. Quando desci os primeiros degraus que davam acesso à plataforma, encontrei o “estranho dorminhoco” novamente, e mesmo sem saber o porquê, fingi ser seu amigo, e não apenas isso, o carreguei comigo para dentro do primeiro vagão de portas abertas que vi. Tecnicamente eu havia salvado a pele (e carteira) dele.

Não é algo para se contar vantagem. Eu dizia a mim mesmo ao descansar ao lado do homem que esfregava os olhos durante seu avivar. Quando por fim minha donzela acordou, pensei estar predestinado àquilo.

[...]

- Hey, Kakashi! Acorda!

- Não estou dormindo – Ele se mexeu na poltrona onde se esparramava de modo preguiçoso.

- Então dê uma olhada nisso – Ele disse erguendo em sua frente a prova de um aluno do último ano.

Kakashi estranhou a nota tão baixa e tomou a prova em mãos para lê-la mais atenciosamente.

- Esse nome... Isso não faz sentido – Comentou.

- Realmente! Não é como se ele tivesse errado tudo, ele nem ao menos entendeu o que estava escrito aqui.

- Não é isso, Obito... – Kakashi se levantou e abriu seu notebook, acessando o sistema da escola, onde encontraria as notas de todos os alunos – Isso aqui! Veja.

- Hã?! Mas isso não faz sentido algum! – Obito disse sobressaltado ao se deparar com notas extremamente desiguais.

- Foi o que eu disse!

Após um resmungo, Obito acertou a cabeça de Kakashi com um golpe certeiro utilizando a pasta de provas.

- Você não devia estar atendendo os alunos na enfermaria?

Obito nem se deu ao trabalho de responder.

[...]

Kakashi passou o resto do dia refletindo sobre o que vira de manhã. Eram fatos que ele não podia ignorar, e Obito certamente não o deixaria fazê-lo, mesmo que tentasse, mesmo que aquilo não fosse de sua conta (muito menos de Obito).

Já no fim da semana, depois de estar exausto de ouvir a tagarelice do amigo sobre “conspiração” e “desvalorização do aluno”, enfim ele ouviu de sua amiga algo que o fez sentir-se no dever de oferecer apoio ao colegial.

- “Alguém tem fazer algo antes que ele desista de si mesmo”

Foi assim que ele tomou a segunda decisão mais certa de sua vida.

[...]

- Só pode ser brincadeira...

Andava em círculos a pelo menos trinta minutos enquanto encarava o chão do clube de literatura. Não sabia o que pensar, nem o que sentir diante aquela situação.

Não que eu nunca tivesse cogitado aquela possibilidade antes, mas uma coisa é cogitar superficialmente, e outra é ter ela jogada em você como uma possível realidade a se encarar.

E não ajudava em nada aquele garoto estar sentado me encarando sem dizer nenhuma palavra que fosse.

- Você é o?

O garoto reagiu inesperadamente arregalando muito os olhos e depois os estreitando como se um fantasma houvesse o chamado.

- Você fala? - Ele dizia admirado.

- Você não?

- Claro que sim! Só pensava que você não falasse ou algo assim. O Obito comentou algo sobre um garoto “muda” estar me esperando aqui.

- Muda? Como assim muda? - Não compreendia nenhuma palavra que aquele garoto confuso dizia em meio aos gestos exagerados, de um modo bastante peculiar ele queria que eu o entendesse.

- Muda, você sabe. – Ele pontuava como se fosse óbvio o significado daquilo. – Aqueles que não falam.

Resolvi ignorar aquele apelido sem sentido e tentar focar minhas energias em não entrar em pânico cada vez que o ponteiro do relógio completava uma volta e Kakashi não chegava.

Após uma longa espera (ou não tão longa assim) ele chegou acompanhado de um homem perturbador.

- Demoramos?

- O que você acha? - O garoto estranho dizia despreocupadamente e logo recebeu uma livrada como reposta.

- Vocês já se conhecem? - Kakashi nos questionava enquanto o outro cara arrastava uma mesa ruidosamente a colocando entre nós e se sentando nela.

- Sim!

- Não.

- Se conhecem ou não?

- Eu não o conheço. Ele já estava aqui quando cheguei e ficou me encarando o tempo todo. - Disse o acusando, e vendo o outro garoto se voltar a mim como se estivesse ultrajado.

- Claro que me conhece. Se você me conheceu nessa sala quer dizer que conhece, oras.

- Olha bem pra eles... - O homem de cabelos negros se levantou e segurou o rosto de Kakashi o virando para os jovens sentados ali (nós) com cara de paisagem. – Eles claramente precisam muito de ajuda, olha bem pra eles. Coitadinhos!

Kakashi já se sentia exausto antes mesmo de ter a chance de falar qualquer coisa importante. Agora, mais do que tudo, ele tinha certeza absoluta de que aquela tarefa demandaria toda energia que ele poderia ter.

- Ouçam bem... – Ele dizia exasperado enquanto massageava as têmporas. – Eu quero propor um grupo de estudos, mas antes que possamos fazer isso, vocês têm que passar por um teste.

- Avaliação Neuropsicológica. - O homem irritante o corrigiu.

[...]

- Você não está prestando atenção, não é? - Genma me puxava por um corredor que nós já havíamos atravessado várias vezes, sempre chegando ao mesmo lugar.

