Rock the Baby Follow story

nanahoshi Nanahoshi G

Aos 13 anos de idade, alguns fantasmas que se arrastam conosco começam a ficar visíveis demais. Foi exatamente isso que Miyamoto Mika percebeu quando venceu pela 3ª vez consecutiva o Campeonato Nacional Jr de Karatê. Tudo o que conquistara não era para ela, e sim para seu pai. Decidida a sonhar um futuro para si, Mika começa de uma forma inusitada: um convite de um colega de escola, Mitsui Hisashi, para aprender basquete. A amizade que surge na quadra de um bairro de Kanagawa levará Mika a um derradeiro encontro. Vestindo a camisa vermelha e negra da Shohoku High, 6 garotas cruzariam o caminho de Mika para ensiná-la o quão linda e difícil a vida poderia ser. Entretanto, a maior lição que levará consigo era que garotas, acima de qualquer coisa... Só querem se divertir


Fanfiction Anime/Manga Not for children under 13.

#miyagi #akagi #rukawa #sakuragi #mitsui #romance #shounen #shoujo #basquete #mangá #anime #slam-dunk
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O demônio vermelho da Takeishi Junior High

OLÁ MEUS LEITORES DIVOS! Tudo bem com vocês?
Bem, aqui vou eu com mais uma long-fic, mas cara... Esse anime/mangá maravilhoso não podia ficar sem uma fic minha. Slam Dunk foi, com certeza, o melhor anime que já assisti. Tudo foi tão bem pensado, desenvolvido e balanceado que mds ♥
Bom, como eu sei que esse fandom é bem flopado, estou escrevendo mais por mim do que por qualquer outro motivo, e confesso que me superei na qualidade do enredo UAHSUHASHAUH Quero deixar bem claro o foco da fic: quero fazer algo focado mais nas meninas, mostrando a força de amizade entre elas e como elas podem se ajudar a amadurecer e vencer as dificuldades da vida.
Tem romance Nana-chan? Tem sim
É um detalhe importante da história? Sim, mas não é o foco.
Meu Deus essas vão ser as notas iniciais mais longas ever UHASUHAHSUA Pq eu ainda tenho q meter um glossário. Mas antes, quero ainda deixar uma coisinha pra vocês terem uma noção de como vai ser a fic. Se eu usasse uma música como tema central, com certeza seria a "Girls just want to have fun", da Cindy Lauper. AUSUASUAH
Enfim sem mais delongas, o capítulo!!!!
Ah e o glossário UAHSUAHSUHAHS > a fonte vai estar nas notas finais.
***
Glossário
1.Shoji: são painéis ou portas de correr estruturados em madeira e preenchidos com papel translúcido. Eles são utilizados para ambas as paredes do interior e exterior da casa. Permitindo a entrada de luz natural para o interior da casa.
2.Chabudai: são mesas com pernas curtas que são usados ​​ao sentar-se no chão.Eles são mais tipicamente usado em pisos de tatami, mas fazer aparições em pisos mais duros também. É comum que as famílias façam uma refeição ou reunião em um chabudai enquanto está sentado no zabuton.
3.Kotatsu: é uma mesa baixa com um aquecedor elétrico embutido coberto por um cobertor pesado futon. As pessoas se sentam com as pernas sob kotatsu para relaxar, tomar uma refeição, estudar ou assistir televisão.
4.Tokomona: é uma área destinada a receber os convidados. É um local que se costuma colocar uma arte como pintura, shodo, pergaminhos, bonsai, okimono ou ikebana. Existem diversas regras de etiqueta com respeito ao Tokonoma. Uma delas é que ao acomodar os hóspedes deve ficar com as costas de frente para o tokonoma. Isto é devido à modéstia, o anfitrião não deve ser visto mostrando o conteúdo do tokonoma para o hóspede, assim deve evitar apontar para o tokonoma.
5.Fusuma: são painéis deslizantes que atuam como portas e paredes. Elas permitem muitas possibilidades, como mudar o local da entrada do quarto, criar passagens e entradas secretas.
6.Engawa: Equivale a varanda, um engawa é um corredor externo que envolve uma casa japonesa. São tradicionalmente usado para proteger as portas e paredes shoji contra o sol, chuvas e tempestades.
7.Zabuton: são travesseiros finos que são usados ​​para sentar-se em pisos de tatami. Eles são o equivalente de uma cadeira. Em partidas de sumô, multidões são conhecidos por jogar seu zabuton para o ringue para protestar contra um resultado impopular.
8.Ranma são painéis encontradas acima shoji ou fusuma que são projetadas para deixar a luz em salas. Na maioria das vezes são feitas de madeiras ornamentadas ou são iguais o shoji.
9.Shodo: é o nome dado à caligrafia oriental transformada em arte.
10. Genkan: é a área de entrada tradicional para casas e prédios japoneses constituída de uma varanda, ou uma sala, com um tapete onde deve-se retirar os sapatos. A função principal do genkan é evitar que as sujeiras da rua que ficaram no sapato entrem dentro da casa, ou qualquer edifício.
O genkan é geralmente construído em desnível com o piso da casa para conter as sujeiras vindas da rua. Após retirado, os sapatos são geralmente dispostos com a frente virada para a porta, para serem vestidos mais facilmente na hora de sair, e veste-se um outro sapato, uwabaki, ou chinelo, surippa, para andar nos ambientes interiores do edifício. Normalmente, também, evita-se pisar no genkan descalço ou de meias.


