NOVO MUNDO Follow story

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Lara, uma jovem educada num meio religioso, luta todos os dias por manter as coisas estranhas na sua vida a acontecerem a um mínimo. Ninguém quer ser seu amigo após ver algo desse género acontecer. Lara muda-se para Lain, a esperança de um novo recomeço que se apaga quando o irmão é assassinado. Ele era o seu único porto seguro. A vida normal que tinha planeado já não parece fazer sentido e, na sua busca por vingança, aprende a abraçar um novo mundo e toda a sua estranheza. Deixe a sua crítica, por favor. Faça like se gostou :) Boas leituras!


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Capítulo 1

O problema com um bom dia é que ele está sempre a tempo de ser arruinado.

Hoje não fiz nada demasiado estranho. Não sarei miraculosamente nenhuma ferida, não parti nada em que não tivesse tocado, nem vi ninguém que os outros não vissem. Não foi um péssimo dia.

Agora, só teria que o manter dessa forma.

Neste momento, estava a rezar para que a estúpida garrafa não girasse na minha direção.

“É a tua vez, irmãozinho” Disse Aile, quando a garrafa parou na direção de Zeck, ao meu lado, “Verdade ou Consequência?”

“Hmm”, Zeck deu um gole do seu copo de vinho, “acho que vou ficar com a consequência”. Sorriu e reclinou-se para trás, o seu olhar firme e atento à anfitriã.

“Muito bem então” Aile olhou em redor para o círculo de estudantes. Então fixou o olhar em mim. Algo cintilou nos seus olhos. Uh… O quê? Fiquei de repente insegura. “Acho que devias beijar Lara”.

Oh não, não, não. Ele ia tão não fazer isso. A minha relação com Zeck era profissional e eu pretendia mantê-la exclusivamente nesses termos. Ele era o pintor, eu a modelo. Isto… poderia misturar as coisas.

“Ok, essa é fácil.” Zeck virou-se para mim sorrindo, a sua respiração constante e lenta. “Importas-te?”, sussurrou, aproximando-se perigosamente. Os seus olhos verdes brilhantes fixaram os meus, questionadores. O seu cabelo castanho e liso, mais comprido no topo, inclinava-se para um dos lados, desalinhado. Oh não, não. Os meus olhos oscilavam entre um lado e outro da sua cara. Estava eu à procura de uma porta para fugir? Não havia. Apenas um empregado passava agora na minha visão lateral. Tinha que fazer alguma coisa. Diz não. Afasta-te. O meu corpo permanecia estático.

O empregado tropeçou e um dos cálices de vinho da bandeja que segurava entornou-se na direção de Zeck. Zeck afastou-se num movimento reflexo, elevando as mãos e observando com olhos arregalados a sua camisa manchada de vermelho. A minha mão cobriu a minha boca. Havia vinho por toda a sua camisa. Felizmente, nenhum me atingiu, o meu vestido preto continuava imaculado, ainda cheirava a novo. Zeck levantou-se. Senti os meus ombros relaxarem. Devia-me sentir mal por ele, mas aquilo bem que tinha resolvido o problema.

“Desculpe-me senhor! Eu tropecei em...” o empregado gaguejou, olhando para baixo, e coçou a cabeça. Não havia nada no chão. “… eu podia jurar que tinha batido em algo” Franziu a testa, confuso. “Havia definitivamente algo no chão, não sei como desapareceu”.

“Sem problema” Zeck sorriu, devolvendo o cálice com um movimento relaxado. “Acontece. É apenas uma camisa, de qualquer forma” Ele então retornou o olhar para mim e depois para Aile. A sua camisa colara-se ao abdómen graças às manchas de vinho, evidenciando o contorno de músculos proeminentes. “Um segundo”. Com passos largos e firmes afastou-se na direção da casa de banho. Cabeças femininas viraram na sua direção. Zeck sorriu a uma rapariga que se endireitara nos seus saltos altos e reajustara o seu mini-vestido e cujo rosto se tornou imediatamente vermelho.

Sob a música alta, os estudantes sentados à volta da garrafa retomaram as conversas e risadas. Um peso bateu contra o meu ombro, “Ei, também és finalista? Acho que nunca te vi antes.” A rapariga do lado de Zeck sorriu, reclinara-se sobre mim, apoiando o seu ombro no meu. As suas palavras arrastavam-se e o seu olhar vagueava sem realmente me fixar. Cheirava a álcool.

