Ouroboros Follow story

jacobino22 Zen Jacob

[ História vencedora do 1o lugar do desafio Norte e Sul ] 2011, Estados Unidos do Brasil. A humanidade busca, através da combinação de seus genes com os de outros animais, a perfeição, encontrando apenas uma segregação cada vez maior. Os humanos Originais, que não detêm DNA modificado, são marginalizados. Em meio a um ambiente letal, uma menina e seu pai tentam sobreviver.


Science Fiction For over 18 only.

#réptil #distopia #scifi #violencia #incesto #suicidio #biopunk #mutantes #time-travel #fantasticoink #ficcao-cientifica #original
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Todos os caminhos levam até você

1.


   O pesadelo se dissipou nas retinas de Priscilla assim que ela acordou.


   Só o que restava dele era o rastro de suor que começava em seu couro cabeludo e escorria até a base da coluna, grudando de maneira desconfortável o tecido da blusa contra sua pele. Sem gritos, sem as convulsões típicas de seus terrores noturnos, ela agradecia por isso, visto que não tinha mais idade para ser amparada como uma criancinha.


   — Sonho ruim? — Questionou a voz grave do pai, sobressaltando-a.


   O perfil reptiliano ainda tinha os olhos de escleróticas amareladas fitando a estrada à frente, sem fazer menção de fitá-la. O que não era realmente uma novidade para Priscilla; segundo a mãe, ele escapara por muito pouco de um diagnóstico de autismo na adolescência.
  

— É. — Ela respondeu, puxando o cinto de segurança para poder se ajustar melhor no banco do carona.
  

   O pai não disse mais nada, e ligou o rádio. Priscilla tinha a sensação incômoda de que ele usava a música para preencher o vácuo que o silêncio constrangedor entre ambos deixava, afinal, as pessoas não costumavam ligar o rádio para fazer companhia quando estavam sozinhas?


   — O que tem aí pra comer? — Ela questionou alguns minutos depois, irritada pela sucessão de músicas melancólicas que tocava no rádio.

  

   — Ainda sobraram uns sanduíches na bolsa térmica. — Respondeu o pai, inalterado, distante, vivendo em seu mundinho à parte.


   Num de seus ímpetos agressivos, ela quis socá-lo, arrancá-lo daquele torpor, mas bastou que se segurasse um pouco e a vontade passou. Soltou o cinto, se virou no banco, apanhou a bolsa térmica jogada entre sua mochila azul e a bolsa de viagens dele. O sanduíche estava meio murcho, o queijo de amendoim quente e quase pastoso. Dava pro gasto.


   — Em que ponto da estrada estamos? — Ela perguntou enquanto engolia mais um pedaço rançoso de pão.


   — Saímos da BR agora, estamos em alguma estrada secundária.


   — E como você sabe que essa é a estrada certa pro Paraguai?


   — Olhei no mapa.


   — Mapas são só pedaços de papel em que alguém colocou manchas coloridas com coordenadas aleatórias.


   Se a mãe quem estivesse dirigindo ao seu lado, Priscilla sabia que ela a fitaria por cima dos óculos de aro grosso e mandaria uma frase cortante como "Você não vai começar a bancar a adolescente espertalhona, vai?" e talvez elas começassem a discutir sobre cartografia e a menina se veria procurando argumentos no Google e a mãe riria e lhe diria "Conversar com você é uma experiência irritante e fascinante, garota."


   Mas era o pai ali, então só o que ele fez foi mover os ombros largos um instante para cima e dizer, à meia voz, "tem razão" e depois acrescentar:


   — Eu também perguntei num posto de gasolina antes de entrar nessa estrada. Tenho certeza que estamos no caminho certo.


   E depois, mais nada.


   Priscilla suspirou alto. Sentia falta da mãe. Sentia falta de seus amigos, de sua vida de algumas semanas atrás, de sua rotina. Queria ser capaz de voltar no passado e tentar mudar as coisas que tinham acontecido até ali, mas, pra começo de conversa, o que ela poderia fazer para ajeitar aquela merda toda?


   — Vou dormir mais um pouco. — Anunciou, sem razão específica. — Me acorde quando achar um motel legal. — Foi um pedido besta, ela pensou depois. Era óbvio que ele a acordaria quando encontrasse um local para dormirem.


   O pai emitiu um ruído rouco de concordância, e ela acomodou a cabeça no banco, tornando a fechar os olhos. Quase que no mesmo instante, pôde ouvir o rádio sendo desligado.


   Dessa vez, não houve pesadelo algum, o que foi um alívio.



2.


      O motel em que pararam tinha um aspecto de nota fiscal ensebada de restaurante de beira de estrada; paredes gordurosas, cores opacas, decoração de gosto duvidoso.


   Quando Priscilla entrou na pequena administração quase se arrastando com a mochila (ela não queria admitir ao pai que precisava de ajuda para carregá-la), notou um tapete grande e roxo estirado de qualquer jeito, precisando de umas boas sacudidelas. Era uma coisa tão sem graça que definitivamente se ela vomitasse nele o tapete ganharia alguns pontos de carisma e estilo.


   — Não permitimos interracial aqui. — Comentou a mulher atrás do balcão, uma meio-tamanduá que os fitava com olhinhos castanhos com indisfarçado desprezo.


   Priscilla, que tinha 12 anos e se achava relativamente alta para a idade, mas ainda conservava a gordura abdominal comum às crianças antes de entrarem na pré-adolescência, arregalou os olhos com ironia. O pai, cujos traços reptilianos eram austeros, difíceis de mensurar em idade, não externou reação, como era esperado.


   Eles estavam aonde exatamente? São Paulo? Priscilla não sabia como funcionavam as leis de discriminação em outros estados que não o Rio de Janeiro. Fez uma nota mental de procurar na rede — quando tivesse acesso a ela — como funcionava a legislação quanto a isso nos Estados Unidos do Brasil, para o dia em que voltassem.


   Se é que vamos voltar, ela pensou demais, e tratou logo de afastar o pessimismo da cabeça.

     

   O pai, parado ao seu lado, fitava a mulher por cima dos óculos escuros que usava para proteger os olhos sensíveis.


   — Ela é minha filha, madame. — Declarou ele, na sua voz baixa e calma, porque, Priscilla lembrava bem da mãe dizendo isso, se você não fala com a sua voz mais baixa e tranquila com essa gente, eles sempre vão te chamar de réptil agressivo e chamar a polícia como se você fosse um selvagem, especistas de merda!


   A mulher balançou o focinho caído como um pinto murcho na cara, a ponta dele convulsionando como uma tênia; Priscilla entenderia apenas depois que ela estava disfarçando uma risada.


   — Aham, sei. — Ela comentou, debochada.


   O pai se aproximou, enorme, lânguido, imponente que só ele com seus quase dois metros de altura, corpo longilíneo e cabeça em formato de diamante, características padrão dos predadores de mais alto nível da raça de Cobras à qual ele pertencia. Priscilla ouviu o som claro da mulher engasgando por trás do balcão e recuando dois passos, talvez três, quem sabe em busca de uma arma escondida logo ali na...?


   Num gesto fluido, o pai sacou a carteira do bolso de trás da calça e tirou de lá duas notas com a efígie de onça dourada, depositando-as no balcão com um movimento de seus dedos longos, quase tentaculares.


   — Isso é o suficiente para que a senhora não duvide da nossa idoneidade? — Ele questionou, ainda na sua voz melodiosa de barítono, tão baixo que poderia ser o sussurro do vento.


   A mulher, congelada diante dele, encarou-o com a boca longa tremendo, passando logo em seguida para Priscilla, que por sua vez retribuiu o olhar com as sobrancelhas erguidas, descrente.


   — Muito bem. — Ela murmurou, apanhando as notas com brutalidade. — Mas se eu ouvir qualquer som estranho, chamo a polícia, entendeu?


   O pai preencheu os papéis enquanto ela se esforçava para não retribuir as encaradas que a dona do motel lhe dava, desconfiada.


   — "Marina Rodrigues" e "Emanuel Rodrigues". — Leu a mulher, desconfiada. — Tem certeza que esses são seus nomes?


   O pai, que se chamava Altair Saab, descendente de egípcios que haviam emigrado há oito gerações, e mesmo assim nunca tinha tido um sobrenome tão português quanto "Rodrigues" na família, olhou calmamente para a mulher e sorriu. O sorriso, composto de duas fileiras de dentes de marfim grandes e triangulares, de encaixe simetricamente perturbador, não alcançou seus olhos encobertos pelos óculos, mas foi o suficiente para que a mulher-tamanduá não pensasse em pedir documentos.


   — Mas é claro que sim, madame.


   Sozinhos no quarto minúsculo e cheirando a mofo, enquanto o pai sentava na cama para poder tirar suas longas botas ortopédicas, Priscilla ficou parada com a chave na mão, fitando o teto.


   — Por que "Marina"? — Questionou, pensativa.

  

   Não lhe passava pela cabeça perguntar por que ele usara nomes falsos. Ela já era grandinha o suficiente para entender o que eles estavam fazendo ali, de quem estavam fugindo e tudo o mais.


   — Era um dos nomes que eu queria botar em você na época que sua mãe estava grávida.


   — Por que gostava desse nome?


   O pai retirou os óculos escuros e os depositou na cômoda, encarando-a pela primeira vez em pelo menos 24 horas que estavam na estrada. Ele separou seus não-lábios finos e estreitos, um vestígio da língua bifurcada dando às caras momentaneamente antes de ser retirada subitamente de cena quando ele tornasse a cerrar o maxilar estreito como um corte de lâmina.


   — Por nada. — Foi a resposta que ele lhe deu. E emendou: — Vou tomar banho primeiro, minhas pernas estão me matando.


   Sozinha, Priscilla se deixou cair na cama e pensou sobre marinas, a vida no oceano, e como queria ser apenas uma gotícula de água no meio do azul, esquecível, dispensável, parte do todo, sem destaque.



3.


   Enquanto crescia, não havia muito o que notar a respeito do pai que pudesse denunciar a ela que havia algo de errado.


   Quer dizer, ela observava que eles eram diferentes, mas, conforme os psicólogos que frequentaria ao longo dos anos explicariam aos pais, enquanto muito jovens não temos tanta capacidade assim de ser autoconscientes a respeito de nossa própria aparência. Por isso, ela nunca enxergou com clareza aquilo que o tornava tão distinto de si.