Os nós dos meus dedos doíam, e eu já podia sentir meus punhos adormecendo. Entre as minhas pernas, eu podia sentir o corpo de Mitsui se tensionando a cada soco que eu acertava em seu rosto.
E tinha o sangue.
Cobria os meus dedos, pregava em meu rosto, escorria do nariz e da boca de Mitsui e manchava o chão.
Minha visão estava turva, e os fios de cabelo se embaraçando diante dos meus olhos apenas intensificavam a sensação de estar vendo tudo através de uma tela quebrada. Mas o pior de tudo era a raiva. A raiva incrédula que me cegara no momento que eu vira Mitsui em meio aos delinquentes que haviam invadido o ginásio.
– Por quê!? – eu berrei desferindo um soco um pouco mais forte que os anteriores. – Por que você continua estragando tudo!?
A única resposta que obti foi um gemido de dor sufocado pelos golpes seguintes. Eu simplesmente não conseguia parar de esmurrá-lo, tamanha era a frustração que eu sentia.
Pelo canto do olho, vi um vulto avançar na minha direção. Ergui os braços instintivamente, pronta para me defender de quem quer que fosse. Porém, antes que eu pudesse fixar toda minha atenção no agressor, ouvi Mitsui engasgar e, numa voz permeada pelo mais puro pânico, gritou:
– Não! Não toque nela!
O delinquente que investira contra mim pareceu congelar onde estava. Encarei-o com os olhos arregalados e cada músculo do meu corpo enrijeceu. Lentamente, girei o pescoço e tornei a encarar Mitsui. Por alguns instantes, minha visão turva tentou focalizar seu rosto inchado, mas quando pisquei, a imagem desfocada foi substituída por um rosto nítido, juvenil e radiante.
"Miyamoto, vamos jogar basquete?"
"Seus arremessos estão cada vez mais incríveis!"
"Haha, então a partir de agora, pode me chamar de Hisashi."
"Não se preocupe, Mika. Não vou deixar ninguém mais tocar em você."
"Mika... Eu queria te dizer uma coisa... "
Tornei a piscar, e o rosto do Mitsui que eu amara foi substituído pelo rosto do Mitsui que eu não conhecia mais. Mas aquele Mitsui... Ele... Tentou me proteger?
A frustração, a confusão e a dor giraram num redemoinho furioso dentro do meu peito para depois transbordarem por meus olhos. Meus punhos se cerraram com força, as palmas da mãos protestando contra a pressão das unhas.
Não. Ele não tinha esse direito. Não tinha direito nenhum de me defender. Não depois de tudo o que tinha feito.
Ergui o punho direito para desferir mais um murro. As lágrimas agora escorriam sem parar.
O único que tinha o direito de me defender era o Mitsui que me ensinara a amar o basquete.
Mas esse Mitsui... Não estava mais ali há muito tempo.

—______________________

Mika suspirou pesadamente ao encontrar o quarto rasgão no seu kimono de treino.

