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ayzu-saki Ayzu Saki

O que um ex soldado que não pode mais ouvir, uma criança excêntrica obcecada por post-its e uma escritora de contos eróticos fracassada tem em comum? A resposta: as noites calmas de Nantes, um gato caolho que ninguém tem certeza de onde veio e um velho ditado lídiche que diz ‘o homem planeja e Deus ri’. E como ele ri.


Short Story For over 18 only.

#campnonanowrimo #boyxboy #mas-tem-angst-também #é-fluffy #Escritora-sarcástica #Provérbios #Um-pouco-de-romance-também #Nantes #Síndrome-de-Asperger #TEPT #fluffy #gatos
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Éclair de Limão

“Nobody raise your voices

Just another night in Nantes.”

Nantes, Beirut

……………………………………………………………………….

É assim que se torna dono de um gato?

Naquela manhã ele acordou com o gato pedindo comida. Ele estava lá, sentado na beirada da sua cama, o fitando em expectativa depois de o ter acordado com uma pata na cara, provavelmente depois de ter percebido que ele não ouviria os seus miados.

Seria uma cena normal pela manhã, tinha certeza disso.

Se ele tivesse um gato. Coisa que ele tinha certeza que não tinha antes de ir dormir.

Observou o animal, ainda fascinado com esse evento inesperado, enquanto sentava no colchão. Ergueu uma mão em direção ao bichano e ele veio, se esfregando na sua palma, e conseguia sentir as vibrações de seus ronronados de forma confortante.

Não conhecia muito sobre gatos, por isso não sabia se ele tinha alguma raça ou coisa assim, mas ele com certeza era peculiar. Desde seu pelo manchado de forma quase geométrica de preto, bronze e branco lhe dando um aspecto sujo e mesclado, até o seu único olho que o fitava, enquanto no lugar que deveria estar o outro se encontrava apenas pelo e tecido cicatrizado cobrindo a órbita vazia.

Sentiu simpatia repentina. Camaradagem ao pensar em seu mundo silencioso, ao fitar sua bengala no canto da cama onde tinha a colocado na noite anterior.

-De onde você veio?

Como sempre foi um pouco estranho não ouvir sua própria voz, mas se sua fala saiu estranha, o animal não pareceu se importar, ele continuou o olhando intensamente, se esfregando em sua mão e beliscando seus dedos em uma ordem muda.

Quando desceu da cama, suas articulações doendo na manhã fria, o animal apenas se esfregou em suas pernas antes de seguir a frente para a cozinha, como se comandasse todo o lugar, e um sorriso exasperado se colocou em seu rosto.

'Deve ser assim que se ganha um gato?'

Algum tempo depois, com o leite já no prato no chão, e o bichano invasor o fitando entre as lambidas com seu único olho no rosto cheio de cicatrizes, teve o pensamento mais nítido que tinha em semanas:

'Todos tem suas cicatrizes de batalha'.

Fitou sua perna praticamente inútil, o silêncio total que era seu nome há quase um ano.

'As nossas só são mais visíveis.'

Se sentiu um pouco triste quando depois de terminar a refeição e se esfregar uma última vez em suas pernas, o bichano saltou com graça por sua janela e sumiu pela manhã fria.

....................................................................................

Procurando inspiração no silêncio

As pessoas diziam que as noites parisienses eram iluminadas. Sempre havia algo a fazer, um lugar para ir. Sempre movimento e música.

Romance.

As noites de Nantes eram silenciosas. Era como se o mundo lá fora não existisse. E não pela primeira vez se perguntou o que diabos fazia ali.

'Procurando inspiração no silêncio?'

Fez um muxoxo e flexionou os dedos doloridos do teclado, se recostando na cadeira enquanto acendia um cigarro. Através da fumaça no ar mirou a tela, querendo apagar tudo o que havia escrito durante o dia, como Penélope e seu tapete.

Já conhecia bem o sentimento, por isso logo se ergueu e foi até a janela, olhar a noite silenciosa, vendo as luzes e o rio cortando a cidade.

