Blood and Sand Follow story

lemonworld Julie Ruin

Hannah Hayes tem dificuldade para superar alguns traumas recentes, que envolvem a morte de pessoas queridas, a morte de pessoas não tão queridas assim, e a sua própria morte - ou quase isso. Depois de ter passado por uma experiência surreal, na qual descobriu verdades insólitas sobre suas origens, tudo o que ela queria era sentir-se no controle da própria vida, mas os problemas parecem chamar por ela. Quando um simples reencontro de amigos em uma festa de caridade se transforma em tragédia, Hannah se vê em conflito: Deveria ela ceder aos instintos e se tornar quem nasceu para ser, por mais assustador que isso seja, ou continuar vivendo em negação?


Romance Young Adult Romance Not for children under 13.

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Stuck

Consciência humana. Para muitos, um presente divino; para outros, uma dádiva da evolução. Já eu acho que a ignorância é uma virtude, e a consciência humana é uma piada cruel: Nos tornamos conscientes apenas para perceber que não somos os personagens principais da História. Afinal, existem uns trezentos bazilhões de estrelas no universo – nossa mente nem consegue processar isso -, e no meio disso tudo somos apenas poeira estelar, um sopro, um nada. A existência do planeta Terra e nossa própria existência nele não passam de uma coincidência; no cosmos infinito, algo estava no lugar certo e na hora certa para que pudéssemos estar aqui hoje. Somos uma pedra gigante flutuando em um oceano infinito de vazio, e, como mera coincidência, portanto, somos insignificantes. Eu, Hannah Hayes, sou insignificante. Você é insignificante. Aquele garoto que fazia bullying com você na sétima série é tão insignificante quanto o presidente deste país.

Então, quando tenho algum problema indesejável para lidar, muitas vezes eu penso: “Qual a importância disso no quadro geral do universo?”, e a resposta é: nenhuma. Eventualmente todo mundo vai estar morto, a vida na Terra irá se extinguir, e o universo não será diferente. Nada faz diferença nessa imensidão cósmica. Pensar que tudo é sem sentido e sem propósito faz com que eu me preocupe menos, e isso me ajuda a controlar o estresse e a ansiedade. Mas, em dias mais pessimistas, esta filosofia me faz me perguntar também qual o motivo de sair da cama todas as manhãs, ir trabalhar, ir estudar, seja lá o que for - se no final nada disso importa.

Era sobre isso que estava refletindo quando desci do táxi, bem em frente ao Solarium Hall. Tentava fazer com que essa reflexão diminuísse o incômodo que sentia com o salto alto que estava usando, e com o incômodo ainda maior que sentiria ao ter que socializar com basicamente qualquer pessoa ali. “Nada disso importa, e tudo vai passar”. Naquele dia, naquele grande salão de eventos em estilo neoclássico, estava acontecendo um leilão beneficente para arrecadação de fundos em prol das famílias das vítimas da guerra às drogas em Silver City, metrópole conhecida como a joia da Costa Oeste. Uma festa, uma vez ao ano, onde os mais ricos da cidade fingem se importar e gastam pequenas fortunas por uma grande causa – educação, saúde, o que você imaginar. A cada ano, um tema diferente; neste ano o tema era tráfico de drogas.

Obviamente, não faço parte da alta sociedade de Silver City e nunca teria sido convidada para aquela festa (o que não é problema nenhum), mas alguns de meus melhores amigos fazem. Não os via há algum tempo, e eles me chamaram para ir com eles – disseram que seria uma oportunidade legal de nos reencontrarmos. A última coisa que eu queria na vida era aceitar o convite, mas lá estava eu. Acho que sou capaz de fazer qualquer coisa que eles me peçam quase chorando.

Era agosto, mas a noite estava quente e abafada como se ainda estivéssemos no ápice do verão. Passei a mão pelo corpo para desamassar o longo vestido preto que estava usando e encarei a escadaria monumental esculpida em mármore travertino à minha frente, criando coragem para começar a subida. O Solarium Hall foi edificado sobre as ruínas do primeiro teatro da cidade, que queimou até o chão mais de trinta anos atrás. Queriam que o novo edifício fosse imponente e monumental, e acho que conseguiram. No jardim em estilo francês que o permeia, estavam posicionados alguns fachos de luz que iluminavam o céu coberto de nuvens, quase translúcido. Seguranças estavam por todo lado, posicionados em locais estratégicos, com o rádio na mão – afinal, se reuniam ali diversas pessoas cujas cabeças valeriam boas recompensas.

