Cão Tigre, o guardião da Páscoa Follow story

sweet-mary Mary

Um conto sobre um cão muito especial que não viveu para envelhecer, mas o suficiente para deixar lembranças...


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Cão Tigre, o guardião da Páscoa

Era uma noite fria de outono, fria mesmo, mamãe tinha preparado uma sopa de músculos para os três pimpolhos e depois nos colocou para dormir, como sempre fazia. O dia seguinte seria o tão aguardado domingo de páscoa, amado pela criançada que se esbaldava de alegria ao encontrar as cestinhas coloridas com papel crepom, balas, caramelos, coelhinhos de chocolate, os doces distribuídos de maneira democrática para os três irmãos, ainda que a caçula não aproveitasse tanto por ser tão pequenininha.

O domingo de páscoa raiava embrulhado pela lua, frio e cercado de estrelas, daquele silêncio celestial. Tigre dormia na área de lajotas, sempre à espreita, no seu lugar preferido. Um estrondo, porém, interrompeu o descanso e o colocou em alerta.

Au! Au! Au!

Aqueles latidos faziam a vizinhança tremer na base, uma espécie de sirene. O muro da nossa casa não era lá muito alto, mas quem nos protegia tinha sono leve e metia medo nos engraçadinhos de plantão. Com aquele tamanho, aquele cão de porte gigante afugentava (e muito) quem possuísse más intenções e ressalto que o que tinha de grandalhão tinha de desastrado.

Au! Au! Au!

Os moradores da casa despertaram com os latidos daquele guarda de quatro patas. Eu, pequenininha, arrastando os pés pelos pisos de madeira, cheguei até a sala escura e mamãe pediu para eu voltar para o quarto porque o coelhinho estava chegando. Estava tudo escuro mesmo e eu, claro, acreditei.

Au! Au! Au!

Mamãe me explicou que o Tigre estava conversando com o coelhinho que chegou esbaforido e estabanado, tomando o maior susto com aquele cachorrão que era grande de tamanho e de coração. Estava tudo bem e eu devia voltar para a cama. Naturalmente fiz isso e acordei na parte da manhã com a minha cestinha colorida cheia de doces, recomendada de apreciar com moderação para não ficar com dor de barriga depois.

Determinada a descobrir como era o coelhinho, dediquei-me a investigar cada centímetro daquele quintal que foi cenário da minha doce primeira infância. Procurei com muito entusiasmo, debaixo do tanque, olhei para o pé de jabuticaba a fim de avistá-lo escondido por entre os galhos como quem brinca de esconde-esconde e teme ser achado, pelas folhas caídas pelo gramado verdinho, queria um único sinal dele, qualquer que fosse. Sinto dizer-lhes minhas buscas foram infrutíferas. Ele sabia agir sem ser visto, até porque se nos encontrássemos, o encanto se perderia.

No final das contas, o Tigre também ganhou sua recompensa de bom menino, um osso bem grande para roer na área de serviço naquele domingo de sol, feliz para a criança que não tinha preocupações e para aquele bichinho tão amável que guardava segredos como ninguém, adorava cafunés na cabecinha e só tinha amor a oferecer, tanto amor que escrever sobre ele é como preencher um coração partido com todas as cores da esperança.

Na Páscoa seguinte o coelhinho apareceu, mas não encontrou o Tigre. Voltou outras vezes, nunca mais soube dele. Apesar do susto no início, eles haviam se transformado em grandes amigos. Tigre era um camarada tão especial que se entrosava bem com a cachorrada na rua, com a criançada que deitava e rolava com ele, por que seria diferente com o coelhinho?