   Ela sabia, por exemplo, que o pai era muito alto, magro, com ombros largos que o faziam parecer um armário de compensado. A mãe, não tão alta, mas igualmente grande, era gorda e curvilínea, com o corpo em formato de pêra, próprio para abraços e sonecas aconchegantes quando o dia estava frio.


   A pele do pai era composta de escamas de um amarelo pergaminho ("albino", ela ouvira professores sussurrando, meio fascinados, meio aterrorizados nas raras vezes que ele aparecia na escola) sarapintadas de vermelho nos cotovelos, joelhos, ombros e cabeça; Priscilla lembrava-se de usar as cerdas de um pincel que sua avó lhe dera para traçar o desenho bem definido das escamas ao longo do crânio do pai, desde a fronte até seu pescoço longo.


   O fato de o pai não ter nariz ou orelhas ou unhas ou pálpebras, de ter um rabo que precisava ser amarrado ao cinto para não sair por aí batendo nos móveis da casa, nunca parecera a ela um sinal de que, talvez, ela não fosse filha dele.


   Ela era como a mãe: a pele acobreada, lisa, o nariz largo, os lábios grossos, longos cílios que tocavam as bochechas quando piscava, confusa. Não havia nada de errado em ser como ela, certo? Julgava que, se tivesse um irmão, ele seria como o pai — simples assim, meninas são como a mamãe, meninos são como o papai. A consciência de genes recessivos, alelos dominantes, não existia ainda.


   Talvez tenha sido a atenção demasiada ao cabelo (a mãe o trançava todos os dias antes que ela fosse para a escola) que a tenha feito perceber que havia algo de diferente entre ela e o pai, pois tudo parece ter começado com essa pergunta ingênua:


   — Papai, por que você é careca?


   O pai, sentado à mesa da cozinha, se debruçava sobre os inúmeros relatórios que trazia do trabalho e que na época não passavam de folhinhas coloridas furadas para ela, encarou a mãe de Priscilla como se esta fosse um bote salva-vidas.


   — Ah, querida, — a mãe começou, dando uma risada sem jeito enquanto a abraçava por trás — seu pai não é careca...


   Ela, que não gostava que a tratassem como boba, se desvencilhou do abraço da mãe, e encheu os punhos pequenos com as próprias madeixas.


   — Mas olha, eu tenho cabelo e ele não! A tia na escola disse que quem não tem cabelo ou pelo é careca!


   — Isso é uma noção errada a respeito de pessoas que não são mamíferos, Prisca. — O pai respondeu, forçando uma risada, algo no qual ele não era muito bom, pois sempre fora um tipo taciturno e calado. — As pessoas-répteis não têm nenhum tipo de pelo porque têm escamas, então não podem ser consideradas "carecas".


   Ela não entendera muito bem na época o que o pai lhe dizia, mas a mensagem principal ficara guardada na cabeça: somos diferentes.


   Priscilla armazenou aquela informação durante muito tempo, sem coragem de dar vazão à ela por temer que assim a materializasse milagrosamente. Como se pudesse torná-la menos real ao ignorar a sua existência.


   Até que um dia ela tomou forma verbal e foi através da boca desdentada de Denise, uma das suas colegas de turma:

  

   — A Priscilla é adotada!

   
   A turma dela, o 1o ano do Ensino Fundamental, estava no recreio quando os pais das crianças entraram pelo pátio, se preparando para uma reunião com os professores. A mãe de Priscilla, em seu vestido florido e sapato de salto agulha, era velha conhecida para as crianças. O homem ao lado dela, todo expressão de poucos amigos, e terno escuro e sóbrio que usava no trabalho de contador, não demorou a ser identificado pelas crianças.


   — Eu não sou adotada! — Priscilla gritou, furiosa.


   A professora de biologia tinha ensinado semana passada o que o termo significava, e Priscilla fora uma das crianças que se revezara zombando de Clara, uma menina-gata adotada por um casal de pais-tartarugas.


   — Seu pai é Puro, não tem como você ser filha dele! — Contestou Denise, a boca de iguana sorrindo com desprezo para a garota, que sentia os olhos marejados. — Você é uma Aberrante, não tem como...!


   Ela não conseguiu se controlar na hora; avançou em cima da menina, agarrando a crista dela e jogando-a no chão com brutalidade, batendo-arranhando-mordendo, fazendo de todo o possível para aplacar aquele fogo interno, a raiva profunda, o remorso.


   — Ele não é meu pai, não é meu pai, não é meu pai! — Gritava entre cada soco que dava em Denise, que, aturdida, não conseguia se desviar das bofetadas.


   Os professores não conseguiram arrancá-la de cima da garota, tamanha era a sua fúria. No final, quem a ergueu pelas axilas e prendeu-a num abraço matador de jiboia foi o próprio pai.


   No corredor, esperando que em sua sala a diretora apaziguasse os pais de Denise, que por sua vez queriam a cabeça dela numa bandeja de prata ("Aquela aberrante desgraçada podia ter matado a minha filha!"), sentada entre ele e a mãe, Priscilla fitava os tênis sujos, incapaz de erguer os olhos, ciente de que o pai ouvira cada palavra da sentença que ela ditara.


   Naquele dia, quando chegaram em casa, a discussão entre os pais foi turbulenta, por mais que a porta do quarto tentasse abafá-la. A mãe esbravejou e o pai, que até então ela nunca ouvira elevar o tom, era como o ronco do motor de um avião, assustador, opressor.


   Uma semana depois, sua mãe fugiu com ela de casa, alegando que, se não fossem embora, o pai cometeria uma loucura.


   — Você acha que ele me machucaria? — Ela questionara à mãe. — Mas eu sou filha dele! Ou... não sou?


    A mãe forçou um sorriso. E não respondeu sua pergunta.


   Apenas enfiou mais uma muda de roupa na mala e lhe disse “se apresse”.



4.


   Foi mais ou menos dois dias depois de deixarem a mulher-tamanduá e seus olhares desconfiados para trás que a polícia os parou.


  O Monza '96 azul-petróleo do pai vinha a 40km/h na estradinha, e Priscilla simplesmente não via razão para que a polícia os parasse. Então lembrou que ela estava sentada no banco do passageiro, e isso era razão o suficiente.


   — Boa tarde, senhor. — Cumprimentou o policial, um porco parrudo com um peito estufado por trás da farda que não escondia sua barriga pesada. — Vou pedir que saia do veículo, por gentileza. E a sua acompanhante também.


   Priscilla obedeceu sem que o pai precisasse olhá-la duas vezes.


   Os dois ficaram parados lado a lado, a garota de joelhos esfolados e o homem-cobra meio encurvado, o policial-porco analisando seus documentos como se contivessem informações secretas de contrabando numa língua que só os agentes da lei pudessem decifrar. O parceiro dele, um galináceo de crista caída e bico torto, os fitava inexpressivo de dentro da cabine do carro de polícia, os dedos emplumados acariciando o cano do rifle que trazia junto à perna.


   — Senhor — o policial-porco disse por fim, devolvendo os documentos — parece que está tudo certo com a documentação do carro e a de vocês. Mas receio que não possam prosseguir com a viagem.


   — Por que não? — Indagou Priscilla, antes que o pai tivesse tempo de abrir a boca.


   O policial estalou os lábios no focinho redondo, debochado.


   — Bom, garotinha, houve um comunicado oficial do governo de que todos os Aberrantes deveriam se dirigir ao Centro de Saúde para vacinação de emergência. Você sabe, tem uma doença muito grave se espalhando por conta de genes como os seus…


   — Estávamos na estrada, não sabíamos desse comunicado. — O pai se apressou, o sorriso de muitos dentes, os ombros grandes que tentavam soar subservientes, humildes, mas nunca culpados.


   — Bom, — e pela forma como o policial dizia a palavra, ela identificou que não havia nada de bom ali — agora estão sabendo. A garota vem conosco na viatura. O senhor pode nos seguir com seu carro. Quando chegarmos lá, ela será isolada junto às outras crianças e o senhor poderá…


   — Não. — Comentou o pai com um suspiro. — Não, acho que não.


   — O que você disse?


   — Não.


   O policial-porco emitiu um som engasgado que poderia ser uma risada.


   — O senhor sabe que isso configura desacato…


   Antes que ele terminasse, o pai removera os óculos do rosto, exibindo os grandes orbes amarelos, que beiravam o laranja, como se tivesse dois sóis no lugar dos olhos. As pupilas em fendas estavam quase invisíveis em meio às escleróticas.


   — Você não quer confusão, soldado Antunes. — Declarou o pai em sua voz tranquila. — Você só quer me dar uma multa por estar com uma das lanternas quebradas. Mas vou te comprar com dez reais pra uma Coca-cola com seu amigo ali. E vai ficar por isso mesmo.


   O pai estendeu ao homem uma nota com a efígie de arara cor-de-rosa. O homem-porco, aturdido, apanhou a nota e deu de ombros.


   — Claro. — Disse, sorrindo. — Por quê não?


   O parceiro do policial, que agarrara o rifle com mais força quando vira o pai se aproximar dele, não relaxou quando o homem-porco entrou no carro com o dinheiro.


   — O que tu tá fazendo, maluco?! — Priscilla escutou-o gritar.


   — Não olhe pra trás, Prisca. — Ele recomendou, e os dedos sem unhas apertavam o volante com tanta força que suas falanges estavam arroxeadas.


   — Se eu olhar pra trás, o que acontece? — Ela perguntou, mais por curiosidade do que por querer soar desafiadora. E aquele apelido antigo, que só ele usava, lhe chamara atenção.


   — Coisas ruins acontecem, querida. Só obedeça o papai.


   "E não olhe pra trás."



5.


   Priscilla soube que estava sonhando não porque estava sentada na sua cama, no quarto que não via há pelo menos uma semana, nem porque a mãe, que ela não via desde que o pai voltara com um mandato para tomar sua guarda, estava sentada atrás dela.


   Ela soube que estava sonhando porque a mãe penteava seu cabelo sem pressa, sem dizer "preciso correr para o trabalho, esquenta a comida no microondas quando chegar" ou coisas do tipo, como se tivesse todo o dia livre. Priscilla pôde ouvir o homem que vendia vassouras gritando lá fora na rua e soube que era quarta-feira, então não havia como a mãe ter todo o dia livre.


   — Mãe? — Chamou, tensa.


   — Sim?


   — Você não tem trabalho hoje?


   — Não. — A mãe respondeu, as cerdas da escova emitindo um som ritmado conforme ela a fazia escorrer por entre seus fios escuros. — Tenho todo o tempo do mundo para você hoje, Pri.


