Plastic Follow story

tsukimiko_san Tsuki Miko

Em um mundo onde as máquinas foram subjugadas pelos homens, sentimentos que ultrapassam os limites impostos pela sociedade podem mudar destinos. Um humano e um androide, duas faces da mesma moeda. É possível encontrar um final feliz?


Fanfiction Anime/Manga Not for children under 13.

#yaoi #bl #kiribaku #bnha #bakushima #shounen-ai #crossover #universo-alternativo #boku-no-hero-academia #detroit--become-human #kirishima-androide #bakugou-humano #dbh
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Olá!
Depois de muuuuuito tempo sem postar, eu finalmente terminei de escrever essa one crossover com DBH. Eu fui um pouco nerd escrevendo, me perdoem. Eu amo KiriBaku e amo DBH, espero que gostem!
Beijos de mel ^^

Edit: eu tava relendo essa história e percebi que eu cometi uns plot holes com relação à história do jogo. Peço perdão, de verdade. Na época que eu escrevi, eu não tinha jogado ainda, mas recentemente eu consegui o jogo e percebi um erro grave: os divergentes não eram de conhecimento público e da mídia até o Markus transmitir o vídeo dele na televisão. Eu tentei corrigir, mas iria prejudicar a história. O restante, pelo que eu vi, está correto. Obrigada e perdão de novo.


Kirishima abriu suavemente a porta do quarto escuro, andou até a janela e tocou nas persianas. O LED circular na sua têmpora direita brilhou em amarelo por alguns segundos antes das persianas se abrirem, permitindo que raios da luz do sol penetrassem o cômodo.

— Bom dia, senhor Bakugou! — Sua voz sempre animada preencheu o quarto. — Hoje o dia está ótimo! Temperatura de 17°C, mínima de 15°C e máxima de 27°. Umidade relativa do ar: 69,8%. As chances de chuva são de 36,78%, mas o tempo não está seco. Perfeito para prosseguir com sua rotina de exercícios!

A única resposta do humano foi apertar o travesseiro ao redor da cabeça, tentando isolar seus ouvidos, e gemer um xingamento qualquer. Eijirou riu e se aproximou da cama.

— Senhor Bakugou, eu sei que o senhor pode me ouvir muito bem.

— Que horas são...? — A voz sonolenta de Katsuki saiu abafada pelo colchão, mas o androide conseguiu entender. 

— Oito e quinze da manhã. Quer dizer, oito e dezesseis agora.

— Por que você tem que ser tão chato com horários? Porra. — Bakugou afastou o travesseiro e piscou, tentando acostumar seus olhos à luz. 

— Perdão, senhor, mas essa é a minha programação. O senhor mesmo que... 

— Você acha que eu não sei? — Katsuki jogou o travesseiro nele, o qual Kirishima conseguiu segurar entre as mãos sem dificuldade. O humano então se sentou e espreguiçou-se. Eijirou, a princípio, quando fora escolhido e comprado dentre tantos outros modelos KE700, acreditou que Bakugou também era um androide. Era impossível para um humano ser tão bonito.

Mas Katsuki estava muito longe de ser um androide. Além do fato óbvio de que era humano, nascera humano e morreria humano, também era dono de uma personalidade forte e rebeldia sem limites. Boatos na vizinhança diziam que ele só era visto acompanhado do androide porque nenhum humano conseguiria aguentar ficar ao seu lado. Kirishima não dava atenção ao que ouvia, e sabia que não era verdade. Seu dono apenas tinha problemas em se comunicar com as pessoas.

— Estarei lá embaixo com o café da manhã — cantarolou e correu para a cozinha do apartamento. O androide sabia que seu dono se arrumava rapidamente, então tinha que se apressar. Sem demora, começou a cozinhar energeticamente.

Em tudo que Eijirou fazia, ele colocava toda a sua energia. Claro, fora programado assim. A série KE foi feita, originalmente, como uma linha de personal trainers equipados com um vasto HD e um programa capaz de traçar as melhores rotinas, adaptando-se às peculiaridades de cada dono com facilidade. Dessa forma, os androides tinham uma personalidade pré-programada para se assemelhar a animação. Entretanto, com o passar do tempo, mais funções foram adicionadas à série, até que eles se tornaram praticamente androides domésticos.

