E as correntes Follow story

anneliberton Anne Liberton

Não conseguia descobrir em quem as algemas estavam ou mesmo se aquilo o protegia de alguma coisa. Ele fechava os olhos e pedia, pedia. Pedia tanto. Mas os homens estão fadados a sucumbir.


Fantasy For over 21 (adults) only.

#yaoi #padres #lemon #boyslove #angst #demônios #incubus
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Parte I

Notas: Olar~ Estamos aqui com uma história linda com demonhos e seminaristas ♥ Espero que vocês gostem.


Para o caso de haver dúvidas, já explico: considerem que aqui os padres são Franciscanos e as irmãs, freiras, são Clarissas. Essa é a ordem deles, não o nome de cada pessoa.


Curtam minha page! Boa leitura!

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Tudo que ele via naquele momento lhe causava enjoo. Tudo. Cada detalhe mínimo. Seus olhos iam das orelhas reprováveis ao meio sorriso pouco convincente, das roupas sóbrias dignas de um membro de um grupo eclesiástico, e que pareciam somente zombar quem quer que o olhasse. O rosto que se erguia do colarinho era suspeito, nem de longe digno de confiança; o corpo que se escondia na túnica era vil, era asqueroso, feito para desencadear as mais terríveis reações ao menor toque.

Tudo que ele via ali o enjoava e, até certo ponto, lhe causava medo. E que só se intensificava ao perceber que encarava o próprio reflexo.

Ele quis se despir ali mesmo, na frente do espelho, de modo a admirar — não, condenar — as partes que mantinha ocultas com suas vestes. Os olhos culpados, ele não podia disfarçar; haviam trazido até perguntas desagradáveis de Frei Serafino, um de seus professores. Não que aquele velho gostasse um pouco que fosse dele, excluindo-se seus atuais problemas...

Balançando a cabeça, ele desconsiderou a ideia e pensou em voltar para o quarto naquelas condições mesmo. Quem haveria de julgá-lo a não ser ele próprio? Nenhum de seus colegas continuava acordado naquele horário, para começo de conversa. Deus sabia que ele não deveria estar. Deus. Sim.

Alcançando o quarto através do corredor deserto, ele abriu a porta com cuidado e encarou o cômodo minúsculo como quem encarava os portões do inferno. Queria estar exagerando. Queria que a razão por trás daquilo fosse meramente o seu medo de completar os oito anos do seminário, sua indecisão. Queria estar alucinando, como pensava estar na maior parte do tempo.

Queria conseguir dormir em paz.

A placa de identificação em seu criado-mudo informava que o cômodo era, no momento, propriedade de um “Abele Cirillo”, contudo, quem quer que tivesse sido aquele homem, ele há muito havia se perdido além das portas do seminário.

Assim mesmo, como um estranho, o homem se deitou na cama de Abele, aconchegou-se nos lençóis como ele e, embora orasse para dormir em paz, aguardou sua punição tomá-lo nos braços e arrastá-lo para as profundezas como fazia toda noite. Esperou que ele aparecesse e, quando relaxou por uma fração de segundo para respirar, ele assim fez. Já estavam no sonho.

Ou seria um pesadelo sem fim.

— Senti sua falta, padre — a voz não corpórea sussurrou ao seu redor. Os músculos de Abele se retesaram, e ele sentiu um frio na espinha que nada tinha a ver com medo. — Hoje levou tempo demais para aparecer. Se não o conhecesse melhor, diria que está tentando fugir de mim...

— Eu estou — Abele declarou com a voz trêmula. Não podia perder a concentração, não podia. — Eu sempre estou...

— Caso me desse o que eu desejo, simplesmente isso, eu o deixaria em paz... — Seus dedos longos contaram as pontas do cabelo loiro, que Abele ainda precisava cortar. Estava maior do que seria adequado. — Sabe que eu deixaria.

— Não... posso lhe dar o que quer de mim...

O outro riu.

— Há uma diferença entre não poder e não querer, padre. Sabe disso também.

Outro arrepio o acometeu. Sequer o via, mas respondia fisicamente, como se tivesse plena noção de como e onde aquele monstro se movia, com que expressão, com que ferocidade.

— Afinal, foi por isso que eu apareci para você.

Abele pensou fortemente em começar a rezar, mas se sentiu hipócrita e pouco merecedor. Não acreditava merecer aquele sofrimento, porém um castigo deveria estar em voga para que ele pudesse expiar seu crime de uma vez por todas. Só aquele crime. Aquele único e inocente crime.

E que configurava um dos sete pecados capitais.

— Eu vou conseguir, sei que vou... — ele repetia como um mantra, mais para si mesmo. A respiração quente em seu pescoço ficou mais rápida.

— Não se eu conseguir o que quero antes...

Abele tentou por tudo evitar o rosto dele. Não podia vê-lo, não deveria. Já havia tentações demais no simples toque de uma das mãos daquele monstro, na voz rouca e sussurrada que causava tantos espasmos diferentes nele, em suas palavras cálidas e cheias de veneno. Retraía-se bem, controlava-se com a força de um guerreiro poderoso, mas era apenas um homem. E os homens estão fadados a sucumbir.

