Vermelho-Ignômino Follow story

anneliberton Anne Liberton

Tudo era branco e puro antes de ele passar por ali e deixar sua marca destrutiva.


Fantasy For over 21 (adults) only.

#yaoi #boyslove #angst #tortura #anjos #morte-entidade #naiade
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Parte I

Notas do autor: Olar~

Esta história faz parte de uma bem, bem maior que ainda está sem nome. Vou postar algumas ones e shorts que compõem o universo por aqui e, quem sabe, se der certo, posto a long também.


Curtam minha page!


Boa leitura!

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silêncio reinava, no entanto, não era porque ninguém tinha o que dizer: ambos os ouvidos explodiam de frustração e ódio. Em meio à mistura densa, já não era possível dizer o que ou mesmo a quantidade que pertencia a cada um, o que desencadeava os sentimentos ou a maneira de as duas mentes trabalharem com eles. O cheiro forte de sangue distraía momentaneamente, embora não fizesse ninguém perder o foco. Um, com ambas as mãos presas à parede de pedra, pregadas com o braço reto de forma cruel, almejava escapar daquele sofrimento de uma vez por todas. O outro, sorrindo, se perguntava como haviam chegado àquele ponto, a excitação apagando qualquer vergonha que teimasse em emergir. Doía, queimava, mas ele pedia com todas as forças que aqueles momentos nunca acabassem.

Evidentemente, apenas um desejo se realizaria.


*****

Ela se ajoelhava na capela em silêncio. Rezava aos murmúrios, para si mesma e para quem estivesse ouvindo. Esperava que fosse a imagem gravada no altar, cercada de velas, mas não podia ter certeza. Se a mão queimada lhe ensinara qualquer coisa, era que não podia ter.

Arrumando o véu negro, a Irmã fechou a mão em punho e aprisionou o terço, sentindo as contas machucarem a cicatriz. Acabou afrouxando quando tossiu. Teve que parar os joelhos, a meio caminho de se levantar, e começou tudo de novo. Usou-se do que quer que compusesse os arredores como suporte. Estava velha, cansada e, àquela hora da noite, não havia ninguém mais para ajudá-la.

Saiu pela porta lateral da capela, ainda que as da frente, duplas e talhadas em carvalho, ficassem sempre abertas a qualquer um que desejasse entrar ali. Ela não buscava atenção, não queria fazer alarde, tampouco achava que merecia uma despedida tão triunfal. Caminhou em silêncio até alcançar seu prédio, que humildemente dividia com a enfermaria, a cozinha e as salas de aulas que abrigavam os alunos do lugar. A primeira era seu ambiente de trabalho, ou o fora por décadas. Àquela altura, a Irmã não mais se adequava como enfermeira, com olhos tão caídos que nem os óculos desobstruíam a visão. Nem se importava, ciente de que havia feito seu melhor e pelo maior tempo possível.

Em seu quarto, ela ocupou-se com tarefas comuns, trocou-se e realizou sua higiene pessoal antes de mirar a cama com um suspiro contido. Estava nervosa. Estava, sim.

Deitou. Teve dúvida se foi horas depois ou em apenas alguns minutos, mas as pálpebras se fecharam, e tudo ficou escuro.

Até alguém abrir a porta.

— Boa noite, Mariane — um homem cumprimentou, fechando-a atrás de si.

Ela se perdeu entre gritar ou simplesmente se sobressaltar na cama, emitindo um ruído assustado enquanto se apoiava com o cotovelo.

— O que faz aqui? — indagou, pegando os óculos no criado-mudo. Ninguém a chamava direto pelo nome. — É um seminarista?

Não se lembrava dele. Dentro da faixa de idade comum aos outros estudantes, entre 25 e 30 anos, ele a encarava de baixo para cima. Tinha as mãos a meio caminho dos bolsos da calça, uma peça social preta feita sob medida. A camisa branca com os botões abertos até o início do peito era de se estranhar, ainda mais com o terno fechado por cima. Nenhum dos estudantes se vestia assim, nem mantinha aquela aura pomposa carregada de desinteresse.

— Já percebeu que não — ele respondeu, aproximando-se, os olhos negros grudados nela. — Podemos seguir em frente?

— Você é... — Ela se esforçou o quanto pôde para não gaguejar, o que não impediu as palavras de secarem. Ele fez um aceno com a cabeça para mostrar que estava esperando. — É aquela coisa que causou o incêndio, não é? Há tantos anos...

