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nanahoshi Nanahoshi G

Depois da morte de seu pai, Cendi viu todos aqueles que mais admirava passarem a desencorajá-la de seus sonhos e a minar sua autoconfiança por medo de que acabasse como ele. Por isso, decidiu ir acertar as contas com seu "tio", Anthony Stark e a verdade que descobriu foi a mais terrível de todas. Desiludida, Cendi volta para casa e acaba por enfrentar sua mãe. O que ela não poderia imaginar é que sua atitude de resistência traria à tona um apoio inestimável e uma descoberta que mudaria sua vida por completo.


Fanfiction Movies All public.

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Short tale
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Capítulo único

Música "I'm Still Here" do filme "Planeta do Tesouro" (gostaria de salientar que tanto a versão em inglês quanto a em português, "Estou aqui", interpretada pelo Jota Quest, foram usadas como base da história). 

Olá pessoinhas! Aqui está minha participação no Desafio Inkdisney e eu nunca imaginei que ia encaixar tão perfeitamente com uma história que eu já estou escrevendo do universo Marvel, que é a fanfic "Charging Ranger". Essa oneshot é uma versão alternativa do prólogo da história, onde temos um ponto de virada na vida da protagonista, Cendi, mostrando a sua "gênesis" como heroína. Confesso que deixei muitas ganchos na oneshot para vocês ficarem curiosos sobre a longfic, já que muitas das coisas que aparecem na oneshot só serão explicadas (ou já foram) nela. Fiquei muito feliz de ver como a música tema do Jim, de Planeta do Tesouro coube bem na história de Cendi, e isso me fez crer que eles seriam ótimos amigos se eles se encontrassem UASGASAGSGYGS Esse filme é de longe o meu favorito da Disney até hoje, e é uma dor imensa que ele tenha sido tão subestimado por um simples erro na data de lançamento do filme (muita gente que eu conheço fala que ama o filme e que ele foi injustiçado, e justamente pq foi lançado com o segundo filme de Harry Potter. Não tinha como competir nas bilheterias). Sem mais delongas, o capítulo! (recomendo ouvir a música antes de ler).


– Quantas vezes eu vou ter que repetir? Anthony Stark está morto para nós! Morto, Cendi! Você não me prometeu que nunca mais iria atrás dele?

Séfora deu um pequeno passo para trás para ter certeza que estava fora do campo de visão de sua mãe, Minerva. Encolhida na sombra do corredor, a garota de quinze anos vigiava a irmã mais nova, de treze, que ouvia o sermão sem dar um pio. Seu cabelo negro que descia até abaixo do queixo parecia um ninho de pássaros de tão bagunçado, e suas roupas estavam muito amassadas e sujas. Seus olhos, mesmo secos, estavam muito inchados e vermelhos, como se ela tivesse passado a última semana que estivera desaparecida chorando.

– Eu estava com saudade do Tio Tony – respondeu Cendi numa voz sumida, começando a ficar embargada.

Minerva passou a mão pelos cabelos igualmente negros e segurou-os com força. Depois, aproximou-se de Cendi e agachou-se diante dela, para que pudesse olhá-la diretamente nos olhos.

– Eu já disse, e vou repetir – a mulher fez um gesto firme de cima para baixo com as duas mãos viradas de lado – o Stark não é seu tio. Ele não faz parte da nossa família. Nunca fez.

– Você não dizia isso antes do papai morrer. – sentenciou Cendi elevando um pouco a voz, e agora era óbvio que ela segurava o choro.

Um silêncio lúgubre baixou sobre a sala, e Séfora sentiu um leve arrepio nos braços. Minerva encarou Cendi por longos segundos, depois levantou-se e foi até a janela do outro lado da sala.

– Isso, o seu pai. – ela permaneceu apenas por um instante encarando a paisagem do lado de fora para logo tornar a encarar Cendi. – Você sabe muito bem que se eu e seu pai não tivéssemos nos envolvido com o Stark, ele estaria vivo.

Cendi abriu a boca para retrucar, as primeiras lágrimas descendo por suas bochechas, mas tornou a fechá-la. Ela espremeu os lábios e desviou os olhos para o chão. Minerva voltou a se aproximar da filha mais nova.

– É por isso que nós saímos de Nova York, Cendi. O Stark mexe com coisas perigosas, e isso custou a vida do seu pai. Se continuássemos lá, você seria a próxima. – ela baixou os olhos significativamente para o ponto central do tórax da menina, que involuntariamente tocou o cristal que havia ali, incrustado em seu peito sob sua camisa. – O mundo é um lugar perigoso, filha, principalmente para pessoas como você e seu pai. As pessoas têm medo do que é diferente, e quando elas descobrem que esse diferente é bom, é melhor... É aí que vocês são usados. Stark só queria te usar, Cendi. Te encheu de histórias sobre construir um morfador e um megazord só pra no futuro poder te transformar numa arma.