— Beije-me, Abele. — O nome, ele agora dizia seu nome... — Só o que eu preciso é de um beijo...

Ele não fechou os olhos a tempo; as íris de gato, arroxeadas, brilhantes com a luz mística do sonho, transferiram-lhe a luxúria que permeava cada molécula do corpo do outro. Tão forte que sufocava Abele, que arrancava o ar de seus pulmões ainda mais que escutar seu nome nos lábios dele. Os cílios longos contornavam as pálpebras, e o nariz fino e anguloso estava prestes a tocar-lhe a bochecha. A boca do homem salivava, na certa, expelindo o veneno mortal que queria depositar nele. Seu cheiro era inebriante e devastador, levando cada centímetro do corpo de Abele a gritar por ajuda. Com os olhos bem cerrados, ao menos ele não podia mais descê-los para o resto. Esperava, tenso, a colisão que o desgraçaria, aquela força destruidora que anunciaria o fim de tudo. Ele tinha tentado, mas era fraco demais. Apenas fraco...



O despertador tocou e, se não estivesse exausto demais para pensar, teria concluído que ouvia o coro dos anjos. Abele arregalava os olhos para se certificar de que continuava em seu quarto no convento, com as roupas do dia anterior e embebido em litros e mais litros de suor. Tentou não dar muita atenção a qualquer coisa acontecendo abaixo da cintura, pois, como das outras vezes, alguns minutos de negligência fariam a coisa desaparecer. Estava a salvo. A luz do dia o manteria em segurança.

Sentindo a língua seca, ele se levantou devagar, ouvindo-a estalando sem querer. Precisava urgentemente de um banho (talvez um de água benta também). Eram cinco horas, como o barulho estridente de seu relógio gentilmente o lembrava e, em questão de minutos, todo o convento voltaria à atividade. Melhor se apressar.

Evitando os próprios pensamentos, ele se ocupou com o caderno de anotações na escrivaninha, que indicava sua primeira tarefa depois do café da manhã. Foi deveras complicado dada sua situação singular em seu baixo-ventre, no entanto, Abele relevou o fato como só alguém com certa prática poderia. Quando desceu pelas “Laudes” e conferiu “Cuidar dos jardins da paróquia”, largou o caderninho de chofre. Bem ao lado, numa caligrafia que nem de longe se assemelhava à sua, lia-se um nome: Lui Ildri. E ele sabia que era um nome, via-o toda manhã após a visita indecorosa daquele monstro. Um lembrete eterno do erro dele, como se o pesadelo por si só não fosse suficiente.

Lui. Tudo tinha uma razão de ser, e a do infortúnio dele era Lui.

O banho foi um martírio, mas decerto um necessário. Abele se trocou em silêncio — lacrara até os próprios pensamentos — e seguiu para o refeitório. Desejava poder pular o café da manhã e seguir para as Laudes, ansiava por aquele momento como nunca antes. Porém, pelo andar da carruagem, era capaz de desfalecer de fome e sono durante as orações. Se fosse apenas um, poderia suportar.

O desjejum se deu em silêncio também, embora dessa vez ele tivesse com quem falar em voz alta. Notou o seminarista mais novo, um rapaz de apenas 21 anos que havia vindo dos Estados Unidos, sentar-se ao seu lado e agradeceu. À direita, ficava um pilar. Assim mesmo, Abele ouviu quando a razão de seu martírio entrou e, então, ouviu cada passo dado por ele até finalizar seu percurso, na cadeira à frente da sua.

Sempre, sempre assim.

— Bom dia — cumprimentaram-no.

Não era nada a se estranhar. Haviam iniciado os estudos juntos, sido colegas por anos antes de Abele ceder. Analisando o passado, ele desejava que as coisas tivessem se dado de maneira diferente. Mas como preveria?

— Bom dia, Lui. — Ainda fingiu um sorriso.

Lui, Luigi Pellegrino, o retribuiu com o calor que só ele conseguia disseminar por um sorriso. Abele se sentiu ainda pior. Por sorte, outros colegas chegaram em seguida, e ele pôde manter-se em seu estado semivegetativo enquanto ingeria um pouco de pão e umas uvas. O novato americano não dominava italiano, ficava apenas observando os arredores e tentando entender alguma palavra.

Quando terminou, levou as louças e os talheres à bancada aberta da cozinha, onde um dos ajudantes os pegou para lavar. Abele arrumava o colarinho da camisa enquanto caminhava até a capela. Foi o primeiro a aparecer, algo que o Frei responsável pelas leituras daquela manhã não deixou passar despercebido.

— Abele, espere — ele o chamou, a voz calma.