Reajustei a minha posição, tentando aliviar o seu peso. “Sim. Bem… eu mudei-me para Lain há cinco meses, não conheci muita gente do curso.” Bolas! Ela era pesada.

“A sério? Wow, não sabia que as transferências podiam ser feitas a meio do ano.” Bem, elas não podiam, tive que assinar mais papeis e requerimentos do que julgara possível para conseguir terminar o curso cá. “Porque vieste para Lain?”

“Todos nós precisamos de um novo recomeço de vez em quando, suponho… e o meu irmão tinha conseguido um novo emprego aqui”

Ela franziu as sobrancelhas, parecendo confusa. “Onde vivias, quero dizer, com a tua família?”

“Bem, não há família, era só eu e o meu irmão, agora sou só eu. Ele morreu…”, fechei os olhos e lutei contra a emergente onda de emoções, aprisionando-as no nó que de repente se apertou na minha garganta.

“Oh, lamento muito…” O seu sorriso desapareceu e hesitou em continuar, “Não perguntei o teu nome…”

“Lara”

Finalmente desencostou-se de mim. “Espera, tu és a Lara? Aquela Lara?” As suas sobrancelhas elevaram-se, olhando na minha direção, como se de repente alguém inteiramente diferente tivesse aparecido à sua frente.

“Uh…” Franzi as sobrancelhas. O que é que ela queria dizer com “aquela Lara”? Arrastei-me para trás uns centímetros, recuperando o meu espaço pessoal.

“Como é que o curaste? Os médicos disseram que a infeção era terminal…”, as suas palavras quase incompreensíveis.

Os músculos do meu maxilar contraíram-se.

“As pessoas dizem que és… estranha…” Estranha. A palavra precedia-me. Suspirei. Diz-me algo que eu não saiba. Mas eu realmente já não me importava. A esperança de um novo recomeço morrera com Ray. Ela fechou os olhos por um momento, como se se tentasse estabilizar.

Olhei em redor. Raparigas com vestidos curtos e rapazes de smoking conversavam uns com os outros, ouviam-se gargalhadas, os estudantes brindavam e enchiam novamente os seus copos, alguns dançavam. A música pop fazia o ambiente vibrar. Um rapaz, sentado numa mesa próxima, lançou o seu punho no ar, “ganhei!”, gritou, atirando as suas cartas na mesa, e os restantes colegas protestaram. Numa tira suspensa do teto lia-se “Finalistas de enfermagem”. Puxei o meu vestido novamente para baixo de forma a tapar mais as minhas pernas. Tive que o comprar propositadamente. Suspirei. Porque é que o dress code não incluía jeans?

Ao meu lado, Aile bateu palmas entusiasmada e rindo inclinou-se para a frente, rodando a garrafa no chão. “Vamos continuar”, disse, num tom estridente que atraiu as atenções. A garrafa começou a girar. Os jogadores observavam-na entre conversas. Alguns segundos depois o movimento começava a abrandar no centro do círculo, o meu coração saltando uma batida sempre que apontava para mim. Volta, após volta… após volta. Por favor, não eu… por favor.

Finalmente parou. Direção? Uh… as minhas pernas cruzadas à chines. A sério? Não podia ser. Mas não havia dúvidas, o gargalo apontava diretamente para mim, estável como uma rocha. Os meus músculos ficarem tensos. Não poderia ter ido na direção de outra pessoa? Aile, mesmo ao meu lado, ou assim? Garrafa estúpida! Como raios acabara eu a jogar este jogo, de qualquer forma?

“É a tua vez, La…” A rapariga com quem falara começou a dizer, interrompida por um sobressalto geral: a garrafa, intocada, no centro do círculo, girou mais alguns centímetros. As minhas sobrancelhas elevaram-se. O gargalo parou na direção de Aile.

“O quê?” Aile exclamou, pondo as suas mãos no ar, a sua boca aberta, mimetizando a dos restantes jogadores, “Como diabos fizeste isso, Sara?” Gesticulou na minha direção.

“Lara” Corrigi, num murmúrio. “Fiz o quê?” Perguntei, reajustando a minha posição, ainda a assimilar que me tinha livrado da garrafa por pouco.

“A garrafa estava claramente na tua direção… e agora, não está” Ela franziu a testa, fixando-me. “Como o fizeste?”