Estava tão claro. Como a água ou a luz das estrelas no céu, a metáfora que fosse. Tinha demorado para entender, dada a visita repentina, mas era óbvio que era ele. Os olhos lhe diziam. Os olhos que não piscavam e que não se afastavam dela nem por um segundo.

— Você é o demônio.

Emudeceu de vez. Afagou a mão queimada com a outra, percebendo o homem a um passo de si. Não havia para onde correr. Das freiras que um dia tinham habitado o prédio, só restava ela. E ele vinha buscá-la também.

Com um suspiro desconfortável, ele deixou a franja de cabelo escuro quase lhe cobrir os olhos.

— Nem de longe. — Abaixou-se, e deu para ver que o incômodo não era bem pelo equívoco, mas pelo desprezo que exalava por aquelas criaturas.

Ela também notou o contorno da pupila no meio das íris negras, um detalhe evidente apenas por conta da penumbra, embora tivesse apagado todas as luzes antes de dormir.

— Meu nome é Don, se isso a reconfortar. — De fato servia. Ela sabia há anos o nome do demônio. — Podemos ir? — Estendeu uma mão, aguardando que a Irmã lhe desse a que continha a queimadura.

— Pa... Para onde?

O medo a dominava, preenchia suas veias e travava a língua. O homem não pareceu se importar, fingiu um sorriso.

— Para o destino reservado a todos, o fim tão verdadeiro quanto infinito... Aquele discurso. Você sabe.

A Irmã expirou, surpresa com todo o ar que havia segurado. Então, haveria de ser na cama, dormindo, após pedir perdão por seus pecados? O medo congelava enquanto era sobreposto pela compreensão e, com esta, veio um sentimento de gratidão profunda. A vida era uma dádiva, incontestavelmente, porém recebia um presente inestimável na morte. Lembrar-se das companheiras gritando no meio do fogo havia perseguido seus sonhos por décadas.

Ela analisou a queimadura e pousou a mão sobre a dele, tocando seus dedos frios. Após fazê-lo, notou que não eram frios de verdade. Não possuíam temperatura. Ele inteiro parecia indiferente a definições como essa, nem feliz por convencê-la a ir, nem triste por ter de levá-la. Mesmo assim, continuava sorrindo, talvez para que ela se sentisse melhor, e funcionava. A Irmã ergueu-se da cama devagar, assentando as dobras da camisola e dando o passo descalço restante em direção a ele. Sentiu-o enlaçar sua cintura e fazer com seu corpo um floreio de dança, como o movimento final em uma música.

Em vez de pender nos braços deles, atordoada, ela viu-se flutuar.

Não havia perguntado, mas a indecisão a acometia ao perceber que estava sendo levada pela morte. Independentemente de sua vida servindo ao clero, para onde iria no final? Para cima? Para baixo? Os dedos se soltavam dos daquele Don, um por vez, numa despedida lenta. Para cima, sim, era digna o bastante. Limpara a alma minutos antes na capela, removendo quaisquer resquícios mundanos que atravancassem seu avanço. Veria os céus. Veria a luz. Seria abraçada por ela.

O que a Irmã viu foi o fogo. Embora não fosse o do inferno, queimava com a intensidade de um sol, cheirava como fumaça e obstruía suas narinas. Ela tossiu e ouviu os gritos, as imagens das Irmãs incendiando-lhe os olhos. Bastava o que a mente lhe mostrava de tempos em tempos; assistir ao vivo não era algo que ela pudesse suportar.

Agarrou a mão de Don com todas as forças, como se fazer isso eliminasse o fedor de carne queimada, enegrecesse sua visão de quem corria para longe. Ela tinha fugido do prédio ao invés de ajudar as companheiras. Julgara ser a coisa certa a fazer. Mesmo que fosse, a culpa pela morte das outras nunca a abandonara, nem naquele momento, flutuando para conhecer seu destino enfim.

A culpa retardara o processo, mas não havia como impedi-lo: com um tranco e um puxão, a Irmã tornou a se elevar rápida e implacavelmente para compensar os segundos indecisos. E, revertendo o cenário, levou o homem, surpreso, consigo.



*****



Quando ele recobrou a consciência, sentiu cheiro de flores. Foi tão perturbador que o obrigou a arregalar os olhos. Encarou os arredores. O impossível acabara de acontecer.