Envergonhado consigo mesmo, acabou por se virar de volta, vendo os olhos azuis serenos de Frei Tiziano. Como tinha de ser, enquanto Frei Serafino desgostava dele — só porque “detestar” era uma palavra muito forte naquele meio —, Frei Tiziano parecia ver em Abele seu pupilo mais promissor, que poderia eventualmente seguir seus passos quando fizesse os Votos Perpétuos. Isso podia ter sido verdade há algum tempo, porém, pensar no assunto só fez o seminarista baixar mais os próprios olhos, sentindo o sangue se acumular nas bochechas.

— Bom dia, Frei Tiziano — cumprimentou, esperando ao mesmo tempo que ele visse tudo e que suas indiscrições não ficassem em evidência.

— Bom dia. Você comeu? Ainda é cedo...

— Eu sei. Fui ao refeitório, mas não me senti muito disposto para fazer uma refeição completa.

Frei Tiziano se preocupou.

— O que está sentindo? — Aproximou-se dele, procurando ler melhor sua expressão, última coisa que Abele queria. — Tem dormido bem?

Quanto mais tentava disfarçar, mais seus olhos fundos se destacavam. Abele se retraiu, mas resolveu encarar o Frei de frente, com uma confiança de que não despunha nem em sonhos.

Muito menos neles.

— Tenho, sim. Creio que seja apenas um desconforto momentâneo. A falta de chuvas, talvez.

O outro assentiu.

— Também não fico cem por cento nas épocas de seca... — Ele ponderou um pouco mais, contudo, no fim, indicou um dos bancos da capela. — Já pode se sentar. Escolha um lugar na frente. Fica um pouco mais fresco.

— Obrigado.

Abele pegou seu material e sentou-se. Conhecia os cânticos de cor, apreciava-os de tal maneira que costumava ser a voz mais alta quando começavam a entoá-los. Quer dizer, até aquele dia.

Ele estava cansado da situação, de, na verdade, não conseguir fugir dela. Não havia como remediar. Tornava difusa sua atenção com suas tarefas, até mesmo com suas orações, e surgia aquela ideia, aquela consideração negra no fundo, esperando um descuido (maior) dele para emergir que destruir toda a sua concepção de mundo. Sempre tivera uma única certeza em seu âmago, e esta era aquela profissão. Ele queria se tornar padre, um Frei na Ordem Franciscana. Ouvira o chamado, mas já sabia desde antes disso. Atravessara cinco anos, estudara com afinco e formara-se em Filosofia na faculdade adjacente ao convento, começando os estudos em Teologia. “A parte final será decerto a mais fácil”, ele pensava. Bem o contrário. Ou talvez o fosse porque, em oposição a Luigi, sua convicção de quem era e do que queria havia se transformado em pedra e ruía dia após dia. Tudo por um descuido...

Cedo demais, os outros seminaristas adentraram o recinto e tomaram seus lugares. A tentação fez a gentileza de se sentar a um banco de Abele, ainda que na mesma direção. Mesmo assim, como que ligados a ele, seus olhos caminharam de rapaz a rapaz e o alcançaram. Luigi gostava de camisetas simples, despojadas, e da cor que viessem. Usava jeans surrados, alguns até provenientes da doação dos fiéis locais e só tinha dois pares de sapato. Abele sabia que ele vinha de uma família abastada, mas quem quer que olhasse nunca atingiria a mesma conclusão. Mostrava-se um perfeito exemplo da humildade e do desapego material que caracterizavam a Ordem. Fazia, por vezes, com que ele se sentisse mal pelo costume de usar camisas de botão e calças mais sérias. Frei Serafino o achava um esnobe; Luigi, porém, já havia dito em algumas ocasiões que admirava o quão elegante ele ficava mesmo em trajes baratos. Abele se recordava de cada um desses momentos com o coração pesando.

O som do órgão o obrigou a piscar, voltando-se para Frei Tiziano, iniciando as leituras. Ainda eram seis da manhã, como indicavam os sinos tocados à distância, e ele se perdera umas oito vezes. Seria uma longa segunda-feira.

As Laudes terminaram rápido demais, permitindo que se concentrasse mais que o adequado nos próprios pensamentos. Almejava alguém para culpar por seu infortúnio, uma direção em que apontar seu dedo. Como em geral acontecia, porém, seu indicador apontava para si mesmo no espelho. Não que ele tivesse conscientemente plantado aquele desejo, não era tão simples. Isso apenas o frustrava mais.

Abele rumou só para os jardins da paróquia. Havia muito o que cavar, arrancar, adubar e regar ali. O suor viria, os músculos trabalhariam e, por alguns míseros minutos, tudo ficaria bem. Ele observava alguns grupos deixando a capela. Existia amizade entre os estudantes, às vezes, forte o bastante para gerar pedidos para serem designados para cidades próximas depois da formação. Seu plano consistia nisso no começo, quando era outra pessoa. Luigi sustentava a ideia — na verdade, ela partira dele... Só o que Abele esperava no momento é que nunca mais se vissem, embora, pelos próximos três anos, fosse um pedido impossível. A solidão não o incomodava, tampouco o afetava negativamente. Se tanto, ela o mantinha focado, atento aos limites que não podia cruzar. Dava para ver que com Luigi, a realidade não era bem assim...