Entrando no Solarium Hall, passei por um lounge repleto de sofás e poltronas próximos a um bar antes de chegar ao salão principal, abarrotado de mesas de jantar cobertas com toalhas brancas e enfeitadas com delicados arranjos ikebana. No centro de tudo, estavam mesas de buffet – mas não havia comida de verdade, apenas aperitivos (um evento tão caro e não se pode nem encher a barriga!). Ao fundo do salão principal, ainda, um pequeno palco acomodava um grupo de músicos de jazz, que, em algum momento da noite, cederiam o espaço ao prefeito Rowsell. Olhando para cima, vi a grande cúpula de vidro da cobertura, mas nenhuma estrela estava visível no céu. Para mim, tudo naquele lugar exalava a estética de mau-gosto do kitsch, e a única coisa que me agradava de verdade eram os arranjos ikebana.

Enquanto andava, meus olhos vasculhavam todas as direções à procura de meus amigos. Não os via em lugar algum, mas conseguia identificar algumas figurinhas famosas. Eram, em sua maioria, empresários, políticos, funcionários públicos de alto escalão e membros da imprensa. O prefeito Rowsell, por exemplo, é inconfundível por causa de sua barriga que mal cabe dentro da camisa – e estava ao lado da mesa de pães, enchendo um prato. Terry Hart, jornalista e apresentadora do Headliner – noticiário da principal emissora da cidade – também, podia ser facilmente reconhecida pelos cabelos cor de fogo. Howard Schwarz, juiz de direito, estava ao lado da esposa admirando uma das peças em exibição na galeria – um vaso cerâmico que seria leiloado.

De repente, senti uma mão tocar meu ombro e me virei com um pulo, pronta para reagir. Então, reconheci Elliot, que me olhou assustado.

- Calma, sou eu! – disse ele.

- Nunca mais faça isso se não quiser correr o risco de precisar recolher seus dentes do chão – respondi.

- Eu não te via há algumas semanas, Hannah. Tinha quase me esquecido que você era esquiva desse jeito.

Ele riu, e trocamos um abraço afetuoso. Senti saudades dele. Seus cabelos louro-escuros continuavam queimados de sol, seus olhos azuis continuavam gentis, seus braços continuavam reconfortantes. Quem apareceu em seguida foi Erin, a irmã gêmea dele – e mais nova por uma questão de minutos. Seus cabelos, da mesma cor dos do irmão, estavam mais compridos do que eu me lembrava, arrumados em ondas que caíam perfeitamente sobre seus ombros. Ela estava simplesmente linda e impecável, e me deu um abraço ainda mais apertado.

- Eu devia ter ido te maquiar – disse ela, analisando meu rosto com atenção. – Você é tão bonita, mas nem ao menos tentou esconder suas olheiras.

À noite, quando deito em minha cama e somos apenas eu e a escuridão e o silêncio e não há para onde fugir, tenho tempo de sobra para me perder nos terrores dos meus próprios pensamentos. Isso me tira o sono, e é por isso que tenho olheiras. Tento me cansar com trabalho e exercícios físicos, esperando que isso me faça cair no sono rapidamente, mas não funciona. Fico apenas cansada e sem dormir.

- Posso suportar batom, rímel e delineador, mas não consigo viver com reboco na cara. Estou bem assim, sério.

Ela deu de ombros.

- Bem, eu gosto da sombra que você escolheu. Destaca o âmbar dos seus olhos. E vejo que você está usando sua pedrinha da sorte!

Ela se referia ao delicado pingente de pedra jaspe que eu usava em uma corrente ao redor do pescoço. Não era uma pedrinha da sorte, mas eu tampouco estava a fim de falar sobre isso. Mas estava grata por revê-los.

- Senti a falta de vocês – eu disse, do fundo do coração.

- Também sentimos a sua, mas preferia que tivéssemos nos encontrado em outra ocasião. Tudo isso aqui me faz ter vontade de sair correndo – disse Elliot gesticulando, referindo-se ao evento como um todo.

- Pare, não é tão ruim – respondeu Erin. – Tem bastante gente aqui que podemos criticar e falar mal. Vejam aquele idiota lá no fundo, acabou de engasgar com um pedaço de queijo gouda.

