Festival das Sombras Follow story

paloma-machado1524178432 Paloma Machado

Por trás de toda lenda, há uma verdade. E a pior forma de descobrir isso é vivencia-la.


Fanfiction Games Not for children under 13.

#lol #League-of-legends #terror #fantasia
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O Guardião das Correntes

Quando eu era pequena, ouvia várias histórias contadas pelos adultos, as minhas preferidas eram as de terror, encenadas sobre as labaredas de uma fogueira nas noites mais escuras e tenebrosas. Todo ano era realizada uma grande festa onde os moradores da ilha se reuniam na praia para festejar; as comidas, músicas e danças nos divertiam o dia todo, mas ao cair do sol as coisas mudavam completamente. Assim que a lua brilhasse no seu máximo em meio ao grande céu noturno, uma fogueira era acesa e todos sentavam ao seu redor formando um círculo. As crianças mais pequeninas eram postas para dormir, as medrosas iam por conta própria, enquanto outras permaneciam ao lado de seus pais para ouvirem os contos. Eu sempre ficava até o fim de toda a trama, claro que sentia medo e por vezes ia dormir receosa, mas o fascínio por aquelas histórias era maior que tudo.

Nesta data em especial, as histórias eram sobre a Ilha das Sombras, um lugar misterioso habitado por criaturas sombrias; de tempos em tempos uma nova lenda surgia, mas até então conhecíamos apenas oito. A minha preferida era a do Guardião das Correntes, que contava sobre um carcereiro perverso que torturava aqueles sobre sua custódia, das mais diversas formas brutais; foi assassinado pelos prisioneiros, enforcado com suas próprias correntes. Depois de morto, a alma sinistra do carcereiro foi libertada, mas ele não parou com suas tenebrosas ações, tudo ficou ainda melhor para ele. Vagando pelo mundo em forma de um ceifador espectral, ele passou a atormentar os vivos e os mortos, seu maior prazer era o sofrimento de suas vítimas; ele gostava de enlouquecer as mentes mais desafiadoras, de torturar os corpos resistentes e de mutilar e esfolar os mais fracos. O toque final de toda a carnificina era fascinante, ele recolhia as almas das vitimas com sua lanterna que omitia uma luz verde sinistra, elas ficavam presas ali durante anos, até que a última fagulha de brilho se extinguisse.

Algumas das lendas também eram contadas para que as crianças levadas e agitadas fossem para suas camas, algumas necessitavam de um toque de realismo para obedecerem, então sons e luzes aterrorizantes eram feitos para amedrontar os pestinhas. Eu não era uma criança desobediente, mas nessas horas fazia uma birra só para ouvir as histórias... E torcer para que a cama não amanhecesse molhada.

Os anos se passaram e eu me tornei parte do grupo de contadores de história, apesar de ser a mais nova entre os outros poucos integrantes, sabia todas as lendas e seus detalhes. Eu era a única jovem que ainda se interessava por esta parte da cultura de nosso povo, a maioria dos contadores eram anciões, eu não podia deixar que estes contos simplesmente fossem esquecidos, abandonados como se nunca tivessem importância ou um propósito.

Minha dedicação era exemplar, fazia de tudo para que a cultura não morresse, as noites de fogueira começaram a virar uma espécie de teatro, tamanha era a minha atuação para deixar as histórias mais atrativas ao público, principalmente às crianças, que eram o nosso futuro. Com o tempo foi se vendo o resultado, logo o número de pessoas que participavam do evento começou a aumentar, e minha felicidade foi imensa quando os pequeninos me mostraram as músicas que haviam criado especialmente para os personagens das lendas.

Mais um grande evento havia chegado, meu corpo inteiro formigava de tanta excitação, a praia estava completamente lotada, apenas os enfermos e os incapacitados não compareceram, e os cuidadores revezavam entre si para poder ver um pouquinho da festa. Quando a lua chegou ao seu ápice, as pessoas começaram a se acomodar em torno da fogueira. As chamas pareciam queimar mais intensamente e ferozmente nesse dia, até a lua parecia emitir um brilho mais misterioso.

Assim que o grande círculo foi formado, a aventura sombria começou. Cada um dos oito contadores era responsável por uma história, já imagina qual era a minha. De lenda em lenda eu ficava mais nervosa, estava ansiosa pela minha apresentação; assim que minha vez chegou respirei fundo e me coloquei de pé, caminhando em torno das labaredas.

— Estão preparadas para a última história crianças? – eu perguntei em tom de entusiasmo.

— Sim! – responderam os pequeninos em uníssono.

Depois de uma breve pausa, encarei os pequenos olhos e perguntei.

— Suas almas estão seguras?

Algumas das crianças deram um leve suspiro de susto, enquanto outras davam risadinhas.

— Uma noite linda, repleta de luminosas almas aglomeradas em um único lugar, isso seria um deleite de agonia, ele nos infligiria um castigo eterno. – Me dirigi para uma menininha – Será que ele está embaixo da sua cama?