Quando ele pegou as ferramentas, vestiu as botas e o avental, um peso imensurável abandonou-lhe os ombros. Pôs-se a procurar um local isolado e foi trabalhar. Gostava das hortênsias, pegara um pedaço pululando delas. O sol despontava no céu, mas ainda não queimava, embora o calor fosse ficando intenso à medida que os minutos agitados passavam. Abele cavava rápido, removendo as ervas daninhas e mal notando os outros se unindo à tarefa, o contingente de mais ou menos 17 seminaristas, todos do curso de Teologia. Um monte de plantas arrancadas se erguia ao lado dele quando alguém resolveu apropriar-se da seção seguinte de hortênsias, trazendo-lhe um longo suspiro. A velocidade de seus braços se intensificou, mas nem por isso a mente ficou parada.

Ele tentava não se lembrar do cheiro do homem no sonho, que parecia tanto o de Luigi. Respirava e tinha a impressão de senti-lo, um ardil de sua cabeça tomada por pensamentos ruins. Ele tentava não fechar os olhos por se aperceber dos dedos em seu pescoço, teimando em virá-lo para ficarem cara a cara.

Pegou a tesoura de poda. O som pungente e ameaçador era um anestésico. O cheiro desapareceu. Os dedos sumiram. Isto é, até ele quase cortar a própria mão fora.

— Oh, céus! Está sangrando! — Luigi exclamou o óbvio da seção adjacente.

Aproximou-se tão depressa que Abele notou primeiro que ele estava ali e, depois, que tinha um corte feio na mão direita. Profundo, sangrava profusamente, meio demais para sua localização, o que devia ser culpa do peito de seu dono, que retumbava forte. A mão começou a latejar também, e a coisa ficou menos poética. Ele tinha hematofobia. Num instante, o vermelho brilhava aos olhos de Abele, um sinal iluminado do quão patético tudo era, em especial ele. Em outro, nada mais brilhava, nem o sangue, nem o sol, nem mesmo o rosto de Luigi, como ele via ocasionalmente. Desmaiara quase nos braços dele, sem nunca ter consciência disso.

Levaram-no em dois, cada um segurando um braço. Luigi enfrentou sérios problemas para segurá-lo enquanto estancava o sangramento, mas a enfermaria não era tão longe. Abele acordou ao arrastarem seus pés num degrau. O mundo voltava a ficar nítido aos poucos; conseguia, a essa altura, sentir o sangue escorrendo, pingando no piso da enfermaria. Deitaram-no com dificuldade no leito, e ele resmungou uma sílaba ou duas antes de rever a mão e tontear. Recuperou-se a tempo de notar Luigi indo embora, uma expressão preocupada enrugando seu rosto.

“Não peça, não peça...”, Abele murmurou em silêncio.

— Lui... Espera... — A boca o traiu.

O rapaz assim fez, mais enrugado que nunca.

— Pode voltar, Luigi — a enfermeira disse a ele com delicadeza.

Ele hesitou, mas acabou partindo. Abele não via muita coisa, deu por falta daquela presença e não deu.

— Que corte feio, Abele... — ela disse, preocupada. — Já vou parar o sangue. Tente relaxar.

Abele apenas fechou os olhos, alternando entre o vazio e a consciência. Passados uns segundos, seu cérebro optou por manter-se acordado. Ele enxergou de imediato as mãos da mulher com um pedaço grande de gaze, que pressionava em sua ferida.

— Está tudo bem. — Ela o reconfortou. — Vou segurar só mais um pouco. Aqui. — A mão dela afrouxou apenas para que uma garrafa semiaberta de álcool pairasse sob o nariz dele.

Quase se endireitou com o sobressalto.

— Que foi que houve afinal? — a Irmã Mariane, uma das Clarissas, indagou, julgando já ser seguro remover a gaze. De fato, era.

— Eu... eu me cortei com a podadeira — ele murmurou, ainda confuso. Tinha a impressão de ter feito algo de errado na enfermaria, mas já não recordava o quê. — Foi um acidente.

— E um bobo! — concordou. — Não é do seu feitio fazer esse tipo de coisa... Fiquei louca quando entrou aqui sangrando tanto...

— Acho que o pior foi o pânico. — Por pouco não riu, só que a mão doía demais.

Ela se compadeceu.

— Não gosta de sangue, não é? Bem me lembro.

— Nem um pouco.

— Ao menos já parou. — A Irmã Clarissa se afastava, procurando algo em seus armários. Ajeitou os óculos. — Deixe-me limpar.

Quieto, Abele permitiu que ela fizesse seu trabalho sem interrupções. A freira limpou, desinfetou e tratou o corte antes de declarar que precisaria de pontos. Ele expirou longamente, mas era um castigo adequado por sua imprudência. Quando virava um perigo para si mesmo... Não havia maior indicativo da gravidade da situação.