- Onde estão seus pais? – perguntei. – Acho que eu deveria dar ir um oi, se a fila para falar com eles não estiver muito grande.

- Não vieram – respondeu Erin, com desgosto. – Por causa de... Ah, você sabe. As coisas continuam não muito boas lá em casa. Viemos com a tia Abby.

- É um prazer ter vindo com ela – ironizou Elliot. – Mas vi que montaram um bar enorme ali atrás, o que vocês acham? Aproveitando que finalmente temos idade legal para beber. Podemos ficar lá assistindo a mediocridade humana de longe.

Concordamos e seguimos os três para lá, onde sentamos frente ao balcão e pedimos mojitos. Eles são dois anos mais novos do que eu, e finalmente completaram 21. Erin e Elliot Wolff. Dois dos três amigos que me restaram. Eles são filhos de Jacob e Olivia Wolff, o casal dono de um terço da Silver Wolf, a maior empresa siderúrgica de Silver City. Dinheiro para eles é o que não falta, e é por isso que estavam ali naquela noite; mas devo admitir que os Wolff são totalmente o oposto do que eu esperaria que fossem. Eles são, de longe, as pessoas mais legais que já conheci; me acolheram ainda quando criança e fizeram com que eu me sentisse em casa. Bem, na verdade, o maior responsável por isso foi o irmão mais velho deles, Caleb. Juntos, os três foram meus melhores amigos desde a adolescência. Morávamos todos no bairro de Los Alamos, nossas casas a menos de seiscentos metros de distância.

E, agora, esta parte me deixa triste, porque Caleb não está mais entre nós. Ele era apenas um ano mais velho que eu, e, dentre os três pequenos Wolff, ele era quem melhor me entendia. Nos conhecemos quando fui adotada pelos Hayes, aos doze anos – meu pai é professor de artes marciais e começou a me levar às suas aulas. Caleb era um de seus jovens alunos, e também um dos mais talentosos. Logo viramos amigos, e ele foi imensamente importante em minha adaptação à nova vida e à nova família.

Fazíamos quase tudo juntos, desde a luta até a ida a eventos de família. Quando chegou a época da faculdade, ele foi estudar Engenharia Mecânica no Arizona – mecânica era outro talento seu. No ano seguinte, foi a minha vez, e escolhi jornalismo; mas fui para Los Angeles. Mesmo estando tão longe um do outro, ainda conversávamos todos os dias. Começamos a namorar no início do ano passado, depois que ele terminou a faculdade e voltou para Silver City para trabalhar na Silver Wolf. Eu ainda estava terminando o último ano, mas a distância agora era insignificante. Ninguém ficou surpreso; acho que todo mundo já esperava que isso fosse acontecer.

Infelizmente, o namoro não durou muito tempo - foram apenas oito meses. As coisas ficaram meio estranhas entre nós no verão passado depois que me meti em uma encrenca gigantesca que quase custou minha vida, e isso nos deixou abalados e profundamente mudados. Fomos nos distanciando, sem querer, até acharmos que seria melhor terminar. Não houve briga ou discussão, apenas o consentimento de que estávamos sobrecarregados com tudo o que passou, e precisávamos ficar sozinhos para colocar a cabeça no lugar. A consideração e o carinho permaneceram, como permanecem até hoje.

A forma com que Caleb encontrou para tentar lidar com a situação foi deixar seu emprego na empresa da família e se alistar na Guarda Costeira, longe daqui. E foi aí que tudo desandou de vez. Sete meses atrás, quando voltava para nos visitar, Caleb sofreu um acidente fatal na estrada que lhe custou a vida. Acho que uma parte de mim morreu com ele. Não consigo deixar de pensar que tenho uma grande parcela de culpa em sua morte: talvez, se eu tivesse me esforçado mais para ser uma pessoa melhor, se eu tivesse me esforçado mais para compreender o que se passava na cabeça dele, talvez não tivéssemos nos distanciado. Talvez tivéssemos aprendido a lidar com a bosta dos nossos problemas e não tivéssemos terminado, e talvez ele não tivesse a ideia estúpida de se alistar. Minha cabeça é cheia de “E se?”, culpa e vontade de voltar no tempo.