- Você que não está. Olha bem... – Apontei para uma placa retangular e metálica fixada sobre o portal de uma sala. – Já passamos pela sala “quatro” varias vezes.

- Isso nem é um quatro, é um sete, seu imbecil.

Como o Genma é irritante. Ele facilmente ganharia um prêmio por isso.

- Quem você está chamando de imbecil? A culpa é sua, você não tem senso de direção algum. Se eu te abandonar nesse corredor você terá que fixar moradia e constituir sua família aqui, porque é imbecil o suficiente para não saber voltar para a casa.

- Essa doeu, menino muda. Vou ignorar porque preciso de você pra voltar pra casa.

Eu estranhamente já havia me acostumado com aquele apelido sem sentido.

- O que os dois idiotas estão fazendo aqui? - Obito se materializou ao nosso lado como o próprio demônio que ele era.

- Vocês nos mandaram aqui, você esqueceu? Acho que alguém aqui tem Parkinson, Yamato. - Genma dizia rindo enquanto nós o encarávamos incrédulos.

- Eu me sinto tão culpado por rir de você. - Obito dizia o fitando inexpressivo.

- Você não sabe lidar comigo, fale a verdade.

- E quem sabe? – Completei.

[...]

Após duas semanas de avaliações exaustivas, eles enfim chegaram ao nosso diagnóstico inicial.

- Meninos, eu sei que essas últimas semanas foram uma tortura sem fim, mas quero que saibam que independente do que dissermos vocês são capazes de fazer tudo o que quiserem.

Ouvir aquilo nos alarmava mais do que acalmava. Parecia o tipo de discurso que precede uma notícia terrível como a morte de alguém, ou o nascimento de um irmão.

- Antes de tudo quero que vocês pensem que o aprendizado pode ser como uma caixa... – ela levantava uma caixa pequena que estava em sua mesa enquanto dizia – Temos um método padrão para a aprendizagem, como se uma fábrica fizesse todas as caixas em um determinado tamanho para guardar um objeto específico. Mas essa fábrica desconhece ou ignora o fato de que existem outras formas e tamanhos de objetos, e nem todos eles irão caber naquela caixa. Com o sistema de ensino é o mesmo. Vocês são grandes demais para se espremerem para caber naquela caixinha minúscula, vocês passaram tempo demais tentando se adequar a ela quando quem devia se adequar a vocês era a caixa. Nós oferecemos ajuda para que vocês possam construir seus próprios métodos e suas caixas.

Nós a encarávamos como se as metáforas tivessem nos transportado para uma realidade além daquela sala. Kakashi observava nossa apatia, e certamente concluiu que parecíamos completamente perdidos ali, e interveio esclarecendo de modo direto.

- Genma, pelo modo que você desenvolvia sua escrita e leitura, eu já esperava que fosse dislexia e sei que você também, e como já havia relatado casos na família, a possibilidade parecia ainda mais real. Os testes concluíram que você é disléxico, mas isso não é o fim do mundo. Já você Yamato, desde o início demonstrava inabilidade com os números, que passava despercebida durante anos, mas concluímos também que você sofre de discalculia.

- E isso é?

- Grave... - Genma se intrometeu.

- Genma, cale a boca. O que isso quer dizer?

- É como se fosse a dislexia que o Genma tem, só que pra você, ela é com números. No caso do Genma ele tem dificuldade para entender textos e diferenciar algumas letras, assim como você confunde o quatro e o sete. Ambos são classificados como transtornos de aprendizado, e isso é mais comum do que vocês imaginam. O maior problema está na desinformação, a partir do momento em que você tem consciência e aprende seus mecanismos, tudo fica mais fácil. - A jovem garota explicava novamente, desta vez havendo mais compreensão por todos.

- Resumindo o que a Rin disse: vou ajudar vocês aprender a aprender. - Kakashi concluiu.

[...]

- Isso não faz sentido nenhum. – Genma encarava o livro como se tentasse decifrar algum enigma muito complexo. – SENSEI VEM AQUI!

- Cara, o Kakashi ta do seu lado. Pra que gritar?

- Yamato, você é tão amargo.

Voltei a ignorar os escândalos de Genma novamente, e focar atenção na minha questão que não fazia sentido algum:

Questão Três: “Akira tem 900 maçãs e come 179. Quantas maçãs ainda restam para ele dividir com sua irmã?”



Minha irmã? Ou a irmã dele? Meu Deus! Que ser humano consegue comer 179 maçãs
? Posso responder que Akira é um saco sem fundo?

Questão Quatro: “Yui ganha 80 dólares de mesada, Mio ganha 120 dólares. Sabendo isso, diga quanto Azusa ganha.

Quem diabos é Azusa?

Questão cinco: “Após lançar 2014 vezes uma moeda, Usui contou 997 caras. Continuando a lançar a moeda, quantas caras seguidas ele deverá obter para que o número de caras fique igual a metade do número total de lançamentos?”

Usui claramente precisa se consultar com a Dra Rin.


- Kakashi Sensei, esse livro veio estragado.

- Como assim “estragado”? - Ele se arrastava sonolento até onde eu estava.

- Você tem anemia, Sensei?

- O quê?

- É que eu já te vi dormindo em vários lugares e você sempre está despencando por aí.

- Eu sou Narcoléptico.

- E você fala assim abertamente? Nunca te colocaram em uma clínica de reabilitação e nem nada? - Genma novamente ignorava seu teste e encarava Kakashi perplexo.