Levantou-se devagar, as pernas bambas pela constatação, mas logo recuperou a impassibilidade habitual. Pisava em pétalas coloridas de diferentes flores, na grama fofa e cheia de ervas daninhas. Apertou um dente de leão com o sapato e observou as sementes voarem graciosas em uma ordem própria. Mesmo a brisa do lugar era agradável e soprava com um propósito. Um que certamente não envolvia sua presença ali.

Refletindo sobre os porquês e comos, ele contemplou a irrealidade da própria situação. Não existia tal acontecimento ou ser que de fato se classificasse como “impossível”. Era apenas um termo para determinar onde ficavam os limites e, assim, impedir alguém de ultrapassá-los. Ao longo de mais de cem anos, nunca havia ultrapassado nada, até porque esse feito não lhe interessava. Uma vez do outro lado da linha, porém, ele buscava entender.

Viu a Irmã, num impulso desesperado, agarrar sua mão ao ser puxada por uma das criaturas. Era apenas o mensageiro, aquele que avisava e, de uma forma ou de outra, conduzia a alma até a encruzilhada, onde o verdadeiro caminho seria percorrido por ela de modo a completar seu julgamento. Sequer era ele quem levava até o destino final, como insinuara a Mariane: era o anjo. E quem quer que tivesse carregado a freira o carregara junto.

“Ela ascendeu”, Don pensou, avaliando as cercanias. O cheiro no ar era uma prova. Outras tantas se erguiam diante dos olhos dele. Podia ver as extremidades, as paredes cinzentas do círculo, embora elas não estivessem à vista. A infinidade ilusória do espaço não podia enganar sua percepção. Porém, isso não o ajudaria a reencontrar a fissura por onde tinha entrado. Precisava de outra alternativa.

Ele andou a esmo a princípio, inclusive por não conhecer o lugar. Construções esparsas variavam o cenário aqui e ali, inspiradas da arquitetura grega à gótica, e continham habitantes que riam e se divertiam por razões diversas. Via barris cheios de vinho, via grandes vasos de porcelana e ouro bastante decorados. Não compensava procurar Mariane entre os outros. Mesmo se ela estivesse lá, ao consumir qualquer coisa que fosse, toda lógica e pensamento crítico seriam removidos. Havia ainda um rio, ou lago, dependendo de para onde rumasse, que a fariam se esquecer de tudo o mais que guardava na mente ou no coração. Por mais que fosse culpada por aquilo, a Irmã não lhe serviria de nada.

Escolheu seguir para a floresta atrás de si.

Entre pinheiros e ipês, ele esquadrinhava os arredores à procura de pistas. As plantas não obedeciam a qualquer regra de bioma ou climática, misturando-se com espécies que jamais cruzariam o mesmo solo. Toda variedade de flores, folhas e raízes compunha o último, impedindo que Don enxergasse a perturbação que a porta de entrada devia fazer ali. Tampouco sabia se ela estava mesmo no chão; poderia perfeitamente se erguer num tronco, numa folha, numa flor. Não precisava ser grande ou evidente, bastava que existisse para que o trânsito entre os mundos fosse possibilitado.

Havia muito o que se esquadrinhar.

Os olhos trabalhando, ele permitiu que a mente vagasse para as consequências. Intencional ou não, caso fosse descoberto, sua indiscrição teria consequências. Sua supervisora, aquela criatura adorável, seria a primeira a sugerir algum tipo de tortura para ele. “Quem pensa que é para sair por aí quebrando nossas regras milenares?”, ela diria, obrigando-o a bocejar disfarçadamente. Ou nem tanto. Ele e ela engatavam em disputas de poder, mais porque sentiam que em breve brigariam pelo cargo de CEO do que por ela realmente se importar com as leis que regiam todas as entidades. Mas esse era um problema potencial para o Don que conseguisse deixar os campos.

Como se lhe completasse o pensamento, a disposição do lugar o fez deixar a floresta, desembocando na beira de um lago límpido, composto pelas Águas do Esquecimento. As chances eram boas de haver uma saída no fundo — as águas de todos os lugares podiam servir como conexão para outra fonte —, mas ali, em especial, ele não poderia entrar. Não que precisasse respirar ou tivesse qualquer problema mundano do tipo: não as chamavam de “Águas do Esquecimento” à toa.

Don avançou assim mesmo, julgando que poderia encontrar outra fissura às margens do lago. Em meio à leve névoa que se desprendia da água, ele acabou por encontrar outra coisa, decerto tão intrigante quanto a saída.