Às vezes eu penso que Erin e Elliot são a única âncora que ainda tenho com o mundo real, com minha humanidade e meus sentimentos. Eu faria qualquer coisa por eles. Mataria por eles – e, de fato, já matei. Esse foi o maior motivo de meus atritos com Caleb, mas, sinceramente, não me arrependo; faria tudo novamente. Mas ali no bar, conversando com eles, eu queria que tudo pudesse ser como antes. A falta de Caleb ainda é como uma sombra que me persegue sempre que estou com Erin ou Elliot, e acho que é por isso que acabei me afastando.

Elliot me contava uma história absurda sobre seu professor de administração financeira quando, subitamente, fez uma careta de dor. Por um instante pensei que fosse uma câimbra ou algo do tipo, mas logo percebi que a careta era por causa de quem ele viu se aproximando atrás de mim: Era Abigail Wolff, tia dele. Abigail, Jacob e Benjamin são os três irmãos donos da Silver Wolf. Benjamin não dava a mínima para eventos sociais e raramente ia a algum, Jacob sempre ia aos que significariam alguma coisa para os negócios, mas havia se tornado bastante recluso depois da morte de Caleb, e Abby adorava a vida de socialite.

Ela me cumprimentou com um beijo na bochecha. Quando ela se aproximou de mim, a pedraria de seu vestido ficou roçando em minha pele de forma incômoda, e eu me perguntei qual seria o incômodo que ela sentia estando naquela roupa. Parecia um catálogo ambulante de pedras preciosas, e devia pesar vários quilos.

- Hannah, querida! Não a vejo há tanto tempo... Desde o velório de Caleb, acho. Não sabia que você viria!

Ela não é muito sensível, principalmente com um assunto tão delicado como este, que nos afeta diretamente, todos os dias. Ao meu lado, Erin suspirou e virou os olhos, e eu puxei um pouco do meu mojito pelo canudo. Tudo o que senti era amargo.

- Pois é – respondi. – Erin e Elliot me chamaram de companhia.

- Oh, entendo. Bem, fiquei procurando vocês por um bom tempo até conseguir achar, não acho que seja muito prudente desaparecerem desta forma. Nunca se sabe o que pode acontecer.

Um homem bem alto e grande havia a acompanhado até onde estávamos, e ficou parado bem atrás dela enquanto conversávamos. Eu não precisava ser uma gênia para entender que era um guarda-costas. Quando Abby começou a falar, minha mente começou a divagar instantaneamente. Ela é chata demais, e ter mencionado Caleb daquela forma tão insensível só me fez ter mais vontade de sair correndo. Então aqui vai uma pequena aula de história, para contextualização a respeito do guarda-costas.

Dizem os historiadores que a região de Silver City já era habitada há mais de 13 mil anos por povos nativo-americanos que viviam de forma isolada. E foi assim até por volta de 1770, quando os espanhóis começaram a tomar posse da Califórnia, criando seus núcleos religiosos. A colonização e a catequização se deram de forma violenta, e, encurralados, estes povos originais não tiveram muita opção: ou aceitavam a dominação, ou aceitavam a morte. De fato, muitos morreram lutando, e os que sobraram assistiram sua cultura desaparecer pouco a pouco. O assentamento litorâneo de Ciudad de La Plata, por sua vez, foi um dos mais prósperos da região, devido à grande quantidade de minerais e metais preciosos ali encontrados, e cresceu rapidamente em população e área. Ciudad de La Plata foi de domínio mexicano até a guerra mexicano-americana, quando os Estados Unidos conquistaram diversos territórios mexicanos, inclusive a Califórnia. Em 1848, portanto, Ciudad de La Plata se tornou Silver City. Ainda hoje nossa economia é fortemente baseada na extração e beneficiamento de minérios em minas e pedreiras afastadas da cidade, bem como sua manufatura. A Silver Wolf trabalha com isso, mas já estou divagando.

No Estado da Califórnia, hoje, Silver City só não é maior do que Los Angeles. Silver City também é pluricultural: Estudos apontam que cerca de metade da população tem alguma ascendência hispânica, e o número de imigrantes é grande, quase 20%. Temos diversos bairros latinos, negros, italianos, judeus, chineses. Mas, apesar desta miscigenação, ainda há muito preconceito e violência, e uma grande desigualdade social. Ciudad de La Plata cresceu e prosperou, sim, mas poderia ter sido melhor. Um dos nossos grandes problemas recentes tem a ver com o tráfico de drogas: Silver City é lar de uma grande organização criminosa ligada ao tráfico internacional, conhecida simplesmente como Pharma. Desde que o homem conhecido como Barão Negro assumiu a liderança da organização, ela controla quase toda a distribuição de cocaína, heroína, metanfetaminas e, ultimamente, mescalina - não apenas em Silver City, mas em boa parte da Costa Oeste. Nos últimos cinco anos, graças à sua atuação, o consumo de drogas na cidade vem aumentando expressivamente, e a administração municipal ainda não conseguiu implantar uma política efetiva de combate. Todas as tentativas até agora só resultaram no crescimento da violência, e o último ano têm sido quase inacreditável.