Minerva se agachou bem perto de Cendi e pousou a mão em uma de suas bochechas.

– O nosso mundo é diferente do que você vê em Power Rangers, filha. É perigoso ser uma heroína. Muito perigoso para qualquer pessoa, mas mais ainda pra você. Você já corre perigo por ser o que é. Então, por favor, seja razoável e esqueça o Stark. Esqueça tudo o que você viu em Nova York. Nada daquilo existe mais. Tudo desapareceu quando seu pai morreu, e eu não quero te perder como o perdi. Por favor, Cendi... Eu só estou tentando te proteger.

Séfora engoliu em seco, sentindo uma fração do golpe que Cendi deveria estar sentindo naquele instante. Os olhos alaranjados da garota estavam desfocados e completamente vazios, como se ela tivesse desmaiado em pé. O que Séfora não sabia é que a irmã estava revivendo alguns dos minutos infernais que passara na Torre dos Vingadores, onde fora procurar pelo tio há alguns dias.

“Não, não, nunca achei que você tinha talento para ser uma heroína. Meu interesse estava bem aí”, dissera Stark de forma displicente, apontando com a ferramenta com que trabalhava para o meio do tórax de Cendi, onde ficava seu cristal. “É preciso alimentar a cabecinha de uma pessoa se quisermos tê-la por perto. Pra usar, se não ficou claro. Foi exatamente o que eu fiz com seu pai”.

“Eu realmente tenho que aprender a lidar com crianças. Pff. Você realmente acreditou em tudo o que eu falei? Você é só uma garotinha que admira um bando de moleques de colant colorido que se acham super-heróis. Achou mesmo que ia se tornar uma grande heroína se baseando naquilo?”

“Olhe bem pra mim. Aqui, nos meus olhos. Você está olhando para o Homem de Ferro. Um herói que existe, um herói de verdade. E eu estou te dizendo que você não tem talento para ser uma heroína, pois quando se é um herói, você reconhece um outro quando o encontra, está bem? Capiche?”.

– Por que só me contou isso agora? – perguntou Cendi despertando das lembranças e fungando.

Minerva apertou os lábios e baixou a cabeça.

– Eu não quis te contar – respondeu a mulher erguendo a cabeça, mas olhando para a direita, incapaz de encarar a filha. – Porque sabia que ia te machucar. Simplesmente sair de Nova York te colocaria em segurança, mas você insistiu em voltar lá, atrás do Stark. Estou te contando porque não estou vendo outro jeito de te mostrar a gravidade da situação.

– Então... – continuou Cendi começando a adquirir um tom inflexível na voz, o que colocou Séfora em alerta. Oh-ou. – Tudo o que vivi em Nova York com você, o papai, o Tio Tony, a Tia Pepper e o Tio Happy... Foi tudo mentira?

Minerva virou o rosto para olhar a filha nos olhos. Suas írises laranjas estavam desfocadas, como se ela estivesse vendo um outro lugar... Talvez um muito distante.

– Filha, veja bem...

Não! – berrou Cendi dando um tapa na mão de Minerva que ainda estava pousada em sua bochecha. – Eu cansei disso! Eu cansei de ouvir meias-verdades e mentiras! Eu cansei de estar sempre com a sensação que todo mundo está escondendo alguma coisa de mim! E, além de não me contar nada, vocês sempre acham que sabem o que é melhor pra mim! Você, o papai e o Tio Tony...! Tomam decisões sem me perguntar o que eu estou sentindo... Tem noção do tanto que dói ver que você não me apoia mais? Enquanto estava tudo às mil maravilhas, “oh, vamos incentivar a Cendi! Ela vai ser uma heroína incrível!”. Mas daí, quando deu tudo errado, vocês simplesmente acharam conveniente me desencorajar, como se na verdade eu nunca tivesse sido capaz!

Minerva piscou, o rosto congelado pelo choque de ver a filha berrar daquele jeito. Cendi jamais havia feito aquilo. A garota se afastou a passos trôpegos da mãe, como se visse uma estranha que a encarava torto.

– Eu sempre fui perseguida por uma sensação que não devia estar aqui. Eu sou metade alienígena, mãe. Eu sei que, de uma forma ou de outra, eu nunca vou me encaixar 100% entre vocês. Mas lá em Nova York eu estava começando a acreditar que talvez fosse possível. Quando eu estava no hangar vendo vocês dois trabalharem, quando o Tio Tony me dava sucata pra eu brincar, quando a Tia Pepper me levava pra sala dela e me botava pra assistir Power Rangers enquanto ela trabalhava... Eu sentia que estava num lugar ao qual eu pertencia. Mas, pelo visto era tudo fachada.