Soltou a fumaça pelo nariz e pensou, não pela primeira, o quão mais fácil seria apenas desistir. Já não era uma jovem. Chegava nos 40, não tinha filhos, nem família e morava em um apartamento quarto e sala, quase um cortiço, e se morresse sabia que estaria no jornal como a velha que só foi encontrado o corpo quando começou a feder, porque ninguém sentiria falta.

Seus pensamentos depressivos foram interrompidos por um movimento na sua sacada. Logo viu o olho amarelo a fitando com intensidade e suspirou.

-Ah sim, você de novo. Estranhei não ter aparecido essa manhã.

Entrou já conhecendo a rotina, sentindo logo o movimento dele entre suas pernas enquanto ia até a cozinha procurar algo para ele mordiscar.

-Vou te contar. - Colocou os petiscos no prato e sentou no sofá velho, acendendo outro cigarro. - Não consigo decidir esse enredo mais, está uma bagunça.

Recebeu como resposta o miado de praxe.

-Não consigo nem mesmo escrever uma cena de foda direito, por que me tornei cínica demais, vou te falar. Apesar de ser tudo o que aqueles bostas querem. Bem. - Ponderou soltando a fumaça. - Paga as contas pelo menos. É o que o pessoal gosta.

Deixou que ele viesse até seu colo, as vibrações confortantes enquanto falava.

-Eu queria mesmo algo diferente, não foi para isso que vim aqui, hn? Escrever putaria e falar com um gato estranho no meio da madrugada, porque não tem ninguém mais. - Olhou o bichano que a fitava com a intensidade de sempre. - Não que você seja má companhia, é melhor que muita gente, chérie.

Como resposta recebeu mais um ronronar.

-Bem, se eu morrer, sei que você pelo menos sentiria minha falta, vagabond.

............................................

Um dia ruim

Havia sido um dia ruim.

De vez em quando tinha esses dias, quando tudo era demais e o mundo lá de fora parecia barulhento, estranho e sem nexo algum. Dentro tudo era mais silencioso. Calmo e com mais sentido e ordem.

Segurou forte a mão do papa. Ele entendia isso. Entendia sua necessidade do silêncio as vezes, quando o que queria dizer não conseguia sair em sons, e sua própria voz parecia uma música estranha demais, e as expressões das pessoas o deixavam confuso.

Papa entendia, e tentava explicar a professora que o olhava tão preocupada, como se fosse uma espécie estranha de bicho, em meio a animais conhecidos.

-Vamos tentar amanhã novamente.

Papa sorriu de modo triste ao se despedir.

A mão dele era quente, e a voz dele era cadenciada. Não era barulho, mas como uma música, formando notas e acordes, criando uma sinfonia que o acalmava enquanto caminhavam pela rua no fim de tarde.

Pararam na rua antes dos pés de jacarandá, como sempre faziam. O cheiro de pão quente e fresco no ar, dos doces invadindo suas narinas e seu passo ficou mais animado com a familiaridade.

Os dois pararam no café, e sentaram na mesa de sempre, de onde podia ver o rio, e olharam o menu, mesmo sabendo que pediriam sempre a mesma coisa. Era o ritual. Pediam chá e éclair de limão quando tinha um dia ruim. Quando papa que tinha um dia ruim pediam flan, e nos sábados era dia de mille feuille.

Esperavam o pedido quando ele apareceu. Piscou, o fitando confuso quando ele o olhou, seu único olho amarelo intenso. Uma anomalia na rotina, podia dizer.

Não tinha muita certeza do que fazer quando ele se enroscou em suas pernas, ronronando. Levou a mão hesitante ao pelo surpreendentemente macio e sentiu as vibrações, o miado baixo. Melódico.

Suspirou satisfeito com isso.

-Fez um amigo?

Olhou para o papa e assentiu, o ser estranho subiu em seu colo sem cerimônias.

-Hm...melhor pedirmos algo para ele, não acha?

Pensou um pouco e assentiu, apontando para o lait no menu.

-Certo. – papa olhou, com uma expressão que não entendia, como sempre. – Espere um pouco.

E assim, o gato terminou se refestelando em leite ao pé da mesa dos dois, se esfregando em suas pernas enquanto saboreavam éclair e o chá da tarde.

