Highway to Hell Follow story

themonia Jordana Trindade

Amandine e os integrantes da Nightmare Warriors não imaginavam que um aparentemente inofensivo jogo de verdade ou desafio os faria se envolver em um ritual ocultista macabro, que faz alavancar a carreira da banda rumo ao estrelato. Contudo, as forças das trevas não gostam de ser perturbadas e não descansarão até terem o seu devido retorno. Afinal, toda fama tem seu preço.


Thriller/Mistery Not for children under 13.

#terror #lgbt+ #ocultismo #punk
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Capítulo I – Verdade ou desafio?

Aviso: Este capítulo contém linguagem imprópria e cenas sexistas que podem causar desconforto.


Olho para o guardanapo maculado de gordura em minhas mãos. O endereço do armazém está úmido e quase ilegível. Demoro algum tempo para decifrá-lo.


— Glenmont, n° 1097 — sibilo, a voz entrecortada pelas lufadas de vento.


Limpo o suor da testa e esquadrinho as casas ao redor. Abafo um grunhido de frustração ao perceber que estou algumas quadras distante do meu destino. Enfio novamente o guardanapo no bolso de meus jeans rasgados e volto a colocar os pés nos pedais da bicicleta. Com um esforço extra e o lado direito do quadril travado, recomeço o trajeto. O som pesado da guitarra zune em meus ouvidos, o som no último volume. Minha mãe costumava protestar sobre o meu uso frequente dos fones de ouvido, desde o dia em que ouvira uma matéria sobre os seus perigos — o que incluía perda auditiva. Não dou a mínima. Gosto de bloquear os sons externos, sobretudo quando isso inclui possíveis tentativas de socialização. É a minha maneira particular de evasão da realidade.


Me arrisco em uma cantoria em meio às distorções da Gibson SG de Tommy Iommi, acompanhada pela voz nasalada de Ozzy Osbourne.


Follow me now, and you will not regret
Leaving the life you led before we met
You are the first to have this love of mine
Forever with me 'till the end of time.


O trecho de asfalto acaba e, de repente, adentro uma estrada de terra ladeada por milharais. Minha bicicleta trepida com as irregularidades da superfície, e tenho de retesar as mãos sobre o guidão para manter o controle. O arrependimento começa a se abater sobre mim. O sol timidamente se esconde no horizonte. Não demorará até que a escuridão se abata, o que tornará o trajeto praticamente impossível. Franzo os lábios, tentando me concentrar no que precisa ser feito.


Onde diabos eu vim me meter?


Contudo, antes que eu tenha a oportunidade de praguejar ainda mais, avisto algo. Não há muitas placas de sinalização neste trecho, mas tenho certeza de que estou seguindo o caminho certo. Ao longe, vislumbro uma estrutura que se sobressai em comparação às casas. Não pela sua imponência, mas por ser uma verdadeira espelunca. É um ambiente decrépito, que parece prestes a desabar com uma simples brisa. Beatrice mencionou se tratar de uma construção antiga quando me passara o endereço do armazém. Contudo, não imaginei que estivesse literalmente caindo aos pedaços.


Guio a bicicleta para dentro dos portões de ferro, franzindo o nariz. De perto, o recinto é ainda pior.


Sou recebida por um garoto com cabelos ruivos na altura dos ombros e marcas de acne nas bochechas. Tiro os fones de ouvido e o cumprimento com um aceno de cabeça. Ele se oferece para pegar minha bicicleta e a acomoda em um pequeno espaço próximo à van da banda. Em uma das portas, há o logotipo Nightmare Warriors grafado em letras estilizadas.


— Você deve ser a famigerada Amandine, certo? — pergunta o ruivo, afagando nervosamente a nuca com as mãos.


— Sim e não.


Uma expressão atônita esculpe a fisionomia do garoto. Exibo um sorriso sem dentes.


— Sou Amandine, mas famigerada é novidade para mim.


— Então você deveria rever seus conceitos. Beatrice só fala de você há semanas. A pobrezinha já estava perdendo as esperanças de que você viesse assistir ao ensaio. — O ruivo desfere tapinhas entre minhas omoplatas, um sorriso sugestivo começando a tomar forma nos lábios salpicados por sardas.


— Eu estava sendo mantida em cárcere privado nas últimas semanas. Trabalhos, provas finais, sabe como é... Quase não via a luz do dia.


