Não venha para casa Follow story

ayzu-saki Ayzu Saki

'Meu pai sabia que eu era mais forte do que eu mesmo percebia.' [Estória escrita para o desafio do dia dos pais do ink]


Short Story Not for children under 13.

#angst #luto #tiposdepai
Short tale
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Capítulo único

Notas iniciais

Estória escrita para o desafio do dia dos pais do Ink.

Pai orgulhoso: Aquele que se orgulha de você e de tudo que você faz. Ele te acha o/a melhor em tudo.

.........................................

Foi perto do natal, durante uma viagem de intercâmbio que recebi a notícia.

Tudo o que eu queria era voltar para casa.

Meu pai tinha outros planos.

.....................

-Não venha para casa.

Eu parei no meio do quarto, telefone em uma mão, roupas que jogava na mala na outra.

Por um momento eu pensei que havia ouvido errado.

-O quê?

A voz do outro lado me pareceu calma. Ela sempre parecia calma, mesmo agora.

Ela sempre tinha o dom de me deixar tranquila, mas não agora.

-Não venha para casa, fique aí.

-Não pode estar falando sério, pai?

Era como uma experiência extracorpórea no momento. Eu ainda não havia chorado, mas eu sentia que esse não seria o caso por muito tempo. 

-Eu tenho que ir para casa.

-Não tem. O enterro vai ser em algumas horas. Não há nada para você aqui.

‘Há assim, tem vocês. Não pede isso para mim.’

-Querida...nós não queremos você aqui.

Derrubei as roupas no chão e sentei na cama. Eu não sabia o que responder àquilo.

-Oh.

-As coisas...não estão bem. Estão uma bagunça, e você tem algo a terminar aí, não tem?

‘Por favor, não faz isso.’

-Isso importa, agora? Eu quero ir para casa.

-Importa. – Pausa. – Você prometeu a sua mãe que ia terminar o que começou.

Nós dois sabíamos que aquilo havia sido um golpe baixo.

-Você prometeu.

‘Eu prometi, não prometi?

-Eu cuido de tudo aqui, você cuida de tudo por aí. Em um ano. – Pausa, a voz tremeu do outro lado por um instante, mas seguiu firme novamente. – Em um ano vamos nos ver. Se alguém consegue é você, querida. Você é forte.

‘Não, eu não sou.’

Naqueles segundos, naqueles meros segundos em que me vi naquela situação.

Do outro lado do mundo. Sozinha. De repente sem mãe. Eu precisava dele. Eu precisava do meu pai, mas ele não me queria.

-Tudo bem.

Eu o odiei por fazer aquilo comigo.

E depois me odiei por sentir isso.

Eu conhecia meu pai. Eu sabia que ele estava fazendo aquilo por mim, e não por ele.

-Eu te amo, querida.

-Também te amo.

......................................................................................................

Em um ano ele estava lá, um rosto no mar de pessoas no aeroporto. A blusa florida que eu dei de aniversário, de chinelos.

O rosto havia envelhecido, os cabelos mais brancos, barba por fazer.

‘Um dia vou o perder também’ Foi o que percebi e parei de andar.

Seu passo era acelerado, e eu notei que não havia o visto correr assim desde que eu era criança. 

Um dos meus irmãos vinha atrás, um sorriso no rosto.

Foi o abraço mais apertado que ele me deu desde que eu fiz nove anos e deixei de gostar de abraços.

Naquele momento isso não importava.

Meu pai cheirava a café e casa.

Ele passou minutos assim, no meio da multidão, nós dois atrapalhando o fluxo.

Meu irmão e eu fingimos que não percebemos que ele estava chorando.

-Vamos para casa.

.............................................................................................................

-Sabe, ele tinha certeza que você o odiaria.

Meu irmão sentou do meu lado na varanda. Meu pai estava regando as plantas, assobiando alguma música que eu não conhecia.

Meu irmão pareceu esperar alguma resposta, mas eu não sabia o que dizer.

-Eu estava lá, sabe? Quando você ligou. Ele desabou em mim, ele queria muito você aqui. Mamãe o fez prometer que não ia deixar você voltar.

Naquele momento eu senti meus olhos arderem e virei o rosto, ainda em silêncio.

-Se fosse qualquer um de nós, acho que ela não teria pedido, ou ele não teria aceitado. – Olhei meu irmão, e ele fitava meu pai agora, uma expressão pensativa no rosto. - Você sempre foi parecida demais com a mamãe.