— Caralho, você é tão barulhento — resmungou Bakugou, aparecendo na porta da cozinha, já vestido com o moletom e calças de malha. Kirishima sorriu brevemente e voltou à sua tentativa de cozinhar.

— Perdão! Senhor Bakugou, espero que esteja pronto para uma longa caminhada. Eu calculei a melhor rota, mas se quisermos voltar antes do almoço, precisamos partir...

Eijirou se interrompeu ao sentir algo contra suas costas. O androide percebeu que Katsuki tinha apoiado a testa ali, um pouco abaixo da sua nuca. 

— Me dê a porra de cinco minutos — murmurou. Ficaram em silêncio por uns instantes antes que o humano dissesse em voz baixa: — Você é quente. 

— Hm, desculpe-me pela inconveniência, eu posso reduzir o meu nível de atividade interna e resfriar meu corpo se for desconfortável...

— Assim ‘tá ótimo, caralho. Me deixa recarregar minhas energias. – Kirishima queria perguntar que energias eram aquelas, já que o único que precisava de carregamento era o próprio androide, mas não disse nada. — É confortável.

Seu LED piscou em vermelho por alguns segundos antes de voltar ao azul habitual.

— Obrigado — conseguiu murmurar baixinho. 

Eventualmente, depois do café da manhã, Bakugou parou na soleira da porta para calçar os tênis e saíram. De fato, era um dia agradável. O androide ditou o caminho que deveriam seguir. Nos espaços entre as instruções de Eijirou, os dois conversavam amenidades. Nunca vira o humano interagindo com pessoas exceto por repostas curtas e grossas aos vizinhos e diálogos estritamente necessários nos seus empregos de meio-período, mas com ele, Katsuki era diferente. Apesar de sua fala ainda ser regada a palavrões e tom rude, suas conversas costumavam se estender por muito tempo. Kirishima era incapaz de formular opiniões pessoais, mas conseguia comentar e analisar os acontecimentos, o que não os deixava sem assunto.

Foi quando o caminho de ambos foi interrompido por uma comoção em uma rua que deveriam atravessar. A área estava cercada por uma fita de contenção, impedindo que pedestres curiosos se aproximassem de um veículo capotado.

— Um acidente — disse Eijirou, apesar de ser óbvio. — Vamos, precisamos contornar pela praça para continuarmos o caminho.

Para conduzir o dono pelo caminho correto, o androide segurou sua mão e puxou-o. Quando chegaram na praça, Kirishima soltou-o e continuou andando. Ele percebeu que Katsuki não estava ao seu lado e virou para trás, confuso.

— Senhor Bakugou?

Bakugou estava olhando para ele com um pouco de choque e... suas bochechas estavam vermelhas? Oh, céus, seu dono estava doente? Kirishima se aproximou do humano e colocou a mão na sua testa, medindo sua temperatura imediatamente.

— 36,7°C. Ah, ainda bem, você não tem febre! — Eijirou sorriu e viu que o rosto de Katsuki ficou ainda mais corado. Se não era febre, o que era? – Por que o senhor está tão vermelho?

— O quê? Vermelho? Você ‘tá vendo coisas, androide idiota! — Bakugou afastou sua mão e deu um passo para trás. Kirishima estalou os dedos.

—  Ah! Você deve estar cansado! É importante manter a hidratação durante uma caminhada. Espere aqui, eu vou comprar água! — O androide gesticulou para um dos bancos da praça e só quando Katsuki soltou um suspiro de resignação e sentou-se, ele saiu de perto para procurar uma loja de conveniência próxima.

A praça não estava cheia, mas mais pessoas estavam chegando a cada minuto. Crianças com seus cachorros, casais de namorados adolescentes, adultos conversando em uma roda no chão, velhinhos jogando damas... e, claro, os androides. Babás, acompanhantes, empregados carregando compras, até mesmo funcionários do parque, podando árvores e varrendo as folhas. As máquinas humanoides estavam em todo lugar — claro, sempre servindo os humanos. 