— Ah. — É tudo o que recebo em resposta. — A propósito, meu nome é Callum. Sou o vocalista do Nightmare.


— Olá, Callum — murmuro por fim, enquanto adentramos a espelunca.


O armazém é um ambiente deplorável, cujas paredes frágeis uivam com o vento. Um gerador alimenta uma lâmpada amarelada que pende precariamente do teto e uma TV com sinal péssimo. Seus zumbidos se mesclam aos riffs agressivos da guitarra que saem do amplificador, de modo que, após um tempo, ambos fazem parte da melodia. Há alguns sofás puídos distribuídos pelo recinto e inúmeros pôsteres atulhando as paredes. Ao centro, há um tapete e, sobre ele, caixas de pizza mordiscadas pela metade, uma vasilha com batata chips que transborda, deixando um rastro de migalhas pelo chão. Há, também, uma caixa de isopor ao lado do sofá. Callum, antes que eu possa perceber, está jogado sobre o tapete e puxa uma lata de cerveja de dentro do isopor. Os outros três integrantes da banda estão repassando o som. Entre eles, Beatrice, que aperta as tarraxas de sua Fender Stratocaster azul-marinho. A garota vislumbra a movimentação do recinto e levanta os olhos, antes compenetrados no trabalho, e seu rosto imediatamente se ilumina.


— Você veio!


Beatrice larga a guitarra de qualquer jeito sobre o suporte e corre para mim, me envolvendo em um abraço que me faz cambalear alguns passos.


— Quem é vivo sempre aparece — balbucio enquanto a garota passa os braços ao redor dos meus ombros.


Beatrice tem um queixo anguloso, maxilares levemente cerrados, olhos de um castanho comum, nariz arrebitado e lábios pequenos, com resquícios de batom vermelho acumulado nas extremidades. Usa maquiagem preta pesada ao redor dos olhos, alargadores nas orelhas e o cabelo curto – agora tingido de vermelho – se mostra imponente em um moicano. Ela sorri e aponta para a minha camiseta, estampada com o logotipo do Black Sabbath, provavelmente dois números maiores.


— Você gosta?


— É, sem dúvida, uma das minhas bandas favoritas — digo com convicção, embora minha voz não passe de um sibilo abafado.


— Os caras são os pais do heavy metal. É impossível não gostar. Qual é a sua música preferida?


— N.I.B., eu acho. Inclusive, estava ouvindo no caminho para cá. Gosto do trabalho do Geezer com o baixo.


— Sábia escolha. O demônio que se apaixona por uma humana. — Beatrice aperta ainda mais os braços em volta de mim, de modo que seus lábios fiquem pressionados em minha orelha e sua voz se transforme em um sussurro rouco. — Eu posso me arriscar e tocá-la para você depois, se quiser.


— Certo — respondo rapidamente, sentindo as bochechas pinicarem com a respiração dela em meu pescoço.


Callum pede que nos juntemos a ele com um aceno. O baixista está sentado com as pernas esticadas ao seu lado em um dos sofás e os dois conversam amistosamente enquanto dividem as batatas chips. A música já havia parado totalmente, e todos começavam a se enroscar naquela espécie de área de descanso. Mal tenho tempo de assentir antes que Beatrice me puxe pela mão, levando-nos na direção dos demais integrantes. A garota parece efusiva, prestes a explodir em fagulhas, tal como fogos de artifício. Minha presença ilustre parece exercer algum efeito sobre ela, e quase não consigo acompanhar o seu ritmo.


— Ouvi dizer que a grana lá é alta! — diz o baixista, quando chegamos. Ele está com uma lata de cerveja nas mãos, eventualmente dando alguns goles.


— Sabe que eu não toco por dinheiro — Callum murmura baixinho, esquadrinhando os all star gastos.


— Qual é, cara? Esse show pode elevar o Nightmare a outro patamar. Há um sério risco de conseguirmos contrato com alguma gravadora.


— Você sabe o que aconteceu lá. — A expressão de Callum é sombria quando ele levanta os olhos para fitá-lo. — E sei que não sou forte o bastante. Não tenho estômago para enfrentar meus demônios novamente.


O silêncio recai sobre o ambiente como uma névoa intangível. De repente, é como se um iceberg tivesse se colocado entre eles. Callum balança a cabeça em discordância, resoluto. O baixista grunhe, visivelmente insatisfeito. Seja qual for o motivo da discussão, há claramente uma nota de discórdia, e nenhuma das partes parece querer ceder.