Sentia-se melhor. Seu papa sempre fazia as coisas ficarem melhores. E os ronronados ajudavam.

Tocou a mão dele e ele o fitou atento enquanto mexia suas mãos.

Acha que ele tem dono?

-Hum...não tem coleira, mas quem sabe? Provavelmente é um vagabond.

Olhou curioso.

-Vagabond? É quem anda de lugar em lugar, sua casa é o mundo.

Parecia meio inseguro.

E o olho?

-Parece um acidente, vê as cicatrizes? Não parece uma má-formação.

Acha que alguém bateu nele?

Seu papa passou a mão na cabeça do animal, avaliando.

-Difícil dizer, ele parece bem amigável não acha? Às vezes quando alguém é machucado assim fica bem mais arredio. Mas quem sabe?

Nesse caso, ele é um animal estranho.

Seu papa riu, mas não desmentiu.

-O pelo dele é bem bonito não acha? Bem colorido.

E era. Haviam tantas cores nele, como gostava. Como uma tela andando por aí em quatro pernas. Como sua parede de post-its em casa.

-Eles chamam de mosaicismo, por isso o pelo fica assim.

O que é isso?

- É uma anomalia genética. – Assentiu, anomalia era uma palavra que já sabia há três meses – O corpo de cada ser vivo é formado por células, cada ser tem grupos próprios dessas células dele, chamadas linhagens, e dentro delas fica o DNA. Como elas são organizadas diz como você vai ser. A cor do cabelo – papa tocou em seu cabelo ao dizer isso. Não se importava quando era papa que o tocava, por isso deixou. – A cor dos olhos, da pele. Faz quem ele é. Entende?

Franziu o lábio e pegou um post-it da dúvida no bolso. Lilás era para as dúvidas, quanto mais berrante maior era a dúvida. Seu papa esperou pacientemente enquanto pegava a caneta e escrevia. Às vezes era mais fácil do que falar com as mãos, principalmente com palavras grandes.

Estendeu o papel e esperou.

- Como os acordes em um arranjo? Ah sim. O DNA são como as notas, as células os acordes, as linhagens formam o arranjo. E bam! Temos a música. – Assentiu ainda mais curioso, o gato bem sentado em seu colo fitava sem pai também, como se atento a conversa. - No moisacismo, o ser tem dois grupos, linhagens, de células diferentes. Dois arranjos se juntam e formam uma música diferente. Entendeu?

Assentiu e ele sorriu, satisfeito.

Mosaicismo. Uma palavra nova. Ia a escrever no post-it verde-limão, era o post-it de palavras novas. E vagabond. Hoje estava aprendendo muitas palavras novas.

-Às vezes esqueço que estou falando com um menininho de 8 anos, sabia? – papa comentou, coçando o nariz do jeito que fazia quando pensava. – E não com um dos alunos na universidade. Desculpe, mon petit.

Deu de ombros. Não se importava, não era como se não conseguisse entender. Ele aprendia muita coisa com papa sempre murmurando enquanto estudava, e anotava tudo em seus post-its. Verdes quando sabia, lilás quando queria perguntar depois, rosa quando achava muito interessante. Como heterocromia. Um olho de cada cor que papa tinha. Era a coisa mais interessante que conhecia, por isso estava no post-it rosa, ao lado das músicas novas que aprendia no piano.

O gato – vagabond? – terminou o leite e os seguiu até a esquina, sumindo acima de um muro depois de um último miado.

Acenou um adeus e seu papa fez o mesmo com uma risada.

A mão de seu papa era quente e segura, o firmando no mundo enquanto caminhavam. Devia ser difícil ser um vagabond.

Liberdade parecia solitário.

-Ah, antes que eu esqueça. – ele parou no caminho, tirando algo do bolso.– Vi hoje no caminho do trabalho.

Era de um azul turquesa brilhante e assentiu maravilhado estendendo a mão para o bloquinho de post-its. Gostava mais de verdes-limão e rosa, mas azuis eram o terceiro, logo acima de lilás.

-Merci.

Doeu um pouco a garganta falar depois de um dia inteiro calado, mas seu papa não pareceu se importar.