Acredito que seja por isso que tanta gente naquela festa estava cercada por seguranças particulares e guarda-costas. Quero dizer, alguns, como Abigail, são inocentes, mas fazem isso porque se acham mais importantes do que realmente são; mas a maioria dos magnatas ali devia ter o rabo preso de uma forma ou outra. A Pharma é muito bem organizada e a identidade de seus membros é um segredo guardado a sete chaves, mas especula-se que gente importante e conhecida do público esteja envolvida.

- ...E preciso que vocês venham comigo conhecer o CEO da Thunderstone – dizia Abby quando minha mente parou de vagar. – É a principal fornecedora de matéria-prima para a Silver Wolf, então é bem importante que vocês estejam familiarizados caso pretendam algum dia tomar o lugar dos seus pais.

- Já conhecemos essas pessoas há tempos... – protestou Elliot baixinho, mas duvido que Abby tenha ouvido, porque já o conduzia para longe, contra sua vontade.

Eu ainda estava meio perdida, por não ter participado da conversa, e continuei onde estava. Erin os seguia, mas, vendo que fiquei para trás, se virou para me chamar.

- Vamos, Hannah?

- Oh, ela não faz parte da Silver Wolf – negou Abby -, e não queremos tomar o tempo precioso de ninguém com pessoas que não são dos negócios! Você entende, não é, Hannah? Logo te devolvo meus sobrinhos.

Impressionante. Ela era tão desagradável que nem parecia ser da mesma família que meus amigos – que exibiam expressões incrédulas. Ela me incomodava e me tirava do sério, mas eu não estava mesmo a fim de conhecer empresário nenhum.

- Entendo, é claro. Podem ir, vou ficar aqui e tomar mais alguma coisa.

Ainda um pouco contrariados, Elliot e Erin seguiram Abby e eu logo os perdi de vista, por causa do guarda-costas que ficava atrás deles. Legal. Eles disseram que ficariam comigo o tempo todo nesta porcaria de festa, e ali estava eu, sozinha. E eu garanti que ficaria esperando, mas logo senti fome e saí para dar umas voltas e beliscar alguma coisa. Devia ter levado uma bolsa maior, para surrupiar algumas coisas para comer no café da manhã do dia seguinte.

Alguns minutos depois, estava andando à toa quando avistei Chris Bennett, o mais novo promotor de justiça de Silver City – devia estar no cargo há menos de seis meses, era novato. Na revista em que trabalho, faço parte de uma equipe que está elaborando um relatório da violência na cidade no último ano, e seria ótimo poder contar com alguma contribuição dele. Na verdade, ainda sou relativamente nova na revista e a minha função na equipe tem mais a ver com a pesquisa em bases de dados e a apresentação dos mesmos, mas sei que alguns colegas já tentaram contatar Bennett para uma entrevista e nunca conseguiram – ele é uma pessoa incrivelmente disputada desde que assumiu o cargo. Mas ali estava ele, a apenas alguns metros de distância e, possivelmente, um pouco embriagado. Era minha chance única de conseguir alguma coisa que me desse um bônus.

Observando à distância, esperei pacientemente até que ele terminasse sua conversa com seja lá quem fosse, e antes que ele pudesse dar dois passos para sair do lugar, eu já estava à sua frente.

- Chris Bennet? – cumprimentei, estendendo a mão direita. – Meu nome é Hannah Hayes, sou jornalista da revista Highlight Times. Poderia me dar alguns minutos?

Ele concordou de forma educada, e mencionei rapidamente meu relatório. Elogiei o trabalho dele nos últimos meses, para inflar seu ego – quase senti meu nariz crescer enquanto fazia isso –, e perguntei se não poderíamos agendar uma entrevista. Mas ele estava meio furtivo, não queria dar entrevista nenhuma. Mesmo assim eu insisti, esperando que ele mudasse de ideia por algum motivo.

