hopzismo Le Loustic Hop

(AÇÃO PULP) - Rahmo e seus corajosos piratas somalis enfrentam aventuras absurdas no estilo PULP. Mas não espere deles atitudes heroico-românticas! Porque, afinal, eles são PIRATAS! E... PIRATAS PULP!!


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A Serpente das Eras (Completo)

LONGEVIDADE E IMORTALIDADE. O que as difere?

Primeiro, Yussuf e Nala sentiram um tremor sísmico abaixo de seus pés, o que fez com que partículas especialmente grandes de areia começassem a vibrar acima da superfície do solo como óleo numa frigideira.

Depois, ouviram algo como um arroto de pedra.

Se eles próprios não estivessem ocupados onde estavam, teriam visto no afloramento rochoso acima deles – ainda que esse promontório fosse o mais alto da ilha – uma das cenas mais absurdas de suas vidas.

Correndo de dentro da escuridão da caverna, segurando o fuzil acima da cabeça, estava Rahmo. Sua pele suada refletia o brilho quente que vinha de fora enquanto seus olhos tentavam se readaptar à claridade que assomava. Às suas costas, sua mochila cáqui balançava para todos os lados, e só não se soltava porque estava presa a ele por uma cinta horizontal, que lhe apertava o peito esquelético, e também por cintas nas pernas, que lhe assavam a virilha. Corria desconfortavelmente com aquilo.

Quando finalmente chegou ao círculo branco que era a saída da caverna, deu Graças!

Mas cego, ofuscado, teve medo de cair escarpa abaixo. Por isso, calculou aproximadamente a quantidade de passos que supunha poder dar na plataforma de pedra que o esperava logo à frente (não enxergava nada a não ser o brilho branco do sol), e foi.

Contava com a sorte.

E foi.

Que assim seja.

Nove, dez, onze.

Em direção ao fosso verde, doze, treze – ao tapete de árvores onde, lá embaixo, seus companheiros lutavam e atiravam em outro tipo de coisas sinistras –, catorze, quinze...

Saltou.

Porque, atrás de Rahmo, uma criatura lhe perseguia pelas trevas da caverna.

Rastejava por toda a larga extensão do túnel querendo abocanhá-lo. Uma cabeçorra, daquilo que parecia ser a maior cobra-cega do mundo. Seus dentes, como Rahmo percebeu, eram como os de um tubarão. E, para ser honesto, ela não rastejava: ela se arrastava pelo túnel usando dezenas de pares de patas terminadas em garras.

E essa pele?, ele pensou. Com certeza era a de um lagarto. Mas não existiam lagartos desse tipo, existiam?

Não.

Assim que Rahmo saltou da ponta da plataforma de pedra, fazendo com que subisse uma nuvem de poeira, girou em torno do eixo da própria cintura para poder encarar a criatura de frente. Ainda estava em pleno ar, mas pôde ver que o monstro também já havia saído quase completamente de lá, como uma enguia de um coral, e preparava-se para saltar e mordê-lo com uma boca enorme, que foi se abrindo até virar um losango cheio de dentes do tamanho de punhais.

Vendido como estava, a única opção que havia restado a Rahmo foi a de usar o paraquedas.

Ah, sim.

Mas não que as coisas tivessem acontecido em uma sequência.

Na verdade, aconteceram tudo ao mesmo tempo.

Ao saltar e girar, imediatamente sua mão alcançou a ripcord e a puxou, fazendo com que o velame de náilon dobrado dentro da mochila surgisse como um palhaço-de-mola e se desdobrasse no que pareciam gomos de tangerina, nas cores azul-celeste e branco.

Cores da Somália.

A criatura meio-serpente meio-qualquer-coisa havia pulado e voado da ponta da plataforma de pedra, tentando abocanhar Rahmo em pleno ar; mas a massa de ar que vinha do fosso verde logo abaixo dele formava um túnel de vento para cima, e o empurrou para o alto imediatamente, fazendo com que o monstro passasse abaixo de Rahmo como se se pulasse carniça.

— Passa, boi!

Já viu uma serpente saltando de uma árvore? Então, a cena foi a mesma, com a diferença de que a que Rahmo enfrentava tinha a largura de uma manilha.