Ele segurou sua mão e continuaram o caminho, a voz de seu papa como música batendo nas calçadas, conversando pelos dois.

Talvez não tenha sido um dia de todo ruim.

.....................

No silêncio de Nantes

O gato continuava aparecendo, todas as manhãs. Em duas ocasiões no meio da noite, o acordando de um pesadelo com uma pata em sua cara.

Era uma situação tão inusitada, que as vezes pensava que estava o imaginando. Ainda assim, a presença dele o ajudava a respirar e centrar, os tiros, as explosões sumiam e davam lugar a seu quarto, os gritos substituídos pelas vibrações de um ronronar em seu peito.

E o olho intenso o fitando com curiosidade.

Ainda não conhecia ninguém em Nantes, além da terapeuta que haviam o assinado. Havia se mudado no prédio há dois meses, e único lugar para o qual saia era para o centro para se adaptar a língua de sinais, e para a padaria no fim da esquina.

Mesmo que quisesse fazer amizades, sua comunicação ainda era limitada, sua leitura labial estava melhorando, mas ainda era difícil. Era difícil tentar trabalhar ao redor da perda de algo que teve a vida inteira em um espaço de um ano, ainda mais quando a perda da sua audição não era o pior problema.

Ele ainda ouvia o barulho da explosão as vezes, mesmo fora de seus sonhos. Via o campo de batalha e confusão sobre o que tinha acontecido. Em um momento está lá com o grupo atravessando civis, no outro haviam pedaços de corpos a metros de distância. Eles disseram que tivera sorte, perdera a audição e mancava da sua perna direita, mas estava vivo.

Voltara para casa com uma medalha no peito, três amigos mortos e transtorno de estresse pós-traumático. Tivera que voltar a morar com os pais. Nunca esqueceria dos olhares de piedade em todo mundo, das expressões confusas de quem não sabia o que fazer.

Ir embora havia sido um alivio para todos, apesar das lágrimas e do choro. Ele não pertencia mais ao lugar que antes era seu. O seu eu de antes havia morrido naquele campo de batalha, havia retornado apenas como um fantasma do que era, e não sabia bem o que fazer com as cartas que tinha na mão no momento.

-Por que Nantes?

Seu pai havia perguntado.

‘Por que é silencioso.’

E silêncio era o que lhe restava agora.

E uma pata na sua cara que o acordava dos pesadelos a noite.

................................

Coisa boas levam tempo

Mille feuille foi o primeiro doce que experimentou ao chegar na França, há quase 10 anos atrás. Era um doce caro, e que demorava a ser feito, e talvez por isso fosse tão delicioso. Para ela tinha gosto de esperança e expectativa.

Suas esperanças e expectativas foram para o ralo há anos, mas o gosto do doce ainda estava na sua boca, embora hoje em dia fosse raro se dar a esse luxo.

Não que ganhasse mal.

É surpreendente o número de pessoas que gostam de ler romances eróticos. Algo proibido e prazeroso, porém algo que você não sai contando para todo mundo.

-Qual é seu livro favorito?

-Aquele que o chefe e a secretaria fodem na mesa a cada 10 páginas.

Improvável.

E isso era o que lhe comia por dentro. A vida de um escritor se resumia em ter dinheiro e não ter reconhecimento, ou fazer algo que você gosta e não ter dinheiro e nem reconhecimento. Ou por algum milagre ter reconhecimento, mas você já está morto quando ele chega.

E tem aqueles que tem dinheiro, e tem reconhecimento ainda vivos. Essa era a categoria que queria se encaixar, se possível um dia, muito obrigada!

O problema era que as ideias eram como pássaros voando ao redor de sua cabeça, sem conseguir capturar nenhum. Como escrever algo significativo para as pessoas, e que fosse significativo para ela também?

-Você tem alguma ideia, vagabond?

O gato caolho a fitava da janela com curiosidade, lambendo sua pata sob a luz da lua e dos postes.

-Você deve ver muita coisa por aí, sempre indo e vindo. Imagino o que se passa nessa cabecinha.

-Meow.

-Uhum, você podia me ajudar sabia? É nessas horas na estória que acontece um milagre, vem a luz da revelação.

-Meow.