Callum apanha um maço de cigarros do bolso da camisa de flanela e aninha um entre os lábios, taciturno.


— Não sabia que teríamos espectadores para hoje — interrompe um garoto de cabelos crespos desgrenhados enquanto caminha na nossa direção, girando as baquetas entre os dedos. Sua presença ao menos ajuda a atenuar a tensão do ambiente. — Quem é a sua namorada, Beatrice?


— Matthew e seu velho hábito de fazer comentários inconvenientes. — Beatrice revira os olhos e desfere um soco de brincadeira no ombro do garoto. — Amandine é apenas uma amiga, ok?!


— Amandine? A garota do terceiro ano da East Bretton High? — Matthew me avalia dos pés à cabeça com uma expressão no mínimo surpresa. Balanço a cabeça em concordância. — Você não devia estar na escola ou algo assim? — o garoto indaga com aparente desdém e arqueia uma das sobrancelhas no ato.


— É feriado — respondo com obviedade, um pouco contrafeita.


O fato de ser uma garota e ainda estar no colegial sempre aparecia como justificativa para tentarem me sacanear. Contudo, dessa vez Matthew apenas dá de ombros e acomoda atrás da orelha um cacho desalinhado que caía sobre os olhos.


— Bem, só não imaginei que curtisse esse tipo de coisa.


— Eu tenho muitos segredos guardados na manga — deposito as mãos sobre a cintura, tentando parecer durona, o que apenas provoca uma explosão de risos do grupo.


— Aposto que Beatrice adoraria desvendar os seus mistérios. — Matthew lança uma piscadela na direção da garota, que enterra a cabeça nas mãos.


Caralho, Matthew, você realmente se supera na arte de ser um cuzão. — intervém o baixista. Matthew exibe os dois dedos médios para ele. Beatrice abafa um sorriso. Em seguida, o baixista volta suas atenções para mim. Seus olhos são escuros como ébano, e há uma pequena cicatriz sobre a sobrancelha, deixando um rastro sem pelos. — Nos perdoe por esse saco de merda, novata. Em breve você se acostuma.


Uma rápida pausa e Matthew lança-se sobre ele. Os dois vão ao chão com um baque surdo. O baixista se debate sob o corpo musculoso do outro, que desfere uma série de socos em seu abdômen. De início, tenho um sobressalto, mas quando noto o semblante entusiasmado e burlesco dos garotos, isso me ajuda a relaxar.


— Filho da puta! — resmunga o baixista, envolvendo a cintura do oponente com as pernas. O corpo de Matthew tomba para o lado e o outro assume o controle. Seus pés acidentalmente golpeiam a vasilha de batatas chips e ela se parte ao meio, cobrindo o chão de migalhas.


— Ei, crianças, é melhor segurarem a onda antes que essa espelunca venha abaixo de uma vez — argumenta Beatrice, que é deliberadamente ignorada. A garota grunhe e agarra meus ombros mais uma vez, deixando de lado a confusão de corpos que transbordam energia e testosterona. Observo aquela desordem no momento exato em que Matthew recebe um golpe na virilha e urra em protesto. Tenho de mordiscar o lábio para não rir. — Aceita uma cerveja? Isso ajuda a acalmar os ânimos.


— Com certeza. Uma cerveja é tudo o que preciso no momento.


Beatrice assente e pesca duas latas molhadas e tinindo de dentro do isopor. Ela arremessa uma delas na minha direção e eu a apanho no ar. Rompo o lacre e ouço o chiado característico. Posso idealizar o gosto antes mesmo de levar a bebida aos lábios.


— Como foi que encontraram esse lugar? — pergunto a Beatrice enquanto me recosto no braço do sofá.


— Essa pocilga aqui é obra do Tyler. — A garota gesticula com a cabeça para o baixista, que agora está com os dedos firmemente pressionados ao redor do pescoço de Matthew. — Ele o achou enquanto perambulava de moto pela cidade e então nos infiltramos. Simples assim! É claro que, quando chegamos, a fiação elétrica desse lugar já tinha ido pro saco há muito tempo. Então, tivemos um trabalhinho extra com uma porrada de fios e cabos. Depois, só trouxemos nossos equipamentos. Ah, e os móveis foram alguns mimos que encontramos no porão da casa do Callum.


— É um lugar bastante... peculiar.


Beatrice me dá um empurrão com o ombro.