- Eu nem quero imaginar o que você ta pensando. - Kakashi disse preferindo ignorar os devaneios do garoto.

- Minha mãe ficaria feliz em saber que essa escola contrata pessoas com problemas com vícios. Ela trabalha com reabilitação de viciados.

- Genma, pare. Por favor! Eu não uso drogas. Eu sofro de um distúrbio do sono onde fico cansado e sonolento por longos períodos, independente do quanto eu durma.

- Ah! Entendi... - Ele estava claramente muito mais desanimado com aquilo do que com a possibilidade de ter aulas com algum usuário de drogas. - Olha só! Quem diria hein... - Genma quebrou o silêncio após alguns minutos. – Você fica apagando por aí, nós não aprendemos. Colocar a gente na mesma sala é matar dois gatos numa caixa d’água só.

- Genma, tenha dó.- Eu já havia perdido a paciência pela milésima vez naquele dia, mas por mais que quisesse negar, a presença de Genma fazia muito bem para mim.

- Está ficando tarde. Eu vou levar vocês até a estação. - Kakashi interrompeu a discussão.

---------

Aquela atmosfera era estranha demais para que eu conseguisse ignorar. Quando mais precisava que Genma estivesse ali, ele fugiu furtivamente para acompanhar uma colega de classe até em casa. Traidor!

O julgava mentalmente ciente de que se parasse de amaldiçoá-lo em pensamento, morreria sufocado com a tensão que se apossava de cada músculo de meu corpo.

- Você está calado. - Kakashi comentava despreocupadamente enquanto acendia um cigarro. Pela primeira vez na noite, abaixou a gola da blusa que quase sempre cobria parte de seu rosto.

- Estou? Provavelmente é por ter muito o que pensar agora. Aquele livro que você me deu encheu minha mente.

- Sério? - Ele me observava de lado, parado um pouco adiante.

- Sim! O que mais seria?

- Então você gosta de ler? – Ele parecia ignorar a questão anterior com a mesma facilidade com a que a levantou. Enquanto eu quase morria de tanto pensar na resposta adequada.

- Sim! Bastante.

- Isso é ótimo. – Ele voltou sua atenção para rua e levou o cigarro a boca. – Posso te indicar algum livro?

Por algum motivo que desconhecida, eu me senti especial pela ideia de Kakashi me recomendar algo, como se aquilo estivesse carregado de algum significado oculto.

Naquela mesma noite após chegar em casa, derramei uma enxurrada de reclamações em Genma ao telefone, e mesmo que não fosse minha intenção, revelei mais do que queria sobre como me sentia.

[...]

No outro dia, no clube de estudo:

- Kakashi Sensei, quantos anos você tem? - Genma perguntava com a voz alta demais, animado demais, direto demais.

- Vinte. - Kakashi respondia monótono mais uma das muitas perguntas que Genma resolveu lhe fazer naquela tarde.

- Você é casado?

- Não.

- Você tem namorada?

- Não.

- Qual o seu tipo ideal de garota?

- Nunca pensei muito nisso.

- Todo mundo já pensou nisso, só fingem que não. – Ele fez uma curta pausa antes de continuar- Ou então você deve ter um tipo ideal de garotos.

- Você está afirmando isso?

- A maldade está nos olhos de quem ouve.

Que?

- Acho que alguém com olhos gentis e que goste de mim - Kakashi disse por fim, mas Genma insistia em incentivar ele a continuar - Cabelo suave e macio também. Temperamento calmo e que goste de literatura e de natureza. – Ele comentava de modo simplista como se estivesse realmente pensando a respeito naquele exato momento. – Acho que prefiro os tipos que ficam em casa comigo lendo algum livro ou vendo filmes ao invés de pessoas que curtam atividades que demandem muita energia.

- Você é um idoso? – Essa me escapou.


- Eu não tenho tanta energia para acompanhar pessoas hiperativas, e se eu tivesse alguém da qual gostasse, iria querer acompanhá-la nas coisas que ela gosta.

- Faz sentido. Sensei, isso foi tão bonito. Talvez eu me apaixone por você. – Genma disse o provocando.

- Ah não, Genma, você não!

- E o Yamato então?

- Não me inclua nessa discussão! – Intervi em minha defesa antes que as coisas ficassem ainda mais estranhas para mim.

- Fui rejeitado pelo meu Sensei preferido. Meu coração está partido. Eu nunca vou superar essa dor - Do modo mais aleatório impossível, ele continuou seus questionamentos – Kakashi, você entende de mulheres?

Ele superou rápido.

- Que tipo de pergunta é essa, Genma?


- É que tem um amigo meu... – Ele dizia tentando parecer desinteressado. – Que está gostando de uma garota, mas ela parece ser inteligente demais pra ele, culta demais. Como ele deveria dizer que acha ela incrível sem parecer uma criança?

- Seja sincero, é um bom começo.

- Oh! Entendi. Kakashi, você gosta de hom... – Quando por fim eu pensei que poderia relaxar pela primeira vez, Genma demonstrou que não desistiria daquilo tão facilmente.

- Homúnculos! Você gosta de homúnculos, Sensei?- Me intrometi rapidamente enquanto chutava Genma por baixo da mesa.

- Não diria que gosto e nem que desgosto, na verdade não sei exatamente o que sinto a respeito.