“Não tem remédio”, ela pensou pesarosa. “Vou ter que comprar um novo. Além de estar muito surrado, já estou grande demais para ele.”

A garota de treze anos se levantou de sua cama e andou até o armário. Abrindo a porta, começou a remexer nos cabides em busca de uma muda de roupa decente para sair. Escolheu uma camiseta lisa branca e uma calça três quartos azul marinho que gostava de usar nos treinos aeróbios. Colocou meias, separou seus tênis e correu para o banheiro.

Era julho, e o sol de verão castigava as ruas do lado de fora. Ciente disso, Mika puxou os longos cabelos negros até o alto da cabeça e prendeu-os num rabo de cavalo. Infelizmente, o elástico escorregou alguns segundos depois, libertando sua cabeleira negra. Bufou irritada e decidiu não insistir com os fios lisos. Passou os dedos pela franja irregular e jogou-a para a esquerda. A garota fitou-se no espelho, encarando seus grandes olhos negros. Ao fixá-los, ela viu claramente a sombra que a assombrava há alguns meses, e de imediato, desviou o olhar para a pia.

Estava com medo de pensar sobre aquilo, porque não tinha a menor ideia do que aconteceria. Se aquele problema viesse à tona, sequer queria imaginar o que o pai diria. Suspirando novamente, a menina deixou o banheiro e correu para fora do quarto com os tênis em mãos, saltando apressada os degraus da escada.

A casa dos Miyamoto conservava muito da arquitetura tradicional japonesa. Tinha o formato básico de um retângulo, sendo a parte maior voltada de frente para o muro alto e imponente que dava à casa um ar de fortaleza com seu portão de madeira escura. Possuía dois andares, sendo o de cima destinado a abrigar o quarto de Mika, de seus pais, dois quartos de hóspede e uma pequena biblioteca que também servia de escritório. Ao invés de divididos de forma tradicional, os cômodos da parte íntima da casa eram delimitados por paredes.

Descendo pela escada, acessava-se direto a cozinha, que era separada da sala de jantar íntima por shojis¹. Nela, ao invés de uma chabudai² normal, havia um enorme kotatsu³ que Mika amava usar durante o inverno. O resto dos cômodos do andar térreo também seguiam esse padrão de divisão, com a exceção da tokomona (4), cujas paredes eram lindas fusumas (5) que retratavam a paisagem do Monte Fuji salpicada de cerejeiras e templos tradicionais japoneses. A sala de TV ficava atrás da sala de jantar informal, cuja engawa (6) dava para quintal ornamentado de forma típica. Ao lado da sala de TV ficava a sala de jantar para visitantes e festas, que era coberta com vários tatames. No centro, uma enorme chabudai retangular de madeira escura se erguia de forma elegante rodeada por zabutons (7) de cor vinho. As almofadas haviam sido trabalhadas à mão por Hisako, mãe de Mika, e agora exibiam um intricado padrão de linhas douradas que formavam ora figuras florais, ora folhagens artísticas. Sobre os shojis que delimitavam o cômodo, belos ramnas (8) trabalhados com ideogramas e símbolos permitiam uma iluminação harmoniosa, aproveitando o máximo da luz natural. O mesmo padrão de decoração se seguia na tokomona, que precedia a sala de jantar maior, com a diferença de ter uma chabudai menor que ficava encostada a um canto quando a sala não estava sendo usada. No sentido de entrada na tokomona pela porta da casa, ao olhar para a esquerda, era possível ver uma espécie de bancada baixa com um bonsai e algumas louças ornamentais. Na parede, havia um pergaminho que trazia o nome da família Miyamoto escrito no clássico modelo de shodo(9) usando tinta nanquim e pincel. Ao lado, um outro pergaminho de tecido bege trazia uma pintura de um dragão lung asiático.

Precedendo todos esses cômodos, havia um espaçoso genkan(10) com inúmeras prateleiras para que os visitantes guardassem seus sapatos e os substituíssem por chinelos. As paredes laterais eram sólidas como as do segundo andar, mas as que separavam o genkan do resto da casa eram, na verdade, shojis. Havia dois vasos de plantas, um ao lado da porta e outro na divisória entre as duas portas de correr. A da direita dava na sala de jantar, e a da esquerda dava na tokomona.