— Ora, Amandine, não seja modesta. Esse lugar é um verdadeiro covil. É tipo a casa de palha dos Três Porquinhos. Uma ventania já seria o bastante para fazer tudo isso ruir. — Beatrice ri da própria piada, dando um gole generoso na lata de cerveja. — Mas, de qualquer forma, é o nosso cantinho. Dá pro gasto.


Ofereço-lhe um meio sorriso, esquadrinhando os pôsteres na parede oposta, um amontoado de roupas rasgadas, penteados chamativos, adereços pesados e símbolos anarquistas. Beberico a cerveja, soltando o ar dos pulmões.


— Me perdoe se isso for algo estritamente pessoal, mas o que houve com Callum?


— A que você está se referindo, exatamente?


Beatrice está com a cabeça abaixada, a atenção voltada para o pedaço de goma de mascar preso na sola de seu coturno.


— Aquele papo esquisito com o baixista sobre “enfrentar seus demônios”.


— Ah, isso. É uma história complicada. — O silêncio se prolonga pelo que parecem horas, e por um momento imagino que a conversa havia sido findada ali, até Beatrice erguer o rosto em minha direção, suas íris castanhas me devorando com intensidade. — Antes de entrar para a Nightmare Warriors, Callum fazia covers com Gabriel, o irmão mais velho. Há uns quatro anos, eles foram convidados para uma apresentação no The Trax, o clube ao qual Tyler se referia. Coisa grande, sabe? No meio do show, alguns caras estúpidos se desentenderam por motivos igualmente estúpidos e Gabriel acabou levando a pior. — Beatrice suspira. — Uma bala perdida atravessou de um lado a outro do seu crânio. Callum assistiu tudo acontecer. Foram meses de tratamento para que o garoto ao menos se levantasse da cama.


Meu peito se aperta com a lugubridade dos fatos. Fico remoendo a voz soturna de Beatrice, compenetrada em sua narrativa, enquanto observo Callum, que agora se diverte com a troca de chutes e socos à sua frente, a morte do irmão apenas uma memória distante.


— Agora entendo o porquê de tamanha relutância. — Minhas palavras eram um poço de melancolia. — Sinto muito.


— Todos sentimos. Que tipo de mundo permite que coisas como essas aconteçam?


Um rugido oco se faz audível ao longe, impedindo que eu murmure algo em resposta. Matthew e Tyler param de desferir golpes mútuos e todos do grupo levantam suas cabeças, tentando espreitar a origem do som pela janela. Um sujeito estaciona sua Honda ao lado da van. O farol da moto lança uma centelha de luz fria em meio ao breu e é possível discernir partículas de poeira rodopiando no ar. Seu rosto está disfarçado por um capacete e, apesar do calor úmido que parece se aderir à pele, ele traja uma pesada jaqueta de couro repleta de rebites.


Matthew imediatamente se levanta, afaga as roupas amassadas e corre para a entrada. O sujeito do lado de fora desce da moto e levanta a trava com a bota. Em seguida, tira o capacete e o deposita sobre o guidão, revelando um rosto austero e perfurado por piercings. Seus traços são ligeiramente asiáticos. Ele e Matthew trocam cumprimentos e, então, adentram o recinto. As pegadas do sujeito reverberam pelo ambiente, e não preciso estar próxima o suficiente para identificar um odor acre e pungente.


Vislumbro pelo canto dos olhos quando Beatrice agarra o braço de Tyler e murmura em seu ouvido:


— Por que o Matthew insiste em comprar erva desse tal de Qiang? Esse cara é um porre!


Tyler balbucia algo em resposta, mas já não sou capaz de ouvi-lo.


— A encomenda chegou, pessoal! — anuncia o baterista de maneira efusiva, todo sorrisos e álcool.


— E dessa vez a erva é das boas, isso eu posso garantir — completa Qiang, seus olhos fazendo uma varredura completa pelo recinto. Quando param em Beatrice, o sujeito joga um beijo no ar com a mão espalmada. A garota instintivamente vira o rosto para o lado, enojada demais para encará-lo.


Todos do grupo se aglomeram ao redor de Qiang como pombos em busca de migalhas de pão. Menos Beatrice, que não se move um centímetro, os braços cruzados sobre o peito. O sujeito imediatamente percebe a reação da garota e seus lábios se moldam em um sorriso ardiloso. O que quer que estivesse rolando ali não parecia nada amistoso.