Uma mulher.

Ela se apoiava numa pedra grande, os pés dentro d’água, e mirava algo no horizonte, os cabelos balançando sem vento.

Considerando serem os campos o destino dos humanos valorosos, não devia ser surpresa alguma ver uma mulher no lago ou em qualquer outro ponto dali. A questão era que — como demonstrado por sua pele azul cristalina e seus cabelos esponjosos e verdes, mais parecendo algas — ela não era humana. Uma entidade, como ele. E quebrando as regras, como ele.

Don abriu a boca para chamar a atenção dela, curioso por uma série de impossibilidades estarem acontecendo — quantos astros precisavam se alinhar para um encontro daqueles ter o direito de ser real? —, porém, a névoa clareou à sua frente, revelando o objeto que cativava a atenção da moça. E que objeto era aquele.

Um chafariz.

Flutuando no meio do lago, bem longe, ele parecia estar, na verdade, fincado no fundo do lago por uma ilha de terra, se tal fato fosse plausível. De ouro puro, carregava símbolos mágicos antigos: prosperidade, bondade, amor, compaixão... Don não sabia ler todos, mas entendia a ideia. Estavam escritos em enoquiano, o idioma dos anjos, e ele não era fluente. Aprender a língua celestial não era bem visto entre os seus.

Ele subiu os andares do chafariz, três no total, com água fresca passeando alegremente e caindo sobre as harpas, as asas e outros tantos desenhos característicos que seus olhos alcançavam. No topo, fonte da bela cachoeira artificial, havia um anjo.

O peito dele retumbou.

A pele do anjo brilhava em dourado, espelhando o metal precioso do chafariz e emitindo luz própria. O rosto por pouco não se escondia sob os cabelos castanho-claros e longuíssimos, quase batendo nas águas do lago. As asas estavam fechadas, e era delas que vinha a maior parte da luz. Eram, afinal, a origem dos poderes dos anjos.

Don engoliu em seco e, em seguida, a boca salivou. Via as unhas grandes se cravarem numa harpa enquanto o ser celestial se inclinava em busca de algo na água, que somente ele enxergava. Don quis esticar as mãos. Queria atravessar o lago e chegar perto dele. As pupilas latejaram como um coração, envolvidas por um contorno vermelho. Em quase 160 anos de trabalho, jamais contemplara criatura tão bela. Não conseguia parar de olhar.

E, aparentemente, não era o único.

— Abaixe-se! — a moça sussurrou antes de jogá-lo no chão.

O terno afundou na terra e na lama, num suspiro doloroso. Don arregalou os olhos, escapando de seu torpor. Estupefato além da conta, acabou se deixando levar e se focando na mulher pesando sobre si.

Soube então que tipo de entidade ela era.

— É tão discreto que ele quase o viu! — a moça reclamou, o nariz pontudo prestes a furar o dele. Piscou os cílios longos e virou-lhe os olhos de íris grandes. — Não quero que ele fuja!

Don franziu o cenho.

— Eu não...

Shh! — O dedo nos lábios carnudos dela lhe conferia uma expressão sensual. Sentindo seus seios desnudos (ela não vestia nada, na verdade) apertarem-lhe o tórax, Don fez um resmungo de desconforto. Não apreciava a proximidade ou ser tocado daquela maneira. — Eu o vi primeiro, querido. Agora, será que você pode se enfiar pelo buraco de onde veio e sumir daqui? Eu ficaria tão feliz...

O tanto que ela piscava o fez imaginar que estava tentando lhe jogar algum tipo de feitiço de sedução. A esse tipo, ao menos, Don era imune. Empurrou-a para o lado.

— O anjo me trouxe aqui... — murmurou, a testa mais enrugada depois que ela insistiu em se esfregar nele um pouco mais. — náiade.

À menção de sua espécie, ela se endireitou, arrumando os cabelos. Fez um bico.

— Por que não está caidinho por mim? — ofendeu-se, mirando-o de cima a baixo. — Quem é você?

— Acaso só consegue olhar para si mesma? — Don retrucou, aprumando o terno irreparavelmente sujo na parte das costas. Encarou as manchas de lama e bufou. O cabelo estava pingando aquela porcaria toda também.

A náiade abriu as guelras no pescoço e nas bochechas para deixar uma lufada de vapor exteriorizar sua mágoa.