Assistiu-lhe costurar o local, após aplicar a anestesia. Irmã Mariane fazia tudo rápido devido aos anos de prática. Era uma das únicas mulheres no convento, velha demais para ser considerada um perigo ou uma distração de qualquer naipe. Cuidava da enfermaria na maioria dos casos; quando seus conhecimentos não lhe serviam, chamavam um médico da cidade, que sempre se voluntariava com prazer na paróquia. Tais ocasiões eram raras, e, sem medo, Abele encarava cada volta dada pela agulha. Restava algum sangue, mas não o bastante para derrubá-lo. A cicatriz enorme na mão da freira divergia sua atenção. Uma queimadura terrível, resultante do incêndio que destruíra o convento há quase 60 anos. Ela estava lá, como haviam lhe contado. O lugar costumava ser um convento para mulheres. Com a criação dos prédios novos ao norte da cidade, a reconstrução acabou se voltando para a formação de padres, Freis da Ordem Franciscana. Há cerca de 10 anos, Irmã Mariane cuidava da enfermaria de lá.

— Abele, por favor, tome mais cuidado — ela advertiu quando finalizou o procedimento. — Receio que seja melhor faltar a Terça. Se falar com Frei Tiziano, ele vai entender. Não quero que o ferimento abra.

— Sim, senhora. — Assentiu, sorrindo.

Ela o imitou, dando-lhe as costas para limpar a bagunça.

— Preciso que volte em sete dias para remover a linha. Esta pomada deve ajudar com a dor, principalmente se coçar. — Entregou um tubo cilíndrico a ele. — Pode ficar aí um tempo deitado se estiver indisposto.

Abele considerou a ideia, porém, recordou-se vagamente de chamar por Luigi enquanto desmaiava, e isso lhe deixou desconfortável. Irmã Mariane não parecia suspeitar de nada.

Agradecendo imensamente e se despedindo, ele deixou a enfermaria. Não tinha qualquer vontade de voltar aos jardins para ver se ainda podia ser útil; tampouco queria rever o outro. Acatou o conselho da freira e buscou o Frei nos corredores. Foi encontrá-lo deixando a sala capitular depois de um aluno afobado.

— Céus, o que houve?! — Era a segunda vez que o punha aflito naquele dia, e a quarta vez que punha alguém. Abele se sentiu mal, mas meramente mostrou o curativo.

— Uma besteira... — Balançou a cabeça. — Irmã Mariane me instruiu a ficar longe de jardinagem por um tempo...

— Certamente, certamente... — Frei Tiziano fez um sinal para que o acompanhasse. — Teve de levar pontos, foi muito grave!

— Foi, sim... — Ele já nem se atentava o machucado. Mirava os cabelos grisalhos do outro, sinal tardio de seus quase 50 anos, e refletia se não havia sido, no fim, uma bênção ter saído do jardim. Necessitava falar com ele. — Frei Tiziano, gostaria de pedir para me dispensar das Terças. Orarei em meu quarto, só para evitar que o corte se rompa.

Ele assentiu.

— Nesse caso, não há problema. Você já sabe os cânticos todos, sabe tudo, pode fazer sozinho. Mas, se melhorar — ele começou, crispando os lábios. —, peço que compareça às outras Horas Canônicas. Apenas para acompanhar, é claro. O Frei Serafino irá ministrá-las, e ele é um pouco menos tolerante que eu...

“Comigo”, Abele pensou, mas era desnecessário falar.

— Não se preocupe. Preciso apenas do tempo para coagular direito...

— Vá descansar, então — o Frei propôs. — Já não estava bem mais cedo...


— Eu vou, sim. Obrigado. — O outro já partia quando ele falou: — Preciso... de outra coisa também...

— Diga.

— Ando precisando falar com o senhor. Eu... gostaria de lhe falar, se não estiver muito ocupado.


— Não, claro que não — ele se surpreendeu. — Deseja se confessar, Abele?


O Frei, em teoria, podia atendê-lo a qualquer hora, e essa disponibilidade acabou por atraí-lo.


— De certa forma, eu preciso.


Ele assentiu.


— Acompanhe-me, por favor.


Os dois adentraram uma salinha perto da capela, na qual, muitas vezes, faziam-se as confissões. Abele nunca tinha se incomodado com o fato de elas serem cara a cara, ao contrário de em algumas igrejas, com a cabine de confissão separando padre de pecador, mas, naquele momento, desejou que houvesse um muro de concreto, no mínimo. A mão latejava, e ele andava devagar, desencadeando uma respiração rápida que nada se adequava às circunstâncias.

Devidamente sentados, Frei Tiziano esticou o braço e, com a voz doce, como sempre, incentivou-o:

— Pode falar.