-O que isso quer dizer?

Ele riu baixo, olhando para mim.

-Quero dizer que ele morre de orgulho de você.

-Não só de mim.

-Não só de você. – Ele concordou. – Ele e mamãe sempre deixaram todo mundo louco falando de nós, mas é de você que ele mais fala. Sobre como você é forte, sobre como é teimosa, sobre como não tem medo de nada. Todo e-mail que você mandava ele me ligava e ia ler. Você tem ideia disso? Era irritante.

-Desculpe.

-Besta, não peça desculpas. Ele tem razão, sabia? Sempre foi a melhor em se adaptar. – Ele sorriu de forma matreira - Como um gato de rua.

-Idiota.

- Posso te dar um abraço? Ou vai me arranhar?

-Só hoje.

Por cima do ombro dele, eu encontrei os olhos do meu pai.

Soltei meu irmão com um empurrão, fugindo do jornal que ele jogou em mim. Saltei da varanda até a grama molhada.

Tínhamos muito o que conversar, mas não naquele momento.

Peguei o outro regador e trabalhamos em silêncio.

De vez em quando ele me fitava, como se não acreditasse que eu estivesse ali. 

Minha mãe morreu dias antes do natal, a 15.569 km de distância de mim. Não houve um sinal, nenhum sonho premonitório, nenhuma sensação de frio na espinha.

Apenas uma ligação e uma decisão difícil demais.

Meu pai estava ali. Com mais cabelos brancos na cabeça, os olhos mais perdidos, mas ali.

Ele estava sorrindo, assobiando e contando suas anedotas. E eu o amava tanto que não sabia nem como começar a falar sobre isso.

Naquele momento era só isso que importava.

'Ele morre de orgulho de você.'

'Não, eu que morro de orgulho dele.'

Tudo ficaria bem.

Aug. 19, 2018, 11:44 p.m. 4 Report Embed 6
The End

Meet the author

Ayzu Saki Detesto o tempo, sempre adianto meu relógio para nunca me atrasar, e ainda assim me atraso. Detesto o tempo, porque ele não cura as coisas, só passa. Queria domar o tempo mesmo, para viver todo o que quero viver e não pode caber na minha vida. Essa é a minha sina, e um monte de histórias não terminadas no fundo da gaveta.

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Karimy Karimy
Olá! Fiquei emocionada com esta história. Não consigo sequer imaginar como deve ter sido difícil para ela ter de cumprir o pedido do pai, assim como para ele próprio cumprir o que pediu a ela.
March 1, 2019, 3:18 p.m.
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Nossa, fui pega de surpresa depois dessa. Pelo título, eu imaginava outra história, outro enredo, mas eu tive uma surpresa muito agradável. Meu Deus, menina, que história linda foi essa, eu chorei já na primeira linha. Se esse era o objetivo, alcançou ele. Meu Deus, o pai da pp acreditava mais nela do que ela mesma, tipo, isso é poético. E ainda pensar na mãe que faleceu dessa forma com ela tão longe, nossa, toca, machuca. Mas aí a narrativa avança com a pp se culpando pelos sentimentos ruins pelo longo do pai, e se não bastasse isso, vem todo o banho de água fria, porque foi a mulher já falecida que o fez prometer isso. Simplesmente estou no chão com essa. Eu aí já notei as vestes do pai orgulhoso, a camisa Flórida um presente, mais uma delicadeza da narrativa aqui e um detalhe que deixou tudo mais mágico. Só uma coisinha: o começo está um tanto confuso tanto na narrativa quanto a pontuação. E tem alguns erros ao longo do texto a ser corrigido! De resto, estou embasbacada com narrativa fluida e boa até mesmo mos mínimos detalhes, não é à toa a enxurrada sentimental em que me encontro! Está de parabéns! Beijinhos 😘
Sept. 4, 2018, 12:39 a.m.
MissGeleia . MissGeleia .
"Eles partem antes que estejamos preparados pra dizer adeus." Não sei onde ouvi isso, mas com o passar do tempo esse fato me fez pensar mais e mais nos pequenos momentos que a gente não da valor no instante que acontece, mas que nós descobrimos tarde demais o quão significativo eles realmente são. Essas memórias preciosas que nos acompanham até o fim dos nossos dias. Creio que esse foi um desses momentos. "Ele sente orgulho de ti". Bem, acho que não somente ele, certo? <3 Bom trabalho novamente guria <3
Aug. 19, 2018, 8:13 p.m.

~