Tanto à frente da casa quanto atrás, um jardim meticulosamente projetado e cuidado descansava de forma preguiçosa. No que adornava a entrada, inúmeras plantas e flores foram organizadas em grupos que formavam figuras abstratas simples. Uma estradinha de pedra guiava da porta principal até o portão. No que ficava atrás da casa, havia um pequeno lago com belíssimas koi, as carpas japonesas, de todas as cores possíveis, e uma pequena ponte arqueava-se sobre o espelho d’água rodeado por plantas ornamentais. Um monjolo de bambu oscilava lentamente sob o fluxo calmo de água que brotava de uma escultura formada por pedras escuras redondas achatadas e empilhadas. No topo, uma lamparina de pedra com o cume quadrilátero côncavo escondia uma vela que a mãe de Mika acendia todas as noites.

O único detalhe anormal da residência dos Miyamoto era uma casinha que ficava anexada num canto do muro. Ela era destinada ao treinamento de Mika pelo pai, Nobuki. Ele era conhecido por todo o distrito de Kanagawa por ser o melhor mestre de karatê, ofício que herdou diretamente do pai. Era composta apenas por um vestiário e um cômodo grande coberto por tatames e ladeado por shojis. A única exceção era a parede que dava para o muro posterior da casa. Era feita de concreto e coberta por enormes espelhos que auxiliavam no treinamento de Mika.

Assim como acontecera com ele, Nobuki esperava que sua filha seguisse seus passos e se tornasse uma grande lutadora e mestra de karatê. O venerável professor não tinha dúvidas que Mika conseguiria, já que seu talento pulsava ansiando por aperfeiçoamento e conquistava campeonato atrás de campeonato. O peito de Nobuki se inchava de orgulho ao ver a menina desferindo golpes certeiros em seus adversários, e ele se convencia cada vez mais que o futuro de Mika seria brilhante. Ela era a filha perfeita, o retrato concreto daquilo que projetara para a menina desde que estava na barriga da mãe.

Cego por esse projeto, Nobuki ignorava algo terrível que a menina carregava no peito desde o começo do campeonato de verão. Estava tão inebriado com o bom desempenho de Mika que era incapaz de ver a sombra no olhar ainda infantil da filha, a mesma sombra da qual ela fugira escada abaixo naquela tarde.

Mika saltou para a cozinha e olhou para os lados.

—Mãe! – ela chamou começando a andar em círculos pela cozinha.

Nenhuma resposta.

Entortando as sobrancelhas enquanto raciocinava imaginando onde a mãe estaria, a garota seguiu para a porta de correr da direita, que dava na sala de TV. O shoji que dava para a varanda estava aberto, permitindo que ela visse Hisako aguando as plantas no jardim.

—Mãe! – Mika correu para o quintal e saltou ao lado da mulher de meia idade.

Miyamoto Hisako era uma mulher de quarenta e nove anos, alta, os cabelos negros e lisos como o da filha. Tanto ela quanto Mika eram obrigadas a usar os cabelos no mínimo na altura das omoplatas, já que Nobuki achava de extremo mau gosto mulheres de cabelo curto. Naquele momento, Hisako usava seus fios negros presos no alto da cabeça num coque muito bem feito espetado na base com dois enfeites que lembravam rashis, mas adornados com pinturas minúsculas de flores de sakura. Trajava um kimono tradicional bege enfeitado com flores lilases e folhas verdes e amarelas. Nos pés trazia o par de chinelos exclusivo para uso no jardim.

A mulher ergueu-se, endireitando a coluna e fitou docemente a filha:

—Sim? – ela perguntou.

Mika sentia uma paz gigantesca preencher seu peito toda vez que olhava nos olhos negros da mãe. Era exatamente o oposto do que sentia ao fitar o olhar cinzento do pai. As rugas ao redor deles davam um ar sábio e acolhedor à expressão sempre calma da Sra. Miyamoto, o nariz era pequenino e arredondado de dorso baixo como o da filha. A boca era o único detalhe diferente no rosto de Hisako: os lábios eram muito rosados e cheios, sendo praticamente da mesma espessura. Mika, por sua vez, herdara a boca fina, mas bem desenhada, do pai, assim como a pele mais escura. Ao contrário dos dois, Hisako era pálida com leves tons róseos nas áreas mais arredondadas.