Minerva olhava Cendi com um misto de dor e impaciência. Estivera agachada até então, paralisada pelo surto da filha. Com cautela, ergueu-se e soltou um longo suspiro. Levou as mãos ao rosto e esfregou-o com força e depois as desceu para os quadris. Fechou os olhos e, com a cabeça baixa, disse:

– Filha, por favor. Me escute. Me escute que eu vou te...

Não! – berrou Cendi batendo o pé com força no chão. – Eu não vou te escutar mais! Vocês nunca me escutaram, sempre decidindo as coisas por mim, como se eu não estivesse aqui! Mas saiba que estou bem aqui! – nesse ponto, a garota chorava abertamente, uma torrente de lágrimas se espalhando por seu rosto. – Eu não vou fazer nada do que vocês querem que eu faça. Eu não vou ser nada do que vocês querem que eu seja. Eu vou ser o que eu quiser a partir de agora, e não me interessa o que você vai dizer, o que o Tony disse, o que o meu pai dizia. Vocês podem dizer que eu sou incapaz, que eu não tenho talento pra isso, mas eu vou ser uma heroína sim! Eu vou construir meu Megazord sozinha e vou me tornar uma Power Ranger!

E dizendo isso, Cendi correu na direção da porta, empurrando a mãe quando ela tentou segurá-la.

– Cendi, volta aqui! – berrou Minerva avançando com tudo atrás da filha, que agora corria para o carro estacionado no gramado da frente. – Fique longe desse carro!

Entretanto, antes que a mulher alcançasse a escada da varanda, uma mão a segurou pelo antebraço com força suficiente para fazê-la parar. Virou a cabeça e deu de cara com a filha mais velha, que a olhava com uma expressão de súplica.

– Deixa ela ir, Minerva. – disse Séfora num tom firme, mas suplicante. – Você precisa esfriar a cabeça e ela também, principalmente depois do que ela deve ter passado lá em Nova York.

Minerva voltou a olhar para Cendi, que já estava no banco do motorista dando a partida. O velho Buick Skylark azul tossiu quando a garota acionou a ré, manobrando o carro para sair na direção da estrada de terra que levava à rodovia. As duas observaram as manobras de Cendi até que o carro alcançou a estrada e dobrou a velocidade, logo tornando-se um pontinho próximo ao horizonte, que já se tingia de todos os tons trazidos pelo pôr-do-sol. Minerva fez um gesto brusco para que Séfora a soltasse e voltou para dentro batendo os pés. A garota permaneceu mais alguns instantes lá fora, fixando o ponto em que o Buick desaparecera. Por fim, piscou e teve um leve sobressalto com a súbita ideia que lhe ocorreu. Entrou rapidamente, pisando o mais leve possível e dirigiu-se para o corredor. Enquanto andava, matutou:

– Onde foi que eu coloquei...?

***

Cendi dirigiu os primeiros cinco quilômetros feito uma maluca, com o pé afundado no acelerador. Aos poucos, a razão foi voltando e ela se lembrou de coisas importantes. A primeira era que ainda não tinha permissão legal para dirigir, a segunda era que tinha esquecido de colocar o cinto e segurança, e a terceira era que já estava escurecendo. Encostou o carro e tratou de colocar uma almofada sobre o banco do motorista para parecer mais alta, e ajustou-o para que seus pés ficassem confortáveis sobre os pedais. Prendeu o cinto e voltou para a estrada, traçando mentalmente a rota até Spartanburg, uma cidadezinha que ficava a uns 15 quilômetros da fazenda onde estava morando. Andou numa velocidade moderada para chamar ainda menos atenção, mesmo sabendo que naquele fim de mundo era pouquíssimo improvável que houvesse fiscalização. O trânsito era quase inexistente, então não demorou mais do que quinze minutos para alcançar seu destino. Aprumou-se no banco ao dirigir pelas ruas estreitas e quase desertas da cidadezinha, e suspirou aliviada ao não encontrar nenhuma viatura pelo trajeto. Cendi venceu facilmente o minúsculo emaranhado de ruas e avançou para fora do perímetro urbano, na direção leste. Mais seis quilômetros adiante, viu a entrada de uma estrada de terra que cortava um pasto até um amontoado de árvores raro de se ver naquela região tão agrícola. Manobrou o Bruick cuidadosamente pela trilha poeirenta e buscou uma mancha cinza em meio às árvores. Não demorou muito para ver a lateral do galpão abandonado que nos últimos sete meses havia servido de muitas coisas úteis. Esconderijo eram uma delas.