- Imagino que você esteja tendo bastante dor de cabeça nos últimos dias – eu disse a Bennett, tentando levar a conversa para o rumo que eu queria.

- Sim, é verdade – suspirou ele, tomando mais um gole da bebida escura em seu copo. – Depois da troca de tiros no Kennedy Park na semana passada, mal me deixam dormir.

Uma voz feminina ecoou pelo salão, anunciando o início da cerimônia.

- Senhoras e senhores, sejam muito bem vindos à sexta edição do Leilão Beneficente Recomeçar. Com a palavra, o prefeito Tony Rowsell!

Todos aplaudiram quase roboticamente, e Rowsell subiu ao palco onde antes estava a banda de música. Ele começou seu discurso agradecendo a presença de todos, elogiando a todos, aquela baboseira melodramática de sempre. Ignorei, tentando segurar Bennett o máximo de tempo possível.

- Esse leilão de hoje deve ser bastante importante pra você, que lida todos os dias com as famílias das vítimas da guerra às drogas.

- Fico feliz em poder compensar de alguma forma. Ajuda financeira não vai trazer de volta os falecidos, mas pode resolver outros problemas.

- Deve ser frustrante assumir um cargo tão importante no meio dessa bagunça. Pelos resultados preliminares do nosso relatório, os bairros pobres são os mais afetados, e a violência policial é responsável por quase um terço das mortes relacionadas ao tráfico registradas neste ano.

- Veja, não seja tão rápida em apontar dedos – disse ele. Em seguida, ele olhou furtivamente para os lados, certificando-se de que ninguém estava ouvindo a conversa, e se inclinou para frente, sussurrando baixinho. Seu hálito era de uísque. – Não fui eu que te contei, mas estamos trabalhando com a possibilidade de um novo cartel estar tentando se instalar na cidade. Isso explica o aumento extraordinário da taxa de homicídios.

Um homem sob pressão e umas doses de uísque: esta é a receita ideal para que informações confidenciais comecem a vazar – até então, eu não fazia ideia alguma sobre este possível novo cartel. Mas antes que Bennett pudesse me dizer mais alguma coisa, um dos assessores da organização do evento se aproximou, sussurrando alguma coisa em seu ouvido.

- Sinto muito – me disse Bennett -, tenho que ir. O dever me chama. Mas quer saber, talvez possamos agendar aquela entrevista.

- Seria ótimo.

Eu escondi um sorriso triunfante quando, do bolso interno do paletó, Bennet tirou um pedaço de papel e uma caneta. Ao microfone, o prefeito terminava de fazer seu discurso emocionado sobre a importância deste evento, mas não dei muita bola até ouvi-lo chamar Bennett ao palco.

- Muitas pessoas estão me questionando sobre a recente onda de crimes na cidade – dizia Rowsell ao microfone. – Então, antes de começarmos o leilão, eu gostaria de chamar aqui Chris Bennett, nosso mais novo promotor de justiça. Ninguém melhor do que ele para tranquilizá-los sobre o assunto.

Às pressas, Bennett anotou seu número de telefone e me deu antes de sumir em direção ao palco – de uma hora para outra, ele havia ficado verde de ansiedade. Guardei o papel na bolsa e perambulei pelo salão, procurando por Erin e Elliot. O leilão logo iria começar, e meus pés doíam. Quando o show de horrores começasse, e as pessoas começassem a dar lances astronômicos por meros vasos de cerâmica e coisas do tipo, eu gostaria de estar sentada confortavelmente, para não correr o risco de levar um tombo. Avistei, ao longe, Erin acenando para mim, sentado ao redor de uma mesa com Elliot, Abby e outros representantes da Silver Wolf. O lugar vago ao lado dela era o meu, e tentei seguir para lá. Mas o salão estava cheio, e as pessoas não sabem se comportar em bando. Estava quase impossível abrir caminho sem chutar e cotovelar alguém.

- Ah, senhor Bennett, aqui está você! – disse Rowsell. – Diga a eles como a situação está sob controle. Mas seja breve! Há um burburinho circulando por este salão, de que o juiz Howard Schwarz vai doar alguns milhares de dólares para a nossa causa hoje. Não podemos dar a ele tempo de mudar de ideia!