— Tenho culpa se sou bela? — defendeu-se. Por fim, olhou-o de novo, atravessando as camadas da aparência para identificar o interior. O odor emergiu num segundo. Conteve uma interjeição abismada, recuando de pronto. — É um ceifeiro!

Don crispou os lábios. Achava a definição deselegante.

— Por isso não funcionou... — A náiade fez um muxoxo. Tornou a arrumar os cabelos, desenrolando uma ponta que fazia um nó em outra alga. — Não há como encantar mensageiros da Morte. Eu bem sei. — Olhou de soslaio para a direção do anjo, gemendo amuada.

— Anjos não contam — ele rebateu. Visualizava o dourado que a pele do habitante do chafariz emitia. Daquela posição, não enxergava mais nada. Voltou a salivar. — São muito puros para se infectarem com o cheiro de morte. Seus encantos que são ineficientes.

Desamassou o que podia antes de se levantar. Ou de tentar.

— Fique sentadinho aí! — a náiade exigiu aborrecida. — Se fizer qualquer movimento brusco e ele voar para longe, arrancarei sua cabeça!

— Matará a Morte?

Don não evitou o sorriso irônico.

Mais vapor deixou as guelras dela.

— Ouvi falar que todos vocês são grosseiros. Destratar uma garota, francamente... Ao menos, é agradável aos olhos. — Analisou-o de cima a baixo mais uma vez.

Ele deu de ombros. Tinha a obrigação de tratar bem as almas potenciais, e só porque a supervisora demandava que agisse assim. De resto, especialmente com mulheres, deixava seu eu natural assumir as rédeas. Parte dele, de qualquer forma.

— Como entrou nos campos, náiade? — indagou em seguida.

— Eu tenho nome — ela reclamou, o bico mostrando irritação. — É Camaliss. Qual o seu?

— Não perguntei como se chama — Don disse secamente.

— Se não me contar, não respondo — Camaliss rebateu ácida.

Trocaram olhares pouco amistosos.

— Don.

— Don — repetiu, passando devagar por cada letra como se as saboreasse. Na voz dela, o nome soava tal qual uma música. — Como acha que entrei, Don? Atravessei o fundo do lago.

— Passou pelas Águas do Esquecimento? — ele duvidou. — Como ainda lembra quem é?

Camaliss riu com deboche.

— Sou uma entidade das águas. A magia de nenhuma me afeta. — Don parou para absorver a afirmação, ao que ela continuou: — Pensei que sua espécie fosse mais inteligente, mas são mesmo apenas ghouls civilizados...

Don mordeu a língua. Era aquilo ou perder a compostura e investir contra ela. Precisava de mais informações.

Camaliss viu quando as pupilas negras dele, imersas nas íris de mesma cor, se destacaram com um contorno vermelho latejante.

De repente, a pulsação parou.

— Não deve ter sido fácil encontrar o local exato no fundo das águas — Don seguiu impassível. Camaliss piscou, absorta demais. — Como soube que era?

— Não soube — respondeu curiosa. Os olhos dele já se encontravam no negro perfeito. — Ele possuía certa força magnética. Puxou-me sem aviso e acabei aqui.

— Talvez tenha sido o mesmo comigo — pensou em voz alta. — Uma alma me puxou.

— Pensei ter dito que foi um anjo. — Ela franziu a testa cheia de suspeitas.

— O anjo trazia a alma que me agarrou.

— Isso é estranho. — Camaliss remexeu-se no lugar, pensativa. Checou rapidamente se estava tudo bem ao longe no chafariz. Don sequer teve tempo de fazer o mesmo. — A espécie deles jamais quebraria as regras... A não ser que você tenha feito de propósito.

— Que motivo eu teria para vir aos campos? — irritou-se. Desistiu de limpar a lama das vestes. Não ia sair.

— Há vários empoleirados naquele chafariz — ela rebateu. — Vi como o olhava! O desejo nos seus olhos. Mas o Malech é meu!

— Desejo? — Don ultrajou-se. — Do que está falando?

— A coisa vermelha aí.

Camaliss fez um movimento circular, indicando as próprias pupilas. Don franziu a testa, perturbado.

— Cheguei primeiro e vi primeiro. Não me importa se foi ele ou outro que o trouxe aqui.

— Quero o anjo tanto quanto quero você, Camaliss — debochou, magoando-a. — Mas preciso que ele me guie até uma fissura. Não sei por qual entrei. Não posso sair.