Já estava no lugar certo e com uma oportunidade de fazer a coisa certa, mas e agora? A atenção fixa na barba por fazer do homem, grisalha como o resto, ele se perdia no turbilhão de palavras que queria dizer. Pensou futilmente nas diferenças entre eles, na calmaria com que o Frei encarava tudo, em seus olhos bondosos e azuis-claros, um tanto similares aos de Luigi. Comparou as nuances dele com as próprias; no auge dos 26 anos, tinha uma porção de fios brancos indignos clamando seu espaço entre os cor de palha desordenados. Ele não tinha olhos tão expressivos, quase escondidos no castanho comum, o nariz era grande, porém, bem desenhado, como da maioria dos italianos. Era magro, embora não raquítico. Jamais teria o porte encorpado do Frei, nem se iniciasse uma dieta mais rica e consistente que a simples que serviam no convento.

E ele que pensava que se cortar sozinho havia sido o fundo do poço...

— Não tenho sido eu mesmo nos últimos tempos, Frei Tiziano... — O ouvinte aguardava mais, então, ele continuou: — Não me sinto... normal.

— Por que diz isso, Abele?

O triste é que ele parecia genuinamente admirado.

De novo, por onde começar?

“Tenho desejado ardentemente um dos seminaristas”, não, certamente que não...

“Há tanto quero ter Luigi nos meus braços, romanticamente falando, que mal durmo, mal como...”


“É horrível, eu sei, mas...”


“O tipo de sonho que eu ando tendo, Frei...”


— Existem demônios de verdade?

A pergunta foi tão repentina e estranha que até Abele arregalou os olhos. Frei Tiziano riu, confuso.

— É o tipo de pergunta que os novatos costumam me fazer... — O seminarista na mesma hora visualizou o americano. — Por que isso agora, Abele?

— Eu... Eu não sei ao certo. — Ele engoliu em seco. — Ultimamente, têm acontecido... coisas. Não consigo entender direito o porquê ou mesmo como, mas eu tenho ficado com dúvidas. Tantas, tantas dúvidas, senhor...

— De que tipo de dúvidas estamos falando?

Ele queria contar tudo, despejar cada detalhe sórdido, mas era fraco.

— Do tipo que me faz pensar se vir aqui foi mesmo uma boa ideia.

Frei Tiziano sorriu com compaixão.

— Ora... — Riu, pousando as mãos nas pernas. — Todos nós sofremos com a tentação de desistir em algum momento... Tentação, não, é mais um arrependimento, aquele pensamento insistente de que estamos no lugar errado fazendo a coisa errada.

Abele se surpreendeu.

— É exatamente isso! Sempre soube que queria me tornar um Frei, desde criança, mas esses dias... Parece tão mais fácil simplesmente ir embora...

— Eu o entendo — assegurou. — Completamente. — Abele já contestava a última parte. — Também já me parei (em muitas ocasiões, inclusive), acreditando estar cometendo a maior besteira da minha vida ao fazer os votos. É difícil, é algo que exige muito de você, e não só agora, como para sempre, mas vale tanto a pena, Abele... Servir ao Senhor, levar a palavra Dele, ajudar os outros... Não creio haver nada mais gratificante que isso. — Ele ficou sério de repente. — Mas, se a dúvida existe, ela vem de você, de algum lugar no fundo que ainda não aceitou sua decisão. Não tem nada a ver com seres fantasiosos.

— Então, é “não”? — ele quis se certificar.

— É, Abele. — O Frei sorriu. — Há mal neste mundo, isso é incontestável, só que as ações que o movem vêm de nós. Apenas de nós e, se formos fortes o bastante, Dele.

— Isso quer dizer que não há remédio? — Ele pensava na noite que viria, nas outras tantas que se seguiriam. Se chegasse a viver tudo isso. Fechava os olhos solenemente, resignado.

A cena, até certo ponto, divertia Frei Tiziano, contudo, ele não deixaria transparecer. Já havia sentado naquela cadeira daquela mesma forma há muitos anos.

— Oh, não se martirize tanto. Tem um provérbio em latim de que eu gosto muito: Omnium rerum vicissitudo est. “Não há bem que sempre dure, nem mal que sempre ature.” O ser humano tem essa natureza transitória. É impossível ser assertivo ou estar certo o tempo todo. O que importa é saber, no final, como você se sente em relação ao assunto. E eu tenho fé em você. Logo não hesitará mais.

Abele aceitou aquelas palavras com a garganta obstruída. O bolo agoniante que se formara ali o impedia de proferir qualquer letra e, num sentimento de total desolação, achou que o silêncio lhe servia melhor. Agradeceu Frei Tiziano e, procurando não mostrar as mãos trêmulas, saiu da salinha, de volta para o quarto.

O nome “Lui Ildri” continuava em seu caderno e, por mais que todo o resto fosse fruto de sua imaginação, aquilo não tinha como inventar. Ele tentou reescrevê-lo com a mesma caligrafia, mas ela era desconhecida. O medo que emergiu em seu peito, nem tanto. Por infelicidade, se nem Frei Tiziano podia ajudá-lo, ninguém mais poderia.

Aceitar a inevitabilidade das coisas era, ironicamente, muito reconfortante.