   — Por quê? — Priscilla quis saber, desconfiada.


   — Não posso passar o dia com a minha filha de vez em quando?


   — Mas você disse que no laboratório...


   — Eles podem se virar sem mim no laboratório por hoje.


   Elas tornaram a ficar em silêncio, e Priscilla fechou os olhos, quão bizarro era a capacidade de fechar os olhos enquanto se estava num sonho, ou seja, fechando os olhos já com olhos fechados?


   — Mãe. — Ela tornou a chamar, mais baixo agora, pois tinha medo de que a ciência de estar num sonho a arremessasse dele e a fizesse, assim, perder o pouco de tempo extra que ganhara com a mãe.


   — O que foi, querida?


   — Por que você se casou?


   — Quantos anos você tem agora, Priscilla?


   — Tenho... doze? — Ela respondeu, confusa. Olhou para os próprios dedos; eles pareciam iguais, pequenos, meio rechonchudos, as costas das mãos escuras, as palmas de um tom mais rosado, claro.


   — Então você já tem idade para entender que os adultos às vezes fazem coisas que... — A mãe se interrompeu, tendo encontrado um nó próximo à sua nuca, tentando desfazê-lo gentilmente. — As pessoas casam por muitas razões, Pri.


   — É, mas não estou falando num plano hipotético, estou falando de você.


   A mãe deu uma risada ácida.


   — Ah, você e essas suas cortadas inteligentes.


   — E você e essa sua capacidade de se desviar das minhas perguntas, doutora.


   A mãe detestava ser chamada de "doutora", então virara uma espécie de delimitador de passivo-agressividade para a filha usar o termo.


   — Olha, eu gostava muito do seu pai... — Começou a mãe, e parou de novo, como se fosse muito difícil lembrar da época longínqua em que estivera apaixonada por alguém. — Por que você quer saber isso?


   — Por que às vezes quando você entende como as coisas começam, pode entender o que as levou a terminarem. — Ela respondeu, pensando que tinha lido isso em algum lugar, apesar de não lembrar onde.


   — Você quer entender por que eu e seu pai nos separamos?


   Ah, Priscilla pensou, mamãe e mais uma de suas capacidades: eufemismos. Ela quis dizer que aquilo que o pai fizera tinha mais a ver com o combo abandono e violência doméstica do que com separação, mas não falou nada, pois não queria iniciar uma discussão a respeito daquilo em específico.


   — É, mãe.


   Ela não lhe respondeu a princípio, e Priscilla só sabia que continuava lá pois suas mãos ainda moviam a escova e ajustavam seu cabelo. Então, ela começou, tão subitamente que sobressaltou a menina:


   — Você sabia que a família dos faraós costumava ter deformações por conta da consanguinidade, não é? Naquela época, não havia os geneticistas para evitar esse tipo de problema.


   — Sim. E daí?


   — Os súditos louvavam essas deformações porque acreditavam que o que tornava os faraós distintos dos outros era uma prova de que eles eram deuses...


   A escova parou de se mover. Priscilla olhou por sobre o ombro e viu a mãe fitando algo através das persianas que cobriam a janela.


   — O que foi, mãe?


   — Eu acho que não te falei, mas seu pai... — o rosto da mãe parecia pálido, os lábios secos — ele disse ao juiz que... ele queria passar um tempo...



6.


   Ela acordou com o pai sacudindo-a, mandando-a ir para o banco de trás e se cobrir com uma toalha, um pano, qualquer coisa, anda, antes que eles te vejam!


   Priscilla se jogou no banco de trás, arremessando a mochila e a mala no chão, puxando uma canga que o pai deixara em cima da caixa de som, e se cobriu com ele, o odor remanescente de areia e sal quase sufocando-a. O silêncio tenso pareceu durar décadas até que o pai a cutucasse e dissesse que estava seguro.


   — O que aconteceu? — Ela indagou, o coração ainda pulsando acelerado na caixa torácica.


   Ele, que puxava a gola da camisa para longe do pescoço, como se estivesse sufocando, abanou a cabeça de um jeito abobalhado.


   — Tinha pelo menos uma dúzia desses... essa... gente... — A voz dele tremia, ela viu um filete de suor escorrendo pela lateral de seu rosto e aquilo a apavorou; répteis quase nunca transpiravam.


   — O que? — Questionou, nervosa.


   — Pessoas. Pessoas com armas na estrada. Usando máscaras de desenho animado.


   — Eles podiam só...


   Antes que ela tentasse arrumar alguma desculpa, o pai a cortou:


   — Eles tinham placas.


   — E o que dizia nelas?


   — Coisas que você não ia querer ouvir de pessoas que estão usando armas e encobrindo os próprios rostos.


   — E por que eles não pararam você?


   — Ficaram com medo. Eram todos mamíferos. O especismo, de vez em nunca, é útil.


   Priscilla levou as mãos ao rosto, sentindo-o quente. Quase se mijara de medo quando o pai a acordara, agora, era como se cada célula do seu corpo fosse parar de funcionar.


   — Pai, desiste.


   Ao ouvir isso, ele desacelerou o carro até pará-lo por completo num canto da estradinha, tão pequena que ainda era parte concreto, parte barro.


   — Nunca vou desistir de você. — Ele retrucou, tirando os óculos do rosto e fitando-a bem nos olhos. — Nunca mais diga uma barbaridade dessa.


   — Por quê não? — Então, como um balão estourando, ela sentiu as lágrimas quentes escorrendo pelo próprio rosto. — Eu nem sou sua filha de verdade e você sabe disso! Voltou com toda aquela história de “se reconectar” comigo, e agora está praticamente me sequestrando...!


   — Eu não estou te sequestrando, e eu sou o seu pai! — Ele gritou, parecendo pela primeira vez furioso, o que a assustou, mas não o suficiente para pará-la.


   — Então por que não avisou a minha mãe de que íamos sair do país quando essa maluquice de o governo caçar os Aberrantes começou?!


   — Priscilla. — O jeito como ele falou seu nome poderia ser o mesmo usado por um falante estrangeiro ao evocar uma palavra que sugerisse sentimentos ambíguos. — A sua mãe... ela está morta.


   Ela sentiu a garganta fechando. Os ouvidos também se fecharam. O pai a segurou pelos ombros, tentando dizer algo. Ela não ouviu.


   A escuridão veio como uma amiga de longa data, aguardada, desejada.


   A inconsciência, o alívio.



7.


   Dessa vez, no sonho, ela tinha oito anos e estava na praia com suas amigas Jacqueline, Lidia e Emília. As meninas corriam no ponto em que as ondas se dispersavam na areia, pulando e jogando água umas nas outras enquanto Priscilla, sentada na sombra da barraca, agarrada aos joelhos, pensava que preferia estar em casa no fresquinho tomando sorvete.


   A mãe, sentada na cadeira de praia com seu chapéu de abas largas e óculos escuros, abanava um leque florido contra o rosto tacitamente. O que denunciou a Priscilla o fato de estar num sonho dessa vez foi o fato de que o céu estava completamente violeta, como quando o sol se põe.


   — Mãe. — Ela chamou, e a mulher a fitou por cima da armação do óculos, a princípio assustada, em seguida, aliviada.


   — Você voltou então. — Ela comentou.


   — Mas eu não saí daqui!


   — Isso significa que posso continuar.


   — Com o que?


   A mãe a fitou com um sorrisinho pequeno no rosto em formato de coração.


   — Nós falávamos sobre os faraós, esqueceu? Você sabia que Cléoprata se casou com seu irmão mais novo?


   — Por que as pessoas se casavam entre irmãos antigamente? Isso é nojento. — Priscilla murmurou a meia voz, incomodada.


   A mãe, ajeitando o chapéu na cabeça, respondeu:


   — O incesto era aceito na nossa Constituição até o início dos anos oitenta, sabia? Só proibiram o casamento entre irmãos e primos por conta do elevado número de doenças degenerativas e problemas de má-formação. A taxa de mortalidade infantil precisou atingir aumentar em 60% para que eles regulamentassem na lei que a prática era danosa aos nossos genes.


   — Por quê?


   — Em resumo: as pessoas acreditavam que o incesto manteria nossos genes sempre puros.


   — Mas as pessoas não iam aos geneticistas para corrigir os...?


  — Nem todos têm dinheiro para ir a um geneticista, querida. — A mãe retrucou docemente. — Então, o efeito gargalo começou a ocorrer.


   Priscilla se lembrava da professora falando sobre o efeito gargalo, mas não se recordava ao certo como ele funcionava. A mãe, como se adivinhasse seus pensamentos, prosseguiu:


   — O efeito gargalo é o resultado da "deriva genética", algo que pode ocorrer quando a população de um local é subitamente reduzida. A raça humana se viu com menos opções de parceiro após o avanço dos nossos geneticistas em fundir o DNA de outras espécies com a nossa, em busca das qualidade ideais.


   "Você é uma Aberrante, uma humana Original, um resquício do Homo Sapiens sapiens antes da divergência genética que levaria até a variedade de seres humanos que temos hoje. Você poderia facilmente se reproduzir com qualquer tipo de pessoa, tem essa vantagem, mas uma pessoa-porco jamais conseguiria gerar uma prole saudável com uma pessoa-gato, por exemplo."


   "O resultado disso é que as famílias apelaram cada vez mais e mais ao incesto, fazendo com que inúmeros alelos nos nossos genes fossem exterminados, e precarizando cada vez mais os genes positivos que haviam motivado essa busca pela combinação perfeita."


   Priscilla fitou o céu violeta, os dedos dos pés se enterrando na areia fofa e quente. O pai, ela lembrava, tinha apenas uma pinça gigantesca brotando do dedão, os demais dedos atrofiados, ligados como as asas de um morcego por uma membrama dura, inflexível.


   Ela ia dizer algo para a mãe, mas de repente foi como se partissem uma vidraça com uma pedra, a imagem granulou, rachou, e uma mensagem de manutenção foi pendurada por uma mão externa à nossa visão.



8.


   Dessa vez, ela se levantou se retorcendo, caindo da cama embrulhada no lençol. O pai, erguido num pulo, a ajudou a se desvencilhar.


   — Onde nós estamos? — Ela perguntou, confusa, olhando para o papel de parede descascado, a Bíblia em cima do criado-mudo no qual batera a cabeça ao cair; não se lembrava de terem parado em mais um quarto de motel.