Os olhos dos restantes finalistas estavam arregalados, esperando uma resposta, como quem espera a revelação por trás de um truque de cartas.

Corei. “Uh… Eu não fiz nada, não lhe toquei”, disse, gaguejando um pouco e mostrando um sorriso nervoso. “As minhas mãos estão aqui, vês?” Levantei as mãos em que me apoiava, palmas para cima, num movimento rígido e descoordenado. Porque é que coisas estranhas tinham que acontecer sempre que estava por perto? Suspirei.

“Uh…” As suas sobrancelhas franziram na minha direção. Aberração estava escrito por toda a sua cara, “…certo”. Ela inclinou a sua cabeça avaliando-me, mas abanando-a ligeiramente como se tentasse sacudir algum pensamento, desviou o olhar para a garrafa. O seu sorriso reapareceu, energético como sempre, “Parece que é a minha vês, então”, exclamou com renovado entusiasmo “Zeck não está…”, olhou em redor para os jogadores, “tu fazes a pergunta, Annie!”

O satisfatório murmúrio de conversas e gargalhadas retornara, todas as atenções agora desviadas de mim. Soltei o ar que não percebi que sustinha.

Nas duas rondas seguintes Aile pedira o número a um desconhecido e Leon revelara o nome da sua Crush. Quis revirar os olhos. Tão universitário.

A garrafa não voltara a parar na minha direção, mas as minhas mãos começavam a ficar suadas e dava por mim a reajustar a minha posição e a olhar para o relógio a cada poucos segundos.

Passos denunciaram Zeck atrás de mim “Tenho que ir a casa mudar de roupa”, anunciou, sorridente na direção da irmã. A lavagem pouco fizera para disfarçar as manchas de vinho na sua camisa, se tanto, tinha-as piorado.

“Importas-te de me dar boleia, Zeck?”, fingi bocejar, “Estou um pouco cansada.”

Ele acenou, “Claro”.

Aile deu uma gargalhada com algo que a rapariga ao seu lado dissera. Não se incomodou a despedir-se de mim, nem mesmo um protesto indolente que a festa ainda agora tinha começado se fez ouvir. Suspeitei que tivesse algo a ver com a embriaguez que os seus olhos vermelhos denunciavam, mas acima de tudo com o incidente da garrafa. Coisas estranhas tendiam a afastar as pessoas de mim. Ninguém queria ser amigo de uma pessoa com propensão a ter coisas estranhas a acontecer em seu redor, suponho.

*

“Podes ir agora, Zeck, ficarei bem”. Disse dirigindo-me à porta de minha casa. A vivenda que alugara passava despercebida no meio de alguns metros de terrenos baldios, onde agora cresciam arbustos e árvores selvagens. Tinha as dimensões esperadas para uma humilde casa familiar que já vira algumas décadas passar. Zeck permanecia mais perto de mim do que o necessário. Revirei os olhos interiormente. Ele não iria desistir, iria? Ele era popular e simpático e possivelmente o rapaz mais giro que já conhecera… mas eu não estava no clima de criar relacionamentos atualmente, de nenhum tipo.

“Céus!” Estremeci, com o olhar fixo no chão do alpendre. Ali, nas tábuas de madeira, além das habituais folhas secas de outono, estavam agora 3 velas acesas e um crucifixo. O que eram aquelas coisas? Quem as pôs ali? Um arrepio percorreu o meu corpo, mas ignorei-o. Uma pequena partida não me conseguia assustar.

Zeck apareceu ao meu lado num instante. “O que aconteceu?” Colocou um braço protetor na minha cintura, enquanto olhava em redor. Uh… aquilo, sim, era assustador. Afastei-me dele e peguei no crucifixo, analisando-o. Só um monte de paus. Zeck passou o olhar por ele apenas uns segundos, sem grande interesse. Observou-me e olhou novamente em redor. “Estás bem? O que viste?”

“Isto” Não era óbvio? Olhei para o crucifixo e de seguida para as velas acesas.

“Fazem parte de uma tradição em Lain…” explicou.

“Tradição?” Franzi as sobrancelhas, mas logo deixei escapar o ar que não me apercebi que sustinha. Vês, claro que tinha que haver uma explicação normal.