Nada daquilo era inteiramente verdade, em especial depois do comentário dela acerca de seus olhos. Porém, pelo que conhecia de náiades, aquela deveria ser fácil de manipular. Já jogava algumas cordas nas mãos dele. Queria vê-la pulando.

— Se eu mostrar uma para você, promete que vai embora? — Camaliss disse com cuidado. Claramente aguardava a reação dele à proposta para, em seguida, decidir seu curso de ação.

— Por mim, tudo bem. — Don sorriu por fora, porém por dentro sua expressão era um tanto mais maníaca. Mal tocara as cordas e os saltos começavam. — Mas não pode ser uma que envolva água.

— Não se preocupe. Eu teria mais a perder se você virasse um ghoul.

Ele assentiu em concordância.

— Por aqui. — Camaliss fez um sinal para que ele a acompanhasse.

— Sabe onde elas estão?! — Don surpreendeu-se. Jamais apostaria que o resultado chegaria tão rápido.

— Há quanto tempo pensa que venho aqui? — Ela franziu a testa. — É um feito complexo seduzir alguém como ele. — Indicou o anjo à distância, mas a névoa o acobertava. Don captava somente um suave brilho no meio do lago. — Por isso também estou tão protetora. Não preciso de mais obstáculos.

— Você já conseguiu se aproximar mais dele?

Em sua visão e pelas palavras da própria Camaliss, imaginava que o anjo se comportaria feito um animal acuado se ela ficasse perto demais.

Andaram pelas margens.

— Diversas vezes — Camaliss respondeu, soltando um suspiro. — Ele mal nota qualquer coisa, empoleirado naquele chafariz. A única vez em que olhou para mim foi quando desfiz o reflexo da Lua.

— Lua? — Don estranhou.

— Sim. E nem durou muito tempo. Quando não sai para buscar uma alma, passa dia e noite contemplando aquele reflexo. É quase como se estivesse apaixonado por ele.

Don procurou o anjo entre a névoa novamente, sem sucesso. Recordava-se de vê-lo inclinado na borda do chafariz, concentrado na água. Mas não poderia haver um reflexo da Lua ali quando sequer um céu havia. A história ia mais longe que Camaliss estava disposta a contar.


— E se ele estiver? — continuou, revisitando o que entendia de náiades. — Como o fará se apaixonar por você?

O sorriso que Camaliss lhe mostrou era tão cruel que ele viu a si mesmo nela por um momento.

— Quem disse que eu quero o seu amor?

— Mas eu pensei que náiades...

— Obviamente, seu pensamento foi equivocado. Eu nunca busco o coração de um homem, Don. Meu interesse jaz um pouco mais embaixo... — Fixou o olhar na virilha dele sem sequer ter o trabalho de disfarçar.

Ele achou a declaração divertida. Resolveu descobrir suas intenções exatas.

— Anjos não têm libido. Aquele jamais a procuraria por seu corpo.

Camaliss riu.

— Também nunca disse que o desejo precisava ser mútuo. Eu o quero. Eu o terei para mim.

Don a analisou de cima a baixo, como se a visse pela primeira vez. Não parecia ser muito forte ou mesmo ter poderes além do feitiço de sedução. Ele não podia evitar suposições acerca de como ela executaria seu plano, como violaria o anjo. Não fazia ideia.

— Então, o que a prende aqui? — murmurou, ainda admirado. — Não basta atacá-lo e arrancar o que você quer?

— E que graça teria? — Fez um muxoxo. — A paixão arde mais forte quando há um desafio. Ele traz um significado diferente à vitória. Dá-lhe um melhor sabor. E você viu Malech. Sabe que ele fornecerá o melhor sabor de todos. Quero que venha até mim sozinho, pelo motivo que for.

— Malech? É o nome do anjo?

— É o nome que lhe dei. — Camaliss confirmou sonhadora. — Um apelido carinhoso. É aqui.

Ele levou alguns segundos para se situar.

Absorto na conversa, perdeu a noção de espaço e não viu que haviam dado quase meia volta no lago, parando em uma região na qual a parte mais colorida da floresta se exibia e onde a névoa afinava.

— Vi um homem desaparecer aqui logo depois de preparar essa balsa — Camaliss disse, porém ele não ouvia.