[...]

Sacudia as pernas nervosamente enquanto aguardava o retorno de Genma até a sala de espera. Já fazia algum tempo que Rin havia o levado para sua consulta semanal.

- Ansioso para as provas? – Kakashi me perguntou.

- Não exatamente.

- Falta pouco tempo para o fim das aulas.

- Nossa! Os meses passaram rápido demais...

- Você vai tentar entrar em alguma universidade agora?

- Não sei, de verdade. Nem sei se vale a pena tentar algo assim.

- Não tem algo que você queira fazer?

- Acho que tem.

Na verdade tem duas coisas que gosto muito, mas não sei se são pra mim. Vocês sabem? Aquele sentimento de ser inalcançável é sufocante demais.

- Me conte.

- Eu sempre gostei muito de Arquitetura e Botânica. Mas ambas parecem complexas demais, principalmente se eu levar em consideração os cálculos. E pra fazer Botânica eu teria que cursar Biologia, imagine só eu tendo um monte de aulas de Química e Física.

- Se quiser eu posso te levar pra conhecer o prédio da Biologia, inclusive tenho um amigo biólogo que está fazendo mestrado aqui, e pode conversar melhor com você a respeito.

Eu não sabia se deveria aceitar. Se aceitasse seria como se eu demonstrasse que ainda queria tentar, que não queria desistir. E eu não tinha certeza se queria seguir com isso. Mas por outro lado se eu dissesse não, seria o fim, eu não teria mais nada a fazer ali e eu teria que ir embora. E de certo modo pensar que aquela tarde poderia se estender, mesmo que só mais um pouco, provocava uma estranha agitação em mim que eu ainda não compreendia.

- Eu quero... – Disse incerto, esperando que sua próxima reação me ajudasse a compreender aquela inquietação.

- Então está decidido. Vamos passar pelo prédio da Biologia e depois podemos parar um pouco nos jardins. É impressionante a quantidade de plantas que eles têm naquele lugar.

Andamos por vários corredores, entramos em várias salas, laboratórios e conheci várias pessoas das quais já não lembrava muito bem o nome e nem mesmo os rostos.

Eu já estava me sentindo exausto e inquieto quando chegamos ao jardim. Kakashi parecia estar se arrastando por todo caminho e bocejava tanto que até eu me sentia sonolento.
Ele se sentou no gramado e se espreguiçou. Nem meio minuto depois ele já estava deitado sob uma pérgula de glicínias. Enquanto ele dormia profundamente aproveitei para fotografar cada planta que havia ali. Após um tempo me sentei mais próximo a ele e comecei a esboçar algumas das flores em meu caderno. Já havia se passado no mínimo duas horas desde que estávamos ali, e ele não dava indícios de que despertaria tão cedo. Antes mesmo que eu percebesse, ele acabou se tornando um objeto em meio à paisagem que eu desenhava.

Vocês não podem me julgar por isso, eu sei que em meu lugar vocês fariam o mesmo ou ainda pior. Provavelmente ainda se aproveitariam da oportunidade de encontrar o Senpai tão vulnerável e realizariam aquelas estranhas fantasias de Shoujo, se aproximando e o beijando sem que ele percebesse. Não que isso seja uma idéia ruim, mas eu não sou assim.

Os momentos seguintes se tornaram um estranho misto de curiosidade e a tentativa de enganar a mim mesmo para que não desse ouvidos àquelas ideias.

Mas não era culpa minha, o senpai sempre escondia seu rosto, e é totalmente normal eu me sentir intrigado sobre isso. O que será que ele esconde ali? Será que ele tem alguma doença? Talvez ele tenha quebrado todos os dentes da frente caindo enquanto dormia em algum lugar. Talvez ele babe muito enquanto dorme.

Me movi quase que de modo imperceptível em sua direção.

O medo de ser flagrado era maior até que a curiosidade, talvez não maior (porque eu não desisti de tentar descobrir o que ele escondia), mas sim proporcional.

O outono era marcante naquela tarde, como as pequenas flores de glicínias que se desmanchavam ao cair de seus receptáculos e espalhavam suas pétalas pelo gramado e por todo o rosto e cabelos de Kakashi.

Talvez esse seja um dos motivos de ele sempre andar de máscaras, para não correr o risco de algo entrar em sua boca e engasgar enquanto dorme.

Demorei um tempo incalculável até enfim chegar próximo o suficiente dele. A cada centímetro que me movia em sua direção, gastava alguns minutos vasculhando em volta se alguém havia notado aquilo.

Era incrível demais. O silêncio, a calmaria, o perigo e a entrega em que ele se mantinha. Simples demais, um ato tão natural e tão perigoso ao mesmo tempo. Nunca tinha observado alguém dormir, não dessa forma, com tanto afinco.



Foi nesse momento, no momento em que me encontrava tão imerso em observá-lo, que eu entendi os inúmeros mangás e livros que sempre remontam essa cena. Eu já não posso julgar vocês por cederem a impulsos tão naturais e intensos como esses.

