Simplesmente Tita Follow story

sweet-mary Maria Alice

Sonhos, caramelos, amarelinhas, balões, pipoca com guaraná, balinhas de coco, pula corda, pique-esconde. Eis que a infância geralmente é uma fase da vida que costuma deixar muita saudade e que toda regra tem sua exceção. Renata Muriel Neves Linhares, popularmente conhecida por Tita, é filha de pais separados e cresceu acompanhando um silencioso conflito entre ambos, dividindo-se entre o carinho de Félix e o autoritarismo metódico de Meire. Convivendo apenas na presença de adultos, mal esperava a hora de ingressar na escola primária para fazer amizades, porém suas expectativas pueris caíram por terra logo no primeiro dia de aula.


Children Not for children under 13.

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O mau começo

Remontar a locação do tempo. Polir os parágrafos. Extinguir redundâncias. Selecionar adjetivos. Ser fiel à ânsia que me move. Uma vez lançadas ao mundo, as palavras não mais me pertencem. Desapego-me parcialmente, responsável pelo conteúdo compartilhado além de quatro paredes, não estando ao meu alcance o domínio sobre a repercussão dos fatos. Eis àquela perigosa narrativa que suscita desconfianças, reflexões, salientando o ponto de vista de uma história que não começou nem terminará comigo.

Ainda bem que o estigma de heroína nunca me perseguiu. De politicamente correta talvez e tão somente à fisionomia. Redigir minhas memórias poderia ser um propósito sem grandes contratempos, mas o trabalho revelou-se minucioso e laborioso à medida que voltar no tempo significou reabrir feridas e rascunhar catarses para não soar tendenciosa, no caso de uma possível repercussão de meus escritos.

Uma furtiva contradição permeia minha breve existência: não gostando de Carnaval, fui concebida em um, aquele em que meus pais curtiram como nunca a juventude dos anos 1980. Félix e Meire formalizaram a união na esfera civil pouco tempo após o anúncio da gestação, dividindo as despesas de uma casinha alugada num bairro residencial.

A 17 de novembro de 1987, Meire das Neves deu a luz à pequena Renata Muriel Neves Linhares ou Simplesmente Tita. Segundo nome totalmente desnecessário, reinações de mamãe. Linhares por conta do pai.

Meire e Félix se apaixonaram na mesma proporção em que se odiaram depois: intensa e profundamente.

Conta Vó Olívia que durante o período compreendido entre meus onze meses e meus três anos de vida, os dois tentaram salvar o relacionamento um montão de vezes por minha causa, por isso lembro vagamente do papai morando conosco numa casinha pequena, voltando do trabalho e me colocando para dormir porque naquela época Meire tinha um emprego noturno e que eu já saía rabiscando paredes, móveis, tudo o que via pela frente e surpreendia aos adultos por ter aprendido sozinha a ler aqueles letreiros de outdoors e legendas de filmes na televisão.

Meire nunca teve paciência para perguntas em demasia e reinações, todavia era eu um pedacinho de gente quando tive a audácia de pedi-la uma irmãzinha. Até o nome da bendita já estava decretado: Luísa. Meu desejo era ensinar à pequenina tudo o que aprendia (as letrinhas, os números, os bons modos), brincar de casinha, andar com ela para todo canto, do jeitinho que fazia com a Ciça, uma boneca de pano que mamãe confeccionou para mim a qual guardo até hoje (a pobrezinha está velhinha), tudo porque eu não tinha ninguém com quem brincar e nem idade para ir à escola. Eu tinha altas conversas com aquele pedaço de pano, ainda que minha progenitora me repreendesse por "falar sozinha".

Formalizada a separação de meus pais, passei a ver Félix Linhares apenas aos fins de semana. Nesse entremeio, Meire conheceu Horácio, um rapaz alto, esquálido, cujo rosto fino era salientado por um bigode escova. Ele passou a nos visitar com bastante frequência e quando se sentava no sofá ao lado de mamãe, segurava nas mãos dela.

Naquela época eu ainda não aceitava muito bem o Horácio e quando ele vinha nos visitar lá na casa da Vó Olívia, eu abria a maior carranca e levava uns beliscões de mamãe, sendo advertida pela malcriação. Trotando e arrastando a Ciça pelo chão de tacos, lá ia eu cumprimentar aquele poste. Ele, sempre muito assertivo e também disposto a estreitar os laços comigo, perguntava como a Ciça estava e quando me entregava o saquinho de papel pardo com doces, pedia para que eu dividisse com a minha amiguinha.

