Não consigo Follow story

hyo_hime Daniela Machado

Ela não precisava saber que eu precisava dela. Uma vozinha em minha cabeça me disse que, se ela se importasse de verdade, eu não teria que falar. Senti-me mal por concordar.


Short Story Not for children under 13.

#songfic #depressão #conto #microconto #miniconto #SongTalesByDany #Motionless-In-White #Voices #MIW
Short tale
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Ela não precisa saber

Esse conto é parte de uma coleção de histórias baseadas em músicas. Você pode encontrá-los através da tag #SongTalesByDany.

Mais sobre o projeto AQUI.

***

Inspiração:

Voices – Motionless in White

***

- Tudo bem...? – minha irmã me encarou, o olhar preocupado esquadrinhando meu rosto com atenção e cuidado, coisa que eu não recebia nem de nossa mãe. Ela era mais nova, mas sempre se preocupou comigo, talvez por isso tivesse aparecido na minha porta, naquela manhã particularmente fria, depois que fiquei quase duas semanas sem aparecer em casa e sem atender o celular – hey, Rafa, sabe que pode confiar em mim e...

- Eu tô bem – resmunguei e ia fechar a porta, mas ela entrou no apartamento rapidamente, passando por baixo do meu braço com uma velocidade que deixaria o Flash com inveja – que caralho, Alessandra! Que porra você acha que tá fazendo aqui?!

O apartamento estava uma bagunça: caixas de pizza e embalagens de comida chinesa estavam entulhadas em cima da mesa de centro e em um canto do sofá, garrafas de refrigerante e cerveja poderiam ser encontradas em praticamente qualquer lugar e a Televisão ostentava um racho como uma teia de aranha no canto superior esquerdo, assim como o espelho na parede, mas esse tinha a adição de uma mancha vermelho-escura no centro da teia.

Minha irmã olhou a cena por alguns instantes e me assustei quando ela se virou para mim. Seus olhos marejaram quando Alessandra percebeu as ataduras na minha mão direita.

- Rafa... – a voz estava trêmula – foi... foi você...?

Sabia que ela não estava se referindo à TV. Não respondi.

- Eu sei que foi – continuou, passando o punho do moletom roxo na bochecha. Fora um presente meu no seu aniversário de 12 anos e havia ficado enorme. O casaco estava desbotado e tinha um furinho no cotovelo, mas ela ainda o usava – o que aconteceu?

Engoli em seco, pensando no que responder. Não mentiria para ela, jamais fiz isso e não estava em meus planos o fazer.

Mas o que eu podia fazer? Contar a verdade? Que eu socara o espelho e jogara uma garrafa na televisão durante uma crise? Que eu ficara encarando meu reflexo por cerca de 10 minutos antes de bater com tudo no vidro? Que eu brigara e terminara com minha namorada? Que eu não estava conseguindo me perdoar por isso tudo? Que eu queria desesperadamente que ela tivesse sabido disso tudo e que me dissesse que ia cuidar de mim, como fez quando fiquei internado no hospital depois de cair de moto?

Não. Alessandra não precisava saber disso.

Ela não precisava saber que eu precisava dela. Uma vozinha em minha cabeça me disse que, se ela se importasse de verdade, eu não teria que falar. Senti-me mal por concordar.

Senti-me ainda pior quando ela se aproximou e me abraçou, não como se quisesse me confortar, mas como se só quisesse carinho. Passei uma das minhas mãos pelas costas dela, cuidadosamente. Alessandra era a pessoa que eu mais amava no mundo.

Eu não precisava jogar meus problemas em cima dela, não precisava contar que eu não tinha vontade de sair da cama pela manhã, ou que eu tinha pegado exame em três cadeiras da faculdade, nem que eu havia perdido o emprego por faltar frequentemente.

Ela não precisava saber que eu não tinha mais vontade de comer ou de sair com meus amigos. Não precisava saber que meu namoro estava uma merda antes de terminar porque eu não suportava mais minha namorada, nem conversava direito com ela semanas antes de brigarmos; até o sexo se tornara indiferente, pois o prazer era momentâneo calava aquelas malditas vozes pessimistas em minha cabeça apenas por muito pouco tempo.

Ela não precisava saber que eu lutava comigo mesmo todos os dias, que minha cabeça era o pior lugar do mundo para eu estar, que meu corpo já não aguentava mais a quantidade de bebida que era ingerida diariamente, que eu já não me reconhecia no espelho, por isso socara aquele estranho que vestia a minha pele.

Ela não precisava saber que eu havia perdido a mim mesmo.

Então eu engoli toda a verdade e a apertei mais contra mim, não suportando imaginar a pena estampada em seu rosto ao saber que nem eu mesmo me conhecia mais.

Se eu falasse a verdade, ela ia querer que eu tivesse mentido.

Se eu falasse a verdade, eu iria me arrepender de não ter mentido.

Eu não queria ver a pena estampada em seu rosto.

Eu não queria vê-la se preocupando comigo.

Não. Eu não conseguia fazer isso.

- Eu estou bem.

June 22, 2018, 3:11 a.m. 0 Report Embed 4
The End

Meet the author

Daniela Machado Amo ler e sempre gostei de escrever (até na escola) então me interessei quase instantaneamente por fanfictions, o que me levou a querer escrever originais e hoje me dedico quase somente às últimas, mas ainda assim praticamente tudo o que eu escrevo é inspirado em músicas. Talvez pela minha paixão por histórias ou por gostar de ensinar, faço licenciatura em Língua Portuguesa. Amo Rock (e todos seus subgêneros) e Metal (e seus subgêneros).

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