   — Você desmaiou depois de... você sabe. — O homem explicou, erguendo-a nos braços como se ela não pesasse quase nada. Ele a depositou na cama, e se sentou ao seu lado, examinando o pequeno galo que se formava na cabeça dela. — Está doendo?


   — Vou sobreviver. — Foi a resposta.


   — Bom. — Devolveu o pai, recuando para fora da cama.


   — Pai. — Ela o chamou, lembrando do sonho, da história da mãe. — Como ela morreu?


   Uma pausa, estranha, insondável.


   — Agora não é um bom momento, Priscilla. Tem muita coisa a ser explicada antes...


   — Por que está falando desse jeito? Será que é tão difícil assim me contar como a minha mãe morreu?


   Ele a fitou de soslaio, algo de incômodo nos olhos.


   — Você não tem noção do quanto, Prisca...


   — Por que não tenta?


   — Porque não sei que tipo de resultado isso pode trazer pra sua cabeça. Não sei até que ponto... até que ponto aquela mulher... “adulterou”... a sua cabeça.


   — O que você quer dizer com isso?


   De novo aquele silêncio cheio de dedos, que tateia no escuro, que se corta sem sentir.


   — Pai?


   — Ela não era sua mãe, Prisca.


   — Então quem ela era? Quem era a minha mãe de verdade? Me fala. — Ele não respondeu, e ela tomou fôlego, irritada: — Sabe por que não consegue falar? Porque está mentindo.


   — Não, não é isso...!


   — Você só voltou pra me contar mentiras! Aposto que ela ainda está viva!


   — Não, a sua mãe está morta. E a mulher que você tem em mente quando pensa na palavra “mãe” não é quem você acredita ser... Ela mentiu. Desde o princípio.


   — Por quê?


— Porque você é preciosa, filha.


— Por quê, pai?


   Ele levou as mãos grandes ao rosto. Parecia exausto e velho.


   — Eu queria poder te falar, mas... tenho medo que algo em você se rompa. Quando pessoas com a mente alterada se deparam com a verdade sobre as memórias falsas que têm, o resultado pode ser... fatal.


   — Então você espera que eu não te julgue como mentiroso porque supostamente está me protegendo ao ocultar a verdade? — Ela sentiu a ironia pingando venenosa no canto dos lábios. — Mas que fantasia altruísta.


   — Eu não vou discutir com você. Precisamos dormir. Amanhã...


   — Eu cansei de você. — Ela o cortou. — Não vou deixar que me arraste pra mais nenhum lugar. Amanhã, eu vou arrumar um telefone, e ligar pra minha mãe, que está viva.


   — A sua mãe morreu quando você era criança, Priscilla. Em mil novecentos e noventa e nove. — Ele disse o número de uma forma tão cabalística que ela se arrepiou. Não era cabalístico; era o ano do nascimento dela. — E ela não era aquela mulher que te roubou de mim. Ela era a minha...


   A voz do pai foi cortada como um canal de áudio sendo mutado na televisão.


   Em seguida, a imagem ficou negra, ela parada ali, no vácuo.


   Ouviu o som da própria respiração.


   E então, sentiu a queda.



9.


   Tudo o que sua mente registrou foi o impacto do chão quando voou do balanço, as palmas das mãos e joelhos atingindo com tudo as pedrinhas, que produziram pequenos cortes em sua derme fina, o sangue vertendo quase tímido, o orgulho doendo mais do que os arranhões.


   — Ai, merda... — Sussurrou para si mesma, mas a mãe ainda escutou, e levantando-se atabalhoada do banco, agarrou-a pelo cotovelo, espanando seu short e camiseta com o jornal ao mesmo tempo em que a repreendia.


   — Eu já te falei pra não sair pulando do balanço, Priscilla, pelo amor de deus!


   — Fala um pouco mais alto, mãe, assim eu não consigo ficar surda de vez!


   A mulher a largou com a boca aberta, os braços recuando para o centro do peito, tornando-a muito parecida com um dinossauro.


   — Ah.


   — Deixa eu adivinhar? — Disse Priscilla, espanando com cuidado as pedrinhas que haviam grudado nos próprios joelhos esfolados. — "Eu voltei." Seja lá o que isso significa.


   A mãe abanou a cabeça, sorrindo.


   — Parece que você está...


   — Quem é você? Meu pai disse... que você não é a minha mãe.


   Estavam na pracinha da esquina de sua casa. Priscilla podia ver dali a padaria, a concessionária fechada por ser domingo, o garoto da farmácia que avançava o sinal vermelho com sua bicicleta para entregar mais rápido uma encomenda. Ela, que devia ter cinco anos dessa vez, se viu à procura do sinal de que estava novamente num sonho.


   No entanto, não viu nenhuma falha de continuidade, nenhum efeito que desafiasse a física ou a química da realidade que conhecia.


   — É claro que sou. Aquele homem quem não é o seu pai. Afinal, — A mãe tombou a cabeça de um jeito analítico, como um pesquisador que examina uma espécie nova. — você não tem nada dele, não é? Anda, vamos pra casa. E então, vou poder te contar sobre as teorias a respeito do faraó Akhenaten...


   Priscilla deu a mão a ela a contragosto, e as duas caminharam com cuidado pela rua, chegando no apartamento em que moravam com... com várias pessoas, certo? Eram pessoas da família da mãe, ela lembrava de a mãe dizendo que eram parentes. Que aquelas pessoas vestindo branco, e os vidros em cima da mesa, e os aparelhos...


   Os aparelhos com os quais elas a examinavam.

  

   Elas anotavam seus dados em coisas-planas-de-madeira.


   Diziam: muito bem, agora, mostre a língua.


   Diziam: muito bem, agora, me mostre de novo como você faz pra voltar.


   E a mulher-que-é-a-mamãe dizia:

PEDIMOS DESCULPAS

PELO

TRANS

TOR

NO
.
.
.
.
.


DeZ.


   O homem-coelho a fita de cima, anotando algo num papel preso à uma coisa de madeira, que, agora lembra, se chama pran-che-ta, vocábulo de 3 sílabas ao qual sua boca não está acostumada.


   Não um tablet, mas uma arcaica prancheta, com papel e lápis de grafite que produz um risca-risca tranquilizador típico das atividades que podem te trazer LER. Ela acha engraçado perceber isso. Já faz muito tempo desde que não vê papel de verdade. A maioria das árvores está sob regime agressivo de proteção, a celulose é produzida massivamente em laboratório. Como os bebês de pessoas ricas.


   — Descobriu algo de interessante, velhinho? — Ela questiona, expondo os dentes da frente numa imitação de um personagem de desenho animado. Estava deitada numa cama de hospital alta, gradeada. Suas mãos estão presas por algemas, e ela pensa pra que isso tudo, gente?


   O homem-coelho ajeitou os óculos no focinho engordurado, a mão enluvada passando pelas orelhas longas.


   — Não devia ter acordado com a dose que lhe damos. — Ele comenta, assustado e se vira para um botão vermelho pendurado ao lado de sua cama. Ela o observa nervoso, falando com um interfone instalado ali: — Ela acordou. Não, eu dei a dosagem de... Eu sei!... Não, ela não fez nada de bizarro até agora...


   — O que você está tentando achar? — Ela indaga, sacudindo as mãos. Antes, estava tranquila, mas agora, a raiva sobe e ela se retorce, puxando os pulsos até machucá-los na cama. — Cadê o meu pai?


   — Ela começou a perguntar a respeito dele... — O homem-coelho continua apertando o botão como pudesse se ejetar dali. — Eu não sei o que fazer, por favor...


   Não leva mais do que dois minutos para que outro homem-coelho de jaleco apareça, sua própria prancheta em mãos. Este tem o pelo bege, ao contrário do outro, que é cinzento, mais velho, menos maleável.


   — Pode ir, deixa que eu assumo a partir daqui. — Ele diz ao companheiro com um tapinha nas costas, logo se voltando para Priscilla, um sorriso falso, branco demais, perfeito demais. — Oi, amiguinha, como estamos hoje?


   — Sai daqui, otário. — Ela cuspiu, irritada.


   — Ah não, não é assim que nós devemos tratar os amigos, Priscilla. — Repreendeu o médico (ou fosse lá o que fosse) com um tom condescendente. — Uma menina tão bonita falando desse jeito rude... é um desperdício.


   Priscilla revirou os olhos, a cada segundo mais puta.


   — Vou esmagar as tuas bolas num espremedor de alho, babaca!


   — Ah, querida, isso está ficando cada vez pior. — Ele continuou, aquele tom arrastado repleto de falsa compreensão. — Por que eu não coloco o seu vídeo favorito, pra você se acalmar? É, é isso o que eu vou fazer, com certeza.


   O homem-coelho se dirige a uma TV de tubo, arrastando-a numa armação de rodinhas que rangem no chão de linóleo. No topo da TV, um aparelho de videocassete, que ela só conhecera quando fora ao museu num passeio da escola.


   — Por que tanta velharia, hein? — Ela questiona, surpreendendo o homem durante dois segundos, antes que ele recompusesse suas faces naquela máscara de gentileza fingida.


   — Essas coisas te remetem a algo, Priscilla?


   — O que? — Ela piscou, confusa. — Não... Eu... Não me remetem a nada.


   O sorriso dele dessa vez foi largo, predatório:


   — Ótimo.


   E com isso, enfiou no videocassete uma fita preta. Ele a deixou no quarto sem maiores explicações.


   Na tela granulada, o mesmo homem-coelho aparece, e acena pra ela.

   — Olá, Priscilla. Hoje, vamos aprender sobre o incrível mundo dos genes!


   Que merda ele está dizendo? Usa palavras difíceis, termos que ela tenta pescar das aulas de biologia, mas parece que tudo foi há muito tempo, outras eras, outras vidas.


   Quando usa termos complexos, ele para e explica com um curta que parece tirado do Youtube o que seria aquilo — termos como "mutação cromossômica estrutural" ou "translocação recíproca" ou "pareamento meiótico". Ela não consegue ouvir a explicação dele, seus ouvidos começam a zumbir. Tudo ao seu redor parece estar em câmera lenta. A sensação estranha está ali de novo, como um dente meio solto na gengiva que você não deveria cutucar, mas cutuca mesmo assim.


   A palavra do dia é


 "aberração".


   O homem-coelho continua falando por 40 minutos. Eles estão sozinhos no quarto, um quarto branco, um quarto quadrado, um quarto inexistente — isso, reduza-o ao máximo de adjetivos possíveis, talvez isso torne-o mais palpável, por mais paradoxal que possa soar.