O restante do dia transcorreu sem problemas; Abele evitou a todo custo ficar muito perto ou mesmo muito sozinho com Luigi. Este lhe perguntou sobre a mão, e ele se limitou a descrever o que Irmã Mariane havia feito. Fingiu nem ver a preocupação nos olhos dele. Ostentaria um semblante parecido quando a noite chegasse e tivesse que rumar aos seus aposentos pela última vez, atravessar as Completas e dormir.

Usou boa parte de seu tempo no penúltimo item.

Abele não era tão cínico, ele ainda queria se tornar um membro do corpo eclesiástico. Desejava fazer os Votos Perpétuos, ministrar suas missas sozinho, organizar eventos para ajudar os pobres. Queria até mesmo vestir o Hábito pela primeira vez e amarrar a corda na cintura, com os três nós representando toda sua evolução. Enquanto orava, isso parecia tão distante e inexequível que ele teve vontade de chorar. Rezou um pouco mais, em vez disso.

Apesar de assustado, deitou-se mais confiante que na noite anterior. Ele a atravessaria sem passar pelo sonho. Descansaria e poderia voltar à sua rotina normal assim que a manhã despontasse.

O sonho começou.

Ver que um cenário os rodeava massacrou a confiança de Abele com um tanque de guerra, e ele tremeu ao se encontrar de joelhos no jardim de hortênsias com a podadeira nas mãos.

— Largue isso, Abele. — A voz ficou não corpórea por uma fração de segundo. Para seu terror, Luigi acercou-se e ajoelhou-se na frente dele, preocupado. — Não quero que se machuque mais.

— Não quer? — contestou. Fez que ia se afastar, mas tocou a palma direita no chão e uma dor excruciante subiu pelo braço. Ele gritou.

— Calma! — Luigi foi socorrê-lo. Pegou seu pulso com cuidado, tocando a perna dele com o joelho. Abele se arrepiou.

— Saia! — Puxou o braço de volta. — Não quero que se aproxime de mim!

Luigi pareceu verdadeiramente ferido.

— Mas você não queria que eu ficasse?

Abele o olhou como se ele fosse louco. Era, afinal. Era o monstro. E não estava gostando nada de vê-lo vestindo os olhos gentis e os cabelos pretos de Luigi.

“Lui... Espera...”, sua própria voz ecoou pelos jardins.

— Você pediu, Abele — Luigi insistiu, soando sôfrego. — Chamou por mim. Disse o meu nome... — Os dedos dele caminharam sem permissão até o ombro do outro, acariciando a região e descendo para as costas. — Você me quer tão perto que chega a doer.

— Não... — ele murmurou, engolindo em seco. Começava a ofegar sem motivo, tentava se mover para longe de joelhos. A mão ferida latejava, irritante. — Não quero nada que tenha a ver com você... É apenas uma projeção dos meus medos, dos... dos meus anseios. Você não existe. Certamente, não é o Lui. — Sentiu a boca seca. — Ele jamais nutriria esse tipo de interesse por mim...

Luigi fez um trejeito com a boca, endireitando-se de uma vez. Quase o derrubou no processo. Uma mecha preta caía na testa enquanto ele o mirava de cima para baixo, sorrindo de maneira que o verdadeiro nunca faria.

— Clama que eu não sou real? — irritou-se, embora só o tom o demonstrasse. Abele captava algumas notas de frieza. — É assim que pretende se livrar de mim? — E riu. — Gosta de provérbios, não é? Tenho um para você, padre. Mali principii malus finis.

— Acaba mal... o que começa mal — ele proferiu, aterrorizado.

— Minha definição de “mal” pode ser um pouco diferente da que o Frei tem, mas, sim. — O sorriso dele se alargou. Iguais que fossem, já não havia a menor semelhança entre aquele e o Luigi real. — Não vou deixá-lo ir antes que me beije. No entanto, isso não precisa ser o martírio que pensa ser. Garanto que vai gostar.

— Eu não posso — Abele retrucou. O corte pulsava, incômodo. Suava. Lembrou-se do último sonho. — Não quero. Não vou.

— Sabe que vai — Luigi garantiu, e sua voz já não era a mesma; assemelhava-se à versão imaterial, suspeita, que de hábito perseguia o seminarista. Mesmo seu franzir de testa parecia maligno de alguma forma, ainda que incontestavelmente bonito. Ele era bonito. Era belíssimo. — E tenho todo o tempo do mundo para esperar.

Abele inclinou o corpo para trás, quase caindo. Tornava complexo o movimento, a pulsação na mão. Era como se houvesse outro coração batendo ali, um que não vertesse sangue algum. Ele tentou se agarrar às palavras de Frei Tiziano. Era melhor que aquilo. Escaparia.

— Talvez eu o deixe ir sem o beijo — o monstro murmurou, após uma breve reflexão. Recebeu os olhos castanhos do rapaz, assustado com a proposta, boa demais para ser verdade. — Já ganhei algo melhor que isso. — Indicou o ferimento dele com o queixo.