Sem mais hesitar, estiquei meus dedos próximos a seu cabelo e os toquei suavemente. Era mais macio do que eu imaginava. Aquele afago inocente rapidamente se transformou, indo da curiosidade ao desejo e impulso irrefreável. Sua pele era iluminada delicadamente pela luz que chegava a nós após ser filtrada pelas flores. Deslizei os dedos traçando lentamente os contornos de seu rosto e me demorando próximo ao elástico de sua máscara. Suavemente a puxei para baixo com a maior destreza que possuía, Kakashi se mexeu brevemente em meio a um suspiro pesado, para meu alívio ele ainda dormia. Terminei de puxar sua máscara, deixando seu rosto totalmente livre, e enfim podendo vê-lo totalmente pela primeira vez.

Não era o que eu esperava, nem de longe. Eu nem sei o que dizer a vocês. Eu imaginava mil e uma possibilidades do que poderia haver ali sob aquele fino tecido. Mas a realidade esmagou totalmente meus devaneios e pulverizou qualquer fantasia que eu já pudesse ter tido.

- Uma pinta... – sussurrei para mim mesmo enquanto a encarava.


Sentia-me inquieto. Algo dentro de mim parecia estar num ciclo eterno de mudanças térmicas e sensações aterradoras que eu jamais havia sentido e nem sei como descrever. Um dia vocês provavelmente passarão por isso, se já não tiverem passado. Vocês vão me compreender.

Abaixei-me um pouco mais aproximando meu rosto do dele para observá-lo melhor (não me julguem) e senti sua respiração se chocar contra minha pele.

Nesse momento eu já nem sabia mais o que estava pensando ou o que me mantinha ali e não gritava para eu fugir para longe daquela maldita tentação de tocá-lo.

Eu continuei ali. Não movi um centímetro sequer para longe dele.

Acho que eu não podia. Acho que eu não queria.

Nada faria eu me afastar dali, a não ser o par de olhos sonolentos me encarando tão próximos, enquanto eu ainda segurava sua máscara. Eu congelei.

Eu queria gritar qualquer coisa que fosse e dizer que era um engano, mas eu não tinha voz alguma, e sentia minha língua extremamente fraca. Caso, por algum milagre, eu conseguisse emitir algum som, provavelmente sairia um grunhido perturbador.

Eu tenho que me afastar, eu tenho que me afastar! Meu Deus me ajude a sair dessa, por favor.

Não sei quanto tempo se passou, não saberia nem contar, mesmo se eu tivesse com um cronometro ali. Em algum momento minha sanidade voltou e recuperei minhas funções motoras básicas, eu tinha o suficiente para sair dali. Antes que meu cérebro processasse qualquer comando de fuga que eu tentava enviá-lo desesperadamente, aconteceu. Em um piscar de olhos eu já não estava mais tão longe quanto imaginava. Demorei alguns segundos para dar-me conta de que uma de suas mãos segurava meu braço o puxando, e a outra prendia-me pela nuca enquanto eu via seus lábios vindo de encontro aos meus. Era quente. Só Deus sabe (e eu) o quanto aquilo era quente.

Que injusto! Eu não estava preparado para isso. Como poderia agir normalmente?

Meus músculos formigavam, tudo estava fraco. Para piorar, senti sua maldita língua deslizar pela linha de meus lábios e me causar um arrepio pulsante em todo o meu corpo, enquanto num súbito eu inspirei forte e contido demais, abrindo um pouco a boca. E mais uma vez ele se apertou contra mim, dessa vez com sua boca envolvendo o meu lábio inferior.

Ah meu Deus, o que foi aquilo? Era sua língua? Foi tão bom que eu nem sei o que dizer, ou como existir depois disso. Eu só queria gritar em silêncio eternamente.

Agora meu corpo tremia como nunca, não havia reparado na dor em meus braços e joelhos que me sustentavam naquela posição desconfortável, até eu despencar sobre ele, de vez.

Mais tarde naquela noite, eu pedi perdão e jurei jamais julgar os personagens estereotipados de mangás, porque obviamente nossas vidas são um grande clichê, nem sempre de bom gosto.

[...]

Não é como se tudo continuasse sendo o mesmo depois daquilo. Custei a encará-lo por muito tempo, as conversas de imediato eram baseadas apenas em meus estudos e diferentes métodos de aprendizado que ele chamava de “alternativos e inclusivos”, e que no fim, realmente faziam a diferença, de certo modo. Com os dias, consegui melhorar meu foco e minhas relações com a matemática, além de deixar para trás aquele episódio vergonhoso.

Não vou negar, uma parte de mim estava incomodada por tudo ter se perdido com o tempo, mas outra me dizia para amadurecer. Ele era meu professor, oras. E não somente isso, Kakashi era homem. Uma relação complexa e polêmica demais, no geral. Eu não o julguei a todo tempo por ter me evitado fora da sala de estudos, ou por optar ir embora de taxi, o julguei só até entender o real peso daquilo. No fundo eu sabia que era o melhor, para ambos, e principalmente para mim. Não queria que tivessem mais um motivo para falar de minha família, tampouco ser um peso para ele.

Isso não tomaria um rumo de flores nuas de espinhos, e eu não estava pronto para me machucar.

Dias se tornaram semanas, semanas voavam até se passar os meses e junto deles uma nova estação. O acompanhamento que fazia com o pessoal da universidade me tornava alguém mais confiante e com esperanças. Em meio à narrativas, já cheguei a descrever a discalculia como uma maldição abençoada, algo que em meio ao mar de espinhos, me trouxe uma canoa, torta e toda esquisita, mas uma canoa que nunca afundaria, algo que eu sempre poderia contar, um amigo de verdade.

