Lua Cheia Azul Follow story

hikarinohime HikariNoHime Writer

Dominação e poder; racionalidade e igualdade; instintivo e desvalorização. Estes eram os alfas, betas e ômegas, os três pilares da sociedade. Em um mundo onde dinheiro e posses valiam muito mais que sentimentos, qualquer um que se desviasse desses padrões era tido como uma ameaça. E Kaneki Ken, um dos alfas mais poderosos do Japão e influente em todo o mundo, fazia questão de sempre ser uma exceção.


Fanfiction Anime/Manga For over 18 only.

#socorr #Não-sei-onde-isso-vai-dar #drama #romance #abo #Ayato-Kaneki #Tokyo-Ghoul
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Prólogo

As duas coisas que Kirishima Ayato mais amava era sua família e seu violino. Havia um concurso a cada três meses na pequena cidade em que vivia e participava de todos, sempre acabando no pódio. Sua mãe, Hikari, nunca se cansava de expressar seu orgulho pelo filho que além de ter um talento indiscutível, ajudava a colocar a comida na mesa com o dinheiro que ganhava com suas vitórias. Seu pai, Arata, cultivou um jardim maravilhoso cheio de camélias e peônias apenas para ajudar o filho a ter inspiração e concentração para tocar. Touka, sua amada irmã mais velha, passava horas cantando músicas aleatórias para que ele pudesse praticar ainda mais.

A vida era perfeita, ele pensava. Infelizmente, perfeita demais.

Sua infantil e pura visão de um mundo maravilhoso começou a se desfazer no momento em que sua mãe contraiu uma doença que lhe roubava as forças. O único jeito de curá-la era com uma cirurgia que só poderia ser feita na metrópole de Tokyo e nenhum deles poderia pagar.

Ayato passou a ter um novo motivo para tocar, esforçando-se ao máximo para sempre conquistar o primeiro lugar e poder comprar os remédios que ajudavam a aliviar os sintomas da doença de sua mãe. Ele passou a competir em outras cidades para conseguir mais dinheiro e permitir que seu pai ficasse mais tempo com sua mãe.

Tudo só piorou com os novos impostos do governo. Ayato não sabia que interesse seus governantes teriam em cobrar mais taxas sobre os poucos quilos de tomate que seu pai cultivava. A única coisa que sabia era que se não conseguissem pagar todas as contas atrasadas seriam despejados da própria casa. Entretanto, como poderiam se preocupar com alguns pares de contas quando sua amada mãe estava sofrendo daquela forma? Ayato não conseguia entender como o ser humano poderia ser tão frio, meticuloso e cruel.

Era uma situação dolorosa e difícil de ser encarada, mas ele faria de tudo para ajudar sua família a permanecer unida e de pé. E teria conseguido, se seus feromônios não tivessem surgido em tão tenra idade.

Todos sabiam que ômegas eram expressamente proibidos de participar de qualquer evento sem a autorização de um companheiro alfa, algo que nem mesmo os pais podiam mudar. Ayato deveria encontrar um alfa se quisesse continuar tocando e ajudando sua família, mas as chances de conseguir um alfa que não fosse um velho nojento e pervertido que se importasse com algo além de si mesmo eram quase nulas.

Ele se trancou no próprio quarto e chorou por dias, semanas até Touka conseguir tirá-lo de lá. Só o trabalho de seu pai como agricultor não era o suficiente para comprar todos os remédios e cuidar da casa. Sua irmã não podia trabalhar ainda e a segunda fonte de renda mais importante se foi no momento em que descobriram a real condição de Ayato.

Sua mãe nunca deixou de sorrir. Ela sentava-se com eles no jardim e lia histórias, ria e brincava. Todas as tardes ela pedia que Ayato tocasse para ela. Twinkle, twinkle, little star era a música preferida dela e cada vez mais difícil era para Ayato tocá-la. Ele sabia que cada dia podia ser o último assim como sabia que era essa a razão para que sua mãe se esforçasse tanto para deixar aquele sorriso bem gravado na memória de sua família.

Ayato não queria que ela se fosse, não estava pronto para deixá-la ir. Não queria mais ouvir Touka chorando no quarto ao lado quando pensasse que todos estavam dormindo, nem ver seus pais tristes no meio da campina de sua pequena propriedade. Ele queria fazer algo por eles. Precisava fazer algo por eles, sendo ômega ou não.