Cendi estacionou o mais perto possível do galpão sem entrar com o carro dentro do bosque. Quando desligou o motor, recostou a cabeça no banco e fixou o teto coberto de camurça bege. Lentamente, a garota fechou os olhos e se concentrou em sua respiração, tentando acalmar o coração que ainda batia forte. Ficou ali parada vendo a luz diminuir através de suas pálpebras, tomando todo o tempo do mundo para se livrar da sensação horrível que a perseguia desde que saíra da Torre dos Vingadores.

“Não é tudo a mesma bobagem? Bem... foi tudo mentira”, a voz de Stark ressoou em sua mente.

– Cendi? – chamou subitamente uma voz próxima demais.

A garota deu um pulo no banco, a mão voando instintivamente para o fecho da porta enquanto ela procurava a dono da voz. Deu de cara com Séfora sentada no banco do carona.

- Puta merda, Sef! – xingou Cendi segurando o volante do carro e recostando a testa nele para depois levantar a cabeça bruscamente – Eu já pedi pra você parar de fazer isso! Rãn! – ela exclamou puxando o ar numa expressão assustada e cobrindo a boca. – Não conta pra mamãe que eu xinguei.

Séfora permaneceu séria encarando a irmã. Normalmente teria caído na gargalhada pelo susto e por sua neura com palavrões, mas nada disso cabia naquele momento, por mais que quisesse aliviar o clima. O silêncio se estendeu por longos segundos entre as duas, até que Séfora por fim se mexeu para tirar o anel que trazia no dedo. Guardou-o no bolso da calça e do bolso de seu casaco tirou um objeto retangular que estendeu para a irmã. Cendi pegou-o com um olhar receoso, primeiro dirigido a Séfora e depois ao retângulo cinzento. Porém, quando o focalizou, suas sobrancelhas se arquearam numa expressão de surpresa agradável.

Era uma fita cassete das que Cendi costumava usar para gravar diários de seus projetos ou qualquer coisa aleatória que quisesse guardar. Aprendera a guardar suas informações naquele item tão antiquado com seu pai, que mesmo dominando as tecnologias mais sofisticadas de todo o universo, era encantado com as tais fitas e com o fato de que não podiam ser hackeadas. Entretanto, aquela fita em específico não parecia conter um diário de um dia de trabalho de Cendi no seu primeiro carro manufaturado ou uma lista de peças que haviam em estoque. A fita parecia muito nova e tinha uma etiqueta. Nela podia-se ler:

“Músicas para a Cendi ouvir quando estiver triste”.

– Gravei essa fita faz uns dias. Na verdade, estou gravando várias. Essa foi a segunda. Se que gosta dessa velharia, então achei legal que pudesse usá-la pra escutar música ao invés de só usar como banco de dados.

Cendi permaneceu olhando para a fita por alguns instantes e depois ergueu o rosto, os olhos turvos de lágrimas.

Zef... – choramingou com a voz embargada. – B-Buito obigadaaa...

Séfora agitou os braços e se precipitou para abraçar a irmã, que voltara a chorar.

– Meu Deus, Cendi! Não era pra você começar a chorar de novo! – disse Séfora segurando o riso enquanto dava tapinhas atrás da cabeça da irmã. – Era pra você sorrir e ouvir as músicas para sorrir mais ainda.

A mais nova chorou um pouquinho em seu ombro, mas logo se recuperou e se afastou. Segurou a fita e estendeu-a na direção do painel do carro, onde havia um toca-fitas instalado por ela mesma. Entretanto, Séfora segurou seu pulso com carinho para interromper seu gesto.

– Que tal escutarmos lá fora? – ela ergueu um outro objeto que Cendi tinha certeza que não estivera ali até alguns instantes atrás. – Eu trouxe o seu walkman e dois fones.

Cendi sorriu e assentiu, abrindo a porta do carro. A irmã imitou-a e as duas saíram para a paisagem quase perfeitamente retilínea senão fosse pelo amontoado de árvores que as ocultava de quem quer que passasse na estrada. Cendi ergueu os olhos para o céu e soltou uma exclamação. Não havia uma única nuvem sequer, e o azul já havia se fragmentado num degradê espetacular que se derramava na direção do horizonte. No centro céu, já estava escuro o suficiente para que diversas estrelas se agitassem piscando na sua eterna orquestra muda e luminosa.

– O céu está incrível para uma noite de fogueira, não acha? – comentou Séfora medindo o céu com um leve sorriso nos lábios. – Quando voltarmos para casa, podemos fazer uma e contar histórias de terror.