— Ei, princesa. — Qiang se estica para observá-la por sobre as cabeças dos rapazes. — Não quer vir ver o que eu tenho a oferecer?


— Não, obrigada — Beatrice responde secamente, evitando fazer quaisquer tipos de contato visual. — Não estou interessada.


Qiang passa a língua por entre os lábios e volta suas atenções para o agrupamento à sua frente. O sujeito apanha a mochila que antes jazia sobre as costas e tira alguns saquinhos plásticos de dentro dela, preenchidos pelo que pareciam tufos esverdeados. Entusiasticamente, Matthew abre um dos pacotes e enfia o nariz dentro dele, inspirando profundamente. Em seguida, projeta a cabeça para trás e emite um gemido de puro êxtase.


— Puta merda! Essa é das boas. Alguém me arranja seda e um isqueiro, rápido!


— Por que a pressa, amigão? — repreende Qiang enquanto suspende o saquinho de maconha no ar, mantendo-o longe do alcance de Matthew. — E o meu dinheiro?


— Eu não esqueci disso, ok!? — O baterista revira os olhos. — Quanto estou te devendo?


— Cento e setenta e cinco pratas.


— O quê? Você só pode estar de sacanagem!


— Eu avisei a você, cara, essa erva aqui é de qualidade. Eu me ferrei para consegui-la.


Matthew esfrega os olhos com o polegar e o indicador, ponderando por um instante.


— Tá, que seja! — O garoto, por fim, sentencia, revirando os bolsos e recolhendo um maço de notas. Conta uma por uma antes de depositá-las sobre a mão espalmada de Qiang, que empunha as notas com força, resoluto.


Matthew, Callum e Tyler caminham alegremente e se aninham de forma displicente no sofá, avaliando o material de seu pacote contra a luz. Enquanto isso, Qiang prepara seu baseado, usando os dedos para enrolar a seda para frente e para trás até que o conteúdo esteja cilíndrico e igualmente distribuído. Em seguida, leva-o aos lábios. Com um isqueiro em mãos, ele acende o baseado sem esforço e solta uma baforada que empesteia o ar. Beatrice sustenta um olhar mortal sobre Qiang durante todo o processo.


— Você não vai embora não? — pergunta a garota, os dedos tamborilando com impaciência sobre o antebraço.


— Eu? É claro que não! Meu acordo com Matthew é que eu ficaria para vê-los tocar.


Beatrice vira-se na direção do baterista com os punhos cerrados e uma expressão acusatória, mas o garoto está ocupado demais com seu baseado para notá-la.


— Eu me recuso a tocar com você aqui — Beatrice afirma com veemência, o dedo em riste apontado para o rosto de Qiang.


— Tudo bem, princesa. Nós podemos fazer uma noite dos jogos e deixamos o ensaio para outro dia. Talvez algumas festividades noturnas possam ajudar a desestressá-la.


O maxilar de Beatrice enrijece. Qiang a observa de esguelha, parecendo despi-la com os olhos. Sinto-me ultrajada. Ver Beatrice naquela posição, sendo tomada não como um corpo, mas como um objeto de desejo – sujeito a ser violado e fetichizado –, ou um pedaço de carne em um açougue, faz com que o sangue fervilhe em minhas veias. Engulo em seco e deixo escapar um suspiro incrédulo. Qiang imediatamente dirige o olhar para mim.


— Oh, quanta distração a minha. Nem percebi que havia carne nova no pedaço. Como se chama?


Enrubesço. Há algo naquela expressão, naquele sorriso lascivo que emoldura seu rosto, que faz com que as palavras sumam dos meus lábios, mas Beatrice toma as rédeas da situação.


— Não interessa, dá o fora daqui!


— Que falta de hospitalidade. — O sujeito dá um trago vigoroso no baseado e solta a fumaça pelas narinas. — O que está olhando? — pergunta para mim. — Quer experimentar?


— Não, eu... não fumo. — Minha voz não passa de burburinho entrecortado. Sinto-me patética.


— Ah, qual é? Vai perder a oportunidade de provar a melhor maconha da América do Norte?


— Não, é sério. Estou bem.


— Vamos, querida. — Qiang sustenta o baseado entre o dedo médio e o indicador, estendendo-o para mim. — Só um tapinha não faz mal a ninguém.


— Ela já disse que não — intervém Beatrice. Seus ombros sobem e descem com a respiração pesada.