“Brevemente todas as casas terão estes objetos simbólicos à porta. Fazem parte de um antigo ritual religioso. Serve para celebrar a esperança das pessoas num futuro mais auspicioso. As velas simbolizam a esperança. Os locais acendem-nas para que alguma força superior, suponho, os ilumine no caminho certo.” Disse Zeck, encolhendo os ombros.

“E o crucifixo?” Questionei, também havia isso. Coloquei-o novamente no chão. Melhor não deturpar a tradição.

“Bem, pedir algo implica sacrifício. Isso explica o crucifixo… e os porcos que serão oferecidos na festa.”

Meu Deus! Isso… suava péssimo. Pobres porcos! Que tradição esquisita.

“Bem, suponho que não seja nada com que me preocupar, então.” Conclui, desviando o olhar do cenário bizarro para Zeck. “Devias ir, está a começar a ficar frio” menti. O ar de outono envolvia os meus braços nus oferecendo o mesmo conforto que uma camisola de lã numa noite de inverno passada junto á lareira. A brisa tinha apenas a força suficiente para arrastar aqui e ali uma folha caída e o cheiro a chuva e terra molhada harmonizavam com a névoa outonal que envolvia Lain. Não me sentia tentada a regressar a casa, mas não queria incentivar Zeck a aproximar-se. Ele não ficaria sozinho de qualquer forma, haveria uma abundância de raparigas ansiosas por lhe fazerem companhia, assim ele quisesse.

“Fica bem, Lara” disse, beijando-me a cara, antes que pudesse fechar a porta. Zeck, ele não podia perder uma oportunidade.

*

Naquela tarde não consegui ficar em casa e acabei a fazer mais uma visita à polícia. O inspetor Marc estendeu-me a sua mão rugosa, um gesto que repetira com frequência no último mês.

“Já sabe o motivo que me trás aqui…”, disse apenas.

“Não temos muito de novo que lhe dizer, Lara.” Repetiu o inspetor Mac, a resposta, ou a ausência dela, invariável. Indicou-me o lugar em frente da secretária, tomando o seu de seguida.

“Não sabem mais nada sobre a morte do meu irmão? Mas já passou um mês...” A minha mão no braço da cadeira apertou-se.

“Analisámos novamente o registo da autópsia…”, continuou o inspetor, observando uns papeis que retirou da gaveta “… não foi possível identificar o que causou as lesões no corpo do seu irmão. A análise de DNA foi inconclusiva.” Lamentou.

Tentei descodificar o significado daquela informação. Deduzi que era o pior que podia ter acontecido. A melhor pista que tínhamos para encontrar o culpado residia na identificação do DNA e agora não tínhamos nada.

“Mas as lesões…”, o nó na minha garganta obrigou-me a fazer uma pausa, estremeci ao lembrar a imagem do corpo de Ray coberto de feridas, “alguém fez isso com ele, não foi?”

“É uma hipótese, mas é incerta a origem, como expliquei. Contudo, o perito de medicina legal concluiu que as lesões não o mataram. A causa da morte permanece desconhecida.” O inspetor pousou os papeis e observou-me, “As circunstâncias da morte levantam suspeitas, mas algumas peças não se encaixam… não havia sinais de luta, como sabe, o que é estranho.”

Os meus olhos perderam o foco, lutei contra as lágrimas. “Porque é que alguém o poderia querer matar? Nós estávamos em Lain há tão pouco tempo…”, a minha voz apenas um murmúrio.

“Lamento Lara…” Mac avaliou-me, hesitante, “Continuamos a investigar. Interrogámos alguns colegas de trabalho, mas não temos nenhum suspeito. Talvez se tivéssemos mais pistas, mais informações dos seus contactos… não se lembrou, entretanto, de nada suspeito, nenhum inimigo de Ray?”

“Não consigo imaginar o meu irmão com inimigos… mas tenho andado a pensar que algo de errado se passou. Quando me visitara há um mês atrás, Ray apressou-se a ir embora e quase deu um murro em Zeck quando ele apareceu de surpresa… Ray. Sempre tão calmo e sensato… tão ponderado.” Devia ter percebido os sinais então. Cobri a cara com as mãos. Que estúpida que eu fui. Agora tenho a certeza que algo acontecera, mas é tarde de mais.

“A nossa melhor hipótese será, neste momento, investigar as relações dele e encontrar algo suspeito.” Suspirou, “Lamento, Lara”.