   Quando Priscilla mantém os olhos focados na tela, acha que consegue ver cada pixel que o compõe — o que ela quer mesmo é enxergar as verdades que ele esconde. Está ali, mas não está ali. O coelho na cartola. Há algo de errado com seu corpo, quer dizer, com o corpo dele — mas também há algo errado com o corpo dela. Vê os lábios dele se abrindo e fechando. Marca de lábio leporino, cirurgia, consequência. Termos como "alelos de genes pleiotrópicos", você sabe o que isso significa?


   A frase do dia é


 "coincidências não existem".


   É possível ter cãibra no cérebro? Ela acha que sim. O que fazer se isso for um derrame? Um aneurisma? Crianças de 12 anos podem ter aneurismas? Seus olhos não conseguem desgrudar da TV, hipnotizada, flautista de Hemlin versão tecnológica.


   Há um som se desenrolando ao fundo, uma tarefa secundária sendo executada.


   Ela é partida, não, multiplicada.


   Há o som de uma porta fechando com força.


   Uma porta de carro.


   Está ali, e em outro lugar, no carro, ao lado do pai, apesar de ter dito que não ia mais a lugar nenhum com ele.


   É a voz do pai (aquele homem não é seu pai, ele mente) dizendo algo pra ela, pedindo que ela volte pra ele.


   Há um novo som. Ela já o ouviu antes, em filmes e nos jogos de arcade. É o som de uma arma sendo recarregada. Ela é destravada. Gritos ao longe. O tiro vem a qualquer minuto.


   Eles nos acharam, merda, merda...


   O homem-coelho. Ele está usando um conjunto primário de códigos silabários para descrever algo que não deveria ser tão difícil de entender. Aquele lugar não existe, se ela não quiser que não exista.


   Você altera o sentido das coisas, Priscilla. Você muda... a realidade...


   Há algo mais acontecendo, algo que não pode ser captado no radar do submarino.


   Termos como "mutação".


   Você entende agora, Priscilla?


   O pensamento do dia é


"cortem-lhe a cabeça".



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   O pai está mandando ela se abaixar quando um tiro estoura o peito dele, arrebentando sua caixa torácica, arrancando todo o fôlego de seus pulmões. O carro, em alta velocidade, colide com um barranco de terra no canto da estrada e começa a girar como uma moeda rodopiando no ar.


   O estrondo do carro capotando na estrada, o relinchar do metal se retorcendo conforme o teto amassa, um pneu estourando, o vidro da frente estilhaçando como raspas de gelo, cortando a pele do seu rosto, seus lábios, orelha. A cabeça do pai quica contra o teto e logo em seguida acerta com uma bofetada agressiva o volante do carro, a buzina berrando durante milésimos de segundos que parecem infinitos nos labirintos sensíveis.


   Quando o veículo enfim para em sua dança macabra, ela, com sangue emplastrando as pálpebras, o cabelo cacheado grudado nos cortes do pescoço, a língua arrebentada pelos dentes que se fecharam com força demais, consegue erguer a cabeça e fitar um grupo de homens usando capuzes e máscaras, pedaços de pau, e armas, e meu deus meu deus por favor meu deus...


   Um dos homens usa uma máscara de gato preto e branco, Gato Félix?, ela se pergunta, mas não, não está certo, os ângulos parecem errados, o nariz é muito comprido, como o de um Pinóquio. Krazy Kat, ela lembrou de repente da mãe apontando para uma tirinha num livro na biblioteca e a voz dela dizendo suave a história de Krazy Kat.


   A pessoa por trás de Krazy Kat é um homem, ela sabe disso pois sente a força dos músculos dele quando move o pedaço de pau para terminar de estilhaçar o vidro da janela do carona, quebrando seu maxilar no processo.


   — Você não pode fugir de nós, querida. — Diz o homem, e ela reconhece a voz dele lhe dizendo muito bem, agora me mostre como você faz pra voltar. — Fizemos tudo isso por você. Criamos esse cenário todo apenas para saber até que ponto...


   Fecha os olhos, a dor castigando cada pedaço da sua pele. Só deseja que isso acaba. A vida não faz mais sentido. Pensa no oceano. No som gentil das ondas quebrando no barranco, as conchas que passeavam por entre seus dedos até encontrarem com um estalo o fundo do baldinho lascado que a mãe, não, o pai comprara nas Lojas Americanas.


   O pai ergueria um caranguejo morto pra ela, exibindo os olhinhos negros como contas, e lhe diria: "Não é incrível, Prisca?"


   O homem a puxa pra fora do carro com brutalidade, sua camisa se rasga nas lascas de vidro da janela, a carne macia da barriga se ferindo, o chão de concreto que é quente, a proximidade com as botas gastas do sujeito.


   Ele diz:


   — Você é nossa propriedade.


   E se debruça sobre ela com uma seringa na mão, uma cena entrecortada das lembranças, a mulher que chamava de mãe segurando-a enquanto um par de mãos injeta líquidos coloridos em seu corpo apenas para anotar suas reações.


   Ela fecha os olhos e implora que o final seja rápido.


   E, com um clique, ela se vai.



1.


   O pesadelo se dissipou nas retinas de Priscilla assim que ela acordou.
   Só o que restava dele era o rastro de suor que começava em seu couro cabeludo e escorria até a base da coluna, grudando de maneira desconfortável o tecido da blusa contra sua pele. Sem gritos, sem as convulsões típicas de seus terrores noturnos, ela agradecia por isso, visto que ah meu deus meu deus porra meu deus....


   — Sonho ruim? — Questionou a voz grave do pai, sobressaltando-a.
  

   Ela tocou o próprio rosto, o cabelo, as roupas. Intactos. Estendeu a mão e agarrou o bíceps musculoso do homem, que estremeceu diante do contato súbito.


   — O que houve? — Ele questionou, assustado.


   — Nós voltamos. — Ela disse, enfim entendendo. — Nós voltamos, puta merda, voltamos...


   O pai desacelerou o carro até que parassem no canto da estradinha.


   — Então... aconteceu? — Ele indagou, as mãos apertando o volante, os olhos que não sabiam onde se fixar, todo o avanço que tiveram ao longo daqueles dias, perdido.


   — Você... sabe...? — Ela devolveu, confusa. — Você... sabe o que está acontecendo?


   E tudo o que o pai diz, a cabeça repousando lentamente no volante, derrotado, exausto, é:


   — Sim.

   
   E depois:


   — Me desculpe.


   E mais adiante:


   — Eu não queria que fosse assim.


   Priscilla fica em silêncio, engolindo aquelas palavras, mastigando-as lentamente antes de decidir que gosto têm.


   — O que está acontecendo, pai?



_x.


   A transição é abrupta, como ser jogada nas zonas abissais sem equipamento de mergulho. A pressão parece querer esmagá-la.


   — Olá, querida. — Diz a mulher que se habituara a chamar de mãe por anos, sentada na sua escrivaninha, lendo algo numa prancheta de madeira. — Você voltou rápido dessa vez.


   Estão no quarto dela, uma cama de casal na qual ela dorme sozinha, as cortinas blackout, o ventilador clássico, em forma de bulbo, três palhetas que giram lentamente. Priscilla se apoia no roupeiro para não cair.


   — Como se sente hoje?


   — Você não é a minha mãe. — Ela comenta, a boca parecendo cheia de algodão. — Você não... é a minha mãe.


   — Não. — A mulher, sua médica, retira os óculos do rosto, e a fita de forma analítica. — Parece que você se lembrou, enfim.


   — Por que...? O que...?


   A mulher se levanta e a segura pelo cotovelo, arrastando-a gentilmente até a cama. Nela, fotos impressas, brilhantes, o papel que gruda nos dígitos se você os pressiona com um pouco mais de força do que deveria. Um homem e uma mulher, ambos pessoas-cobra, estão abraçados numa fotografia. Eles têm as mesmas escamas tom de pergaminho, no topo de suas cabeças a mancha sanguínea, vermelha, indicativo da toxina em seus dentes.


   — Você é propriedade do governo. Nasceu a partir de uma relação incestuosa ilegal. — Explicou a mulher. — Irmãos que compartilhavam do mesmo pai e mesma mãe. O governo tem passe livre para apreender esse tipo de criança desde que o incesto foi considerado crime. Seu pai ficou desesperado. Ele queria manter você, te amava tanto, tanto... Sua mãe teve depressão pós-parto. Cometeu suicídio quando tiramos você dela.


   Sua mãe morreu, a voz do pai dizia na sua cabeça, em loop.


   — Você não era uma criança qualquer, Priscilla. — A mulher explica, pescando suas lágrimas com a ponta do dedão. — Você sofreu uma mutação cromossômica estrutural muito rara, uma translocação recíproca que levou a tudo o que você é hoje. Basicamente, dois segmentos dos seus cromossomos trocaram de lugar entre si numa configuração que nunca tínhamos visto até então. O pareamento meiótico que isso originou fez com que, bom, você fosse única.


   "Mas é claro, nunca tínhamos visto alguém como você até dissecar a sua mãe. Então, se tornou mais fácil te entender."


   — O que? — Sua própria voz ecoou alto demais, como se viesse do lado de fora da cabeça.


   — Nós dissecamos ela para tentar compreender melhor o que você era capaz de fazer.


   — Vocês...


   — Você não está entendendo nada. — A mulher suspirou. — Isso não me surpreende, por causa do bullying você era péssima em biologia. Vou tentar ser o mais clara possível. Você — ela depositou o dedo no peito de Priscilla como uma arma, fazendo-a congelar — é fruto de pelo menos oito gerações de incestos fraternos. Considerando que nunca frequentaram um geneticista para arrumar os genes problemáticos, sua família era uma deriva genética perfeita. Traduzindo: era só questão de tempo até que alguma fatalidade ocorresse.


   “Microcefalia, hemofilia, anemia falciforme, fenilcetonúria... uma lista imensa de síndromes e transtornos. Mas ao longo de oito gerações, todos na sua família eram "intocados" geneticamente falando. Não encontramos uma única doença. Era algo límpido, um milagre. No meu laboratório, começaram a chamá-los de “herdeiros do faraó” com uma espécie de ironia nervosa.”


   "Quando me repassaram o caso de vocês, eu sabia que precisava examinar mais de perto. E então, depois de testes exaustivos, observei que você, sua mãe e seu pai, que muito prontamente nos forneceu material genético para os exames, tinham um alelo letal. O que, a propósito, contribuiu pra que você não desenvolvesse nenhum gene de cobra. O nome disso é “pleiotropia”, a capacidade de um gene interferir em outros genes."