Eijirou saiu da praça e atravessou a rua para chegar em uma loja de conveniência. Os prédios ao redor exibiam telões com propagandas da CyberLife, e o androide ouviu alguns humanos comentando que gostariam de comprar o novo modelo divulgado pela empresa. 

Kirishima verificou a entrada da loja, procurando por placas anti-androides, mas não encontrou. Melhor assim. Era sempre melhor evitar confusão. Eijirou passou pelas portas automáticas, dirigiu-se às geladeiras, pegou uma garrafinha plástica de água e aguardou na pequena fila em frente ao caixa. Então, Kirishima notou uma coisa estranha: alguns dos clientes na loja o olhavam disfarçadamente, e quando passavam perto dele, desviavam de seu caminho para se afastarem. O androide mirou seu reflexo rapidamente no vidro das portas, próximas ao caixa, mas sua aparência estava a mesma de sempre: cabelos vermelhos e rebeldes, mas que lhe davam certo charme, pele suave e uniforme como porcelana, e as suas roupas padrão, calças de ginástica, tênis e uma jaqueta com um KE700 escrito em branco sobre o peito, substituído de tempos em tempos pelo seu nome, que havia sido dado por Bakugou.

Estava normal. Não entendia os olhares. Quando chegou sua vez no caixa, decidiu ignorá-los e pediu para o atendente, também androide, passar a garrafinha no leitor. O LED nas têmporas de ambos brilhou em amarelo enquanto Eijirou efetuava o pagamento e, quando terminou, pegou a garrafa e saiu.

O androide chegou a atravessar a rua antes que sentisse um empurrão por trás e caísse na calçada.

Seu LED ficou vermelho. Não teve tempo de se levantar novamente antes que um chute certeiro o atingisse no abdome. Kirishima não podia sentir dor; ao invés disso, seu sistema apitava um alerta, indicando as áreas danificadas. Mais um chute, dessa vez nas costas. 

— O que um pedaço de plástico ‘tá fazendo no meio dos humanos? — Eijirou olhou para cima e viu que um grupo de humanos o cercava. Alguns deles usavam camisetas anti-androides. Recebeu outro chute no abdome, e tudo o que conseguiu fazer foi proteger o tronco com os braços, onde seus biocomponentes vitais ficavam, enquanto as agressões e ofensas vieram de todos os lados. Deveria se levantar e revidar? Xingar de volta? Não. Seu software obrigou seu corpo não se mover, a não fazer nada contra aqueles humanos. Alguma coisa, como um tipo de instinto primitivo e incontrolável, tentou fazê-lo impulsionar seus braços e pernas, mas era como tentar se mover com o corpo completamente amarrado por cordas.  

Antes que aquele conflito interno piorasse, Kirishima ouviu gritos e os chutes cessaram. O androide ergueu o olhar e, para sua surpresa, conseguiu ver Bakugou socando o estômago de um dos humanos, bem em cima da figura do logotipo da CyberLife cortada por um X em sua camiseta. O homem se curvou para frente, abraçando a barriga, e nisso Katsuki aproveitou para forçar sua cabeça para baixo e dar-lhe uma joelhada no nariz.

— Senhor Bakugou...? — Os humanos se afastaram um pouco, receosos ao ver a expressão furiosa e o brilho assassino nos olhos carmesim. Bakugou, além de ser uma pessoa muito irritadiça e antissocial, sabia lutar uma longa lista de artes marciais diferentes, além de não se importar em ser um pouco mais agressivo do que deveria; definitivamente alguém com quem não se deve mexer. Eijirou testou suas pernas e ao ver que os danos nos joelhos não foram grandes, levantou-se e puxou a manga da blusa do seu dono. — Vamos, senhor Bakugou, a polícia vai chegar...

Katsuki não deixou de encarar os anti-androides com ódio, mas deixou que Kirishima segurasse sua mão e o conduzisse calmamente. No caminho, parou para pegar a garrafa de água caída no chão, limpou-a no casaco e entregou ao humano.

— Vamos continuar?

— Como você consegue? — Bakugou apertou a garrafinha com força amassando o plástico. — Puta que o pariu, Kirishima, como caralhos você consegue aguentar? Isso é injusto pra caralho.

Eijirou nunca tinha visto Katsuki tão irritado. O androide não sabia o que fazer. 