Já lá embaixo, embaixo da sombra do tapete de árvores daquele fosso natural, Yussuf e Nala atiravam contra esqueletos ambulantes. Criaturas mortas-vivas de uma era pré-neolítica que se levantavam da terra como deviam ter se levantado da lama (Yussuf pensou) os vietcongues, emboscando americanos na guerra do Vietnã.

Eram os guardiões da ancestralidade-genética da serpente.

Só que esses esqueletos tinham alfanjes e broquéis de bronze em vez de pistolas, e seus ossos se esfarelavam em nuvens de cálcio cada vez que Yussuf e Nala sentavam-lhes rajadas de AK-47.

Tratatatatataatatata!

— Cadê Rahmo?! — gritou Nala, jogando uma granada e fazendo seus dreadlocks balançarem.

Bum!

Yussuf, ao lado dela, estava recostado numa árvore. Alimentava o fuzil com outro carregador enquanto o suor escorria-lhe em filetes pela costeleta:

— Não sei!

Mas acima deles eles ouviram um:

Iá-huuuuu!!

Rahmo planava usando os batoques do parapente para evitar que a serpente o abocanhasse em pleno ar. Sim, porque, se não bastasse, a merda do bicho ainda possuía asas, que o permitia focinhar o vento e planar como se fosse uma pedra quicando num espelho-d’água.

Agora caçado, Rahmo não podia mais confiar numa lufada salvadora.

E ia perigosamente em direção a uma chapada.

Não!

Não!

NÃO!

Para evitar o impacto frontal, fez uma curva aérea com o batoque e, ainda assim, atingiu o paredão com força. O som foi o de gelo sendo mastigado. Depois, correu na diagonal com a parte externa dos pés enquanto a serpente-alada atingia exatamente o ponto onde ele estava há poucos segundos. Ela bateu na pedra como uma mola lançada contra a parede, mas logo começou a correr por ela como uma lacraia, ainda tentando mordê-lo.

Merda.

Merda!

O fim da parede estava chegando, e ele teria que tomar uma decisão rápida.

Um passo,

Dois, três passos,

O fim.

Quatro, cinco, seis,

O fim!!

Sete, oito, nov...!! Pulou.

Pulou e puxou a corda para se livrar do paraquedas, (imediatamente) abocanhado pela serpente.

NHAC!

Cacete!

Cacete mesmo.

A serpente se enroscou naquilo, achando ter pego Rahmo, e se embolou, girando em torno de si mesma. Parecia um novelo de lã reptiliano. Rahmo, ainda caindo de costas em queda-livre, conseguiu puxar sua AK-47 da correia no ombro e a apontar para a serpente.

É agora ou nunca, pensou.

A criatura estava embolada, compactada, girando e caindo – debatendo-se no velame de náilon como alguém tentando sair de dentro de um saco.

Agora!

Tratatatatataatatata!


Os piratas de Rahmo procuravam pelo livro há anos.

Eram piratas das águas da Somália, e roubavam navios de carga usando rebocadores.

Procuravam por ele, mas...

Acreditavam nesse tipo de coisa?

Sim.

Sério?

Não.

Até que um dia aconteceu.

Quando o magnata inglês os contratou para encontrar o “Arquipélago Dhimanayn”, uma suposta reminiscência ainda emersa do ancestral continente da Lemúria, ele havia tido suas cargas roubadas por Rahmo e sua tropa.

O Livro de Dhimanayn era a carga.

Hugh Percy caçou-os. Capturou-os. Mas ficou impressionado com o fato de meros piratas somali terem subjugado vários de seus mercenários altamente treinados sem...

— ...tê-los matado — acrescentou Rahmo, quando eles e Hugh finalmente haviam fechado o “contrato”.

Porque eram bons.

Mesmo sem equipamentos.

Então o magnata os patrocinou e lhes explicou que nesse arquipélago, se o achassem, viveria o último espécime de uma criatura pré-mesozoica. Tinham de encontrar o lugar primeiro. E, encontrando-o, trazer a criatura consigo.

O livro ensinava:

A criatura era longeva.

E seus mistérios, imortais.

— Mas, se não for possível — disse-lhes Hugh —, tragam-me o sangue dela.

— Por que o sangue? — havia perguntado Nala.

E o magnata lhe respondera:

— Porque estou muito doente.