A menina arregalou os olhinhos, esperando que eu contasse mais.

— Ele quer novas vítimas, ele virá à procura das almas perdidas – eu fazia formas com as mãos, criando sombras sob o fogo – pendurando seus corpos em sua foice, como se fossem minhocas em um anzol.

Ouviram-se alguns finos gritos.

— Gritar? Não... Isso será música para seus ouvidos.

— Poderemos fugir... – cochicharam dois meninos.

— Fugir? – eu bufei. – Ninguém escapa de sua lanterna.

Dei mais alguns passos pela areia.

— Vocês sabem sobre quem vos conto? – perguntei erguendo as sobrancelhas.

— O guardião das correntes! – respondeu um jovem ao fundo.

— Sim! Ele! – olhei novamente para a menininha – Thresh!

Assim que pronunciei seu nome, um sopro de ar gelado extinguiu as chamas que queimavam a pilha de madeiras e um arrepio percorreu toda a minha espinha dorsal. Deslizei o olhar sobre a imensidão do mar e pude ver o momento exato em que um raio de luz verde iluminou o horizonte, segundos depois o som chocante de um trovão ensurdeceu meus ouvidos.

Agora não eram apenas as crianças que tremiam de medo, os adultos começaram a se agitar também, não deveriam acontecer tempestades naquela época do ano. Tudo começou a piorar quando uma neblina sinistra engoliu as águas e começou a adentrar a praia; a areia antes morna começou a esfriar rapidamente e quando a nevoa espessa tocou meus pés eu ouvi a risada mais medonha de todas.

Luzes verdes começaram a pontilhar uma forma abaloada sobre a água, parecia com o casco de uma tartaruga gigante. Quando realmente pude distinguir a forma, já era tarde demais, se tratava de uma grande área de terra... Não podia ser verdade, eu só podia estar delirando. Era a Ilha das Sombras.

Assim que oito silhuetas apareceram sobre a ilha flutuante, as pessoas começaram a correr e gritar desesperadas, pegando seus filhos no colo e deixando seus pertences para trás. Se aquilo realmente fosse real, eu sabia que não adiantaria fugir, mas meus instintos foram mais fortes e fizeram minhas pernas se mexerem. Meus pés pareciam queimar de tão rápido que eu corria, apesar da distância, ainda podia ouvir os gritos de dor e desespero das pessoas que ficavam para trás. Corri até o orfanato onde algumas crianças já estavam abrigadas, tranquei as portas e mandei que elas fossem para suas camas e tentassem dormir.

— O que está acontecendo tia? – perguntou-me uma delas.

— É apenas o festival, não há nada a temer – respondi, tentando acreditar naquilo também.

Encostei minhas costas na porta e deslizei até sentar sobre o chão. Minha cabeça estava bagunçada e barulhenta como um casulo de vespas, eu não sabia o que fazer.

Os gritos só aumentavam, ouvi ruídos sobre o telhado, era como se aranhas estivessem andando sobre ele. Meu desespero começou a transparecer nas lágrimas que escorriam sobre meu rosto, olhei para fora por uma fresta na porta, pude ver a multidão na rua e uma luz esverdeada iluminando tudo, mas o pior foi quando vi uma armadura preenchida pelo espectro de um centauro, decapitando uma mulher com um bebe nos braços. Não... O pior ainda estava por vir.

Eu soube disso quando ouvi o tilintar de correntes, as correntes que até pouco tempo atrás me fascinavam. Levantei cambaleando e andei até um dos quartos, me deitei na cama encolhendo-me sob o cobertor, havia voltado a ser uma criança. De repente um silêncio se fez, o que durou apenas o suficiente para dar-me um fagulha de esperança, pois logo pude ouvir novamente o som metálico das correntes se chocando.

Ele caminhava a passos lentos, arrastando a foice sobre o assoalho, produzindo um barulho agudo e agoniante. Eu tentava abafar meus soluços, não queria enxergar nada, queria que tudo fosse mentira, mas a luz verde que traspassou minhas pálpebras não me deixaram sonhar.

Tentei me acalmar e buscar uma saída, foi ai que ouvi uma canção. No quarto ao lado, as crianças começaram a cantar uma das músicas que haviam composto, a princípio parecia apenas uma cantiga, mas ao prestar atenção percebi que o significado era aterrorizante.


Cling Clang, vão as correntes

Alguém está prestes a encontrá–lo

Cling Clang, vão as correntes

O Guardião está bem atrás de você

Tinindo agora, as correntes perseguidoras

Aproximando com sua verdadeira força

Não pare, fuja das correntes

A última chance de escapar

Arraste as correntes, arraste as correntes

Com toda a força que você tem

Arraste as correntes, arraste as correntes

E elas te arrastam para longe

Cling Clang, vão as correntes

Por todo o tempo que você estiver aqui

Cling Clang, vão as correntes

A última coisa que você vai ouvir


Tremer. Tremer. Eu só sabia tremer.