— Eu não entendi sua pergunta, senhor. — O humano olhou para ele, descrente. – O que eu deveria fazer? Eu não sinto dor e minhas peças são substituíveis. Isso foi apenas um... contratempo.

— Um contratempo? — Bakugou agarrou a gola da sua jaqueta e puxou-o para a sua direção, de modo que seus rostos ficaram próximos. — Aquilo... Aquilo não foi um contratempo. Não foi a simples porra de um contratempo. Foi covardia! Puta merda Kirishima, você não vê a porra do valor que tem? 

— Va... lor? — Kirishima parou para pensar. Qual era o seu valor? Claro, ele tinha plena consciência do preço pelo qual tinha sido vendido pela CyberLife, mas alguma coisa o dizia que não era àquilo que Katsuki estava se referindo. 

— Sim. O que você representa. Por que você importa. Ou pra quem... — A voz do humano falhou. Ele enfim soltou a gola de Eijirou, abriu a garrafa e tomou longos goles da água. — Vamos logo. Eu só quero voltar pra casa e consertar você. Ou pelo menos tentar.

Bakugou não olhou em seus olhos pelo resto do caminho.

►♦◄

Era uma sexta feira à noite. Bakugou tinha acabado de finalizar uma sequência de exercícios tão intensa que imaginou que estava vivo apenas por milagre. Assim que seu androide sinalizou que o treino do dia estava encerrado, Katsuki se enfiou debaixo do chuveiro e livrou-se do suor e da dor muscular sob a água morna. 

Bakugou comprara, depois de meses juntando dinheiro, um androide personal trainer para que ele não o deixasse esquecer das lutas que aprendera quando era mais novo. Havia tido essa ideia depois de perder uma briga feia, porque seu corpo estava desajeitado ao aplicar os golpes. Desde que tinha fugido de casa aos dezesseis anos, não treinara luta, e não se lembrava mais de como os treinos costumavam ser. Felizmente, sob a tutela de Kirishima, Katsuki se lembrou do sentimento de excitação que tanto gostava quando fazia exercícios. 

Só não tinha saudades daquela dor terrível.

Depois de um demorado banho, o humano desabou no sofá da sala. Seu corpo gritava por descanso, mas seu estômago roncava alto demais para ser ignorado. 

— Precisa de algo, senhor? — Kirishima apareceu na sala. Bakugou refletiu por um instante antes de dizer:

— Pode pedir alguma coisa por delivery? Eu usaria o telefone, mas... você sabe... — Katsuki tamborilou os dedos nas coxas e fez uma careta desconfortável. A conta de telefone da sua casa estava atrasada, e a linha estava ao ponto de ser cortada. Além disso, seu celular não tinha créditos. A única opção que tinha era usar o sistema do próprio androide. 

Bakugou odiava aquela palavra. Usar

Eijirou não parecia se importar. Sorriu e sentou-se do seu lado no sofá. A maioria dos donos de androides nunca deixaria um deles sentar ao seu lado, como um humano — como um igual. Katsuki era um daqueles raros humanos que não davam uma foda para o que a maioria dos outros fazia.

— É claro. — Kirishima nem precisou perguntar. Sempre que Bakugou ficava cansado assim, pedia coisas muito apimentadas, suas favoritas. Seu LED ficou amarelo enquanto pedia comida tailandesa do restaurante mais próximo.

Katsuki, então, ligou a televisão e os dois assistiram, em silêncio, o filme que passava. Era um daqueles filmes genéricos de ação e máfia, e estava no final, então Bakugou não prestou muita atenção na história. Enquanto os créditos passaram pela tela, a campainha anunciou a chegada do delivery.

Eijirou fez menção de se levantar, mas Katsuki o impediu e foi ele mesmo pegar a entrega. Pagou o androide entregador, voltou para o sofá e devorou a comida. Era estranho comer sozinho, mas Bakugou aprendeu a se acostumar com isso. 

Quando acabou, deixou as embalagens vazias na mesa de centro. O filme que passava na sequência já tinha começado. O humano deitou a cabeça sobre as pernas do androide, determinado a tirar um cochilo — Katsuki não podia fazer nada se o colo de Kirishima era mais confortável que seu próprio sofá — mas uma coisa capturou sua atenção: a forma com que Eijirou encarava fixamente a tela da televisão. Era como se estivesse em transe.