   Priscilla sacudiu a cabeça. Ela lembrava perfeitamente o que "letalidade" queria dizer em genética.


   — Se tivesse um alelo letal no meu corpo, eu...


   — Você teria morrido. — Confirmou a médica, batucando a própria bochecha com indisfarçada admiração. — Você não poderia ter sobrevivido. Mas sobreviveu. O que deveria te matar... te tornou mais forte, literalmente.


   Isso sim deve ser uma ironia, a garota pensou. Pois não me sinto nem um pouco forte agora.


   — Demorou algum tempo até que você começasse a apresentar os seus — a mulher gesticulou na sua direção — poderes.


   Diante dos olhos arregalados de Priscilla, ela abriu um sorriso.

  

   — Foi difícil definir ao certo como a coisa funcionava, porque você era pequena demais para entender o que estava acontecendo, e não tinha as palavras exatas para descrever o que se passava. Mas nós conseguimos. Descobrimos que você podia, de alguma forma, "deslizar" a sua consciência pelas camadas do tempo-espaço, assumindo seu corpo em períodos distintos e modificando eventos. De forma leiga: você viajava no tempo.


   Ok, Priscilla pensou, então sou tipo o Doctor Who. Só que sem a Tardis.


   Aquilo não a empolgou tanto quanto teria empolgado um tempo atrás.


   O pensamento seguinte foi: mas como controlo essa merda?


   A médica, sem lhe dar tempo para divagar sobre essas questões, continuou:

  

   — Estabelecemos alguns "pontos de restauração", como num computador, pra te monitorar. Usamos a história do faraó para delimitar esses pontos. Sabíamos que, se precisássemos te "puxar" de volta, eles seriam imprescindíveis. Foi interessante quando percebemos que, o seu sono não tinha todas as fases comuns à um ser humano. Durante uma parte dele, suas ondas cerebrais reduziam tanto a frequência que se tornavam quase indetectáveis. Na primeira vez que aconteceu, achávamos que você estava morta. Mas na verdade era só você “viajando” por aí.


   "Conforme você cresceu, fizemos com que contasse seus "sonhos" estranhos aos psicólogos. Fomos percebendo que alguns dos espaços-tempo tinham pontos sutis e ainda assim essenciais para averiguarmos diferenças com essa linha da realidade. De alguma forma, você conseguia visitar linhas distintas da realidade. Foi a descoberta mais fascinante do nosso laboratório desde a fundação dele. Você nos angariou bilhões investidos em pesquisas do governo e dos nossos investidores particulares."


   — E o que o meu... pai... achava disso? — Priscilla indagou, se pegando fitando as próprias mãos. Pensando, agora, que o formato dos seus dedos talvez um dia ganhasse as falanges demarcadas do pai.


   — Nós o mantivemos longe durante um tempo. Manipulamos suas memórias para que ele se tornasse amedrontador, distante. As coisas estavam indo bem até que ele jogou a merda no ventilador pra imprensa. E aí, tivemos de liberar você, o juiz decidiu que ele poderia recuperar a guarda após descobrirem todos os testes que fizemos. Mas não foi dessa forma que te passamos a informação, não faria sentido com a narrativa “normal” que estávamos construindo para que você pudesse se desenvolver. Enfim... — A mulher dispensou o assunto com um gesto de desprezo. — Ao longo de muitos séculos a raça humana se viu desenvolvendo variantes animais que apenas nos segregaram e nos tornaram mais fracos. Ao invés de podermos combinar genes essenciais, estávamos apenas divergindo no caminho da evolução. Precisávamos que alguém como você surgisse para nos mostrar que não precisávamos da velocidade de um guepardo, da força de um elefante ou da visão de uma águia para sermos superiores.


   "O essencial era focar nos alelos letais, em uma forma de reproduzi-los sem as consequências. A sua combinação genética em específico era a chave para que pudéssemos criar o ser humano ideal, um ser humano que retornasse à Originalidade, ao princípio, e ao mesmo tempo fosse dotado de capacidades..."


   — E vocês conseguiram? — Priscilla cortou a mulher, irritada com o falatório. Estava satisfeita em finalmente conhecer sua história, mas o fato de ter sido uma cobaia de laboratório não a deixava nem um pouco feliz.


   — Não. O progresso era lento e seu pai te arrancou de nós justamente quando o avanço parecia mais substancial.


   — O que vocês fizeram foi criminoso, contra os direitos humanos...


   — O que significa submeter um único indivíduo à condições de vida fora dos direitos humanos quando sabemos que poderemos usar o conhecimento sobre esse mesmo indivíduo para permitir que a raça humana evolua a um patamar nunca antes imaginado?


   — Você — Priscilla sentiu que estava exibindo os dentes, tal qual o pai — é uma grandessíssima filha da puta, sabia?


   Os dedos da médica estalaram quando ela fechou o punho. Provavelmente desejando poder descê-lo sobre a garota.


   — Não é bem...


   — Você se introduziu nas minhas memórias pra poder me manipular. — A garota observou. — Se isso não é ser uma filha da puta, eu não sei o que é.


   Levantando, caminhou o mais lentamente possível até a porta.

  

   A médica não se ergueu.


   — Onde você pensa que vai, mocinha?


   — Vou atrás do meu pai.


   — E como pretende fazer isso? — A arrogância na voz da mulher, o agudo proveniente do nervosismo. — Você não consegue...


   Ah, ela conseguia, sim.



Um.


   O pesadelo enfim parecia próximo do fim.


   — Pai. — Ela o chamou com um suspiro. — Eu sei de tudo. — Quando ele fez menção a desacelerar o carro, ela segurou a mão dele sem desviar os olhos da estrada. — Precisamos continuar. Eles estão vindo.


   — Eu sei. — Retrucou o homem, desconfortável. — Posso ver.


   — Como?


   — Você acha mesmo que era a única com alelos fatais que levavam a algo mais?


   Ela o fitou.


   — Tem a ver com você... "convencer" pessoas? Achei que fosse o famoso poder da intimidação.


   O pai riu.


   — Não. Não "convenço" ninguém. Eu... consigo enxergar as múltiplas realidades. E forçar que uma pessoa execute uma dessas realidades.


   — O que?


   — Antes de você nascer — o pai começou, a voz começando a ficar embargada —, desde o momento em que pus os pés nesse mundo, sabia exatamente cada passo que qualquer pessoa daria. Eu conhecia até mesmo a rota dos grãos de areia na praia, se quisesse. Aquilo que pros outros era mera probabilidade, pra mim sempre foi fato concreto. Nada era uma novidade. Não havia medo do desconhecido, porque o mundo era um livro que eu já tinha lido e relido centenas de vezes.


   "Se quisesse modificar um resultado a meu favor, mas dependesse da atitude de outra pessoa, poderia simplesmente agarrar a realidade mais próxima e "forçar" a pessoa em questão a vivê-la. Deu errado muitas vezes. Mas no final, as surras por ser considerado "abusado" valeram a pena."


   — Isso é um poder bem foda. — Priscilla comentou. — Mas... não é meio... chato? Viver sabendo de tudo?


   — Me habituei. Sua mãe também.


   — Então ela também...?


   — É.


   — Cacete...


   — Tudo mudou na sua gestação. As coisas foram ficando obscuras. De repente, tudo o que eu sabia começou a ter buracos, falhas de continuidade. Eu não era mais o dono da verdade.


   — Como você se sentiu?


— Pequeno. Reduzido. Foi estranho.


   — Eu entendo.


   — Foi por isso, sabe... foi por isso que sua mãe se matou. O fato de não conseguir mais enxergar o resultado das coisas... Quando te tiraram de nós... Foi demais pra ela.


   O silêncio, pesado como uma mortalha.


   — Me...


   — Não. Não peça desculpas. Nunca. Me entendeu?


   — Eu matei...


   — Não. Você ia nos dar uma vida nova, Prisca. Quem matou sua mãe foram aqueles cretinos.


   — Eu não acredito em você.


   — Ah. — Ele riu, um som rouco e meio triste. — Eu sei que não. Quando a coisa toda começou... eu sabia que era por você. Sabia que era você quem abalava o tecido do espaço-tempo. Queria te dar o nome de "Marina" porque achava que combinava com a situação toda. "Aquela que vem do mar." Foi do mar que a raça humana surgiu. Do mar vieram as criaturas misteriosas que alteraram pra sempre o diagrama do mundo.


   — E por que meu nome não ficou como Marina? Minha mãe não quis?


   O pai deu um sorriso pequeno. Priscilla viu do olho sem pálpebra dele uma lágrima escapando.


   — Ela queria. Mas... quando ela se foi... foi como se tivessem aberto um buraco na minha boca, deixado um nulo na minha garganta. Eu precisava ter uma razão pra continuar dizendo o nome dela, entende? Priscilla.


   Ela sentiu lágrimas brotando nos próprios olhos.


  — O que vamos fazer agora? — Indagou, se abraçando.


   — Vamos continuar em frente. É só o que podemos fazer.


   — Mas, pai... eu não sou tão boa quanto você...


   — Não, mas vai ser.


   Ela riu, revirando os olhos, tentando despistar o choro.


   — Você não tem como saber disso.


   — Não. — Ele disse, determinado. — Mas eu acredito em você.


----------------------------------------------------------------------------------------------

Notas finais:

- Aberrantes (do glossário de A Origem das Espécies, C. Darwin): formas ou grupos de animais ou plantas que se desviam em caracteres importantes dos seus aliados mais próximas, de forma a não serem com facilidade incluídas no mesmo grupo, são ditas aberrantes.


- As explicações sobre mutação cromossômica estrutural, translocação recíproca, pareamento meiótico, dentre outros termos que surgem ao longo da história foram retiradas, em sua maioria, dos artigos da plataforma de ensino gratuito, Khan Academy.


- Uma das minhas maiores inspirações pra esse texto foi, com certeza, o filme Gattaca (1997). Melhor filme de biopunk que vi até hoje. (Disponível no Youtube mais próximo de você.)


Quero agradecer:

Meu namorado, por ser meu crítico mais voraz, e ao mesmo tempo um dos meus maiores incentivadores.