Genma era um completo idiota, mas sempre entendeu tudo sem que eu precisasse dizer nada. Ele sangrou o mesmo tanto que eu (eu suponho), riu o mesmo tanto que eu, passou dias e noites sem dormir, sofreu antecipadamente e se sentiu o cara mais orgulhoso de si mesmo quando enfim o ano se acabava.

Era quase natal, e nós ainda nos encontrávamos, com ou sem Kakashi, para nos ajudarmos e jogar conversa fora. Certo dia ele desembestou a gritar “Eureka”, destruindo todo o silêncio de nossa leitura, e quando o perguntei sobre o porquê, ele disse: “ Vou ser artista”.

Genma dedicou todo o inverno lendo, relendo e fazendo redações, mesmo durante sua viagem ao ocidente, com sua mãe, enquanto eu me forçava a continuar meus estudos apenas com Kakashi.

Vou lhes confessar, tudo era muito mais fácil quando havia Genma ali, não havia tanta tensão ou memórias se aflorando no silêncio, muito menos desconforto quando ele se aproximava para escrever algo em meu caderno enquanto me explicava sobre funções aritméticas.

Vez ou outra, recebíamos visitas de Obito, algumas vezes acompanhado de Rin, sua namorada que recentemente havia confessado estar grávida.

Para o desespero de Genma, que dizia estar apaixonado por ela logo no primeiro instante que a viu, sem nem mesmo reparar na barriga que já se salientava. Era visível demais já no terceiro mês, e ele lerdo demais para notar. Ainda não sei se o choque maior para ele foi descobrir que ela estava grávida, ou que o pai era o Obito.

Nesse dia especialmente, Rin nos trouxe bebidas quentes, e disse que só daria uma passadinha rápida pois estava com desejo de Mc Crispy com abacaxi e barbecue, e uma vez que eles não tinham isso no cardápio, ela viera buscar Obito para que ele comprasse o abacaxi e a levasse até o restaurante. “É sua obrigação”, dizia ela.

Por mais estranho que fosse, eu os considerava um bom casal. Era só Rin dizer qualquer coisa que Obito já estava correndo para atendê-la. Não sei porquê, mas aquilo me fazia questionar sobre como fora a gravidez de minha mãe. Essa era uma das coisas que mais me fazia admirá-la, quando pensava sobre o fato de ela ser uma jovem universitária que se esforçava para continuar os estudos mesmo estando grávida e imensa, cada dia mais.

Caso não tenham entendido ainda, sou adotado. Meu pai se chama Nawaki Senju, ele me adotou quando criança, e me tornei Yamato Senju, para a infelicidade de algumas pessoas. Meu pai era o melhor amigo de minha mãe, e logo quando ela descobriu estar grávida, ele espalhou para todos que o filho era dele, mesmo não sendo verdade. Quanto ao meu pai biológico, não sei quem é e nem me importo em saber. O verdadeiro sempre esteve ao meu lado, até mesmo em minha certidão de nascimento.

Inclusive isso me lembra de falar pra vocês que recentemente resolvi contar para ele sobre todos esses problemas que venho enfrentando, inclusive a discalculia. Ainda não sei por que escondi por tanto tempo. Foi bem mais fácil do que imaginei que seria, foi como tirar um peso das costas. Exatamente por isso que ele decidiu contratar Kakashi oficialmente como meu (e de Genma) professor particular durante as férias, o que foi bom e ruim ao mesmo tempo.

Amanhã é véspera Natal, ainda não entendo como ele aceitou gastar suas férias vindo até minha casa e me ajudando todo dia desde a viagem de Genma. Costumo pensar que talvez ele precise de dinheiro, ou é uma pessoa boa demais. Já estava tarde, e após o jantar, ele recusou o convite de meu pai para dormir em casa dizendo que tinha que alimentar o cachorro.

- Pakkun fica de mau humor se não comer antes de dormir.

- Ah, que pena. Na próxima traga ele também. – Meu pai era gentil demais com ele, o que me fazia questionar sua percepção. – Yamato, acompanhe ele até em casa.

- Quê? Por quê?

Se ele está me dando dinheiro para o táxi, era só dar o dinheiro diretamente para o Kakashi. Não teria que pagar duas corridas.

- Você precisa criar um pouco de imunidade antes da primavera. Vá tomar um pouco de vento.

Acho que não preciso dizer o quão aquilo foi estranho. Me senti em meio alguma tramóia.

Após ser praticamente empurrado para dentro do táxi, e ter de ouvir os milhares de agradecimentos e convites que meu pai dirigia à Kakashi, tive de enfrentar uma longa viagem sentado ao lado de um cara debochado.

Aquele sorriso sabichão me fazia ter vontade de socá-lo. Até mesmo depois de estarmos em sua porta. Eu não deveria ter dispensado o táxi. Foi bem burro de minha parte. Agora teria de ficar no frio esperando outro. Tudo isso porque queria conhecer Pakkun.

- Você quer entrar? – Ele me questionou enquanto ainda segurava Pakkun nos braços e eu me esfregava na cara amassada daquele feioso.

- Não, obrigado. Eu preciso ir. É que minha Tia ta brigando no bar agora.

Eu nem sei por que eu disse aquilo.

- Quer que eu vá te ajudar a socorrer ela?