Cendi lançou um olhar aterrorizado para a irmã e balançou efusivamente a cabeça. Séfora soltou uma gargalhada e olhou em volta procurando um lugar que pudessem se sentar e contemplar o céu.

– Vamos para aquele carro – disse Cendi apontando para a silhueta de um carro que se recortava contra o horizonte. – Podemos subir na capota.

Séfora concordou e avançou para caminhar ao lado da caçula.

– Fico me perguntando quem foi o doido que largou o carro no meio de um pasto sendo que o cemitério de carros é naquele bosque. – comentou Séfora apontando com a cabeça para trás.

– É que não é um carro propriamente dito. É um daqueles caminhõezinhos de fazenda antigos. Vai ver a pessoa tinha T.O.C. e não aceitou a ideia de deixar um caminhão num cemitério de carros – comentou Cendi casualmente. Séfora abafou um risinho.

– Você tem cada ideia...

Ao alcançarem o veículo abandonado, saltaram sobre o capô e sentaram sobre a capota. Séfora ofereceu o walkman para a irmã, que o pegou com alegria e colocou a fita. A mais velha ofereceu um fone enquanto ajustava os seus na orelha, e Cendi agradeceu por ter tido bom senso de ter montado o walkman com duas entradas de fone.

– Posso? – perguntou Cendi com o dedo sobre o botão de play. Séfora confirmou com a cabeça. Demorou dois segundos para que começasse a tocar, mas assim que as primeiras batidas da música soaram no ouvido de Cendi, seguidas do dedilhado de guitarra que ela mais amava no mundo, a garota soltou um gritinho. Sem conseguir se controlar, começou a cantar em alto e bom som, e Séfora não tardou a acompanhá-la.

“Eu quero mais do que você
Imagina que vou ter
Dos meus sonhos não vou desistir.
Eu sou pontos de interrogação
Sem respostas na canção,
Só entenda
Que nunca serei
O que querem pra mim...”

Cendi fechou os olhos e se concentrou em cada palavra da letra da música que conhecia tão bem, sentindo uma onda de alívio ao absorver a mensagem. Lágrimas tornaram a escorrer silenciosamente de seus olhos, e ela permitiu que escorressem até pingarem em suas coxas. O refrão chegou e ela abriu os olhos, cantando a plenos pulmões enquanto fixava o céu cada vez mais estrelado. Imaginou-se voando lá no alto numa prancha solar, entre constelações e nebulosas:

“Mas sei tudo que eu quero viver,
Dos meus sonhos vou fazer
Um caminho traçado por mim!
Por que todos querem controlar
Qualquer coisa que eu pensar
Se pra eles não estou aqui...”

Uma sensação estranha de paz e certeza formigou dentro do peito de Cendi, que seguiu cantando a música sentindo que a cada sílaba ficava mais leve. Séfora a observava com um sorriso no rosto, que se alargava nas horas que a irmã desafinava. Quando o último acorde da música desapareceu nos fones de ouvido de ambas, ao invés de deixar a próxima música tocar, Séfora apertou o botão de pausa. Cendi olhou confusa para ela e tirou vagarosamente os fones de ouvido.

– Sabe – disse a mais velha tirando seus fones também – Eu achei... Incrível o que você fez agora a pouco.

Cendi piscou, ficando ainda mais confusa.

– O que você disse pra Minerva, digo, pra mamãe. – Séfora olhou um pouco sem graça para a caçula. – Desculpe. Eu acabei escutando. Estava no corredor.

Cendi balançou a cabeça.

– Não tem problema.

Séfora desviou os olhos para o céu, inclinando o tronco para trás e apoiando-se em suas mãos.

– Deu pra sacar pelo estado que você chegou em casa e pelo que você disse que o Stark não falou coisas lá muito legais pra você – Cendi apertou os lábios e seus olhos começaram a brilhar, o que fez Séfora acelerar a fala para concluir o pensamento. – E você ouviu aquelas coisas da mamãe... E ainda assim, você disse tudo aquilo. Você disse... e eu acreditei. Acreditei que você estava falando nada mais que a verdade.

A expressão de Cendi era indecifrável. Sentindo-se um pouco nervosa com a possibilidade de não ter se expressado bem, Séfora continuou:

– O que eu estou querendo dizer é que você foi muito corajosa, você... é muito corajosa... Puxa, você quer ser uma Power Ranger. E enfrentou dois super-heróis por causa disso.

Cendi encarou a irmã com os olhos brilhando. O tom de Séfora não tinha um pingo de deboche. Pelo contrário: estava permeado de uma franqueza pura e uma admiração reconfortante. A garota piscou várias vezes para espantar as lágrimas.