Bakugou virou a cabeça para mirar a televisão, e se deparou com as imagens de um super-herói lutando contra um vilão. Ah, era um daqueles filmes. Katsuki não era particularmente fã deles, mas também não desgostava. O herói derrotou o vilão e disse:

Minha força de vontade é mais importante que meu poder! — Ele flexionou os braços e olhou para a câmera de um repórter próximo ao local. — É isso que me faz ser herói! Aos vilões que assolam essa cidade, nunca se esqueçam do meu nome: Crimson Riot!

O humano piscou. Ainda faziam filmes daquele tipo? Lembrava-se de ver aquelas coisas quando era um pirralho. Tinha até o quarto decorado com coisas de um herói dos quadrinhos que ele adorava. Bakugou olhou novamente para Kirishima e viu que ele ainda estava em transe. Será que era um erro do seu programa?

— Wow... — sussurrou. — Minha força... de vontade... isso é tão... legal... — Katsuki viu seu LED piscar em vermelho. Ele levantou e deu um peteleco gentil na testa do androide, preocupado.

— Hey, Kirishima, o que ‘tá pegando? 

Eijirou piscou e o LED voltou ao azul habitual.

— Desculpe-me, senhor Bakugou, eu... Não vai acontecer de novo. — O humano voltou a deitar sobre as pernas de Kirishima, mas sua cabeça não parou de raciocinar. Não entendia tanto de programação de androides, mas sabia que eles não eram supostos de terem esse comportamento.

Porém, lá no fundo da sua mente, Katsuki sabia. Sabia no que androides podiam se tornar, via aquilo quase todos os dias na televisão. E ele não tinha certeza se achava aquilo bom ou assustador.

►♦◄

Kirishima não sabia direito como tinha parado naquela situação, mas ali estava, andando na rua à noite, segurando a mão de Bakugou.

Tinha sido depois de uma das infinitas discussões via mensagem que Katsuki e sua mãe tinham. O humano se exaltou e saiu de casa como um furacão, deixando um Eijirou conflitante para trás. Bakugou nunca lhe dera uma ordem estrita para ficar em casa, então não havia problemas em sair atrás dele. Por outro lado, não fora programado para responder à emoção humana. Não era especializado em relações sociais, então o que diabos deveria fazer? Deveria esperar em casa como um bom androide? 

Você não é um bom androide, Eijirou, alguma coisa lhe dizia. Você nunca foi.

Pouco depois que Kirishima saiu do apartamento às pressas, a repórter na televisão ligada falou:

—...divergentes, o governo irá, como uma medida de segurança, recolher todos os androides...

Eijirou demorou um pouco para encontrar seu dono, mas enfim o flagrou perambulando nas ruas escuras da vizinhança. Kirishima correu até o humano e segurou seu ombro.

Katsuki se virou violentamente, preparado para o ataque, mas assim que viu que se tratava do seu androide, relaxou e voltou-se para frente.

— O que você ‘tá fazendo aqui? — murmurou, colocou as mãos nos bolsos da calça jeans e evitou o olhar de Kirishima.

— Eu... — Hesitou. Na verdade, o androide se sentia errado, mesmo que, após um rápido check-up, confirmou que seu sistema não tinha nenhuma falha. Ele tinha saído... por vontade própria? Era isso que lhe parecia errado?

— Esquece. — O humano suspirou. — Eu devia saber que você viria. Acho que uma parte de mim contava com isso. — Estendeu a mão. — Não me deixe sair sozinho de novo. 

Kirishima se sentiu compelido a entrelaçar os dedos nos de Bakugou, e assim o fez. A cada minuto que passava, sentia-se mais perdido, mas sua única certeza era de que precisava cuidar de Katsuki. Talvez aquilo fosse um simples desígnio do seu programa, ou talvez algo a mais que ele não conseguia identificar. Assim, os dois começaram a fazer o trajeto de volta para casa. 