Callum percebe a tensão no ambiente e desperta de seu estupor. Ele entrega o baseado para Tyler e caminha em nossa direção. Casualmente, o garoto deposita o braço sobre os ombros de Beatrice e exibe um sorriso despretensioso e cheio de dentes, um sorriso de negócios, buscando parecer amigável.


— Ei, pessoal, por que não se juntam a nós? Ainda tem muita cerveja dentro do isopor, e com certeza essas garrafas não vão se esvaziar sozinhas.


— É pra já! — Qiang dá um trago final em seu baseado e esfrega as palmas das mãos, entusiasmado. — Eu tenho muitos planos para essa noite.


...


O cheiro forte e adocicado da maconha me infecta, parecendo se instalar nos sulcos dos meus pulmões e no meu cérebro. Todo o ambiente parece estar absorto em uma aura de letargia. Com exceção de Beatrice, que está tempestuosa. Seus lábios estão apertados em uma linha fina, e é quase como se eu pudesse ouvir seus dentes rilhando. Seu moicano, antes impecável e sustentado com uma generosa camada de gel, agora parece eriçado. Há uma garrafa de cerveja já quente agarrada firmemente entre seus dedos, e percebo que as juntas estão esbranquiçadas. Beatrice está a ponto de explodir.


Todos estão sentados em roda, com as pernas cruzadas sobre o tapete. Matthew se estica para surrupiar seu quarto pedaço de pizza – já fria e endurecida –, insaciável. Tyler dedilha uma melodia do Sex Pistols na Fender azul-marinho de Beatrice, o compasso da música um pouco mais lento que o habitual. Qiang limpa a sujeira que havia se depositado sob as unhas. Embora seu corpo esteja em uma posição descontraída, todos os seus membros estão retesados, repousando em um ângulo tenso.


Todos estão em silêncio, e as únicas palavras que ecoam no recinto saem da TV, mais precisamente dos lábios de uma jornalista que faz a cobertura de um acidente de avião que havia ocorrido naquela noite em uma transmissão ao vivo. Sua voz mecânica se mescla aos chiados do aparelho televisor.


O ambiente está imerso na penumbra, de modo que os rostos de todos apresentem contornos escurecidos. Há apenas a luz diáfana – provida de um tom amarelo leitoso – da lâmpada que pende sobre nossas cabeças. Moscas zunem e rodopiam ao redor dela, atraídas pela claridade.


— Muito bem, pessoal — Qiang rompe o silêncio, trazendo uma garrafa para o centro da roda. — Que tal brincarmos um pouquinho?


— Quer merda é essa, cara? Jogo da garrafa? — diz Tyler enquanto recosta a guitarra no braço do sofá. Sua fala está ligeiramente arrastada e ele articula as palavras com dificuldade. — Me desculpe, mas não quero correr o risco de beijar a boca de nenhum desses idiotas aqui.


— Não, imbecil. Eu estava pensando em algo como Verdade ou Desafio.


— Que ótimo. Agora posso acabar lambendo a bunda de alguém — rebate Tyler, irritado.


— Relaxa, cara — responde Qiang, incapaz de conter o riso. — Se não quiser fazer o que foi proposto, é só sair do jogo.


— Não jogo isso desde que eu tinha, sei lá... dez anos. Não dá pra gente fazer outra coisa? — sugere Callum.


— Achei que pudesse ser divertido. Vamos lá, é um bom jeito de começar a noite. Pelo menos uma rodada? — O sujeito arqueia uma das sobrancelhas, na expectativa.


— Ok, tanto faz. Eu estou dentro — sentencia Tyler, pegando a garrafa do centro da roda. — O fundo da garrafa aponta para quem pergunta e o gargalo, para quem responde. Eu começo girando.


— Eu estou fora — murmura Beatrice, secamente.


— Qual é, Tris? Não seja rabugenta — zomba Matthew, afagando o ombro da garota. Ela estreita os olhos para ele, o que o faz afastar a mão imediatamente, como se tivesse encostado em uma panela fervente. — É só um jogo. Você pode, inclusive, aproveitar a oportunidade para sacanear alguém aqui. Pense nisso.


Não sei se é apenas impressão minha, mas tenho quase certeza de que vejo sua postura, antes inflexível, suavizar um pouco.


— Aposto que sua amiguinha ali está louca para jogar — continua Matthew enquanto gesticula para mim com um gesto de cabeça.