Contemplava Malech pelos segundos que lhe restavam. Daquele ângulo, ele estava quase de costas, promovendo uma visão mais clara de seus cabelos cintilantes. De tão dobrado para a água, agora algumas mechas a tocavam e eram engolidas. Don não podia ver o tal reflexo da Lua, no entanto, entendeu por que Camaliss se referira à fixação dele como amor. O jeito como o anjo esticava um braço, prestes a encontrar o que contemplava, o que desejava. A hesitação. Don queria poder ver seu rosto.

— Ali, perto das roseiras. Posso ver a fissura abrindo e fechando repetidamente... — ela continuou. — Já não há nada que o prenda aos campos.

Ele recuperou o autocontrole a tempo de virar-se para ela quando a náiade terminou, alheia ao que ele fizera nos últimos segundos. Engoliu a saliva acumulada e anuiu, atônito, procurando a saída por si mesmo.

— De fato, não há. Agradeço a ajuda, Camaliss. Toda ela.

E sorriu.

Lisonjeada, ela fingiu encolher-se de vergonha, cobrindo a face com o cabelo.

— Uma pena que jamais tornarei a ver você — lamentou. A dor da partida não a impediu de se inclinar rapidamente e roubar um beijo.

Os lábios de Don não se retesaram, suas mãos não a impediram. Em meio à repulsa natural, o interior dele regozijou-se com a ousadia da náiade. Aproveitou-se dela enquanto ela se aproveitava dele. A língua dela sequer precisou forçar alguma coisa: ele não só a recebia de bom grado, como respondia a seus movimentos.

Foi curto, mas intenso, e, ao se separarem, Camaliss mordeu o lábio inferior de Don para arrancar um pouco de sangue.

— Parece humano — comentou, lambendo a boca. — Embora com um final amargo.

— Carregamos o sangue dos mortos — ele disse. Não se importou com o filete marrom-avermelhado que escorria da ferida.

Camaliss murmurou em compreensão.

— Uma pena, certamente — Don repetiu. Olhou-a como quem se despedia.

Dando-lhe as costas, meteu-se pela fissura e desapareceu.

Do outro lado da abertura, Don parou para olhar por cima do ombro o lugar exato onde ela se encontrava. Com as mãos nos bolsos da calça, ele se inclinou e procurou-a com uma habilidade ocular que sua estirpe não possuía. Levou uns bons dez minutos e alguns suspiros irritados. Semelhante ao relato de Camaliss, uma força invisível o puxava quando chegava perto o bastante. Apenas quando chegava perto o bastante. Era feito para que ninguém jamais entrasse por acidente, o que de fato não ocorria.

Ou assim ele pensava no início.

Atentando-se aos arredores, viu-se em um vilarejo com construções antigas, a maioria tendo passado por diversas reformas ao longo dos séculos. Supôs em qual continente estava e, ao sentir o vento soprar de repente, bagunçando seus cabelos, descobriu um rio por perto. Bastava seguir a umidade.

Ele não voava, não carecia dessa habilidade na maior parte do tempo. A velocidade de seus pés se assemelhava à de um espírito errante, pairando sobre a terra sem realmente ficar sobre ela. A alguns quilômetros de distância de sua aterrissagem, achou o lugar exato. A noite não lhe afetava os olhos, e ele pôde ler o nome “Loire” na placa mais próxima. França. Talvez fosse ali a origem de Camaliss. Decerto o rio estava ligado aos campos. Nunca teria certeza. Mesmo em água comum, não se arriscava a entrar. Lembrou-se do comentário da freira antes de levar sua alma, aquele sobre ele ser um demônio. Embora não fosse, batia de frente com uma das mais gritantes parecenças: demônios tampouco podiam se mover pelas águas.

O vento novamente nos cabelos, Don ergueu a cabeça. Perdera um tempo precioso em sua pequena viagem. O amanhecer já despontaria. Precisava trabalhar.

Pensou em Malech e em sua fonte no centro do lago, imaginando-o naquele rio. O vento tratou de lhe mandar um aviso. Sua supervisora poderia não estar observando diretamente, mas os contadores mostravam que ele estava parado há várias horas. A Morte não para. Na Itália, já tinha todo um itinerário para aquela noite, uma coleta desperdiçada. Não fazia mal. Falhava em identificar algum colega naquela vila ou nas adjacentes. A manhã traria uma lista nova e, como muitas coisas lhe pareciam agora, um bocado mais interessante.

Contornou o rio até topar com uma passagem.


May 18, 2018, 7:07 p.m. 0 Report Embed 0
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