Não era justo. A morte de Ray não era justa. O meu aperto na cadeira tornara os nós dos meus dedos brancos. Quem quer que fosse que tivesse matado Ray não sairia impune.

*

Ergui a cabeça. As minhas pernas ainda tremiam quando retornei à rua principal de Lain. Pé ante pé, Lara. Evita as folhas secas. Mas os meus pés arrastaram-se e o ranger das folhas continuou. Então o chão fugiu-me debaixo dos pés e o meu coração palpitou na minha boca. Estendi uma mão à parede para me estabilizar. Escorreguei numa folha, o habitual. Deixei as minhas costas caírem contra a esquina do edifício e fechei os olhos, tentando acalmar-me. Senti o frio da parede através dos meus punhos cerrados. Não posso acreditar que ainda não saibam nada sobre a morte de Ray. “Tudo bem, senhorita?”, um homem de meia idade olhou na minha direção. Desencostei-me da parede, recompondo-me desajeitadamente, “Sim” acenei e sorri forçadamente, “Só descansando um pouco”. Bolas, Lara. Age normalmente.

*

Finalmente chegara a casa. A porta chiou familiarmente quando a fechei atrás de mim e as tábuas manchadas do chão de madeira rangeram a cada passo em direção à sala. A humidade nas paredes começava a ser notória, indiferente à pintura recente. O meu orçamento era curto para algo melhor. Ao acender as luzes o meu coração disparou. Deparei-me com as caixas que trouxe para Lain viradas no chão e semi- despejadas, tal como os dois caixotes com os pertences de Ray. Fiquei estática à porta da sala. O que se tinha passado? Tinha alguém estado aqui? Olhei em volta, mas mais nada parecia mexido. O computador permanecia em cima da mesa de jantar, a televisão… não havia muito mais de valor. Iria parar de ter ataques cardíacos hoje?

Aproximei-me. Não fiz nenhum movimento e fiquei alerta para algum barulho. Nada… exceto uma brisa que arrastou alguns cabelos para o meu rosto. O cortinado ondulava levemente junto à janela que dava para o jardim. Afastei-o e confirmei que estava entreaberta. Estranho, não me lembro de a abrir. Um protesto estridente fez-se ouvir ao fecha-la e o trinco abanou lasso na minha mão. Fiz uma nota mental para o mandar substituir.

Talvez tenha sido só o vento. Tinha estado vento? Ou talvez um animal tenha entrado. Tentei convencer-me da primeira hipótese, rezando para não ter nenhum animal selvagem dentro de casa.

Observei os items caoticamente distribuídos dentro das caixas, maioritariamente roupa e alguns artigos de decoração. Deixar o empacotamento para a última hora não foi a melhor ideia, obviamente. Ajoelhei-me e suspirei, fechando os olhos por um segundo.

Comecei a apanhar os itens caídos. As minhas mãos tremeram levemente ao pegar nos livros de Ray. As capas estavam gastas e descoloradas e os títulos sumidos do tempo. Eram maioritariamente sobre a marinha, barcos e coisas relacionadas com o seu trabalho.

Um dos livros chamou-me à atenção pela nota familiar em papel fluorescente colada na sua capa: “devolver a Gaston”, lia-se na caligrafia do meu irmão. Recordei que o pegara da secretária de Ray. Tinha acabado por me esquecer dele. Coloquei-o de lado a fim de o devolver, mais tarde.

Ignorando o instinto de me afastar de tudo aquilo, reergui-me com a dificuldade de quem carrega um peso esmagador sobre as costas e arrumei os restantes mapas, bússolas e outros objetos do trabalho de Ray.

Mais tarde naquela noite, já deitada e pousando o livro que lia, não pude deixar de me perguntar se poderia ter sido alguém a mexer nas minhas coisas. Mas não dei pela falta de nada… e de que poderiam andar à procura? Não era como se eu fosse rica. 

*

O meu estomago deu uma volta quando naquela manhã quase cai ao tropeçar numa camisola que deixara caída no chão do quarto. Arr! Devia fazer alguma limpeza. Abri o roupeiro. Cada vez mais vazio. A roupa trasbordava do cesto junto à máquina de lavar. Na cozinha, a louça suja começava a acumular-se na pia. Ao abrir o frigorífico verifiquei que não havia nada para comer. Bolas! Bati com a porta. Uma inevitável ida às compras e as tarefas domésticas em atraso desde há um mês transformaram-se no programa para o fim de semana.