—Mãe – Mika repetiu. - , a senhora pode me dar dinheiro para eu comprar um kimono de treino novo? O meu tá pequeno e muito surrado...

Por um instante, a menina jurou ter visto um brilho melancólico nos olhos da mãe, mas logo ela piscou e alargou o sorriso.

—Claro, filha! – ela disse de forma doce. – Eu vou lá pegar. Espere aqui.

Hisako entrou rapidamente dentro da casa, desaparecendo por trás dos shojis parcialmente abertos. Pouco mais de um minuto depois, ela apareceu com um maço de notas nas mãos.

—Aqui. Acho que isso dá, querida. – Hisako depositou o dinheiro gentilmente nas mãos de Mika, que sorriu.

—Obrigada, mãe. – ela agradeceu, e correu para o genkan.

Hisako observou a filha empurrar as portas de correr, abrindo espaço rapidamente até a porta, calçar os tênis, guardar o dinheiro numa bolsinha que sempre deixava pendurada no cabideiro e sair silenciosamente.

Ao contrário do marido, a Sra. Miyamoto conseguia ver claramente o que vinha acontecendo com Mika. A primeira coisa que ela via nos olhos da menina ao fita-los de manhã era uma sombra melancólica que os tornava ainda mais escuros. Andava mais cabisbaixa e calada do que já era, obedecendo a tudo que lhe diziam sem dizer um “a”.

Hisako sabia que sua filha estava triste, muito triste.

O sorriso tímido que ela dera ao agradecer piscou diante dos olhos da mulher de meia-idade, e uma sensação desconfortável tomou conta de seu peito. Já fazia anos que ela não via Mika sorrir de forma radiante, aquele sorriso que ela abria de orelha a orelha... E ela tinha uma noção do motivo.

Com treze anos, Hisako sabia que a filha começava a amadurecer de forma mais crítica, tomando consciência do mundo e das escolhas que tinha que fazer. Entretanto, Mika deve ter percebido que não tinha a liberdade para escolher. Nobuki sempre fazia isso por ela, colocando a filha numa bolha isolada do mundo para moldá-la como quisesse. Mika não escolhera o karatê: o pai escolheu para ela...e Hisako sabia que sua filha não era feliz daquela forma. Nada daquilo era importante para ela. Seu quarto estava repleto de medalhas e troféus que ela sequer fazia questão de mostrar. Era como se Mika escondesse nas prateleiras de seu quarto um segredo sujo do qual não se orgulhava nem um pouco.

Virando-se para voltar ao jardim, a Sra. Miyamoto sentiu o desconforto se intensificando quando a culpa a atingiu em cheio.

Mika não passava de uma boneca moldada às vontades do pai. Ela não tinha liberdade para sonhar, e fora educada de forma a aceitar tudo que lhe era imposto passivamente.

Sua filha não era uma criança feliz.

E Hisako não fez nada por ela... E nem seria capaz de fazer.

***

Mika andava cabisbaixa pela rua apoiando a mão direita sobre a bolsa pendurada em seu ombro. O sol, mesmo depois das quatro da tarde, ainda fustigava sua pele levemente bronzeada. O verão em Kanagawa sempre a deixava tonta de calor, em especial depois dos treinos com o pai.

A lembrança arrancou um longo suspiro de seus lábios. Não fazia nem duas semanas que vencera pela terceira vez consecutiva o Torneio Nacional de Karatê das Escolas Juniores, então a euforia da vitória ainda devia estar com ela arrancando-lhe sorrisos bobos, não é?

Mika riu baixinho de forma triste. Quando foi mesmo que ela ficara feliz com um troféu ou uma medalha de karatê? Ah...é.

Nunca.

A única sensação que sentia ao erguer a estatueta dourada diante dos juízes, competidores e espectadores era a de obrigação cumprida, a mesma de tirar uma nota acima da média. Como não percebera mais cedo o quanto aquelas competições eram vazias? O quanto ela estava vazia?

“Eu nunca quis ser faixa preta... Nunca quis lutar”, ela pensou, triste. “O karatê, até hoje, só me trouxe coisas ruins, só me afastou das pessoas...”