Dois meses após a Páscoa, a família foi a um casamento de um parente do qual não lembro agora e o Tigre, claro, se prontificou a cuidar da casa. No dia seguinte, estava abatido, como se tivesse perdido algo muito importante. O olhar caído, um rezingo de dor, não apenas a tristeza por ter ficado sozinho por algumas horas. Ele não sabia falar com palavras, todavia indicava que não era mais o mesmo. E não foi um reles desânimo. Pouco a pouco aquele trambolho que fazia a alegria da casa não conseguia mais caminhar. O veterinário fez tudo o que estava ao alcance para ajudar; visitou o amigão pessoalmente, prescreveu remédios porque todo mundo queria entender o que ocorreu com o cachorro mais feliz da rua.

Eu era pequena demais para me dar conta de que meu amigão estava partindo a cada dia que passava. Não havia mais um rabinho abanando quando eu voltava da escola nem um caçador de ratos que dava uma volta olímpica pelo quintal a fim de mostrar seus dotes inigualáveis de caçador. Aquele brilho nos olhos também se apagava, a dor estava inscrita em cada suspiro. Aquele sofrimento era muito pesado para uma criança de quatro patas, ele só tinha um ano e meio, um garotinho explorando o mundo com olhos curiosos, patas enormes, narinas determinadas. Aquele coração cheio de ternura e lealdade batia devagarinho, silenciando-se aos poucos ao longo daquele inverno.

Num dia (lembro-me de ser uma terça-feira), voltando da escola, minha mãe teve de dar a notícia que nem ela própria queria aceitar: nosso Tigre tinha partido para o céu dos cães, perdido a luta. Parecia mentira, até porque a esperança sempre sobrevive, entretanto, nosso amigão já estava desenganado e se foi com dignidade, mesmo sendo cedo demais.

O quintal ficou grande e ao mesmo tão vazio que podia nele caber toda dor do mundo. Tigre não mais correria nele, nunca mais caçaria ratos e sapos e sairia desfilando como se fosse um grande astro. Tigre nunca mais tomaria banho de mangueira nem ganharia ossos para roer quando o meu pai fizesse churrasco, nunca mais seria o centro das atenções das visitas.

Tigre nasceu num dia qualquer de abril, conheceu o coelhinho, amedrontou tantos ladrões e foi rendido por uma (maldita) aranha-marrom. Lutou pela vida com a honradez de um guerreiro, até o último suspiro, o último ganido. Morreu numa manhã abafada de inverno, aquelas típicas manhãs cheias de nuvens que abriam alas para a chegada de um camarada que viveu tão pouco, não tanto que não tenha tocado o coração de uma família inteira, deixando seu legado cheio de babas, meiguices e travessuras.

Aquele amigo, quando se erguia nas pernas dianteiras, era maior do que eu e nunca foi capaz de me agredir com uma mordida que fosse, podia até me derrubar por conta do tamanho (e era aceitável), mas sempre, sempre, sempre foi um ótimo companheiro de aventuras, comigo explorava aquele quintal verde onde vivia um pé de jabuticaba, tal qual a cor dos meus olhos e daquela noite na qual Tigre, intrigado com o visitante, ladrou para anunciar que ninguém faria mal à sua família.

Meu pai trouxe outros cães para que nós não sofrêssemos a saudade do Tigre (o qual redesenho com exatidão nos cavaletes do meu coração, mas tal como muitos momentos na vida não tenho fotografias para olhar), porém essa lembrança fez daquele fila brasileiro uma lenda da minha infância, junto com o coelho, o Papai Noel, a fada do dente e a ilusão de que dentro da televisão moravam todos aqueles personagens especiais das séries, novelas e dos desenhos animados.

Muitas páscoas vieram, as cestinhas coloridas continuaram a acompanharam a criançada até elas crescerem. Algumas temporadas foram mais magras, outras mais fartas, a inocência se foi, porém me emociono quando penso no Tigre, naquela noite tão curiosa, em como a imaginação sempre foi tão rica e tão bonita. Quantas vezes desejei escrever sobre esse cachorro, assim, mesmo que já façam tantos anos daquela madrugada inusitada, ainda me lembro, o guardo no coração, onde aranha-marrom nenhuma vai acabar com esse amor.

April 21, 2019, midnight 0 Report Embed 0
The End

Meet the author

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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