Suspirou.

Amanhã comeria um Mille feuille.

Estava precisando sentir o gosto da esperança.

...................

O mistério

As outras pessoas eram um mistério. Elas estavam sempre dizendo coisas que não tinham sentido algum, mas agiam como se ele que estivesse dizendo alguma coisa estranha.

Papa dizia que era seu próprio gênio, mesmo vendo o mundo de uma forma como ele não entendia, mas papa tentava, e não se irritava quando não entendia algo. Ele apenas o ajudava a pregar os post-its ao redor com cada resposta, e lhe explicava as coisas sem sentido que ouvia quando saiam.

O que ultimamente ele não gostava muito de fazer. Sair do conforto de casa, seu lugar conhecido, quando lá fora tudo era tão estranho e ilógico.

Ele não gostava muito do mundo lá de fora as vezes. De multidões, e de outras crianças que sempre falavam tanta coisa sem sentido, faziam tanta coisa sem lógica. Não gostava da forma como sua professora às vezes o tratava como estúpido, ou como algumas mulheres e homens agiam ao redor do seu papa, ou como algumas pessoas tentavam pegar em sua bochecha sem permissão e o abraçar.

E mais que tudo o desagradava não entender as expressões de seu papa as vezes, justo ele que sempre fazia de tudo para entende-lo.

-Êtes-vous contents?

Era importante saber.

- Êtes-vous triste, papa?

Papa dizia que sempre podia perguntar se tivesse uma dúvida em algo. E se ele estivesse triste, os abraços dele, ele dizia, sempre o faziam ficar melhor. Seus abraços eram a éclair de limão dele, ao que parecia.

Assim como tinha coisas que não gostava, tinha algumas coisas que apreciava de verdade, como tocar piano, ouvir a voz do papa quando ele murmurava enquanto lia em voz baixa na sala e post-its coloridos.

Gostava de ir ao trabalho dele as vezes, e sentar perto da mesa dele enquanto o ouvia falar por horas e escrevia nos post-its para perguntar depois, ou entregar a alguns dos alunos dele que sempre o respondiam como podiam. Às vezes alguns deles os traziam post-its também, um dia até uma menina lhe deu um bloquinho que tinha todas as cores que conhecia! Havia ficado tão feliz que deixou ela lhe abraçar e escreveu um merci no post-it rosa choque brilhante, que ela sempre lhe mostrava pregado na capa do seu caderno desde então.

Gostava do chá das tardes, e de pregar post-its nas paredes do prédio onde morava as vezes, com recados para estranhos encontrarem. As vezes quando voltava lá alguém tinha respondido sua pergunta, e sempre os pregava na parede esquerda do quarto e ficava olhando por horas antes de dormir.

Gostava do gato vagabond que agora sempre aparecia quando precisava. Quando tinha um dia ruim, ele surgia de algum lugar, sentava em seu colo e fazia suas vibrações musicais que podia sentir com os dedos. Ele conseguia lhe tirar de seu pânico quase tão rápido quando papa.

Ele sempre aparecia.

E nunca ficava muito tempo.

Às vezes queria que ele ficasse um pouco mais.

Como para sempre.

Havia até mesmo comprado uma coleira verde-limão e rosa e colocado nele, o levado ao vet, mas ele sempre sumia. Seu pai havia lhe explicado que ele devia ter algum lugar importante para ir, assim como ele sempre aparecia quando ficava triste, podia ter outra pessoa triste que precisava dele por aí.

Ele não entedia. Não realmente. Por isso havia feito o que seu pai lhe dizia para fazer quando não entendia algo.

Perguntou.

........................

‘Êtes-vous triste?’

Ele conhecia os termos, sua terapeuta havia explicado nas sessões. Dado os nomes àquilo que estava sentindo.

Revivescência: recordar o episódio como se ele estivesse ocorrendo naquele momento, o que desencadeia reações neurológicas e mentais. Ver coisas que já passaram, que não estão mais ali. Estão somente na sua cabeça.

Havia perdido sua audição, por isso não era possível que estivesse ouvindo barulho de bombas. Era tudo na sua cabeça, e ele sabia disso.