Yuui C. Nowill, por ter me feito participar do concurso, lido a história com tanto carinho e ainda por cima desenhado a capa pra mim (eu amei muito ela, hime <3)

Mildo, que se interessou por ler a história quando ainda estava cheia de problemas. (Desculpe por isso)

E a você, que leu até aqui. =)

Aug. 28, 2018, 3:32 a.m. 11 Report Embed 12
The End

Meet the author

Zen Jacob Zen, 22 anos, trabalho com T.I. e não sei falar de mim, I guess? Aficcionado por mangás de nicho, livros nacionais obscuros e bombom Caribe.

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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, tudo bem? Como foi participar do desafio e vencer? Gente, se alguém entrou de cabeça e tudo no subgênero, essa pessoa foi você. Esta é uma história complexa, com fendas temporais, um enredo completamente original e um final absurdo. A narrativa é um pouco confusa no início e parece ser desta forma justamente para você juntar o quebra-cabeça; conforme vai avançando, tudo vai se tornando claro até você se deparar com uma barbaridade daquela que estavam fazendo tanto com a Prisca quanto com seu pai. E aí você vê a escória da humanidade. O ritmo da sua história é realmente muito bom. Você só entende mesmo a história no final, e aí tudo se encaixa e parece que dá um "clique" na sua cabeça. Toda a mitologia dos faraós por trás, a forma como você abordou a construção desse mundo de mentiras na cabeça da Prisca, tudo foi tão bem pensado e fez tanto sentido que o leitor chega a perder o fôlego. Mas o excepcional mesmo desta história foi a ambientação. Você criou um mundo inteiro (e complexo, inclusive) com poucas palavras e, apesar de você abrir espaço para uma história maior (você tem pano para livros grandes aqui), você consegue fechar essa parte da história e nos dar um final aberto muito bem pensado. Sério mesmo, parabéns! E também percebo que houve o levantamento de temas importantes camuflados com a genética aplicada na narrativa, como quando a Priscila e seu pai quase não conseguem se hospedar no motel porque a tamanduá fala que não é permitido casais interraciais. Se isso não é um assunto atemporal, eu não sei o que é. E a forma que você conduziu a história... Gente, que delícia! O cenário bem estruturado, ortografia boa e leitura maravilhosa. Eu adorei de verdade! Espero que tenha se divertido com o desafio e te espero nos outros. Ah! Uma última coisa! Precisamos do seu e-mail para que possamos te enviar o prêmio!! Beijinhos 💚
Oct. 4, 2018, 2:31 p.m.

  • Zen Jacob Zen Jacob
    Olá! =) Olha, não esperava vencer não, admito... :v Então foi bem surpreendente. Fiquei muito feliz por ter ganho, até porque essa história é muito especial pra mim e já passou por 5 processos de reescrita pra poder chegar nessa versão com todas as pontas soltas devidamente amarradas e tudo mais - sem contar a parte da pesquisa de biologia, que foi meio cansativa, mas legal mesmo assim. Eu estou trabalhando numa história maior que vai envolver esse universo (e que possivelmente vai mostrar a Prisca e o pai dela), dentro de alguns meses devo postar aqui no Ink, já que eu sou meio complexado com postar as coisas em andamento... e também preciso do aval do meu beta falando que não ficou horrível. :v Gosto de escrever histórias com uns ritmos doidos porque eu tenho sérios problemas de atenção, então pra não perder a concentração tento ao máximo me manter com um sentimento de "ok what's going on here....?", acho que isso funciona com os outros também porque todo mundo elogiou essa parte até o momento. uhauhauha Pra mim, o mundo é uma das coisas mais importantes quando se está escrevendo uma história, porque dá pra ver bem o caráter e personalidade de um personagem através da interação dele com o ambiente. A Prisca ser agressiva e direta tem tanto a ver com os abusos médicos que sofreu quanto com o bullying pelo qual ela passava na escola; o pai dela ser tão calado e distante é uma parte fundamental de como ele aprendeu a responder ao mundo diante da discriminação que ele sofria por ser réptil, e por aí vai. O que torna sci-fi o meu gênero preferido é justamente a possibilidade de trabalhar essas questões sociais junto aos os avanços tecno-científicos pelos quais passamos, e me deixa muito contente ver alguém apreciando isso e gostando de passar algum tempo no mundo que eu criei, de verdade. =) Muito obrigado pela oportunidade e carinho, e pode encaminhar o prêmio pra mim em benjiej19[@]gmail[.]com. Qualquer coisa, só me falar (e pode me chamar no twitter também, se for mais fácil!) 🖤 Oct. 4, 2018, 9 p.m.
Emily C Souza Emily C Souza
Meu deus.... caramba.... to sem palavras. No começo eu tava: Ok, temos um homem dragão (ninguem disse que era dragão, mas eu tomei essa liberdade kkkkk) albino, temos uma garotinha de 12 anos que parece ter vinte e temos um saida do país. Ta, entendido. Ai ela teve um sonho e sabia que era um sonho. Beleza, eu comumente faço isso; sonho, sei que to sonhando e controlo meus sonhos como eu quero. A o pai dela força o pessoal ao obedecer. Sinceramente, eu pensei que era um tipo de hipinose, algo do tipo, e continuei lendo como se tudo fosse muito previsivel, mas ai, paaaah: Você desfez tudo o que eu acreditava ter entendido, rolou uma viagens doidas e a garotinha PODE VIAJAR NA PORRA DO TEMPO, EU TO SURTANDO CARALHO. Muito bom, pra caralho velho. Você ambientou na terra, no Brasil, você foi incrivel com toda aquela biologia veressimel e eu to boba até agora. Interessante do inicio ao fim, abalou todas as minhas estruturas... nem sei mais o que dizer. Melhor biopunk com certeza. Umas das melhores fics que eu li nesse desafio. To muito grata, é isso. Meu mais sincero obrigada <3
Sept. 8, 2018, 7:43 p.m.

  • Zen Jacob Zen Jacob
    Eu tô rindo alto aqui com o "homem-dragão". uhauhahuahua Realmente, eu nunca tinha pensado que ele poderia ser visto como um dragão, seu comentário acabou me dando uma ideia pra outro personagem desse mesmo universo, então já começo agradecendo por ter apontado isso. =D (No caso vai ser um dragão de komodo, mas acho que serve, né? Répteis são todos uns lindos <3) ACREDITE, ESSES DANADOS TAMBÉM ME ENGANARAM! Quando eu escrevi a 3a versão dessa história (que tinha 100k de palavra), era pra ser uma história bem normalzinha de Distopia e Fuga™, quase um John Green com X-Men, mas fui cavucando os segredinhos desses dois até chegar nesse ponto aí da volta no tempo, que é um dos conceitos que eu mais adoro e vejo sendo tão mal aproveitado que me deixa bem frustrado. Se depois você quiser repetir esse sentimento de WHATAHELL IS GOING ON eu recomendo esse filme aqui: O Predestinado (2014), com o Ethan Hawke, o filme é bom pra cacete e ainda te dá um nó no cérebro. A biologia eu realmente tentei embasar no máximo de ciência concreta possível, porque se fosse pra inventar um elemento X maluco eu ia me embananar e ia sair algo tosco, acho que acertei pelos comentários que estão fazendo aqui (que alívio kkkkk). Grato sou eu por ter merecido um comentário desse, minha jovem, vou até dormir mais feliz! =) Sept. 9, 2018, 5:37 p.m.
LiNest LiNest
Ok, OK COMO COMEÇAR ESSE COMENTÁRIO? TALVEZ PERGUNTANDO QUE PORRA FOI ESSA? MEU DEUS DOS OLHOS AZUIS, EU TO CHOCADA! Primeiro, que universo FODA que vc criou, não apenas extremamente interessante, mas muito bem estruturado, simples de entender, mas ainda muito misterioso e fascinante. Tem TANTA coisa que eu quero ver nesse universo, mas TANTA, que eu to seriamente pensando em fazer um abaixo assinado exigindo uma série de livros. EU SÓ QUERO MAIS, POR FAVOR! Seus personagens? Incriveis demais, a Priscila é tão sagaz e sem papas na língua, mas ainda é uma criança e dá pra ver a vulnerabilidade nela, especialmente nas cenas dos sonhos. O pai dela realmente me cativou, eu me apeguei à ele, mas tmb fiquei com um pé atrás por medo das verdadeiras intenções dele sabe? No final eu só quis cobrir ele num cobertor e abraçar. A doutora? Uma grandissisema filha da puta mesmo, e pensar que eu torci por essa vaca! Mas sério, que cartela maravilhosa de personagens, gente, vc deu personalidade para cada um, mesmo os mais secundários como a mulher-tamanduá (poxa mano, eu só não odeio ela porque tamanduá é meu animal favorito na fauna BR) e eu só quero maus deles ok? Segundo A AMBIENTAÇÃO! GENTE EU TO BOQUIABERTA COM O TRABALHO QUE VC FEZ AQUI! Perfeita, apenas perfeita, eu já quis ler por se passar no Brasil, mas a forma como vc adaptou tudo e ainda ficou crível, real, é apenas fenomenal, eu consegui imaginar o Brasil nessa nova realidade e deuses que fascinante, eu to muito apaixonada por esse seu mundo. Sua forma de escrever ajuda muito tmb nessa imersão, eu simplesmente não consegui parar até chegar no final, tive até que parar de ouvir música (um hábito meu ao ler) porque eu precisava focar 100% na tua narrativa de tão avassaladora que ela é, a tensão foi tão palpavel que dá pra cortar com uma faca. Eu fiquei realmente sem fôlego, especialmente perto do final quando as coisas vão se revelando e GENTE... MEU DEUS QUE REVELAÇÃO FOI ESSA! ALGUÉM PARA O MUNDO QUE EU QUERO DESCER DEPOIS DESSE CLIFFHANGER PORQUE PQP! Sério, eu ainda não sei o que sentir, eu to apenas tão abalada com tudo. Eu tive mesmo que reler apenas porque eu fiquei em estado de negação ao descobrir que era tudo um looping temporal bizarro, e sabe o que é pior? Que durante a releitura eu me esqueci do final e fiquei chocada pela segunda vez kkkkkk deuses, incrivel, só incrivel define o que vc criou aqui. Nem posso acreditar que um escritor tão talentoso como vc gostou de algo que eu escrevi, porque essa história tua? Puro ouro, de verdade. Cada detalhe, cada dialogo, a ambientação, as explicações, OS PERSONAGENS; ouro ouro ouro! Vc ganhou uma leitora fiel com essa obra de arte, amei DEMAIS! Parabéns, sério, incrivel trabalho <3333
Sept. 8, 2018, 4:42 p.m.

