O Arranjo de Girassóis Follow story

ditto Liiz Lestrange

Eu estava certíssimo: receber flores num dia ruim mudava tudo de figura. Meu coração ainda batia diferente, eu não conseguia olhar para os girassóis sem sorrir abobalhado. Era uma sensação única, só quem já teve um dia trágico salvo por um gesto enorme de afeto sabe o calor leve e alvoroçado que se sente dentro do peito.


Fanfiction Anime/Manga All public.

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Capítulo Único

Tudo começou no dia dos namorados. Na verdade, não; provavelmente começou muito antes, mas sem que eu soubesse. Eu nunca tive uma percepção muito boa das coisas, só enxergo o óbvio. E o óbvio foi naquele dia. Ou pelo menos depois ficou óbvio que aquele havia sido o dia em que tudo começou.

Ino era minha melhor amiga, pelo menos dentre os colegas de classe. Seus pais tinham uma floricultura e, naquela manhã, ela havia chegado à sala de aula tagarelando sobre como as vendas explodiam em épocas assim e que ela, que às vezes cuidava da loja no tempo livre, havia faturado uma comissão enorme.

— Sabe o que é o mais louco? — disse ela, virando para trás e cruzando os braços sobre a minha carteira. — Teve um monte de gente encomendando flores pro namorado, acredita?

— É mesmo?

— É sim! Curioso, né? Geralmente só dão flores pra garotas, ninguém pensa muito que garotos gostam de flor… — Ela deitou a cabeça nas mãos, pensativa, inundando meu caderno aberto com aquela juba platinada, e então ergueu os olhos para mim. — Naruto, qual é a sua flor favorita?

— Girassóis! Adoro girassóis.

Ela sorriu satisfeita e ergueu a cabeça novamente.

— Uau, você tinha a resposta na ponta da língua, heim? Você gostaria se alguém te desse girassóis de presente?

— Ah, gostaria… Parece bobo, mas é um presente mais de carinho, né, de significado. — Eu mordi os lábios fantasiando quais tipos de pessoas e situações poderiam me render um buquê de flores. Nunca havia cogitado a ideia antes, mas de repente parecia um mimo maravilhoso. — Tipo… Imagina que você tá tendo um dia péssimo, uma semana ruim, e alguém que se importa com você te manda um buquê da sua flor preferida. Não parece ótimo? É o tipo de coisa que muda o seu humor: saber que alguém se importa e quer te fazer feliz.

— Tem razão… Eu não sei, acho que porque eu trabalho com flores, não parece um presente muito legal pra alguém me dar, sabe? Eu vejo flores o dia inteiro, todo dia.

— Imagino…

— Hey, Sasuke! — ela disse, virando-se de repente. — Que tipo de flor você gosta?

Sasuke era um cara estranho. Sua carteira também ficava ao fundo, ao lado da minha, mas ele pouco falava conosco. Aliás, falava muito pouco com toda a turma. Por ser muito quieto, taciturno e estar sempre com as notas entre as melhores da sala, era de se esperar que ele fosse alvo de chacota dos colegas, mas sua postura displicente, beleza incontestável e jeito ríspido acabavam lhe dando um status de ameaçador em vez disso. Os garotos, incluído eu, não tinham muita paciência para ele, já que (apesar de ser ótimo jogador nas aulas de Educação Física) não aceitava participar do futebol na hora do intervalo, não saía com o resto da turma, não conversava sobre quem da nossa sala ele gostaria de comer ou, honestamente, sobre nada. Num geral, achavam-no um chato arrogante. Já as garotas, pelo menos a maioria, achavam Sasuke misterioso e atraente; sempre tentavam puxar assunto ou chamá-lo para sair, mas nenhuma tinha sucesso. Ino estava numa fase em que balançava entre desistir ou continuar por esporte.

Ao ouvir a pergunta, ele ergueu os olhos do livro que segurava e a encarou apático.

— Não gosto de flores.

Ino deu de ombros e torceu a boca. Nossos olhares se encontraram por um instante; ele respirou fundo e voltou a ler.

Aquela conversa passou logo, na mesma tarde eu já não pensava mais nisso. Eu sequer me lembrei do tópico até algumas semanas depois. O fim de semana havia sido agitado e eu tive uma briga com a minha mãe. O motivo era bobo, nós dois sempre tivemos personalidades muito fortes e um orgulho maior que a boca; discussões exageradas por coisa pouca eram mais comuns do que eu gostaria. Não importava muito, mas eu estava amuado.

Cheguei na sala de manhã sem muito pique para conversar, cruzei os braços sobre a mesa e deitei a cabeça sobre eles, tudo o que eu queria era que aquele dia passasse rápido para voltar para a minha cama. Ino, como sempre, logo notou que havia algo de errado.

— Sua mãe de novo? — ela perguntou baixinho. Torci a boca e dei de ombros, sem erguer a cabeça dos braços. Ela me fez um carinho singelo e virou para a frente.

Eu não estava de bom humor e nem todos os professores tinham muita simpatia por mim. Não os culpo, eu não era lá um aluno muito aplicado. A de inglês foi carinhosa, veio de canto perguntar se eu estava doente ou se queria sair da sala, mas o de matemática… Aquele tinha por mim uma abominação pavorosa. Não gostou nada de me ver daquele jeito na aula dele.

— Naruto Uzumaki — ele me chamou de repente, numa voz firme e irritada. Me endireitei e o encarei meio assustado, a sala emudeceu e todos viraram os olhos para mim. — Tire esse capuz. O senhor estava dormindo na minha aula?

— Não, senhor — murmurei abaixando a touca do moletom.

— Então não deite na mesa de novo, senão você sai da minha sala. Você está fazendo os exercícios que eu passei assim? Com a cabeça deitada na mesa e o livro fechado?

— Não, senhor.

— Esse livro é o da minha matéria?

— ... Não, senhor.

— Então pegue o livro da minha matéria, fazendo o favor, e abra na página oitenta e três.

Eu respirei fundo, sem o encarar diretamente, e me voltei para a minha mala. Aquele silêncio torturante, toda a sala observando e cada segundo que me custava aquela tarefa parecendo durar cinco vezes mais. Abri o livro na página que me foi mandada e novamente o encarei, esperando que retomasse a aula.

— Você vai copiar esses exercícios à mão numa folha avulsa, os da aula de hoje e os da lição de casa, e me entregar amanhã todos resolvidos - ele disse num tom satisfeito. - Não quero mais ver você dormindo na minha aula, você precisa de qualquer pontinho de caridade que puder arrancar de mim pra passar de ano, é bom não se arriscar demais.

Humilhado, enfurecido e desejando desesperadamente que um trem desgovernado invadisse a sala matando a mim ou ao professor naquele instante, me resignei em silêncio. Não estava nada motivado a trabalhar depois daquilo, mas ao menos cópia de enunciado não me exigia pensar. O dia era longo, ainda sequer havia passado a hora do intervalo, mas eu me sentia exausto.

Estava absolutamente deprimido quando voltei para casa. Ainda não queria falar com a minha mãe e ela não queria falar comigo, como as duas crianças que somos. Já era final de tarde quando ela entrou no meu quarto com um sorrisinho de canto. Estranhei, não era muito do feitio dela.

— Chegou uma coisa pra você lá na sala — disse com um tom de voz debochado.

Eu não me mexi. Encarei minha mãe confuso e esperei que ela dissesse mais alguma coisa. Não me lembrava de estar esperando por alguma coisa, não havia feito compras na internet, ela não parecia brava comigo, então não podia ser nada que eu tivesse feito de errado.

— O que é? — perguntei, me irritando com o silêncio.

— Vai lá ver, tonto!

Ela deu um passo para o lado, indicando que eu passasse. Era óbvio que ela queria ver minha reação. Levantei desconfiado e fui até a sala, minha mãe me seguindo de perto, e foi enorme minha surpresa ao ver sobre a mesinha de centro um arranjo de girassóis. Eram três, numa linha vertical, com umas folhas decorativas em volta para dar mais volume; devia ter quase meio metro de comprimento, num cachepô de madeira com um laço em volta. Travei confuso e procurei o olhar da minha mãe, que parecia extasiada com a situação.

— As flores? — perguntei apontando.

— Sim! Sabe quem te mandou?