Foi num dia de primavera que Ayato ouviu pela primeira vez do CAPPO, o Centro de Acolhimento, Proteção e Preparação de Ômegas. Era um lugar onde cuidavam e preparavam ômegas para um alfa em potencial. Com a baixa natalidade de Ômegas, o governo estava desesperado atrás de ômegas para preencher o Centro. Como recompensa, a família do ômega receberia subsídio, perdão de qualquer dívida e um plano hospitalar completo.

Claro, havia um porém em tudo aquilo: uma vez que aceitasse aquilo, Ayato talvez nunca mais fosse capaz de ver sua família. Os ômegas que entravam no Centro só saíam de lá nas mãos de alfa que pagasse por eles ou mortos, sacrificados por serem considerados inférteis após uma certa idade — no caso, após os 16 anos.

Um preço grande demais para uma oportunidade igualmente grande. Talvez, a única chance de salvar sua mãe. Um adeus quase certo, mas ela estaria viva. Isso era tudo o que importava para ele e a única coisa que lhe deu coragem o suficiente para discar o número do Centro em uma cabine telefônica. Deu todas as informações que pediram, tirou todas as dúvidas que tinha e ao fim de tudo tinha os ombros mais leves com a certeza de que sua mãe viveria.

Talvez sua família nunca o perdoasse por estar se sacrificando dessa forma, mas ele não se importava. Ao menos eles estariam vivos e bem para odiá-lo se fosse preciso.

Entretanto, ele sabia que não seria nada fácil contar o que fizera. Mesmo tentando se preparar mentalmente para tal, nada no mundo poderia tê-lo destruído tanto quando as lágrimas e os pedidos de sua mãe para que aquilo fosse só uma brincadeira de mal gosto. Seu pai ficou a noite inteira em um silêncio perturbador e Touka deitou-se ao seu lado naquela noite. As mãos entrelaçadas com as da irmã o ajudaram a se acalmar.

— Pode ficar tranquilo, Ay — ela disse em um sussurro. — Eu vou cuidar bem do seu violino até você voltar.

Os olhos dela brilhavam com as lágrimas que não deixaria cair. Touka era uma alfa, não podia evitar seus instintos de confortar seu corajoso e frágil irmãozinho. O que ela não sabia era que aquela promessa feita no silêncio seria uma das poucas coisas que impediriam Ayato de enlouquecer e desistir de tudo nos próximos anos.

O Centro era um inferno. Ele não conseguia passar uma noite sem chorar abraçado a outras dezenas de ômegas. Passavam frio e fome naquele lugar. Os ensinamentos eram rigorosos, iniciando ainda de madrugada e acabando tarde da noite. As poucas horas de sono nunca seriam o suficiente para uma criança em fase de crescimento, mas os castigos às vezes eram piores que a morte.

Ayato já tinha visto vários ômegas sendo executados por sua suposta infertilidade — afinal, um ômega que não atrai alfas é um encosto para sociedade. Conforme os anos passavam, ele tinha de se conformar com as escassas notícias que tinha de sua família. A última que vez que soube deles foi através de uma das poucas funcionárias betas realmente gentis com os ômegas antes dela ser demitia há pouco mais de dois anos. O governo tinha cumprido sua palavra e perdoado as dívidas de seus pais, além de pago a cirurgia de sua mãe: Hikari sobreviveu e sua saúde não podia estar melhor. Ao menos seu estado físico estava bom, mas Ayato não tinha a mínima ideia de como eles estavam lidando com tudo o que estava acontecendo.

Estava feliz, pois mesmo que não fosse escolhido e perdessem o subsídio sabia que eles ficariam bem. Que conseguiriam encontrar um jeito de se sustentar e manter sua casinha. Aquele era um dos poucos confortos que ainda encontrava mesmo depois de se tornar o segundo ômega mais velho naquele lugar pouco depois de completar seus quatorze anos. Ayato sabia que poderia ser sacrificado logo depois de Hana.

Ele nunca se sentiu tão mal durante um daqueles injustos sacrifícios.

Sentia falta tanta, tanta falta de seu violino. Se ainda o tivesse consigo, poderia tocá-lo para acalmar os pequenos ômegas que entravam e saíam do Centro. Não sabia ao certo se devia estar aliviado por não ter sido escolhido por um alfa nojento que apenas o usaria como um brinquedo ou preocupado com a possibilidade cada vez mais real de acabar sendo sacrificado.