Inúmeras lembranças se enfileiraram em sua cabeça, deixando-a ainda pior. Mika era uma garota naturalmente tímida, mas gostava de ajudar os outros. Tentara usar esse seu gosto para se aproximar dos colegas da escola, mas o medo gerado pelos boatos e histórias espalhados sobre ela eram muito mais efetivos que seus gestos altruístas.

O inferno de Mika começara numa tarde de primavera, há dois anos. O período de aulas já havia terminado, restando apenas os alunos que fariam os testes da recuperação. Como sempre, Mika passara em todas as matérias com sua eterna média oito. Naquele dia, ela decidira fazer uma caminhada pela cidade para espairecer. Usava um lindo vestido vermelho de mangas compridas, e a barra descia até a metade de suas coxas. Usava uma meia-calça preta por baixo e, nos pés, sua sapatilha favorita de cor vinho.

Andando calmamente pelas ruas de seu bairro, Mika não percebeu quando suas pernas tomaram o rumo da escola inconscientemente. Quando deu por si, estava passando pelo portão da Takeishi Junior High. Ela diminuiu o passo e analisou o muro de tijolos e a placa que trazia o nome da escola. Era bonito o arranjo de arbustos que haviam feito ao pé da placa, e os kanjis em alto relevo reforçados com tinta dourada davam um ar mais antigo para a inscrição.

Foi nesse instante que ela percebeu um aglomerado de pessoas fora dos limites da escola, do outro lado do portão. Ela se aproximou com cautela e tentou espiar por sobre as cabeças agitadas dos alunos. Como Mika era muito alta para sua idade, conseguiu facilmente espichar o pescoço para ver o que estava acontecendo: um garoto baixinho e marrento brigava aos socos com três valentões do último ano. Seu coração quase saiu pela boca quando reconheceu o que apanhava. Kato Iori era um garoto de sua turma, o único que a cumprimentava normalmente. Ele não era o que podia-se chamar de “popular” ou “socialmente aceito”, o que justificava seus motivos. Mika e Iori estavam praticamente sozinhos, então era normal que se apoiassem de alguma forma.

A raiva borbulhou no fundo do estômago da menina, e sua visão se turvou.

“Qual é o problema desses caras?”, ela pensara sentindo a irritação inchar dentro de seu peito. “O Kato-kun nunca fez nada pra ninguém! Então, por quê? ”.

Ela olhou para os lados procurando por alguém que demonstrasse sinais de indignação ou o mínimo de bom senso para parar a briga. Entretanto, o que viu foi apenas um bando de pré-adolescentes mesquinhos ansiando por mais socos e pontapés. Tomada completamente pela raiva, Mika forçou passagem pela multidão, o que não foi nada difícil graças ao seu tamanho e aos braços condicionados pelo karatê. Ao saltar para dentro da roda, os valentões pararam de desferir chutes nas costelas de Iori, que agora estava caído no chão.

“O que você quer?”, um deles perguntou grunhindo.

“Soltem ele.”, ordenara Mika com tanta firmeza que nem ela reconhecera a própria voz.

Os arruaceiros se entreolharam por alguns segundos e, depois, caíram na gargalhada.

“Oh, sua namorada veio te salvar, Iori”, zombara o que parecia ser o líder.

“Que ridículo!”, zombou um outro. “É tão mané que precisa ser salva por uma garota! Gyahaha!”.

A multidão de alunos gargalhou copiosamente, piorando ainda mais o estado de espírito de Mika. O valentão mais alto se aproximou da estudante e ergueu a mão para segurar seu braço, mas num piscar de olhos, quem tinha o braço preso por um aperto doloroso e firme era ele.

“Ugh!”, ele protestara olhando fixamente nos olhos de Mika.

O que ele viu fez um calafrio subir-lhe pela espinha. Os olhos negros da garota ardiam com uma raiva que beirava o ódio. Todo o corpo dela tremia como se ela estivesse prestes a explodir.

“Eu vou pedir só mais uma vez: larguem-ele”, Mika sibilou deixando toda sua irritação preencher cada sílaba que saltou de sua boca.

O valentão riu nervoso.

“Ou o quê?”, ele provocou.