— Quem?

— Ué, eu sei lá, achei que você saberia. — Ela se aproximou olhando o arranjo de perto com um sorriso enorme. - Procura um cartão, deve ter o nome!

— Mas, mãe… Tem certeza que é pra mim? Devem ter entregado errado.

Ela estalou a língua.

— O entregador chamou pelo seu nome completo, cê acha que eu não sei o nome do meu filho?

— Mas… — Cheguei mais perto hesitante, meu coração acelerando no peito por ver aquele vaso de flores enorme para mim. — Quem me mandaria isso?

Procurei algum cartão ou bilhete, mas não havia nada além de uma etiqueta com o nome da floricultura na parte de trás do vaso. Não era a dos pais da Ino: meu único palpite foi por água abaixo.

— E aí?

— Não tem nenhum cartão.

— Nada? Será que caiu?

— Não sei… O entregador disse alguma coisa?

— Disse que alguém queria animar seu dia.

Parei boquiaberto juntando os pontos: A conversa com Ino no dia dos namorados! Alguém me presenteara com minhas flores prediletas num dia ruim. Meu coração parecia prestes a explodir no peito.

— Quem será que te mandou? Você tá namorando escondido, é?

— Não!

— Hm, alguma admiradora secreta, então?

— Não, deve ter sido a Ino sendo fofa…

Aw, será que ela gosta de você?

Pff, não.

— Ai, que lindo meu filhinho, arrasando corações!

— Besteira, não é nada disso. — Eu ri satisfeito, minha mãe piscou para mim.

Peguei o vaso e o levei para o quarto. Eu tinha certeza de que era a Ino, de alguma forma, talvez usando algum contato com outra floricultura. Talvez não tivessem girassóis na loja da mãe dela naquela época do ano. Só podia ser... Mas uma pontinha de mim esperava que não fosse. Coloquei o vaso perto da janela, sobre a escrivaninha. Era lindo! O quarto inteiro parecia radiante com aquele novo adorno e o mesmo podia se dizer sobre o meu humor.

Eu estava certíssimo: receber flores num dia ruim mudava tudo de figura. Meu coração ainda batia diferente, eu não conseguia olhar para os girassóis sem sorrir abobalhado. Até minha mãe havia deixado para trás a desavença do final de semana e estava eufórica com o presente; a primeira coisa que ela faria quando meu pai chegasse do trabalho naquela tarde seria contar para ele. Era uma sensação única, só quem já teve um dia trágico salvo por um gesto enorme de afeto sabe o calor leve e alvoroçado que se sente dentro do peito.

Mas eu precisava descobrir quem havia me enviado aquilo. Catei o celular apressado e mandei mensagem para minha suspeita número um.

You:

Foi você, safada?

Ino:

Oxe, eu oq?

N fiz nada

You:

N se faz de desentendida, quem mais trabalha numa floricultura aqui?

Ino:

Oxe, mlk

Oq vc acha que eu fiz?

You:

Sério msm?

Ce acha q eu n ia saber que obviamente foi vc?

Ainda mais dps que vc mesma me perguntou q flor eu gostava aquele dia

Meio na cara

Ino:

Lgksdgkfshg

Eu n fiz nada

Wtf

Oq aconteceu?

Alguém te mandou flores???? :o :o :o :o

NARUTO

ALGUEM TE DEU FLORES DE PRESENTE?

Franzi o cenho inconformado. Como podia não ser ela? Será que Ino estava só forçando a barra? Será que ela estava fazendo aquilo por pena porque eu não estava namorando, ou algo do tipo? Meus neurônios entravam em parafuso na minha cabeça, milhões de possibilidades dentre as mais comuns até as mais horríveis e absurdas começavam a aparecer. Cheguei a cogitar que houvessem se enganado de Naruto Uzumaki na hora da entrega; deveria ter outra pessoa com o meu nome esperando um vaso de girassóis chegar em sua casa naquele minuto.

You:

Jura mesmo que n foi vc mesmo mesmo?

Ino:

ALGUÉM TE MANDOU F L O R E SSS S????

TÁ DE BRINCADEIAR

QUERO FOTOS

MANDA FOTO AGORA

N ACREDITOOOO

A sensação de euforia aumentava em mim a cada segundo. Não havia sido minha amiga que trabalhava com flores. Alguém no mundo realmente gostava de mim sem que eu soubesse, sabia minhas flores favoritas, havia comprado um arranjo bonito e mandado entregar para mim para que eu me alegrasse. Mandei uma foto, como pedido.

Ino:

WOOOOOW

Ok, que lindo

Porra, naruto, um arranjo desses deve custar uns 70 conto

N acredito numa coisa dessas, nem pra comprarem cmg akajhgjdfkg

Vc n faz ideia de quem te mandou?

You:

Não, né, jurava que tinha sido vc

MAS N É LINDO?

Eu to mto fora de mim

Vc contou pra alguém aquele dia?

Que eu gosto de girassol e achava legal receber flor quanto ta triste e tal?

Ino:

Talvez??

Acho que eu conversei disso com as meninas sim

Mas tipo, nenhuma parecia ter muito interesse?

Eu acho que eu saberia, não? Se alguma delas tivesse afim de vc

Tipo

Elas me contariam, né, eu sou sua amiga, eu poderia ajudar

Vou dar uma checada

You:

Ai mds, vc vai espalhar por aíiii

Ino:

Uai, q q tem?

Tem que se exibir, msm

Quem mais na nossa sala pode falar que ja recebeu flores?

Mó dahora

Maravitop

You:

Lkdjfkldhgçladfh

Vergonha

Mas vê aí e me fala

Esperei ansioso. Uma hora e pouco depois, ela voltou dizendo que não havia conseguido nada. Nenhuma garota com quem ela conversava confessou o delito, nenhuma parecia estar escondendo nada. Isso não eliminava as possibilidades, ao invés disso as havia multiplicado. Além de alguma delas poder estar mentindo, claro, havia a chance de que uma (ou todas!) houvesse passado a informação adiante. Isso sem falar que algum colega da classe poderia ter simplesmente escutado a conversa, afinal havia sido logo no início do dia, quando a sala ainda estava bagunçada e quase ninguém estava sentado em seu lugar. Qualquer pessoa que me conhecesse poderia ser o responsável.

No dia seguinte, a escola inteira parecia saber do presente. Os meninos fizeram piadas o dia todo, mas eu não me importei; entrei na brincadeira e ri também. Estava um tanto envergonhado com a proporção daquilo, mas sabia que se demonstrasse me incomodar com o tópico, seria a minha ruína. As meninas acharam a coisa mais romântica do mundo. Todo mundo fez palpites, todo mundo fez acusações, todo mundo se defendeu. O único que não parecia nada interessado ou se divertindo com aquela história era Sasuke, que duas ou três vezes lançou olhares entediados quando a discussão aumentou demais de volume.

— Deve ter sido um menino. — Ino me disse entre cochichos naquela tarde na biblioteca. — Das meninas solteiras, umas cinco eu sei de quem tão gostando com toda certeza, as quatro que sobram eu sei que não têm dinheiro pra um negócio desses.

— Será? Será que eu dou muita pinta? Deve ser alguém zoando comigo.

— Cala a boca. Não, deve ser algum menino apaixonado por você, ai que empolgante! Quem você acha que é gay ou bi? Dos da nossa sala.

— Eu não sei… O Sai? Ele fala de pinto o tempo inteiro e é meio afeminado.

— Poderia ser… E se for de outra sala? Do terceiro ano, eles devem ter mais dinheiro.

— Quem da outra sala tem jeito de gay?

— Pode ser uma guria do terceiro, também, não vi com as meninas do terceiro.

— Ino, você não consegue ver quem foi?

— Não é a minha loja, como que eu vou ver?

— Você não tem contato com essa floricultura?

— Tenho, mas isso é quebra de sigilo, né, se a pessoa não colocou nome…

— Mas tenta! Por favor, eu quero saber quem foi!

— A gente descobre…

— Não, a gente nunca vai descobrir assim! A gente tá chutando no escuro!

— Eu não posso.

— Por favor, por favor, por favoooor!

Fiz minha melhor cara de coitadinho e ela me encarou sofrida antes de suspirar.

— Tá bom. Não prometo nada, mas a gente tenta, ok?