- Não! Quem precisa de ajuda são os caras. Ela já ta na delegacia porque quebrou todo mundo na tamancada.

Eu sei que sou idiota.

- A sua tia não é a Tsunade?

- Sim.

- Eu não sabia que ela era assim.

- É... nem parece.

- Você deveria aprender a dar desculpas melhores.

- Eu sei.

Ele se virou, e entrou para “guardar” Pakkun dentro de casa, e após uns minutos, saiu e fechou a porta.

- Tudo bem, isso não vai rolar. – Movia seu dedo de si para mim, e vice versa enquanto falava.

Não estou acreditando que ele teve a audácia de falar uma coisa dessas.

- Que ridículo!

- O que?

- Você! Toda essa arrogância aí. Primeiro você está supondo que eu quero algo com você. E segundo você está sendo arrogante suficiente de achar que pode decidir por você e por mim. Se eu quisesse podia rolar sim! Você não decide por mim!

- Uau...

- Não seja debochado!

- Não estou sendo.

- Claramente está. Eu sei o que é um deboche quando o vejo. E você sempre faz essa cara aí.

- Que cara?

- Essa de imbecil que você tem quando se acha mais esperto que alguém.

Então adivinhem só o que o idiota fez, caros leitores? Pois é, ele sorriu pra mim, orgulhoso. Deixou claro que aquilo era de propósito. Aquele maldito!

- Eu não acredito que caí nessa. Você é um merda, Kakashi.

- Eu sei. Mas aquilo que você falou é pra valer?

- Aquilo o quê? - Eu o encarava desconfiado procurando algum indício de aquilo ser outro de seus jogos.

- Sobre você querer. E sobre se você quiser, vai rolar sim. É algo interessante de se ouvir.

É um jogo. Por mais que eu não quisesse cair nos joguinhos dele, aquele era um jogo que eu pagaria para ver. Eu não perderia de modo algum.

- O que você acha?

ELE NÃO DISSE NADA E SORRIU DE NOVO, AQUELE DESGRAÇADO! EU TÔ MUITO PUTO COM ELE. EU QUERO BEIJAR E SOCAR ESSE MALDITO. SOCAR A MINHA BOCA NA DELE. ATÉ ELE SE ARREPENDER DESSE SORRISINHO.

Eu não deixaria barato. Eu o beijaria até minha boca ficar dormente, até não ter mais ar nos pulmões. Se duvidasse, até mesmo sua roupa eu arrancaria.

Foi em meio a essa tortura que meu corpo se moveu até o dele, o empurrei contra a parede e o segurei firme, para que não houvesse escapatória, mas no instante de concretizar o ato, quando estava a centímetros de seus lábios, um clarão nos iluminou e o som de uma buzina me impediu de continuar aquilo.

- Você chamou o táxi? – Sussurrei sem me mover.

- Chamei quando coloquei o Pakkun pra dentro. Eu não sabia se demoraria – Ele também sussurrava. – Quer que o mande embora?

- Não! Não precisa não. Tô indo embora. – Eu dizia sem vontade alguma e ainda incapaz de me mover.

- Me ligue quando estiver na faculdade. – Ele disse e em seguida sorriu daquele modo detestável.

Eu perdi.

Ainda o encarava em choque quando senti seus lábios tocarem os meus, rápido demais, insuficiente, mais breve do que era justo, e então ele me afastou e me virou em direção ao taxi.

Ele havia me colocado no modo automático, nem ao menos me lembro de ter dito o endereço para o motorista. Só me lembro de praguejar mentalmente durante todo o caminho.

Eu odeio o Kakashi! Ele é tão injusto. Tão arrogante. O pior Sensei do mundo. O pior Senpai. Tão sabichão e ridículo. Tão bonito. Meu Deus, eu o odeio tanto!.

[...]

Acho que não preciso detalhar todas as noites que passei em claro depois daquilo. Acho meio óbvio também cada surto que aquelas lembranças me traziam, principalmente aquela maldita frase.

Depois daquele dia, eu não o vi mais, a única notícia que tive foi um amuleto e um bilhete de boa sorte, que ele me mandou pelo correio. O mais interessante é que só então eu percebi que não tinha o número dele, pois ele havia o escrito no verso daquele bilhete, acompanhado da seguinte frase:

“Espero que na próxima vez que nos falemos, você esteja me chamando de Senpai, e não mais de Sensei. Boa sorte. Até a próxima.”

Eu já perdi a conta de quantas vezes o reli e continuei tendo a mesma reação de completo choque. Não podia negar que ele era audacioso.

[...]

Eu demorei mais do que o previsto pra ligar. Foi uma espécie de promessa que havia feito com Genma, onde decidimos revelar nossos resultados somente após a formatura.

A semana da morte realmente fez jus ao nome, nós quase não nos vimos nesse período. Ambos recorremos ao sistema de auxilio para pessoas com distúrbios de aprendizado. Principalmente no caso de Genma, que contou com um leitor durante o vestibular.

Não demorou muito até o dia de nossa formatura, onde uma das coisas mais incríveis aconteceu diante de meus olhos:

Uma outra formanda, muito bonita - devo ressaltar isso - pediu diante de todos o botão da camisa do uniforme de Genma.

O amor claramente é cego.

Mas o mais hilário de tudo isso foi a reação do Genma, que agiu o tempo todo como uma pessoa legal e descolada, mas no fundo de seus olhos eu podia ver a euforia gritante de alguém ter se declarado para ele.