Tenho um sobressalto. Todas as cabeças se voltam na minha direção. Os olhos de Beatrice estão pregados em mim, esperando. É possível sentir a frustração da garota a quilômetros de distância. Contudo, há uma excitação dentro de mim que insiste em querer me fazer aquiescer.


— Eu não sei, eu... — começo.


— Está bem, que se dane — interrompe Beatrice, rendida. — Vamos começar logo essa merda.


Pelo canto dos olhos, posso observar a sugestão de um sorriso satisfeito nos lábios de Qiang.


Tyler aguarda a aprovação do grupo e, quando todos respondem com um aceno de cabeça, o garoto gira a garrafa. O casco rodopia em um ponto fixo sobre o tapete, o movimento acompanhado por seis pares de olhos atentos, até parar entre Matthew e Callum.


— Verdade ou desafio? — indaga Callum.


— Verdade — Matthew responde sem titubear.


Callum leva o indicador aos lábios, pensativo.


— É verdade que... você já bateu uma pensando nos peitinhos da mãe do Tyler?


— Ei! — exclama o baixista, ultrajado.


Qiang cai na gargalhada. Mudo a posição das pernas sob meu corpo, ligeiramente desconfortável com o teor da pergunta.


— Eu admito que acho a Sra. Weston gostosa pra cacete, mas não, nunca fiz isso. Não que eu me lembre, pelo menos.


— Ok, vamos fingir que eu acredito em você — diz Callum em tom jocoso. Tyler acerta um tapa com as costas da mão em seu antebraço.


Matthew apanha a garrafa e a coloca em jogo novamente. Dessa vez, ela para entre Beatrice e Tyler.


— Verdade ou desafio? — inquere Beatrice, arqueando uma sobrancelha, provocadora.


— Desafio.


— Ótimo. — A garota exibe um sorriso triunfante. — Eu desafio você a beber uma garrafa inteira de cerveja em trinta segundos.


— Ah, fala sério, Tris. Eu já estou empanturrado, não aguento nem mais um gole.


— Vai arregar, então?


Beatrice cruza os braços sobre o peito, fitando Tyler com os olhos semicerrados. O baixista acaricia a nuca, enroscando os dedos nas raízes do cabelo tingido de preto.


— Passa a garrafa pra cá — murmura ele, resignado.


— Espere, eu preciso cronometrar o tempo — diz Beatrice enquanto saca o celular do bolso de trás da calça. Ao desbloqueá-lo, posso vislumbrar a imagem em preto e branco de Joan Jett como papel de parede.


Tyler pega a garrafa e remove sua tampa com um abridor. O vapor sobe como fumaça e se agita sobre o gargalo em uma espécie de balanço desajeitado.


— Já posso começar?


— Só mais um segundo — anuncia a garota, pressionando o polegar sobre o aplicativo do temporizador. — Muito bem. Pronto? — Tyler assente. — Um, dois, três e já!


Ao sinal de Beatrice, o garoto conduz a garrafa aos lábios com urgência. Ele pende a cabeça para trás e seu pomo de adão sobre e desce com as goladas sôfregas. Fios do líquido amarelado escorrem pelo seu queixo e gotejam sobre a camisa de listras vermelhas e pretas – uma réplica fiel à de Freddy Krueger. Enquanto isso, o cronômetro não para, chegando próximo dos vinte segundos.


De repente, Tyler emite um guincho e afasta a garrafa, resfolegando. Seus olhos estão marejados. O garoto irrompe em um acesso de tosse acompanhado de ânsias de vômito. Suas maçãs do rosto ficam vermelhas feito tomate. O cronômetro marca doze segundos. A cerveja ainda está pela metade.


— Foi mal, não consigo mais — diz Tyler, a voz rouca. Um barulho de regurgitação desponta de seu esôfago e o garoto deixa escapar um arroto ruidoso.


Beatrice maneia a cabeça em desaprovação.


— Me dê isso aqui, eu vou mostrar como se faz.