— Isso! Te amo, sua linda!

— Eu sei, eu sou incrível.

Fui dali com Ino para a casa dela. Passamos da floricultura de seus pais, no mesmo quarteirão, para pedir à sua mãe o telefone da outra loja, e fomos correndo direto para o quarto dela. Ligamos empoleirados na cama com um rush de adrenalina. Ino fez um drama maldito para convencer a mulher a nos passar informações, chegou a dizer que, por eu ser menor de idade, ela poderia estar acobertando um pedófilo e obstruindo a prevenção de um crime. Depois de muitas promessas de favores, a moça concordou em ajudar, mas logo avisou que não constava nenhum nome no pedido. A pessoa quisera sigilo e havia feito a compra somente usando o número do celular. Esse ela nos passou.

Nós dois paramos encarando o número anotado no meu aparelho. Meu coração queria saltar pela boca: tínhamos ali a resposta para aquele mistério, o número do nosso culpado.

— Liga você! — choraminguei, empurrando o celular em sua mão.

— Eu?! Você que tem que ligar, eu já consegui o número pra você!

— Mas eu tô com vergonha!

— Ai… Eu tenho que fazer tudo, é? — Ela estalou a língua e pegou o telefone fixo. — Só faço porque tô louca pra saber, também.

Ela discou, mas deixou no viva voz. Àquela altura, meu nervosismo já havia extrapolado a taquicardia e se fazia presente dos pés ao último fio de cabelo. Encarávamos o telefone quase sem respirar.

Tu…

Tu…

Tu…

Alô?

Era uma voz masculina. Nós dois nos entreolhamos paralisados por um instante. Ela se ajeitou rápido e respondeu.

— Alô, quem fala? — Ino fez um esforço para soar mais velha.

Sasuke, quem é?

— Sasuke Uchiha?! — a exclamação foi tão espontânea e exasperada que abandonou o fingimento e saiu em sua voz escandalosa normal. Pulei na cama, num completo pânico, e a encarei furioso com a quebra de personagem.

— ... Ino?!

Pronto, ele a havia reconhecido. Arranquei o telefone de sua mão, desliguei e quase o arremessei para longe, mas pensei melhor a tempo de apenas socá-lo contra o travesseiro.

— Meu deus do céu…

Sasuke Uchiha!

— Ino, meu deus do céu! Ele vai se tocar que foi por isso que você ligou…

Sasuke Uchiha! — ela praticamente berrava, me exibindo um sorriso alucinado de orelha a orelha. — Naruto, Sasuke Uchiha te mandou flores!

Eu sei! Eu sei! Eu… — Pasmei um segundo. — Meu deus, eu achava que ele era o maior babaca…

Ele te mandou flores! Ele gosta de você!

Ino, o que é que eu faço?

Você tem que falar com ele!

Ele não queria que eu soubesse! Ele vai me matar!

Você tem que ir falar com ele agora!

Ele não vai me atender, ele deve estar esperando a gente ligar de novo!

Não, você tem que ir pessoalmente!

Você tá louca!

Naruto, ele é muito lindo! Puta merda, eu não acredito que ele gosta de você!

Murchei um pouco e abaixei a voz (já que, por algum motivo, estávamos aos berros).

— Eu não sei se gosta, vai saber os motivos dele…

— Pra te mandar flores? Acredite, ele gosta de você.

— Mas se fosse assim, ele não ia querer que eu soubesse que era ele?

— Se ele não gostasse de você, por que ele ia querer te mandar flores?

— Não sei…

— Ai, é por isso que ele perto de você esse ano!

— Meu deus… E se ele for um babaca? Eu sempre achei ele meio babaca.

— Quem se importa? Ele é lindo!

— Caralho, sente o meu coração!

Eu puxei a mão dela e pousei em meu peito para que sentisse meus batimentos desgovernados. Ino fez um murmúrio meigo e deu uns pulinhos sem sair do lugar.

— Naruto, vai falar com ele!

— Falar o quê?

— Primeiro confirmar que foi ele, né. Segundo, pô, ele te mandou flores! Se resolve lá com ele!

— Ele não vai atender mais o celular.

— Não por celular, seu retardado! Pessoalmente!

— Como pessoalmente? Eu nem sei onde ele mora!

Ela abriu um sorriso maníaco.

— Eu sei. Ele mora dois quarteirões pra baixo.

Arregalei os olhos em pânico e chacoalhei a cabeça para os lados.

— Nem pensar, eu não vou lá agora.

— Pensa só… Amanhã na aula vocês dois sem isso resolvido. Vai passar o tempo, o ano inteiro até o final com esse sentimento estranho.

— Ai, meu deus…

— Vai, vamos. De uma vez, que nem band-aid! Eu vou junto, se você não for agora, eu não vou estar junto na próxima chance! Não era pra isso que você queria descobrir quem era?

Eu mordi os lábios, respirei fundo e levantei. Ino parecia uma criança que havia acabado de ganhar uma passagem para a Disney. Já eu não sabia direito o que estava fazendo ou sentindo naquele momento. Fomos andando quarteirão abaixo.

Como eu disse antes, Sasuke era muito bonito. Eu estaria mentindo se dissesse que nunca havia parado para admirar aquele rosto perfeito e imaginar minhas mãos passeando pelas suas costas e seus ombros largos. Mas estudávamos juntos fazia pouco mais de um ano e naquele tempo, só o que eu pensava sobre ele era que fosse um sabe-tudo arrogante. Quando se pega birra de uma pessoa, fica difícil ter qualquer coisa além de raiva por achá-la atraente e esse era o meu caso. Entretanto, tudo havia mudado. Ele me dera um presente extremamente significativo e nem sequer tinha a intenção de receber os créditos por aquilo. Alguém que faria algo do tipo não poderia ser tão ruim. Minha antipatia se dissolveu por completo até chegar à porta de sua casa; em vez dela havia em mim naquele instante uma intensa curiosidade. E muito, muito nervosismo.

Nem precisei pedir antes que Ino, que tinha enroscado o braço no meu para me puxar até ali, deu um passo à frente e tocou a campainha. Minha esperança era de que ele não espiasse pelo olho mágico antes de abrir a porta e, para a minha sorte e seu incrível azar, ele não espiou. Abriu a porta apressado e já era tarde demais quando ergueu os olhos e paralisou por um segundo ao nos ver ali. Tentou fechá-la correndo novamente, mas Ino foi mais rápida e botou o pé na frente.

— Ôu! Espera aí, é assim que você trata seus colegas de sala? — ela reclamou.

Sasuke franziu o cenho, olhando numa mistura de fúria e pânico por entre a fresta da porta que ela segurou.

— Me desculpa! — me apressei em choramingar, colocando-me na frente de Ino. — Eu sei que você deve estar puto comigo agora, mas a gente não pode só conversar por um minuto?

Ele respirou fundo, parecendo dividido com aquele pedido, mas cedeu. Olhou ansioso por cima dos ombros para dentro de sua casa, saiu e fechou a porta.

— O que vocês querem?— resmugou cruzando os braços.

Diferente de mim e de Ino, Sasuke não vestia mais o uniforme. Ele havia colocado uma roupa casual escura; eu não me lembrava de jamais tê-lo visto sem as roupas da escola antes, parecia levar embora um pouco do seu ar formal intimidador. Ou talvez fosse o fato de que a cara emburrada não conseguia disfarçar totalmente que ele estava acuado. Era também a primeira vez que eu o olhava sentindo apreço ao invés de qualquer tipo de birra. Fosse por isso, pela roupa ou por seu jeito discretamente vulnerável, ele me pareceu um bilhão de vezes mais lindo do que eu já achava e levei um momento para admirar em silêncio a minha sorte por alguém tão deslumbrante ter qualquer interesse em mim.

— Eu queria… Me desculpar.

— Quê?! — exclamou Ino virando a cabeça inconformada. Sasuke torceu a boca confuso.

— Digo… Eu não deveria ter vindo aqui sem pedir, me desculpa! E eu não deveria ter insistido pra pedir o seu telefone pra vendedora, me desculpa por isso também! — Eu suspirei apertando os olhos por um momento. — Não reclama com a floricultura, por favor, eu não quero causar problema pra ninguém, a culpa é toda minha, a responsabilidade é toda minha. Mas eu precisava saber quem tinha me mandado as flores e… A moça me passou o seu telefone. Então eu vim aqui.