Eu nem preciso dizer que ele obviamente aceitou. Aliás, aparentemente a nova namorada do Genma se chama Mabui. E além de ser muito legal, pretende cursar artes na mesma faculdade que ele.

Hoje mais cedo buscamos os resultados. Genma mal abriu o envelope e já fez um escândalo gritando que havia conseguido. Quanto a mim, ainda não tive coragem de abrir. Faz mais de uma hora que estou sentado num banco, na mesma posição, encarando o envelope.

Obviamente em algum momento eu tive que abrir. Eu não podia simplesmente abandonar tudo e viver ali naquele banco. O resultado vou deixar que adivinhem.

- Alô? Yamato, é você?

- Senpai, eu consegui. Que horas te busco? – Ouvi um riso irritante do outro lado da linha e não deixaria isso passar barato.

- Você sabe onde eu moro.

Eu fui até lá, mas nós não saímos àquela noite.

Acho que vocês compreenderam.

Aug. 31, 2018, 12:58 a.m. 6 Report Embed 4
The End

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May UU May UU
mas se eu amei a fanfic? olha ameio e muito, deixa eu dizer que não sou muito ligada em kakayama but a sua fanfic é tão doce que eu fiquei com diabetes e agora to sorrindo a toa pensando nessa noite deles ai e na cara de todo mundo que destratou o tadinho do Yamato. deixa eu dizer, que eu sou pedagoga e o tema da sua fanfic pegou direto no meu coração, dislexia e discalculia são coisas que pegam justamente na minha área e métodos alternativos para possibilitar a aprendizagem são coisas que me emocionam e motivam, eu sei que é pra esses fins que eu estudei tanto. fiquei toda emocionada quando ele passou na faculdade, eu estava aqui conversando com a fanfic "minino vc consegue sim, magina nada te impede se vc realmente quer estudar aquilo", no fim eu me emocionei por ele ter entrado na universidade. PARABENS, SUA FANFIC É UM HINO!!!
Sept. 5, 2018, 9:45 p.m.

  • KaguyaFalandoAtravesdo Ouija KaguyaFalandoAtravesdo Ouija
    Oh mo Deusu <3 Que coisa mais fofa :3 Dislexia e ensino são coisas que batem fundo no meu coração, não poderia deixar de falar sobre algo tão importante, mas tão banalizado, ao mesmo tempo. Me sinto toda orgulhosa dessa fic e você só está contribuindo para a minha metideza hehehe. Muito obrigada pelo amorzinho de comentário. Você é um anjo educador <3 Parabéns pela escolha de profissão. Além disso, estou plena que consegui te fazer gostar de KakaYama uhuhuhu Oct. 17, 2018, 11:01 p.m.
Políbio Manieri Políbio Manieri
Pobre Yamato meu bebe lindo, candido, injustiçado, virgem e inocente. De início eu tava muito donw com os pensamentos dele, mas então foi pegando um ritmo que cada parágrafo era um grito... O QUE ERAM OS PENSAMENTOS DELE TADINHO. O desespero da criança quando o Kakashi o beijou.. “minha tia ta brigando no bar” socorro Yamato PELAMORDEDEUS! Ow bebe voce me mata! Menina, começou a fic eu tava “alá, dislexia” e voce joga na minha cara dislexia, discalculia e NARCOLEPSIA MEU JESUS AMADO. Agora eu entendi de onde que veio toda essa tua euforia com o Genma no facebook de repente, não tem como não amar! Cada cena com ele eu fico muito impactada na perfeição das interações, que personagem mais maravilhoso! Definitivamente eu quero mais dele sim!
Sept. 5, 2018, 3:17 p.m.

  • KaguyaFalandoAtravesdo Ouija KaguyaFalandoAtravesdo Ouija
    KKKKKKKKKKKKKKKK AAAAAAAAH TÔ DESCONTROLADA AQUI! <3 Eu queria era botar mais coisa nesse trem, só que não deu muito pra trabalhar em cima por causa do prazo, mas os planos estão na minha mente e o plant boy squad é real. Depois desse Genma minha vida fez mais sentido. hehehehe Senta que lá vem fic! Oct. 17, 2018, 11:09 p.m.
Asakura Yumi Asakura Yumi
EU ME DIVERTI HORROES COM ESSA HISTÓRIA!!! Yamato é uma figura sensacional. E MEU DEUS KAKASHI, QUANTA PREPOTÊNCIA!!!! Merecia esperar mais por essa ligação kkkkkkk Esse teu jeito fluído de escrever é maravilhoso. E sim, pessoas com dificuldade de aprendizado são bem mal compreendidas. Gostei muito da sua abordagem e de como as pessoas têm que entender que o tradicional deve ser revisto para a inclusão. Parabéns, fada!
Sept. 4, 2018, 4:14 p.m.

  • KaguyaFalandoAtravesdo Ouija KaguyaFalandoAtravesdo Ouija
    Kakashi definitivamente tem horas que não merece o princeso que é o Yamato! Nhaaaaa, obrigada :3 Eu só sou prolixa e aleatória mesmo hehe. Eu super me empolgo com coisas relacionadas ao ensino, é uma área tão injustiçada e tão amável <3 Fico feliz que tenha gostado :3 Muito obrigada >.< Oct. 17, 2018, 11:11 p.m.
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