Enquanto caía em queda-livre antes de abrir o paraquedas-reserva, metralhando o monstro ainda embolado no primeiro paraquedas abandonado – também em queda-livre como uma bola de papel –, Rahmo pensou na diferença entre longevidade e imortalidade.

Longevidade não cura nada.

Cura?


* * *


— ESTAMOS CHEGANDO — disse Yussuf para o rádio PX, indo com o rebocador para a costa de uma ilhota próximo ao Omã.

Lá na praia, mesmo com a escuridão, a luz da lua deixava que se vissem as dezenas de soldados de Hugh Percy apinhados como pinos-de-boliche.

Dezenas deles.

Muitos.

Nala passou os binóculos, e se pôde ver que os soldados também vestiam coletes à prova-de-balas, além de portarem submetralhadoras.

Nenhuma mala com os milhões prometidos.

Novidade.

Ao se aproximarem da marina improvisada, holofotes os iluminaram, ainda na água. Uma voz mecânica propagada por um megafone lhes perguntou:

— Trouxeram a criatura viva?!

Era Hugh.

Atrás do rebocador, uma imensa rede trazia a serpente-alada, morta e carcomida pelos peixes do caminho.

Uma voz gritou da proa do rebocador:

— Não.

Era Rahmo.

Um pé na amurada.

— E o sangue?!

O sangue-elixir da criatura mais velha do mundo, você quis dizer.

Rahmo levantou uma garrafa verde com um líquido escuro dentro.

— Era muito.

E disse: estocamos o resto lá no fundo; apontando com o polegar a popa-porão do rebocador.

Nala e Yussuf se entreolhavam.

Sei...

Ainda gritando, Rahmo disse:

— Hugh, você sabe o que significa “dhimanayn” na nossa língua?

O rebocador balançava com as ondas.

O megafone disse Não!

E disse:

— Que importa?!

Então, virando-se para os soldados, o magnata ordenou:

— Mate-os.

Dezenas de soldados se prepararam, e dispararam as submetralhadoras contra o rebocador de Rahmo.

Tuftuftuftufpléntuftufpléngpléngpléng...

Foram seguramente dois minutos de tiros.

Tuftufpléngpléng-pléng-pléngpléng...

Dois minutos.

Ao final, só uma cortina de fumaça.

O rebocador estava todo perfurado e emborcava-se para um lado como um carro com pneus arriados.

Metais pendiam sobre dobradiças.

Silêncio.

Vidros quebrados.

Silêncio.

E a fumaça baixou.

Então...

— Quê? — disse um dos soldados.

Lá em meio à banheira flutuante pintada com o azul-celeste da Somália, Rahmo ainda permanecia de pé.

E Nala, e Yassuf.

A água ao redor deles se agitando e espumando.

— Sabe? Se colonizador se preocupasse com a cultura do colonizado... — disse Rahmo, cujas perfurações feitas pelos tiros começavam a se fechar.

O DNA ancestral-longevo misturando-se ao DNA humano, criando nova linhagem. E, ao redor, seres de cálcio com alfanjes na mão saindo d'água para protegê-la.

“Esse colonizador preocupado saberia,” disse o pirata, “que dhimanayn significa:”

Gritos.

Correria.

Que significa-nos isso:

Imortalidade.”

Sept. 12, 2023, 10:56 p.m. 12 Report Embed Follow story
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The End

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Le Loustic Hop Escritor - Ficção, Fantasia & Terror

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Bella Oliveira Bella Oliveira
Texto envolventes
October 06, 2023, 18:20

  • Le Loustic Hop Le Loustic Hop
    Bella! Muito obrigado por ter reservado um pouco do seu tempo para a leitura da história. Agradeço também por ter deixado um feedback. Espero que tenha se divertido um pouco com as aventuras absurdas de Rahmo e de seus piratas nada convencionais. Obrigado! October 06, 2023, 20:32
Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Capa muitas vezes é só embalagem. Aqui, não! Aqui é um convite artisticamente irrecusável! E plenamente condizente com o conteúdo. Conteúdo. Às vezes são frustações. Aqui? NÃOOO!!! Aqui, é entretenimento, pra não dizer uma aula, pra não ser redundante quanto a capacidade intelectual e admiravelmente lúcida/fluída do autor. Estórias deste nosso querido(sim ,sou fã! Já falei isso em outras vezes? Repito) são como roteiros de seriado (sei que já falei também mas não têm como não ficar embasbacado) que nos apresentam um pouquinho de todo um potencial a ser acompanhado com extremo prazer. É admirável a forma como você nos joga num turbilhão de situações que explodem(e implodem) sem a colisão do insensato. Pelo contrário! É como aquelas cenas em câmera lenta de várias situações ao mesmo tempo, embalado por uma música orquestrada pelo domínio que tem em nos deixar bem no centro do furacão. Calmamente. Meus parabéns (de novo e de novo) meu amigo. Outro livro, outro roteiro, outro capítulo piloto pra outro seriado.
October 06, 2023, 12:16