Mais uma vez, ele respirou fundo em silêncio. Não se moveu nem alterou a expressão irritada; depois de um momento tenso e constrangedor em que ninguém disse uma palavra, Sasuke mudou o apoio dos pés.

— Tá, tanto faz, tá perdoado — ele rosnou impaciente. Eu encolhi os ombros.

— Então… Foi mesmo você quem me mandou o arranjo?

O olhar dele vacilou em Ino por um segundo, de repente eu desejei que ela não estivesse lá. Tinha a sensação de que, se estivéssemos sozinhos, ele baixaria um pouco a guarda. Felizmente, Ino deve ter percebido o mesmo e, com o que eu imagino ter sido um esforço gigantesco para alguém que via aquilo como sua novela particular, ela deu um passo para trás.

— Eu já fiz a minha parte aqui, eu acho que vou deixar vocês sozinhos, — Ela deu um sorriso pilantra e gesticulou um zíper em sua boca, numa promessa muda de que não contaria aquilo para ninguém. — Você sabe voltar pra minha casa depois, né? Te vejo daqui a pouco.

Devolvi um sorriso agradecido e esperei de cabeça baixa que ela se afastasse um pouco antes de voltar a encarar Sasuke, que suspirou e finalmente descruzou os braços, apoiando as mãos no quadril.

— ... Então? — voltei a insistir.

— O quê?

— Foi você?

Ele estalou a língua e rolou os olhos.

— Achei que já tinha ficado óbvio que sim.

— Ah… Obrigado! — murmurei constrangido. — Foi… Foi a coisa mais legal que alguém já fez pra mim.

— Hm.

— Elas são muito bonitas. As flores. Gostei muito, de verdade, deve ter sido caro, você não precisava ter feito isso! Mas eu fiquei muito feliz, sabe, mudou meu dia. Mudou minha semana, na verdade, foi incrível.

— Não foi nada de demais.

— Não, foi sim! Foi o máximo! Eu… Desculpa, posso perguntar… porque você resolveu me dar esse presente?

Sasuke me encarou ainda com aquele jeito sério e blasé que procurava mascarar seu nervosismo. Se eu não estivesse tão nervoso quanto, teria achado graça. Era impossível levar a sério aquela cara de mau enquanto ele me explicava seus motivos para me dar flores.

— É que você… não tava bem, ontem. — Ele pigarreou e desviou os olhos para o chão, sempre de queixo erguido. — Eu sei que não era sono, era diferente. Também te ouvi dizer algo sobre ter brigado com a sua mãe e aí teve a aula de matemática… Achei que te faria bem alguma bobeira pra dar uma animada.

— Uau… Muito obrigado, de verdade! Juro, foi mesmo a coisa mais legal que alguém já fez por mim!

— Foi só uma besteira. Uma florzinha, nada de demais.

— Não, não foi! Você lembrou de uma coisa que eu tinha falado faz uns dois meses, me viu triste, resolveu fazer alguma coisa por mim, escolheu um presente super atencioso e pessoal só pra me animar num dia ruim e ainda foi um presente super caro! A Ino disse que um arranjo daqueles custa uns 70 contos! Não tira o peso disso, foi incrível, eu me senti super importante, foi, tipo, a melhor sensação do mundo!

Ele cruzou os braços e alternou o apoio das pernas outra vez, mas eu percebia um leve tom avermelhado ameaçando colorir seu rosto e seu semblante um pouquinho mais relaxado.

— É falta de educação perguntar preço de presente, sabia?

Dei uma risada nervosa e constrangedora, mas fiquei satisfeito ao ver a sombra de um sorriso vacilar nos lábios dele também.

— É que eu, tipo… Eu fiquei muito empolgado com essa história, eu queria descobrir tudo!

— Meu pai me dá uma mesada gorda e eu não tenho muito com o que gastar, não foi nenhum sacrifício monetário te comprar uma lembrancinha pra você tirar aquela cara de enterro.

— Funcionou muito.

— Que bom, valeu o dinheiro e o esforço, então.

— Sempre achei que você fosse o maior babaca, mas parece que eu errei feio, né?

Sasuke ergueu as sobrancelhas e piscou atônito.

— Sempre achei que você fosse sem noção e parece que eu estava certíssimo.

— Ah, qual é! Foi um elogio!

Ele torceu a cara para mim, eu ri abobalhado e encolhi os ombros.

— Mas, de verdade, o que você fez foi muito legal. Tem alguma coisa que eu possa fazer pra retribuir?

— Não.

— De verdade, qualquer coisa que…

— Não, é sério, relaxa. Meu objetivo era um, eu já cumpri, deu certo, eu tô satisfeito com isso. Se você inventar de fazer alguma coisa pra “pagar”, vai ter perdido o sentido do presente.

— Bom… Se você diz...

— Ok. Mais alguma coisa?

Meu estômago se revirou. Era lógico que ele estava louco para acabar com aquela conversa constrangedora e voltar para dentro, ainda mais quando eu já havia ultrapassado um bom tanto as paredes de segurança dele e começava a arrancar essas respostas tão íntimas e honestas. Eu sabia que ele era um cara fechado e aquilo devia ser para ele uma zona de perigo. No dia seguinte, na aula, tudo voltaria ao normal e poderíamos fingir que nada tinha acontecido. A voz de Ino surgiu em minha cabeça: “de uma vez, que nem band-aid”. Se eu deixasse aquela oportunidade passar, dificilmente teria chance e coragem para outra.

— Na verdade, tem outra coisa, sim… — murmurei sem jeito.

— Pois diga.

— Er… É uma pergunta que eu queria fazer…

Sasuke ficou claramente tenso. Se remexeu de leve, não foi um movimento drástico, mas era visível das pernas rígidas ao olhar preocupado.

— ... O que é?

— Não fica bravo comigo, tá? Não é por mal, nem nada, eu juro, na verdade eu… É que… Promete que não vai ficar bravo?

— Eu não sei, eu não sei o que você vai perguntar!

— Mas promete? Me promete que vai ser sincero, pelo menos!

— Eu… Tá, prometo que tento, pelo menos. Fala.

— Tá… É que… Olha só, é que você me mandou flores… E você é muito bonito… — Comecei a me justificar, gesticulando com exagero. — Eu não queria criar expectativa à toa, então eu acho melhor só perguntar direto, sabe, já tirar isso do caminho… Enfim, você gosta de mim?

Ele não se moveu. Não tremeu nem mesmo uma pálpebra, ficou um momento tortuoso me encarando inerte como se o tempo houvesse congelado quando eu fiz a pergunta. Me remexi desconfortável, quase como se para confirmar que o mundo não havia mesmo parado de repente. No instante seguinte, ele inspirou fundo devagar e balançou a cabeça positivamente.

— Gosto.

Eu não esperava nada que ele fosse ser tão honesto e direto naquele momento. Travei boquiaberto, tentando entender de fato o que Sasuke havia acabado de admitir com aquele ar sério e cara de bravo. A ideia parecia surreal.

— Uau… Puxa, obrigado.

Ele franziu a sobrancelha e tombou a cabeça de lado.

— Disponha — retrucou cinicamente.

— Ah, ninguém nunca se declarou pra mim antes! Eu não sei o que dizer!

— Tecnicamente, eu não estou me declarando. Você que apareceu aqui, me botou contra a parede e começou um interrogatório.

Eu ri meio sem jeito.

— Tem razão… Desculpa de novo por isso.

— Tá tudo bem, relaxa.

— Mas, olha, não tem nada mesmo que eu possa fazer pra retribuir? Porque… Sério, tudo isso tá sendo muito mais do que eu poderia pedir, eu queria fazer alguma coisa de bom pra você, sabe?

Sasuke se encolheu um pouco e encarou o chão pensativo. Ficou um instante assim, em silêncio, e então balançou a cabeça de leve.

— Você disse que… não queria criar expectativa à toa? — ele murmurou, ainda sem erguer os olhos do chão.

— Eu… É. Você sabe, vai que tinha algum motivo obscuro… Que tudo isso fosse uma peça que cê tivesse pregando em mim e eu já fosse todo trouxa me apaixonando porque ganhei umas flores bonitas…

— Hm… Você é…?