  • LiNest LiNest
    P.s: vc citou Gattaca, que sem dúvida permeia a obra toda, mas eu tmb me lembrei de Parasite Eve, Admiravel Mundo Novo e de A Revolução dos Bichos lendo Ouroboros, talvez não tenha nada haver, mas quis comentar ^-^ Sept. 8, 2018, 4:46 p.m.
  • Zen Jacob Zen Jacob
    Meu deus, quase fiz aqui um sumário pra poder começar a responder seu comentário huahuahuahu Vamos lá: Fico muito feliz que tenha gostado da história e se empolgado com ela! Eu já tenho outras histórias planejadas pra esse mesmo universo, tanto envolvendo a Priscilla e o pai dela quanto envolvendo outros personagens, então pode ficar relaxada com relação a isso. Eu adoro muito eles dois, e pretendo abordar melhor a dinâmica da relação deles em outras histórias, já que apesar de 10k de palavras ser bastante coisa, é complicado desenvolver profundamente todos os aspectos sem acabar ultrapassando esse limite. Entendo você ter ficado com o pé atrás com ele, acho que acaba sendo meio suspeito no início, principalmente por ser caladão e "frio". A doutora foi imaginada a princípio pra ser realmente mãe dela, mas eu quis mudar e fazer uma vilã mais cretina, até porque quase não vejo vilãs realmente legais nos materiais que leio. A mulher-tamanduá é uma das figurantes que eu mais gosto pelo fato de ela ter uma participação rápida, mas que demonstra bastante como essa sociedade em que eles vivem é escrota e preconceituosa - a princípio ela ia ser uma lobo-guará, mas deixei como tamanduá porque acho que eles são mais fofinhos, e não espero coisas babacas vindas deles, maybe? :v Tô satisfeito que você tenha ficado em negação, porque até eu fiquei quando estava escrevendo a 3a versão dessa história (essa é a 5a). hauuhauhauhauha Eu tentei tornar a minha ciência o mais hard possível porque não sou muito bom inventando conceitos novos, acho mais fácil estudar os que já existem e aí deformá-los de acordo com o meu bel-prazer. No caso da explicação final que a doutora dá, praticamente toda a ciência está de acordo com a nossa ciência atual (eu acho?), só a parte de o pessoal sobreviver a alelos letais que é mentira - porque né, letais... :v Poxa, eu realmente adorei a sua história, não duvide do seu potencial em trabalhar outros contos ou até séries baseadas naquele universo, até porque aprofundando mais as referências que você usou ali dá pra resultar em outras obras mais fantásticas ainda! Escritor talentoso? Nossa, quem me dera... Quase chorei lendo seu comentário! Ainda me considero muito amador, mas ver alguém se empolgando assim e gostando tanto da história faz eu me sentir muito animado em dar andamento com os meus projetos, por isso meu muitíssimo obrigado à senhorita. =) PS.: Nunca tinha ouvido falar de Parasite Eve, depois vou procurar mais sobre a história, talvez até jogue, apesar de eu ser meio pereba jogando. :v Admirável Mundo Novo e A Revolução dos Bichos, infelizmente, ainda não pude ler. Acho que o único livro distópico "clássico" nessa linha que eu li foi o "Nós" do Zamiátin, que dizem ter influenciado "1984", que por sua vez influenciou todo o resto, então pode ter sido daí que você reconheceu traços. Sept. 9, 2018, 5:18 p.m.
Karimy Karimy
Oie! Gostei muito da história, principalmente da relação pai e filha. Desde o começo gostei e confiei bastante nele, talvez até por entender que, muitas vezes, uma criança/adolescente costuma ter ressentimentos de pessoas mais velhas que "traçam" caminhos diferentes daquilo que ela quer. Também foi muito legal perceber o choque dela pela realidade, pela descoberta da mãe, do que seu nome representava, assim como que tudo o que o pai havia feito até então tinha sido única e exclusivamente para protegê-la. Achei bastante interessante essa visão de um mundo misto que a história trás, me fez lembrar de uma brincadeira que meus irmãos e eu fazíamos quando erámos pequenos, em que podíamos nos imaginar metade humanos, metade animais! rsrsrsrs A Priscila possui um poder e tanto! Imagino eu como seria se ela e o pai conseguissem se reafirmar em suas habilidades, controlando-as plenamente. Isso, sim, poderia ser letal! :)
Aug. 28, 2018, 8:23 p.m.

  • Zen Jacob Zen Jacob
    Olá! =) Eu também gosto muito da relação entre a Priscilla e o pai dela, a dinâmica dos dois me agrada bastante justamente pelo contraste dos pensamentos e tudo mais. Acho que você conseguiu pescar bem a matriz da personalidade da Priscilla, essa coisa adolescente de "eu não confio em ninguém"/"sou totalmente autossuficiente" e ainda assim é uma pessoa frágil que precisa de proteção. Quando eu era criança não tinha muita imaginação pra pensar nesse tipo de coisa, e costumava brincar sozinho, mas eu lembro que adorava escrever os roteiros de filmes que passavam na Sessão da Tarde e cujos protagonistas eram bichos, acho que deve ter sido daí que nasceu meu lado furry. uhahuahaahuha Siiim, eles têm uns poderes bem overpower se conseguirem controlar, eu pretendo escrever e postar outras histórias que envolvam eles no futuro, se não acabar largando de mão (como quase tudo o que eu faço :v). Agradeço por comentar e fico muito feliz que tenha gostado da história! =D Aug. 28, 2018, 9:43 p.m.
Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
MANO PARA TUDO PARA O >MUNDO< PORQUE EU TAVA SUPER NA BAD E VI QUE TU POSTOU ESSA MARAVILHA. Não que tua história não tenha me deixado na Bad, PORQUE ELA ME DEIXOU SIM SENHOR. Aliás, é incrível como você consegue fazer as pessoas darem gargalhadas (sim, eu tava BERRANDO de rir enquanto eu lia, até assustei o Celso porque ele pensou em falar e eu comecei a rir que nem idiota) e, no segundo seguinte, criar uma tensão tão PESADA que você simplesmente não consegue desviar os olhos das palavras, porque elas parecem que vão te ENGOLIR e tudo vai simplesmente EXPLODIR em tantos pedaços que seria impossível reconhecer que alguma coisa se formava ali antes. Eu lembro da Prisca do seu livro, um pedaço que li há muito tempo. E, nossa, eu ADORO essa história. E eu digo que eu adoro ainda mais por conta desse conto, porque ele deu um mindblow que eu fiquei "MINHA NOSSA SENHORA MAS COMO". Acho que passei a amar ainda mais ela e o pai dela. Eu, particularmente, não gosto de time travel, principalmente porque meu ex era vidrado nisso e o jeito que ele falava do assunto me enojava. MAS PUTA MERDA OLHA O QUE TU FEZ AQUI. É um time travel, mas ao mesmo tempo não se tem controle ALGUM do time travel e, mesmo que você eventualmente queira mudar as coisas, você NÃO PODE PORQUE SEU CONTROLE DISSO É NULO. Claro que a Prisca pode chegar a controlar isso, mas não tão cedo, acredito. Mesmo assim é... MANO SEI LÁ É MUITO LOUCO. E o pai dela, nomeando ela pela mãe... É lindo e ao mesmo tempo triste, porque ele vê nela a esperança, ao mesmo tempo que vê nela uma semelhança da mãe... sei lá. É lindo e triste. E MANO EU DEVO SER ABERRANTE DE IDIOTA, PORQUE EU RIA COM UMAS COISAS TÃO IMBECIS. Tipo o tapete que vomitado ia ser mais bonito. Ou a mulher tamanduá que tinha um focinho que parecia um pênis flácido que se movia como uma tênia enquanto RIA. MANO EU BERREI MUUUUUUITO NESSA PARTE. E, ah, sua referência ao Pernalonga com os homem-coelho. Eu fiquei "nossa que ridículo. Quero dois". SÉRIO PORQUE FOI GENIAL AO MESMO TEMPO QUE FOI "AFFE". Ah, enfim, sei lá o que dizer mais, eu te amo e amo seus textos e POR FAVOR FAZ MAIS PORQUE TÁ POUCO. Also, obrigada por me deixar fazer a capa <3 Fiquei MUITO FELIZ COM ISSO SÉRIO EU ME ESFORCEI BASTANTE. E fiquei feliz que você tenha gostado AAAAAA. E fui a primeira a comentar nem vem que não tem u.u 2bj
Aug. 28, 2018, 2:08 a.m.

  • Zen Jacob Zen Jacob
    Estou aqui pra te fazer sofrer, se fosse pra fazer feliz eu não tava aí fazendo escola com Stephen King, né non??? :v Brincadeira, eu até que gosto de escrever uns negócios engraçados às vezes, mas tu sabe que meu bagulho é sofrimento. Cara, eu adoro time travel, mas se eu já sou uma pessoa insuportável com coisas padrão, com coisas que eu amo eu me torno dezenas de vezes pior; o resultado é que eu dificilmente encontro histórias que envolvam time travel e que eu goste genuinamente, sabe? Entendo o seu lance com aquele que não deve ser nomeado, mas se um dia tu superar isso recomendo muito um filme chamado "O Predestinado" (2014), puta filmaço, me deixou tão de queixo caído que eu assisti duas vezes e considero um dos meus filmes favoritos. Sobre essa parada dos poderes que não dá pra controlar: eu lembrei da série Legion contigo falando disso. É bem interessante também, mas como sei que tu não é muito de ver série, depois posso marcar um dia só pra ficar te falando sobre as coisas que acontecem nela e como são sem noção. :v Nossa, o pai dela é muito amorzinho (e dilf também, tbh :v), eu quero crescer e ser uma pessoa com metade da integridade, dignidade e força que ele tem, porque a vida foi uma filha da put@ pra ele desde que ele nasceu, basicamente (mas isso é outra história). Eu juro que coloquei as referências engraçadas pensando "ninguém vai rir dessa porra... exceto a Yuui". :v huhahuauha Nah, zoa, mas fico feliz que você tenha gostado, eu não confio muito no meu taco pra escrever humor, se você aprovou, então que teje aprovado. E mano do céu, acho que consegui responder o principal do seu comentário WHY SO LONG YUUI WHY SO LONG AAAAA Muito obrigado pelo comentário (e pela capa, vou te agradecer até o Ragnarök), hime! <3 <3 <3 Aug. 28, 2018, 9:12 p.m.
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