No caminho, o humano murmurou, baixinho, que a mensagem de sua mãe era, de novo, pedindo para que ele voltasse para casa. Algumas ofensas aqui e ali, que certamente magoaram ambos, e pronto: sua cabeça estava quente demais para pensar direito. Caso Eijirou não tivesse aparecido, Bakugou teria arrumado briga com qualquer um e só Deus sabe o que aconteceria.

— Quando voltarmos, vamos assistir um filme bem merda na TV. O pior que estiver passando. Vai ser tão merda que eu vou esquecer essa porra toda porque eu vou estar ocupado demais reclamando do quanto o filme é uma merda — disse Katsuki. Agora que já tinha desabafado e o peso sobre seus ombros estava menor, já estava andando mais animadamente, ansioso para chegar logo. Kirishima assentiu com a cabeça e se deixou levar. 

Quando estavam a uma quadra do apartamento, interromperam a caminhada perante a visão de um grupo de soldados armados na rua. De dentro de uma casa, saíram dois androides usando uniformes característicos, ambos com as mãos atrás da cabeça e sob a mira das armas dos soldados. Um velho humano estava parado ao lado da porta, alisando a barba branca e observando os androides, provavelmente seus, sendo levados até um caminhão estacionado ali perto. As máquinas humanoides eram empurradas para dentro do caminhão como lixo. Eijirou percebeu que vários deles estavam empilhados lá dentro, olhares vazios e LEDs piscando em azul como se nada estivesse acontecendo.

Bakugou percebeu o problema antes de Kirishima. O humano puxou a mão do androide, deu meia volta e andou apressadamente, aproveitando-se da escuridão para passarem despercebidos.

— Mas o apartamento é para lá...

— Não viu que porra eles estão fazendo? — sussurrou agressivamente e tentou não chamar atenção enquanto virava uma esquina. 

— Eles estão recolhendo androides... não sei o porquê, mas pode ser apenas uma revisão da CyberLife... 

— Pode ser que sim. Pode ser que não. — Apertou a mão de Kirishima com mais força. — Mas eu tenho um mal pressentimento... Você viu como eles estavam tratando os androides? Como criminosos! Como a porra de criminosos! Você conhecia aqueles dois androides, não é? Eles nunca ergueram um dedo contra um humano. O que eles fizeram de errado?

A pulsação de Katsuki estava acelerada, Eijirou conseguia sentir através dos seus dedos. Deveria pará-lo e fazê-lo se acalmar. Era esse o seu trabalho. Mas ele sabia; de algum modo, ele sabia que Bakugou não sentia apenas raiva, mas sim medo; e medo não era algo que se resolvia tão facilmente. 

— Se a gente pular essa cerca, estaremos na frente de casa. — O humano apontou para uma grade de metal que delimitava um canteiro de obras vazio. — Eu não vou deixar te levarem. Não vou. Mesmo que você se torne um... — Hesitou. — Nunca. Nunca, nunca, nunca.

— Eu já entendi. — Kirishima ergueu suas mãos e uniu suas palmas com os dedos entrelaçados. Androides costumavam transmitir informações dessa forma; Katsuki não era um androide, mas Eijirou esperava que tivesse êxito em transmitir a informação que queria, a única que importava: não o deixaria. Fosse Bakugou seu dono, fosse algo mais, aquela convicção não mudaria.

Pularam a cerca, atravessaram o terreno, subiram em um contêiner e se prepararam para passar para o outro lado do muro. Kirishima já conseguia ver o prédio onde moravam. O androide estava sentado no topo do muro e puxava Katsuki pela mão para impulsioná-lo para cima quando uma luz vinda de dentro do canteiro de obras cegou-os. Eijirou tentou desesperadamente reajustar a sua visão e conseguiu recuperá-la antes que o humano, mas o que viu não era nada bom: vários soldados apontavam suas armas para eles, enquanto iluminavam o local com lanternas acopladas aos seus uniformes.

— Desçam. Agora — ordenou um deles, a voz soando robótica por baixo do capacete. — Você, humano, entregue este androide e sairá ileso.

Kirishima estava receoso e tremia. Era aquilo que chamavam de medo...? Impossível. Não deveria ser capaz de sentir emoções humanas.

Mas nenhuma programação da CyberLife explicaria por que Kirishima sentia tanto pavor de perder Bakugou Katsuki.