— Bissexual. Ou pan, não sei, não me decidi ao certo ainda… Mas, por favor, não conta pra ninguém, a única pessoa da escola que sabe é a Ino.

— Tá… Então, você podia aceitar… sair comigo.

Ele ergueu os olhos para mim com expectativa, eu mordi o lábio.

— Sair tipo um encontro?

— É.

— Pra onde?

— Não sei, a gente combina alguma coisa legal.

— Não, vamos agora!

— Agora?!

— Sim, é que… — Sacudi os ombros com exagero. — Se a gente combinar outro dia, eu vou ficar super nervoso e paranoico, amanhã vai ser super estranho na escola, eu vou ficar criando um monte de expectativa e acabar fazendo tudo errado... Sabe? Tipo… Agora a gente já tá aqui, já tá tudo estranho, eu já até tô acostumando com esse clima constrangedor, você não tá? Aí já mata essa de uma vez e, se tudo der certo e a gente combinar de sair de novo, vai ser sussa.

Ele me encarava com a boca entreaberta e o cenho franzido como se jamais houvesse escutado nada tão absurdo ou só não entendesse uma palavra do que eu dizia. Não disse nada por um momento e meu cérebro, como não podia deixar de ser, começou a gritar que ele certamente já estava se arrependendo de tudo e mudando de ideia sobre gostar de mim.

— A não ser que você não possa sair agora — me apressei em dizer —, mas eu também não posso voltar muito tarde, eu ainda tenho que passar na Ino antes de ir pra casa, minhas coisas tão todas lá.

— Não, tudo bem, eu posso ir agora. — Ele coçou a cabeça pensativo. — Tem uma sorveteria aqui perto, pode ser?

Dei um suspiro aliviado e abri meu melhor sorriso.

— Sim! Ótima ideia, adoro sorvete!

— Ótimo, vou pegar minha carteira.

— Não precisa, eu pago!

— Não.

Ele já estava entrando novamente e fechando a porta antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Fiquei sozinho no silêncio da rua esperando Sasuke retornar, sentindo uma ansiedade engraçada crescer em meu peito e me sentindo meio idiota parado ali. Mas ele não demorou, logo apareceu apressado e fechou a porta outra vez, agora passando a chave. Por um instante estranhei sua altura, então reparei que ele havia calçado um tênis e antes devia estar só de meias. Era uma coisa boba, mas evidenciou o fato de que ele era uns poucos centímetros mais alto que eu. Tantas coisas que eu nunca havia notado antes e, de repente, cada detalhe sobre Sasuke me chamava a atenção e eu me divertia os desvendando e os anotando mentalmente.

— Vamos? — ele disse tomando a frente. Eu concordei com um sorriso.

Os primeiros metros andamos em silêncio. Nenhum de nós sabia como agir, o que dizer, o que fazer… Eu já havia dado uns beijos em festas ou rolês com bastante gente, mas jamais havia saído sozinho com alguém, nunca tivera um encontro. A primeira coisa que me ocorreu foi puxar mais assunto sobre a única coisa que tomava conta da minha cabeça naquele momento.

— Então, quer dizer que você gosta de mim? — perguntei tentando fazer aquilo soar casual.

— ... É.

— Legal… Mas por quê? — Sasuke me lançou um olhar exasperado, quase ofendido. Eu choraminguei baixinho. — Eu sei que você não é muito de se abrir desse jeito e que eu tô forçando um pouco a barra, mas é que ninguém nunca gostou de mim assim antes! Eu nem sei o que foi que você viu em mim, a gente nunca conversou muito, eu tô realmente curioso!

Ele virou o rosto para frente, os olhos apontando para cima, inspirou bem fundo e soprou o ar para fora devagar.

— Tá legal, só promete que não vai rir, nem nada, entendeu? — ele disse ríspido.

— Prometo!

— Tá… Então… Quando eu entrei na escola, ano passado, de primeiro eu achei que você fosse igual aos outros garotos da sala, que são iguais aos outros garotos da outra escola, aquela coisa de sempre… — Sasuke continuava olhando para a frente e falando naquele tom meio aborrecido, como se estivesse comentando sobre alguma coisinha incômoda que havia passado pelo seu caminho, e sobre não alguém para quem ele tinha vontade de enviar flores. Eu achava aquilo particularmente divertido de se assistir. — Mas aí eu vi que não. Você se dá muito fácil com eles, sim, mas também não deixa de se destacar. Você não vai na dos outros com qualquer coisa, você pensa por si próprio e sempre diz o que pensa, se posiciona, fala em voz alta quando não concorda… E o seu modo de pensar se parece muito com o meu. E também o jeito como você trata as meninas, como se preocupa com as pessoas, isso é… É muito raro, entende? Você tem um jeito diferente de levar as coisas. Isso muda as pessoas ao seu redor, inspira elas. É quase como se… você fosse uma fonte de energia. Você faz tudo se mover.

Meu rosto queimava de vergonha. Era absurdo ouvir alguém (que não era minha mãe) falar de mim daquela forma, mas era um absurdo delicioso. Minha autoestima subia tão rápido que parecia ter tomado um elevador; se não estivéssemos ao ar livre, teria quebrado o teto. Por mais que eu mordesse a boca, um sorriso eufórico continuava aparecendo. E Sasuke, por mais que se mantivesse sério e orgulhoso, de queixo erguido, estava completamente vermelho.

— Nossa, isso é… tão incrível… — murmurei desconcertado. — Ninguém nunca me disse nada parecido antes!

— É por isso que eu queria te animar, sabe? Porque… É sempre você quem dá ânimo pra todo mundo. Se é você quem tá mal, quem iria fazer isso por você? Eu já sabia o que fazer, tinha um plano pra não ser descoberto, depois de um tempo todo mundo ia esquecer e pra você ficava uma lembrança legal… Parecia minha chance de fazer alguma coisa.

— Desculpa, de novo, pela invasão de privacidade… Mas obrigado, de novo, por tudo.

— O saldo foi positivo, eu não tenho do que reclamar.

— Mas, caramba! Você parece saber tanta coisa sobre mim e eu não sei nada sobre você!

— Bom, eu sou muito quieto e você é muito barulhento.

Eu dei uma gargalhada.

— É, nisso você tem muita razão.

— Até te achava bem inconveniente, no começo.

— Ei!

— É verdade, te achava irritante, um pé no saco. Pensava “caralho, como esse menino fala, que mania de querer aparecer”... Mas aí um dia que você faltava eu achava estranho… Sentia falta… Quando reparei, tava prestando atenção em ti o tempo todo… Então eu comecei a escutar mais o que você dizia, o que você fazia e em algum momento…

— Você ficou perdidamente apaixonado.

— Eu nunca disse isso.

— Mas não é? — provoquei com um sorrisinho sacana. Ele me lançou um olhar astucioso.

— Com certeza não foram as palavras que eu usei.

— Mas ok, você me conhece até que mais do que eu esperava… Agora me fala um pouco sobre você.

— Sobre mim? Ahn, deixa eu ver… Eu moro com meus pais e meu irmão mais velho, que tem vinte e dois anos e tá no último ano da faculdade, eu faço curso de inglês às quintas-feiras e passo tempo demais na internet.

— Hm… E seus pais sabem que você égay… ?

— Não. E eu não sei se sou, pra falar a verdade. Eu nunca me interessei por nenhuma garota, mas também não gosto muito de homem…

— Bom, você gosta mim!

— É verdade, gosto. — Ele parou e olhou de relance para dentro da sorveteria, mas se virou de frente para mim e me encarou, fazendo um revertério subir pelo meu corpo dos dedos dos pés até a cabeça — Você tá mesmo decidido a me fazer repetir isso um bilhão de vezes, né?

Eu abri um sorriso enorme e envergonhado.

— É gostoso de ouvir, sabe?

Sasuke rolou os olhos, mas seus lábios se curvaram antes que ele desse meia volta e entrasse na sorveteria. A loja era fofa, tinha um ar clássico e a decoração toda em branco. Aquilo me preocupava, pois eu não tinha comigo muito dinheiro e o lugar parecia caro. Sasuke passou os olhos pelo balcão e se voltou para mim.