-PoR QuE VoCê SoBrEvIvEu E NóS NãO?

Síndrome do sobrevivente, a culpa de continuar existindo. Ele sabia.

Distanciamento emocional: diminuição do interesse afetivo por atividades que antes gostava, de pessoas.

‘Filho, porque não manda mais notícias.’

Sentimentos negativos, perda de esperança em relação ao futuro.

O livro de linguagem de sinais havia sido jogado para baixo da cama há três dias. Não saia de casa há 5 dias.

Hiperexcitabilidade psíquica: reações de fuga exagerados, episódios de pânico....ele conhecia os termos, ele sabia.

E ainda assim... por quê?

Uma pata em sua cara, vibrações. Soltou uma golfada de ar que não sabia que havia prendido, não sabia que sons estava fazendo porque não podia ouvir sua própria voz mais.

A pata era insistente, as unhas arranhando sua mão até soltar o agarre em seus joelhos.

-Ei carinha, você sumiu.

O gato se esfregou em seus braços, criando espaço, permitindo que ele subisse em seu colo. Os dois ficaram assim por minutos, sentado no chão da cozinha, uma xícara quebrada a frente, o café sujando o chão, mas nada disso importava.

As vibrações em seu peito, o pelo dele fazendo cócegas em seu rosto enquanto ele esfregava o rosto em sua barba exigindo carinho, isso era o importante.

-Você é um gato bem estranho, sabia?

Não sabia quanto tempo havia se passado, mas o apitar em seus ouvidos havia sumido, o som das bombas e as manchas de sangue no chão. Sua respiração calma, sua garganta ressecada e o rosto frio pelas lágrimas que nem mesmo havia percebido que soltava.

E foi quando ele notou a coleira pela primeira vez.

-Então, seu dono finalmente cuidou de você?

Sentiu certa tristeza. Uma coleira significava que havia alguém esperando pelo gato que vinha sendo sua tabua por muito tempo. E por isso ele nunca ficava, por mais que houvesse espalhado brinquedos na sala, e comprado tigelas e uma almofada só para ele no canto.

Tocou o objeto. Era chamativo e colorido, e tinha um pequeno medalhão. O moveu, procurando um nome e telefone, mas o que encontrou não foi isso. Não havia nenhum nome gravado no medalhão, mas havia algo preso a ele.

-Post-it?

A cor do papel era lilás, e havia algo escrito em uma letra miúda, um pouco infantil.

‘Êtes-vous triste?’

.............

Eclair au citron meringué

-‘Êtes-vous triste, madame?’

A pergunta a pegou desprevenida. Estava na fila no café quando aquela vozinha fez a pergunta inesperada. Olhou para trás, e então para baixo e encontrou olhos grandes e verdes debaixo de cabelos loiros e um rosto cheio de sardas, muito sério para um menininho daquela idade.

Nunca havia sido muito boa com crianças. Na verdade, a última criança com quem havia tido contato havia sido o sobrinho, com quem não tinha contato há mais de sete anos, então, é, não sabia muito bem o que fazer.

-Non? – Ele ainda a olhava com tanta seriedade. – Por que pergunta?

Ele apenas apontou para os doces que levava no pacote nas mãos. Eclair au citron meringué.

- Éclair de limão? – perguntou para ter certeza, e ele assentiu. – Por que acha que estou triste, mon petit?

- Éclair de limão é o doce que a gente come quando está triste.

Segurou o sorriso em seu rosto, ele havia falado aquilo com tanta propriedade. Procurou ao redor, porque aquela coisinha não podia estar sozinha ali de jeito nenhum e ah, ali estava. Um homem atraente acenou de uma das mesas, uma expressão de pedido de desculpas no rosto e sorriu acenando de volta. Eles tinham as mesmas sardas ao redor do nariz e o formato dos olhos e cor dos cabelos, e o homem fitava a interação dos dois de forma atenta, um sorriso carinhoso na criança.

-Ah sim. – Concordou, pagando o caixa que sorria com a interação também. – Talvez eu esteja um pouco triste.

-Porque?

Bem. Porque não?

- Eu queria um Mille feuille., mas não consegui encontrar.