  • Le Loustic Hop Le Loustic Hop
    Marcelão, muito, muito obrigado. Obrigado pelo seu tempo, obrigado por ter vindo deixar uma mensagem de apoio e incentivo, eu os agradeço de uma forma que eu não sei nem por em palavras. A vida muitas das vezes mostra-nos um face dura e de lamentos; então tento ("tento", aspas) trazer "férias para a cabeça" de quem lê essas minhas histórias. Assim sendo, quando leio seus comentários e as coisas que me diz, eu fico tão feliz que nem me contenho, porque me fazem acreditar que estou me aproximando do caminho. Especialmente por você ser o gênio que é. Cara, muito obrigado. October 06, 2023, 20:30
Wesley Deniel Wesley Deniel
Oss ! 🙏🏻 Meu amigo, conforme descreveu para mim lá no Insta, você entregou exatamente o prometido: dedo #$&@ e gritaria! Hahaha Amei ! Simplesmente amei ! Você novamente nos brindou com uma aula de como escrever entretenimento. A história é como eu adoro, cheia de ação, pensamentos fugazes, humor, misticismo, com essa linguagem direta que qualquer amante de King se delicia. Já curti pra cacete a partir da capa. Foi uma sacada incrível o estilo "Conto Pulp" das revistas que revelaram ao mundo nossos mestres, como Lovecraft, Algernon Blackwood, Robert Howard, e tantos outros que alimentam nossas fornalhas até hoje. Ficou simplesmente incrível. O clica pedia esta capa ! Com direito a preço e tudo o mais ! Por favor, crie uma série disso ! "Weird Tales Hop". Porque, lode apostar: há toda uma série nisso aí ! Mano, foi um prazer, como sempre. Eu faço questão de divulgar lá no Face (o meu não é lá grande coisa, mas faço de coração hahaha) e aos quatro ventos ! Monsieur Hop, eu o saúdo ! OSS !!!
September 13, 2023, 05:56

  • Le Loustic Hop Le Loustic Hop
    Hauahau a capa ficou fera né? Eu sabia que você ia gostar ahuaha. Sabe uma das minhas vontades impossíveis de se realizar? Ter um conto publicado justamente na Weird Tales (original), em que esses caras todos um dia publicara. Cara, eu sou apaixonado por aquelas capas. Um desenho mais lindo que o outro. Mano, que época "feliz" para os amantes da literatura de ação/terror. Os editores tinham simplesmente uma jazida de ouro e prata nas mãos, desde os desenhistas/pintores até os designers/editores e, evidentemente, os escritores. Quanto à história, cara obrigado de novo pelo incentivo, pelo tempo, pelos comentários. Você é brilhante, Deniel. É uma mente absurda, um escritor incrível. Poder trocar ideias e sonhos contigo é uma honra pra mim, de verdade. Obrigado pelo incentivo, faixa-preta. É gratificante saber que uma história minha te alegrou. Obrigado pela avaliação também, de coração. E talvez eu crie essa "série" sim. Fiz a capa nesse estilo pra já deixar engatilhado para o futuro. Quem sabe. OBRIGADO de novo, cara. Oss! September 13, 2023, 12:05
Amanda Kraft Amanda Kraft
Caraca! Que conto, amigo! Li um filme diante dos olhos! Que cenas! Amei !
September 12, 2023, 23:57

  • Le Loustic Hop Le Loustic Hop
    Oi, Maga!! Que bom que gostou! Hehehehe poxa, que honra! Muito obrigado por ter lido, e obrigado pelo comentário. Os caras são brabos! Para lidar com esas doideiras aí, tem que ser mais doido ainda auahsah. September 13, 2023, 00:12
~