Ele estava a caminho, conseguia ouvir o rangido das tábuas do corredor, em pouco tempo chegaria até mim; joguei a coberta para o lado e pulei da cama, olhei para os lados procurando uma saída. Na parede ao fundo havia uma janela com venezianas de madeira, corri até ela e tentei abrir, mas estava trancada; olhei novamente ao redor procurando por algo com que pudesse quebrá-la, peguei a cadeira da escrivaninha e me lancei com ela em direção à janela, os pés da cadeira atravessaram a madeira, mas assim que eu a puxei, apenas pequenos quatro buracos haviam sido feitos.

Mirei em um dos buracos e bati com a cadeira que se despedaçou em minhas mãos, mas consegui abrir um rombo maior na janela. Eu estava tão desesperada que nem percebi que havia feito muito barulho e agora os passos no corredor haviam acelerado. Eu não tinha tempo.

Enfiei as mãos pela passagem e comecei a puxar as ripas, lascando-as pouco a pouco, senti algo escorrer por meu pulso e vi que havia feito vários cortes, o sangue já começava a cobrir meu antebraço. Eu parei brevemente, minha visão tornava-se turva.

— Saia para brincar – disse Thresh.

Tum. Tum.

Meu coração quase parou.

— SOCORRO! – gritei em desespero.

— Ninguém pode salvá-la. – Aquela voz medonha outra vez.

Comecei a estraçalhar a madeira novamente, sem me importar se aquilo acabaria com meus dedos, certamente era o paraíso perto do que o carcereiro faria se me pegasse. A carne de minhas mãos começava a ficar exposta, unhas arrancadas e farpas enfiadas sob elas, já não sentia meus dedos. Finalmente consegui abrir a maldita passagem, pulei sobre a borda e estava prestes a saltar, mas algo me atingiu.

— Volte aqui – Thresh havia lançado sua corrente, enrolando-a em torno de meu pescoço.

Ele me puxou com força para dentro do quarto, caí em um baque seco sobre o piso, trincando uma costela.

— Vai a algum lugar? – além de tudo era cínico.

As correntes afrouxaram e eu consegui me desvencilhar delas, levantei e virei-me para a criatura. Nenhum monstro do armário chegava perto do terror que sua imagem transmitia. As vestes rasgadas flutuando sobre um espectro luminoso, as mãos tinham garras enormes, a cabeça era um crânio diabólico; na mão direita a foice de cabo curto, na esquerda a lanterna sinistra.

Tentei correr para a porta, mas ele lançou sua foice em minhas pernas e a puxou, raspando o osso da minha canela direita. Engoli o grito de dor. Caí de bruços, tentei me arrastar, mas ele fincou a ponta da arma retorcida em minhas costas e começou a me arrastar em direção ao corredor, assim que passei pela porta, me agarrei ao batente. Péssima ideia. A lâmina afiada desceu sobre minha coluna, rasgando a carne de cima a baixo. Eu gritei.

— Gritar não lhe trará nada de bom – Thresh era abominável.

— Acabe logo com isso – eu supliquei aos prantos. – Por favor.

— Termina quando eu disser. – Com um gesto de mão ele fez erguer cinco paredes translucidas ao nosso redor, como uma caixa pentagonal.

Meus olhos estavam ficando pesados, estava prestes a desmaiar, mas ele não deixaria isso acontecer; segurou a pele da ponta de meu dedo médio e a puxou pra trás, o choque de dor foi na medida suficiente para me deixar acordada.

— Os doces sons da miséria – ele continuava a me torturar.

Puxava cada farpa de meus dedos, esfolava cada parte de meu corpo, até não haver mais lugares para cortar. Meu sangue tingia todo o chão de um vermelho vivo, já estava em meu limite, em pouco tempo sucumbiria.

— Ultimas palavras? – ele perguntou.

Isso era sério mesmo? Eu já devia estar louca. Ele vagarosamente passou sua foice sobre minha garganta, fazendo com que o último sangue fosse derramado e por fim minha vida se extinguisse, mas ainda não havia acabado. Ele aproximou a lanterna de meu corpo e sugou minha alma. Eu não sei como, mas ainda pude sentir algo, a dor mais lancinante possível; era como se meus ossos estivessem estilhaçando, meus músculos atrofiando e meus órgãos sendo dissecados.

Perguntei-me se enfim tinha acabado, mas claro que não. Eu conhecia muito bem a lenda e sabia o que me aguardava dentro daquela lanterna.

— Oh... – sussurrou Thresh – a eternidade que passaremos juntos.

May 31, 2018, 3:15 a.m. 0 Report Embed 0
The End

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Paloma Machado A mente necessita de livros como uma espada precisa de uma pedra de amolar para manter-se afiada.

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