Durante os raros almoços ficava imaginando se seu pai ainda estava cuidando de seu jardim, se Touka se lembrava de limpar e afinar as cordas de seu violino ou se sua mãe ainda molhava as prímulas noturnas da janela de seu quarto todas as manhãs. Eram tantas coisas que ele pensava e imaginava apenas para se distrair do horrível sabor daquela sopa arenosa, do quão ressecado era aquele pedaço de pão e da sensação de estar engolindo mil agulhas a cada vez que tomava um gole daquela água verde amarga que eles chamavam de “chá”.

Ayato passou a noite de seu décimo quinto aniversário chorando, a dor que sentia em seu peito só piorando com o quanto as mãos frágeis de Hisashi, um ômega de nove anos, apertavam seu braço em busca de conforto. Ele queria poder fugir, voltar a ter um lugar para chamar de lar e sentir o gosto de uma comida de verdade.

Ele passou os dias que se seguiram tentando ensinar as crianças a cantarem Twinkle, twinkle, little star no tempo livre. O maior problema: música era proibida no CAPPO. Ayato nunca se esqueceria da dor que sentia a cada chicotada em suas costas nuas e de como sua garganta secou o seu grito após ter suas feridas abertas banhadas com álcool.

Foram precisas semanas para que os cortes desaparecessem por completo. Ayato estava a menos de dez meses de seus dezesseis anos. Ele sabia que a paranoia estava começando a subir a sua cabeça. Toda vez que via de longe algum desconhecido, alfa ou beta nos corredores e na recepção, suas mãos suavam e a garganta secava em medo e ansiedade.

Não queria morrer, mas tinha medo de ser escolhido àquela altura do campeonato. Sabia que não poderia ser simplesmente usado de qualquer maneira como acontecia com várias crianças pelo simples fato de já ter passado por três cios — um doloroso inferno pessoal que adoraria não ter que repetir, em sua opinião. Já podia dar herdeiros a um alfa, mas ninguém no Centro poderia provar sua virgindade caso questionados. Ou seja, estava em um problema cada vez maior. Mesmo que fosse escolhido e saísse daquele lugar, o que aconteceria depois?

Foi logo após completar o terceiro mês de seus quinzes anos que Ayato ouviu pela primeira vez de ômegas novatos sobre a famosa empresa de joias sediada em Tokyo, a Aogiri. Pelo pouco que ouvira, um dos sócios da empresa era um alfa extremamente disputado entre os ômegas da burguesia. Um alfa desejado e poderoso que estava em busca de um ômega.

Decerto, era apenas mais um daqueles alfas nojentos que queriam mais uma boneca para quebrar. E seu pressentimento estava certo pois, menos de uma semana depois, ele viu o tal sócio arrastando uma ômega ferida e chorando para fora do centro. Ayato sentiu os feromônios do alfa impregnados nela e seu medo apenas aumentou.

Aos poucos, Ayato começou a buscar algum jeito de se distrair. Sempre que estava sozinho, ele imaginava que estava com seu violino e ensaiava de mãos vazias os movimentos de cada uma das músicas que mais gostava. Rondo Capriccioso, Kreutzer Sonata, Dance Macabre... e havia mais uma infinidade de melodias que quase não conseguia se lembrar dos nomes e por vezes temia errar suas notas silenciosas.

Já fazia isso há tanto tempo que duvidava muito que os funcionários do Centro não soubessem. Talvez eles tivessem um mínimo de compaixão, afinal. Talvez eles só não quisessem desperdiçar sua energia com alguém que já tinha a corda no pescoço. Ele nunca saberia qual era a opção correta.

A única certeza que tinha era a de que não estava sozinho naquele dia treze de novembro.

O ar gélido que entrava pela janela cortava sua pele como navalhas, mas isso não o impediu de fazer sua nova atividade diária. A música da vez era a Balada em Sol Menor, op. 23. Era a única que amava e nunca teve a chance de tocar para ninguém antes. Nove minutos imerso em si mesmo, um mundo onde as classes não definiam sua vida e nada mais importava além de sua pequena ilusão.

Ayato nunca se esqueceria do momento em que o som de palmas se fez presente e aqueles feromônios suaves preencheram o cômodo. A primeira visão que teve daquele alfa, dos olhos de prata e os cabelos pálidos como a neve, ficaria gravada para sempre em sua memória.

E então, a sussurrada voz rouca trouxe consigo as palavras que, ele sabia, mudariam sua vida para sempre:

— Vamos para casa, kleines kind.

June 17, 2018, 8:03 p.m. 0 Report Embed 1
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