A garota apanha a garrafa das mãos do baixista, que agora está sustentado sobre os cotovelos, derrotado. Ele a entrega à Beatrice sem resistência. Há uma explosão de aplausos e assovios do grupo quando, em um piscar de olhos, Beatrice esvazia o conteúdo da garrafa com uma facilidade absurda, e isso sem a testa sequer se vincar com o esforço. A garota faz uma reverência e lança uma piscadela na direção de Tyler, um sorriso travesso moldando seus lábios. Contudo, ao notar o olhar de Qiang recair sobre ela, travando um caminho minucioso por suas curvas generosas, seu divertimento se esvai de imediato. O ódio me sobe pela bile, e tenho vontade de esmurrá-lo. Sinto a ardência nas palmas das mãos enquanto enterro as unhas na pele, buscando me conter.


Dessa vez, é ela quem coloca a garrafa em jogo. O casco rodopia por segundos a fio, e meu estômago se revira quando a garrafa para entre mim e Qiang, com o fundo apontando para ele. Minha respiração fica presa na garganta e sinto as pernas amolecerem feito mangueiras de borracha vazias. Sem nem me conceder o tempo de proferir uma palavra sequer, o sujeito dispara:


— Eu te desafio a beijar Beatrice.


— Ei, cara, isso não vale! — protesta Matthew. — É ela quem tem que decidir se quer verdade ou desafio. Além do mais, você nos disse que não rolaria nenhum beijo. Isso não é a porra de um Jogo da Garrafa!


— Tanto faz, sou eu quem dita as regras aqui. — O tom de voz de Qiang é tão agressivo que faz Matthew se encolher. Em seguida, o sujeito se vira para mim. Sinto as mãos pegajosas de suor. — E então, o que me diz?


Olho de soslaio para Beatrice, vasculhando seu semblante em busca de um sinal. E, pela primeira vez naquela noite, não consigo vislumbrar nenhum incômodo em sua íris cor de café. Seus ombros estão relaxados e as mãos repousam delicadamente sobre o colo. Parece até haver uma centelha de expectativa em seu semblante.


Sinto o rosto arder ao me flagrar considerando que a ideia de roçar meus lábios nos de Beatrice não me parece nem um pouco má. Tris é uma garota excepcionalmente atraente. Contudo, não é o tipo de beleza previsível que vem estampada em capas de revista. É algo peculiar e que pertence somente a ela. Beatrice é singular, e cada traço do seu corpo resguarda uma aura de mistério que exerce um magnetismo quase imediato.


— Por mim, tudo bem. — As palavras escapam dos meus lábios antes mesmo de eu concebê-las em minha mente. Olho para Beatrice. — Mas só se você quiser.


A garota aquiesce no mesmo instante, parecendo exultante. Tris engatinha até mim, o tecido das roupas produzido um farfalhar suave enquanto ela se arrasta pelo tapete, e não há vestígios de hesitação ao segurar minhas mãos entre as suas. Ela se inclina. Seus seios pequenos roçam meu antebraço e posso sentir sua pulsação rápida e ritmada em contato com a pele. Prendo a respiração e fecho os olhos quando ela pressiona seus lábios nos meus. De início, permanecemos ali, imóveis, mas logo permito que ela explore minha boca com a língua macia. Seus lábios são cálidos, e o sabor do álcool ainda é sobrepujante.


Agora, meus dedos sobem pela sua cintura, ombros e pescoço, enroscando-se nas raízes do cabelo tingido de vermelho, retribuindo o beijo. Ela me puxa para si com mais força, as mãos escorregando pelas minhas costas em um vaivém demorado. Nossas línguas dançam em um movimento vagaroso e sutil.


O ritmo do beijo diminui paulatinamente e Beatrice recua, a respiração entrecortada. Encosto meus lábios suavemente nos dela uma, duas, três e uma última vez.


— Puta merda! — ouço a voz de Matthew exclamar, trazendo-me de volta à realidade.


Fito o grupo. Todos estão boquiabertos, os olhos arregalados em estupefação. Deposito a mão sobre os lábios ainda quentes, procurando esconder a menção de sorriso que ameaça despontar ali. Mas então, quando dirijo os meus olhos mais abaixo e contemplo o volume sob as calças de Qiang, quase me dobro para vomitar.

Aug. 26, 2018, 6:08 p.m. 0 Report Embed 3
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Meet the author

Jordana Trindade Jordana Trindade. 17 anos. Aspirante à escritora e bióloga. Adora ler, escrever, tocar guitarra e jogar nas horas vagas, quando não está imersa em seus livros de estudo. É amante da música e não há um único dia em que esteja sem seus fones de ouvido, na companhia de suas bandas favoritas de Heavy Metal. Ama Stephen King e é nele que se inspira quando a criatividade flui.

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