– Obrigada, Sef – mesmo com seu esforço de engolir o choro, sua voz continuou embargada. – Por acreditar em mim. Por não... dizer que eu sou doida ou infantil por sonhar com uma coisa dessas.

– Nenhum sonho é maluco quando se você o quer de todo o coração.

Cendi sorriu, mas sorriu de verdade. Era a primeira vez que sorria daquela forma desde que voltara de Nova York. Aquele sorriso radiante e quente que parecia emanar a energia do cristal em seu peito.

– Gostei dessa frase.

A garota ergueu os olhos para o céu e subitamente se colocou de pé. Fixou as estrelas, que agora cobriam toda a cúpula negra da noite e puxou o ar até encher os pulmões e gritou:

– Oi! Eu vim aqui pra dizer que vocês não podem me dizer o que ser porque vocês não me conhecem de verdade, tá bem? Eu vou ser uma Power Ranger sim, e vou construir meu próprio Megazord!

Séfora riu alto e bateu palmas.

– É isso aí! – berrou erguendo os punhos para o céu.

Cendi voltou a se sentar, arfante e voltou-se para a irmã:

– Eu estava precisando gritar isso. – ela pegou o walkman. – Obrigada por me dar essa fita. Estava realmente precisando ouvir essa música.

Séfora bagunçou o cabeço da caçula.

– Não foi nada. Promete que vai ouvir todas às vezes que ficar triste?

– Prometo! – exclamou Cendi estendendo o dedo mindinho, que Séfora entrelaçou com o seu.

As duas tornaram a colocar os fones e encararam o céu. Ao olhar aquele recorte do universo, Cendi subitamente se lembrou de seu pai.

“Você me ouviu pai?”, pensou Cendi com uma pontada de tristeza. “Agora a mamãe e o Tio Tony estão do seu lado. Eles não querem que eu me torne uma Power Ranger. Mas lamento dizer que nem assim eu vou desistir, tá bem? Me desculpa por isso, pai. E não se preocupe. Nada de ruim vai acontecer comigo. Mesmo depois de tudo, eu ainda estou aqui. E sempre estarei.”

***

– Sabe uma coisa que me incomoda nesse caminhão? – disse Cendi ao saltar da capota do carro. – As calotas. Elas não são do modelo certo pra ele.

Séfora soltou uma risadinha. Saltou no chão e virou-se para a irmã.

– Não sei se o dono desse carro tinha T.O.C. como você sugeriu, mas você definitivamente tem. T.O.C. de mecânico.

- Não é T.O.C.! – protestou Cendi gesticulando com os braços para fora e depois enfiando a mão no bolso da jaqueta para pegar seu celular. Ela ligou a lanterna e apontou para a roda do carro. – Olha isso! Elas são bem menores que aro do pneu. Não dá agonia de olhar?

– Não. – respondeu Séfora sem rodeios. – Eu não tenho T.O.C. de mecânico pra ficar agoniada com calotas de caminhões de fazenda velhos.

Cendi amarrou a cara para a irmã e se aproximou do veículo novamente. Agachou-se diante de uma das rodas traseiras e avaliou o encaixe da peça de metal já fosca pelo acúmulo de sujeira. Equilibrou o celular sobre um dos joelhos e estendeu as duas mãos para segurar a calota. Assim que as encaixou na parte de trás, sentiu uma pontada aguda de dor no indicador direito e puxou a mão com violência.

- Ai! – choramingou Cendi apertando o indicador para estancar o sangue que fluía por um furo mínimo.

– O que foi, Cendi? – chamou Séfora num tom preocupado avançando na direção da irmã.

– Por favor, aguarde alguns instantes para que o sequenciamento seja concluído – soou uma voz masculina bastante conhecida de algum ponto de dentro do caminhão.

– J.A.R.V.I.S.? – chamou Cendi num tom urgente e completamente incrédulo, esquecendo-se completamente do dedo furado. – J.A.R.V.I.S., é você?

– Sequenciamento concluído. Selecionando loci especificados e pareando com genoma do bando de dados...

Cendi e Séfora ficaram encarando a calota com os olhos arregalados enquanto vários bipes eletrônicos soavam baixinho de algum lugar.

– Pareamento concluído. Correspondência de 99,3%. Acesso liberado.

O capim abaixo do caminhão tremeu e uma linha dividiu-o ao meio. O chão cedeu partindo-se perfeitamente ao meio, descendo com um leve som de engrenagens funcionando.