Horácio Cerqueira, apesar de ser gente grande, gostava de desenhos animados e tinha mais paciência que a minha mãe para a máquina de perguntas, naturalmente nossa amizade se firmou para valer.

— Você tem filhos? — perguntei.

— Ainda não! — respondeu ele, me colocando em seu colo. — Sabe de uma coisa? Eu quero ter uma filha linda igualzinha a você...

— É sério?

Ele assentiu sorridente.

— Ela pode se chamar Luísa?

— Você quer ter uma irmãzinha? — quis saber o meu futuro padrasto, bem entusiasmado com a ideia. — Claro que eu quero! E eu quero que ela se chame Luísa!

— Então está combinado! Se for menina, ela vai se chamar Luísa.

— E se for menino?

— Se for menino você pode pensar num nome bem legal pra ele... — concordou Horácio, animado, me colocando de volta no sofá.

Na primavera de 1992 fui à daminha de honra do casamento de Meire e Horácio numa paróquia de bairro praticamente vazia. Vó Olívia emprestou o vestidinho lilás da filha de uma comadre, comprou um sapatinho de tirinhas brancas e eu entrei na igreja me lembrando de contar os passos até o altar para testemunhar o sim do mais novo casal, ganhando a partir dali um padrasto.

Após trocarem alianças, Horácio e Meire não partiram para uma viagem de lua-de-mel como fazem todos (ou a maioria dos) recém-casados, pois mamãe nunca foi chegada à praia e sempre foi extremamente exigente com instalações, nunca foi fã de Carnaval, barulhos de rojões estourando e coisas do tipo. Se a parede de um quarto estivesse descascada ou a torneira da cozinha apresentasse vazamentos, para ela acabava as férias, então meu padrasto deu-lhe a irrecusável oportunidade de tirar a carteira de motorista, portanto tínhamos dois carros na garagem: a Belina dela e o Fiat Prêmio dele, ambos com as revisões em dia na medida do possível, em ótimo estado de conservação.

Mudamo-nos para uma residência de dois dormitórios onde me foi concedida a oportunidade de ter um cantinho com um guarda-roupa branco de duas portas, uma cama simples, cômoda de madeira com seis gavetas e, claro, brinquedos. Eu gostava de brincar no quintal, porém Meire se queixava que eu sujava minhas roupinhas e correr dentro de casa estava fora de cogitação.

Luísa não chegou e Ciça continuou sendo minha única amiga por um bom tempo até eu inventar a Laila e conhecer a Maria Clara. Laila foi minha amiga imaginária por boa parte da infância.

Meire das Neves sempre foi uma progenitora perfeccionista e autoritária. Detestava brinquedos espalhados pela casa e ai de mim se me sujasse na hora de papar. Aprendi a ler e escrever antes de entrar na escola, a custo de muitas broncas, sobretudo porque saía rabiscando qualquer superfície lisa e branca, a exemplo da parede lá de casa.

Fitinha rosa na cabeça, cabelo escovado, vestidinho na altura do joelho, meia calça transparente e sapatilha cor de rosa. Sentada no sofá era uma legítima bonequinha de porcelana com meus sorridentes olhos de jabuticaba, olhos que as pessoas diziam conter um brilho e uma pureza angelicais.

Eu era a filha que toda mãe queria ter, exceto a minha.

Morávamos numa rua sem saída e a mesma era tomada por crianças de todas as idades que só se recolhiam quando os pais ordenavam que entrassem em casa. Futebol, vôlei, pique-esconde, corridas com carrinho de rolimã, passeios de bicicleta, brincadeiras de roda, salada-mista.

― Posso ir brincar lá fora? ― pedi.

― Nem pensar ― respondeu Meire espreitando a movimentação da rua atrás das cortinas. ― Não quero que você se misture com essas crianças mal educadas...

― Mamãe, quando é que vou pra escola?

― Era pra ter começado neste ano, mas não tinha idade... ― bufou Meire, servindo-me caldo de feijão com farinha na velha cumbuca alaranjada de plástico.

― Eu quero ir pra escola.