Era final de tarde de segunda-feira, quando entrei na galeria de Zeck. Suspirei. Deveria definitivamente esforçar-me mais para encontrar outro trabalho.

Zeck observava-me na luz excessiva da sala que usava como atelier na sua galeria. Pegou num dos pincéis próximos do cavalete e misturou algumas tintas. Ajustou a sua posição no banco em frente ao meu e inclinou-se sobre a tela branca. Os seus gestos eram fluídos e precisos, como sempre. “Estás pronta?” Perguntou sorrindo.

Percorri a minha figura no ar com mãos tensas, salientando a t-shirt de manga comprida, uns jeans e umas all-stars. “Tão pronta quanto posso estar”. O meu cabelo estava solto, tal como ele tinha preferido pintá-lo antes. Felizmente, não estava nos seus péssimos dias. Tentei sorrir, mas tudo o que consegui foi mostrar os dentes num gesto semelhante ao que se sucede no dentista, junto com o olhar suplicante de uma criança que pede à mãe que a leve embora de lá. Talvez fosse por isso que Zeck quando me pintara me pedira uma expressão serena e não sorridente. O meu olhar vacilava inquieto entre as tintas e pinceis próximos. Destracei a perna que teimava em oscilar para a frente e para trás e forcei as mãos trémulas a permanecerem no meu colo.

“Tens um colar lindo” murmurou Zeck, enquanto movia o pincel sobre a tela, “não consigo bem pegar o seu brilho, contudo.” Inclinou a cabeça para um lado como procurando mais concertação e continuou com os movimentos deliberados.

“Foi um presente…” a minha mão envolveu o colar instintivamente, “de Ray.”

“Lamento, não queria…”

“Não faz mal. Tu não sabias… Ele deu-mo na última visita que me fez.” Foi como se se estivesse a despedir.

Tentei fixar o olhar na janela em frente e observar as pessoas que passavam à medida que o dia escurecia. Zeck desenhava o meu perfil, desta vez. Estaria a minha cara ainda na posição em que Zeck a colocara? Não tinha a certeza. Lutei contra o impulso de morder o meu lábio.

Começava a achar que não poderia corar mais ou… suspirar mais, ao fim de algum tempo. Começava a ter que mover as mãos e as pernas e a minha posição alterava-se, apesar das advertências de Zeck. Quando, após intermináveis horas, o meu estômago roncou, uma solicitação do jantar, Zeck pousou o pincel e afastou-se para trás, arrastando o banco. “Feito. Podes vir vê-lo se quiseres”, disse, observando o seu trabalho.

Ao aproximar-me da tela, uma mão deslizou instintivamente até á minha boca e olhei para Zeck. “Está…” não havia palavras “Uau”, murmurei, quase para mim mesma. Na pintura, o perfil de uma rapariga ganhava vida com cores inesperadas e vibrantes. Havia algo de energético naquela figura de linhas femininas e suaves. “És tão talentoso… cada trabalho teu espantoso”. O olhar da rapariga na pintura refletia as cores quentes do final de tarde que observava. Os olhos atentos denunciavam o esforço de quem procura ver algo no horizonte. Não poderia imaginar o quê, não havia nada no horizonte para ela. Estava tão detalhado… Um ligeiro tremor percorreu-me ao perceber os pormenores que Zeck tinha captado. Contudo, havia algo na expressão retratada… era firme e gentil, o reflexo da determinação e segurança de alguém que sabe o que esperar do futuro… ao contrário de mim. Um fio de prata fino e lustroso chamava à atenção e impunha admiração. Mas foi quando vi o medalhão que suspendi a respiração. Do fio pendia uma pedra translúcida como a água do mar. Podia jurar que encerrava verões e pores-do-sol. Cintilava numa simplicidade mágica tal o reflexo da lua, confidente de sonhos, promessas e paixões. A sua beleza cativava o olhar mais insensível. De tão peculiar, remetia a tempos idos de reis e rainhas, onde só aí tal joia se conceberia. Ainda assim, ficava aquém da versão original. Que tipo de pedra seria aquela? Era a joia mais bonita que já vira. Andava sempre com ele desde… que Ray mo dera.

Aug. 26, 2018, 1:10 p.m. 1 Report Embed 5
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Aug. 28, 2018, 6:45 a.m.
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