– Mas que caralh...? – praguejou Séfora, mas foi incapaz de concluir a frase tamanho era seu espanto. Virou-se para Cendi, que encarava a calota quase que em transe. Ela sabia que a cabeça da caçula estava a mil.

– Mana? Tem alguma ideia do que seja isso? – perguntou Séfora depois de alguns instantes.

– O que quer que seja... – respondeu Cendi lentamente. – Só pode ser acessado por alguém que tenham um pareamento de no mínimo 99,3% com o meu D.N.A. Isso significa...

As duas se calaram à medida que a compreensão tomava conta de seus pensamentos. Cendi imediatamente se lançou ao chão e arrastou o corpo para baixo do caminhão, segurando as bordas do alçapão. O buraco era todo revestido de metal e tinha por volta dos três metros de profundidade. Do lado direito, havia uma porta também de metal com um pequeno painel do lado.

– O que tem aí? – perguntou Séfora um pouco nervosa.

– É um hall de entrada pra alguma coisa. – respondeu a caçula.

– Meu Deus, Cendi! Vamos sair daqui.

– Mas isso aqui é da mamãe! Eu tenho certeza! E a voz que soou agora há pouco era do J.A.R.V.I.S., aquele IA que cuida de tudo lá nas Indústrias Stark.

– É por isso mesmo que a gente tem que vazar! Imagina se ela descobre...

A última fala de Séfora serviu mais para encorajar Cendi do que amedrontá-la. A garota arrastou o corpo todo para baixo do caminhão ficando de lado na borda do alçapão. Segurou firme na lateral e rolou devagar para dentro do buraco. Seus braços protestaram quando ela se pendurou de pé, e uma espiadela para o resto da queda que seus joelhos teriam que encarar causou um embrulho em seu estômago. Respirou fundo, fechou os olhos e soltou de uma vez. Abriu bem os pés e firmou-os paralelamente, mas ainda assim a dor aguda nos seus joelhos a jogou sentada no chão frio.

– Ai! – gemeu baixinho.

– Cendi! Você tá bem? – soou a voz de Séfora permeada de preocupação.

– Tô sim!

A garota avançou para a porta e analisou o painel, perguntando-se se teria de dar outra amostra de D.N.A. Estendeu a mão de forma hesitante para as teclas empoeiradas e apertou qualquer uma. A telinha acima do teclado se iluminou num tom azul e um feixe de luz projetou-se sobre o rosto de Cendi. O feixe subiu e desceu várias vezes e depois desapareceu. A voz de J.A.R.V.I.S soou novamente:

– Reconhecimento facial confirmado, Cendi Danugam. Acesso liberado.

A porta se abriu levantando poeira e jogando uma lufada de ar frio com um leve cheiro de mofo na cara de Cendi. A garota ergueu os braços para se proteger e tossiu várias vezes. Quando a nuvem de sujeira baixou, endireitou o corpo e encarou a escuridão emoldurada pela soleira de metal.

– Cendi?

– Fica tranquila Sef. Eu só vou dar uma olhada.

– Cendi, não! Nada disso! Puta merda, não entra aí!

Ignorando os protestos da irmã, a garota avançou para dentro do subterrâneo. Assim que cruzou a soleira da porta, uma linha de luz azul se acendeu na linha divisória entre o alçapão e o local desconhecido. Bipes baixos soaram e foram se distanciando acompanhando a luz que correu por toda a extensão da parede, perdendo-se ao longe. Pelo menos agora Cendi sabia que estava entrando num lugar gigantesco. Depois de alguns segundos, ela viu a luz correndo em linhas no chão do subterrâneo, lembrando o jogo da cobrinha. E à medida que ele avançava, diversas luzes eram acesas. Cendi prendeu o fôlego.

– Não... Isso só pode ser zoeira... – soprou ela numa voz quase sumida.

A última luz se acendeu e a voz de J.A.R.V.I.S. soou, mas dessa vez ele parecia estar realmente presente:

– Olá, senhorita Cendi. Já faz muito tempo que não nos encontramos.

A garota teria gritado de alegria se não estivesse plantada no chão pelo choque. J.A.R.V.I.S. pareceu analisá-la por alguns instantes, e por fim, perguntou:

– Algum problema, senhorita?

– J.A.R.V.I.S. – chamou Cendi depois de alguns segundos em silêncio sem conseguir tirar os olhos do que estava diante dela. – Onde é que eu estou?

– Está no hangar M-5 do setor 3, senhorita.

– E o que isso... está fazendo aqui? – Cendi ergueu um dedo trêmulo indicando o enorme vulto que preenchia o centro do hangar.