― Por mim eu te mandava pra escola hoje mesmo pra ver se você para de me encher a paciência...

― Eu vou pra escola?

― Vai... ― confirmou Meire.

A escola dava a impressão de ser um lugar maravilhoso e eu mal via a hora de me juntar às outras criancinhas para conversar, brincar e sonhar. Queria aprender um montão de coisas, contar tudinho aos adultos e aproveitar bastante o parquinho, me divertir com meus amiguinhos até escurecer o céu.

Para o bem ou para o mal, o tão aguardado dia chegou. Na segunda-feira seguinte ao Carnaval de 1994. Uma segunda-feira nublada e abafada que ainda assim não foi capaz de minimizar a alegria externada em minha alma pueril.

Meire me ajudou a vestir o uniforme, penteou o meu cabelo com força para fazer um rabo-de-cavalo alto e amarrou o cadarço do pequenino tênis. Eu sorria de ponta a ponta, tomando cuidado para não derramar o achocolatado na camisetinha, escovei os dentes contemplando o reflexo da mais absoluta confiança que a felicidade estava próxima de se materializar em brincadeiras e amizades.

Consequentemente, a inflamada expectativa desvaneceu-se assim que desci do ônibus alimentador com Meire e vislumbrei pela primeira vez aquele lugar horrendo. O bloco dos pequenos era apenas um prédio feio e sem graça cuja coloração fora consumida pelo tempo. O playground, cercado por grades, encontrava-se fechado com cadeado.

Que tristeza!

Mamãe me encaminhou por entre aquele mar de baixinhos chorões procurando saber onde estava a minha turma, deixando-me exatamente em frente à sala da primeira série no primeiro andar.

— Tchau, mãe! — abracei a cintura de Meire e ela me afastou com as mãos:

— Vê se se comporta porque eu não quero ouvir reclamação!

Meire das Neves retirou-se antes que eu pudesse chama-la de novo.

As circunstâncias não me favoreceram porque não havia uma única carteira vazia na frente e todos os lugares que eu procurava, uma lancheira era colocada na cadeira para evitar insistência da minha parte. Nesse entremeio a "tia" adentrou a sala de aula observando a todos com uma expressão desgostosa, como se desejasse que aquelas férias de verão nunca tivessem acabado.

― Por que você ainda não está sentada, menina? ― A pergunta retórica e nada cordata era dirigida a mim. Procurei me explicar educadamente, mas aquela mulher cujos botões do guarda-pó teimavam em não fechar não me deu a menor atenção.

Dulce não atinou nem por um mísero instante que não bastasse ser novata em uma classe onde todos já formaram suas panelinhas — dado a entender que ela conhecia os outros do ano anterior —, aquela era a primeira vez que eu passaria tanto tempo longe de um dos meus progenitores porque apesar de todos os pesares, Meire estava sempre a tiracolo. Faltou-lhe um tiquinho de empatia para me apresentar à turma e fazer com que eu encarasse aquele momento tão difícil da minha breve vida com menos terror. Aquela mulher passava bem longe de ser a doce e compreensiva Srta. Honey, do filme Matilda.

― O que é que você está fazendo aí parada? — interrogou a professora. — Eu não te mandei sentar, criatura?

— Mas...

— Escuta aqui, menina, eu te mandei sentar! Você vai me obedecer ou não vai?

Assenti e ela arremedou meus trejeitos:

— Agora vê se para de atrapalhar a aula se não quiser dar um passeio na sala da Norma. Garanto que você não gostar nem um pouquinho de ir pra lá. E agora anda porque eu estou sem paciência pra criança chata.

Chorando, sentei-me na terceira carteira da última fileira do canto, exatamente atrás de um moleque flatulento.

— Quem pede não ganha, quem chora apanha! — repreendeu a professora, debochada, que ainda completou: — Você não está na sua casa, se for pra chorar, volte pra lá!

— Chorona! Chorona! Chorona! — entoou uma garotinha de cabelos claros e sardas em volta do nariz, incentivando as outras crianças a caçoarem de mim também. Era ela Cássia Reis, a líder do bando, a figura que representaria todo o sofrimento pelo qual seria marcado a minha passagem na escola primária.

Aquele mau começo, meus caros, seria apenas a cereja do bolo. O pior ainda estava por vir.


May 5, 2018, 12:20 a.m. 0 Report Embed 0
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