— Foi você que me fez cortar a mão?!

Ele revirou os olhos.

— Não, seu tolo. — Cravou as garras seu pulso com força, fazendo-o gemer de dor. — Mas aprecio que tenha escolhido o corte para representar sua submissão a mim.

Os dedos de Abele se esticaram como se tivessem vida própria. A palma se revelava sem proteções, só a linha grossa de Irmã Mariane e a pele dilacerada. O monstro abaixou a cabeça até conseguir beijar o início, o que aqueceu até a ponta mais longa dos cabelos do seminarista. Abele pensou em se retrair, mas o pulso todo já tinha vida própria. Ele não se moveu. Sorrindo, o outro lambeu devagar os pontos, descendo um por um até completar. A saliva dele era quente, mas arrepiava; arrancava o ar do peito e trazia uma satisfação profana do fundo.

Um pedido ecoou no silêncio, alguém implorando por libertação.

— Se quisesse se ver livre de mim, Abele, você o faria.

Os beijos continuaram. O monstro já erguia sua mão, fazia dela sua parceira, pousando-a no rosto, acariciando-a com dedicação de um amante. Sugava a pele vermelha, ferida e, em vez de provar da dor, Abele ofegava. Alto. Cada som que saía de suas cordas vocais adicionava um corte aberto em suas costas, onde ele, no auge de sua imaginação, mutilava a si mesmo para se punir. O monstro o lambia. O monstro o beijava. O monstro o chupava. A mão latejava como nunca, e ele sentia o ápice cada vez mais próximo.

— Eu não entendo... não entendo... — lamentava-se enquanto o rosto se contorcia de prazer.

Era um mísero corte, uma pequena região para se concentrar, certamente não erógena. Por que aquilo o deleitava tanto?

— Ah, mas não percebe, Abele? — O monstro riu. Deslizou seu nariz fino pelo ferimento. — Sequer me surpreendo. Reprime tanto seus desejos que consegue dizer a si mesmo que é sua mão que eu estou beijando.

Abele abriu os olhos de imediato.

— Diga o meu nome, padre — ele pediu. Beijava-o com ardor. — Diga.

— L-Lui...



Ele acordou.

Suado e arfando na cama, Abele agarrou o lençol com a mão machucada. Só com ela, uma vez que a outra agarrava algo diferente.

“Não é a minha mão, não é...”, pensou lamentoso, por pouco não cedendo às lágrimas.

A esquerda, dominante, segurava seu pênis rijo por baixo do pijama. Ele sentia a pele quente e úmida, consequência da fricção e dos líquidos liberados pelos momentos iniciais do onanismo. Cerrou os olhos, e eles umedeceram.

“Não é minha mão...”, repetia, desolado.

Tentou livrar-se daquele sofrimento, separar os dedos da carne pulsante, latejante, como ele experimentava no sonho. Gemeu. Fechou os lábios com tanta força que a língua provou o sangue. Nem isso aliviou a vontade de se tocar de novo.

— Lui... — O nome se projetou de sua boca.

Oh, como ele queria que Luigi estivesse ali. Como queria que fosse ele o tocando, suas mãos gentis provocando espasmos em seu corpo todo.

Abele desejou morrer naquele momento, que o chão se abrisse e o levasse antes que cometesse mais um pecado. Nada aconteceu.

A mão voltou para dentro da calça.

Ele se surpreendia com a facilidade que era trazer mais daquela sensação para seu baixo-ventre. A testa suava, o cabelo fazia o mesmo com o pescoço e todos os seus membros pediam por mais. Queriam que ele terminasse. Queriam, sim.

Agarrou o pênis com mais vigor, alisando-o da ponta até a base, com mais força e com menos. O peito oscilava rápido, cadenciado com o movimento da mão. Abele suspirava, ainda que voltasse a morder os lábios. Não queria que ninguém ouvisse. Não podia permitir.

Seus dedos pareciam conhecer aquele ato como se estivesse impresso em suas células e, de fato, estava. Ele apenas não queria admitir. Tocou-se com a disposição de um adolescente entrando na puberdade. Nunca fora o tipo de ceder a tentações carnais, mesmo quando moço. Agora ali, homem feito, não só cedia como se deixava à mercê delas. Submisso. Tentara se enganar, mas era tarde demais. E a mão não parava.

Alcançar o orgasmo foi incrível, um prazer inominável. Cada centímetro de seu corpo respondia àquilo e ansiava por mais. Não havia mais alto que se pudesse voar. Não havia maior satisfação a ser alcançada. Não havia mais.

Por essa razão, ele cobriu o rosto com o braço direito e pôs-se a chorar.

May 18, 2018, 6:58 p.m. 2 Report Embed 2
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Lawliette Lawliette
história linda, história maravilhosa OI ANNELE, é a doge aqui
Sept. 12, 2018, 10:49 a.m.
Mandy Assis Mandy Assis
Adorei 😍
May 26, 2018, 8:43 p.m.
~

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