— Já veio aqui antes? Tem bastante opção diferente.

— Não…

— Dá pra pedir milkshake de qualquer sorvete.

— Ah… Não, eu vou pegar um simplesinho, mesmo.

— Pode pedir qualquer coisa, eu pago.

— Não, né, eu vim retribuir o presente, não te fazer gastar mais dinheiro comigo.

— E por acaso o que eu pedi como agradecimento foi você comprar sorvete?

— Eu… Não, mas…

— Eu te pedi pra vir num encontro comigo. — Ele acenou com simplicidade.— Você tá aqui, tá cumprindo a sua parte. O encontro é minha responsabilidade. Sou eu que tenho que conquistar você, não é? Como você disse: se tudo der certo, nós combinamos de sair de novo e a gente decide quem paga.

Eu sorri condescendente e dei um suspiro lendo a tabela de preços (que eram altos, como eu imaginei).

— Tá bem. E o que você vai pedir?

— Eu vou pegar uma taça média.

— Tá certo, vou querer o mesmo, então.

A taça média era, na verdade, um copinho largo de papel com tamanho para três bolas de sorvete. Sasuke escolheu pistache, menta e alguma fruta estranha que eu nunca havia provado. Eu peguei três tipos diferentes de chocolate. No final havia uma porção de caldas, confeitos e coberturas para se colocar, devo ter escolhido umas cinco, ele passou reto. Saiu caro, mas ele pagou em dinheiro e não pareceu nada incomodado. Fomos nos sentar ao canto da loja; o lugar era pequeno e não tinha muito onde se esconder, mas ao menos estávamos numa mesa que não era visível passando de fora.

— Gostou? — ele perguntou quando coloquei a primeira colherada na boca.

— Maravilhoso! Quer provar? — Ele negou com a cabeça. — E esses negócios estranhos que você pegou?

— Eu gosto desses. — Fiz uma careta hesitante, ele riu e me estendeu a pazinha com um pouco de seu. — Experimenta, é bom.

Sem muita fé, mas curioso, estiquei o pescoço e abocanhei o sorvete.

— Hm! — murmurei com uma careta. — É gostoso, mesmo, mas é meio azedinho… Até gosto de azedo, mas prefiro meu chocolate, mesmo.

— Não gosto de nada muito doce...

— O que me lembra… Que você acabou não falando quase nada de você!

— É meio difícil… Não tô muito acostumado a falar sobre mim, não sei o que dizer. — Ele deu de ombros pensativo enquanto saboreava outra colherada. — Por que você não me diz o que você achava de mim até hoje? Aí, quem sabe, eu tenho uma ideia de por onde começar.

— Bom… — Fiz um olhar culpado e dei uma risadinha. — Eu te falei, achava que você fosse um babaca arrogante. — Os cantos da boca dele se curvaram suavemente e eu ri mais alto. — Ah, sei lá! Sempre tive a impressão que você não falava com ninguém da sala porque achava todo mundo idiota e se achava bom demais pra se misturar com a gentalha, sabe?

Os olhos dele estavam fixos no sorvete, mas o sorrisinho cínico aumentou um pouco.

— É, não posso dizer que você tava muito errado…

Babaca! — exclamei rindo.

— Ah, eu não tenho assunto com nenhum cara da nossa turma, eles só falam de futebol, de ficar bêbado, de transar… Tudo virgem, machista e forçado, tenho zero paciência.

— É, eu sei, mas depois que conversa um pouco você vê que eles são legais, essas coisas são só fachada…

— Forçado e hipócrita.

— E as meninas? Elas gostam de você!

— Elas nem me conhecem, só puxam meu saco porque eu sou bonito, se eu não fosse me ignoravam.

— Nossa, metido! “Ain, porque eu sou bonito…”

— Bom, você me acha bonito, já disse isso hoje…

— Sim, mas…

— E eu me acho bonito, também. Estamos conversando só nós dois, então se é verdade pra nós dois, dentro dessa conversa é um fato.

Eu queria fazer cara de bravo, mas não conseguia parar de sorrir. Isso me deixava mais bravo, mas quanto mais bravo ficava, mais eu me admirava do que ele estava fazendo comigo e maior era minha vontade de rir. Depois de um longo momento sorrindo feito bobo e o encarando inconformado, eu desabei de rir. E quando eu desabei de rir, ele abriu o primeiro sorriso de verdade que eu vi Sasuke dar na vida e meu coração deu um pinote violento.

— Caramba… — Ofeguei, apoiando os cotovelos na mesa e cobrindo o rosto com as mãos enquanto tentava me recuperar. — Ok, deixa eu ver se entendi… Você é um cara arrogante, metido, cínico e orgulhoso, que não gosta de meninos, não gosta de meninas, não gosta de flores e não gosta de doces… — Ele confirmou com a cabeça. — Mas também, por baixo dessa fachada de malvado, você é fofo, atencioso, sentimental, não suporta gente babaca, se preocupa com o bem estar das pessoas, faz coisas pelos outros sem esperar nada em troca…

Ele estalou a língua e rolou os olhos.

— Ah, eu, o altruísta! — disse cinicamente.

— Entendi, não pode falar que é fofo. É pra falar que você é o mal, o ser das trevas?

— Não…

— Pode esquecer, eu ouvi você todo sem graça explicando que me deu flores porque queria me fazer bem, que gosta de mim porque eu me preocupo com os outros, que não se dá com os caras porque eles são broncos, aí você quer que eu acredite que você não é um amorzinho? — A cara emburrada dele era quase demais para mim, eu ri baixinho. — Achei que você queria que eu gostasse de você, sabe, você é engraçado…

— E você tem o sorriso mais lindo do mundo, sabia?

Ele me quebrou. Cobri a boca com a mão e abaixei os olhos, sentindo meu rosto inteiro arder em chamas.

Não é justo…

— Se você vai me deixar sem graça, eu também vou. Já que falamos do fato da minha beleza, vamos aproveitar e falar da sua. Sabe que eu nunca tinha conseguido ver seus olhos tão bem antes de hoje? Devem ser os olhos mais lindos que eu já vi na vida, desde o formato, que parece um desenho, assim, enorme e puxadinho pra cima, até esse azul incrível, nunca vi um olho tão azul.

— Para! — Eu sabia que estava dando trela para o jogo dele, mas a única coisa que eu consegui fazer foi começar a rir de nervoso e enterrar o rosto nas mãos. — Ai… Assim eu fico sem…

— ... Sem graça? Que bom. Aliás, essa sua risada, meu Deus, eu juro que podia passar o dia inteiro te ouvindo rir. Não sei nem o que eu amo mais, se é sua voz, ou o seu sorriso. Que foi? Achei que fosse gostoso me ouvir dizer o quanto eu gosto de você.

Ai, Sasuke…

Minha voz mal saía, eu ria num silêncio meio sufocado, ainda mais por trás das mãos me cobrindo o rosto. Escutei uma risadinha baixa do outro lado da mesa.

— Vai, respira fundo — ele me disse com um jeito cínico, esperando eu me recompor. — Devagar… Ok, olha pra mim.

Esfreguei devagar as palmas contra a face procurando voltar a ficar sério e abaixei os braços, cruzando-os sobre a mesa. Encarei Sasuke mais uma vez, ainda sentindo minhas bochechas ardendo; ele me olhava com um maldito sorrisinho de canto e eu poderia apostar o que fosse que ele ainda não havia terminado. Um momento disputado de silêncio.

— Você tinha razão — ele disse. — Se eu tinha alguma dúvida, depois de hoje eu não tenho mais.

Eu mordi a boca hesitante.

— Dúvida do quê?

— Eu tô mesmo perdidamente apaixonado por você.

O sorriso veio sem eu conseguir fazer nada para impedir, tudo o que pude fazer foi cobrir o rosto mais uma vez.

— Ai, tá bom, tá bom! — choraminguei rindo com um nervosismo bobo. — Você ganhou.

— Ganhei, é?

— Ganhou. Eu não consigo nem pensar direito.

Ele abaixou os olhos e sorriu com uma expressão inédita. Se eu não estivesse começando a aprender como ele funcionava, acharia que era meiguice.

— Seu sorvete derreteu inteiro.

Segui seu olhar até meu copo para constatar que o resto das minhas três suntuosas bolas de chocolate haviam virado líquido e os confeitos boiavam na borda.