A plateia riu como se fosse uma piada engraçada. Eu ainda estava longe de Elliot e Erin quando ouvi o barulho de um helicóptero, surpreendentemente mais alto do que o ruído provocado pela multidão. Imaginei que alguma perseguição policial estivesse ocorrendo nas ruas da cidade, mas quando olhei para cima, para a cúpula de vidro reforçado do Solarium Hall, vi uma sombra se aproximar – e o barulho só aumentava de intensidade. Todas as células de meu corpo gritavam perigo, no momento exato em que Rowsell desceu do palco e o microfone foi passado a Bennett.

Mas ele não teve tempo de dizer uma palavra sequer.

O vidro da cúpula se quebrou, deixando cair mil estilhaços como lâminas sobre boa parte das pessoas no salão. Instintivamente eu me encolhi, usando os braços para proteger o rosto. O desespero tomou conta de praticamente todas as pessoas, que corriam e gritavam desorientadas, sem saber o que fazer. Muitas machucadas pelos estilhaços. Algumas tentaram correr para fora, mas todas as portas haviam sido fechadas. No desespero, aglomerações formaram-se próximas às saídas. O helicóptero agora estava pairando bem acima de nós, e, por uma corda, desceu alguém. Me abriguei atrás de uma mesa, longe e fora da vista. Quase podia sentir o gosto da adrenalina em minha língua.

A pessoa que desceu pela corda finalmente pisou no chão, e, por seu porte físico esguio e curvilíneo, vi que era uma mulher. Ela estava de costas para mim, então não pude ver muito bem, mas ela era tão assustadora. Seu cabelo estava preso para trás em longas tranças rastafári, e a roupa que ela usava se parecia com uma armadura feita de escamas, brilhantes e da cor da terra. Ela tinha uma arma automática na mão e outra no coldre em sua cintura, e vi centenas de expressões horrorizadas enquanto ela dava passos lentos em direção ao promotor, a arma apontada para qualquer um que se mexesse.

- Boa noite, nata de Silver City! Fiquem quietinhos, todo mundo. Ninguém sai, e ninguém se mexe.

Neste contexto, o salão ficou em silêncio total, assistindo-a fazer sua entrada triunfal – ninguém ousava nem mesmo respirar. Era estranho... Conforme ela andava, eu ouvia um barulho, como se fosse um chocalho.

- Chris Bennett – disse ela. – Você recebeu o convite para aliar-se aos Saguaro, e recusou. Ao invés disso, escolheu se aliar aos porcos covardes da Pharma. Entregue-se agora e nos diga quem são seus chefes, e você terá uma morte rápida. Se tentar fugir, você morre lentamente. Você e muitos outros aqui.

Eu não sabia bem o que fazer. Sabendo agora que Bennett estava sujo de lama até o pescoço, eu poderia tentar tirá-lo dali e levá-lo até um lugar seguro, para depois ser interrogado pelas autoridades competentes. Eu quase sentia pena ao olhar para ele, com as mãos ao alto, rendido, suando feito um porco. Um pobre coitado, medíocre e derrotado. E de saber que, nem cinco minutos antes, estávamos conversando sem que eu desconfiasse de nada, e ele até mesmo me deu seu telefone!

Mas também havia Erin e Elliot. Nunca consegui chegar até onde eles estavam, e os perdi de vista em meio à confusão. Juro que eu traria o inferno até a Terra se algo de ruim acontecesse com eles, e precisava achá-los e tirá-los dali antes que algo pior acontecesse. Aproveitando a inércia que tomou conta de toda a multidão, fui me movimentando sorrateiramente, me escondendo como podia atrás das mesas para contornar a mulher ameaçadora.

De um novo ângulo, pude observá-la melhor. Ela sorria com malícia para Bennett, e vi que ela tinha presas salientes. O lado direito de seu rosto era completamente marcado por tatuagens brancas que contrastavam com sua pele morena, e vi também que as pupilas de seus olhos amarelos eram como duas fendas verticais. O barulho de chocalho que eu pensei ter ouvido antes subitamente fez sentido, embora eu não soubesse quem era ela ou do que diabos se tratava essa personificação de cobra cascavel.

Mas uma coisa que eu sabia com clareza era que estávamos fodidos. Que inferno. Na minha vida, eu não preciso procurar por problemas, porque eles mesmos já me acham.

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Aug. 18, 2018, 3:01 a.m. 0 Report Embed 1
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