O que se seguiu fez metade dos estudantes desaparecerem em debandada, e os que restaram não tiveram escolha a não ser assistir tudo com os olhos petrificados de assombro. Mika nocauteou facilmente os três valentões, mas não antes de presenteá-los com uma série de chutes e socos em áreas críticas. Como manda a conduta de qualquer arte marcial, o karatê não podia ser utilizado fora do tatame. Entretanto, isso não significava que lutadores de karatê não fossem bons de briga, e Mika era a prova concreta disso. Sabia bater sem usar os golpes que aprendera com o pai, e o mais importante: sabia apanhar de forma a evitar danos críticos. Por isso, não foi surpresa quando ela saiu da briga apenas com alguns poucos hematomas e o lábio inferior cortado.

Quando teve certeza que eles não se levantariam, Mika cuspiu um pouco de sangue que se empoçara em sua boca e se encaminhou para onde Iori estava caído. O garoto assistira a tudo com os olhos quase saltando das órbitas, e ao ver Mika se aproximar, encolheu-se ainda mais.

“Você está bem?”, perguntara Mika abaixando-se na direção do garoto.

Iori não respondeu. A única coisa que conseguia fazer era encarar sua colega de turma com assombro. Depois de alguns segundos, Mika tornou a endireitar o tronco e a olhar para os valentões encolhidos no chão. Não tivera escolha a não ser usar o clássico soco no plexo solar, que os deixaria com uma tremenda dificuldade de respirar e uma dor generalizada pelo resto do dia.

“Não precisa se preocupar. Eles não vão conseguir levantar tão cedo.”, ela estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar, mas Iori permaneceu imóvel. Mika o fitou com um ar preocupado.

“Qual é o problema dele?”, ela se perguntou começando a ficar nervosa.

Segundos depois, o menino se arrastou para trás com os olhos fixos na colega de classe.

“Por que você fez isso?”, ele perguntara com raiva e medo nítidos em sua voz. “Eu não precisava da sua ajuda.”

Aquilo foi como um soco no esterno de Mika, que imediatamente sugou o ar.

“Você sabe que agora vai tudo piorar pra mim, não sabe?”, ele cuspiu para a estudante. “Agora todos vão zombar de mim por ter sido defendido por uma garota!”

Sem dar chance de objeção para Mika, Iori se levantou e correu rua acima, desaparecendo à distância. A menina nem teve tempo de lamentar a acusação da única pessoa que a tratava como gente: três professores apareceram e arrastaram Mika para a diretoria. Ela só conseguiu pegar uma detenção mais leve por ter um histórico escolar impecável e notas boas.

Mas essa não fora a pior consequência para a garota. Devido à surra assustadora que dera nos garotos, Mika ganhara um apelido: “Akaoni”, que significava “demônio vermelho”. O medo que as pessoas já sentiam dela aumentou a ponto de Mika ser evitada como se carregasse algum vírus altamente contagioso ou algo do tipo. Ninguém ousava mais se dirigir a ela, nem mesmo Iori. Depois da confusão, o garoto nunca mais a olhara nos olhos, e, como ele previra, por muito tempo foi vítima de humilhações por ter sido salvo por Mika.

A situação se agravou de tal forma, que até mesmo suas colegas do clube de karatê, incluindo suas veteranas, a olhavam com medo e receio. Não havia mais o respeito que ela conquistara a partir de suas conquistas, e o karatê se tornou um fardo ainda mais pesado na vida de Mika.

No fim das contas, tudo acabara daquela forma: a campeã invicta dos Torneios Juniores era agora temida por todos os seus colegas, e esperança de que um dia conseguiria fazer amigos se desvaneceu completamente.

E tudo isso... porque ela tentara ajudar alguém.


E aí meus lindinhos?? O que estão achando??
Gostaram do capítulo?
Muito obrigada aos que leram (pq né, vai ser um milagre já q o fandom é bem floppado). Muitos beijos para vocês e espero que gostem da fic!
Beijinhos da Nana-chan!
Fonte do glossário:
http://skdesu.com/14-caracteristicas-classicas-de-casas-japonesas/

http://www.japaoemfoco.com/shodo-o-caminho-da-escrita-caligrafia-japonesa/ 

May 22, 2018, 12:04 a.m. 0 Report Embed 0
To be continued...

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