– É uma unidade danificada, senhorita. Foi trazida para manutenção, mas o setor foi abandonado no processo – respondeu J.A.R.V.I.S. no seu tom eternamente paciente. – Este hangar pertence às Indústrias Stark, mas é supervisionado por sua mãe, e faz parte de uma rede de 55 hangares que formam o setor de montagem do Projeto MECHA. 


Espero que tenham gostado da história e da música :D (e pelo menos terem ficado um pouco curiosos HUEHUEHEUE) Queria trazer uma curiosidade engraçada sobre a minha história com essa música. Planeta do Tesouro foi lançado quando eu tinha 6 anos (eu tinha a fita cassete dele) e eu era louca na música já desde pequenina. Daí, 6 anos depois, quando eu já tinha aprendido a mexer na internet e estava procurando músicas de uma das minhas bandas favoritas, os Goo Goo Dolls, no LimeWire (alguém usava isso pra baixar músicas também? UAHSAUHSUH) e eu acabei encontrando a "I'm Still Here" no meio da playlist deles. Quando eu fui escutar a música pra ver qual era, vocês não tem noção do berro que eu soltei. Eu chorei (juro!) pq eu não tava acreditando que todos aqueles anos uma das minhas músicas favoritas eram de uma das minhas bandas favoritas E EU NUNCA TINHA TOMADO CONHECIMENTO DISSO ASUHASUHAUHSH O mais engraçado é que a versão em pt é interpretada pelo Jota Quest, que na época também era uma das minhas bandas favoritas na época UAHSAUHSHAUH 

Beijos da Nana-chan e até a próxima! 

May 25, 2018, 10:12 p.m. 6 Report Embed 2
The End

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MRz Rz MRz Rz
Olá, eu sou a MRz do Sistema de Verificação do Inkspired. O sistema de verificação atua não só para ver a qualidade da história, como também para observar se a história está de acordo com as normas do site. Sua história está “em revisão” porque há algumas palavras de baixo calão, sugiro aumentar a censura para 13 anos. De resto, sua história está ótima. Eu realmente gostei da personalidade da personagem principal, parabéns!
March 16, 2019, 7:03 p.m.

  • MRz Rz MRz Rz
    Depois de corrigido, é só responder esse comentário para que eu faça uma nova verificação March 16, 2019, 7:05 p.m.
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá! A musica encaixou direitinho com sua fic e apesar de ser uma fantasia você retratou uma relação conturbada entre uma filha adolescente e uma mãe super protetora que esconde muitos segredos, o que é bastante comum na vida real. Retratar dramas familiares sempre é algo difícil, pois tem todo o respeito, amor e consideração envolvidos, mas a determinação e independência da protagonista em seguir o seu sonho sem se importar com o que os outros acham disso é uma coisa muito linda, além de toda essa relação de apoio que ela tem com irmã mais velha, que sempre incentiva a Cendi a seguir em frente e a se tornar uma power ranger - quem nunca quis ser um power ranger que atire a primeira pedra hahaha. Você construiu muito bem os personagens e criou uma protagonista incrível, foi fascinante toda a determinação dela em seguir seus ideias. Sugiro que você dê uma revisada mais profunda na historia, ela tem alguns erros ortográficos mas não é nada grave. A história está bem simples e sem nenhum problema grande a ser resolvido, foi gostosa de ler. Parabéns por cumprir o desafio e compartilhar a sua historia com a gente, até a próxima <3
June 23, 2018, 11:26 a.m.
Yui Sama Yui Sama
PUTA MERDA! 0.0 Eu sabia que o Tony não poderia ser mau ;w; Foi a mãe o tempo todo! Cendi realmente foi uma personagem muito carismática, apesar que ser um Sailor é melhor que ser um Power Ranger :v Só dizendo kkkkkkkkkk (deixa-me ir rever as minhas opções de vida.......) Eu adoro a música e o filme desta música (que infelizmente lançou ao mesmo tempo que um dos filmes do HP por isso não teve o seu merecido sucesso) então só posso dizer que a fic é maravilhosa com esse ambiente de mistério no final e toda a independência da personagem! Gostei muito :3
June 15, 2018, 9:18 p.m.
Ayzu Saki Ayzu Saki
A intenção era me deixar curiosa? Conseguiu perfeitamente
May 26, 2018, 4:50 p.m.

  • Nanahoshi G Nanahoshi G
    AAAAAAAAAAAAAA SUA LINDA <3 FELIZONA DE TER TE DEIXADO CURIOSAAAAA *u* Agora se quer matar a curiosidade e ainda morrer de tanta fofura, corre lá em Charging Ranger *u* MUITO OBRIGADA SUA LINDAAAA <3 May 26, 2018, 5:26 p.m.
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