— Ah... Poxa vida — murmurei frustrado.

Sasuke riu, eu dei de ombros e tomei meu sorvete derretido como se fosse um shot, de um gole só.

Apoiei o queixo sobre a mão, conformado, e ele cruzou os braços sobre a mesa. Os dois se encarando em silêncio, um sorrisinho discreto no canto da boca.

— Eu não sei por que você resolveu ser tão legal comigo.

— Eu acabei de dizer, é pra repetir mais outra vez?

Revirei os olhos.

— Não, mas você podia ser qualquer tipo de pessoa, só que você é assim.

Assim.

— É, desse jeito. Me irrita, sabe?

— Ah, é?

— É. Você fica desse jeito todo metido, fazendo cara de frio e indiferente, cheio de gracinha, de cinismo, com esse jeitinho prepotente de quem já conseguiu o que quer... E eu fico com raiva, com vontade de te socar... — rosnei mostrando o punho cerrado para ele. — Porque você tá conseguindo, mesmo!

Ele riu satisfeito.

— Bom saber. Você funciona na base da provocação, é?

— Desgraçado.

— Que lindo você fica bravo.

— Que atencioso, você me mandando flores.

— Que fofo, você todo vermelho.

— Muito estiloso o seu cabelo de emo — Ele estalou a língua e rolou os olhos, não houve réplica. — Touché.

— O cabelo é mancada.

Quem riu dessa vez fui eu.

— Mas me explica um negócio.

— Diga.

— Há quanto tempo você tá assim, caído de amores por mim, sem dizer nada?

Ele deu de ombros.

— Faz alguns meses, acho. Desde o ano passado.

— E por que você nunca disse, nunca tentou nada?

— Achei que você fosse hétero.

— Mas você nem... Sei lá...

— A gente não se falava, ia ser meio estranho eu resolver me aproximar de você do nada com segundas intenções...

— Então quer dizer que, por baixo desse nariz empinado, você é inseguro que nem uma pessoa normal?

Ele me fuzilou com os olhos e mordeu o lábio pensativo.

— É... — Ele tombou a cabeça, deu de ombros e estalou a língua. — Eu fico assim perto de você, Naruto.

Soltei um ganido.

Cretino… — murmurei. — Mas o ponto é que, poxa, eu podia estar apaixonado por você faz eras! E ainda me manda flores sem nem um cartãozinho!

— Não queria te comprar com presentes. Se fosse pra fazer alguma coisa, eu faria na formatura.

— Medroso.

— Precavido.

— Ia acabar perdendo a chance.

— Talvez fosse melhor pra você.

— Bobagem.

— Você não me conhece bem o suficiente pra saber.

— Porque você é muito quieto.

— E você é muito barulhento.

— Mas então, você foi sentar do meu lado esse ano de propósito?

— ...Mais ou menos.

— Como mais ou menos?

— ...Defina “de propósito”.

— Tipo, você escolheu sentar do meu lado pra poder ficar do meu lado?

— Ah… Eu não falo muito com ninguém da sala, mas eu gosto de você, então… É, foi por isso.

— Você não tem amigos?

— Tenho.

— Do curso de inglês?

— Não, da internet.

— Você tem amigos que você vê pessoalmente?

— Eu me encontro com os da internet, tem uns que moram perto. Tá com medo?

— Não sei, vai que você fosse um psicopata?

— Eu pareço psicopata? — ele ergueu uma sobrancelha, eu dei uma risadinha.

— Acho que não, você ficou nervoso demais quando eu apareci na sua casa, morrendo de vergonha, um psicopata teria ficado calmo.

Ele franziu o cenho e quase fez um bico emburrado.

— Justo… — Sasuke suspirou melancólico e olhou para fora. — Tá ficando escuro…

Virei para olhar também, o céu já estava um forte violeta e uns feixes de luz amarela indicavam que os postes da rua já estavam acesos. Torci a boca frustrado.

— Você tem que voltar agora?

— Tenho.

— Poxa vida…

— Podemos sair de novo no fim de semana.

—Vamos sim!

Ele desviou o olhar para a mesa, mas eu o vi sorrir. Nós dois nos levantamos devagar, sem nenhuma pressa ou vontade de ir embora. Não tínhamos chegado até ali correndo, mas com certeza estávamos indo embora muito mais lentamente. E em silêncio. Chegamos à primeira esquina sem dizer nada.

— Aonde vamos na próxima? — perguntei por fim.

— Eu sugeri a sorveteria hoje, o próximo você decide.

— Ok… Pode ser cinema?

— De quartas-feiras o cinema é mais barato.

— Boa! Amanhã, então? O que vamos ver?

— Você tem meu celular, né? Graças ao seu serviço de FBI. Me manda mensagem quando chegar em casa, a gente olha no site os horários e filmes que tão passando e decide.

— Certo…

Paramos. Seguindo para a esquerda estava a casa dele, para a direita ficava a de Ino. Nós viramos um para o outro com hesitação; eu mordi a boca, ele suspirou.

— Bom, é aqui que nos separamos, né?

— Como vai ser amanhã na escola? — murmurei com um sorrisinho nervoso. Ele deu de ombros.

— Normal. A gente se cumprimenta, cada um senta no seu lugar, eu vou ficar na minha, como sempre, porque eu sou quieto, e você vai acabar dando um monte de pala ao longo do dia, porque você é barulhento.

Eu torci o nariz, ainda que rindo.

— Claro que não! Eu sei ser discreto, também — reclamei com as mãos nos quadril. — Amanhã eu vou ficar na minha, também, não vou dar pala de nada, você vai ver!

— Tá bom, então. — Ele riu.

— É verdade! — Eu fui sincero na intenção quando disse aquilo, mas no dia seguinte, claro, era Sasuke quem estaria certo. Eu passei a aula lançando uma porção de sorrisos atrapalhados de canto para ele e, eventualmente, ajoelhei ao lado de sua mesa para deitar a cabeça sobre seu caderno e mendigar atenção (que foi atendida com prontidão quando ele riu discretamente e me mandou levantar dali e puxar minha cadeira para sentar junto a ele). Mas isso, claro, eu ainda não sabia. — Você vai ver só, eu também sei ser quieto.

— Você se importa?

— Não sei… Você se importa?

— Não sei, também… Acho que não. — Ele deu um breve suspiro. — Calma, também, a gente tá se antecipando um pouco.

— É, acho que sim... — Eu ri com nervosismo. — Desculpa.

— Não, tudo bem.

Eu dei um suspiro um pouco exagerado, Sasuke sorriu. Um silêncio ansioso se instaurou entre nós de repente, era isso: hora de ir embora, não tinha mais o que dizer. Meu sorriso se tornou uma risada baixa, ele fechou os olhos por um segundo e inspirou fundo.

— Nossa, eu queria muito te beijar agora — ele soltou com o ar.

Acho que nunca na vida dei um sorriso tão enorme quanto aquele, nem nunca senti um sobressalto tão delicioso. Não que eu não estivesse esperando por algo do tipo, mas expectativa nenhuma se compara com a realização.

— Você pode — murmurei com a voz abafada pela euforia.

— Não sei, talvez eu devesse esperar pra te beijar quando você já tivesse apaixonado por mim.

— O que você acha que eu estive fazendo essa tarde inteira? — Ele riu rolando os olhos, eu estalei a língua. — Sério, se você ver o quanto meu coração tá disparado agora, você acredita?

Peguei sua mão e a trouxe junto ao peito. Eu o encarava ansioso, mas Sasuke não retribuía, estava concentrado em sua mão entre as minhas. Seu olhar descrente foi se tornando num sorriso cretino daqueles que eu já estava me acostumando a ver e então subiu para os meus olhos outra vez.

— Tá sentindo? — sussurrei extasiado.

— Quer dizer, então — ele disse cínico —, que você se apaixona imediatamente por qualquer um que te der flores?

— Claro que não, idiota!