- Mille feuille é o doce do sábado, e hoje é sexta. – A moça do caixa segurou a risada com isso e assentiu, tentando ficar séria.

-Ah, meu erro então, mon petit. Mille feuille me faz ter boas ideias, e preciso de uma boa ideia.

A expressão dele ficou curiosa.

-Quando eu preciso ter uma ideia eu escrevo no post-it azul. É o post-its das ideias.

Ele falou isso tão sério.

-Hum....acha que vai me ajudar?

Ele assentiu.

-Ah, merci, mon petit, vou fazer isso.

-De rien.

E então ele virou as costas e saiu, voltando a mesa sem mais nada.

.....................

Quando voltava para casa passou por uma papelaria e comprou um bloco de post-it azul. Não custava tentar.

..................

-Ah, vagabond, há quanto tempo! Isso é uma coleira?

Sua mão tocou o objeto colorido com curiosidade. Fazia quase um ano que o bichano a visitava na madrugada, e essa era a primeira vez que o via de coleira. Não imaginava que ele tivesse um dono.

Tocou o objeto, vendo o medalhão, e mais curioso ainda, havia algo preso nele.

Um post-it.

Fitou o pacote de notas adesivas em cima da mesa e balançou a cabeça. E para ficar ainda mais estranho, viu o que estava escrito na nota. A primeira pergunta em uma letra pequena e infantil em caneta verde brilhante, a segunda em uma letra claramente diferente em tinta preta.

‘Êtes-vous triste?’

‘Oui’

-Hum... – olhou o bichano que a fitou de volta com intensidade.

Quase tropeçou nos próprios pés para ir até seu computador e começar a escrever, o bloquinho de notas adesivas azuis seria muito bem utilizado, pelo jeito.

...................

Notas finais

Chérie - Querido

Vagabond - Que foi explicado é alguém que não tem lar, que vive de lugar em lugar.

Éclair - doce feito à base de farinha, no formato mais comprido e com recheio, que pode variar de chocolate, caramelo, limão e etc.

Flan: pudim francês

Mille Feuille (mil-folhas) Doce composto por muitas camadas de massa folhada, fininhas, igual uma folha de papel.

Mon petit - Meu pequeno

Merci - Obrigado (a)

De rien -De nada

Êtes-vous contents? - Você está feliz?

Êtes-vous triste? - Você está triste?

Non- Não

Oui- Sim

July 6, 2018, 1:38 a.m. 7 Report Embed 13
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Comment something

Post!
Nathy Maki Nathy Maki
Eu estou absolutamente encantada. Tive que ler em partes o capítulo e acabei entrando demais na cabeça dos personagens que mal conheço mas já sinto uma afinidade enorme. A escritora nem se fala, quase pulo da cadeira junto com ela ao ver os post-its e a ideia do que escrever se formando. O ex-soldado é muito cativante e você sente vontade de proteger ele das próprias lembranças, sorte que temos um gatinho muito inteligente fazendo isso e criando um novo caminho para ele. O meninho é um doce de tão amoroso, as perguntas e todos os significados para cada post-it foram tão vividos que eu me apaixonei um pouco mais por esses bloquinhos coloridos. Foi um começo incrível que conquistou todo o meu coração de uma só vez. ♡
Sept. 2, 2018, 8:47 a.m.

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Se entrou na cabeça deles: sucesso. Mas somos meio que a escritora né? Testemunhando todo o desenrolar. Sept. 20, 2018, 2:32 p.m.
DM D Macario
July 26, 2018, 7:54 a.m.
Di Angelo Di Angelo
Simplesmente maravilhoso! Com certeza uma linda leitura e estou muito fascinada com a criança e suas perguntas.
July 6, 2018, 4:42 a.m.

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Merci! Espero que goste do próximo também, em breve ele sai! July 6, 2018, 10:43 a.m.
pi _1983 pi _1983
Simplesmente lindo! Adorei o ditado lídiche, tomei a liberdade de copia-lo, mas com as devidas credenciais. Abraço!
July 6, 2018, 3:17 a.m.

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Obrigada! (merci haha). E sem problemas, é um dos meus provérbios favoritos <3 July 6, 2018, 10:40 a.m.
~

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