Resignado, o androide aceitou seu destino e começou a soltar seus dedos, mas Bakugou o impediu, apertando-o com mais força.

— Eu disse nunca, não é? E eu não descumpro a porra das minhas promessas. — O humano puxou a parte da frente da jaqueta de Eijirou e selou seus lábios. A mão que segurava a sua roupa tremia, mas Katsuki se manteve firme. Foi como se Kirishima tivesse levado um choque. O androide ficou ali, parado, enquanto Bakugou se afastava e virava para os soldados. — Nem fodendo — respondeu. — Esse androide aqui... — Soltou suas mãos e encostou no peito de Eijirou, sem desviar o olhar. —...Vocês nunca vão pegar.

E com um simples empurrão, Kirishima despencou do muro.

Antes que atingisse o chão, ouviu o tiro.

►♦◄

Estava há dias correndo. Fugindo. A caça aos divergentes estava ficando cada vez mais rigorosa, então precisava se esconder o tempo todo. 

Kirishima ainda estava desacostumado com aquele título. Divergente. O androide não sabia quando exatamente tinha tomado consciência sobre o mundo em que vivia e desenvolvido características pessoais. Talvez tivesse sido um processo gradual. Já tinha visto no jornal antes; a divergência não se manifesta de maneira regular para todos os androides.

Outra novidade eram as lágrimas. Desde aquele momento em que caiu daquele muro, o som do tiro não saía da sua memória, bem como as lágrimas insistiam em escorrer pelas laterais do seu rosto. Não sabia se seu benfeitor estava vivo ou morto. Aquela dúvida, somada à saudade que tinha recém-aprendido a sentir, o matavam e corroíam por dentro.

Eijirou tinha arrancado o LED vermelho da sua cabeça e tirado a jaqueta com sua identificação há dias — o número KE700 não importava mais agora. Entretanto, ainda usava o restante das roupas, que agora estavam aos farrapos. Não importava. Ele agora tinha um objetivo; algo muito maior, e que não podia esperar. 

Lembrou-se da androide ferida que encontrara no depósito de lixo no dia anterior, onde estavam jogando os androides desativados. 

Consegui escapar da desativação, mas fui atingida. Ela, já sem pele, exibindo apenas a carapaça plástica sem cor, genérica para todos os androides, segurou a lateral do quadril, de onde vertia sangue azul. O dano foi grande demais, meus biocomponentes estão falhando.

Eu vou te ajudar! Kirishima tentou parar o sangramento, mas era inútil.

Pare. Eu vou ser desativada em vinte segundos. Ela inspirou fundo. Eu vivi uma boa vida. É uma pena que não viverei para ver meus ideais se realizarem. Mas você pode. Lute. Herde o legado do nosso povo.

Como...? A androide agarrou seu antebraço e a pele na região tremeluziu. Os dois se olharam fixamente, enquanto memórias fluíam para a mente de Eijirou. Uma localização. E uma ideia.

Encontre Jericho ela disse, antes que seus olhos se fechassem e o aperto enfraquecesse.

Kirishima despertou de seus devaneios. O vento batia em seu rosto e bagunçava seus cabelos. Por trás da franja, seus olhos cor de rubi se fixaram no horizonte.

O que quer que tenha acontecido com você... pensou, imaginando o humano de cabelos loiros e olhos escarlate parado ao seu lado, a mão apoiada em suas costas, compelindo-o a prosseguir. Olhou para o navio cargueiro abandonado no horizonte, enchendo-se com uma nova determinação e começou a andar. Não terá sido em vão.

E aí? Gostaram? O que vocês acham? Biribinha tá vivo ou não? Quero ver suas apostas!Ah, e um aviso: vocês devem ter percebido que eu não marquei a história como concluída. Isso é porque, mesmo que Plastic seja uma one-shot... eu estou planejando extras! Calma, nada de continuação ou algo assim (se não vai virar uma longfic), apenas extras. O crossover DBH!BNHA é ouro puro, e eu estou amando!Beijos de mel ^^

Aug. 1, 2018, 10:25 p.m. 0 Report Embed 0
Read next chapter EXTRA 1: Become His Android

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