Eu estalei a língua e recebi uma risadinha muda em resposta. Mas não levou mais nem um segundo para que nós dois, de prontidão, nos aproximássemos devagar, com os olhos fixos na boca um do outro, eu ainda segurando a mão dele sobre o meu coração acelerado, contando apenas com as sombras de algumas árvores como escudo e nossa própria sorte. De primeiro, apenas pressionamos os lábios, trocamos uns beijos inocentes e estalados, aproveitando a proximidade, o toque, cada sensação, cada som, sem pressa. Então ele mordeu de leve meu lábio e eu deixei escapar um sorriso em meio aos beijos. Soltei uma mão e a levei à sua nuca, onde enrosquei os dedos por entre os fios de cabelo para, por fim, experimentar sua boca por dentro. Seu beijo tinha gosto de menta e da tal fruta estranha (physalis, que eu eventualmente experimentei, apenas para decidir que tinha gosto do beijo de Sasuke) e imaginei se ele, que não gostava muito de doce, estaria incomodado que minha boca tivesse gosto de três tipos diferentes de chocolate. Não devia ter se importado muito, porque logo senti sua mão livre deslizando com ímpeto pela minha cintura e me pressionando contra o seu corpo.

Acho que, por um momento ali, nos esquecemos de que ainda estávamos em público. Por mais desapressado que fosse nosso beijo, ele logo havia se tornado intenso e demorado demais. Além de um pouco atrapalhado. Não fosse o nervosismo imenso, eu, que já não era muito experiente, nunca havia beijado um garoto antes. E ele, então, nunca havia beijado ninguém. Mas aquela era grande parte da graça.

Desorientados, com a boca vermelha e o resto da cara também, terminamos o beijo. Deixei minha mão escorrer pelo seu pescoço e a outra, percebi, ainda esmagava a mão dele contra o meu peito. Soltei encabulado. Demorou um instante para que, uma vez totalmente desgrudados um do outro, voltássemos a nos encarar. Ele passou o polegar embaixo do lábio o secando, repeti o gesto desajeitadamente. Suspiramos quase em uníssono.

— Bom… Nos vemos amanhã, então — ele disse com aquela mesma voz do começo da tarde, que tentava disfarçar o nervosismo com seriedade.

— Isso… Te mando mensagem quando chegar em casa… Pra combinar o filme.

Ele remexeu os lábios por um segundo e ergueu uma sobrancelha com aquele jeito cínico, eu já esperei uma provocação.

— Devo te levar flores?

— Não! — exclamei rindo.

Sasuke sorriu.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

Seguimos cada um para um lado, mas isso não nos impediu de olhar para trás uma ou duas vezes e sorrir. Eu mal podia esperar para contar tudo para a Ino, para a minha mãe, para uns amigos de fora… Mas, muito mais do que isso, eu mal podia esperar pelo dia seguinte. Sasuke não levou flores ao nosso segundo encontro (apesar de ter perguntado de novo na aula, o que eu voltei a negar). Mas levou no terceiro e levou no dia em que me pediu em namoro. E para a enorme satisfação de Ino, que (uma vez que o anonimato não mais interessava) se tornou a fornecedora oficial de girassóis, a flor virou presente de praxe em todos os meus aniversários, dias dos namorados, aniversário de namoro, reconciliações, formatura, aniversário do primeiro encontro, pedido de casamento, bodas, tudo. Mas os mais importantes são os girassóis que vêm em dias ruins.

É fato que Sasuke só sabe usar romantismo em forma de provocação e as flores, que são a exceção da regra, foram uma ideia que ele ganhou de mão beijada. Não importa. O que realmente faz diferença é saber que, mesmo quando eu estou enfraquecido, existe alguém disposto a ser minha força. Acho que amor é isso: uma fonte de energia. Que vem em forma de atenção, sorrisos, provocações e, de vez em quando, girassóis.

June 15, 2018, 8:05 a.m. 9 Report Embed 21
The End

Meet the author

Liiz Lestrange No mundo das fanfics há mais de dez anos, obcecada com sasunaru há mais de cinco, apaixonada por todo tipo de arte e sempre exaltando meu otp como se não houvesse amanhã.

Comment something

Post!
ab akriel black
Essa é uma das melhores fics que já li em todos esses 5 anos de fanfics, obrigada por isso. Meu coração bate mais feliz agora
1 week ago
AS Amanda Santos
Simplismente perfeita essa fic, vc soube caprichar nos detalhes, e como eu amoo um Sasunaru (ou NaruSasu) eu não podia me alegrar mais ao ver meu shippo juntos no final, gostei de tudo, amei o decorrer da história e do modo simples e harmonioso que ela se seguiu, vc está de parabéns, continua sendo essa escritora ou esse escritor, maravilhoso (a) q vc é
2 weeks ago
Sonne Sonne
Colocando em pontos, eu diria que o que eu mais gostei na história foram as partes que fizeram paralelos com o que ainda vai acontecer (sim, eu sei que foi só uma e depois no fim, me deixa, eu gostei) pq ficou uma coisa tão bem colocada e bonitinha que eu fiquei muito !!!!awwww E eu gostei bastante do plot da história em si pq é uma coisa tão na teoria simples (tipo, quem é que ia imaginar que um plot sobre o Naruto gostar de ganhar girassóis funcionaria) mas que foi tão bem trabalhado que ficou uma coisa gostosa de ler pq é uma coisa muito do Naruto ficar bobo e feliz com essas coisas e tão do Sasuke prestar atenção nele de um jeito que nem o Naruto percebe que ficou a coisa mais fofinha e cativante do mundo aaaa ♥
July 12, 2018, 9:30 p.m.
Leyla Mir-chan Leyla Mir-chan
meu Deus.. meu Deus.. meu Deus, amei a fi c com toda a minha alma, os detalhes são tão ricos, fiquei tão feliz da alusão q o final nos mostra q eles ficaram juntos. tô muito contente mesmo...obg
June 23, 2018, 9:28 a.m.
Biurifu Chan Biurifu Chan
Aaaaaa que amor. Tô toda soft aqui, ficou tão envolvente que me fez rir, sorrir toda boba e soltar uns gritinhos. É óbvio desde o começo que o Sasuke é quem envia as flores, mas ainda senti um friozinho na barriga antes da descoberta. É incrível o jeitinho que você deixa a essência deles na história, mesmo sendo um UA e tal. Enfim, AMEI tá perfeito nem consigo comentar nada decente porque tô aqui morrendo de amores por essa fic <3
June 17, 2018, 3:20 a.m.
Yoh Yoh
Você tem a habilidade de escrever histórias pra se ler com um sorriso bobo no rosto. Se lê se apaixonando rindo, ficando vermelha, sem graça, a expectativa crescendo ao ir descobrindo os sentimentos e as personalidades Foi tão preciosamente apaixonada toda a interação deles. Fiquei imaginando os dois nessa personalidade e universo que você criou passando os anos com esse amor crescendo
June 16, 2018, 8:21 p.m.
Nactis Aoneko Nactis Aoneko
Essa é a fanfic mais linda e soft que eu já li na vida. Tipo, minha fic mais soft era Entaramelada, aí veio essa e superou no Ranking simplesmente pq ela é muito neném. Embora seja um UA, tudo é tão absurdamente SasuNaru que eu passei o tempo todo com o coração quentinho e um sorriso idiota na cara. Tinha que ser mesmo esse ser humaninho PhD em sns pra conseguir colocar tão bem a essência desses bebês numa fic ua. Eu amo tanto essa história que nem sou capaz de descrever, ela só perfeita em todos os sentidos.
June 15, 2018, 7:20 p.m.
layelle silva layelle silva
Ficou maravilhosamente lindooo. Nossa, muito fofinho mesmo. Li duas vezes só pra ter essa sensação boa de novo.
June 15, 2018, 9:55 a.m.
KL Kitsune Lyra
Eu to ate sem reação de tao linda que eu achei essa one gente *-* eu quero bater em alguém de tao fofo e parece que meu coração vai explodir *--------* eu parecia uma adolescente lendo, a cada fala fo encontro eu segurava um gritinho e dava risadinha de expectativa e quando teve o beijo eu juro que podia vomitar arco-Iris, e esse final Gente? Aí meu Hikudou eu to muuuuuuito apaixonada por isso aqui e esse Sasuke todo atencioso e esse Naru todo apaixonadinho são meus bebês *--------* essa Ino FBI foi muuuuito amor e eu vou demorar mãe recuperar desde tiro de fuffly *---------*
June 15, 2018, 8:57 a.m.
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